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18 maio 2015

AMADEU FERREIRA, UM CIBO DE TRÁS-OS-MONTES

AMADEU FERREIRA, UM CIBO DE TRÁS-OS-MONTES

    Nunca percebi porque o branco não é a cor da morte, como a cinza ou o silêncio. Branca como uma folha por escrever. Branca como a geada e o gelo.

Fracisco Niebro, in Belheç Velhice




    Nasceu numa aldeia de nome eufónico, feito de sonoridades doces, melodiosas. Sendim. Um recanto de um Trás-os-Montes profundo onde nascem, vivem e morrem gentes conformadas com o isolamento e a dureza de vida, a subsistência conseguida com os magros favores de uma terra sempre a exigir muito suor, muitas costas vergadas, muito manejo de alfaias adjuvantes.
    Amadeu Ferreira tinha de ser poeta. Assim determinava o seu código genético. Que, em contrapartida, lhe reservava um percurso de vida com laivos de alpinismo. Não empurrou sem cessar uma pedra até ao cimo de uma montanha, como Sísifo, porque não desafiou nenhum deus. Ele seguiu o conselho de Miguel Torga.


            Recomeça...
Se puderes,
sem angústia
E sem pressa.

E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
  [...]
  "Sísifo" in ANTOLOGIA POÉTICA

    "Com os meus mestres, aprendi a humildade das coisas essenciais." Parece ter sido esse um dos lemas da sua vida. Ele seguiu à risca o conselho de Ricardo Reis - "põe tudo quanto és no mínimo que fazes". Só que, para ele tudo era mais essencial do que acidental - a própria vida, a família, os amigos, as causas defendidas, a escrita, o pensamento. Nele quase tudo era espírito, transcendência.
  Quando o "mal ruim" o surpreendeu, não "entregou os pontos". A sua mente fervilhava de projectos a meio do caminho. Urgia dá-los por terminados, deixá-los dar lugar a outros. Manteve o ânimo, a esperança, a tenacidade, a capacidade de resistir, a arte de iludir os amigos. Encarava equívocos sinais de recuperação como vitórias de mais fracos sobre mais fortes. Trabalhou, por vezes de madrugada, até ao limite imposto pela corrosão de corpo e de espírito.
    Manteve o seu sorriso emboinado mesmo quando eram evidentes os sinais dos tratamentos. Engordou, perdeu cabelo, deformou-se-lhe o rosto esguio donde sobressaia aquele bigodinho de estimação. Nem por isso se escondeu dentro das suas quatro paredes nem impediu que o fotografassem. Estava vivo, embora pressentisse que seria poupado a uma velhice muito temida:

se o vento te empurrar para o beco
da velhice, não tenhas medo:
basta que te respeites até ao fim.

tudo fazemos para esconder a morte
e ainda mais para esconder a velhice....

    Para trás e para longe ficaram o seminário, a construção civil, o emprego em adega corporativa, os estudos de Filosofia e de Letras, primeiro no Porto, depois em Lisboa. Aí acabou por fixar-se. Envolveu-se activamente na política e foi, de raspão, deputado pela UDP. Licenciou-se em Direito e trabalhou em publicidade. Publicou livros. Fez o mestrado, aventurou-se a um doutoramento que o destino não deixou completar. Foi presidente da Associação de Língua Mirandesa na qual tem escrito poesia, conto, histórias infantis, romance. Traduziu escritores latinos, os Lusíadas, os quatro evangelhos, Camões, Pessoa, até Asterix. Publicou milhares de textos em jornais regionais e nacionais e em blogues. No seu mirandês. Exerceu a docência como professor auxiliar convidado na Faculdade de Direito de Lisboa e chegou ao alto cargo de vice-presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários. De vice-presidente passou a presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes. Foi, desde 2004, Comendador da Ordem de Mérito da República Portuguesa. Gostou do ensino. A sua cultura permitiu-lhe ser competente em matérias como a Educação Musical, a Filosofia, o Latim e, como atrás se disse, o Direito. Deu cursos de mirandês: "l mirandés naciu-me i l portués fui ua cunquista" assume. 
    Com Ernesto Rodrigues organizou dois volumes da Antologia A Terra de Duas Línguas, de titulo inequívoco.  Por concluir ficou, hélas, o Dicionário de Mirandés-Pertués. Deve tê-lo levado atravessado na garganta como Torga o sétimo dia da criação do mundo.
    Chegou ao alto como partiu de baixo. Nunca se deslumbrou com o valor que cons- ensualmente lhe foi reconhecido – simples, despretensioso, afável, bom conversador.  Amadeu e Fracisco, duas faces da mesma moeda. O homem e o artista. A mesma simplicidade, a mesma generosidade.
    A lição de vida que nos quis dar foi exemplar e quase sobre-humana. Nunca esquecerei um telefonema que me fez para me dizer que estava melhor, que lhe telefonasse quando quisesse. As gargalhadas tão características não tinham perdido sonoridade. E o ritmo de trabalho, esse, a alegria dos seus dias, só afrouxou quando as faculdades mentais se foram dele despedindo, cobardemente, injustamente.
   Gostava de o ver com a sua boina basca que sabia quando e onde usar. Era ela um  cibo da ruralidade e modéstia de alguém para quem o ninho térreo e a infância pobre foram sempre assumidos como um privilégio - o de ter nascido numa região onde o boi barrosão é adorado como um deus, onde as portas das casas estão sempre abertas, onde, no seu tempo de menino descalço, ainda se  cozia o pão no forno do povo, se representava o Auto da Paixão, as vezeiras obedeciam a qualquer guardador, reinava, enfim, o espírito comunitário.
    Em 2014 foi publicado Norteando, um álbum que é uma obra de artes. Um fotógrafo, Luís Borges, poetizou a natureza nordestina com a sua objectiva: os espaços, as gentes, os bichos. Amadeu "legendou" as imagens numa prosa poética, bem ao seu estilo. Aproveitou para regressar ao seu tempo e ao seu espaço de um passado sempre presente. A propósito da assunção da modéstia das suas origens, escreve em "O voo erótico da madressilva":
     Um dia, teria eu quatro ou cinco anos, a minha mãe trouxe do campo um raminho
de madressilvas que colocou dentro de um copo de esmalte no seu humilde louceiro da cozinha de telha vã: o aroma  possuiu-me  de tal maneira que a madressilva entrou dento de mim para sempre; agora, quando a quero ver, começo por fechar os olhos e chamo o seu odor até que me deixe quase em transe, qual pitonisa em Delfos: é essa a altura de abrir de novo os olhos e seguir a imagem como um sonho erótico: voa leve sobre a parede com os seus falos ao rubro e, à medida que avança, vai explodindo num branco fogo-de-artifício, amarelo depois, com os seus tontos espermatozóides a fecundar o ar com o seu aroma: nada volta a ser igual depois de uma madressilva ter entrado dentro de ti, que até as pedras se esfumam e perde brilho o azul do céu. 
    Amadeu era um homem múltiplo que, à imagem de Fernando Pessoa, teve de se desdobrar em pseudónimos, cada um dos quais correspondente a um tipo de registo literário. Amadeu foi o nome do cidadão multifacetado e multi-dotado e também do artista que o adoptou em Tempo de Fogo, uma estreia tardia na ficção, narrativa de cariz histórico cuja acção decorre em finais do século XVII e que, segundo Teresa Martins Marques, é "um romance de matriz realista e de valores intemporais, ancorado na memória...."
   Guardou Fracisco Niebro essencialmente para a poesia, de que é de destacar a obra publicada em 2012 e intitulada Ars Vivendi Ars Moriendi, um testemunho apaixonante do sentir e do pensar de um homem sensível  e saudoso do seu aconchego afectivo que quase desconhece:

agora, na rua, já só mora uma pessoa
e as casas encostam-se de arrimo entre si.

    Apesar disso a sua matriz sendinense não se lhe descola da pele, não quer, nem pode, escorraçá-la do pensamento:

tocou o sino,
fui num voo à minha terra:
a raiz não voa.

no tear das nuvens,
fios de água tecem o planalto:
tempestade ao longe.

   E também para o conto infantil,  para as traduções. O mirandês foi a sua língua de casa, de família, de amigos miúdos e crescidos. Pela sua preservação e ensino lutou como ninguém, insistindo, sugerindo, movendo influências, andando de terra em terra a evidenciar a importância daquele património imaterial que enriquece o desertificado nordeste transmontano subvalorizado pelos poderes centrais. Se hoje em dia as crianças aprendem nas escolas a língua dos seus avós, esse  é o resultado da sua luta sem desfalecimentos.
    Com outros nomes escreveu e traduziu outras obras. Ele foi Marcus Miranda, ele foi Fonso Roixo. 
    Por escassos dias, não assistiu à sua última publicação: Belleç/Vellice - notável e poético hino ao quotidiano da ruralidade nordestina em meados do século passado -  mas ainda pôde  empunhar outros dos seus trabalhos de paciência cenobítica - Ditos Dezideiros, recolha de provérbios mirandeses com 5.000 entradas e Lhéngua Mirandesa Manifesto em forma de hino. Quantas terão ficado, completas ou incompletas, à espera de uma Âncora  que os  liberte da lei do esquecimento.
   A sua vida dava vários romances, que o digam o realizador e amigo Leonel Brito que gravou mais de trinta horas do seu desfiar de memórias e Teresa Martins Marques que cedo tomou consciência da necessidade de lhe fixar o acidentado e rico percurso numa espécie de biografa, resultante de incontáveis conversas cúmplices em que o narrador se desnuda sem complexos, antes com orgulho de ter saído donde saiu e ter chegado onde chegou. O Fio das Lembrança, da escritora citada, contém uma primeira parte de cariz biográfico e uma segunda onde teve o trabalho incansável e meritório de recolher depoimentos de amigos e textos ensaísticos sobre a sua obra.
     Deixo-vos um conselho do Amadeu em forma de haikai, fácil de fixar. Ele há-de gostar de ser lembrado sem lágrimas:

não coes o sorriso,
    deixa-o sentir em bruto:
peneirada basta a farinha.

Nota 1: todos os poemas apresentados pertencem a Ars Vivendi Ars Moriendi, Âncora Editora, 2012.    
Nota 2: texto publicado na revista ALDRABA de Abril de 2015.

M. Hercília Agarez, Março de 2014

17 novembro 2014

NORTEANDO DE AMADEU FERREIRA E LUÍS BORGES, por Hercília Agarez


NORTEANDO
DE AMADEU FERREIRA E LUÍS BORGES
    O título não diz tudo, mas sugere uma jornada lenta, sem percurso previamente definido, alheia à ditadura dos ponteiros do relógio, com tempo para pausas impostas pelos flagrantes do fotógrafo. Sim, não são meros disparos da objectiva atirados ao acaso, são instantâneos irrepetíveis e irreversíveis. É uma incursão por um território de que somos ciosos, é uma caminhada a reclamar calçado e roupa confortáveis, que nos permitem galgar montes, enlamear os pés, sentarmo-nos numa pedra tosca a ver desfilar rebanhos e manadas. É todo um apelo da natureza para que dela saibamos saborear todos os encantos, percorrer todos os recantos, sem espantar (no duplo sentido do termo) aves de voo desprevenido, borboletas quais cisnes no último canto, sem fugir de um olhar ameaçador de lobo ou raposa.
    Acompanhar Luís Borges nas suas errâncias é, também, encher a vista de uma policromia de que só a natureza é capaz, maravilhar-se com as flores, sua grande dádiva. Mas não é a cor o que de mais atraente e expressivo têm as imagens. Somos, talvez pelo contrário, presos à magia do preto e branco com que o fotógrafo que nasceu poeta da vista, foi sábia e sensivelmente captar a riqueza humana de uma região economicamente atrasada, mas que teima em preservar os socos, os chapéus toscos, o pau que lhes arrima os cansaços da velhice, os aventais, o negro eterno das viuvezes femininas, o seu lenço posto como só elas sabem.
    Olhamos para os ouriços ou para os medronhos como o cão de Pavlov, sentimos o algodão em rama da neve a beijar-nos os pés, orgulhamo-nos que não tenham destruído as antas longinquamente ancestrais, compadecemo-nos com o destino do porco de patas a pedir clemência póstuma, mas invejamos a ciência do tempero das alheiras a que o lume servirá de complemento directo. Cada imagem é uma lição de vida, um hino à Terra Mater, uma dúvida, a de nos questionarmos se merecemos tanto.
    Dizer mais sobre os poemas iconográficos de L. Borges é um atrevimento de que me penitencio, face à mestria com que de cada um fala o nosso Amadeu. Repito o possessivo. Nosso. Pela sua sabedoria recatada, pela sua postura “de camponês que anda preso em liberdade pela cidade”, como disse Alberto Caeiro de Cesário Verde), pelo seu sorriso que é um paradigma da franqueza transmontana, pela capacidade natural e espontânea de, cada dia que passa, acrescentar um novo amigo à sua longa lista. Pela sua força anímica, pelo exemplo de tenacidade e pelo ar meio envergonhado com que recebe as homenagens que lhe são devidas. 
    Os poemas de um, resultantes de uma objectiva que tem o condão de estar nos sítios certos nos momentos certos, são enriquecidos com os outros. Sim, Amadeu é tão poeta na prosa como nos versos. A sua escrita dá-nos a sensação de jorrar com tanta rapidez e limpidez como quando se abre uma torneira. Parece haver nela muito pouca oficina. Nasceu para a poesia. Tal deve constar do seu mapa astrológico. Nós, os privilegiados que o conhecem, sabemos merecê-la, acarinhá-la, divulgá-la. É nossa, também. Mas, fazendo jus à atávica solidariedade deste povo, queremos partilhá-la com quem saiba distinguir joías verdadeiras de pechisbeque.
    Ao olhar as fotografias candidatas a um “casamento” por amor com os seus textos, Amadeu Ferreira ou Francisco Niebro viu nelas pormenores que o observador comum não captou. De imagens estáticas ele faz reflexões dinâmicas. Onde nós vemos cabras empoleiradas em rochedos estéreis, ele interpreta aquelas escaladas: “não precisam apenas de erva para comer as cabras, sobretudo de horizonte se alimentam”.
    Cada imagem é um desafio, um convite a tratá-la de acordo com um certo registo: conta pequenas histórias, invoca a infância, opta pela fábula ou pela curta narrativa infantil, dá aos seus pensamentos a estrutura tradicional de poemas, rememora tempos idos de mais arreigada autenticidade, de penosos trabalhos na terra, lamenta o abandono dos campos. Mas regozija-se com a manutenção de práticas agrícolas de um tempo ontem, como a apanha da azeitona, as malhadas com manguais, a lavra com o arado.
    Invoca escritores clássicos, recorre à mitologia, à etnografia, não para alardear uma erudição vaidosa, antes como forma de construir uma certa pedagogia subjacente a alguns dos textos que, de braço dado com as fotografias, além de proporcionarem um duplo prazer estético, cumprem uma missão urgente e civilizacional – a de transmitir às gerações a quem os dentes nasceram com o computador, como viveram os seus antepassados e o quanto labutaram para que os não arrancassem de uma terra onde tudo lhes foi regateado e onde aguardam pacientemente, de mãos encarquilhadas e encardidas, sem dentes com que rilhem uma maçã, uma outra terra que lhes dispensa a enxada.


M. Hercília Agarez, Julho de 2014

11 setembro 2014

APRESENTAÇÃO DE RELEVOS DE VIRGÍNIA DO CARMO, por Hercília Agarez

APRESENTAÇÃO DE RELEVOS DE VIRGÍNIA DO CARMO

Os poetas podem contemplar as estrelas, enquanto os bichos sociais se devoram na sombra (?)

    Há coisas que se não medem com fita métrica, não se pesam com balança, não se lhes avalia a temperatura com termómetro. Há coisas cujo valor é imaterial, coisas que nenhum dinheiro pode comprar. O talento é uma delas. O talento, esse privilégio, esse dom atribuído por um qualquer deus e que guinda quem o possui a alturas onde aves não chegam, lá para os lados das estrelas.
    Nenhuma arte nasce sem essa centelha de génio que ilumina o artista. Hoje falamos de literatura, mais precisamente de poesia, para festejarmos uma obra que, a haver justiça, mostrará à intelligentsia deste pais que, se Portugal é um país de poetas, Trás-os-Montes ajuda a confirmar a asserção.
    No interior deste espaço telúrico mais lembrado por uns resquícios de tradições, pela gastronomia e por alguma paisagem vendida ao turista a troco de um cálice de mau vinho fino, vive gente, mais e menos jovem, que, ao dedicar-se à escrita, o faz por paixão, cônscia de que dificilmente alguém lhe faça uma recensão, lhe dedique umas linhas na imprensa cultural, lhe ponha os livros ao alto em estantes de livrarias onde se acotovelam biografias de futebolistas, manuais de receitas de senhoras da televisão, Dan Browns da moda.
   Neste interior de rigores climáticos, de distanciamento das capitais, Virgínia do Carmo não cruza os braços, melhor, não põe um dique a estancar a inspiração. Vocacionada para a valorização da riqueza cultural, acaricia os livros com mãos de veludo, abre-lhes o seu peito, qual tabernáculo, onde, como veremos, arrecada ciosamente patrimónios afectivos e vivências, estrelas e mar, rios e flores, pássaros e pedras. Mulher destemida, empreendedora, persistente, livreira e editora, prosadora e poeta, de voz acetinada e olhar luminoso, anfitriã que gosta de mimar quem a visita nem que seja só com o seu sorriso, reservou-nos uma surpresa  para a rentrée. Não é uma estreia no género, é uma pérola ainda mais preciosa que as anteriores. Se Sou e Sinto (não conheço Tempos Cruzados) é uma espécie de aperitivo gourmet, RELEVOS é um prato substancial, uma harmoniosa e saborosa mistura de sabores, aromas e texturas, uma delícia para o paladar do espírito. Mas já lá vamos
     Em certas circunstâncias sinto-me no dever de justificar a minha presença como apresentadora de uma obra literária. Não sou macedense, não sou poeta. Estou, pois, aqui pela simples razão de gostar da Virgínia e de ela gostar de mim. Ela quis arriscar. Por isso lhe estou grata. Eu, talvez levianamente, aceitei.
    Na minha longa carreira de professora de Literatura que ainda sou, quantas vezes me interroguei sobre a análise de um texto literário, sobretudo poético. Quem somos nós, leigos na arte da escrita, para impingir aos alunos as nossas leituras?
    A este propósito não posso deixar de referir um episódio recentemente passado com Pires Cabral a propósito da Gaveta do Fundo. Num encontro de leitores, uma colega escolheu um poema para ler e deu-lhe a sua interpretação ao que ele respondeu: não era isso que eu queria dizer, mas agradeço-a e acho-a aceitável.
    Há dias, aqui neste lugar de cultura e de afectos, punha-se uma questão que teria dado pano para mangas, se não para um fato completo… O que é um escritor? O que é um poeta? Sem preocupações académicas nem de teorização literária, eu responderia com toda a clareza e simplicidade: o escritor distingue-se do escrevinhador como o poeta do versejador.
     Sobre os poetas, direi ainda que eles têm ideias. Pensam, escrevem e, quem sabe, sonham poesia, enquanto os outros se limitam a rimar banalidades, obcecados com as regras aprendidas na escola. Melhor do que eu falam vozes credíveis. Como Adolfo Casais Monteiro em

Aurora

A poesia não é voz – é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

voo sem pássaro lento.

    Pires Cabral chama à poesia “o danoso ofício das metáforas” e Francisco José Viegas afirma: “A poesia não tem a ver com a literatura. Releva do domínio do sagrado indizível”. E Torga escreve: “Os poetas são como os faróis, dão chicotadas de luz na escuridão”.
    Antes de nos pronunciarmos sobre a poesia da Virgínia, vamos ver como ela se nos apresenta:

Na medida de todas as coisas

Na medida de todas as coisas, eu
a ser pequena.

O ar a doer-me, a não caber no coração
pequeno. E as mãos, tão pequenas, a perderem
os gestos no avesso de todos os tamanhos.

E eu,
a ser pequena.

Um horizonte a rasgar-me, a não caber
nos meus olhos pequenos.

Um chão de lume a consumir-me pés
e passos. A vida a doer-me, a não caber
no meu corpo pequeno. Tão pequeno.

E na medida de todas as coisas, eu,
a ser pequena.

Permitam-me que apresente a minha versão dos dois últimos versos:

E na medida das coisas poéticas, eu
a não ser pequena.

    Este livro chama-se RELEVOS. A plurissignificação obriga a um esclarecimento: um vocábulo, três acepções. Cabe ao leitor a escolha da que entende mais adaptada ao teor dos poemas. Ele tem essa liberdade. Por mim, opto pelo segundo sentido. Porque ele me sugere a orografia transmontana, as suas fragas  -  altos-relevos esculpidos em pedra (“E há fragas de pó no teu peito sem janelas”). Em contraste com a com a brandura lisa e amarela da planície alentejana. E também porque a vida da autora nos surge pautada por uma não linearidade, antes por percursos acidentados, sinuosos, exterior e interiormente. A própria afirma: Não sou uma linha recta;não sei ir direito para dentro de mim. O seu caminho, no duplo sentido de o caminho por onde vai e o caminho que é, é feito de sobressaltos, de ciladas, de incidentes e acidentes, de desafios, ilusões e desilusões, de mais dúvidas do que certezas: Não sou caminho de bermas simétricas.
    Alheia a um mundo que a rodeia onde os ditames sociais imperam, ela orienta “os seus próprios passos” , como afirma José Régio em “Cântico Negro, segundo o que lhe pede o peito, esse reduto inviolável do seu ser, essa caixinha de segredos, esse espaço onde gostaria de guardar constelações e penedias, essa redoma onde se refugia “dos ares contaminados: […] O corpo é um lugar que podes adormecer para / dissecar. Mas o peito não. O peito é uma pedra dura…” (in “Dor”)
    A propósito de pedra, assinalemos a recorrência desta palavra a que vêm juntar-se chão e caminho, peito, corpo e pele. Porquê pedras? Por serem parte integrante de chão? Pela sua firmeza, pela resistência que oferecem ao efeito corrosivo do tempo? Pela garantia de perenidade? Por serem testemunhas caladas do seu estar só?

“O peito é uma pedra dura”;
“[…] a síntese química das pedras”;
“É um cordão de pedras e nós a engolir silêncios  / irrespiráveis…”
“Apetece-me // o silêncio das pedras”.

    Quanto ao emprego frequente da palavra chão, usada no seu sentido literal, não poderemos ver nela um sinónimo do elemento terra? E de Terra Mater? Não será esse chão para Virgínia o que foi para Anteu, o gigante da mitologia que se sentia inexpugnável ao pisá-lo? Um chão que ampara os passos, as quedas, que não devora nem amputa como as ondas do mar: Perdi os braços no alto mar.

 “Cansada de tudo o que me sobra de chão”;
“[…] luz estilhaçada no ventre do chão vazio”;
“Um chão de lume a consumir-me pés e passos”;
“um grito de esperança a eclodir do chão”.

    Da recorrência dos vocábulos corpo, peito e pele falaremos oportunamente.

    As duas primeiras partes do livro são dominadas por um eu que se desnuda perante o leitor, que lhe transmite as suas angústias, os seus desejos e as suas frustrações, um eu que é como um novelo enrolado para o lado de dentro como se considerava Fernando Pessoa. É um ser que sofre e que deixa transparecer a sua dor através do uso de palavras como susto, medo, saudade, solidão, lágrimas, gritos, vazio, perda, suspiro, desmaio, algumas delas a servir de título (ou parte dele) aos poemas


Não há desespero algum neste estar só. Se
permaneço imóvel é porque o silêncio é mais
simples do que a voz de alguém. Na fala dos
outros há sempre a rouquidão das coisas. O
gemido latente das mãos a quererem mais. E
no chão fora de mim há estilhaços onde corro
o risco de ferir os pés. Corações que se partiram
contra as manhãs de vidro dos sonhos.

Aqui estou a salvo. Neste estar só onde é impossível
enlouquecer. Onde não há janelas que me atirem
tempestades. Nem sol que me arda no peito.

    E a propósito uma questão se me levanta: há relação entre o estar só e a criação poética? Calculo que sim.

    Temos a sensação de que o sujeito poético (para usar a terminologia da moda) impõe-se como é antes de fazer entrar em cena o tu que com o eu forma o nós, ambos protagonistas de um drama sentimental adivinhadamente acidentado e que atinge o clímax na III parte. É a explosão dorida do sentimento amoroso, é o assumir de uma dependência sentimental da mulher que, como nas Cantigas de Amigo, suspira pela vinda do amado, pelos seus encontros, dele pede novas às flores do verde pino.
    É, também, a altura de recorrências linguísticas como corpo, peito, pele, sugerindo uma comunhão de desejos e de palavras, de cruzar de caminhos e de afectos. Como acontece em todas as partes do livro, Virgínia faz uma curta introdução também ela poética como as anteriores:

Existir-me-á para sempre // [A doer-me tanto] // O sulco fundo e transparente de um fio de luz a // bordar-te em mim.

    Não cheguei a despedir-me de ti

Não cheguei a despedir-me de ti. Deixaste manhãs
nas cortinas das palavras que ainda não tínhamos
dito, e foste.

 [Uma planície de silêncios a queimar-me os pés. Passos
em combustão no limiar da boca.]

No peitoril da janela aberta morreu pouco depois a
~brancura. E o eco das lágrimas que ela chovia do alto
dessa paz de te querer tanto. E eu, quantas vezes
adormeci sobre a brisa de claridades nascidas da tua
presença simples, sem sombras, eu, que preciso tanto
desse céu limpo sobre o corpo deste não dizer, desse
cair sem dor no chão dos teus dedos, morro agora.

De olhos secos. Derramada em faúlhas de espera. Sem
eco que me salve da tristeza,

[um vento forte a sacudir as palavras que ainda não
tínhamos dito)

porque foste,
e não cheguei a despedir-me de ti.

(alternativas – “No avesso dos voos”, “Dói-me o caminho que sou”,

    A IV parte inicia-se, talvez propositadamente, com o poema “Catástrofe”. É o regresso de um eu agora imbuído de uma preocupação com os outros ( “Sobre as Pedras” – a fome que mata crianças todos os dias), sensível à natureza e às suas dádivas – (“O tempo das laranjas”), crítico em relação a atitudes de religiosidade imposta (“Páscoa”  - Na vigília extensa do Teu nome / algumas mulheres cobrem a cabeça. // Quase todas se vergam em sacrifícios estabelecidos/ e genuflexões mecânicas, e natal (“Que natal é este” – Dentro de mim não há-de caber um natal / que não sabe caber dentro de todos.

    Além do que, creio, ficou patente quanto ao valor literário da poesia de Virgínia do Carmo, gostaria de referir pormenores que me não passaram desapercebidos. Falo da riqueza vocabular por vezes conseguida pela inusitada adjectivação (liquidez inabraçável do mar; gritos angulares; um anseio vertical; flores acéfalas; aresta áspera e estrídula) pelo recurso a termos eruditos (atérmico, admonição; disfásicas; assíncronos; ambular), pela pluralidade de léxicos relativos a áreas do saber convocadas como a geologia, a geografia, a psicologia e a filosofia, a física e a química e, sobretudo, a geometria. Não se trata de intromissões abusivas e arbitrárias, antes surgem como elementos de clarificação de ideias:

Perdi […] a triangulação das estrelas e a síntese química das pedras;
…na rota recta dos/ olhos, na planura esguia dos ângulos do tempo // [obtusos demais];
…Não tenho ângulos para / medir a congruência dos passos.
  
   Termino agradecendo aos presentes a paciência com que me ouviram. Contava escrever um texto curto, mas a obra não mo autorizou. Entusiasmei-me, e lá vai disto…
   Reitero a ideia de que RELEVOS é uma colectânea poética de Relevo. Um marco na poesia portuguesa dos nossos dias a ombrear com poetas vivas como Teresa Horta, Ana Luísa Amaral, Maria do Rosário Pedreira e outras. Que todo o relevo seja dado a este livro em que alguém que tem a poesia inscrita no seu código genético dá prova de segurança e de maturidade, eis o que desejo à autora a quem me cabe agradecer o ter-me investido de tamanha responsabilidade. Obrigada.

M. Hercília Agarez, Macedo de Cavaleiros, 7/ 9 / 2014

20 junho 2014

CONTOS NO TERREIRO AO LUAR DE AGOSTO, de Júlia Ribeiro. Apresentação de Hercília Agarez

 A memória é a sentinela do espírito      Shakespeare

Hercília Agarez e Júlia Ribeiro no "artes e livros"
    Para quem a não conhece, diremos que nasceu em Torre de Moncorvo, se licenciou em Filologia Germânica em Coimbra, é mestre em Ciências da Educação  e exerceu importantes cargos no âmbito do ensino, tendo sido leitora na Universidade de Leipzig.
    Para o que aqui nos interessa, diga-se que foi autora de vários livros cujas datas de publicação desconhecemos. É para falar da última obra que estamos aqui, embora pouco tenhamos a acrescentar ao que constitui a sua matéria introdutória. Na verdade, após um prefácio escrito por mão segura e conhecedora dos meandros da cultura popular transmontana em que são realçados os aspectos mais relevantes do livro aos níveis do conteúdo e da forma, temos dois testemunhos sobre o mesmo e a introdução da responsabilidade da própria autora. Não temos, portanto, muito a acrescentar, com a desvantagem (ou vantagem?) de desconhecermos Júlia Ribeiro.
    Lemos o seu livro na totalidade, embora não profundamente por falta de disponibilidade. Assim, passaremos à sua apreciação, resultante da nossa sensibilidade enquanto leitores.

   Parece ser timbre dos transmontanos o seu apego às raízes. Nascidos em terras desfavorecidas e vítimas de uma interioridade madrasta, tiveram, aqueles a quem estavam reservados mais altos voos, de se deslocar para meios académicos. Outros, para quem o amor soou mais alto, seguiram o seu destino familiar a arrastá-los para longes terras. Seja como for, raramente renegaram o berço, tantas vezes humilde, onde abriram os olhos para um mundo de pureza e de silêncio. E ei-los, sempre que possível, em busca de sítios e gentes da sua infância, a segregarem baba, como o cão de Pavlov, à simples ideia de irem saborear aquele fumeiro inconfundível, a tenrura de uma boa posta, o sabor das couves num caldo bem regado com azeite da região e migado com a broa que conseguiu escapar à modernidade.

03 março 2014

Grémio Literário Vila-Realense - Gaveta do Fundo, de A. M. Pires Cabral

Câmara Municipal de Vila Real
Grémio Literário Vila-Realense

    Convite

O Presidente da Câmara Municipal de Vila Real, Eng.º Rui Jorge Cordeiro Gonçalves dos Santos, e o Presidente da Direcção do Centro Cultural Regional de Vila Real, Prof. Doutor Carlos Augusto Coelho Pires, têm a honra de convidar V. Ex.ª e Exm.ª Família a assistir à sessão de apresentação do livro Gaveta do Fundo, de A. M. Pires Cabral, que terá lugar no dia 14 de Março de 2014, pelas 21h00, no Salão Nobre do Centro Cultural Regional de Vila Real.

A apresentação estará a cargo da Dr.ª Maria Hercília Agarez.