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24 outubro 2015

António Chaves e Maria Assunção Carqueja, por Cláudio Carneiro

Doutor António Chaves


Grande na dignidade, igual nos feitos,
De uma só cara e de uma só palavra,
Orgulhoso de si, da sua lavra,
Concebida e criada sem defeitos.

Na fé inquebrantável dos eleitos,
Na partilha, na crença que exalava,
Qual Vieira no culto que pregava,
Em defensão do Povo e seus direitos.

Ente fecundo, pomo da verdade,
Em prol da honra, pela liberdade,
A luz encandescente, o áureo brilho.

Ditosa terra que te viu nascer,
Que te criou e vira-te crescer,
Ínclitos pais, por tão ilustre filho.


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Doutora Maria da Assunção Carqueja

Das edénicas terras bragançanas,
Distinta, talentosa, criadora...
Maria da Assunção Carqueja fora
Princesa das poetisas trasmontanas.

Nascida em terras de samaritanas,
Inteligente, crente, sonhadora...
De profissão, inata professora,
De ideias claras, de palavras lhanas.

Amou e foi feliz na relação,
No homem que escolheu seu coração,
Foi esposa e foi mãe, que Deus sagrou.

Católica apostólica romana,
A consagrada, insigne trasmontana,
Subiu à glória porque acreditou.
 
Com amizade, o chacinense
Cláudio Carneiro.

03 agosto 2015

CHAVES - PERCURSOS DE HISTÓRICAS MEMÓRIAS de Maria Isabel Viçoso

Maria Isabel Viçoso acaba de publicar um belo e excelente livro sobre a história e as memórias da Cidade de Chaves
Depois de uma excelente carreira como professora do Liceu Nacional de Chaves, a nossa estimada conterrânea, natural da aldeia de Gralhós, Montalegre, dedicou-se por inteiro à Grupo Cultural “Aquae Flaviae”, coordenando em particular a publicação de perto de meia centena de números da revista com o mesmo nome, sempre plena de interesse, onde se divulgaram inúmeros aspetos ligados à região, subscritos por destacadas figuras, nas diferentes áreas do conhecimento ali referenciadas.
A apresentação desta obra ficou a cargo de António Cruz Serra,      Reitor da Universidade de Lisboa, seu antigo aluno, natural de Chaves, que se mostrou conhecedor dos traços históricos e culturais da urbe e  guardião de boas memórias da sua professora dos verdes anos. Foi delicioso seguir esse passeio de recordações pela cidade, ou melhor, pelas cidades, visto existirem, como disse, duas urbes sobrepostas, uma romana e outra sobre ela edificada desde então até aos tempos atuais; basta levantar uma pedra, onde quer que seja, para logo se revelarem vestígios dos tempos áureos da presença romana. O acontecimento mais recente deu-se há poucos anos quando ao se iniciarem as obras para a construção de um parque subterrâneo, frente ao Palácio da Justiça, logo se revelaram ali as ruínas de um antigo balneário termal, soterrado por aluimento de terras no século IV (depois de Cristo).
Este volumoso livro de 520 páginas com grande número de ilustrações a cores, constitui o referencial mais completo que conheço sobre o património histórico e cultural da cidade e arredores, uma obra de consulta indispensável para quem se interessa por estes temas e uma leitura obrigatória para todos os professores aqui colocados ao longo dos anos, que necessitam de uma cabal identificação com o território onde desenvolvem a sua importante missão de ensinar, de orientar e ajudar a crescer as gerações mais novas.
Não é de ânimo leve que alguém lança mão de um projeto desta envergadura; só quem consagra uma vida em obediência à concretização de causas pode estar à altura de um desafio desta importância. O mérito é exclusivamente seu e dos familiares e amigos próximos que acompanharam o processo, mas não podemos esconder o regozijo por vermos mais uma personalidade barrosã a distinguir-se pela importância e seriedade dos cometimentos que abraçou e pela ponderação e constância com que os realizou.
António Chaves

04 novembro 2014

A importância da Memória dos povos, por António Chaves

Sem memória não há passado nem futuro. Tudo se reduz ao imediatismo.
- Que importa a memória do passado, das pessoas e dos povos, se tudo isso pertence já ao domínio do inalterável?
Évariste Galois é um caso trágico mas revelador da importância da memória. Aos vinte anos, e apenas cinco depois de se dedicar em exclusivo a estudar matemática, consegue fazer frutificar uma original e ardente paixão, ao determinar a condição necessária e suficiente para que um polinómio possa ser resolvido por raízes; não só resolveu um antigo problema em aberto, como criou um domínio inteiramente novo da álgebra abstrata: a teoria dos grupos.
Por essa altura é atraído por uma dama que estava noiva. Stephanie já estava comprometida com um cidadão chamado Pescheux d’Herbinville, que descobriu a infidelidade de sua noiva. Furioso e sendo um dos melhores atiradores da França não hesitou em desafiar Galois para um duelo ao raiar do dia seguinte. Évariste conhecia a perícia de seu desafiante, com a pistola. Na noite anterior ao confronto, que acreditava ser a última oportunidade para registrar suas ideias no papel; ele escreveu cartas para os amigos explicando as circunstâncias...”eu cedi à provocação que tentei evitar por todos os meios". Um dos seus maiores temores era que sua pesquisa, rejeitada pela Academia, se perdesse para sempre. Numa tentativa desesperada de conseguir reconhecimento, ele trabalhou a noite toda, escrevendo o teorema que, acreditava, explicaria o enigma de uma equação do quinto grau. As páginas eram, na maior parte, uma transcrição das ideias que ele já enviara a Cauchy e Fourier, mas sem os detalhes explicativos da complexa álgebra explanada. Naquele turbilhão da noite foi fazendo referências ocasionais obre o seu estado de espírito e exprimindo exclamações de desespero.
 – "Eu não tenho tempo, eu não tenho tempo!" No final da noite, quando seus cálculos estavam completos, ele escreveu uma carta explicativa ao seu amigo Auguste Chevalier, pedindo que, caso morresse, aquelas páginas fossem enviadas aos grandes matemáticos da Europa.
Na manhã seguinte, Quarta-feira, 30 de maio de 1832 num campo isolado, Galois e d’Herbinville enfrentaram-se a uma distância de vinte e seis passos, armados com pistolas. D’Herbinville viera acompanhado de dois assistentes, Évariste Galois estava sozinho. Ele não contara a ninguém o seu drama. As pistolas erguidas, dispararam. D’Herbinville continuou de pé. Galois foi atingido no estômago. Ficou a agonizar no chão. Não havia nenhum cirurgião por perto e o vencedor foi embora calmamente, deixando seu oponente ferido para morrer. Algumas horas depois Alfred chegou ao local e levou seu irmão para o hospital. Era muito tarde, já ocorrera uma peritonite e no dia seguinte Galois faleceu. Antes de morrer disse para seu irmão: "- Não chore, preciso de toda a minha coragem para morrer aos vinte anos".

14 abril 2014

Tempo e Memória,por António Chaves

Dizem os que queimaram pestanas a ler documentos antigos que a ignorância das letras foi uma constante em Barroso, durante os últimos séculos; a lendária ignorância desta boa gente foi já assinalada por Frei Bartolomeu dos Mártires, Bispo Primaz de Braga, quando da sua visita pastoral à região, em 1564, onde se demorou cerca de quatro meses, a percorrer todas as paróquias, em contato com o povo.
Nascido do desdobramento do concelho de Montalegre em 1836, o concelho de Boticas na data da sua criação não dispunha de qualquer estabelecimento de ensino público. A primeira escola pública só começou a funcionar ali em 1838; o edifício construído para esse fim foi concluído apenas em Outubro de 1871, graças a um valioso donativo de 144 contos  para 120 escolas, por parte do Conde de Ferreira em 1866,  um emigrado que enriqueceu no Brasil e Angola, sensibilizado com a falta de instrução dos portugueses emigrantes.
Em reunião de Câmara de 20 de Maio de 1875 foi evocada a necessidade de abrir na sede do concelho uma biblioteca pública, aspiração que veio a ser concretizada apenas em 1 de Junho do ano 2000, isto é, 125 anos mais tarde.
Conquanto no início do século XX a Inglaterra tivesse apenas 3% de analfabetos, essa pavorosa praga atingia ainda, nessa altura, 78% da população portuguesa, o que levara Eça de Queiroz, anos  antes, a lançar este grito angustiado: «os que sabem dar a verdade à sua pátria não a adulam, não a iludem, não lhe dizem que é grande, porque tomou Calecute; dizem-lhe que é pequena porque não tem escolas. Gritam-lhe sem cessar a verdade rude e brutal. Gritam-lhe: tu és pobre, trabalha! Tu és ignorante, estuda! Tu és fraca, arma-te!».
Decorrido mais de um século sobre esta proclamação, chegamos à atualidade com algumas povoações do concelho de Montalegre a registar ainda taxas de analfabetismo superiores a 40%. Se isto não é atraso civilizacional, como devemos qualificá-lo?

13 abril 2014

BARROSO DA FONTE: 60 ANOS DE JORNALISMO DE CAUSAS E CASOS



















Academia de Letras homenageou Barroso da Fonte
(Reproduzimos o texto do nosso sócio António Chaves)

A Academia de Letras de Trás-os-Montes reuniu na sua sede, em Bragança, dia 23 de Março e, após a sessão da Assembleia Geral, decorreu uma segunda sessão presidida pelo Doutor Ernesto Rodrigues, ladeado pelo representante da Câmara, Vereador Engº Hernâni Silva e pelo homenageado que, em 24 de Janeiro, completou 60 anos de Jornalismo. O autor desta nota foi encarregado de falar do seu conterrâneo e amigo desde que se conheceram no serviço militar obrigatório. Aí disse: encontrei pela primeira vez o Barroso da Fonte na Estação de S. Bento, no Porto, quando esperávamos o comboio da noite para seguirmos para Mafra, onde íamos iniciar a vida militar. Tinha ele 24 anos de idade e eu 20. Nessa noite estipulámos que a condição de Barrosão e transmontano se iria impor acima de qualquer outro considerando, o que nem sempre se revelou fácil, pois vínhamos de mundos muito diferentes, com referenciais de vida e de pensamento, por vezes antagónicos. Tivemos muitas e vivas discussões, mas nunca perdemos a referência maior da noção territorial de criação. Convivemos estreitamente, dentro e fora do quartel ao longo dos sete meses de instrução militar, tempo estabelecido para aquela incorporação de Janeiro de 1964. Nos intervalos dos exercícios de instrução enquanto nós descansávamos um pouco, o homem de Codeçoso ia sentar-se sozinho a rabiscar uma crónica ou a dedicar um poema a um palminho de cara com quem cruzara o olhar, na tarde anterior. Cheguei a considerar excessiva e incompreensível aquela ânsia de aproximação ao sexo oposto. Só muito depois entendi essa perspectiva quando verifiquei melhor o que era viver fechado como animal no curral, a sonhar com sorrisos e ternura feminina e saber que nem um breve engano podia ter, como referia Camões. Pela mesma razão, já enquanto trabalhou nos Pisões, na construção da Barragem, vinha sempre que podia com outro amigo à paragem das camionetas para ver as moças que chegavam ou partiam e as que continuavam viagem.
A actividade como jornalista e poeta constitui para Barroso da Fonte um bálsamo refrescante de vida, o ar que respira, em liberalidade só igualada pela prodigalidade que confere sentido ao valor absoluto da amizade, à entrega ao próximo, à defesa do mais frágil, do mais desprotegido. Disso não fala ele tanto, e faz muito bem. Só quem o conhece de perto adquire a preciosa noção da ternura e do desvelo que comporta cada seu gesto. Creio que sempre cultivou a arte como uma forma de transcendência, de ultrapassagem das pesadas agruras da existência, mesmo sem ter, por vezes, plena consciência disso. O nosso trajecto de amizade conta já perto de meio século, apoiado num apreço sem desfalecimento, numa disponibilidade total quando requerida, numa convivência sã e fraterna. Estivemos sempre presentes nos momentos importantes da vida de cada um. Quando há poucos anos me pediram um breve testemunho sobre Barroso da Fonte, escrevi o seguinte:
O livro agora distribuído, da autoria do Coronel Dias Vieira e de João Pedro Miranda constitui um trabalho meritório e bem concebido que merece ser lido, conhecido e apreciado. Fornece uma panorâmica mais alargada e completa do que foi a vida de Barroso da Fonte, como homem, historiador e jornalista.
Quero por fim expressar à Academia de Letras de Trás-os-Montes e aos seus principais mentores o meu obrigado pelo convite para participar neste gesto de elevado significado, revelador de que a Academia não é indiferente aos momentos importantes da vida dos seus associados, demonstração de que os transmontanos e em particular os seus homens de letras continuam sábios guardiões do património de gratidão legado pelos seus maiores, mantendo aceso o farol dessa identidade preciosa que resiste contra ventos e marés, perante a voracidade hegemónica e aniquiladora da diversidade do que é específico, autêntico e de direito próprio.
O Coronel Dias Vieira, co-autor do livro ali apresentado também usou da palavra para enaltecer as qualidades do seu conterrâneo e amigo e também para explicar as pesquisas que fez através da colecção do Semanário A Voz de Trás-os-Montes para escrever os primeiros anos de jornalismo deste que volvidos 60 anos ainda continua a colaborar no Jornal-Escola.

Por António Carneiro Chaves

Fonte: http://nordestecomcarinho.blogspot.pt/2013/04/academia-de-letras-homenageou-barroso.html