Mário Cláudio diz muito em pouco
espaço e tudo em tempo reduzido. As palavras querem-se ganhas, contidas,
trabalhadas, buriladas em final de pena.
Ernesto Rodrigues enreda
ironicamente uma história ficcional em tempos presentes, postos em causa por
regime político, dito democrático.
Existe um discípulo.
Num, um pai adoptivo, um mestre,
um herói, um ídolo.
Noutro, um pai verdadeiro, (dois
pais) que rejeitou a sua existência e vem mais tarde redimir-se de tal acto.
"Retrato de Rapaz" é
uma pintura cromática de Leonardo da Vinci, intensa, odorosa, plena de afectos,
em miscelânea de decepção, dor e angústia. Mário Cláudio é o Mestre, o Homem.
Ernesto Rodrigues, em
"Passos Perdidos" de rebeldia, mediocridade, amorfismo, hipocrisia,
vaidade, inveja e maledicência, põe-nos perante um enredo presente de uma
realidade nua e crua que transforma em ironia, questionando-nos de forma
aspiciente sobre o nosso passado e o nosso presente. Maravilhoso e multifacetado
romance!
Cinco séculos é tempo demais?
Para quem, se comportamentos humanos semelhantes?
Leonardo,
de quem não se conhece qualquer relação amorosa, foi talvez o caso mais famoso
de esquerdismo, diz-nos Mário Cláudio citando Sigmund Freud. Porém, o presente
herói, é o discípulo eterno do Mestre,
rapaz belo, de rosto bronzeado, cabelos aos caracóis, 10 anos de vida. Modelo e
discípulo picado de pulgas no pescoço e a quem nem a lavagem consegue remover o
sarro acumulado. Garoto confrontado por umas pupilas azuis do tom das pétalas
da pervinca, mestre, amo, pai, amigo, deus, monstro e feiticeiro. Tal
mafarrico, Salai, merece mais um par de corninhos do que umas asas de anjo, mas
Leonardo mandou talhar-lhe "duas camisas, dois calções e um gibão".
Um criado novo para varrer o chão da oficina, que pose para um ou mais
desenhos, um catraio e diabrete, a quem foi necessário dar banho, catar os piolhos
e ensinar o nome dos bichos da terra.
A Arte da Política
(diga-se Furtar com unhas políticas), encerra dois preceitos: o bom para mim e
o mau para vós, e, a razão de Estado, pois, não estou seguro, tendo junto de
mim quem me faça sombra. Pergunta Ernesto Rodrigues: um jovem político com
futuro ou um jovem com futuro na política? Aí está a diferença. Subir a escadaria
da Assembleia da República, entrar nela, na sede da democracia, apesar da
falência do regime, auscultados por dois lagos azulinos e "seios
suspensos, ali na minha cara túmidos de vergonha", no outrora Mosteiro de
São Bento da Saúde ou de S. Bento dos Negros. Os Passos Perdidos, obra de
artista com história, onde se passeiam vaidades, ódios, rancores, hipocrisias e
negociatas. De mão flácida e com cheiro a suor de 3 dias, deputado surge: - Às
ordens de Vªs. Exªs., ... "já que para ele os votos são matéria volátil,
como a própria vida, ele que se ia candidatar pela 15ª vez em quatro décadas".
CEO pronto, oferece os seus humildes préstimos, colocando jovem colaborador ao
seu serviço, já que ele não pode surgir mais nesta mistura de negócios, melhor,
banco de investimento, com política. Escolha? Defesa da nação há décadas, sem
sair "da última fila do hemiciclo", já que o maior perigo vem do
próprio partido e das amizades fingidas.
Ladrão
e mentiroso, teimoso e ganancioso, discípulo de má sorte, mas a quem a amizade
moldou inquebrantável. Era necessário ensinar-lhe a não ser vaidoso, nem
arrogante, pelo que a bela vestimenta que lhe mandou fazer, foi destruída, logo
que a vestiu. Seguia-o como cachorro, por isso as pessoas pensavam e ofereciam
olhares intencionais "insinuando um relacionamento entre eles que talvez
fosse preferível deixar por esclarecer". Mas havia verdadeiros discípulos,
como um tal Marco d`Oggiono, favorecido por um talento invulgar a quem o Homem
"protegia com desvelo superior ao que dedicava aos restantes".
Argila, bronze, pincéis, moldes, papéis, lâminas de refracção, tintas, como a
vermelha, que continha "clara de ovo, cinza, vinagre, terra, pó de tijolo,
alcatrão, óleo de linhaça, terebentina e sebo".
O capitalismo tem de
repensar-se perante a penúria de quatro quintos da humanidade. Tal desiderato
ocorrido ao aprendiz de economia em entrevista com estagiária de jornalismo,
brasileira, de Ipanema, a quem expôs o benefício de escrever artigo sobre
determinado deputado. As congeminações financeiras de "não confiar",
"antes de mais, evitar ser apanhado em fraude fiscal e abuso de
confiança" ou "venha a nós o vosso reino", continuava
insidiosamente o aprendiz referindo à estagiária os bons serviços prestados ao jornal,
à banca e à democracia, embora ambos não passassem de uma peça de engrenagem,
disso tinha consciência. Mas continuava com a lição bem estudada, este nosso
herói de 1ª pessoa, em "mandar descobrir qualquer coisa encoberta da vida"
do "Frade Negro". E falava do comportamento político desse
"Frade Negro" que era nenhum. Ele próprio, que não era "sua
opinião, porque não tinha opinião". Na discussão da vida política parecia,
a pouco e pouco, esmerar-se, chegando mesmo aos artigos da Constituição da
República e ao seu preâmbulo" "abrir caminho para uma sociedade
socialista" por que não "abrir caminho para a felicidade".
Não seria mais simples e eficaz?
Pois não é o que desejam todos os seres humanos, serem felizes? Como? Cada um à
sua maneira! Como conciliar então, interesses tão díspares e visões
heterogéneas de felicidade?