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09 junho 2014

PERCURSOS, por Francisco José Lopes

Poesia da vida

Por Norberto Francisco Machado da Veiga[1]

O poeta é aquele que escolheu ter um ser através da sua linguagem. Isso pressupõe que a linguagem possa dizer o ser. Por essência a poesia nunca duvidou disso, ou duvidou
afirmando-se através dessa dúvida.

Eduardo Lourenço, Pessoa Revisitado, Gradiva,
2.ª Ed.ª, 2003, p. 23


Começo por convocar, em minha defesa, as palavras de Eduardo Lourenço: «O crítico é o leitor que se crê autorizado a decidir por imaginar ter descoberto os critérios, os pontos de referência, o sistema capazes de introduzir uma ordem no caos da criação»[2]. E, ainda, as palavras de Gastão Cruz: «O discurso crítico perseguirá o poema sem nunca alcançar o que ele é, porventura, inalcançável, ou melhor, o que nele não é explicável, nem parafraseável, nem redutível a uma segunda linguagem»[3] É, pois, adotando estas duas atitudes que escrevo o presente texto.
I – Temas e motivos da poética de Francisco Lopes

Na Epístola aos Pisões do poeta latino Horácio que, anos mais tarde, Quintiliano apelidaria de «Ars Poetica» ou «De Arte Poetica Liber» encontra-se o seguinte preceito: «No arranjo das palavras deverás também ser subtil e cauteloso e magnificamente dirás se, por engenhosa combinação, transformares em novidades as palavras mais correntes[4]. Creio poder asseverar, sem cometer um crime de lesa-majestade, que Francisco Lopes, ao longo da sua atividade literária, seguiu este preceito à letra. O mesmo se encontra patente nos seus vários livros de poesia e, de forma mais acutilante, nos dois derradeiros, onde, sem qualquer dissídio, a sua ars, atinge uma tal depuração que corrobora a citação do grande poeta latino. Ora esta capacidade de traduzir o mundo através das palavras foi uma decisão prematura que o poeta abraçou desde tenra idade, quando despontou para o mundo da escrita e da poesia. Com o tempo apreendeu um outro ensinamento de Horário que se traduz na comparação do ofício cantante, isto é, da arte poética com a arte do marceneiro no apurado e demorado trabalho da lima que, em termos poéticos, nada mais significa do que muita emenda e aperfeiçoamento dos versos que enformam o poema. Esta qualidade não deixa de ser percetível ao leitor que se entregue à tarefa de ler os restantes três livros de poesia, a seguir mencionados, que o autor já publicou e encontra-se, de forma cristalizada, em Percursos.