24 março 2011

Estatutos da ALTM

ESTATUTOS
DA

ACADEMIA DE LETRAS DE TRÁS-OS-MONTES


CAPÍTULO I
 CONSTITUIÇÃO, DURAÇÃO E SEDE

Artigo 1º
Constituição e denominação
É constituída uma associação civil sem fins lucrativos denominada Academia de Letras de Trás-os-Montes.

Artigo 2º
Duração
A Academia de Letras de Trás-os-Montes constitui-se por tempo indeterminado.

Artigo 3º
Sede e delegações
A Academia de Letras de Trás-os-Montes tem a sua sede em Bragança e poderá, por deliberação da Assembleia Geral, criar delegações ou outras formas de representação adequadas às suas actividades.

CAPÍTULO II
OBJECTO E ATRIBUIÇÕES

Artigo 3º
Objecto
A Academia de Letras de Trás-os-Montes tem como objecto:
a) Promover e divulgar as obras literárias, de qualquer género, produzidas por escritores de Trás-os-Montes ou sobre temática ligada à região, às suas gentes e ao seu património;
b) Divulgar o património literário de Trás-os-Montes;
c) Incentivar a produção literária sobre de Trás-os-Montes, as suas gentes, a sua cultura e a sua história e, em geral, o seu património material e imaterial.

Artigo 4º
Atribuições
Na prossecução do seu objecto, são, nomeadamente, atribuições da Academia de Letras de Trás-os-Montes:
a) Organizar sessões de lançamento de obras literárias;
b) Apoiar a edição de obras literárias de autores de Trás-os-Montes e, em geral, que tenham como temática a região e o seu património;
d) Colaborar com instituições similares no país ou no estrangeiro;
e) Constituir, organizar e disponibilizar a utilização de um centro de documentação sobre a literatura de autores de Trás-os-Montes ou sobre a realidade da região, a suas gentes e o seu património;
f) Preparar e apoiar a realização de antologias temáticas sobre a região ou de autores de Trás-os-Montes;
g) Instituir prémios e promover concursos na área do seu objecto;
h) Organizar debates na área do seu objecto.




CAPÍTULO III
 DOS DEVERES E DIREITOS DOS ASSOCIADOS

Artigo 5º
Associados
1. Podem ser associados da Academia de Letras de Trás-os-Montes todas as pessoas, singulares ou colectivas, que se comprometam a cumprir os deveres impostos nos presentes estatutos e tenham, pelo menos, publicado uma obra literária.
2. Pode haver associados honorários, sem direito a voto, admitidos pela Assembleia Geral, por proposta fundamentada da direcção da Academia.

Artigo 6º
Direitos dos associados
São direitos dos associados:
a) Fazer propostas aos órgãos da Academia;
b) Usufruir de descontos ou outros benefícios nas iniciativas que a Academia organize;
c) Utilizar, nos termos a definir no regulamento interno, o centro de documentação e outros serviços prestados pela Academia;
d) Propor ou propor-se para qualquer cargo dos órgãos da Academia;
e) Participar e votar nas assembleias gerais.

Artigo 7º
Deveres dos associados
É dever dos associados zelar pelo cumprimento do objecto da Academia, em especial:
a) Participar nas actividades da Academia;
b) Pagar as suas quotizações;
c) Oferecer à Academia um exemplar das obras que edite.


CAPÍTULO IV
 RECEITAS

Artigo 8º
Receitas
São receitas da Academia de Letras de Trás-os-Montes:
a) As contribuições e quotizações dos seus associados;
b) Os subsídios que obtenha;
c) As liberalidades de que seja beneficiária;
d) O produto da sua actividade editorial;
e) O produto das taxas de inscrição ou similares que receba no âmbito de iniciativas que organiza;
f) O produto dos serviços que preste;
g) Quaisquer outros rendimentos de bens próprios ou que lhe venham a ser atribuídos, nos termos da lei ou dos seus estatutos.

Artigo 9º
Afectação
As receitas da Academia de Letras de Trás-os-Montes, deduzidos os competentes encargos de funcionamento, são afectadas à prossecução das suas atribuições.

CAPÍTULO V
 DOS ÓRGÃOS E DO SEU FUNCIONAMENTO

SECÇÃO I
 GENERALIDADES

Artigo 10º
Órgãos
São órgãos da Academia de Letras de Trás-os-Montes: a Assembleia Geral, a Direcção, o Conselho Fiscal.

SECÇÃO II
ASSEMBLEIA GERAL

Artigo 11º

Composição e reuniões
1. A Assembleia Geral é composta por todos os associados com as suas quotas em dia.
2. A Assembleia Geral reúne, ordinariamente, uma vez por ano e, extraordinariamente, sempre que convocada pelo seu presidente, a requerimento da direcção ou de dez por cento dos associados.
3. Os trabalhos da Assembleia Geral são dirigidos por um presidente por ela eleito por três anos, que elege igualmente dois associados para o auxiliar na sua função.

Artigo 12º
Competência
Compete à Assembleia Geral:
a) Traçar as orientações gerais da vida da Academia;
b) Eleger a Direcção;
c) Eleger o Conselho Fiscal;
d) Aprovar o plano de actividades e o orçamento para cada ano;
e) Aprovar o relatório, o balanço e as contas do exercício, com parecer do Conselho Fiscal;
f) Fixar os valores da jóia de inscrição e da quota anual, sob proposta da direcção;
g) Autorizar a direcção a adquirir ou a alienar bens imóveis;
h) Aprovar ou ratificar a pertença da Academia a outros organismos nacionais ou internacionais de línguas regionais ou minoritárias;
i) Decidir ou dar parecer, por sua iniciativa ou a solicitação da direcção, sobre quaisquer questões relevantes para a vida da Academia.

Artigo 13º
Deliberações
1. A Assembleia Geral delibera por maioria simples dos associados presentes, a não ser que a lei disponha de modo diverso.
2. As votações referentes a pessoas são sempre efectuadas por escrutínio secreto.
3. A determinação do quorum faz-se por relação com o número de associados em efectividade na Academia.
4. Qualquer associado pode fazer-se representar mediante carta enviada ao presidente da assembleia geral, entregue até ao início da mesma.

SECÇÃO III
 DIRECÇÃO

Artigo 14º
Composição
1. A direcção é composta por cinco membros: um presidente, um vice-presidente e três vogais.
2. O mandato da direcção é de três anos.
3. Em caso de vacatura a direcção coopta os elementos em falta, devendo ser ratificados na assembleia geral seguinte.

Artigo 15º
Competência
1. Pertencem à direcção as competências de administração corrente da Academia.
2. Compete nomeadamente à Direcção:
a) Representar a Academia em juízo ou fora dele;
b) Elaborar  e apresentar à Assembleia Geral o plano anual de actividades e o orçamento;
d) Elaborar e apresentar à Assembleia Geral o relatório, o balanço e as contas de exercício;
e) Deliberar sobre a admissão de associados;
f) Aprovar os regulamentos de funcionamento interno que se tornem necessários para o bom desenvolvimento das actividades da Academia;
g) Desenvolver todas as actuações necessárias para o bom funcionamento da Academia, de acordo com o seu objecto e atribuições;
h) Criar grupos de trabalho para o desenvolvimento de actividades na área do seu objecto.
3. A Direcção apoia e consulta os responsáveis de actividades desenvolvidas pela Academia e pode pedir pareceres e a poio a personalidades de reconhecido mérito no âmbito do objecto da Academia.
4. A Academia de Letras de Trás-os-Montes obriga-se pelas assinaturas de dois membros da Direcção, sendo um deles o presidente.

Artigo 16º
Deliberações
1. A direcção reúne por convocação do seu presidente ou a pedido de qualquer dos seus membros.
2. A direcção reúne validamente com a presença de três dos seus membros, desde que devidamente convocada.
3. A direcção delibera por maioria simples dos membros presentes, tendo o presidente voto de qualidade em caso de empate.

SECÇÃO IV
 CONSELHO FISCAL

Artigo 17º
Composição
1. O Conselho Fiscal é composto por três membros, sendo um presidente e dois vogais, eleitos por três anos.

Artigo 18º
Competência
Compete ao Conselho Fiscal:
a) Acompanhar e controlar a gestão financeira da Academia;
b) Dar parecer sobre o plano de actividades e o orçamento da Academia;
c) Dar parecer sobre o relatório e as contas da Academia;
d) Pronunciar-se sobre aspectos financeiros de todos os actos que envolvam despesas significativas, sempre que tal lhe seja solicitado por qualquer outro órgão da Academia.

Artigo 19º
Reuniões
O Conselho Fiscal reúne ordinariamente uma vez por ano e, extraordinariamente, sempre que convocado pelo respectivo Presidente, por sua iniciativa ou a solicitação da direcção.

CAPÍTULO VI
 EXTINÇÃO

Artigo 23º
Causas de extinção
A Academia extingue-se nos casos previstos na lei, por deliberação da maioria de três quartos da totalidade dos associados com direito a voto.

Artigo 24º
Bens
Havendo extinção, o remanescente dos bens da Academia de Letras de Trás-os-Montes revertem para associações com atribuições equivalentes, sem prejuízo de normas legais de carácter imperativo.


CAPÍTULO VII
 DISPOSIÇÕES FINAIS E TRANSITÓRIAS

Artigo 25º
Associados fundadores
São considerados associados fundadores da Academia de Letras de Trás-os-Montes:
a) Os participantes da sua assembleia de constituição;
b) os que se constituam como associados até ao dia 31 de Dezembro de 2010.

21 março 2011

(Re)Cantos d’Amar Morto - Notas de apresentação


Rogério Rodrigues, (Re)Cantos d’Amar Morto, Editora Âncora, 2011


[Notas de apoio à apresentação do livro, em Moncorvo, no dia 19 de março de 2011, às 15 horas.]



O VOO DO ENTARDECER NA GEOGRAFIA DA MEMÓRIA



1.
Rogério Rodrigues fez-nos esperar quarenta anos até nos dar o segundo livro de poemas [Livro de Visitas, aos 23 anos]. Omito aqui os seus vastos pergaminhos literários, onde também se inclui a ficção [A outra Face da Morte, novela]. Fique nota, no entanto, de que são raros os jornalistas a seguir este caminho, onde avulta Fernando Assis Pacheco. Porém, este é o primeiro livro de poemas de Pedro Castelhano. Agora que, de algum modo, já não tem Peredo dos Castelhanos, Rogério Rodrigues transporta-o, com pouco disfarce, agarrado ao nome. E desde logo, por aí, ficamos situados e o terreno marcado.
António Baptista Lopes e a Âncora iniciam com este volume uma colecção de poesia. Exige-se alguma coragem para tal pois os poetas, quase todos, são gente que é perigoso frequentar. Estou certo que terá sucesso, pois não poderia ter começado da melhor maneira a Colecção Universos, com este poemário do seu director. A grafia é cuidada, a capa de um amarelo que talvez nos queira ofuscar para lá do conteúdo, porém sóbria e com pormenores muito agradáveis.
Para mim é uma honra estar aqui a apresentar este livro feito por amigos, mas sobretudo porque é um livro de poesia, em Moncorvo. Há dias escrevia no meu blogue, onde tenho traduzido para mirandês alguns poemas de Pedro Castelhano, que me pareceu mais alta a Serra de Reboredo, e o problema não eram os meus olhos. Agora acrescento que, nestes tempos de tanta dificuldade e incerteza e com assomos apocalípticos, o mundo não está completamente perdido enquanto a poesia morar entre nós.



2.
Comecemos pelo título que, qual porta, nos interpela pela sua aparente estranheza, mas que se apresenta como essencial pista de leitura, (Re)Cantos d’Amar Morte.

A(s) palavra(s) (Re)Cantos é(são) como certas granadas, explode(m) para todos os lados: a geografia [aqui e arredores, a vila, a aldeia, a montanha, o subúrbio]; a música [os violinos, as rabecas, as cantigas ao fim do dia, Brel, Callas, Beethoven, Mozart, José Afonso (evocando-nos como órfãos da madrugada)], sendo o canto o segredo da salvação que ele deixa à sua neta Beatriz diante de um mundo estilhaçado E canta, canta com paixão / e compaixão pelos que já estão proibidos de cantar [Poema à Neta]; o canto-poesia-epopeia, embora sob a figura tutelar de Luíza Neto Jorge [Dezanove Recantos e outros poemas, 1969], já mais como (des)epopeia (por isso nada quer com a de Camões), porque tecida do dia a dia chão, sem barões assinalados, já não dos altos objectivos alcançados, mas dos (re)começos a cada madrugada até ao fim da noite, até ao fim da morte; a própria geologia, no sentido da pedra de canto de Vitorino Nemésio, pura pedra, dura pedra, suporte da construção, estas terras de pedra; e por fim aquele (Re) inícial, entre parêntesis, que dá voz a todas as persistências, convocando o tempo no seu retorno sem fim, eco dos longos silêncios - este é também um poema que se assoma à janela do tempo, da não desistência, e portanto esse (Re) é sobretudo uma raiz de esperança e esta é, nesse sentido, uma poesia de resistência.

D’Amar, o poeta não deixa dúvidas de que nos fala daquilo que ama, e daí uma grande espessura e intensidade, em que tudo e todos são convocados, da mãe à neta com muitos mortos pelo meio. Este termo do título, é como uma pancada no sentido do primeiro, os (Re)Cantos: é de pessoas que esta poesia trata e de tudo o que tem a ver com elas, nada de telúrico aqui ressoa [nesse sentido é um anti-Torga], o que dá um sentido muito próprio à geografia de qua acima falámos. É o amor que vence a morte, ainda quando atravessado longa e repetidamente por ela.

O Morto do título remete-nos para a memória, mais uma vez para o fluir do tempo, pois a morte é um dos pilares desses fluir, sendo a vida o outro pilar, sucedendo-se a morte e a vida num devir sem paragem. É esta uma poesia que chama pela morte, mas à maneira do caçador que busca a presa e a quer ter à sua frente para a poder dominar, matar. Depois fica todo o espaço, todo o tempo para o recomeço. Depois de amanhã [21 de março] começa mais uma primavera, mas tal só será possível porque o inverno morreu e lhe deixou espaço.



3.
Pedro Castelhano começa com um poema-aviso, glosando um tema pedido de empréstimo ao latino Horácio Flaco [é esta uma poesia cheia de constantes citações, como veremos], Carpe Diem [Odes, Livro I, XI][1], só o instante conta, aproveita-o, o tempo é hoje. E com este referente estamos no núcleo, no coração do tempo, o agora, certo, que define o antes e o depois, incertos. Mas um novo aviso surge: caro leitor, prepara-te para uma longa caminhada, primeiro como quem desce ao Hades, embora visando além dele e dele regressando em nova encarnação de Orfeu - o piano é um regato húmido e sonoro / atravessando a noite à procura da madrugada -, depois incitando-nos a navegar, ainda quando a vida caminha para o seu termo vou cortando as veias da alegria / nas últimas horas do dia / e alinho pedras à procura que naveguem. [Carpe Diem]



4.
Vamos, então, navegar um pouco pela poesia de Pedro Castelhano. Não sou um crítico literário, nem aqui farei de conta. Valha, então, esta minha apresentação como um incitamento à poesia, neste caso à leitura destes (Re)Cantos de Pedro Castelhano, aqui vos deixando algumas notas da minha própria leitura (tantas outras seriam possíveis!), notas um pouco soltas, pouco sistematizadas, mas sentidas. Deixo-vos já com a impressão que me ficou da leitura e ficará dito, em síntese, o essencial: temos aqui um poeta, um grande poeta, espesso, maduro, despojado na palavra, arrojado na construção, senhor de recursos culturais notáveis e notavelmente enquadrados, linear nas suas obsessões, que dá voz à rouquidão da vida, não da frieza das pedras e dos montes mas das pessoas, das pessoas destes montes onde deixou a infância que reinventa, preocupado em a agueira por onde corre o sangue do poema. Pelo caminho liga-nos à nossa melhor tradição, além dos já citados, sobretudo e mais que ninguém Luíza Neto Jorge, também Jorge de Sena, Natália Correia, Pessoa / Caeiro e Manuel Bandeira, ou aos clássicos, tantos os nomeados. Apesar dessa ligação, é grande o desamparo que anuncia: não dispomos de raiz, temos de pegar de estaca [Pega de estaca], então, livre, original sem esconder as afinidades, sem precisar de pedir licença para entrar no céu da poesia, pois lhe diz como São Pedro à Irene de Manuel Bandeira: Entre Irene (Rogério, Pedro): Você não precisa pedir licença [Manuel Bandeira, “Irene no Céu”].



5.
Há toda uma geografia que se desenha dentro dos poemas. Uma geografia da memória, daqui irradiando para outras paragens. Uma memória arvorada em critério e fonte de conhecimento, o que vai muito além da experiência que tantos já convocaram como mãe do conhecimento. Bem além dela, estamos no domínio de uma radical subjectividade, no sentido da experiência do poeta, mas sobretudo no sentido de se dizer que viver é preciso, viver é insubstituível. Diz na Carta à Neta, Quando passeares na cidade, não te esqueças das montanhas. /
Ali se escondem os espíritos, os abandonados pelo tempo, /
os banidos ladrões falhados do assalto à alegria.
[Carta à Neta]. Provas? Aí estão as rugas, os relevos vazios de um tempo calcinado / pela memória de que nunca houve deuses. E não. [O último encontro com Sísifo]
O mapa desta geografia pode não aparecer totalmente nítido a quem não está habituado aos sinais e curvas de nível que o delimitam, pois ele inclui a cidade e seus subúrbios Aqui, nos subúrbios da flor / ... até o ladrar dos cães / é poluído [(Re)Cantos], ou o espaço da web, o mar onde agora se navega, os eremitas / na solidão do wireless / ligados ao mundo que os desconhece [Tanta Fúria] tribo de que o poeta, confessadamente, também faz parte.
Alguns dos mais belos poemas de Pedro Castelhanos são pincelas rápidas, em jeito de aguarela, A noite aproxima-se / mais rápida / porque os prédios são mais altos [Do Quotidiano], a lembrar Alberto Caeiro, esse que diz ‘sou do tamanho do que vejo’, e ‘Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave. Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu’.



6.
Num certo sentido, esta é a poesia de alguém arrancado com violência ao seu espaço-paraíso, ao tempo que ainda vive no encantamento da rabeca/violino do Manquinho de Açoreira. Por isso, nunca chegou a ser um emigrante, pois nunca chegou a sair. Agora, outros ele e o tempo, outro o espaço, já não consegue regressar. Peregrinas pelo espaço, mas também o espaço é mutável. / Quando tu mudas, também ele vai mudando. Ficam as montanhas / mais desabitadas e o coração da terra com síncopes mal curadas. / Os teus olhos são mais débeis. Só a fotografia é imutável. É a infância o primeiro pilar da memória Regresso à terra de onde nunca cheguei a partir. De bornal vazio bato à porta e ninguém responde. A casa deserta e na varanda agridem cardos mal tratados. [Prosema]. Por isso não era de rabeca o tocar do Manquinho de Açoreira, mas continua a ser de violino. E branco. …o violino da minha infância. [Prosema] essa infância que não passa de um novelo recolhido [Nove Poemas de Novembro, VIII]. É fundo o lamento em que se evoca essa figura do Manquinho de Açoreira que virou um mito, até no modo como se conta que terá (?) sido devorado pelos lobos, que primeiro encantou com sua música que soltava da sua rabeca [ele também faz parte da mitologia da minha infância]: Ai Manquinho! Ai Manquinho! Pego-te ao colo antes da chegada dos lobos, a ti, o violino da minha infância, a melodia sem fim para o meu ouvido surdo [Prosema]. Como não havia de tremer essa mão da infância, se ela não consegue projectar a sua luz sobre a sombra dos dias? A mão está rude quase / inerte, ouve os ossos, / o rumorejar da dor / mas a mão o que teme / é a infância [Mão dorida].                                                                                                                                                                                                                    

Embora sem concessões à saudade fácil ou à lágrima ao canto do olho, esta é uma poesia que vive de distâncias em relação ao espaço e ao tempo, por aí se filiando naquela menina e moça me levaram de casa de meus pais, ou nas froles do verde pino a quem pergunto novas do meu amigo ai Deus, i u é? Uma tradição poética que em Pedro Castelhano ganha uma dimensão dramática, incapaz de encarar as suas aporias sem solução, onde vai muito do drama de uma parte do nosso país nos últimos cinquenta ou sessenta anos. Um país que, traumaticamente, perde muitas das suas referências, referências que nunca foram as caravelas quinhentistas, essa pátria distante e sem muros contra os quais fosse possível medir a altura do mijar. Essa tristeza de partir, que João Roiz de Castelo Branco tão bem cantou, mas agora é outra a senhora de quem os olhos partem. Por isso pede à noite, seca-me os olhos para que as lágrimas não inventem regatos nas rugas da face. [Prosema] Está a nordeste de tudo [Natal], algures, como diria Pires Cabral, em solidão e abandono, no deserto. Aquele que sai já não pode voltar, pois o que volta é já outro, como outro é o lugar a que se volta. E isto é sem cura, como diria Sá de Miranda, agachado perante o império do tempo que nunca se detém. O tempo rouba-nos o espaço a que estávamos agarrados e este já não é capaz de comportar o tempo. Em rigor, a nossa terra é um deserto, em que já não nos reconhecemos, mas de que um dia se esqueceram de nos cortar o cordão umbilical, esta a fonte onde desaguam os veios da angústia. Vais de visita a lugares de idade nova quando o Outono / rouba aos deuses as cores mais sangrentas e fatais, as cores / mais belas. Vais e não encontras nada. Apenas um deserto / dentro de ti e silêncios que nada quer interromper. Ainda que o mar rejeite o barco, nunca este deixa de estar amarrado ao cais, demasiado frágil para navegar. Viajamos não apenas no espaço, mas também e em simultâneo no tempo, afastamo-nos fazendo-nos outros. Mas esta viagem do poeta é sobretudo dentro de si próprio, que se procura: Há / que tempos te procuras [Nove poemas de Novembro, IX]; Estou de abalada para dentro de mim/ … / E a ternura é um lenço sujo que escondo no bolso roto [Carta à Neta]. E conclui com segurança Um dia hei-de chegar / À MONTANHA. [Montanha]



7.
É a morte o outro pilar da memória, tantas amarguras do passado, sino dolente na tarde calma [Stabat mater]. Porém, perante a morte e o seu clamor, a sua nudez, proclama o poeta o pudor, talvez seja melhor dizer a dignidade, de vestir as palavras com trajes decentes, mas esse manto não é adequado à espera pela ressurreição dos mortos, ao frio que aí vem [Stabat Mater...], pois o sofrimento mata as palavras e mal tolera olhar-se [O último encontro com Sísifo]. Quando se define como a última pedra do caminho que ainda não percorri, é para gritar Que os deuses ressuscitem que eu quero apedrejá-los [O último encontro com Sísifo]. É a revolta do condenado Sísifo, que atira aos seus carrascos a pedra que o obrigam a carregar ladeira acima, sem descando. É aqui que o poeta chama a noite do esquecimento, rosa negra / do meu silêncio / mãe dos cegos / e de todos os que já estão cansados de ver. [Nocturno] Essa noite a quem pede liberta-nos da euforia da luz, essa luz que tantas vezes convoca Quando chegará o dia em que a Morte / é o princípio da Luz?  [À procura da luz]. Mas são os mortos a presença permanente, a obsessão dos vivos, por isso há que saltar lá bem para trás, onde a morte ainda tinha chegado, convida o poeta Quando o Natal chegar / olha os filhos como se só então nascessem / e os dias fossem cristais / partindo grãos de romã [Natal].

Uma palavra sobre o belo conjunto Nove Poemas de Novembro, esse mês dos mortos, mês onde a memória se abre como os ouriços dos castanheiros, ouriços feridos de morte, o mês que traz a obsessiva presença dos ausentes, a naftalina dos verdes anos, mês que acende a geografia do vazio, o lugar dos mortos, onde recomeça / a memória. O mês em que descobres que não tens lugar entre os teus mortos. Esse era o tempo e o espaço que o poeta cuidava seus, onde tinha feito a sua casa, porém, esse espaço interpela-o O que vens aqui fazer?/ / Vens de fato caminheiro. Mas só te resta caminhar, andante / apenas na memória andando, na verdade mentindo. Desses espaços, desse tempo, apenas ficaram as montanhas, pois as gentes já não são as tuas, são uma desilusão. Perdes-te por esses cafés que são templos desertos onde o respirar se ouve. Aqui fica um bom antídoto contra um certo tipo de saudade ou revivalismo.
Os mortos estão sempre presentes, mas sem serem nomeados, insinuando-se de modo cru e violento Quando fui atropelado na rua / Saibam que anoitecia / E eu estava a contar estrelas [(Re)Cantos]. A morte apresentada como o início da luz Quando chegará o dia em que a Morte / é o princípio da Luz / e se inicia o ciclo da Primavera? [Luz] só a morte não é Interrogação [Nove poemas de Novembro, IX]. Qualquer dia faz anos que a morte nos ensombrou [Stabat Mater]. Temos aqui feridas muito fundas que, embora ainda não tenham sarado completamente, os poemas são a crosta que ganharam e isso talvez as torne um pouco mais suportáveis.



8.
É muito sentida a passagem do tempo no próprio poeta, que constantemente nos lembra o fim da vida e a caminhada que o demanda, o entardecer, palavra que titula um dos últimos poemas [Entardecer] e avisa Eu nunca fui a Bagdad / mas dizem-me que a morte / anda à minha procura [Bagdad]. Ele inclui-se entre os que entardecem verdadeiros condenados [Carta à Neta]. É verdade que chega a queixar-se que tarda a entardecer [Tarda a entardecer], mas nem por isso deixa de acusar os espelhos como instrumentos de crueldade, lamentando Olha como dói olhar-te / com rugas no sorriso / e tantos cardos na palavra / que mais parecemos feridos / de regresso a casa [Fim de Estação]. Mas esse é um alimento que temos de comer, não temos alternativa come o / sofrimento do Inverno. Convalesce / na sabedoria dos que morrem / encadeados com a luz da noite. / ... / A longa trança do vento ao crepúsculo nos estrangula. [Fim das Estações].



9.
São muito importantes as mulheres para Pedro Castelhano. Elas são as únicas nomeadas, Beatriz, Ângela, a Mãe, onde também cabem as referências poéticas a Luiza Neto Jorge, o belo poema Sortilégio de Mulher e a homenagem a Natália Correia. São elas que estão vivas, são elas que resistem e sorriem / Mesmo quando a amargura lhes / Fere os lábios [Sortilégio de Mulher]. O futuro são as mulheres, elas como que tomaram o lugar dos deuses, embora sem o serem. Pois deus e os deuses ficam ao entre raiva e dúvida, entre acusação e redenção, entre um não crer e querer um fácil mas impossível acreditar. As folhas recolhem a brisa / e a árvore é a ultima sobra da tarde./ Nada nos resta na inquietude / com Marco Aurélio a pregar a indiferença / como se Heráclito fosse o mensageiro / em que se move a mudança. / Só que as mulheres passam mais / do que as águas do rio / e tornam a passar / estas pontes móveis que nos / aproximam da beleza. // Os deuses são os grandes causadores da tristeza. / Sacanas e dissolventes / Passam a vida a atirar-nos / Pedras, a nós, frágeis ferramentas / De carnes gastas pelo tempo [Entardecer].
O futuro é Beatriz: tu és a crença e a minha / senha para qualquer outro lugar. É tempo de ela tomar o lugar Os / que já entardecem saúdam-te [bonito eco do clássico morituri te salutant dos lutadores da arena diante de César]. / Vá, acorda, começa a madrugar. [Carta à Neta]



10.
Esta poesia mostra que estamos presos ao poste da memória e que, ao invés do que sugere ou gostaria o poeta, não há amnésia. Há cordas que amarrem a alma / ao poste da memória e te obriguem a confessar a tua profunda / amnésia? [Nove poemas de Novembro, IX]. O problema da rápida passagem do tempo, a brevidade da vida, levam o poema a interrogações dramáticas: Há tempo para amar ainda quando o resto é tudo / tão breve? [Nove poemas de Novembro, IX]. O tempo nada perdoa / Porque não há tempo / O tempo passa sem nós / Nós é que passsamos com tempo. [Tarda a Entardecer] ocupas a noite com a memória... podes perpetuar a ira como a única saída para a noite  [Carpe diem]
Mas nem tudo é passado, pois o presente interpela o poeta e ele não resiste. É uma casca fina a barragem que separa os tempos e acena com a indiferença. Por isso proclama que Chegou a hora de exigir tudo [Femina, Femina], ou Serenos como a sintaxe, / abolida a ira, / recomecemos a descrença, deitando fora a medíocre grandeza / do bastidor [Pega de Estaca], e o nome de Bagdad nos lembra a mãe de todas as batalhas [Bagdad], desafiando o niilismo Sei que não é tarefa fácil / desafiar o Nada [Não quero que te canses], mas também o Iraque, o Afeganistão, a Palestina que nos convida a visitar Com o saco cheio de Nada /... / Pode ser que por tanto Nada / algo te queiram dar: / um filho, um sorriso, talvez luar [Quando o Natal Chegar]. E à boa maneira de Horácio[2] conclui que Já não abundam loucos / já ninguém atira pedras / ao vento / nem recita versos de amor / na esplanada. [Há horas] Mas também é possível descortinar ambiguidades por cujas frestas se assoma um certo fim da história, o fim de certos mundos, a presença do apocalipse.



11.
Há nesta poesia uma fuga para o branco, para a luz para as costas brancas do silêncio [À procura da Luz (I)], da claridade que o tempo embaciou [Aniversário], das mulheres encharcadas em branco ... a efémera brancura da palavra [Montanha]. A luz é o contraponto da cegueira. É branca a camisa dos que vão ser fuzilados [À Hora]. Uma poesia que pede luz e horizontes, agarrada que está à cegueira como uma obsessão: Roubaram-nos a lucidez dos cegos [Tanta Fúria] a noite é o princípio da cegueira [Nove Poemas de Novembro, VII]. Os filhos cresceram / E a azeitona continua / A cair / Nos campos brancos da / Madrugada [(Re)Cantos IV]. São dois os poemas com o título À Procura da Luz, escritos como cartas a alguém, como se um foco de luz penetrasse na cegueira / e dispensássemos os deuses de saber quem somos [À procura de luz].
É esta uma poesia tecida de silêncio, fio a fio: Tanta fúria que escorre dos silêncios [Tanta Fúria]. A noite é a rosa negra / do meu silêncio / mãe dos cegos / e de todos os que já estão /cansados de ver.[Nocturno] Aqui, nas costas brancas do silêncio, escrevo-te / em surdina, não vá o silêncio acordar. Pois é o silêncio a suprema arte [À Procura da Luz (II)]. Sabe o poeta que ainda poderá viver tempos em que se pode enlouquecer normalmente [Tempo de enlouquecer]. Digam-me como e se é possível ler esta poesia atravessada pelo silêncio, em que a principal função das palavras é calar esse silêncio e, assim, não sentir tão ágeis as leves passadas do entardecer.



12.
Sinto uma grande afinidade com este poeta em muitas coisas, e não é só no mito do Manquinho de Açoreira ou numa certa loucura de atirar pedradas aos deuses, um certo percurso, a amizade já velha. Vejam lá que também eu embirro com óculos escuros e uso lentes progressivas [Quando eu morrer por favor apaga a luz...]. Mas sinto-me agora mais orientado na minha geografia, com menos risco de me perder, pois se ergue agora um novo marco geodésico a interpelar os caminhos e o tempo. E como o poeta diz à sua neta Beatriz, também eu lhe digo O tempo que demoraste aqui chegar! [Poema à Neta] Uma vez chegado, a nordeste de tudo, poderemos encher o saco de Nada [Quando o Natal chegar], talvez de poemas que nos guardem a dose de loucura de que precisamos para viver, marcos na geografia da memória que nos sirvam de referência no voo do entardecer.

Moncorvo, 19 de março de 2011
Amadeu Ferreira


[1] Dum loquimur, fugerit inuida / aetas: carpe diem, quam minimum credula postero. [Enquanto falamos, ter-se-à escoado o invejoso / tempo: aproveita o dia, e confia o menos que puderes no amanhã.]
[2] Verum pone moras et studium lucri, / nigrorumque memor, dum licet, ignium / mise stultitiam consiliis breuem: / dulce est desipere in loco. [Verdadeiramente, afasta de ti a espera e o gosto do lucro, / e lembra os negros fogos, enquanto possas / mistura com juízo um pouco de loucura: / por vezes é bom não ter juízo.] Horácio Flaco, Odes, Livro IV, XII.

10 março 2011

(Re)Cantos d'Amar Morto - poemário de Pedro Castelhano



Vai ser lançado no próximo dia 19  de março, às 15 horas,  na Biblioteca Municipal de Moncorvo, o poemário (Re)Cantos d'Amar Morto, de Pedro Castelhano, pseudónimo de Rogério Rodrigues.
Aqui se deixa a imagem do convite enviado pela Editora Âncora.




06 março 2011

Assembleia geral da ALTM, dia 20 de Março

 
 
CONVOCATÓRIA
 
 
Convocam-se os sócios da Academia de Letras de Trás-os-Montes para uma reunião da Assembleia-Geral da mesma, a realizar em 20 de março de 2011, pelas 10h30 no Auditório do Centro Cultural Municipal Adriano Moreira, em Bragança, com a seguinte Ordem de Trabalhos:
 
1. Apresentação pela Direcção do Relatório e Contas de 2010.
2. Aprovação do Orçamento e Plano de Actividades para 2011.
3. Estabelecimento do montante da jóia e quota anual.
4. Outros assuntos.
 
Se à hora marcada não houver quorum, a reunião realizar-se-á 30 minutos depois com qualquer número de sócios presentes.
 
Bragança, 20 de Fevereiro de 2011
 
O Presidente da Assembleia Geral
 A.M.Pires Cabral

02 março 2011

ANGOLA, UM AMOR IMPOSSÍVEL

Texto de apresentação do livro de António Passos Coelho, escrito e proferido por Hercília Agarez, membro do Grémio Literário de Vila Real e da Direcção da Academia de Letras de Trás-os-Montes, no  no dia 25 de Fevereiro. Inclui uma carta inédita de Araújo Correia.




      “Entre os médicos, muitos são-no pelo título, poucos pela condição” Hipócrates

    “Um médico não é bom médico se ele próprio não foi doente” Provérbio árabe

    Há livros cuja tipologia é anunciada na capa (romance, contos, poesia, teatro, diário, etc.), outros
em que ela é facilmente dedutível ( Diário de Paris, de Marcelo Duarte Matias, Memórias de uma menina bem comportada, de Simone de Beauvoir, Confissões, de Santo Agostinho, Camilo Broca, de Mário Claúdio, Bichos, de Miguel Torga) , e ainda outros que deixam em aberto o teor do seu conteúdo e a sua filiação nesta ou naquela categoria literária. É o caso do livro que hoje aqui nos reúne em volta do seu autor e de cuja apresentação, tarefa sempre delicada, fui incumbida com uma confiança que me desvanece.
    Se consultarmos a biobibliografia de A. Passos Coelho, verificamos que a escrita literária exerce sobre ele, há muito, uma atracção mais substancialmente materializada quando os seus múltiplos afazeres médicos lhe concedem, como espécie de prémio de bom comportamento, momentos de disponibilidade espiritual exigível pelo acto criativo. Escreveu Vergílio Ferreira em Pensar: “A Arte nasce de uma solidão e dirige-se a outra solidão”. É ele também o autor de uma reflexão (é de reflexões que trata a obra) que nos parece ouvir da boca do nosso escritor “(…) Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos, pessoas que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu posso reconhecer, por nela recuperarem a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao mundo. Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser.”
    Passos Coelho escreve para ser e para dar testemunho do que foi. Humanamente, profissionalmente, civicamente, eticamente. Ao escrever a sua história de vida está a perpetuá-la, tal como faz com histórias de outras vidas. Ao falar de si, estabelece uma constante ligação entre o eu e os outros. Um e outros interagem, entre eles se estabelece uma cumplicidade e um elevado grau de dependência mútua.
    Tratando-se, como é o caso, de uma narrativa de primeira pessoa, a centralidade do eu implica a secundariedade dos outros, cujo relevo na acção depende das suas relações afectivas e/ou profissionais com esse eu. Surgem assim intrigas secundárias ou meros episódios que se desenrolam, em alternância com a intriga principal, ao longo dos quatro anos de permanência do médico em Angola e de que se destaca, pela sua consistência romanesca, a história de amor do casal Baio, um branco amigo do narrador, e uma negra, Nazaré. Umas e outros retardam o desenrolar da acção e enriquecem-na enquanto histórias marginais, além de consubstanciarem realidades de vária ordem, espécie de peças de um gigantesco puzzle que é a vida em África nos primeiros anos da década de setenta.
    É muito rico em experiências/vivências humanas e profissionais o percurso de A.Passos Coelho. Engrossa ele o rol de escritores-médicos de que destacaremos Garcia de Orta, Júlio Dinis, Fialho de Almeida, Fernando Namora, Miguel Torga, João de Araújo Correia, António Lobo Antunes. Se a vida precede a literatura e é dela inspiração, quem, na sua caminhada, armazena mais material susceptível de se transformar em pontos de partida para uma efabulação verosímil?  
    Sem pretendermos catalogar este livro, sempre adiantamos pertencer ele ao que vulgarmente se chama literatura intimista (autobiografias, diários, memórias, cartas). São os seus autores pessoas cujas vivências se revestem de singularidade, riqueza, complexidade, interesse documental, capazes de lhes garantirem perenidade.
    A escrita de quem se desnuda perante leitores incógnitos, devassando a sua intimidade sem pudores nem constrangimentos, assume um cariz introspectivo e confessional em que os poetas são férteis. Sendo as experiências de vida e os testemunhos corporizados em textos em prosa, não dispensam o intuito informativo, por mais que a emoção, geradora de subjectividade, arraste o narrador para situações passíveis de serem interpretadas como excessos de auto-estima. Nas suas Confessions Jean Jacques Rousseau vinca, assim, a sua individualidade: “ Não sou feito como nenhum dos que conheço. Ouso acreditar não ser feito como nenhum dos que existem. Se não valho mais, pelo menos sou outro.”
    Ao transpor para a obra literária a sua interioridade, o autor revela, pois, e usando palavras do poeta Pedro Támen, o “inevitável egocentrismo dos artistas e dos escritores”. E, como diz Clara Rocha, “a narração autobiográfica pode ser concebida como a variante literária do mito de Narciso e a representação do amor-próprio encarnado no narrador/personagem.”
    Esta evidência é contornada pelo autor de Angola, Amor Impossível ao tentar, através do comum artifício de se esconder por detrás de um narrador outro, declinar a sua identidade e o seu protagonismo. A personagem central é, para o efeito pretendido, um médico tisiologista, de seu nome Remigio Ladeira, enviado para Angola, antes do 25 de Abril, com uma determinada missão, cumprida num determinado lapso temporal, cujos cenários são as terras por onde ele circula profissionalmente, habitadas por gentes várias, a maioria (se não a totalidade) delas com existência real, envolvidas em situações dramáticas, protagonistas de intrigas secundárias ou de simples episódios com pouco peso no economia da obra, mas todas elas representativas de evidências que o narrador ambicioso não deixa escapar pelo enriquecimento temático de que se revestem.
    (leitura do texto da página 32-33 – origem do nome Remígio)
    Todos os que aqui estamos conhecemos suficientemente o escritor e o seu percurso vivencial é factualmente verificável. Daí ser-nos difícil ignorar a sua identidade desvendada através de referências múltiplas à sua vida familiar e afectiva, à sua especialização clínica, aos seus relacionamentos profissionais, políticos e sociais, à sua terra natal.
    Ao narrador/protagonista incumbiu o autor a tarefa assumida por Garrett ao escrever Viagens na Minha Terra: “de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica.”
    Assim é. Em 1970 o Dr. Ladeira parte para Angola acompanhado dos seus receios e dos seus anseios, das suas saudades da família e do trabalho, para levar a cabo uma missão para que estava tão habilitado que a sua escolha não levantava controvérsia – instalar em Angola, a convite do ministro do Ultramar, um sanatório para doentes pulmonares. E é ao serviço desta causa que percorre espaços angolanos (exteriores e interiores, centrais e periféricos, poisos de negros e de brancos, de ricos e de pobres) em clima de guerra. É numa luta sem tréguas contra hábitos enraizados, mentalidades obtusas, carências de toda a ordem, que o especialista conhece uma pluralidade de gentes com quem estabelece relacionamentos profissionais, sociais e afectivos. Gentes que entram no seu quotidiano desterrado ora para o ampararem espiritualmente, ora para porem à prova a sua capacidade organizativa e a sua resistência psíquica. Para umas é uma figura respeitável e conceituada a exigir tratamento deferente, para outras um homem sábio e influente a quem se pede ajuda e a quem se dá, sem contrapartidas, um lugar no aconchego de família, para outras um rival a abater, para a maioria uma espécie de Messias de quem se esperam todas as salvações.
    De referir a multiplicidade de espaços reais marcados pelos passos seguros do clínico: os dispensários, a prisão do Capolo, o Isolamento, a casa do Governador, a Escola onde leccionou Higiene, as casas frequentadas, a sua própria casa, etc.
    Entre o momento da escrita do livro e os factos que lhe servem de suporte, decorrem cerca de trinta anos passados a uma grande distância geográfica. Este distanciamento espácio-temporal obriga o autor a rememorá-los com a fidelidade possível, embora ao rigor não seja obrigado porque o seu papel é, por vocação, o de ficcionista. Camilo dizia, quando punham em causa o ineditismo das suas novelas: “Eu não tenho imaginação, tenho memória”. Passos Coelho revela a segunda na capacidade de fixar acontecimentos vividos, de descrever com visualismo espaços físicos e figuras humanas, e a primeira na criação de diálogos abundantes que, além de conferirem verosimilhança à acção, lhe conferem uma vivacidade capaz de impedir uma eventual monotonia a que o registo narrativo está sujeito.
    O atrás referido distanciamento tem outra particularidade que cabe aqui realçar. Embora o autor não seja um historiador, obrigado a uma isenção e a uma objectividade de que o seu estatuto não pode afastar-se sob pena de falsear dados históricos destinados à uma posteridade de que são património cultural, o que ele faz, através do seu eco, ao registar todos os pormenores materiais e imateriais de uma Angola pré e pós-colonial, acaba por ser também história. Ousamos defender a ideia de que, a partir desta publicação, ficou ela mais rica quanto a um período obscuro da existência de um país cuja investigação urge continuar a desenvolver enquanto vivem os que combateram ou os que, de alguma forma, testemunharam os acontecimentos vividos nos diversos palcos de guerra.
    Quem esteve em África (mais particularmente em Angola) no tempo referido, poderá, é nossa convicção, confirmar as informações transmitidas: sobre o urbanismo, as etnias, os movimentos de libertação e as suas ideologias, as condições sociais, económicas e culturais, o racismo, a corrupção, o tráfico de diamantes, a gastronomia, as condições climatéricas, as estradas, os estabelecimentos hoteleiros, escolares, prisionais, hospitalares e outros.
    O narrador está, perante a matéria que virá a constituir o corpus textual da obra, numa posição privilegiada. Como médico é-lhe dado observar um sem número de situações vividas por colonizadores e colonizados, contactar com estruturas dirigentes, com quadros de medicina e de enfermagem, com doentes pneumológicos, incluindo os detidos na prisão, e com eles estabelecer laços de familiaridade facilitadores de confidências e de desabafos por ele aproveitados enquanto vivências a ter em conta num projecto de reconstituição histórica.
    O discurso é organizado numa descontinuidade temporal, uma vez que, a propósito deste ou daquele episódio, o narrador, através de frequentes narrativas retrospectivas, recua a fases da sua vida (infância, adolescência e idade adulta), o que confirma e intensifica a referida centralidade do eu.
    Se o tema central do livro agora editado (ousamos chamar-lhe o Caramulo africano) é a tal ruptura de um amor inviabilizado pela reviravolta operada na política portuguesa depois da revolução de Abril e protagonizado por um médico e uma cidade por que se apaixona, Silva Porto (ou Kuito), pensamos não ser descabido atribuir ao título uma certa ambiguidade. Pois não é também impossível aquele amor platónico que aproxima, traiçoeira e irresistivelmente, um homem por detrás de uma bata branca de uma mulher enfermeira escondida debaixo de um hábito que a não deixa esquecer o castrador compromisso com Cristo?
   Ficção ou realidade, garante esta intriga ao leitor um interesse acrescido. Pelo suspense que nele provoca, pela oportunidade de se proceder a exercícios de análise introspectiva, pela própria problemática dos conflitos gerados entre um corpo livre e um espírito comprometido (a provocar em ambos constrangimentos e arrebatamentos detectáveis nos diálogos que travam – curtos, incisivos, nervosos. (leitura – p.154-155)
    Outros temas enriquecem o conteúdo do livro, como por exemplo o adultério cometido por médicos em congressos, o assédio sexual no feminino vivido entre enfermeiras, a infidelidade feminina ligada à guerra a fazer lembrar as palavras do Velho do Restelo e o Auto da Índia de Gil Vicente, a obediência aos votos religiosos, o abandono e a adopção de crianças negras, os problemas resultantes de casamentos de portugueses com africanas, as referências à terra natal do autor, as circunstâncias dramáticas em que decorreu o processo de descolonização, o ambiente vivido em Lisboa durante o PREC, as inspecções à antiga.
    Se quisermos encontrar uma palavra-chave para esta narrativa, optamos por aquela de que os portugueses tanto se orgulham pela sua carga semântica e pelo seu carácter intraduzível – saudade. É, sem dúvida, esse sentimento que domina o escritor ao despedir-se definitivamente de Angola e que se encontra expresso no seguinte excerto: (p. 291)
     Voltando ao autor, registemos anteriores publicações de carácter memoralista: Gente da Minha Terra, contos, 1960, Material Humano, poesia, 1997, Caramulo, romance, 2006, Eu e a minha Vila, memórias, 2008. E, a avaliar pela regularidade da sua produção nos últimos anos, presumimos estar ocupada a sua forja de escrita…
    Apresentar um livro não é proceder à sua análise, antes levantar alguns véus que permitam desnudá-lo um pouco com a intenção de ajudar os presentes a decidirem se vale ou não a pena adquiri-lo. Pensamos que as razões aduzidas são suficientes para avaliar o seu interesse. Mas, mesmo assim sendo, somos levados a acrescentar uma a que a nossa formação académica não pode deixar de ser sensível.
    Numa época em que é cada vez mais descurado o cuidado a ter com a língua portuguesa, a que Bernardo Soares, semi-heterónimo de Fernando Pessoa chamou pátria, em que a comunicação social falada e escrita, esquecida das suas responsabilidades, nos mimoseia diariamente com atentados linguísticos a que palmatórias de tempos idos chamariam um figo, em que os clichés e os neologismos de formação duvidosa regurgitam de bocas pretensiosas, em que a maioria dos portugueses anda às cutrenas (cutrainas) com o famigerado acordo ortográfico, ler umas centenas de páginas escritas de forma escorreita, limpa, honesta, despretensiosa, sem incorrecções gramaticais, usando criteriosamente os registos adequados, recusando o recurso ao ornamento de uma linguagem afectada e/ou hermética, é um prazer e um enriquecimento.
   A este propósito apetece-nos ler uma carta dirigida pelo médico-escritor Camilo de Araújo Correia ao seu colega que também acumula as duas vocações. É um dos muitos fac-símiles com que o Grémio Literário premeia a assiduidade dos frequentadores das diversificadas actividades culturais que promove.
       
    Terminamos fazendo votos de que os leitores estejam à altura da obra e que não aconteça o previsto por Vergílio Ferreira em entrada da obra atrás referida: “Trabalhar um livro até à minúcia de uma palavra. E depois um leitor engolir tudo à pressa para saber ‘de que trata’. Vale a pena requintar um vinho para se beber como o carrascão?”


26 fevereiro 2011

a arca de música

© Manuel Cardoso

Numa velha arca, no meio de papéis ratados,
Apareceu uma folha de música.
Muito antiga, manchada dos anos, de sangues, de tintas,
Com pautas de quatro linhas, vermelhas, riscas à mão.
Só de se olhar nela se ouvia o cantochão,
Forte, profundo, de lentos hinos cantados,
Ecos nas pedras da abóbada, nas colunas gémeas dos claustros.
Sons que iluminavam vitrais doutros tempos de conversão.
Tapando a folha, parava o canto.
Seria feitiço ou coisa de santo,
Sortilégio assim?
Dizia-se que essa velha arca fora um dia,
Tirada do coro, (antes servia de baú de pergaminhos de músicos),
Relegada para um canto, desprezada!,
Para um canto escondido da abadia.
Dizia-se que nela um noviço se sentara,
Num ensaio de canto de horas esquecidas,
E se distraíra na surpresa de um perfil
De uma dama que a ouvi-lo se detera.
- De onde vem tão bela voz? Dissera ela.
- Da arca! respondeu ele, emudecendo.
Ficando roxo de tal presença, preso de tamanho encanto.
E aflito. Que dizer ou que fugir?!
Mas ficara. E ela, aproximando-se, acreditando na palavra tonsurada,
Deu alguns passos, olhou para ele e a abriu.
Um canto celeste então se ouviu,
Em latim, a voz dos anjos que há cá na terra.
Fugindo, o noviço não mais parou até ao pátio,
Deixando atrás de si caída a folha.
Ela a tomou, a enrolou e a guardou.

Que ali há bruxa, que ali há demo, que ali há…
Sufocando, não mais atinou nem com o canto nem com ela.
Para sempre gago.
Ninguém viu a senhora do perfil,
Nem então, nem nunca mais.
Diziam ao noviço que atarantava:
- Foi visão, foi das horas do jejum, nada demais!
Mas ele teimava em que não, que em carne e roupa a vira ali.
E apontava, olhando o coro, de cá de baixo, com mui temor.
Levaram-no de braços até lá acima: lá estava a arca.
Fechada e muda.
Levantaram a tampa pela dobradiça. Silêncio e pó.
Cheiro de tinta, de ceras de pergaminho.
E então ele, pegando a folha, pautas escarlates, ali pousada,
Depressa pensou, coisa tão louca!
Que alguém tivera que a trazer, que a arrecadar.
Fez o gesto de a desenrolar, seria um cabelo?!
Um hino celeste então se ouviu,
Em latim, a voz dos anjos que há cá na terra, um canto belo.
Fugiram todos sem mais parar.

(É então que jogral ou bufo pega em barrete,
Com ele na mão o estende à gente,
Sorriso franco e voz de falsete:
Uma moedinha, senhores, uma moedinha…)

E recomeça:
Numa velha arca, no meio de papéis ratados…