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10 março 2015

Amadeu Ferreira - Um Santo, por Rogério Rodrigues

O seminário tornou-o um ateu; a vida, um santo.
E morreu, no passado domingo, após uma luta cheia de esperança contra o cancro do cérebro, ele que era um dos melhores cérebros e alma que conheci. O cérebro perdeu-se, a alma é que não.
As cinzas vão renascer nas terras de Sendim (Miranda do Douro) e nas águas do Douro como se antecipassem a Primavera.
Os deuses deram-lhe génio demais para tão curta vida.
No Verão, já o pão recolhido nas eiras (memórias da sua infância) e pintado já o bago da videira, ia fazer 65 anos.
Amadeu Ferreira –e é de um santo que estamos a falar—nasceu em Sendim, de pais analfabetos,  mas sábios; foi seminarista até ao fim do curso (Humanidades, Filosofia e Teologia); preferiu a expulsão a ser uma esperança do clero com viagem prometida para estudos superiores em Roma.
Mergulhado no mundo profano, sobreviveu a dar explicações  em Bragança, em quarto partilhado com Armando Vara, foi dirigente do movimento de extrema esquerda ( PPC(R)/UDP), deputado durante alguns dias, desiludido com a política, irradiado do partido; foi professor de música numa escola da Outra Banda, ainda trabalhou na construção civil, aluno à noite da Faculdade de Direito de que foi o melhor aluno do curso, quer do diurno quer do nocturno.
Conhecemo-nos há 40 anos. Durante tempos, seguindo caminhos não cruzados, não nos encontrámos. Um dia, por casualidade, parámos na mesma estação de serviço. E começámos a conversar como se o último encontro tivesse sido ontem. Eu acabara de receber de França, os três volumes da Histoire intérieure du parti communiste de Philippe Robrieux, um antigo trotkista. Emprestei-lhe os volumes e durante tempos discutimos, ou melhor, debatemos este clássico, onde já aparece a vertente do PCP português. Nada do que é humano era alheio a Amadeu Ferreira.
Terminado o curso, com uma dissertação sobre os Valores Mobiliários cuja bibliografia era escassa ( o último trabalho com alguma profundidade já teria mais de 50 anos ) acabou por ser convidado para a  CMVM (Comissão de Mercados de Valores Mobiliários), onde chegou a vice-presidente e docente da Faculdade de Direito.
Nunca abdicou a boina espanhola nem do bigode. Todos os meses andava 500 quilómetros para visitar os pais e pelas manhãs podíamos vê-lo na horta( como eu vi, num fim de semana que passamos em sua casa) a regar o cebolo ou orgulhar-se das couves tronchudas onde as gotas de orvalho mais pareciam lágrimas de alegria.
Lutador até ao fim, com outros mirandeses, homens de planalto, celtas e judeus, o Amadeu, cuja família tem por alcunha os Bandarras, conseguiu que o mirandês se transformasse, por aprovação na Assembleia da República,  a segunda língua oficial do País. E começou a traduzir  com o pseudónimo, ou heterónimo, como queiram, de Fracisco Niebro ( Niebro em mirandês significa zimbro) a Mensagem de Pessoa, Os Lusíadas, o Asterix, os Quatro Evangelhos da vulgata de S. Jerónimo que os traduzira do hebraico para o latim, e não da versão Septuaginta em grego.
Traduziu os clássicos, que ele tanto amava: Virgílio, Horácio e Catulo. Hesíodo, o poeta do Trabalhos dos Dias será a sua fonte para o livro de poemas Ars Vivendi,Ars Moriendi que eu, a seu pedido, traduzi para mirandês, utilizando um dicionário da sua autoria e do filho Pedro Ferreira, que ainda não está publicado, com a ajuda preciosa de António Cangueiro que, até ao fim dos dias do Amadeu,  foi mais do que o seu secretário. Amadeu lúcido, mas já sem ver, pedia a António que lhe lesse e ditava-lhe os últimos textos que pensou antes de morrer.
Toda ou quase toda a a sua obra e o seu curriculum podem ser consultados nas 295 páginas que Hirondino Fernandes lhe dedica na Bibliografia do Distrito de Bragança (II volume).
Na ficção, baseada em longas investigações  na Torre do Tombo, deixou o Tempo de Fogo, um libelo acusatório das perseguições da Inquisição em terras de Miranda.
Amadeu até na morte foi grande e discreto. Deixou-nos como último acto da sabedoria a Velhice , a lembrar o De Senectute de Cícero.
O jovem que conheci há 40 anos era o mesmo que conheci até ao passado domingo.
Se teve pecados, não lhos conheço. A tê-los, foram já santificados.

Fazes-me falta, Amadeu.

Rogério Rodrigues

04 março 2014

”(Re)Cantos d’Amar Morto”, de Pedro Castelhano (Rogério Rodrigues)"

Teve lugar,no passado dia 19/03/2011, na Biblioteca Municipal,a apresentação,pelo Dr.Amadeu Ferreira, do livro de poemas de Pedro Castelhano,pseudónimo de Rogério Rodrigues,”(Re)Cantos d’Amar Morto”.Motivadas pela qualidade dos intervenientes,as pessoas vindas de várias partes do país encheram por completo a sala do auditório da Biblioteca.

Porque o acontecimento suscitou tanta curiosidade e interesse,transcrevemos na íntegra o texto de apresentação do dr.Amadeu Ferreira,assim como o do autor da obra.
 O VOO DO ENTARDECER NA GEOGRAFIA DA MEMÓRIA

1.Rogério Rodrigues fez-nos esperar quarenta anos até nos dar o segundo livro de poemas [Livro de Visitas, aos 23 anos]. Omito aqui os seus vastos pergaminhos literários, onde também se inclui a ficção [A outra Face da Morte, novela]. Fique nota, no entanto, de que são raros os jornalistas a seguir este caminho, onde avulta Fernando Assis Pacheco. Porém, este é o primeiro livro de poemas de Pedro Castelhano. Agora que, de algum modo, já não tem Peredo dos Castelhanos, Rogério Rodrigues transporta-o, com pouco disfarce, agarrado ao nome. E desde logo, por aí, ficamos situados e o terreno marcado.
António Baptista Lopes e a Âncora iniciam com este volume uma colecção de poesia. Exige-se alguma coragem para tal pois os poetas, quase todos, são gente que é perigoso frequentar. Estou certo que terá sucesso, pois não poderia ter começado da melhor maneira a Colecção Universos, com este poemário do seu director. A grafia é cuidada, a capa de um amarelo que talvez nos queira ofuscar para lá do conteúdo, porém sóbria e com pormenores muito agradáveis.
Para mim é uma honra estar aqui a apresentar este livro feito por amigos, mas sobretudo porque é um livro de poesia, em Moncorvo. Há dias escrevia no meu blogue, onde tenho traduzido para mirandês alguns poemas de Pedro Castelhano, que me pareceu mais alta a Serra de Reboredo, e o problema não eram os meus olhos. Agora acrescento que, nestes tempos de tanta dificuldade e incerteza e com assomos apocalípticos, o mundo não está completamente perdido enquanto a poesia morar entre nós.


O VOO DO ENTARDECER NA GEOGRAFIA DA MEMÓRIA

19 janeiro 2014

Apresentação do livro “Histórias de Benlhevai”,por Rogério Rodrigues

Benlhevai é o Reino Maravilhoso de José Maria Fernandes. Pertencendo a um família numerosa e ele com assento mais permanente nesta aldeia de Vila Flor, foi incumbido de ser o cronista-mór do Reino.
E desempenhou bem as funções, porque este livro é e será uma preciosidade para os estudiosos de antropologia, etnografia, comportamentos sociais,linguística mesmo ou sobretudo nos regionalismos,
localismos ou corruptela das palavras, o que levou, compreensivelmente,o autor  a apendiçar um glossário à obra.
 O que nos pode surpreender neste livro é a coexistência do sagrado com o profano, o repositório de um conhecimento empírico e ancestral na nomeação e catalogação das alfaias agrícolas , das suas características e utilização.
É toda uma cultura popular, mais assente na passagem de testemunho e memória de pai para filho, do que em qualquer documento escrito.
Registe-se também, e não é tão pouco, uma recolha da sabedoria popular, dos costumes, e dos ciclos da vida do homem e da Natureza. E nunca, como aqui, o homem e a natureza andaram tão ligados e foram tão dependentes um do outro.
 O próprio  trabalho agrícola, tão bem relatado pelo autor, conduz-nos a um conhecimento de práticas seculares. Já o poeta grego Hesíodo, na sua obra “Trabalhos e Dias”, escrita  500 anos anos antes de Cristo, nos relata o quotidiano agrícola com características semelhantes ao nosso trabalho agrícola até há bem pouco tempo. Já Hesíodo descreve com pormenor as distinções  entre o arado simples e o arado articulado.
 Chegado aqui, com o mundo rural hoje tanto em mutação, apetece-me lembrar-vos uma história, verdadeira, que aconteceu em Trás-os-Montes, após o 25 de Abril, quando nós, gente do norte, passamos a ser vistos como gente ignara, que vivia noutro mundo, como se o Reino Maravilhoso não passasse de um Jardim Zoológico, por profunda ignorância urbana, ou tentativa envergonhada de alguns esconderem as suas origens, renegarem as suas raízes, principalmente aqueles que se acomodaram às delícias da cidade e amesendaram à falsa fartura do orçamento.
 Aqui vai a história. Estava o país em plena campanha para as primeiras eleições livres, após 48 anos de obscurantismo, quando um jornalista  da RTP rumou até ao Norte. E porque uma velha de negro vestida é sempre uma imagem de que  um modelo de citadino gosta, vai de entrevistá-la, com o ar paternalista de quem tem o conhecimento do efémero e do que está na moda,perguntando-lhe: “ Então velhinha sabe o que é uma Assembleia Constituinte?”. A velha nem sequer olhou para ele e respondeu: “ E o senhor sabe o que é um almude de azeite?”
Estamos perante dois mundos: um que tem séculos de conhecimentos acumulados; outro, que não passa da espuma dos dias.
 Bem haja o autor deste livro que consegue recuperar o que irremediavelmente estaria perdido, porque cada velho que morre é um livro   que desaparece.
 Benlhevai tem a sua história. O primeiro registo que se conhece, e já com este nome, é de 1258, nas ordenações de D. Afonso III, farto  que os senhores feudais lhe roubassem terras que, por direito real, lhe pertenciam.
Em 1950 a aldeia tinha 500 habitantes. Pelo censo de 2011, não passava de 200 habitantes. Durante 60 anos, esta aldeia, como tantas outras, foi dilacerada pela emigração e pela guerra, os cemitérios cresceram mais do que as creches e as escolas.
O autor denota uma grande consciência social quando retrata, com minúcia, as condições de vida e os seus agentes, com a aldeia hierarquizada entre ricos (digamos antes abastados), pobres ( digamos antes muito pobres) e remediados( digamos antes, no limiar da pobreza, mas com algum património).
O livro, sendo um testemunho de solidariedade vicinal e de hospitalidade para o forasteiro, é sobretudo um hino à mulher, como o elemento fundamental da comunidade.
 E o autor vai enumerando pelo nome, as mulheres como heroínas e os homens que fazem parte da sua memória e da sua infância, com os nomes e mesmo as alcunhas.
O autor é rigoroso na descrição das festividades, tanto pagãs como religiosas, desde a festa do Divino Espírito Santo até à matança do porco em Dezembro.
E não deixa de lembrar que o início do ano agrícola é uma espécie do início de vida. Tudo na aldeia se move por ciclos, os homens e a natureza.
Hiatos há que vêm perturbar esta rotina secular: os anos loucos do volfrâmio, em que as riquezas morriam tão cedo como tão rápido tinham nascido.
Depois, com as minas em ruínas e os mitos abandonados, tudo regressa à normalidade das trovoadas de Maio, das pulhas e do Entrudo, da Quaresma,dos jogos do fito e do ferro, das segadas, de Agosto quente e das festas do Cabeço.
E atento à minúcia, o autor descreve, como se fosse o guia de um Museu do Mundo Rural, a malhadeira e o carro de bois. A descrição deste, é exemplar, com utensílios aperfeiçoados ao longo dos séculos, num conhecimento empírico que nos leva a admirar como aquela simplicidade é tão complexa.
A linguagem tecnológica e asséptica do software, hard ware, down load, etc. etc,  se é simples para os seus utilizadores e hoje tão vulgarizada, em relação às partículas ( passe a ironia) que compõem um carro de bois, é pobre. Dificilmente um hacker compreenderia esta linguagem.
 Vai longa já a conversa. Muito haveria ainda de dizer, desde a generosa tentativa de uma juventude carregada de ideais, com o 25 de Abril,  ressuscitar tradições e promover ciclos culturais, com a criação de escolas e a visita semanal do médico.Mas os sonhos foram-se perdendo. Cada um partiu para o seu lado, à procura de vida melhor, o deserto vai-se estendendo pelas aldeias, o próprio país é um sítio cada vez menos frequentado.
Resta ao autor a ligação profunda, de um intensidade quase possessiva, pela sua aldeia.
 E não quero terminar sem citar uma das passagens que mais me comoveu no livro. Em 1963, chegou finalmente à aldeia a luz eléctrica E qual poeta Homero que, não vendo, via mais do que os que viam, Alfredo, e passo a citar, “ que nunca verá luz eléctrica chora abraçado a mim, no dia em que oficialmente chegou a luz a Benlhevai”.

21 março 2011

(Re)Cantos d’Amar Morto - Notas de apresentação


Rogério Rodrigues, (Re)Cantos d’Amar Morto, Editora Âncora, 2011


[Notas de apoio à apresentação do livro, em Moncorvo, no dia 19 de março de 2011, às 15 horas.]



O VOO DO ENTARDECER NA GEOGRAFIA DA MEMÓRIA



1.
Rogério Rodrigues fez-nos esperar quarenta anos até nos dar o segundo livro de poemas [Livro de Visitas, aos 23 anos]. Omito aqui os seus vastos pergaminhos literários, onde também se inclui a ficção [A outra Face da Morte, novela]. Fique nota, no entanto, de que são raros os jornalistas a seguir este caminho, onde avulta Fernando Assis Pacheco. Porém, este é o primeiro livro de poemas de Pedro Castelhano. Agora que, de algum modo, já não tem Peredo dos Castelhanos, Rogério Rodrigues transporta-o, com pouco disfarce, agarrado ao nome. E desde logo, por aí, ficamos situados e o terreno marcado.
António Baptista Lopes e a Âncora iniciam com este volume uma colecção de poesia. Exige-se alguma coragem para tal pois os poetas, quase todos, são gente que é perigoso frequentar. Estou certo que terá sucesso, pois não poderia ter começado da melhor maneira a Colecção Universos, com este poemário do seu director. A grafia é cuidada, a capa de um amarelo que talvez nos queira ofuscar para lá do conteúdo, porém sóbria e com pormenores muito agradáveis.
Para mim é uma honra estar aqui a apresentar este livro feito por amigos, mas sobretudo porque é um livro de poesia, em Moncorvo. Há dias escrevia no meu blogue, onde tenho traduzido para mirandês alguns poemas de Pedro Castelhano, que me pareceu mais alta a Serra de Reboredo, e o problema não eram os meus olhos. Agora acrescento que, nestes tempos de tanta dificuldade e incerteza e com assomos apocalípticos, o mundo não está completamente perdido enquanto a poesia morar entre nós.



2.
Comecemos pelo título que, qual porta, nos interpela pela sua aparente estranheza, mas que se apresenta como essencial pista de leitura, (Re)Cantos d’Amar Morte.

A(s) palavra(s) (Re)Cantos é(são) como certas granadas, explode(m) para todos os lados: a geografia [aqui e arredores, a vila, a aldeia, a montanha, o subúrbio]; a música [os violinos, as rabecas, as cantigas ao fim do dia, Brel, Callas, Beethoven, Mozart, José Afonso (evocando-nos como órfãos da madrugada)], sendo o canto o segredo da salvação que ele deixa à sua neta Beatriz diante de um mundo estilhaçado E canta, canta com paixão / e compaixão pelos que já estão proibidos de cantar [Poema à Neta]; o canto-poesia-epopeia, embora sob a figura tutelar de Luíza Neto Jorge [Dezanove Recantos e outros poemas, 1969], já mais como (des)epopeia (por isso nada quer com a de Camões), porque tecida do dia a dia chão, sem barões assinalados, já não dos altos objectivos alcançados, mas dos (re)começos a cada madrugada até ao fim da noite, até ao fim da morte; a própria geologia, no sentido da pedra de canto de Vitorino Nemésio, pura pedra, dura pedra, suporte da construção, estas terras de pedra; e por fim aquele (Re) inícial, entre parêntesis, que dá voz a todas as persistências, convocando o tempo no seu retorno sem fim, eco dos longos silêncios - este é também um poema que se assoma à janela do tempo, da não desistência, e portanto esse (Re) é sobretudo uma raiz de esperança e esta é, nesse sentido, uma poesia de resistência.

D’Amar, o poeta não deixa dúvidas de que nos fala daquilo que ama, e daí uma grande espessura e intensidade, em que tudo e todos são convocados, da mãe à neta com muitos mortos pelo meio. Este termo do título, é como uma pancada no sentido do primeiro, os (Re)Cantos: é de pessoas que esta poesia trata e de tudo o que tem a ver com elas, nada de telúrico aqui ressoa [nesse sentido é um anti-Torga], o que dá um sentido muito próprio à geografia de qua acima falámos. É o amor que vence a morte, ainda quando atravessado longa e repetidamente por ela.

O Morto do título remete-nos para a memória, mais uma vez para o fluir do tempo, pois a morte é um dos pilares desses fluir, sendo a vida o outro pilar, sucedendo-se a morte e a vida num devir sem paragem. É esta uma poesia que chama pela morte, mas à maneira do caçador que busca a presa e a quer ter à sua frente para a poder dominar, matar. Depois fica todo o espaço, todo o tempo para o recomeço. Depois de amanhã [21 de março] começa mais uma primavera, mas tal só será possível porque o inverno morreu e lhe deixou espaço.



3.
Pedro Castelhano começa com um poema-aviso, glosando um tema pedido de empréstimo ao latino Horácio Flaco [é esta uma poesia cheia de constantes citações, como veremos], Carpe Diem [Odes, Livro I, XI][1], só o instante conta, aproveita-o, o tempo é hoje. E com este referente estamos no núcleo, no coração do tempo, o agora, certo, que define o antes e o depois, incertos. Mas um novo aviso surge: caro leitor, prepara-te para uma longa caminhada, primeiro como quem desce ao Hades, embora visando além dele e dele regressando em nova encarnação de Orfeu - o piano é um regato húmido e sonoro / atravessando a noite à procura da madrugada -, depois incitando-nos a navegar, ainda quando a vida caminha para o seu termo vou cortando as veias da alegria / nas últimas horas do dia / e alinho pedras à procura que naveguem. [Carpe Diem]



4.
Vamos, então, navegar um pouco pela poesia de Pedro Castelhano. Não sou um crítico literário, nem aqui farei de conta. Valha, então, esta minha apresentação como um incitamento à poesia, neste caso à leitura destes (Re)Cantos de Pedro Castelhano, aqui vos deixando algumas notas da minha própria leitura (tantas outras seriam possíveis!), notas um pouco soltas, pouco sistematizadas, mas sentidas. Deixo-vos já com a impressão que me ficou da leitura e ficará dito, em síntese, o essencial: temos aqui um poeta, um grande poeta, espesso, maduro, despojado na palavra, arrojado na construção, senhor de recursos culturais notáveis e notavelmente enquadrados, linear nas suas obsessões, que dá voz à rouquidão da vida, não da frieza das pedras e dos montes mas das pessoas, das pessoas destes montes onde deixou a infância que reinventa, preocupado em a agueira por onde corre o sangue do poema. Pelo caminho liga-nos à nossa melhor tradição, além dos já citados, sobretudo e mais que ninguém Luíza Neto Jorge, também Jorge de Sena, Natália Correia, Pessoa / Caeiro e Manuel Bandeira, ou aos clássicos, tantos os nomeados. Apesar dessa ligação, é grande o desamparo que anuncia: não dispomos de raiz, temos de pegar de estaca [Pega de estaca], então, livre, original sem esconder as afinidades, sem precisar de pedir licença para entrar no céu da poesia, pois lhe diz como São Pedro à Irene de Manuel Bandeira: Entre Irene (Rogério, Pedro): Você não precisa pedir licença [Manuel Bandeira, “Irene no Céu”].



5.
Há toda uma geografia que se desenha dentro dos poemas. Uma geografia da memória, daqui irradiando para outras paragens. Uma memória arvorada em critério e fonte de conhecimento, o que vai muito além da experiência que tantos já convocaram como mãe do conhecimento. Bem além dela, estamos no domínio de uma radical subjectividade, no sentido da experiência do poeta, mas sobretudo no sentido de se dizer que viver é preciso, viver é insubstituível. Diz na Carta à Neta, Quando passeares na cidade, não te esqueças das montanhas. /
Ali se escondem os espíritos, os abandonados pelo tempo, /
os banidos ladrões falhados do assalto à alegria.
[Carta à Neta]. Provas? Aí estão as rugas, os relevos vazios de um tempo calcinado / pela memória de que nunca houve deuses. E não. [O último encontro com Sísifo]
O mapa desta geografia pode não aparecer totalmente nítido a quem não está habituado aos sinais e curvas de nível que o delimitam, pois ele inclui a cidade e seus subúrbios Aqui, nos subúrbios da flor / ... até o ladrar dos cães / é poluído [(Re)Cantos], ou o espaço da web, o mar onde agora se navega, os eremitas / na solidão do wireless / ligados ao mundo que os desconhece [Tanta Fúria] tribo de que o poeta, confessadamente, também faz parte.
Alguns dos mais belos poemas de Pedro Castelhanos são pincelas rápidas, em jeito de aguarela, A noite aproxima-se / mais rápida / porque os prédios são mais altos [Do Quotidiano], a lembrar Alberto Caeiro, esse que diz ‘sou do tamanho do que vejo’, e ‘Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave. Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu’.



6.
Num certo sentido, esta é a poesia de alguém arrancado com violência ao seu espaço-paraíso, ao tempo que ainda vive no encantamento da rabeca/violino do Manquinho de Açoreira. Por isso, nunca chegou a ser um emigrante, pois nunca chegou a sair. Agora, outros ele e o tempo, outro o espaço, já não consegue regressar. Peregrinas pelo espaço, mas também o espaço é mutável. / Quando tu mudas, também ele vai mudando. Ficam as montanhas / mais desabitadas e o coração da terra com síncopes mal curadas. / Os teus olhos são mais débeis. Só a fotografia é imutável. É a infância o primeiro pilar da memória Regresso à terra de onde nunca cheguei a partir. De bornal vazio bato à porta e ninguém responde. A casa deserta e na varanda agridem cardos mal tratados. [Prosema]. Por isso não era de rabeca o tocar do Manquinho de Açoreira, mas continua a ser de violino. E branco. …o violino da minha infância. [Prosema] essa infância que não passa de um novelo recolhido [Nove Poemas de Novembro, VIII]. É fundo o lamento em que se evoca essa figura do Manquinho de Açoreira que virou um mito, até no modo como se conta que terá (?) sido devorado pelos lobos, que primeiro encantou com sua música que soltava da sua rabeca [ele também faz parte da mitologia da minha infância]: Ai Manquinho! Ai Manquinho! Pego-te ao colo antes da chegada dos lobos, a ti, o violino da minha infância, a melodia sem fim para o meu ouvido surdo [Prosema]. Como não havia de tremer essa mão da infância, se ela não consegue projectar a sua luz sobre a sombra dos dias? A mão está rude quase / inerte, ouve os ossos, / o rumorejar da dor / mas a mão o que teme / é a infância [Mão dorida].                                                                                                                                                                                                                    

Embora sem concessões à saudade fácil ou à lágrima ao canto do olho, esta é uma poesia que vive de distâncias em relação ao espaço e ao tempo, por aí se filiando naquela menina e moça me levaram de casa de meus pais, ou nas froles do verde pino a quem pergunto novas do meu amigo ai Deus, i u é? Uma tradição poética que em Pedro Castelhano ganha uma dimensão dramática, incapaz de encarar as suas aporias sem solução, onde vai muito do drama de uma parte do nosso país nos últimos cinquenta ou sessenta anos. Um país que, traumaticamente, perde muitas das suas referências, referências que nunca foram as caravelas quinhentistas, essa pátria distante e sem muros contra os quais fosse possível medir a altura do mijar. Essa tristeza de partir, que João Roiz de Castelo Branco tão bem cantou, mas agora é outra a senhora de quem os olhos partem. Por isso pede à noite, seca-me os olhos para que as lágrimas não inventem regatos nas rugas da face. [Prosema] Está a nordeste de tudo [Natal], algures, como diria Pires Cabral, em solidão e abandono, no deserto. Aquele que sai já não pode voltar, pois o que volta é já outro, como outro é o lugar a que se volta. E isto é sem cura, como diria Sá de Miranda, agachado perante o império do tempo que nunca se detém. O tempo rouba-nos o espaço a que estávamos agarrados e este já não é capaz de comportar o tempo. Em rigor, a nossa terra é um deserto, em que já não nos reconhecemos, mas de que um dia se esqueceram de nos cortar o cordão umbilical, esta a fonte onde desaguam os veios da angústia. Vais de visita a lugares de idade nova quando o Outono / rouba aos deuses as cores mais sangrentas e fatais, as cores / mais belas. Vais e não encontras nada. Apenas um deserto / dentro de ti e silêncios que nada quer interromper. Ainda que o mar rejeite o barco, nunca este deixa de estar amarrado ao cais, demasiado frágil para navegar. Viajamos não apenas no espaço, mas também e em simultâneo no tempo, afastamo-nos fazendo-nos outros. Mas esta viagem do poeta é sobretudo dentro de si próprio, que se procura: Há / que tempos te procuras [Nove poemas de Novembro, IX]; Estou de abalada para dentro de mim/ … / E a ternura é um lenço sujo que escondo no bolso roto [Carta à Neta]. E conclui com segurança Um dia hei-de chegar / À MONTANHA. [Montanha]



7.
É a morte o outro pilar da memória, tantas amarguras do passado, sino dolente na tarde calma [Stabat mater]. Porém, perante a morte e o seu clamor, a sua nudez, proclama o poeta o pudor, talvez seja melhor dizer a dignidade, de vestir as palavras com trajes decentes, mas esse manto não é adequado à espera pela ressurreição dos mortos, ao frio que aí vem [Stabat Mater...], pois o sofrimento mata as palavras e mal tolera olhar-se [O último encontro com Sísifo]. Quando se define como a última pedra do caminho que ainda não percorri, é para gritar Que os deuses ressuscitem que eu quero apedrejá-los [O último encontro com Sísifo]. É a revolta do condenado Sísifo, que atira aos seus carrascos a pedra que o obrigam a carregar ladeira acima, sem descando. É aqui que o poeta chama a noite do esquecimento, rosa negra / do meu silêncio / mãe dos cegos / e de todos os que já estão cansados de ver. [Nocturno] Essa noite a quem pede liberta-nos da euforia da luz, essa luz que tantas vezes convoca Quando chegará o dia em que a Morte / é o princípio da Luz?  [À procura da luz]. Mas são os mortos a presença permanente, a obsessão dos vivos, por isso há que saltar lá bem para trás, onde a morte ainda tinha chegado, convida o poeta Quando o Natal chegar / olha os filhos como se só então nascessem / e os dias fossem cristais / partindo grãos de romã [Natal].

Uma palavra sobre o belo conjunto Nove Poemas de Novembro, esse mês dos mortos, mês onde a memória se abre como os ouriços dos castanheiros, ouriços feridos de morte, o mês que traz a obsessiva presença dos ausentes, a naftalina dos verdes anos, mês que acende a geografia do vazio, o lugar dos mortos, onde recomeça / a memória. O mês em que descobres que não tens lugar entre os teus mortos. Esse era o tempo e o espaço que o poeta cuidava seus, onde tinha feito a sua casa, porém, esse espaço interpela-o O que vens aqui fazer?/ / Vens de fato caminheiro. Mas só te resta caminhar, andante / apenas na memória andando, na verdade mentindo. Desses espaços, desse tempo, apenas ficaram as montanhas, pois as gentes já não são as tuas, são uma desilusão. Perdes-te por esses cafés que são templos desertos onde o respirar se ouve. Aqui fica um bom antídoto contra um certo tipo de saudade ou revivalismo.
Os mortos estão sempre presentes, mas sem serem nomeados, insinuando-se de modo cru e violento Quando fui atropelado na rua / Saibam que anoitecia / E eu estava a contar estrelas [(Re)Cantos]. A morte apresentada como o início da luz Quando chegará o dia em que a Morte / é o princípio da Luz / e se inicia o ciclo da Primavera? [Luz] só a morte não é Interrogação [Nove poemas de Novembro, IX]. Qualquer dia faz anos que a morte nos ensombrou [Stabat Mater]. Temos aqui feridas muito fundas que, embora ainda não tenham sarado completamente, os poemas são a crosta que ganharam e isso talvez as torne um pouco mais suportáveis.



8.
É muito sentida a passagem do tempo no próprio poeta, que constantemente nos lembra o fim da vida e a caminhada que o demanda, o entardecer, palavra que titula um dos últimos poemas [Entardecer] e avisa Eu nunca fui a Bagdad / mas dizem-me que a morte / anda à minha procura [Bagdad]. Ele inclui-se entre os que entardecem verdadeiros condenados [Carta à Neta]. É verdade que chega a queixar-se que tarda a entardecer [Tarda a entardecer], mas nem por isso deixa de acusar os espelhos como instrumentos de crueldade, lamentando Olha como dói olhar-te / com rugas no sorriso / e tantos cardos na palavra / que mais parecemos feridos / de regresso a casa [Fim de Estação]. Mas esse é um alimento que temos de comer, não temos alternativa come o / sofrimento do Inverno. Convalesce / na sabedoria dos que morrem / encadeados com a luz da noite. / ... / A longa trança do vento ao crepúsculo nos estrangula. [Fim das Estações].



9.
São muito importantes as mulheres para Pedro Castelhano. Elas são as únicas nomeadas, Beatriz, Ângela, a Mãe, onde também cabem as referências poéticas a Luiza Neto Jorge, o belo poema Sortilégio de Mulher e a homenagem a Natália Correia. São elas que estão vivas, são elas que resistem e sorriem / Mesmo quando a amargura lhes / Fere os lábios [Sortilégio de Mulher]. O futuro são as mulheres, elas como que tomaram o lugar dos deuses, embora sem o serem. Pois deus e os deuses ficam ao entre raiva e dúvida, entre acusação e redenção, entre um não crer e querer um fácil mas impossível acreditar. As folhas recolhem a brisa / e a árvore é a ultima sobra da tarde./ Nada nos resta na inquietude / com Marco Aurélio a pregar a indiferença / como se Heráclito fosse o mensageiro / em que se move a mudança. / Só que as mulheres passam mais / do que as águas do rio / e tornam a passar / estas pontes móveis que nos / aproximam da beleza. // Os deuses são os grandes causadores da tristeza. / Sacanas e dissolventes / Passam a vida a atirar-nos / Pedras, a nós, frágeis ferramentas / De carnes gastas pelo tempo [Entardecer].
O futuro é Beatriz: tu és a crença e a minha / senha para qualquer outro lugar. É tempo de ela tomar o lugar Os / que já entardecem saúdam-te [bonito eco do clássico morituri te salutant dos lutadores da arena diante de César]. / Vá, acorda, começa a madrugar. [Carta à Neta]



10.
Esta poesia mostra que estamos presos ao poste da memória e que, ao invés do que sugere ou gostaria o poeta, não há amnésia. Há cordas que amarrem a alma / ao poste da memória e te obriguem a confessar a tua profunda / amnésia? [Nove poemas de Novembro, IX]. O problema da rápida passagem do tempo, a brevidade da vida, levam o poema a interrogações dramáticas: Há tempo para amar ainda quando o resto é tudo / tão breve? [Nove poemas de Novembro, IX]. O tempo nada perdoa / Porque não há tempo / O tempo passa sem nós / Nós é que passsamos com tempo. [Tarda a Entardecer] ocupas a noite com a memória... podes perpetuar a ira como a única saída para a noite  [Carpe diem]
Mas nem tudo é passado, pois o presente interpela o poeta e ele não resiste. É uma casca fina a barragem que separa os tempos e acena com a indiferença. Por isso proclama que Chegou a hora de exigir tudo [Femina, Femina], ou Serenos como a sintaxe, / abolida a ira, / recomecemos a descrença, deitando fora a medíocre grandeza / do bastidor [Pega de Estaca], e o nome de Bagdad nos lembra a mãe de todas as batalhas [Bagdad], desafiando o niilismo Sei que não é tarefa fácil / desafiar o Nada [Não quero que te canses], mas também o Iraque, o Afeganistão, a Palestina que nos convida a visitar Com o saco cheio de Nada /... / Pode ser que por tanto Nada / algo te queiram dar: / um filho, um sorriso, talvez luar [Quando o Natal Chegar]. E à boa maneira de Horácio[2] conclui que Já não abundam loucos / já ninguém atira pedras / ao vento / nem recita versos de amor / na esplanada. [Há horas] Mas também é possível descortinar ambiguidades por cujas frestas se assoma um certo fim da história, o fim de certos mundos, a presença do apocalipse.



11.
Há nesta poesia uma fuga para o branco, para a luz para as costas brancas do silêncio [À procura da Luz (I)], da claridade que o tempo embaciou [Aniversário], das mulheres encharcadas em branco ... a efémera brancura da palavra [Montanha]. A luz é o contraponto da cegueira. É branca a camisa dos que vão ser fuzilados [À Hora]. Uma poesia que pede luz e horizontes, agarrada que está à cegueira como uma obsessão: Roubaram-nos a lucidez dos cegos [Tanta Fúria] a noite é o princípio da cegueira [Nove Poemas de Novembro, VII]. Os filhos cresceram / E a azeitona continua / A cair / Nos campos brancos da / Madrugada [(Re)Cantos IV]. São dois os poemas com o título À Procura da Luz, escritos como cartas a alguém, como se um foco de luz penetrasse na cegueira / e dispensássemos os deuses de saber quem somos [À procura de luz].
É esta uma poesia tecida de silêncio, fio a fio: Tanta fúria que escorre dos silêncios [Tanta Fúria]. A noite é a rosa negra / do meu silêncio / mãe dos cegos / e de todos os que já estão /cansados de ver.[Nocturno] Aqui, nas costas brancas do silêncio, escrevo-te / em surdina, não vá o silêncio acordar. Pois é o silêncio a suprema arte [À Procura da Luz (II)]. Sabe o poeta que ainda poderá viver tempos em que se pode enlouquecer normalmente [Tempo de enlouquecer]. Digam-me como e se é possível ler esta poesia atravessada pelo silêncio, em que a principal função das palavras é calar esse silêncio e, assim, não sentir tão ágeis as leves passadas do entardecer.



12.
Sinto uma grande afinidade com este poeta em muitas coisas, e não é só no mito do Manquinho de Açoreira ou numa certa loucura de atirar pedradas aos deuses, um certo percurso, a amizade já velha. Vejam lá que também eu embirro com óculos escuros e uso lentes progressivas [Quando eu morrer por favor apaga a luz...]. Mas sinto-me agora mais orientado na minha geografia, com menos risco de me perder, pois se ergue agora um novo marco geodésico a interpelar os caminhos e o tempo. E como o poeta diz à sua neta Beatriz, também eu lhe digo O tempo que demoraste aqui chegar! [Poema à Neta] Uma vez chegado, a nordeste de tudo, poderemos encher o saco de Nada [Quando o Natal chegar], talvez de poemas que nos guardem a dose de loucura de que precisamos para viver, marcos na geografia da memória que nos sirvam de referência no voo do entardecer.

Moncorvo, 19 de março de 2011
Amadeu Ferreira


[1] Dum loquimur, fugerit inuida / aetas: carpe diem, quam minimum credula postero. [Enquanto falamos, ter-se-à escoado o invejoso / tempo: aproveita o dia, e confia o menos que puderes no amanhã.]
[2] Verum pone moras et studium lucri, / nigrorumque memor, dum licet, ignium / mise stultitiam consiliis breuem: / dulce est desipere in loco. [Verdadeiramente, afasta de ti a espera e o gosto do lucro, / e lembra os negros fogos, enquanto possas / mistura com juízo um pouco de loucura: / por vezes é bom não ter juízo.] Horácio Flaco, Odes, Livro IV, XII.

10 março 2011

(Re)Cantos d'Amar Morto - poemário de Pedro Castelhano



Vai ser lançado no próximo dia 19  de março, às 15 horas,  na Biblioteca Municipal de Moncorvo, o poemário (Re)Cantos d'Amar Morto, de Pedro Castelhano, pseudónimo de Rogério Rodrigues.
Aqui se deixa a imagem do convite enviado pela Editora Âncora.