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16 fevereiro 2014
15 fevereiro 2014
O MÍNIMO SOBRE A LÍNGUA MIRANDESA, por Amadeu Ferreira
1. O que é o mirandês?
O mirandês, ou língua mirandesa,
é o nome de uma língua falada no Nordeste
de Portugal, já desde
antes da fundação
da nacionalidade portuguesa. Quanto à estrutura é uma língua românica, que teve
a sua principal origem a partir do latim. Históricamente pertence à família de
línguas astur-leonesas, onde também se incluem o asturiano e o leonês.
Até 1884 foi uma língua apenas
oral. Desde então, tem sido também escrita, dispondo de uma Convenção Ortográfica
desde 1999. Nomeadamente a partir do século XVI e apesar de ser uma língua
falada em Portuugal desde o começo da sua existência, o mirandês é uma língua
menorizada quer em termos culturais e sociológicos quer em termos políticos,
levando a que Portugal fosse apresentado, até há muito pouco tempo, como o único país monolingue da Europa, afinal falsa excepção à
regra do bilinguismo ou multilinguismo dos diversos países. Em 1999, com a lei nº
7/99, de 29 de Janeiro , o mirandês foi oficialmente reconhecido como
língua regional de Portugal,
2. Onde se fala mirandês?
A língua
mirandesa é falada em
todas as aldeias do concelho de Miranda
do Douro, com excepção de duas (Atenor e
Teixeira), e em três
aldeias do concelho de Vimioso (Vilar Seco , Angueira e Caçarelhos), no distrito
de Bragança. O mirandês foi, apressadamente, dado como extinto em aldeias como
Caçarelhos, porém, apesar de muitíssimo debilitado, continua aí a ser falado
por pessoas de idade. A área ocupada pela região onde se fala o mirandês tem à volta
de 500 km 2 de superfície
e situa-se na fronteira com a província
espanhola de Zamora (Aliste e Sayago). O mirandês é também
falado por
muitos mirandeses que
imigraram para as principais
cidades do país
ou que
emigraram para o estrangeiro.
O espaço
onde se falou mirandês ou outras variedades
do astur-leonês já foi bastante mais vasto , incluindo, em
traços gerais e grosseiros, toda a zona do distrito de Bragança que
se situa entre a margem
esquerda do rio
Sabor e a fronteira
com Espanha. Terá sido assim na Alta Idade Média , regredindo progressivamente em
direcção à fronteira . Além do mirandês, outras falas
astur-leonesas se mantiveram até há pouco tempo na zona fronteiriça do
concelho de Bragança, chamada Lombada, em
particular nas aldeias de Rio de Onor,
Guadramil, Deilão e Petisqueira . Porém,
a fala leonesa tem sido dada como extinta nestas aldeias, embora não seja
totalmente clara a situação de Rio de Onor.
Apesar de já
não se falar
mirandês nessa região mais vasta , ainda pode falar-se de uma cultura
comum , em
particular na área
correspondente à medieval
Terra de Miranda (concelhos de Miranda do Douro,
Vimioso, Mogadouro e parte dos concelhos de Freixo de Espada à Cinta, de
Bragança e de Macedo de Cavaleiros), cultura essa que se manifesta pelo ar de
família que o vocabulário usado continua a manter, pela fonética e muitas
construções sintácticas do português falado nessa zona, pela similitude de
festas, tradições, música e dança.
11 fevereiro 2014
09 fevereiro 2014
A OITAVA COLINA, DE MODESTO NAVARRO
António Modesto Navarro (Vila Flor, 1942) é um dos escritores mais fecundos da literatura trasmontana, com uma vasta obra no campo da ficção, a que acaba de acrescentar A oitava colina, 2013, romance publicado pela editora Página a Página, de Lisboa.
Tal como em tantos dos seus romances, Modesto Navarro narra uma história de resistência ao fascismo. Lê-se na contracapa:
«Na década de 1960 principiaram a guerra colonial e a emigração para a Europa. A experiência da vida de então em Lisboa, a resistência, a formação dos soldados, a guerra em África e a construção do 25 de Abril na clandestinidade e no movimento democrático (CDE) estão nestas páginas, na vontade de viver e de lutar dos trabalhadores e dos intelectuais conscientes e interventivos, na prisão e na tortura, na Revolução e depois, até agora, numa nova resistência que se impõe para transformarmos a vida.
Este é um livro de amor, de libertação e afirmação humana no interior do país e em Lisboa.»
O romance distingue-se pela agilidade narrativa e por uma prosa amadurecida e envolvente.
08 fevereiro 2014
Livros e Autores Transmontanos,por Barroso da Fonte
![]() |
| 43 capas de livros de autores transmontanos.Foto de arquivo. |
Indiferentes à crise os
Transmontanos teimam em demonstrar que a cultura sobrevive e cada vez mais se
afirma como luz da humanidade. De Chaves a Bragança, de Mirandela à Régua, de
Vilar de Perdizes a Sabrosa tudo mexe. Os ciclos viciosos revelam-se mais em
alturas destas. O poder político confronta-se com heranças falidas. A cultura é
a primeira vítima. Os criativos multiplicam-se e essa sementeira revela-se em
obras de arte: livros, pintura, escultura. Ao vazio central falta o que se
procura no poder local. Mas a crise toca a todos. E até aquilo que durante anos
foi a voz do povo anónimo, é hoje o espelho da magreza social. Refiro-me aos
jornais regionais que prestam altíssimos serviços e que custam os olhos da cara
a quem os gere e produz.
Trás-os-Montes e Alto Douro, antes
e depois da revolução dos cravos, teve órgãos desses às dúzias.
Faziam falta aos emigrantes, aos
industriais, aos empresários da modernidade, às instituições públicas, ao
cidadão que gosta de andar bem informado e a tempo e horas. De repente todas
essas classes ficam órfãs. Quem criou e geriu essas vozes públicas não resistiu
às tempestades. Foram muitas, diversificadas e terríveis. O país sofreu um
abalo sísmico. As regiões empobreceram. E nem sequer podem manifestar-se, de
alegria ou de tristeza, por essas transformações que repercutiam o pensamento
que fecundava a alma das gentes e entoava hinos ao criador.
Chaves tem hoje apenas um jornal.
Bragança tem dois, tantos como Vila Real. Mirandela dois. Régua e Vila Pouca
cada um seu. Boticas 1, Valpaços dois e Montalegre três. Só falo dos que
conheço. E cito-os para os elogiar pela coragem dos seus responsáveis a quem
todos devemos bater palmas. Já que sustentar um jornal regional em zonas do
interior, custa tanto como mandar um foguetão ao espaço. Se esqueço algum é por
ignorância.
Uma classe que muito sente essa
falta é dos criativos. Eles e os órgãos de informação são aliados naturais. Os
autores dos grandes centros urbanos não sentem essa falta. Têm as televisões,
as rádios e os jornais que se atropelam. Cada vez que um intelectualóide dá um
espirro, inicia o seu ciclo ascensional de efemeridade. Logo vem a turba multa
mediática apregoá-la como obra de arte. Fabricam-se assim, os compadres, as
comadres, as uniões de facto do oportunismo saloio que tão pernicioso tem sido
ao país real.
Afloro este tema para exaltar os
jornais que vão resistindo e que, apesar de toda a sua solidariedade, nem
sempre podem garantir o espaço (ou tempo de antena) que os autores merecem.
Esta é a síntese dos chamados ciclos viciosos que a crise nacional implementou,
graças aos políticos que temos. Atento ao que se vai editando, sempre me
alegrei com o número e qualidade daquilo que vai surgindo através dos criativos
que não nascem em Lisboa, Porto e arredores. De quanto me chega procuro dar eco
para que se saiba quem e que progresso vamos tendo. Ficam os nomes e títulos de
alguns desses exemplos:
Alexandre Parafita
surpreendeu-nos, desta vez com um ensaio biográfico a que chamou: A Máscara do
Demo. O ressurgir de um bispo português que se chamou Frei João da Cruz, da
Ordem dos Carmelitas Descalços que «governou com mãos de ferro, em meados do
século XVIII, as dioceses do Rio de Janeiro e de Miranda do Douro».Obra
admirável, enriquecedora e a não perder.
Ernesto Rodrigues (Torre de D.
Chama) igualmente docente universitário e presidente da Academia de Letras de
Trás-os-Montes. Um romance sobre a poderosa Casa de Bragança que teve os seus
fortes e longínquos alicerces em todo o Norte do País até Vila Viçosa. Oportuna
reconstrução histórica destes 600 anos de existência transcendental. A este
livro de leitura obrigatória aumente-se A Terra de duas Línguas II Antologia de
Autores Transmontanos. Ernesto Rodrigues e Amadeu Ferreira, duas personalidades
académicas de referência nacional, que puseram a Academia de Letras de
Trás-os-Montes em linha de alta velocidade. São 55 autores que em Português e
em Mirandês que ficam registados a chave de ouro.
António Jorge Nunes, autarca
Brigantino reuniu em 384 páginas a chancela da sua faina concelhia. O melhor
testemunho de Gestão do Município de Bragança entre 1998 e 2013, mostrando como
se empreende e executa, desafiando o futuro. Honra e glória a quem colocou
Bragança no Mapa.
Jorge Lage reapareceu com Memórias
da Maria Castanha, última investigação sobre o tema que o transformou no mais
esclarecido autor sobre a castanha. O vocabulário, a variedade, as expressões,
os provérbios, as receitas tradicionais e outros saberes etnográficos acerca do
castanheiro passam por aqui. Este tema é sinónimo de riqueza Transmontana e
este Autor tem vindo a tratar, com olhos de quem sabe e quer promover aqueles
que desprezam uma riqueza à vista dos olhos.
03 fevereiro 2014
UM OLHAR SOBRE O DOURO,por M. Hercília Agarez
À memória de António Cabral e de Caldeira
Azevedo
O SONHO QUE NOS LEGARAM
Douro dos
montes em calvário
E dos
passos vertiginosos
ouve-me:
assim não
havemos de morrer.
Estenderemos
o sonho que nos legaram
os que
morreram antes de nós;
estenderemos
esse manto azul
e, um dia,
sabemos
que é
nossa a terra da promissão.
………………………………………………………………………António Cabral, in POEMAS DURIENSES
………………………………………………………………………António Cabral, in POEMAS DURIENSES
A NATUREZA FOI PARA O DOURO VERDADEIRA TERRA MATER. Dotou-o de virtudes, moldou-lhe
a beleza, excedeu-se em adornos, ensinou-lhe as manhas da sedução, encheu-lhe
as entranhas de tesouros, concedeu-lhe o xisto, por cortesia, dele fez terra
fértil, daimosa. Mimou-o, mas fê-lo robusto. Preparou-o para os contratempos da
vida. Toucou-o de flores e de frutos. Deu-lhe perigos, mas forneceu-lhe armas
de defesa. E exigiu-lhe, em contrapartida, que se mostrasse digno do seu
destino: maravilhar o mundo, embriagando todos os sentidos, produzir o que de
melhor é capaz um solo de eleição. Geia fez a sua parte. Guardou para o homem o
resto. E este soube interpretar com mestria e abnegação o papel que lhe foi
atribuído.
O HOMEM DO DOURO NÃO TEVE ESCOLA. Herdou a
sabedoria e aumentou-a. A experiência lhe serviu de mestra. Os erros foram a sua
pedagogia. Os sucessos, seus estímulos. Os insucessos, desafios. Humilde de
condição, dispensou louros. Das fraquezas fez forças. Do desânimo de um hoje, a
esperança de um amanhã. Não buscou protagonismo, nem sonhou com aplausos.
Apenas o revoltou a fome, o pouco pão.
DOURO. A PALAVRA É DOCE, EUFÓNICA.
Presta-se à homofonia – de ouro. E à homonímia. Douro é, também, uma forma do
verbo dourar. Douro o Douro. Douro de ouro.
NÃO DIGA QUE CONHECE BEM O DOURO, em toda a
sua variedade e especificidade, se o não visitou em todas as estações do ano.
Cada uma encerra os seus encantos, os seus segredos. Todas falam do ciclo do
trabalho da vinha e do vinho, da poda ao lagar. A cada uma compete preservar
tradições ancestrais que a modernidade vai pondo no rol das espécies em vias de
extinção. Sinta o frio das manhãs de geadas a barbear-lhe o rosto. Engula a
brisa adocicada de primaveras e verões luminosos. Em tempos de vindimas,
lembre-se do passado – das rogas, dos cardenhos, da exploração dos
trabalhadores, do peso dos cestos vindimos alombados por homens socalcos
abaixo, das lagaradas de pisa acompanhada ao som de ferrinhos e concertinas, a
esconjurarem sonos e cansaços.
PAISAGEM DO DOURO. Montes e rio. Rio e
margens. Barco rabelo em museu de ar livre, para turista ver. Foi-se a vela
quadrada, ficou o cavername, protegido pela espadela, qual espada pronta para
todos os combates. Barcos da civilização. Do bem-estar. Do prazer. Deslizando
em leito sem pontos assassinos, sem valeiras do tempo de Forrester e de D.
Antónia. Embarcações de encher o olho, a lembrar cruzeiros de Danúbios e Renos.
Quem neles viaja não leu a epopeia “Lusíadas sem Camões”. Assim chamou Jaime
Cortesão aos Hércules da vinha. O turista que saboreia o vinho fino ignora a
via-sacra que lhe subjaz. Não calcula quantos homens pereceram em cachões, em
obras de construção da via-férrea, de estradas, de socalcos. Quantos se ficaram
abafados em tonéis. Não identificam o cheiro a suor, nunca viram mãos
calejadas. Desconhecem a geometria do engaço, da foice, da enxada. A forma do
pulverizador. O cheiro do sulfato. Nunca viram erguer uma videira “como quem
faz a trança à filha”, como escreveu Torga.
O DOURO NO PLURAL. De vinhedos, olivais,
amendoais, laranjais. De miradouros, altares de culto, alcandorados nos
cocurutos das serras. Recolhimento/deslumbramento. Alvas ermidas rebocadas, de
santos protectores recolhidos, enclausurados, à espera do dia da festa para
poderem, também eles, gozar o espectáculo com que mortais se comovem. Douro
policromático. Vem primeiro o amarelo, com as mimosas, de floração efémera,
feita de bolinhas douradas a fazer lembrar contas de Viana. Março é mês de
rivalidade entre árvores fruteiras. A amendoeira vence a corrida, chegando à
frente do pelotão à meta da beleza branco-rosa. Seguem-na, ao desafio, as
outras espécies que dão frescura e sabor a bocas gulosas. Tons idênticos.
Vejam-se as amendoeiras em flor, a neve da Terra Quente. Promessas de vida. Da
flor ao fruto, da cor à cor, da cor ao sabor, ao cheiro, ao tacto.
“MONTES PINTADOS” DE JOÃO DE ARAÚJO CORREIA. Na Primavera os montes
engalanam-se de roxo, de branco, de amarelo. Giestas, urzes e estevas. Poucas
torgas. Rosmaninho. Combinação harmónica de tonalidades. O Outono desafia a
paleta do pintor: cores de topázio, de rubi, de ametista. Preciosas como
pedras. Sem esquecer o azul do céu, o esverdeado do rio, o fugidio acinzentado
das garças. O verde é omnipresente e persistente, graças à abundância das
oliveiras que debruam nacos de vinha como
picots naperons de linho. E os ciprestes, ícones de quintas, empertigados
guardas sem direito a rendição. E sem cheiro a morte.
António Manuel Caldeira Azevedo escreveu em
Ode ao Douro, poucos meses antes da
partida:
As
paisagens são palimpsestos que o espírito das águas e dos ventos não descansa
de sonhar. Leonardo da Natureza, a erosão forma o informe, o vegetal, palete de
guaches, pinta, o homem, expulso, jardina. O Douro baixo-relevo talhado pela
glosa da água e recital do vento, e retábulo de aguarelas de belo natural e
humano: Garganta de Miranda, estreito que a força do destino das águas rasgou;
Congida, virgindade que gigantes telúricos guardam, beijada pelas garças e
coroada pela auréola que o voo circular dos grifos desenha bem para lá do sobreiral
e das fragas.
In Ode ao Douro
Está feita a minha insignificante homenagem
a dois poetas do Douro com quem convivi e que me deixaram saudades. Não conheci
Torga, mas escolhi-o para rematar este meu breve olhar deslumbrado:
Nas
margens de um rio de oiro, crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe
e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em
íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza, crescem as cepas como os
manjericos às janelas. No Setembro, os homens deixam as eiras da Terra-Fria e
descem, em rogas, a escadaria do lagar de xisto. Cantam, dançam e trabalham.
Depois sobem. E daí a pouco há sol engarrafado a embebedar os quatro cantos do
mundo.
in
PORTUGAL
M. Hercília Agarez, Fevereiro de 2013
Nota: texto publicado no número 19 do Boletim Cultural da
Escola Camilo Castelo Branco.
01 fevereiro 2014
A. M. PIRES CABRAL - A TERRA DEVASTADA, por José Mário Silva
DOIS HOMENS NUM SÓ ROSTO – Temas Torguianos de M. Hercília Agarez
Livrarias onde se
encontra à venda o livro DOIS HOMENS NUM
SÓ ROSTO – Temas Torguianos de M. Hercília Agarez
Livraria da
Universidade de Aveiro
Régua Mágica (Régua)
Lameg’ Arte (Lamego)
Ferin (Lisboa), Novo Século (Mogadouro)
Americana e Boa
Leitura (Leiria)
Unicepe (Porto)
Livraria José Alves
(idem)
Leitura Bom Sucesso
(idem)
Contraste (idem)
Salesiana (idem), Casa Castelo Editora (Coimbra)
Livrarias Branco e
Traga-Mundos (Vila Real)
Clássica (Moncorvo)
Poética (Macedo de
Cavaleiros)
Rosa d’Ouro
(Bragança)
OUVIR: PROGRAMA AGOSTO - Hercília Agarez
29 janeiro 2014
RIBEIRA DE PENA E CAMILO: O PRINCÍPIO DO FIM DA SUA ODISSEIA AMOROSA,por M. Hercília Agarez
“Envelheci a amar” in No Bom
Jesus do Monte
Introdução
Na sua obra Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett, socorrendo-se de um dito
de Yorick, bobo do rei da Dinamarca, afirma, vindo em defesa de Carlos, seu alter ego: “O coração humano é como o
estômago humano; não pode estar vazio, precisa de alimento sempre.” Assim foi
com Camilo. Revela-o, por exemplo, o testemunho de Ricardo Jorge na descrição
que faz do seu casamento com Ana Plácido:
“No sofá, aconchegados os noivos, ambos de
charuto ao canto da boca. Camilo está outro, calmo e contente, fala e graceja
como de costume nos seus bons momentos. Acaricia a mulher, dirige-lhe
requebros, chama-lhe a cada passo a Srª Viscondessa, sublinhando o título com
entono e realce.” in Como se Casou Camilo
Desenvolvimento
Qualquer estudo sobre o percurso humano de
Camilo é um quebra-cabeças. Porque ele transfere para a ficção romanesca e para
as crónicas pedaços da sua vida, porque os seus biógrafos e estudiosos nem
sempre convergem em análises de factos e respectivas datas. O que eram, no
início dos estudos camilianos, dados adquiridos, alguns talvez baseados em nem
sempre críveis fontes orais, veio, com o aumento de rigor posto na investigação
e inerente busca de documentos autênticos, a tornar-se falsidade. Refiram-se
ainda revelações inesperadas que camilianistas apaixonados e insaciáveis nos
oferecem, como é o caso do livro “Os manuscritos de Gertrudes” da autoria de
Manuel Tavares Teles. A bibliografia passiva camiliana é, por outro lado,
imensa, ao mesmo tempo que a conturbada existência do “torturado” se presta a
especulações. Saber, sobre Camilo, onde acaba a verdade e começa a lenda, é
tarefa difícil para quem se dedica ao estudo da sua biografia. Que ela dava
romance, prova-o a existência dos livros O
Romance do Romancista de Alberto Pimentel e de O Romance de Camilo de Aquilino Ribeiro.
Se dermos créditos ao que Camilo escreve,
em verso e em prosa, não aportou ele a Ribeira de Pena virgem de coração. Terá
sido enfeitiçado por donzelas da aldeia da Samardã, tão puras como águas de
riacho ou como as ervas que as suas ovelhas pasciam. Fora, pois, o campo o
cenário idílico de “devaneios infantis” entre o rapaz a entrar na puberdade e
as camponesas enredadas em tarefas agrícolas.
Elas (Luísa, Rosa, Ângela, Margarida???)
lhe terão inspirado poemas mais tarde recolhidos em Um Livro, oferecido ao grande amigo/editor/protector José Barbosa e
Silva em 1854.
Se
alguns correspondem a figuras/flirts reais, outros não passarão de criações
justificativas do cultivo de versos no género lírico para o qual, convenhamos,
Camilo não foi vocacionado. Desfaz-se em redondilhas lamechas e inflamadas, em
torrentes verborreicas de rimas pobres, como é o caso de uma composição poética
de dezasseis estrofes irregulares dedicada a uma tal Luísa:
Luísa
Luísa, flor entre as fragas,
donairosa camponesa,
toda graças e pureza,
lindo esmalte das campinas,
colhes no prado as boninas
brincas à tarde, na espalda,
onde verdeja a alameda
da viva cor da esmeralda?
Brincas, Luísa, afagando,
o que mais amas no bando,
o teu alvo cordeirinho?
[…]
Quando, à noite, o gado metes,
farto e ledo, em seu redil,
vais no coro das donzelas,
onde as não viste mais belas,
descantar cadenciosos
carmes de alma tão saudosos,
dum sabor tão infantil!...
…………………………………………………
Joaquina Pereira de França (1826-1847)
Quando,
há anos, a Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, a Casa de Camilo e o
Centro de Estudos Camilianos promoveram uma exposição itinerante sobre as
mulheres de Camilo (título ambíguo), houve omissões iconográficas naturais como
a da mãe do escritor e a da freira Isabel Cândida. Também não consta nenhuma imagem
de Joaquina Pereira de França. Com base na opinião de Alberto Pimentel de que
seria ela muito parecida com a irmã Rosa, cabe-nos, através da fotografia
desta, imaginar aquela que Mário de Meneses caracteriza como uma “mocetona de
peitos empinados e tez morena”.
Na altura em que um rapazola endiabrado e à
deriva nos caminhos da vida troca a Samardã por Friúme, estamos ainda longe de
poder contar com a sua epistolografia como suporte para a análise e conhecimento
do seu quotidiano sentimental, profissional e social. Assim sendo, teremos de
cingir-nos aos biógrafos ou simples estudiosos e encontrar, em alguma ficção,
caminhos paralelos.
Em Uma
Sombra Picada das Bexigas João de Araújo Correia, para quem o autor de Anátema era o exemplo máximo do culto da
língua portuguesa, escreve:
“Se
transpusermos, no distrito de Vila Real, a serra do Alvão, caímos em Ribeira de
Pena, terra onde Camilo, dos dezasseis aos dezoito anos, viveu o equivalente a
vinte anos de vida ordinária. Pandegou, namorou, casou, estudou e intrigou. Mas
fez mais… Observou o ambiente, subiu e desceu montanhas, caçou factos vivos que
lhe serviram, durante a vida literária, como sementes de efabulações.” […]
Viveu em Friúme dois anos completos. Antes de casar, terá sido hóspede de sua
prima Maria do Loreto, consorte estapafúrdia de um tal Moreira. Depois de
casado, viveu num denegrido cardenho, hoje arruinado e desabitado.”
No seu livro O Penitente (Camilo Castelo Branco), Teixeira de Pascoaes dá-nos
conta da ida de Camilo da Samardã para Friúme. Aí exercerá a primeira
actividade – a de ajudante de tabelião. A aldeia, descreve-a assim: “Friúme é
um pequeno povo, três ou quatro fogos arrefecidos, na margem do Tâmega e perto
de Ribeira de Pena. Fica num fundo vale, onde os empinados montes circundantes
despejam torrentes de sombra, ao pôr-do-sol. E é logo a escuridão absoluta a
rever-se nas águas do Tâmega, adormecida no seu leito. E adormecidas sonham as
estrelas. E as estrelas sonhadas brilham como as verdadeiras.”
Chegado a Friúme, para onde fora impontado na
expectativa de aí aprender o significado da palavra trabalho, pensaria o
adolescente armado em sedutor conquistar as moçoilas das redondezas. Tal não
terá acontecido, segundo Ludovico de Meneses citado por Aquilino que afirma,
por tê-lo ouvido no local, fazerem elas dele “gato-sapato”, correndo-o à
pedrada e chamando-lhe, em voz bem alta, feião.
Diferente tratamento lhe terá dispensado
Joaquina Pereira, “uma destas raparigas de aldeia, meio senhoras, meio camponesas,
a quem tratam pelo diminutivo afectuoso” no dizer de Aquilino. Ela era, pois,
Quinita.
Estamos em Março de 1841. Dois jovens quase
da mesma idade apaixonam-se. Não haveria na pequena aldeia muito por onde
escolher… Ela teria a frescura aldeã de uma maçã camoesa ainda não bem madura,
mas a prometer doce sumo. Ele, galante q.b., ar citadino e bem-falante, com
incipientes trejeitos de D. Juan. Ela, filha de gente enriquecida pelo
comércio. Ele, futuro herdeiro de confortável património. Dela poderia
dizer-se, como Camilo num conto: Como ela o amava!”. Dele diremos nós: Como ele
era espertalhaço!
Seguindo
o exemplo da irmã Carolina, precipitou um casamento para poder apoderar-se da
herança deixada pelo pai, parte da qual tinha sido delapidada pelos tios.
Teixeira de Pascoaes, na obra citada,
refere que o jovem compunha redondilhas para descantes e entremeses e aos
domingos se divertia com a rapaziada a namorava Joaquina.
Esta “moça de estatura regular, alta de
peitos, morena e muito simpática” (palavras de Camilo) terá servido ao
novelista de inspiração para o esboço de figuras femininas da ruralidade como
Mariana (Amor de Perdição), Mafalda (Amor de Salvação), Teresa (Sexto dos Doze casamentos Felizes), Tomásia (Coração, Cabeça e Estômago), entre
outras, como lhe terá sido útil a familiaridade com espaços e gentes da aldeia na
delineação dos seus enredos. Não é por acaso que o próprio afirma, com parcial
acerto: “Eu não tenho imaginação, tenho memória”.
O casamento realizou-se na igreja de S.
Salvador, na sede do concelho, e dela foi feito o seguinte registo cuja
transcrição fomos encontrar em O ROMANCE
DO ROMANCISTA de Alberto
Pimentel:
“Francisco Xavier Alves, Reitor
da Freguesia do Salvador da Ribeira de Pena, arquidiocese de Braga:
“Certifico e atesto que em um livro dos
assentos de casamento desta freguesia do Salvador, concelho de Ribeira de Pena,
arquidiocese de Braga, está lavrado a fl. 43 o assento do teor seguinte: Camilo
Ferreira Botelho Castelo Branco, filho de Manuel Joaquim Castelo Branco e
Jacinta Rosa Almeida do Espírito Santo, da cidade de Lisboa, e de presente
assistente nesta freguesia do Salvador, e Joaquina Pereira, filha de Sebastião
Martins dos Santos e Maria Pereira de França, do lugar de Friúme, desta
freguesia do Salvador da Ribeira de Pena, contraíram o Sacramento do matrimónio
por seus mútuos e expressos consentimentos in
facie Ecclesiae conforme o Concílio Tridentino e Constituição do
Arcebispado com comutação de proclamas para depois de recebidos na minha
presença e das testemunhas abaixo assinadas, a dezoito de Agosto de mil
oitocentos e quarenta e um: testemunhas presentes o Padre José Maria de Sousa,
do Pontido de Aguiar e Francisco Ribeiro Moreira [casado com Maria do Loreto],
de Friúme, desta freguesia….”
De alguns aspectos singulares se reveste
este casamento, além do já referido. Os pais de Quinita acreditaram ter
encontrado para a filha um noivo rico. Contudo, foram eles que sustentaram o casal
na sua humilde casa. Também foi Martins dos Santos, o sogro, que, acalentando a
esperança de ter um genro médico, o enviou para a Granja Velha, a nove
quilómetros de Friúme, para aí ser instruído por um padre que, entre outros
conhecimentos então indispensáveis, lhe transmitiu os da língua latina. Estava,
sem que isso lhe tenha passado pela cabeça, a separar os recém-casados, uma vez
que o jovem só convivia com a mulher aos domingos e dias santos.
As ténues relações foram esfriando (caso
normal em C.), apesar do nascimento de uma filha, Rosa, nascida em 1843,
abandonada, tal como antes a mãe, entretanto substituída por Patrícia Emília,
em Vila Real. O precipitado abandono de Ribeira de Pena rumo a Lisboa terá
obedecido a duas razões de peso: fugir de ajuste de contas exigido por uma
versalhada em que o Camilo, com um jeito para a sátira já a despontar, põe a
ridículo o casamento de um morgado com criatura de nível social inferior (!) e
apoderar-se da quantia de 850$000 que lhe cabia da herança. A reacção pública à
sátira afixada na porta da igreja de S. Salvador antes da missa das onze
anunciava triste destino ao seu autor. Escreve ele no prefácio a Ao Anoitecer da Vida: “Fugi com o Magnum Lexicon debaixo do braço e com os ossos direitos que aquela
terra ingrata me queria comer.”
Se
camilo algum dia a amou, cedo se desiludiu e a sua presença se tornou
entediante. Escreve: “…as nossas almas distanciavam-se tanto quanto os corações
se identificavam. Não basta um forte e sincero afecto para nivelar igualdade de
espíritos. O ar, os modos, este complexo de nadas que denotam convívio de boa sociedade,
não os tinha, não os podia ter.”
Foi triste, em tudo, o destino da rapariga
que se apaixonou e deixou seduzir por um rapazola de lábia fácil e verso
pronto, atributos suficientes para dourar a sua figura de bexigoso. Sabia-se
traída, ali a poucos quilómetros. De visita à aldeia, a sua tia Rita não se
inibiria de levar notícias de Vila Real, indiferente ao sofrimento que iria
causar à sobrinha. À dor da traição e do abandono juntar-se-iam os maus tratos
do pai a quem as contas acabariam por sair furadas.
Foi a enterrar como indigente, sem a
presença do marido que nunca haveria de assumir este compromisso. Quando deu
entrada na cadeia da Relação do Porto, na sequência do rapto de Patrícia Emília,
apresentou-se como solteiro e em outras situações omitiu sempre o estado civil
de viúvo, apenas escarrapachado no registo do seu 2º casamento.
O médico-escritor barrosão Bento da Cruz
publicou recentemente Camilo Por Terras
de Barroso e Outros Lugares. Na primeira parte, que antecede uma antologia
de textos de camilianistas sobre a região, ao tratar do caso de Quinita assume
ser essa a mulher do novelista a que, de todas as suas mulheres, lhe merece
mais simpatia. E justifica: Quantas Joaquinas eu conheci na minha infância,
verdadeiras rosas plenas de beleza, de cor, de alegria, de vida, e que, à
entrada da puberdade, foram desfolhadas e reduzidas à miséria pela simples
razão de serem mulheres.”
Registo de casamento de Camilo
com Ana Plácido, transcrito no nº 124 do semanário Arquivo Nacional de 25 de
Março de 1934:
“Aos nove dias do mês de Março
do ano de mil oitocentos e oitenta e oito, nesta freguesia de Santo Ildefonso
da cidade e diocese do Porto […] na minha presença compareceram os nubentes
Camilo Castelo Branco, visconde de Correia Botelho e D. Ana Augusta Plácido, os
quais sei serem os próprios, com licença para recebimento na sua própria casa
por causa do estado valetudinário do nubente, dispensa de proclamas, e com os
mais papéis dos estilos correntes, e sem impedimento algum canónico ou civil
para o casamento; ele de idade de sessenta e um anos, viúvo de Joaquina Pereira França, falecida na freguesia do salvador de
Ribeira de Pena, natural da freguesia dos Mártires da cidade e diocese de
Lisboa, na qual foi baptizado e morador da freguesia de Santo Ildefonso, filho
de Manuel Correia Botelho, natural de Vila Real de Trás-os-Montes e de mãe
incógnita; e ela da idade de cinquenta anos, viúva de Manuel Pinheiro Alves.
Registo do óbito de Joaquina
(A certidão foi necessária para
que Camilo pudesse casar em segundas núpcias com Ana Plácido). Diz o documento:
[…] Certifico que em um livro
findo dos assentos de óbito desta freguesia do Salvador, Concelho de Ribeira de
pena, Arcebispado de Braga, achei o assento do teor seguinte: Joaquina, casada, do lugar de Friúme e
freguesia do Salvador de Ribeira de pena, faleceu com todos os sacramentos em
dia vinte e cinco e poi sepultada aos vinte e sete de Setembro de mil
oitocentos e quarenta e sete, foi sepultada como pobre, nada teve, e para
constar fiz este termo.
Conclusão
Todo o percurso vivencial de Camilo foi
pautado por atitudes e comportamentos que fazem oscilar a reacção de quem o
conhece: ora vituperamos o seu mau carácter, espantando-nos, por vezes, com o
seu maquiavelismo e com a sua falta de escrúpulos, ora tentamos compreendê-lo e
desculpá-lo com a infelicidade de uma infância vivida de Anás para Caifás, sem
afecto nem referências, criado um pouco ao Deus dará, entregue aos maus
instintos. Vários traumas terão justificado os desvios comportamentais de
Camilo, temperamentalmente propenso à rebeldia, à estúrdia, à instabilidade, à
irreverência e à provocação. Registado como filho de mãe incógnita, perde esta
aos dois anos de idade. Dessa perda irreparável há-de falar na sua obra,
lamentando não ter tido nunca um regaço materno onde reclinar a cabeça. Sete
anos passados, é a vez de se despedir do pai. Sem parentela em Lisboa, o
conselho de família, encarregue de decidir o futuro dos órfãos (Carolina era quatro
anos mais velha), recambia-os para Vila Real onde seriam entregues aos cuidados
da tia Rita Emília, única familiar viva e, como tal, futura administradora dos
bens dos sobrinhos que delapida descaradamente com a conivência do amante.
Mulher extravagante, gananciosa e dissoluta será recordada nas Memórias do Cárcere: “a irmã de meu pai,
decrépita e cadavérica, disse-me que era necessário ser desgraçado para não
contrariar o fado das nossas famílias.
Se aos anos que passou com a irmã em
Vilarinho da Samardã se refere como tendo sido os únicos felizes da sua mocidade,
tal não significa que tenha encontrado junto dela o afecto de que carecia, dela
dizendo que era boa para todos menos para ele.
É, pois, um adolescente mal formado, apesar
do convívio com um padre na Samardã, que assume, precoce e levianamente, um
compromisso demasiado sério para a sua idade. Em carta a Alberto Pimentel, anos
mais tarde, Camilo dirá: “este casamento foi uma infâmia”. A palavra foi bem
escolhida e poderá ser adaptada a ligações amorosas irresponsáveis e inconsequentes
cujo desenlace é o abandono do objecto do desejo, com excepção para Ana Plácido
de quem, doente e com problemas de toda a ordem, dependia a sua sobrevivência. Porque,
e citando Gondim da Fonseca em Camilo
Compreendido, “é ela que o manteve, que o segurou, que lhe serviu de
amparo, que foi a sua amiga e a sua escrava. Se porventura não se obstinasse em
guardá-lo a todo o transe ele lhe fugiria, como fugiu de todas as mulheres.”
Para
Ribeira de Pena como para Friúme não foi vã a permanência de Camilo na região
durante dois anos. Está ela na origem de visitas de estudiosos e de simples
turistas, não só à igreja de S. Salvador, mas também à aldeia onde, se não
fosse ele, talvez tivesse desaparecido a humilde habitação, sua residência de
casado, tanto tempo votada ao abandono.
Várias relações amorosas de Camilo,
consumadas ou platónicas, não levantam problemas porque bem documentadas. Se a
ligação sentimental a Fanny Owen levanta dúvidas, o mesmo não acontece com os
casos de Patrícia Emília (Vila Real), Eufrásia, Isabel Cândida, Maria
Felicidade Browne e Ana Plácido (Porto). Agustina e Aquilino falam ainda de uma
Eugénia Vizeu que, na opinião de Alexandre Cabral, não passou de uma admiradora
do seu talento. Recentemente Tavares Teles publicou Os Manuscritos de Gertrudes, onde inclui todas as cartas que essa
mulher escreveu a Camilo em 1853 e 1854 e um diário a ele destinado. Não se
tratou de uma paixão retribuída e se o escritor alimentou uma correspondência a
que ele próprio pôs fim (já amava Ana), talvez tenha sido por sentir-se
lisonjeado com tamanha dedicação.
Não interessa, para o caso, quantas foram
as vítimas imoladas no altar camiliano. Para os Ribeira-Penenses, mais
importante é ser a sua terra o primeiro espaço de um roteiro sentimental
daquele que foi considerado, no seu tempo, o maior romancista da península.
M. Hercília Agarez
Ribeira
de Pena, 14 de Setembro de 2013
28 janeiro 2014
«A MULHER QUE VENCEU DON JUAN» de Teresa Martins Marques
NO JL de 22 de Janeiro saiu uma versão sinóptica deste belíssimo texto da escritora JULIETA MONGINHO. Aqui fica a versão integral:
CONSELHOS AOS LEITORES DE «A MULHER QUE VENCEU DON JUAN», DE TERESA MARTINS MARQUES
1. Escolha o leitor uma larga tarde, se possível de sábado, como esta, e aquelas em que muitos de nós deixávamos um filme por ver ou um lanche por lanchar para ir ao facebook à procura do capítulo semanal do folhetim. Neste thriller não há momentos mortos. Sem as reflexões que a autora propõe, os passeios pelos quais nos conduz, a navegação por paisagens mutantes, o enredo perder-se-ia do sentido e o leitor perderia a aventura.
O tempo, a sua duração, o abraço que nos dá sem nos sufocar, esse raro tempo espreguiçado, é essencial à boa leitura deste romance.
Como é essencial ao amor, o seu verdadeiro centro, o para o qual convergem todas as nuvens, todas as ideias, todos os rios secretos.
A autora aplica com mestria os enleios da sedução. Prega-nos a maior das partidas: enquanto disseca sem piedade o “dolo” do sedutor na relação amorosa, não o enjeita enquanto arte na relação com os leitores.
2. Venha o leitor masculino com o desconforto de quem entra em terreno movediço. Sabendo de antemão que há-de ser uma mulher a vencedora do confronto, o triunfo que lhe resta consiste em não se identificar com o vencido Don Juan, o predador, aquele que destrói o outro para sobreviver ao combate que trava consigo próprio e com a sua imagem.
Venha a leitora sem peneiras de vencedora antecipada, o género não lhe atribui estatuto superior. Para não chegar ao fim com a sensação de ter sido apanhada numa curva ilusória, terá de enfrentar os mesmos perigos, os mesmos espelhos que o seu aparente adversário.
Disponha, pois, do título do romance à sua vontade. A mulher a que se refere não é apenas Sara, Esmeralda durante a clandestinidade, mas um colectivo de género misto. Don Juan é ele mesmo a personificação/simplificação de vários tipos de personalidade que, no seu grau mais virulento, se torna um “serial killer dos afectos”, nas palavras da narradora.
3. Relaxe. Procure o lugar mais aprazível. Este livro vai fazer-lhe bem ao coração e ao sentido de justiça. Ao contrário de Dante à porta do inferno, a autora não nos previne contra a esperança. Não que a visita ao inferno seja poupada, mas nas deambulações pelo Hades desta vez Orfeu resiste, Eurídice é resgatada.
A subversão dos relatos antigos é um rasgo que Teresa Martins Marques assume com a naturalidade das travessuras da infância (uma delas, se não estou em erro, inclui umas certas amêndoas de licor). Neste livro é Penélope quem viaja, é ela quem vive as aventuras de Ulisses, enquanto este se divide entre o amo e o aio, também ele sujeito a uma transfiguração – metamorfose – que só lá mais para diante o tornará companheiro e herói.
4. Prepare o leitor uma malinha, um estojo de sobrevivência para acompanhar esta viagem, que inclua a bebida preferida, uns amuse-bouche e muita curiosidade. Aliás, se “é fácil transformar a alma em lama”, como a dado passo observa a narradora, não é menos fácil transformar ambas em “mala”, a mala surgindo ao longo do livro como o reduto do essencial, sempre pronto a acompanhar quem quer partir. Dir-nos-á ainda a narradora, e é este um dos lemas deste livro de proveito e exemplo, “tudo o que sou é a minha liberdade”.
5. Nesta viagem de rigor e aventura, não tenha o leitor medo de se marear, mesmo quando subir para uma embarcação ao sul. Há-de saltar da beleza para o horror no mesmo parágrafo, tal como na vida. Há-de encontrar nas paisagens deslumbrantes o palco dos actos mais atrozes, como acontece num apartamento com vista para a foz do Douro. E nas agrestes – casas pequenas, autocarros atulhados de sobreviventes – a liberdade mais feliz.
Contrastes, dicotomias: entre força e fraqueza, entre realidade e aparência, entre liberdade e escravidão. Não se apoquente o leitor com reticências ou adversativas. O tom é afirmativo. A autora sabe ao que vem, trata de definir os campos em confronto. De um lado as personagens que sabem amar: Sara, a quem ao nascer todas as graças foram dadas e a todas ia perdendo por um triz. Bela, rica, bondosa, culta e ingénua, caindo aos dezassete anos na rede de um sedutor. Luís, o professor brilhante e ingénuo, também ele vítima de uma Doña Juana. Lúcia, a psicóloga de passado misterioso, anjo da guarda das mulheres em fuga. Manuela, a jovem que escapa à condição de vítima e se entrega ao estudo do Diário do Sedutor, de Kierkgaard, defendendo uma tese, intitulada “Retórica Amorosa de Don Juan. Sombras da Sedução”, destinada a entender a origem profunda do donjuanismo. Da qual, apesar da persistência da dúvida filosófica, emerge uma ideia-força principal: Don Juan não ama as mulheres que conquista em série, através da arte da palavra. Don Juan, na sua forma letal, pertence à categoria dos homens que odeiam as mulheres, como aqueles que dão o título ao primeiro volume da trilogia Millenium, de Stieg Larsson, que a autora cita no original sueco.
Do lado oposto, os que não sabem amar, porque sofrem de “narcisismo exacerbado”: Amaro, o mais odioso biltre, cirurgião plástico. Joana, também ela fazendo vida da aparência, o correspondente feminino de Don Juan, no que constitui uma das especificidades mais interessantes do romance. Manaças, um sumaríssimo falhado, através de quem a autora descreve os métodos de sedução e os defeitos do sedutor num diálogo que evoca a conversa entre Don Juan Tenorio e Don Luís, na obra Don Juan Tenorio, de Zorrilla (1844).
As personagens que os acompanham enquadram-se também elas num ou no outro campo: Joaquim, o motorista bondoso, Paulo, o comissário compassivo, as mulheres da Casa Abrigo, estão no campo dos que amam. Alberto, o amante temeroso, Vargas, o traficante, no campo oposto.
6. Sossegue o leitor. O amor romântico não se opõe aqui ao amor erótico, antes o integra como bênção fruída. O confronto dá-se com o amor assimétrico, baseado em relações de poder, o que redunda na negação do próprio amor. “Werther é interioridade, Don Juan é exterioridade; Werther é haute couture, Don Juan é pronto-a-despir; Werther é gourmet, Don Juan é fast food.”
Afirma-se, isso sim, a crença na durabilidade da relação baseada no respeito, na liberdade, na doação e na “coragem da repetição”. A autora agarra numa pedra e vai implacavelmente cortando o que fere, o que cega, o que se falsifica, para ficar com o diamante, o centro – o coração – a pureza. Para descobrir o amor no mais elevado grau de pureza.
Nas palavras da narradora “amar é um verbo transitivo”. Um verbo que pede um complemento, um alguém que é outro em si, prolongando a alteridade no novo ente relacional. Uma nova entidade que, não sendo simbiótica, transcende a mera soma aritmética. O amado integra-se neste novo ser, proposto e esculpido pelo amor. A ressonância camoniana está presente: “Transforma-se o amador na cousa amada/por virtude do muito imaginar”.
7. Pense o leitor em três desejos, assegure-se que pode ir em busca deles, sem que ninguém o prenda. No ensinamento que a autora nos deixa, um dos ingredientes do amor assimétrico, ou seja da negação do amor, é a ausência de liberdade, por oposição à sua presença no amor verdadeiro. Este preceito – só há amor em liberdade – é repetido ao longo do texto como um refrão, uma ideia que Sara repete para não claudicar, que todas as Saras devem pôr em prática para não perecerem. A liberdade e, acima de tudo, a lucidez da liberdade, não pode sucumbir perante a ilusão do amor idealizado.
Esta afirmação de liberdade, contra as relações baseadas no domínio de um sobre o outro, estende-se ao laço filial, o que liga Lúcia à sua filha Joana. A autora aborda este laço por um ângulo pouco visitado na literatura, o da inversão dos papéis tradicionais de autoridade e tirania, como se desta feita fossem os filhos a engolir Cronos. De certo modo prolonga o questionar do instinto maternal, na senda, por exemplo, de Elisabete Badinter, na sua obra significativamente intitulada “L'Amour en Plus”, traduzido e publicado em português com o título “O Amor Incerto”.
8. Prepare-se a leitora, embora seja sábado, cuidando bem de si. Tome uma dose comedida de egoísmo, que o mundo não há-de desabar enquanto se entrega à leitura. Este romance assume o propósito didáctico do que costuma chamar-se o empowerment da mulher, por oposição à sua nulificação. Apesar do seu passado recente, ou por causa do seu passado mais que perfeito da infância, Sara exibe-se desde o início como uma mulher forte e corajosa, apenas com um interregno de fraqueza, atribuído à paixão. Um modelo, para todas quantas desejam fugir à condição de vítima e, mais do que isso, à resignação/comprazimento.
A começar pelas companheiras da Casa Abrigo, cada uma delas com o seu dote próprio, especialmente o de Maria para a cozinha, não importando a sua origem, aliás heterogénea. Ao ler as passagens em que convivem, numa leveza recém-adquirida, apetece-nos aplaudi-las, a elas e a quem, através das associações que as apoiam, no caso deste livro a APAV. Apetece-nos, como num manifesto, dizer de pé ó vítimas da violência.
Odete, Maria, Esmeralda e todos os outros nomes duplamente fictícios, são a identidade de quem ousou viver. A relação que se estabelece entre todas é comovente e alegre, porque assente na igualdade que a libertação proporcionou.
A diversidade de origens das mulheres que habitam a Casa Abrigo serve à autora de pretexto, como tantos outros, para viajar através da riqueza cultural do país, de Trás-os-Montes ao Algarve, demonstrando que este território construído está inscrito num mapa inapagável, que a crise morde, mas não vence.
9. Ganhará o leitor em ter à mão um aparelho com ligação à rede. Melhor ainda, instale-se numa biblioteca. Assim poderá seguir e aprofundar as pistas de leitura sobre o tema principal e os circundantes. Neste romance-ensaio (ou neste “manual para parvos que querem deixar de o ser”, nas palavras da narradora), muito terá a aprender sobre o amor, mas também sobre história, arquitectura, criminologia, sexo, música, gastronomia, língua dinamarquesa, pintura, cinema, automóveis, psicoterapias e organização doméstica. A referência, a reflexão, o propósito didáctico, não são elementos excepcionais, inserem-se no texto com a mesma naturalidade das peripécias próprias do folhetim. Este é um daqueles romances que meditam, segundo a expressão de Milan Kundera.
10. Se o leitor não chegou a ler o folhetim, não sabe o que perdeu, tente recuperar alguma coisa lendo o livro. Se o leu através do facebook, não julgue que dispensa este novo formato. O folhetim e o livro são duas obras distintas, na estrutura, na consistência, no pacto narrativo.
O que ficou do folhetim é uma teia de sedução ao leitor que, enfim liberto da tirania do tempo, anseia não pela semana seguinte, mas pela página seguinte. Navega na história como navega na rede, num googlar de saberes e fantasias.
Ficou também um romance cuja ligação a quem lê não se esgota no acto da leitura. Vai além, convoca-o literalmente para dentro do livro, assim se alimentando um ao outro, assim se amando um ao outro, autora e leitor, em co-autoria virtuosa. Teresa Martins Marques estica este jogo amoroso de modo a aparecer, também ela, no romance, qual Velásquez no quadro As Meninas, como palestrante em Tavira sobre o bastardo de D. João VI.
Permanecem ainda do folhetim traços inerentes ao meio de grande difusão que é uma rede social: o objectivo de contagiar, de se tornar viral. O imperativo de instituir uma ética nas relações amorosas.
Não é Sara que vence Amaro ou Luís que vence Joana. No dia em que perdem o medo, deixam, simplesmente, de os alimentar, libertando-se do jogo em que, pelo temor e pela aceitação do sofrimento, tinham participado. Don Juan é vencido pela sua própria incapacidade de escolher.
Teresa Martins Marques será uma das raras mulheres, que ousaram abordar directamente a figura de Don Juan, aparecida em El Burlador de Sevilla (1630), depois de Zorrilla, Cervantes, Goldoni, Lorenzo da Ponte – o autor do libreto de Don Giovanni, a célebre ópera de Mozart - Balzac, Byron, Pushkin, Dumas, Baudelaire, António Patrício, Saramago, Almeida Faria. E todo o resto da vasta bibliografia oferecida pelo texto.
“Vês, vês, eu também sei contar a história”, diz a menina Sara à criada/ama, no doce tempo da infância. Memória de Sara, memória de Teresa? Sim, Teresa sabe contar a história, e sabe recontá-la a partir de um ponto de vista vigorosamente novo.
Não terá sido a Teresa, e só a Teresa, a mulher que venceu Don Juan?
Julieta Monginho, Lisboa, Livraria Ferin, em 7 de Dezembro de 2013.
Foto retirada de: http://visao.sapo.pt/a-mulher-que-venceu-don-juan=f766249
— com Teresa Martins Marques e ChangeMind GlobAid.CONSELHOS AOS LEITORES DE «A MULHER QUE VENCEU DON JUAN», DE TERESA MARTINS MARQUES
1. Escolha o leitor uma larga tarde, se possível de sábado, como esta, e aquelas em que muitos de nós deixávamos um filme por ver ou um lanche por lanchar para ir ao facebook à procura do capítulo semanal do folhetim. Neste thriller não há momentos mortos. Sem as reflexões que a autora propõe, os passeios pelos quais nos conduz, a navegação por paisagens mutantes, o enredo perder-se-ia do sentido e o leitor perderia a aventura.
O tempo, a sua duração, o abraço que nos dá sem nos sufocar, esse raro tempo espreguiçado, é essencial à boa leitura deste romance.
Como é essencial ao amor, o seu verdadeiro centro, o para o qual convergem todas as nuvens, todas as ideias, todos os rios secretos.
A autora aplica com mestria os enleios da sedução. Prega-nos a maior das partidas: enquanto disseca sem piedade o “dolo” do sedutor na relação amorosa, não o enjeita enquanto arte na relação com os leitores.
2. Venha o leitor masculino com o desconforto de quem entra em terreno movediço. Sabendo de antemão que há-de ser uma mulher a vencedora do confronto, o triunfo que lhe resta consiste em não se identificar com o vencido Don Juan, o predador, aquele que destrói o outro para sobreviver ao combate que trava consigo próprio e com a sua imagem.
Venha a leitora sem peneiras de vencedora antecipada, o género não lhe atribui estatuto superior. Para não chegar ao fim com a sensação de ter sido apanhada numa curva ilusória, terá de enfrentar os mesmos perigos, os mesmos espelhos que o seu aparente adversário.
Disponha, pois, do título do romance à sua vontade. A mulher a que se refere não é apenas Sara, Esmeralda durante a clandestinidade, mas um colectivo de género misto. Don Juan é ele mesmo a personificação/simplificação de vários tipos de personalidade que, no seu grau mais virulento, se torna um “serial killer dos afectos”, nas palavras da narradora.
3. Relaxe. Procure o lugar mais aprazível. Este livro vai fazer-lhe bem ao coração e ao sentido de justiça. Ao contrário de Dante à porta do inferno, a autora não nos previne contra a esperança. Não que a visita ao inferno seja poupada, mas nas deambulações pelo Hades desta vez Orfeu resiste, Eurídice é resgatada.
A subversão dos relatos antigos é um rasgo que Teresa Martins Marques assume com a naturalidade das travessuras da infância (uma delas, se não estou em erro, inclui umas certas amêndoas de licor). Neste livro é Penélope quem viaja, é ela quem vive as aventuras de Ulisses, enquanto este se divide entre o amo e o aio, também ele sujeito a uma transfiguração – metamorfose – que só lá mais para diante o tornará companheiro e herói.
4. Prepare o leitor uma malinha, um estojo de sobrevivência para acompanhar esta viagem, que inclua a bebida preferida, uns amuse-bouche e muita curiosidade. Aliás, se “é fácil transformar a alma em lama”, como a dado passo observa a narradora, não é menos fácil transformar ambas em “mala”, a mala surgindo ao longo do livro como o reduto do essencial, sempre pronto a acompanhar quem quer partir. Dir-nos-á ainda a narradora, e é este um dos lemas deste livro de proveito e exemplo, “tudo o que sou é a minha liberdade”.
5. Nesta viagem de rigor e aventura, não tenha o leitor medo de se marear, mesmo quando subir para uma embarcação ao sul. Há-de saltar da beleza para o horror no mesmo parágrafo, tal como na vida. Há-de encontrar nas paisagens deslumbrantes o palco dos actos mais atrozes, como acontece num apartamento com vista para a foz do Douro. E nas agrestes – casas pequenas, autocarros atulhados de sobreviventes – a liberdade mais feliz.
Contrastes, dicotomias: entre força e fraqueza, entre realidade e aparência, entre liberdade e escravidão. Não se apoquente o leitor com reticências ou adversativas. O tom é afirmativo. A autora sabe ao que vem, trata de definir os campos em confronto. De um lado as personagens que sabem amar: Sara, a quem ao nascer todas as graças foram dadas e a todas ia perdendo por um triz. Bela, rica, bondosa, culta e ingénua, caindo aos dezassete anos na rede de um sedutor. Luís, o professor brilhante e ingénuo, também ele vítima de uma Doña Juana. Lúcia, a psicóloga de passado misterioso, anjo da guarda das mulheres em fuga. Manuela, a jovem que escapa à condição de vítima e se entrega ao estudo do Diário do Sedutor, de Kierkgaard, defendendo uma tese, intitulada “Retórica Amorosa de Don Juan. Sombras da Sedução”, destinada a entender a origem profunda do donjuanismo. Da qual, apesar da persistência da dúvida filosófica, emerge uma ideia-força principal: Don Juan não ama as mulheres que conquista em série, através da arte da palavra. Don Juan, na sua forma letal, pertence à categoria dos homens que odeiam as mulheres, como aqueles que dão o título ao primeiro volume da trilogia Millenium, de Stieg Larsson, que a autora cita no original sueco.
Do lado oposto, os que não sabem amar, porque sofrem de “narcisismo exacerbado”: Amaro, o mais odioso biltre, cirurgião plástico. Joana, também ela fazendo vida da aparência, o correspondente feminino de Don Juan, no que constitui uma das especificidades mais interessantes do romance. Manaças, um sumaríssimo falhado, através de quem a autora descreve os métodos de sedução e os defeitos do sedutor num diálogo que evoca a conversa entre Don Juan Tenorio e Don Luís, na obra Don Juan Tenorio, de Zorrilla (1844).
As personagens que os acompanham enquadram-se também elas num ou no outro campo: Joaquim, o motorista bondoso, Paulo, o comissário compassivo, as mulheres da Casa Abrigo, estão no campo dos que amam. Alberto, o amante temeroso, Vargas, o traficante, no campo oposto.
6. Sossegue o leitor. O amor romântico não se opõe aqui ao amor erótico, antes o integra como bênção fruída. O confronto dá-se com o amor assimétrico, baseado em relações de poder, o que redunda na negação do próprio amor. “Werther é interioridade, Don Juan é exterioridade; Werther é haute couture, Don Juan é pronto-a-despir; Werther é gourmet, Don Juan é fast food.”
Afirma-se, isso sim, a crença na durabilidade da relação baseada no respeito, na liberdade, na doação e na “coragem da repetição”. A autora agarra numa pedra e vai implacavelmente cortando o que fere, o que cega, o que se falsifica, para ficar com o diamante, o centro – o coração – a pureza. Para descobrir o amor no mais elevado grau de pureza.
Nas palavras da narradora “amar é um verbo transitivo”. Um verbo que pede um complemento, um alguém que é outro em si, prolongando a alteridade no novo ente relacional. Uma nova entidade que, não sendo simbiótica, transcende a mera soma aritmética. O amado integra-se neste novo ser, proposto e esculpido pelo amor. A ressonância camoniana está presente: “Transforma-se o amador na cousa amada/por virtude do muito imaginar”.
7. Pense o leitor em três desejos, assegure-se que pode ir em busca deles, sem que ninguém o prenda. No ensinamento que a autora nos deixa, um dos ingredientes do amor assimétrico, ou seja da negação do amor, é a ausência de liberdade, por oposição à sua presença no amor verdadeiro. Este preceito – só há amor em liberdade – é repetido ao longo do texto como um refrão, uma ideia que Sara repete para não claudicar, que todas as Saras devem pôr em prática para não perecerem. A liberdade e, acima de tudo, a lucidez da liberdade, não pode sucumbir perante a ilusão do amor idealizado.
Esta afirmação de liberdade, contra as relações baseadas no domínio de um sobre o outro, estende-se ao laço filial, o que liga Lúcia à sua filha Joana. A autora aborda este laço por um ângulo pouco visitado na literatura, o da inversão dos papéis tradicionais de autoridade e tirania, como se desta feita fossem os filhos a engolir Cronos. De certo modo prolonga o questionar do instinto maternal, na senda, por exemplo, de Elisabete Badinter, na sua obra significativamente intitulada “L'Amour en Plus”, traduzido e publicado em português com o título “O Amor Incerto”.
8. Prepare-se a leitora, embora seja sábado, cuidando bem de si. Tome uma dose comedida de egoísmo, que o mundo não há-de desabar enquanto se entrega à leitura. Este romance assume o propósito didáctico do que costuma chamar-se o empowerment da mulher, por oposição à sua nulificação. Apesar do seu passado recente, ou por causa do seu passado mais que perfeito da infância, Sara exibe-se desde o início como uma mulher forte e corajosa, apenas com um interregno de fraqueza, atribuído à paixão. Um modelo, para todas quantas desejam fugir à condição de vítima e, mais do que isso, à resignação/comprazimento.
A começar pelas companheiras da Casa Abrigo, cada uma delas com o seu dote próprio, especialmente o de Maria para a cozinha, não importando a sua origem, aliás heterogénea. Ao ler as passagens em que convivem, numa leveza recém-adquirida, apetece-nos aplaudi-las, a elas e a quem, através das associações que as apoiam, no caso deste livro a APAV. Apetece-nos, como num manifesto, dizer de pé ó vítimas da violência.
Odete, Maria, Esmeralda e todos os outros nomes duplamente fictícios, são a identidade de quem ousou viver. A relação que se estabelece entre todas é comovente e alegre, porque assente na igualdade que a libertação proporcionou.
A diversidade de origens das mulheres que habitam a Casa Abrigo serve à autora de pretexto, como tantos outros, para viajar através da riqueza cultural do país, de Trás-os-Montes ao Algarve, demonstrando que este território construído está inscrito num mapa inapagável, que a crise morde, mas não vence.
9. Ganhará o leitor em ter à mão um aparelho com ligação à rede. Melhor ainda, instale-se numa biblioteca. Assim poderá seguir e aprofundar as pistas de leitura sobre o tema principal e os circundantes. Neste romance-ensaio (ou neste “manual para parvos que querem deixar de o ser”, nas palavras da narradora), muito terá a aprender sobre o amor, mas também sobre história, arquitectura, criminologia, sexo, música, gastronomia, língua dinamarquesa, pintura, cinema, automóveis, psicoterapias e organização doméstica. A referência, a reflexão, o propósito didáctico, não são elementos excepcionais, inserem-se no texto com a mesma naturalidade das peripécias próprias do folhetim. Este é um daqueles romances que meditam, segundo a expressão de Milan Kundera.
10. Se o leitor não chegou a ler o folhetim, não sabe o que perdeu, tente recuperar alguma coisa lendo o livro. Se o leu através do facebook, não julgue que dispensa este novo formato. O folhetim e o livro são duas obras distintas, na estrutura, na consistência, no pacto narrativo.
O que ficou do folhetim é uma teia de sedução ao leitor que, enfim liberto da tirania do tempo, anseia não pela semana seguinte, mas pela página seguinte. Navega na história como navega na rede, num googlar de saberes e fantasias.
Ficou também um romance cuja ligação a quem lê não se esgota no acto da leitura. Vai além, convoca-o literalmente para dentro do livro, assim se alimentando um ao outro, assim se amando um ao outro, autora e leitor, em co-autoria virtuosa. Teresa Martins Marques estica este jogo amoroso de modo a aparecer, também ela, no romance, qual Velásquez no quadro As Meninas, como palestrante em Tavira sobre o bastardo de D. João VI.
Permanecem ainda do folhetim traços inerentes ao meio de grande difusão que é uma rede social: o objectivo de contagiar, de se tornar viral. O imperativo de instituir uma ética nas relações amorosas.
Não é Sara que vence Amaro ou Luís que vence Joana. No dia em que perdem o medo, deixam, simplesmente, de os alimentar, libertando-se do jogo em que, pelo temor e pela aceitação do sofrimento, tinham participado. Don Juan é vencido pela sua própria incapacidade de escolher.
Teresa Martins Marques será uma das raras mulheres, que ousaram abordar directamente a figura de Don Juan, aparecida em El Burlador de Sevilla (1630), depois de Zorrilla, Cervantes, Goldoni, Lorenzo da Ponte – o autor do libreto de Don Giovanni, a célebre ópera de Mozart - Balzac, Byron, Pushkin, Dumas, Baudelaire, António Patrício, Saramago, Almeida Faria. E todo o resto da vasta bibliografia oferecida pelo texto.
“Vês, vês, eu também sei contar a história”, diz a menina Sara à criada/ama, no doce tempo da infância. Memória de Sara, memória de Teresa? Sim, Teresa sabe contar a história, e sabe recontá-la a partir de um ponto de vista vigorosamente novo.
Não terá sido a Teresa, e só a Teresa, a mulher que venceu Don Juan?
Julieta Monginho, Lisboa, Livraria Ferin, em 7 de Dezembro de 2013.
Foto retirada de: http://visao.sapo.pt/a-mulher-que-venceu-don-juan=f766249
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