Poesia da vida
Por Norberto Francisco Machado da Veiga[1]
O poeta é
aquele que escolheu ter um ser através da sua linguagem. Isso pressupõe que a
linguagem possa dizer o ser. Por essência a poesia nunca duvidou disso, ou
duvidou
afirmando-se
através dessa dúvida.
Eduardo Lourenço, Pessoa
Revisitado, Gradiva,
2.ª Ed.ª, 2003, p. 23
Começo por convocar, em minha defesa,
as palavras de Eduardo Lourenço: «O crítico é o leitor que se crê autorizado a
decidir por imaginar ter descoberto os critérios, os pontos de referência, o
sistema capazes de introduzir uma ordem no caos da criação»[2]. E, ainda,
as palavras de Gastão Cruz: «O discurso
crítico perseguirá o poema sem nunca alcançar o que ele é, porventura,
inalcançável, ou melhor, o que nele não é explicável, nem parafraseável, nem
redutível a uma segunda linguagem»[3] É,
pois, adotando estas duas atitudes que escrevo o presente texto.
I – Temas e motivos da poética de Francisco Lopes
Na Epístola aos Pisões do poeta latino Horácio que, anos
mais tarde, Quintiliano apelidaria de «Ars Poetica» ou «De Arte Poetica Liber»
encontra-se o seguinte preceito: «No arranjo das palavras deverás também ser
subtil e cauteloso e magnificamente dirás se,
por engenhosa combinação, transformares em novidades as palavras mais correntes.»[4].
Creio poder asseverar, sem cometer um crime de lesa-majestade, que Francisco
Lopes, ao longo da sua atividade literária, seguiu este preceito à letra. O
mesmo se encontra patente nos seus vários livros de poesia e, de forma mais
acutilante, nos dois derradeiros, onde, sem qualquer dissídio, a sua ars,
atinge uma tal depuração que corrobora a citação do grande poeta latino. Ora
esta capacidade de traduzir o mundo através das palavras foi uma decisão
prematura que o poeta abraçou desde tenra idade, quando despontou para o mundo
da escrita e da poesia. Com o tempo apreendeu um outro ensinamento de Horário
que se traduz na comparação do ofício cantante, isto é, da arte poética com a
arte do marceneiro no apurado e demorado trabalho da lima que, em termos
poéticos, nada mais significa do que muita emenda e aperfeiçoamento dos versos
que enformam o poema. Esta qualidade não deixa de ser percetível ao leitor que
se entregue à tarefa de ler os restantes três livros de poesia, a seguir
mencionados, que o autor já publicou e encontra-se, de forma cristalizada, em Percursos.
