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15 abril 2014
27 março 2014
POR AMOR TAMBÉM SE MORRE,por Carlos Carvalheira
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| Vale da Vilariça.Foto: Leonel Brito |
No Estio, o vale é um
braseiro.
Encurralado entre Bornes e o Reboredo, a
saber a frio e a ferro, e limitado pelas alturas escorregadias e quase abruptas
da Lousa até para lá de Vila Flor, o vale é um dinossauro violento, recostado
em leito húmido. Vê-se-lhe a cauda lá acima, a norte, a estancar as iras da
serra. E, cá em baixo, na Foz, as fauces escancaradas, muito irregulares, a
vomitar escorrências e imundícies na curva do Douro. E, por toda a amplidão do
vale, o dorso calmo, tranquilo, estranhamente sossegado.
Mas é uma fera, o vale. É o Éden e a Geena.
Para experimentar Abraão, criou Deus o cume da montanha; para
sacrificar os homens, concedeu-lhes toda a largura do vale.
No Inverno é ameno, suave. Mas, apertado nos
estreitos braços da natureza e alagado pelos ribeiros e riachos que o
alimentam, rapidamente muda de aspecto. As águas, repelidas pelos contrafortes
pedregosos do Monte Meão, refluem e tornam a paisagem lisa, uniforme e
magestática. É a rebofa, que atormenta os homens, alaga os campos e
cobre casas e plantas. Como o Nilo, no Egipto, em tempos de judeus e de faraós.
Mas, no Verão... O vale, no
Estio, é um braseiro de assar pessoas e animais. A terra úbere, estrumada com
os sedimentos carreados pelas águas inverniças, gera trigos e joios em
abundância. Porque, na terra que dá o pão, germina, indistintamente, a cizânia.
E é preciso cuidar de um e estiolar o outro. Por isso, no Verão, o vale é um
formigueiro.
Na aragem do vale tudo é temporão. O dia, as primícias, os
calores. Tudo vem cedo. Até a vida... Até a morte.
Os sem-terra, os
desprivilegiados da era agrária, vêm de todas as geografias. Do Castedo e do
Vilarinho, da Cabeça de Mouro, da Vide, dos Estevais, do Felgar... E da Cabeça
Boa... E da Vila... E até de mais longe... Vêm homens, vêm mulheres... Vêm
jovens e de meia idade... Até os velhos... Até as crianças, que trocam a escola
e a vida por ajudas de miséria que os braços todos são poucos e débeis para os
trabalhos de Hércules que é preciso levar ao fim.
A jorna é longa. Longa e dura. Ainda os mochos piam, suspensos da
ramagem do arvoredo que enxameia as encostas circundantes... ainda os melros não acordaram o arrebol com
as suas gargalhadas brancas, fugidias... Ainda as rolas não embalam a manhã com
os seus gemidos suaves, inocentes e já os capatazes gritam que vem o dia
chegando, que a noite foi demorada para o descanso, que a jeira é cara e a
jorna curta para tanto trabalho.
E, à
noite, já os corvos abalam para ocidente a perseguir o sol... Já o noitibó percorre os caminhos denunciando
os rebanhos a recolher ao bardo... Já as rãs coaxam nas margens do Sabor e nos
limos dos riachos e dos ribeiros... E ainda os capatazes de vozes duras e
roucas e cenhos avinagrados mandam recolher alfaias e cuidar animais.
Mas é noite. E os homens ressequidos e
exaustos precisam de um leito em que se abandonem para acalmar os ardores que
as chagas despertam nos corpos e nas almas dos jornaleiros. Porque amanhã... E
depois... E depois ainda... É preciso viver. Troca-se a vida por canseiras.
Olhai as aves do campo que não semeiam nem criam...
Mas essas, as aves, comem trigo, comem joios, comem pão, comem
cizânias. O homem, esse, faz escolhas. E dessa consciência lhe advêm medos e
insatisfações, dúvidas e angústias. Por isso, todo o dia, todos os dias, homens
e mulheres descem à Ribeira, trazendo a vida para levar canseiras. O ar é
quente, abafado. A água dos pequenos charcos e poços queima os pés e tortura as
mentes. E, nesse ambiente, não raro sucumbem os corpos, tiritando de frio ao
peso das maleitas, das febres, das sezões.
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