Blogue Oficial da Academia de Letras de Trás-os-Montes || Email: academiadeletrasosmontes@gmail.com
30 maio 2013
A CASA DE BRAGANÇA
ambos na Âncora Editora, serão lançados em Bragança, nos dias 8 e 9 de Junho, respectivamente. Volto, assim, à ficção histórica, após O Romance do Gramático (Gradiva, 2011), e, 15 anos depois, à poesia. Eis duas razões, que outras não houvesse, para reatar o diálogo.
ERNESTO José RODRIGUES (Torre de Dona Chama, 1956) é poeta, ficcionista, crítico e ensaísta, editor literário, tradutor de húngaro. Professor auxiliar com agregação da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, preside à direcção da Academia de Letras de Trás-os-Montes.
21 maio 2013
|Artes e Livros | Encontro de Academias
Organização:
Câmara Municipal de
Bragança/Academia de Letras de Trás-os-Montes
Junho, 6 [quinta]
15h00 – Abertura do Encontro de Academias:
Presidente da CMB
Presidente da Academia de Letras de
Trás-os-Montes
15h30 – Apresentação das Academias Convidadas
16h00 – Apresentação da Bibliografia do Distrito de Bragança,
vol.VII - Hirondino Fernandes
16h45 – “Academia Paraense de Letras- 113 anos ao serviço da Cultura” -
Presidente da Academia Paraense de Letras - Pará – Alcyr Meira
17h30 - Recepção à Comitiva de Pavillons-sous-Bois, no âmbito da
Geminação
18h00 – Apresentação de Gestão do Município de Bragança – no
período de 1998 a 2013
– Presidente da Câmara Municipal de
Bragança
18h45 – A Gastronomia Luso-Amazónica – Álvaro do Espírito
Santo
20h00 – Jantar Luso-Amazónico, com apresentação dos destinos turísticos
do Pará e de Danças e Cantos Folclóricos Bragantinos (Marujada/retumbão/xote e
outras) – Adenauer Goês
Centro
Cultural Municipal Adriano Moreira
Junho, 7 [sexta]
15h00 – Entre Prémios e Premiados = Lígia Fagundes Teles –
Nelly Cecília Rocha – Academia Paraense de Letras
15h45 – Apresentação de O Manco – Entre Deus e o Diabo –
António Sá Gué e
Homens de Granito – Antero Neto, apresentado por António Sá Gué
16h45 – Apresentação de Terra Parda – Hélder Rodrigues,
por Ernesto Rodrigues
17h30 – Palestra da Academia de Letras de Cabo Verde
18h15 – Apresentação do livro O Diabo e as Cinzas – António
Pinelo Tiza
19h00 – A gastronomia de S.Tomé – Chefe João Carlos Silva
20h00 – Jantar S. Tomé, com o Chefe João Carlos Silva, com danças e
música de S. Tomé/ Cabo Verde
Centro
Cultural Municipal Adriano Moreira
Junho, 8 [sábado]
14h30 – Intercâmbio literário entre os membros das Academias presentes
15h00 – Zona Bragantina Colonização e Estrada de Ferro –
José Leôncio Sequeira – Academia de Letras de Bragança do Pará
15h45 – Apresentação do livro A Casa de Bragança - Ernesto
Rodrigues
16h30 ‒ Apresentação de A Terra de Duas Línguas II- Antologia de
Autores Transmontanos – Ernesto Rodrigues, Amadeu Ferreira
17h30 – Apresentação de Língua Charra. Regionalismos de
Trás-os-Montes e Alto Douro – A. M. Pires Cabral
18h15 – Apresentação de A Máscara do Demo – Alexandre
Parafita
19h00 – Saga dos Comeres Bragançanos e a Lusofonia -
Armando Fernandes
20h00 – Jantar português com o Chefe Hélio Loureiro, com noite de Fados
Centro
Cultural Municipal Adriano Moreira
Junho, 9 [domingo]
15h00 – Apresentação de Dois Homens num só Rosto – Temas
Torguianos – M. Hercília Agarez
15h45 – Apresentação de O Resgate dos Justos da Terra –
Henrique Pedro
17h15 – Apresentação de Do Movimento Operário e Outras Viagens –
Ernesto Rodrigues
18h00 – Apresentação de História da República. Vol. 1 –
Raul Rêgo
18h45 – Apresentação de Templo do Fogo Insaciável -
António Vilhena
19h30 – Declamação de poemas – Academias de Letras do Pará – Brasil, e
encerramento do evento
Centro
Cultural Municipal Adriano Moreira
27 fevereiro 2013
ASSEMBLEIA GERAL
Convocatória
Nos termos legais,
convocam-se os sócios da Academia de Letras de Trás-os-Montes para uma reunião
da Assembleia Geral da mesma, a realizar em 23 de
Março de 2013, pelas 10.30 horas, no Auditório do Centro Cultural Municipal
Adriano Moreira, em Bragança, com a seguinte ordem de trabalhos:
1. Leitura da acta da reunião
anterior.
2. Aprovação do relatório e
contas do exercício de 2012.
3. Aprovação do plano de
actividades e do orçamento para 2013.
4. Outros assuntos.
Se à hora marcada não
houver quorum, a reunião realizar-se-á 30
minutos depois com qualquer número de sócios presentes.
Bragança, 21 de Fevereiro
de 2013.
O Presidente da Assembleia Geral
A.M.
Pires Cabral
Homenagem a Barroso da Fonte
A Direcção da ALTM ‒
Academia de Letras de Trás-os-Montes homenageia, no dia 23 de Março, às 11,30h,
Barroso da Fonte, quando perfaz 60 anos de vida jornalística e literária. Será
orador António Chaves.
Outros membros da
ALTM podem, com depoimentos breves, associar-se à celebração.
A sessão decorre no
Centro Cultural Municipal Adriano Moreira, em Bragança.
altmontes@gmail.com
http://altm.weebly.com
altm-academiadeletrasdetrasosmontes.blogspot.com
Direcção da
Academia de Letras de Trás-os-Montes
2012
Relatório
Sumário
1.Divulgação de obras, textos e iniciativas de membros da ALTM.
1.1. Co-organização da Feira do Livro.
1.1.1.Apoio à edição de Bibliografia do Distrito de Bragança, de Hirondino da Paixão
Fernandes.
1.1.2. Breve homenagem a Bento da Cruz.
2. Antologia de associados da ALTM.
2.1. Agradecimento ao IPB.
3. Diligências para a criação de um programa radiofónico sobre escritores
transmontanos.
4. Organização da documentação da ALTM e reforço do Centro de Documentação.
4.1. Criação de conteúdos para o site.
Blogue e Facebook.
5.Exposição cartográfica e bibliográfica: literatura húngara traduzida em
Portugal e literatura portuguesa traduzida na Hungria.
6.Relações
inter-académicas e literárias.
7. Participação na Obra
Completa Padre António Vieira.
Comentário final.
1. Prosseguimos, via mail, facebook, site e blogue,
a divulgação de obras e lançamentos, inserindo alguns textos de apresentação, e
outros, no blogue da ALTM (António Sá Gué, Maria Hercília Agarez, Tiago
Patrício, Amadeu Ferreira…).
1.1.No âmbito da
iniciativa Artes e Livros, promovida pela Câmara Municipal de Bragança, entre 6
e 10 de Junho, no anfiteatro do Centro Cultural Municipal, organizou a ALTM o
lançamento de obras recentes de alguns sócios: Manuel Amendoeira, Idalina
Brito, Maria Hercília Agarez, António Sá Gué, Henrique Pedro.
1.1.1.
Momento especial, com a presença de autoridades civis e religiosas, foi o
lançamento do volume II de Bibliografia
do Distrito de Bragança, de Hirondino da Paixão Fernandes. Apresentado por
Ernesto Rodrigues, o respectivo texto sairia em quatro números do Mensageiro de Bragança, em
Outubro-Novembro. Neste mês, os volumes III e IV seriam apresentados por Amadeu
Ferreira, na Fundação ‘Os Nossos Livros’.
1.1.2.
Outro sócio honorário, Bento da Cruz, seria convidado a estar em Bragança, para
lançamento de Camilo Castelo Branco por
Terras de Barroso e Outros Lugares, com apresentação de A.M. Pires Cabral.
2. Proposta do presidente da ALTM na
anterior AG, ultima-se antologia de autores transmontanos, segundo volume do
título lançado em 2011, A Terra de Duas
Línguas. Não, decerto, porque condicionada a participação ao pagamento da
quota de 2013 ‒ com resultados financeiros satisfatórios ‒, mas pela inércia
dos interpelados, só em Fevereiro último se fechou a colaboração, num total de
55 nomes. Sofre, assim, um atraso de dois meses e meio, para ser lançada em
Junho, na presença de outros académicos e convidados estrangeiros.
2. 1. Cumpre registar, aqui, quanto devera
ter já sido referido no relatório de 2011: um agradecimento especial ao
Instituto Politécnico de Bragança, pela entrega de duas caixas com exemplares
de A Terra de Duas Línguas, para
distribuição alguns autores e ofertas a académicos estrangeiros.
3. Está prometido um
programa da ALTM na Rádio Bragançana, faltando defini-lo e dar início às
emissões. Esta AG é chamada a pronunciar-se, se assim entender.
4. A título gracioso,
uma jovem universitária, Maria João Fernandes, dedicou algumas semanas do Verão
passado a organizar a parca burocracia da ALTM, revendo fichas de membros e
enquadrando algumas situações, com vantagem para o serviço. Aqui lhe deixamos
um agradecimento.
4.1. As nossas páginas online têm uma actividade razoável,
embora pudessem ser mais demandadas pelos associados.
5. A exposição
cartográfica organizada pela Embaixada da Hungria, acompanhada de mostra de 60
livros da colecção de Ernesto Rodrigues, esteve patente na Biblioteca Municipal
do Centro Cultural Adriano Moreira entre 10 de Setembro e final de Outubro. Na
inauguração, presidida pelo Embaixador e pelo Presidente da Câmara M. de
Bragança, E. Rodrigues conferenciou sobre a presença da Hungria em Portugal
desde o século XI.
6. O presidente da ALTM, corroborado por sugestões da demais Direcção,
entregou, em Setembro, na Sociedade de Geografia de Lisboa, texto destinado a
volume colectivo das Academias nacionais com propostas de resolução da presente
crise. Na dúvida se será editado, o mesmo abrirá, com ligeiras adaptações, o
próximo volume de A Terra de Duas Línguas.
A convite de Academias brasileiras, a que nenhum membro da ALTM respondeu
favoravelmente, considerou o presidente desta aceitar o apoio da Câmara M. de
Bragança, integrando comitiva da Vereadora de Cultura. Esse apoio traduziu-se
no pagamento da passagem aérea Porto-Belém do Pará-Lisboa, significando que as
despesas em Portugal foram custeadas pela ALTM.
Ernesto Rodrigues foi convidado de honra da Academia Paraense de Letras,
onde apresentou a comunicação “Uma Academia de Duas Línguas” (ver blogue).
Convidou, na ocasião, comitiva da APL para se deslocar a Portugal, a qual
receberemos em Junho, de 6 a 9, no âmbito do Encontro Literário Luso-Amazónico.
Corresponde-se, deste modo, a uma sugestão de Marcolino Cepeda lançada na AG de
há um ano ‒ de que, em aniversário da ALTM, pudéssemos ter connosco académicos
brasileiros.
Também solicitado pela Academia de Letras de Bragança do Pará, com a qual
estabelecemos protocolo, discursou sobre “A Casa de Bragança”. Alguns membros
ofereceram títulos ao nosso Centro de Documentação.
7. A participação da
ALTM na Obra Completa Padre António Vieira foi já aprovada em reunião de
Direcção. Pelos encargos que envolve (embora pouco significativos), convém
apresentá-la em assembleia soberana.
Em 30 de Março de
2012, o Reitor da Universidade de Lisboa convidou 300 instituições a
participarem no maior projecto editorial português: 30 volumes de Vieira
editados pelo Círculo de Leitores, à média de um por mês, com o primeiro
lançamento já em 4 de Abril. Seguem-se um Dicionário
de Vieira e antológica do autor em oito línguas.
Considerou a Direcção
da ALTM que uma espécie de presença para a eternidade estava garantida, se nos
associássemos com o módico pagamento de 1 500 euros, a dividir em três anos, em
troca da reprodução do nosso logótipo. O mecenas principal é a Santa Casa da
Misericórdia de Lisboa. Nós abrimos a lista dos poucos apoios, cuja lista
anexamos.
Face ao exposto, um
comentário final. Da programação avançada há um ano, e descontado o atraso,
útil, de A Terra de Duas Línguas ‒
mas acrescentando outras iniciativas ‒, reconhecemos, tão-só, não se ter
cumprido o então ponto 7.
Tertúlias literárias. Em preparação, “Escritoras transmontanas – Eduarda
Chiotte”. Com efeito, responsabilizou-se por esta tertúlia o associado António
Afonso, que razões de saúde ou outras terão prejudicado.
Cumpre salientar,
todavia, ter o mesmo associado prescindido do montante de 150 euros, que
acordáramos como despesa associada à tertúlia sobre Luísa Dacosta. Esse
quantitativo constava como despesa no Relatório e Contas de 2011.
Informações úteis
O blogue da ALTM
(altm-academiadeletrasdetrasosmontes.blogspot.com), activo desde Dezembro, vem
registando as informações, e participações, mais variadas, além de inserir os
estatutos da ALTM uma ficha de inscrição facilmente descarregável pelos novos
sócios.
Relevamos os textos de apresentação de obras
dos nossos associados, independentemente de ser iniciativa, ou não, da ALTM.
Com o lançamento de um site (http://altm.weebly.com) e registo no Facebook (http://www.facebook.com/altmontes), textos, informações e vídeos podem ser, agora, colocados
nos espaços apropriados.
Procurámos, enfim, um endereço electrónico
sucinto: altmontes@gmail.com. Mantém-se, todavia, o primeiro, enquanto não se fizer a
migração completa: academiadeletrasosmontes@gmail.com.
Recomenda-se o pagamento da quota (20 euros anuais; acrescem 10 euros de jóia de inscrição, no caso de
novos inscritos), via bancária (NIB: 0035 0417
00023749 430 35).
28 janeiro 2013
Bibliografia do Distrito de Bragança
Ernesto Rodrigues
Na hora em que são
editados os volumes III e IV da BdB −
Bibliografia do Distrito de Bragança
(Série Escritores – Jornalistas – Artistas), cumpre celebrar este projecto de
Hirondino da Paixão Fernandes empreendido já nos anos 60, no Mensageiro de Bragança, e que teve em
António Jorge Nunes, presidente da Câmara Municipal, o necessário apoio,
acertado e justo. Farei, antes, breve historial da dicionarística literária em
Portugal, de modo a enquadrar a BdB e
perceber a importância de iniciativa tão fecunda quão honrosa para a Cultura do
distrito.
Vidas, linhagens e
genealogias, bibliografias, catálogos e relações de livrarias ou bibliotecas, são
imprescindíveis na investigação: por mais enfadonhos, trazem sempre algo de
fresco e útil. Os tenteios inaugurais de vida
e obra vêm numa colecção manuscrita de Manuel Severim de Faria, Compendio de Varias Obras de Authores
Portugueses (1613), e na vida de Camões, por Pedro de Mariz (1613), sendo
Camões núcleo reflexivo desde Manuel de Lira (1591). Mas o século XVII – que
também é o da Imprensa periódica, cujos dicionários interessam à literatura, e
do impressionismo crítico no Hospital das
Letras (1657; editado em 1721), após duplo esforço canonizador de Jacinto
Cordeiro, Elogio de Poetas Lusitanos,
e António de Sousa de Macedo, Flores de
España..., ambos de 1631 – reserva dois monumentos singulares: a Biblioteca de João Franco Barreto =
Biblioteca / Lusitana / Autores / Portuguesez / 1.ª Parte, etc., e Joanne
[João] Soares de Brito, Theatrum
Lusitaniae Litterarium [...],
1655. A Bibliotheca… consta de
cinco volumes, e um sexto de Índices (de nomes, sobrenomes, pátrias dos
autores), no total de 1180 páginas. Se a introdução data de 27 de Janeiro de
1648, a obra estende-se para lá de 1656. Cerca de mil autores é uma soma
respeitável; este princípio de todos reunir, até os que versaram Direito Civil
e Canónico, inspirará Diogo Barbosa Machado, Inocêncio Francisco da Silva… e
Hirondino Fernandes. Outra preciosidade é o manuscrito Cathalogo dos Auctores Portugueses, de Manuel de Faria e Sousa (BN,
COD. 361). Concomitantemente, urge compulsar os índices inquisitoriais
quinhentistas e o Index Auctorum Damnatae
Memoriae (1624). No conspecto europeu, consulte-se a Bibliotheca Scriptorum Societatis Jesu […], de Pedro de Rivadeneyra, 1643.
A Bibliotheca Hispana de Nicolau António (1672; ed. aumentada,
1783-1788) inspira a Bibliotheca
Lusitana: Historica, Critica, e Cronológica [...]
(Lisboa, 4 vols.; 1741-1759; já em formato digital), que não se queda
pelo impresso em língua portuguesa, como Inocêncio, mas evita anónimos. A BdB tem anónimos e estrangeiros, se
atinentes ao distrito. Devedor de Franco Barreto, Barbosa é canibalizado por
muitos. Conviria confrontá-lo com a “Memória de alguns escritores em todas as
ciências da Companhia de Jesus”, título actualizado constante do apócrifo Cathalogos de Ministros e Memorias Varias
(manuscrito após 1754; BN, COD. 1457). Bento José de Sousa Farinha faz, em 1206
páginas e três tomos, um Summario da
Bibliotheca Luzitana (1786), despachando, no terceiro (1787), as letras
L-Z. E, oportunista, acrescenta um quarto tomo de Bibliotheca Luzitana Escolhida (1786), o que é um bom exercício de
cânone literário do tempo. Bibliotheca
Lusitana Escolhida ou Catalogo dos Escriptores Portugueses será título de
José Augusto Salgado (1841). O critério ora afina, ora relaxa. Exemplo de
solução mista, em tempo de Ilustração nascente, é o Anno Historico, / Diario Portuguez, Noticia Abreviada / De pessoas grandes, e cousas notaveis de Portugal,
[...], pelo Padre Mestre / Francisco de Santa
Maria, 1744. Os três volumes, além de efemérides, biografam vultos, na linha do
que farão os almanaques. No ano seguinte, temos o Corpus Illustrium Poetarum Lusitanorum qui Latine Scripserunt, [...] (8 tomos, 1745-1748), compilado
pelos padres António dos Reis e Manuel Monteiro.
Enquanto isso, está por estudar a faceta dicionarística de Francisco Xavier
de Oliveira, com dezenas de artigos sobre obras de portugueses em David
Clément, Bibliothèque Curieuse Historique
et Critique, ou Catalogue Raisonné des Livres Difficiles à Trouver (9
vols., 1750-1760). Deve ser confrontada com as suas Mémoires Historiques, Politiques et
Littéraires, concernant le Portugal et toutes ses dépendances, avec la
Bibliothèques des écrivains et des historiens de ces états, 2 vols., 1743. Diz-nos que o
jesuíta Francisco da Cruz deixou Memorias
Manuscritas para uma sonhada Bibliotheca
Portuguesa.
Entre outras margens de dicionarização, em Setecentos,
citemos uma Bibliotheca Portuguesa
(1736-1741) e outra Bibliotheca Lusitana,
em cinco volumes manuscritos, ambas com informação biobibliográfica de autores
portugueses remetida a D. Francisco de Almeida (1701-1745; BN: COD. 908 e COD.
909-912). O Diccionario da Lingoa
Portugueza (1793) fecha o século com um selecto cânone de autores.
De Inocêncio a Prado Coelho
O Diccionario Bibliographico
Portuguez (1858; já digitalizado) vinha sendo pedido por Cunha Rivara celebrando
Barbosa Machado, e propondo uma Bibliotheca
Portugueza n’O Panorama (X,
30-IV-1853). Aquele Diccionario… é mais
do que de Inocêncio. Continuado por Brito Aranha, Gomes de Brito, Álvaro Neves,
o tomo XXI é dedicado a Herculano (1914), no pretexto centenarial (1910); o t.
XXII (1923) fecha a série, em que só nos reencontramos se tivermos à mão João
Soares de Sousa, Índice Alfabético (1938),
ou um esforçado Ernesto Soares, Guia
Bibliográfica, correspondendo ao tomo XXIII (1972), e que fora suplemento
ao Boletim da Biblioteca da Universidade
de Coimbra, vol. XXIII, 1958. No Rio de Janeiro, Sacramento Augusto Victorino
Blake responsabilizou-se por outro Dicionário
Bibliográfico Português. Sem indicação de tomo, está Martinho da Fonseca, Aditamentos ao Dicionário Bibliográfico
Português (1927; 1972), já autor de Subsídios
para Um Diccionario de Pseudonymos, Iniciaes e Obras Anonimas de Escriptores
Portuguezes (1896; 1973), que podemos considerar o vigésimo quinto tomo de
tão magno projecto. A paginação dos dez volumes da BdB não se ficará, todavia, atrás.
Vinte anos depois do
primeiro Inocêncio, Ricardo Pinto de Mattos (que assinara Bibliographia Historica Portuguesa, 1850) traz precisões no Manual Bibliographico Portuguez de Livros
Raros, Classicos e Curiosos (1878), revisto e prefaciado por Camilo Castelo
Branco. Do estrangeiro, interessam-nos: Augustin et Aloïs de Backer, Bibliothèque des Écrivains de la Compagnie
de Jésus, ou Notices Bibliographiques [...], 7 vols., 1853-1861; o médico
setubalense Domingo García Peres, Catálogo
Razonado Biográfico e Bibliográfico de los Autores Portugueses Que Escribieron
en Castellano, 1890; Meyer Kayserling, Biblioteca
Española-Portuguesa-Judaica. Dictionnaire bibliographique des auteurs juifs, de leurs ouvrages espagnols
et portugais et des ouvres sur et contre les juifs..., 1890. Tirante isto, há o conceito de
notabilidade, em que todos se misturam, seja no Álbum das Glórias de Rafael Bordalo Pinheiro, na Revista Contemporânea de Portugal e Brasil
(1859-1865), nas necrologias do Novo
Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, em inaugurada biografia
herculaniana de Júlio César Machado, “Notas para um dicionário dos portugueses
notáveis do meu tempo”, A Illustração.
Revista de Portugal e do Brazil (ano 5, v. 5, n.º 4, 20-II-1888). Desactualizados
estão a Portuguese Bibliography (1922),
de Aubrey Bell, e o Dicionário Universal
de Literatura: Bio-Bibliográfico e Cronológico (1934, 1940), de Henrique
Perdigão.
Ora, em 1 de Março de
1956, no suplemento ‘Artes e Letras’ do Diário
de Notícias, Jacinto do Prado Coelho anunciava o Dicionário das Literaturas Portuguesa, Galega e Brasileira, cujo
primeiro fascículo saiu em Agosto de 1956. Em Outubro de 1960, a Livraria
Figueirinhas resumia tudo a um só volume, a duas colunas, páginas 3-880, com Addenda
e corrigenda, Índice de nomes de autores, Índice de títulos de obras e revistas,
Errata, até à p. 1021. A 2.ª edição atenta mais à literatura brasileira e à
estilística: torna-se Dicionário das
Literaturas Portuguesa, Brasileira, Galega e Estilística Literária, Temos
dois volumes (A-M, 1969, 686 páginas; N-Z, 1971; total: 1527 páginas) a três
colunas, ilustrações, e uma 3.ª edição em três (1976) e cinco volumes (1973),
da qual decorre, nos anos 80 e 90, alegada 4.ª edição (desde 1992), e que, na
prática, significa uma vintena de reimpressões. O texto de 1969-1971 mantém-se
incólume até 2002-2003, quando, apoiado em Pires Laranjeira e José Viale
Moutinho, coordenei três volumes de Actualização.
Posso afirmar que conheço os agora oito volumes como as minhas mãos. Em 29 de
Março de 1984, eu inserira no Diário de
Lisboa o artigo “Um dicionário vergonhoso de Literatura Portuguesa”,
vergastando um Dicionário de Literatura
Portuguesa, sem data (1983?), e sem indicação de editor, de um certo José
Correia do Souto, plagiando regularmente J. do Prado Coelho... Releve-se, nos 800
novos artigos para 958 páginas, a fecundidade das bibliografias – em que só a BdB o ultrapassa –, não raro mais
extensas que o verbete.
A variedade contida no Dicionário de
Literatura animou projectos afins ou de aprofundamento parcelar. Prometia
muito o Grande Dicionário da Literatura
Portuguesa e de Teoria Literária, I, 1977 (iniciou o 2.º vol., de que
restaram fascículos soltos), dirigido por João José Cochofel. Tal promessa foi
satisfatoriamente cumprida pela Biblos.
Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa (5 vols.,
1995-2005). Concretizou-se num volume o Dicionário
de Literatura Portuguesa (1996; dir. de Álvaro Manuel Machado), pensado em
termos só de autores, enquanto o Dicionário
Cronológico de Autores Portugueses (6 vols., 1985-2001), pela informação
quase exaustiva sobre nomes, é um manancial, mas sem particulares juízos
críticos, nem orientações bibliográficas. O seu índice de pseudónimos deve ser
complementado por Adriano Guerra Andrade, Dicionário
de Pseudónimos e Iniciais de Escritores Portugueses (1999). Projectos
internacionais não devem passar despercebidos (caso do Dicionário Biográfico Universal de Autores, 5 vols., 1966-1982);
outros são inúteis, ou pouco menos (Fernanda Frazão, Maria Filomena Boavida, Pequeno Dicionário de Autores de Língua
Portuguesa, 1983; O Dicionário /
Literatura Portuguesa, vendido com o diário Público, 2004; Célia Vieira e Isabel Rio Novo, Literatura Portuguesa no Mundo. Dicionário
Ilustrado, 2005, 12 vols.).
Por períodos ou movimentos, saudemos: Dicionário
de Literatura Medieval Galega e Portuguesa (dir. de Giulia Lanciani e G.
Tavani, 1993); Dicionário da Arte Barroca
em Portugal (dir. de José Fernandes Pereira e Paulo Pereira, 1989); Dicionário do Romantismo Literário Português
(coord. por Helena Carvalhão Buescu, 1997). Em nome próprio, o Dicionário de Eça de Queiroz (1988; 1993),
organizado por A. Campos Matos, exigiu Suplemento
(2000); o Dicionário de Camilo Castelo
Branco (1989), testamento de Alexandre Cabral, saiu actualizado em 2003;
qual díptico, chegou o Dicionário de
Personagens da Novela Camiliana (dir. de Maria de Lourdes A. Ferraz, 2002).
Cidades, distritos, regiões e antigas possessões não se lamentem. Ficam
exemplos, desde o fim do Antigo Regime, todos muito aquém da BdB, ainda que olhando somente ao
critério literário: Francisco de Carvalho, Historia
de Coimbra..., BN, COD. 905; Agostinho Tinoco, Dicionário dos Autores do Distrito de Leiria, 1979; João Afonso, Bibliografia Geral dos Açores. Sequência
Açoriana do Dicionário Bibliográfico Português, 3 vols., 1985-1997; Padre
Fernando Augusto da Silva e Carlos Azevedo de Meneses, Elucidário Madeirense, 3 vols., 1940-1946; fac-símile, 1998; Luiz
Peter Clode, Registo Bio-Bibliográfico de
Madeirenses. Sécs. XIX e XX, s. d.; Aleixo Manuel da Costa, Dicionário de Literatura Goesa, 3 vols.,
1997. Do claustro saem inúmeros: baste Francisco Álvares Loureiro da Silva, Bibliografia dos Autores Trinitários
Portugueses, 1996. As mulheres conquistam o seu Dicionário no Feminino (Séculos XIX-XX; dir. de Zília Osório de
Castro, João Esteves, 2005). As crianças têm António
Garcia Barreto, Dicionário da Literatura
Infantil Portuguesa, 2002.
Entre profissões, destaquem-se militares, juristas e médicos: Francisco
Augusto Martins de Carvalho, Diccionario Bibliographico
Militar Portuguez, 1891; Eduardo Alves de Sá, Bibliographia Juridica Portugalensis, 1898, precedido de Ignacio da
Costa Quintela, Bibliotheca
Jurisconsultorum Lusitanorum, 1790, e do Demetrio Moderno ou Bibliographo Juridico Portuguez..., 1781, de
António Barnabé de E. Barreto de Aragão; Gracinda Pais Brígida, Escritores Médicos Portugueses na Segunda
Metade do Séc. XIX, 1948; Armando Moreno, Médicos Escritores Portugueses, 1990.
Pouco adiantaremos ao olhar para enciclopédias e dicionários estrangeiros
que inscrevam os nossos autores; mas notem-se os brasileiros Celso Pedro Luft, Dicionário de Literatura Portuguêsa e Brasileira,
1967, e Massaud Moisés, org., Pequeno
Dicionário de Literatura Portuguesa, 1981. No campo da teoria, importam alguns
dicionários de termos literários
(Harry Shaw, Massaud Moisés, António Moniz / Olegário Paz) ou o Dicionário de Narratologia, de Carlos
Reis / Ana Cristina Macário Lopes, 1987.
Fonte de criação
Seria possível conjugar a
diversidade de intenções acima resumida? Hirondino Fernandes disse que sim.
Por ordem de apelido,
inclusive em pseudónimos e iniciais, aos nomes sucede indicação de lugar e data
de nascimento e morte, se possíveis. As biografias são desiguais, quer em
espaço, quer em método, mas suficientes. A riqueza está na bibliografia activa
(manuscrita, dactilografada, mimeografada, impressa), por anos, e excertos
úteis, nos títulos menos acessíveis. Intercalam remissões e fecha uma não raro
extensa bibliografia passiva − acompanhada de eventuais ‘ecos da Imprensa’ −,
só parcialmente referenciada no limiar do vol. I, onde seguem centenas de
publicações periódicas consultadas. Nomes com parte de leão temos o Abade de Baçal
(I, p. 341-350) ou Trindade Coelho (II, p. 429-706), aliás, inseridos em
edições comemorativas.
Considere-se, entretanto,
maioria de impressos, seja qual for o suporte, a extensão e qualidade. O senão
de rastrear mero artigo de jornal, nem sempre de fácil atribuição, é que o
autor pode não rever-se num passado que deseja rasurar. São mais aceitáveis, em
termos de bibliografia activa, a revista e livro (e, mesmo, o recurso ao online), mas o efeito de desentranhar
páginas inesperadas, que escapam aos autores, é prova de uma dedicação que
nunca louvaremos assaz.
Com menos relevo, mas
decisão fundada, estão os não naturais, cujos títulos respeitam ao distrito. É
um olhar de fora, geralmente empático, que mostra interlocutores insuspeitados,
para lá das fronteiras regionais, nacionais, linguísticas. Ver e ser visto
torna-se, assim, mais fácil.
Se perde, em relação a
Inocêncio ou Prado Coelho, na injustificada inclusão de brasileiros e galegos,
embora alguns compareçam, por outras razões, a todos os dicionários sobreleva
esta BdB, e não só em número de
páginas: de escopo distrital, vai para lá deste chão, conjugando vocações,
actividades, profissões, desde o título ou apelidos mais antigos, longe de
serem todos forçosamente ilustres
(muitos destes estão ausentes, por não entrarem na série). O critério editorial não-selectivo deixa entrever
as principais dificuldades: uniformização, em tempo útil, de dados biográficos
(ora com datas precisas, ora só os anos, por exemplo), várias interrogações,
sobretudo, nos corpora
bibliográficos. Mas só quem não investiga neste país desconhece as dificuldades.
Conjugando Barreto,
Barbosa Machado e Inocêncio (na esperança de que o décimo volume, de índices,
esclareça os caminhos), estamos em condições, agora, de ler o distrito em
títulos, temas, conceitos, épocas, potencialidades, que entreabria Prado Coelho.
Sendo a melhor fonte de um passado que ainda mal se conhece, com ganhos para
estudiosos, que não terão pequenas surpresas, a inclusão dos mais novos ou de
quem pratica as nossas especialidades ajuda-nos num acompanhamento próximo
imediato. Já tínhamos as Memórias
Arqueológico-Históricas… baçalianas; com a BdB, temos o segundo monumento cultural da nossa terra.
O IMPREVISTO ACONTECE
Com a realidade jogamos ao faz de
conta
De
súbito, forte ventania, como surgida do nada, abateu-se nos plátanos que
margeiam, pela esquerda, a via pública fez tombar no asfalto milhões de folhas
que resistiam à morte inevitável e com elas encetou algo semelhante a um
bailado, progredindo em círculos, e avançou até se perder de vista bem lá no
extremo da rua. Em simultâneo, o céu, até então de um cinzento pacífico,
escureceu antecipando a noite e prenunciando temporal. Caíram as primeiras
gotas de chuva, finas e espaçadas antes, mais constantes a seguir, obrigando os
transeuntes a protegerem-se com guarda-chuvas ou a correrem em busca de um
abrigo.
Só
então me apercebi de que não trouxera qualquer resguardo, remédio seria vencer
aqueles dois hectómetros e meio com a minha neta de sete anos em corrida ao faz
de conta. Duzentos e cinquenta metros para lá, outro tanto aquando do regresso.
“E se, entretanto, a chuva tiver virado temporal?” questão recorrente em
circunstâncias tais que também nesse momento me assalta, me tira a paz de
espírito e perdura nessa hora e meia de permanência no recinto. Quem vai
chegando não parece estar muito incomodado com o que acontece no exterior. Bom
sinal! A preocupação decresce a um nível mais baixo. Mesmo sem sombreiro –
curioso como, na aldeia, as pessoas resumiam com tal designação o objeto que
podia resguardá-las tanto da chuva como do sol embora não seja adequado no
primeiro caso preferindo o nome derivado ao composto talvez a pensar que, com
ele cobertos, de certa maneira ficamos a uma sombra protetora – estamos à
vontade, a minha neta leva um casaco que, depois de entrar no automóvel, lhe
retiro sem que da sua falta advenha desconforto, basta ligar o ar condicionado.
Agora
é noite fechada, conjugaram-se os humores do tempo e a precisão da
meteorologia. Boa noite! Desapareceu o motivo da ansiedade que precede esses
momentos de indefinição característicos do lusco-fusco. Aí pode começar o
mistério que sempre vem associado ao período de treva. Em tempo não muito
distante, a ausência de luz natural determinava muito mais do que a separação
entre o dia e a noite, o trabalho e o repouso, a certeza e a dúvida, o
movimento e a imobilidade, o balanço do dia que termina e a projeção do dia
seguinte: o dia era associado à vida, a noite era o fechar dos olhos do dia, a
ausência de luz natural, a morte. Receava-se a noite quase como se temia a
morte, o sono era uma espécie de vida suspensa, entregue nas mãos de Deus, a
morte era o descanso final, o não retorno. A convicção de que haveria esse
retorno eis o que justifica o “quase” que alentava quem vivo era e confiava no
Supremo Juiz que tinha o poder decisório sobre a nossa existência. O receio era
fortalecido pela fraca iluminação que permitia alguma atividade no período
entre o regresso a casa e a disposição dos corpos para o repouso. Candeias,
candeeiros de mesa e lampiões a petróleo (querosene para os brasileiros),
protegidos do vento por manga de vidro, bruxuleavam a guiar os passos naquele
lapso de tempo, os primeiros dentro e o último fora de casa. Quando surgiram os
“petromax”, que projetavam uma luz muito mais intensa e clara, o ambiente
transformava-se, mudava a disposição das pessoas nos espaços circundantes.
“Parece que é de dia!” - exclamavam. A eletrificação das casas também
contribuiu para esbater a distinção entre o dia e a noite além da comodidade
que trouxe, bastava “carregar no garabito” como dizia o Bebé, um pobre de
espírito que fazia recados, transportava pequenas cargas e só pedia por retribuição
que o deixassem pressionar o interruptor, prazer supremo, que outros não conhecia.
Bem
pode dizer-se que, ao terminar a primeira metade do século XX, a vida era,
ainda, a preto e branco. Na aldeia, os homens vestiam pardo ou roupa exterior
de tonalidade baça, na cidade já o pardo fora abolido mas não a modesta
variedade dos trajes, o luto obrigava homens e mulheres a vestir de negro
durante um ano ou mais, as viúvas traziam a morte com elas para o resto dos
seus dias, o que distinguia os eclesiásticos era o negro das batinas que usavam
no dia a dia e nos atos religiosos, o escuro era sinónimo de castigo para as
tolices das crianças: “ se continuas a fazer perrice, vais para o quarto
escuro.” Por contraste, brancos eram os lençóis em camas de gente remediada ou
rica; as toalhas que revestiam altares e mesas de quase todas as famílias em
dias de festa, diariamente para as mais abonadas; as roupas de batismo e a
toalha que limpava a cabecinha dos neófitos após o derramamento da água sacramental;
as camisas dos homens nos domingos e dias de festa; meias e agasalhos para
todos no tempo frio de outono e de inverno que pressupunha cultivo do linho ou
posse de ovelhas porque dinheiro nem sempre havia para comprar novelos de lã.
O
toque dos sinos às Ave-Marias quando clareava era um grito de alegria e
agradecimento a Deus por mais um dia de vida, o mesmo toque às Trindades tão
logo o sol se despedia e as primeiras sombras já adormentavam a Natureza,
conquanto representasse alívio da labuta diária e chamada ao reagrupamento
familiar, vinha marcado por uma indefinível emoção entre o regozijo da
convivência e a pena da despedida. O simbolismo da noite em relação à morte
trazia consigo o desejo de distanciamento de tudo quanto lembrasse o momento
fatal: na igreja enquanto lugar onde eram celebradas as exéquias, se expunham
os mortos antes da encomendação e, durante séculos, se enterraram os corpos; o
cemitério, espaço onde todos os moradores tinham familiares sepultados e
destino certo dos que ainda conservavam o precioso dom da vida; a igreja e o
cemitério em conjunto, por isso duplamente atemorizante, a presença,
materialmente silenciosa, de Deus na Sua morada e a ausência dos que nos
pertenceram e se tornaram pó, a perspetiva para nós tão certa quanto
aterrorizadora, a certeza da morte e o temor, que não gostamos de admitir, de,
um dia, ela nos vir buscar. Cito Gonçalo M. Tavares em crónica publicada no
número 1025 da revista Visão: o medo da morte e o medo dos mortos. Os relatos
sobre esse temor diante do cadáver, esse não querer tocar. Talvez uma lembrança
inconsciente da peste negra. Aí, o morto matava: tocar na morte era correr um
risco (…) Hoje ainda, no século XXI, a lógica, a medicina e a racionalidade
podem dizer-nos que não, que é absurdo, mas o inconsciente ali está…”
Na
minha aldeia, o cemitério ficava ao lado da igreja, cercados pelo mesmo muro. À
noite, as pessoas transitavam pelos caminhos contíguos de coração apertado
tentando desviar os olhos desse lado, ainda que a morada divina devesse
merecer-nos toda a confiança e do campo santo nada tivéssemos a recear porque
os mortos não voltam. António Lobo Antunes, numa entrevista concedida à rádio TSF
por ocasião da “Escritaria”, em Outubro passado, em sua homenagem, referia-se a
alguém que nunca ia ao cemitério “porque nesses lugares não estava ninguém”.
“Então onde estão os mortos?” – perguntavam-lhe. “Andam por aí. – explicava
essa pessoa – falam connosco, dão-nos as suas opiniões, fazem-nos companhia,
sentimo-las ao nosso lado.” E Lobo Antunes acrescentava: “Tinha razão. Eu
ouço-os, distingo-lhes as vozes, compreendo o que me dizem…” Houve uma pessoa
que nunca manifestou receio de dirigir-se à igreja a qualquer hora da noite
como do dia. Foi zeladora do Santíssimo Sacramento durante alguns anos. Uma
lâmpada, suspensa do teto e permanentemente acesa, simbolizava a eternidade de
Deus e da sua presença entre os homens. O depósito de azeite alimentava uma
torcida cujo pavio teria que ser substituído de quando em quando, presumo que
de quatro em quatro horas. Essa era a principal tarefa da zeladora: nunca
deixar que a luz se extinguisse porque simbolizava a fé das pessoas da
comunidade e a sua homenagem a Jesus Sacramentado. No outono e no inverno
anoitece mais cedo mas, na claridade do dia ou na escuridão da noite, lá ia ela
renovar o pavio da lâmpada. Essa mulher, a pessoa mais corajosa que conheci,
era a minha mãe.
Nuno Afonso
Publicado in “A
Voz de Ermesinde” a 30 de novembro de 2012
10 dezembro 2012
O Rio da Amargura
Maria Hercília Agarez apresenta O rio da amargura (Diário de Mercedes), de Eurico Figueiredo, no dia 14 de Dezembro de 2012, pelas 21h00, no Auditório da Biblioteca Municipal Dr. Júlio Teixeira (Vila Real).
12 novembro 2012
ARS VIVENDI, ARS MORIENDI
Notas biográficas
A vida de Amadeu Ferreira (este nome lhe
coube em 1950, em Sendim) é como uma montanha de difícil e penosa escalada a
oferecer sempre mais obstáculos e perigos a quem tem a veleidade de lhe atingir
o cume. Só os fortes resistem, só os obstinados não desistem. Páram para tomar
fôlego. Cada etapa da aventura tem a sua duração, os seus escolhos. Foi longa a
caminhada ascendente de Amadeu. Mas ele tem a força física e anímica dos rijos
transmontanos, desses “homens de granito” que se negam a torcer. Que, quando no
longe põem a boina basca, ao modo de Bento da Cruz, acariciam a cabeça com um
cibo de aconchego transmontano.
Para trás e para longe ficou o seminário, a
construção civil, a tropa em Mafra, o emprego em adega corporativa, os estudos
de Filosofia e de Letras, primeiro no Porto, depois em Lisboa. Aí acabou por
fixar-se. Envolveu-se activamente na política e foi, de raspão, deputado pela
UDP. Licenciou-se em Direito e trabalhou em publicidade. Publicou livros. Fez o
mestrado, agora o doutoramento. É presidente da Associação de Língua Mirandesa
na qual tem escrito poesia, conto, histórias infantis, romance. Traduziu
escritores latinos, os Lusíadas, os quatro evangelhos. É professor auxiliar
convidado na Faculdade de Direito de Lisboa e vice-presidente da Comissão do
Mercado de Valores Imobiliários. Vice-presidente é também da Academia de Letras
de Trás-os-Montes. Chegou como partiu – simples, despretensioso, afável, bom
conversador. Amadeu e Francisco, duas
faces da mesma moeda. O homem e o artista.
Escreveu um autor latino que “os
poetas e os reis não nascem todos os dias”. Porque, segundo Francisco José
Viegas “A poesia não tem a ver com a literatura. Releva do domínio do sagrado
indizível”. Porque, como diz Torga, “Os poetas são como os faróis: dão
chicotadas de luz na escuridão”.
São incontáveis as abordagens do complexo
fenómeno da criação poética pelo que ela encerra de misterioso, de oculto, de
enigmático, de profético, de revolucionário, de metafísico, de iniciático, de
ambíguo, de plurissignificativo, de imprevisível – “um poeta nunca sabe quando
um verso lhe é dado”, disse o Orfeu Rebelde. Pela magia das sugestões
imagéticas e eufónicas, pela harmonia e o ritmo e a prosódia, pelo tratamento
dado às palavras que são, para Eugénio de Andrade como para qualquer poeta,
“como o cristal”. Pela singularidade de uma manifestação artística nascida de
corações sensíveis, aparentemente frágil mas que atravessa, altaneira, tempos e
espaços a caminho de uma eternidade que é para os homens escondidos atrás dos
poetas compensação para a efemeridade das suas vidas.
Na introdução da colectânea A Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro,
Hermínio Monteiro, transmontano precocemente desaparecido, escreve: “ Há muitos
e muitos milhares de anos, a poesia aproximou-se do homem e tão próximos
ficaram, que ela se instalou no seu coração. E começaram a ver o mundo
conjuntamente estabelecendo uma inseparável relação que perdurará para sempre.
(…) Com um pequeno gesto, os poetas soltam o seu pólen que, levado pelas
palavras vai eternamente fecundando os arcos da beleza que erguem o universo e
o põem em comunicação com Deus”.
O grande poeta Eugénio de Andrade introduz
a ANTOLOGIA BREVE com uma espécie de
aviso, de esclarecimento. Parece recear que os seus eventuais leitores não
valorizem devidamente a sua arte e, por isso, esclarece, pondo a tónica naquilo
que opõe o cidadão comum ao poeta, naquilo que singulariza este, guindando-o a
alturas para outros inalcançáveis:
O
acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo de
conhecimento que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, é a
sua moral. E não há outra. Nesse mergulho do homem nas suas águas mais
silenciadas, o que vem à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade.
Mas, curiosamente, o espírito humano atenta mais facilmente nas diferenças do
que nas semelhanças, esquecendo-se, e é Goëthe quem o lembra, que o particular
e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, tão fiel ao homem, acaba
por ser palavra de escândalo no seio do próprio homem. Na verdade, ele nega
onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que os outros
nem sequer são capazes de imaginar.
Muitos são os registos poéticos em que o
autor fala da sua concepção de poesia, da importância de que esta se reveste na
sua caminhada. Para Pires Cabral, em “O Navio dos Loucos”, in Douro: Pizzicato e Chula afirma: A bordo duma nave, alguns poetas detentores, como todos os da espécie, do seu
pequeno gene de loucura e em “Poetas e Deuses” (título expressivo) in Cobra-d’ Água faz um convite:
Vede: um poeta em exercício.
Dir-se-ia
que algum deus equilibrista
Trepou
por ele acima e se empoleirou nele.
Ei-lo:
exposto como um Cristo a que caísse
O
pano do pudor.
Abrasado
em chamas que se presumem sagradas,
E
que não ardem somente, mas também alumiam
O
próprio poeta e os seus arredores [...]
Florbela Espanca considera o poeta “maior
do que os homens”, metaforizando-o: [ser poeta] é ter garras e asas de condor”
Francisco Niebro apresenta-nos a poesia
como algo vital, quase como uma necessidade biológica, como “um nada que vale
tudo”:
São nadas os poemas
a
que me agarro em todas as coisas:
sem
eles, onde meteria
o
fogo que me queima?
sem
eles, onde enterraria
a
morte que me mata?
sem
eles, como aprenderia
o
ofício de viver a cada dia?
quando
descobri que não sou mais que nada,
descobri
também que só nadas me podiam valer;
depois
disto, dizer que poemas são
literatura,
é um puro engano.
Vamos, então, ao que aqui nos trouxe: a
apresentação de um livro de poesia de Francisco Niebro que muitos vila-realenses
conhecem pelo nome de Amadeu Ferreira, aquele homem que encheu, há tempos, uma
sala do Museu da Vila Velha e a alma de quantos o escutaram a falar da menina
dos seus olhos – a língua mirandesa: uma
língua que quase ninguém fala e muito poucos/sabem que existe, nem por isso
deixa de ser um pilar/ do mundo, pequeno, é verdade,/ mas são sempre pequenas
as fendas/ por onde começam as grandes ruínas..
Interpreto a minha presença aqui, investida
desta responsabilidade, como um erro de casting, como está na moda dizer. Pelo
que atrás ficou exposto, ou seja, pela singularidade e transcendência da
criação poética, considero que só um poeta está à altura de falar doutro poeta.
Porque falam a mesma língua. Porque têm a mesma percepção dos meandros do fenómeno
poético, das suas exigências, do trabalho de oficina que exige. Porque
comungam, tratando-se, como é o caso, de poesia lírica, das mesmas angústias e
insatisfações, dos mesmos apelos, das mesmas convocações.
O tempo de que dispus para apresentar este
livro teria sido suficiente se cada poema se contentasse só com uma leitura.
Para mim, o que distingue versos de poesia é que o sentido dos primeiros é
unívoco, linear, entendível, e não nos deixa margem para reflexão, para recolhimento,
para busca de subentendidos. Versos não têm entrelinhas.
Esta
colectânea é rica desde o título. Contornando o desconforto de nomeá-la também
em duas línguas, o autor recorreu ao comum latim, aqui com sonoridades doces,
cantantes.
É sob o signo da morte, seguido do da
velhice, sua normal antecessora, que o livro começa, em abordagem de temática
que, na nossa literatura, nos acompanha desde a lírica trovadoresca: “Nen ey
barqueiro nem sey remar / e morrerei fremosa no alto mar!”
Num primeiro recurso à mitologia
pagã, Niebro, um clássico moderno, invoca Orfeu e a melodia da morte que sai da
sua lira para, em jeito de consolação para os mortais, lembrar que “Os próprios
deuses estão já feridos de morte”. E a si próprio se conforta, mais adiante: “estão
vivos os meus mortos, […] sem eles onde é que o futuro havia de /deitar
raízes?”
Quanto à velhice, aquela ameaça negra que
em vão se escorraça, assume em É TRISTE SER VELHO 1 (p. 18) um duplo sentido.
Se, por um lado, “tudo fazemos para esconder a morte / e mais ainda para negar
a velhice”, esta tem, sobre as outras fases da vida, uma particularidade: “-
bem vês, a velhice é a única idade / de que nunca vamos ter lembranças ou
saudades.”
A encerrar o poema que se segue (p. 20), um conjunto de três versos
funciona como chave de ouro a abrir um conselho ditado pela experiência e pelo
bom senso:
Se o vento te empurrar para o beco
Da
velhice, não tenhas medo:
Basta que
te respeites até ao fim.
Na impossibilidade de referir todos os
poemas (alguns com características de prosa poética pelo seu pendor narrativo),
começarei por enunciar as principais recorrências temáticas de que me apercebi
(para além das atrás referidas – morte-velhice - e que integram o autor no rol
dos escritores transmontanos ciosos preservadores da sua transmontaneidade. Pelo
seu telurismo, pela forte ligação que mantém com as raízes rurais, pelo
fascínio que nele exercem as paisagens física e humana da sua região natal,
donde ressalta o belo planalto mirandês. Dividido, por razões profissionais,
entre as berças e a capital, é notória a sua necessidade de regressar à
simplicidade da “pax ruris”. Ao chegar à aldeia encontra ruas desertas, casas
abandonadas – “as casas encostam-se de arrimo entre si” -, de janelas fechadas
e com teias de aranha, seco o olmo do quintal, “campos sem cultivo”, ausência
de cotovias. Ausência de vida, de movimento, de trabalho. Presença inalterada,
nítida, de marcas da infância: “é aqui o sítio da memória, a que também
chamamos casa […]/ é a memória essa casa a que sempre voltamos”; “o que sou
hoje é como o sol a romper pela sombra/ do casebre”.
Além da dicotomia cidade-campo,
encontra-se, também, a de passado- presente a acarretar consigo,
inevitavelmente, a saudade de uma infância, por mais dura que tenha sido. Francisco
é, ele o diz algures, um homem que não chegou a ser menino, remetendo-nos,
assim, para os garotos dos telhais, protagonistas de Esteiros de Soeiro Pereira Gomes.
Apesar disso, é com ternura poética que
evoca tempos longínquos. É a idade mágica de todas as descobertas, de todos os
sonhos:
quando eu era criança ficava horas a ver as
andorinhas
a trazer
barro para fazer o ninho e a moldá-lo com o
peito;
depois os
filhotes de boca aberta à espera de
comida,
e elas num
voo sem destino a alongar a tarde. […]
O regresso à infância surge mais adiante
numa belíssima desmontagem do poema “Aniversário” de Álvaro de Campos.
Confessando que, para compreender este heterónimo de Fernando Pessoa, tem de o
ler ao contrário, o poeta apresenta-nos o resultado de um desses exercícios que
consiste em negativar a positividade, donde resultam antíteses como alegria/
tristeza, riqueza/ pobreza, vivos/ mortos, luxo/ simplicidade, conforto/
desconforto. Vejamos:
Álvaro de Campos:
No tempo em que festejavam o dia dos meus
anos,
Eu era
feliz e ninguém estava morto.
Na casa
antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a
alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião
Qualquer.
[…]
Francisco Niebro
No tempo em que ninguém festejava o dia
dos meus
anos,
Eu não
sabia o que era ser feliz, nem se alguém
estava
morto.
Na velha e
pobre casinha, ninguém se lembrava
de fazer
anos,
E andavam
tristes, às voltas com uma vida de infinita
dureza.[…]
Seguindo a ordem dos textos, passarei a
comentar alguns dos que me mereceram maior atenção nomeadamente pelas
intertextualidades que sugerem. A página 34 leva-nos em viagem à capital onde o
nosso poeta veste a pele do Cesário Verde de “O Sentimento dum Ocidental” de
quem Alberto Caeiro tem pena por achar que “ele era um camponês/ Que andava
preso em liberdade pela cidade”. Torga, fora de S. Martinho, sentia-se “uma
montanha comprimida”.
Escreve Francisco Niebro:
[…] do outro lado, numa vitrina,
uma
televisão fala de impostos
e de
crise: dá-me esta Lisboa
um absurdo
desejo de sofrer:[…]
Dois poemas, apenas, constituem A MORTE DA
HORTA. De novo o homem do campo, familiarizado com os respectivos trabalhos
feitos ao sabor das estações nem sempre cumpridoras dos seus horários.
Sementeiras, enxertias, plantação de árvores. Em tudo o camponês põe a sua
sabedoria ancestral, o seu rigor e, até, o seu carinho:
[...] o coto do sacho a abrir
A cabeça
dos torrões,
A alisar a
terra como quem faz um ninho […]
A comparação do último verso conduz-nos,
por analogia semântica, a “Bucólica” de Torga: Meu pai a erguer uma videira/ como uma mãe que faz a trança à filha.
Estamos perante a Terra Mater em cujo
ventre crescem as sementes. O lavrador que a fecundou aguarda uma primavera que
há-de parir “como quem espera a donzela / após o dia da descoberta da paixão.
Terra Mãe, mas também Terra Filha: “talvez só tu no mundo / transportes a horta
ao colo”.
Campo. Trabalho. Terra. Horta. Searas.
Ninhos. Poço. Roupa de burel. Carros de lenha. Alfaias agrícolas. Castanhas.
Bestiário: cigarras e formigas, melro, cotovias, gafanhotos, andorinhas, cavalos,
coruja, mosquitos.
Uma realidade social está, embora
veladamente, associada a esta: aldeias quase desertas, velhos teimosos medindo
forças com a terra e com os anos, abandono, solidão. Partiram os novos.
Voltarão eles?
[…]
- pode ser
que os filhos ainda venham pelas batatas
tu
acreditas, ó mulher?
-vamos mas
é andando para casa,
enquanto a
velhice não desperta
e as
pernas não vacilam.
Em DOIS GRITOS COM ECOS DE TEMPO deparamos
com o transmontano cioso da sua identidade e revoltado, à moda de Torga e de
Garrett, contra o abandono a que estão votados monumentos arquitectónicos.
Primeiro temos, “na sua altivez de pedra”, o castelo de Outeiro de que restam
“picos de penhascos que o tempo afiou”, a seguir o castelo de Algoso que “ao
longe parece uma chaminé / por onde fumega a lareira do tempo”. “Do alto e de
dentro avista-se / um ermo mundo, calado, só, abandonado / ao matagal.”
E voltamos ao campo dos enxertos e das
plantações com PEQUENO TRATADO DA ARTE DA ENXERTIA. Sete poemas desafiam-me a
escolher um deles. Elejo o terceiro. Pela concisão, pela sobriedade, por poder
ele ilustrar um outro de LÍNGUA.
hei-de plantar uma oliveira no quintal
pedir ao
mundo que não lhe faça mal:
mil anos
depois, talvez mais,
ainda os
meus olhos se debruçarão à janela das suas
rugas
e em cada
outono hão-de passar por negras azeitonas;
com
as oliveiras aprendo a zombar do tempo,
mas
a lição é muito difícil de aprender.
Se repararmos, o poema vive sobretudo do
nome (substantivo) e do verbo porque Niebro desdenha dos qualificativos, como
declara, com um sentido de humor que também cabe nos seus versos, no seguinte
texto que vai ser lido pela Paula Fortuna. (p.148)
é difícil resistir à tirania erótica dos
adjectivos,
arrepio de
prazer quando rebentam em som,
orgasmos
sem conta pela garganta acima:
- certos
adjectivos só deveriam ser usados com
preservativo,
e depois
de longos preliminares;
- há
adjectivos em que o uso é uma declaração
de guerra,
material
de terrorista:
aí, a paz
tem o nome de silêncio;
são piores
que a grama,
é quase
impossível acabar com eles,
pois é
mais difícil resistir-lhe
que às
mais fortes flechas de Cupido.
Não querendo alongar-me, cabe-me referir a
parte final do livro composta por haicais, espécie de teste (nada fácil) à
competência poética do autor. Porque, aparentemente simples, esta forma de
poesia, de remota origem japonesa e vulgarizada entre nós na transição do
século dezanove para o seguinte por Venceslau de Morais e por Camilo Pessanha,
constituída por um total de 17 sílabas (5 nos 1º e 3º versos, 7 no terceiro)
exige uma capacidade de condensar em tão pouco espaço a expressão de percepções
sensoriais de temática em geral ligada à natureza. É a poesia mais depurada que
existe. Cultivá-la é fazer como diz Carlos Drummond de Andrade: “Escrever é
cortar palavras”. Apreciadora de Bashô Matsuo, poeta japonês do século XVII,
talvez o mais conhecido cultor deste tipo de poesia, Isabel Alves vai-nos ler
algumas destas desconcertantes simplicidades a que Niebro chama “pedrinhas”.
……………………………………………………………………………………………………
Caracterizar esteticamente a poesia de
Francisco Niebro é começar por pôr em destaque a sua originalidade, a
especificidade dos seus poemas. Neles sentimos o extravasar sem peias de
emoções, sentimentos, reflexões, frustrações, sonhos, constatações. O
pensamento flui como rio sem diques, espraia-se ao correr das teclas do
computador, indiferente a ditames estéticos. Se saem versos, sai poesia, se sai
prosa, também. Muitos dos textos têm um carácter narrativo e fazem com que o
leitor se sinta, antes, ouvinte. Outros tem implícito um destinatário, um tu
que pode assumir diferentes identidades. Outros, ainda, são centrados no
próprio eu, reflexivos e introspectivos, reveladores de uma mundividência rica
e plural.
António Fortuna vai ler um soneto vestido à
moderna, de ressonâncias regianas (p. 110)
para que havia de querer um mapa?
sei bem de
onde venho, onde estou,
que quero
sei, mas não por onde vou,
calmo no
que faço; destino? Foje-
-me; ao
fim do dia nunca presto atenção
aos
ardores que me sobraram de um sonho
que tive
noutro tempo, era ainda moço,
agora
queimado, seco, quem diria
se era
tudo tão solto como um voo,
pesado
como haver vontade de pão,
Ícaro
erguido em força, como um deus;
pousei em
jeito de abutre e, prisioneiro,
só, comigo
sonhos vêem, sonhos vão,
enquanto
calor procuro dentro dos frios.
Caro Amadeu. Tempo de Fogo rendeu-me à sua prosa. Este livro rende-me à sua poesia
porque não é mais um qualquer, é um diferente, inovador, nascido do talento e
não de um tratado de versificação. Como escreveu Eça de Queiroz em Prosas Bárbaras, os poetas “podem
contemplar as estrelas, enquanto os bichos sociais se devoram na sombra.”
Maria
Hercília Agarez, Vila Real, 10 de Novembro de 2012
Nota: este texto não obedece ao
novo acordo ortográfico.
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