24 fevereiro 2016

MONTALEGRE: Bento da Cruz homenageado na autarquia


O concelho de Montalegre voltou a render homenagem, no passado sábado, ao maior escritor do Barroso. Desta vez, foi apresentado publicamente, no salão nobre da autarquia, o livro "In Memoriam - Bento da Cruz", projeto que aparece no âmbito de um protocolo de cooperação entre a Câmara de Montalegre e a UTAD, através dos ciclos de estudos em Ciências da Cultura.
 
A Academia de Letras de Trás-os-Montes esteve representada, na pessoa do seu presidente, Dr. António Chaves, que se pronunciou desta maneira sobre o autor:
 
«Foi a maior biblioteca e a maior memória de Barroso. O maior exemplo de dignidade e de respeito com que nos ensinou a ver a nossa terra, a saber apreciar a paisagem, a vida animal, o cantar dos pássaros, o sentido de existência e a força e a beleza do carácter das pessoas que aqui viveram. Foi um mestre em tudo isso. Marcou uma época, marcou um tempo e princípios que não desaparecem. Para ele, Barroso era a terra mais bonita de Portugal. Ensinou-nos essa visão e essa é a maior lição que nos deixou».

MACEDO DE CAVALEIROS: Vidas a Ler+, todas as quartas e sextas na Biblioteca Municipal

Com o objetivo de promover a leitura e a partilha de saberes, a Biblioteca Municipal e Bibliotecas Escolares do Agrupamento Vertical de Escolas de Macedo de Cavaleiros, promovem todas as quartas e sextas atividades dirigidas aos idosos dos Lares da 3ª Idade, Centros de Dia.

ALFÂNDEGA DA FÉ - III Festival de Teatro


23 fevereiro 2016

VILA POUCA DE AGUIAR: V Encontro Livreiro e Leitor de Trás-os-Montes e Alto Douro

Realizou-se, no passado domingo, o V Encontro Livreiro e Leitor de Trás-os-Montes e Alto Douro, na livraria Aguiarense, em Vila Pouca de Aguiar. Iniciativa que contou com a presença do vereador da Cultura do município, livreiros, escritores, professores ligados ao ensino e a Academia de Letras de Trás-os-Montes, na pessoa do seu presidente, Dr. António Chaves.





CHAVES: Encontro luso-galaico de escritores, dias 15, 16 e 17 de abril

 
“Ponte Escrita” é o nome do encontro luso-galaico de escritores, que Chaves irá receber dias 15, 16 e 17 de abril. A iniciativa foi a vencedora da ação “Promoção e Dinamização - Projetos de âmbito Social, Cultural e Desportivo” do Orçamento Participativo (OP) 2015, com 192 votos, e um orçamento de 15 mil euros, e pretende incentivar a leitura e a escrita, bem como divulgar a cidade nos seus aspetos culturais.
 

O referido encontro de escritores foi apresentado publicamente na passada sexta-feira, dia 19, na Biblioteca Municipal. A apresentação esteve a cargo do coordenador do projeto, Altino Rio e de Sílvia Alves.
 
 O Presidente da Câmara Municipal de Chaves agradeceu a ambos a ideia, bem como a todos os participantes na última edição do OP. António Cabeleira lembrou os presentes que o Orçamento Participativo é um processo democrático de participação, que visa fomentar uma cidadania ativa, promovendo o envolvimento dos cidadãos e das organizações da sociedade civil nas estratégias de governação do concelho.

Como resultado deste intercâmbio entre 15 escritores (12 portugueses e 3 espanhóis) e a população, será produzido um livro com narrativa ficcional. Todos os escritores deverão escrever um conto, inspirado nos locais e património que visitarão.

Além da visita aos locais, previamente selecionados por uma personalidade local, está também agendado um encontro com os escritores nos estabelecimentos de ensino, um jantar cultural, uma tertúlia na Biblioteca Municipal e uma Feira do Livro.

 

Programa

(provisório)

15 , 16 e 17 de Abril

Visita a locais e património

 

15 de Abril

Encontro de alguns escritores com professores e alunos das escolas da cidade (tarde)

Jantar cultural com os escritores e população (noite)

 

16 de Abril

Tertúlia com escritores e população (noite)

 

22 fevereiro 2016

VILA REAL: Tertúlia “A conversa que ficou esquecida nos sentidos”

«O conhecimento empírico das plantas co-evoluiu com o ser humano. Desde os tempos pré-históricos que o conhecimento através da experiência era dado como válido e mais tarde herbalistas, botânicos e apotecários seguiram essa mesma via, no entanto com a evolução dos tempos esse conhecimento foi esquecido e até suprimido.

Neste espaço de conversa vamos falar das tradições ligadas às plantas espontâneas e do valor que elas ainda representam nos dias de hoje.

 A Livraria Traga-Mundos é um local muito especial, onde se respira tradição, respeito e sinceridade em tudo o que nela habita. Foi o primeiro sítio onde os nossos pequenos Guias Artesanais de Plantas Selvagens foram vendidos e é sempre de coração cheio que de lá saímos.»

por Bloom Sativum (Rita Roquette & David Michael Callison)

dia 25 de Fevereiro de 2016 (quinta-feira), pelas 21h00

na Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisas do Douro, em Vila Real
 


FREIXO DE ESPADA À CINTA - Munícipio atribui o nome "Rota António Monteiro Cardoso" à "Rota do Judaico"

O Município de Freixo de Espada à Cinta, terra natal de António Monteiro Cardoso, alterou, em homenagem ao autor, o nome da Rota do Judaico para Rota António Monteiro Cardoso.

O autor publicou, em Dezembro de 2015, na Âncora Editora, a 2.ª edição do livro "Boas Fadas que te Fadem", originalmente editado em 1995, cuja acção se desenvolve a partir de Freixo de Espada à Cinta e nos transporta, através dos meandros da perseguição inquisitorial da diáspora dos judeus portugueses e espanhóis, para uma época fascinante, em que o racionalismo e as descobertas científicas dão ainda os primeiros passos numa Europa dominada pela intolerância e pela violência do fanatismo religioso.

16 fevereiro 2016

FREIXO DE ESPADA À CINTA: Homenagem a António Monteiro Cardoso


VILA POUCA DE AGUIAR: V Encontro Livreiro e Leitor de Trás-os-Montes

V Encontro Livreiro e Leitor de Trás-os-Montes e Alto Douro
dia 21 de Fevereiro de 2016 (domingo), pelas 15h00
na livraria Aguiarense, em Vila Pouca de Aguiar.

AGOSTINHO DA SILVA, reeditado no seu 110º aniversário de nascimento

 
No mês em que se celebram os 110 anos do nascimento de Agostinho da Silva, é publicada a 3.ª edição, revista e ampliada, da obra "Agostinho da Silva - Uma Antologia Temática e Cronológica", seleção, organização, introdução e apresentações de Paulo Borges, que se integra na Coleção, Obras de Agostinho da Silva.

CHAVES: Encontro de Escritores


BIBLIOTECA MUNICIPAL DE VILA REAL


EDGAR CARNEIRO (1913-2011) - Enleios

Que direi de enleios,
galanteios ternos
prematuro voo
da miragem tonta?

Onde estão represos
os murmúrios de água
deslizando lenta
no dossel dos montes?

Já não sinto as aves
nem sequer as penas
adejando soltas.

                                                                                    Quanto às águas sei
                                                                                     ir morrer de sede
                                                                                     mesmo vendo as fontes.

                         

15 fevereiro 2016

ANTÓNIO MONTEIRO CARDOSO homenageado



Um mês após a partida de António Monteiro Cardoso, a Câmara Municipal de Freixo de Espada à Cinta, a Livraria Ferin, a Âncora Editora, familiares, amigos e leitores, juntaram-se numa digna e sentida homenagem ao autor, na qual se integrou a apresentação da última obra do autor, "Boas Fadas que te Fadem".



Um ato que contou com a dos filhos, João Aragão Cardoso e Joana Gomes Cardoso; a sua mãe, Nair Monteiro; a sua irmã, Madalena Cardoso; a eurodeputada Dra. Ana Gomes; a historiadora e orientadora Dra. Fátima Sá e Melo; o jornalista Rogério Rodrigues; o Dr. Luís Cardoso ("Takas"), o Dr. Artur Neto Parra e Dr. António Nunes dos Reis, respectivamente, Presidente da Câmara Municipal e Presidente da Assembleia Municipal de Freixo de Espada à Cinta, terra natal do autor.


Na mesa:
Artur Neto Parra (Presidente da Câmara Municipal de Freixo de Espada à Cinta)
António Nunes dos Reis (Presidente da Assembleia Municipal de Freixo de Espada à Cinta)
Rogério Rodrigues (jornalista)
João Aragão Cardoso (filho)
Joana Gomes Cardoso (filha)
Ana Gomes (eurodeputada)
Fátima Sá e Melo (historiadora e orientadora)
Luís Cardoso ("Takas")
António Baptista Lopes (editor)

12 fevereiro 2016

"CONTOS DE GOSTOFRIO" de Bento da Cruz na Rádio Montalegre

Bento da Cruz passou pela Rádio Montalegre, um mês depois da "sua partida" pela voz de Estefânia Surreira, sonoplastia e vídeo, Maria José Afonso. Montalegre, rende-lhe homenagem, no próximo dia 20.

O CARNAVAL DA MINHA INFÂNCIA - (memórias) - por João de Deus Rodrigues


Foi antanho, é passado,

Mas a memória devolve tudo:

Uma mulher, a roca, o linho fiado,

Mas não se fiavam as barbas ao Entrudo!

 

Mão ágil, fósforo aceso, a estopa queimada.

Uma pedra que sai da mão,

E a cabeça rachada, ao carpinteiro João.

 

Uma mulher, as estopas a arder,

A ousadia, o drama, a agressão.

                                

Porque os homens da aldeia faziam tudo,

Para que não se fiassem as barbas ao Entrudo,

Para manter viva a tradição.

 

Enquanto na cozinha, à luz da candeia,

Quatro gerações junto à lareira,

Festejavam o carnaval, sem máscaras,

Essas coisas do demónio tentador.

Porque só eram permitidas brincadeiras

De deitar farinha na cabeça,

E contar “estórias”, não muito brejeiras… 

 

E toda aquela boa gente,

De cara descoberta, alegre e contente,

Passava a noite de carnaval,

Com uma estridente gargalhada,

Até ao clarear da madrugada...

 

Era assim o Carnaval na minha infância,

Em casa dos meus avós maternos,

A tão longa distância…

Onde não eram conhecidos corsos carnavalescos,

Nem desfiles de samba, com foliões pitorescos…

 

"Uma barragem mais três vales a menos" Vencedor no Festival Internacional de Cinema Documental e Trasmedia (2014)

"Uma barragem mais três vales a menos" Vence Festival Internacional de Cinema

O documentário "Uma barragem mais três vales a menos" foi o vencedor no Festival Internacional de Cinema Documental e Trasmedia (2014), «pelo modo como evidência, com rigor, os antagonismos do progresso.»
Realização: Maria José Afonso e João Silva, Argumento: António Chaves.


Trailer

«As aldeias ribeirinhas, Negrões e Vilarinho de Negrões - Montalegre, perderam os melhores terrenos de cultivo, que sustentavam a existência e a sobrevivência das famílias. Os terrenos inundados pela barragem, foram pagos a preços miseráveis, que em muitos casos não ultrapassou o valor da produção anual. Para os mais pobres só lhes restou o clamor próprio dos momentos mais trágicos. Perdidos os vales e apertados contra a montanha subiam os trilhos dos picos mais altos pedir a compaixão divina e dos santos de devoção.»




02 fevereiro 2016

BARROSO DA FONTE RECEBE PRÉMIO NACIONAL DE POESIA


O livro "Poesia, amoras & presunto", de Barroso da Fonte, foi distinguido com o "Prémio Nacional de Poesia Fernão de Magalhães Gonçalves 2015". A sessão de exaltação à obra decorreu na sede do Ecomuseu de Barroso reunindo muitos familiares e amigos do autor barrosão.

Decorreu na sede do Ecomuseu de Barroso, em Montalegre, a cerimónia de entrega do "Prémio Nacional de Poesia Fernão de Magalhães Gonçalves 2015" ao escritor Barroso da Fonte. Trata-se de um galardão anual atribuído pela editora Tartaruga, instituído pelas câmaras municipais de Chaves e Murça, que tem dado a conhecer muitos dos autores contemporâneos, nomeadamente os trasmontanos.

No final da sessão, o autor mostrou-se muito satisfeito por ver o espaço preenchido de familiares e amigos: «sinto-me muito emocionado e até confuso». Surpreendido, explicou que «não esperava ver tanta gente e muito menos receber este prémio». Sobre o livro, Barroso da Fonte esclareceu que «retrata 50 anos de vida poética com uma dedicação especial a Barroso» e comtempla «temas rústicos como as amoras e a gastronomia» por isso «Montalegre está aqui muito bem representado».
 
Por sua vez Manuela Morais, da editora Tartaruga, justifica a escolha deste ano fazendo-a «coincidir com as bodas de ouro do autor». Manuela Tender, deputada na Assembleia da República, fez questão de estar presente e expôs o que a motivou: «vim com muito gosto porque é um homem que admiro bastante, com uma vastíssima produção literária na preservação e da nossa cultura e património. É um prémio mais do que merecido».
 
No final, Nuno Rodrigues, responsável pelo Ecomuseu de Barroso, declarou: «estamos muito contentes pelo facto de esta homenagem ter decorrido neste espaço onde está representada a cultura da nossa terra».

novembro 2015
 

02 novembro 2015

O PALÁCIO DO ROUXINOL ,por Amélia Ferreira-Pinto


 Tinha sido educada num colégio de freiras. Educada. Não instruída. Era mulher. Para quê mulher instruída? Sabidas já elas nasciam. E arteiras. Portanto, quanto menos soubessem, melhor. Pelo menos era esta a filosofia do senhor Resende, homem de teres e haveres, pai da menina morgada.
Quando a levou ao colégio, explicou bem à madre superiora o que queria:
- Poucas letras. Isso só serve para elas escreverem aos conversados. Nada disso. Coisas de casa: coser, cozinhar, bordar. Prendas. Prendas… Prepará-la para a vida, para ter marido e filhos e saber cuidar deles.
A madre ainda alvitrou;
- E uma musicazinha?!…
         - Qual música, nem qual carapuça. Onde é que ela vai tocar lá na terra? E quem a ouve? Coisas que dêem proveito, e também não é preciso muita reza. Eu cá não a quero para freira. Só tenho esta, para mal dos meus pecados, e quero herdeiros. Não ando a trabalhar para o cura.
         A madre lamentou muito, Não era educação completa, não senhor. Nem uns conhecimentozinhos de francês, nem umas liçõeszinhas de piano. Era um incivilizado, o homem. Tinha de se lhe dar desconto; não se lhe entendia mais. Vinha lá das montanhas de Trás-os-Montes...
- Mas lá quanto a formação religiosa, isso não.  Tivesse santa paciência.  Tinha de seguir as lições das outras - disse de si para si a madre.

Anos depois, a Maria da Felicidade voltava à terra com um baú cheio de bordados, de “naperons” pintados à pena, de flores artificiais, de rendas de bilros e de alguns chambrinhos rebicados. Na mala trazia uma Bíblia, um catecismo, dois rosários, três terços, um missal, uma dúzia de “bentinhos”, medalhas e pagelas de todos os santos.
A mãe, quando ela chegou, expôs as suas obras de arte numa grande sala, convidou as meninas mais abastadas da terra e as respectivas mamãs, e mostrou-lhes os dotes da filha.
Teceram elogios, admiraram, apalparam, apreciaram a perfeição dos avessos, o disfarce dos remates e cá fora comentaram, rataram-lhe na pele:
- Que exageros. Para que quer tanto bordadeco? Nós cá também sabemos fazer rendas e dar pontos. E aquelas flores de papel!...Parecem as dos caixões dos mortos. É só para fazerem ver às outras…
- É mas é para arranjar casamento.
- Os pretendentes não vêm atrás dos bordados. Vêm atrás das oliveiras.
- Oliveiras não lhe faltam.
- E pretendentes também não.
E era verdade. A Dadinha tinha montes deles e alguns bem do agrado do pai. Mas ela punha tacha a todos. Nenhum lhe servia. Depois do que vira lá pelo Porto, era difícil achar chinelo para o seu pé: queria homem que calçasse sapatos e não aquelas botifarras. Homem que tomasse banho.
E continuava bordando, lendo no missal. O pai já estava a perder a paciência. A coisa não dava de si. Estava-lhe a parecer que ela ia dar em beata. Não procurava as amigas. Achava-as todas umas brutas. Refugiava-se na igreja e até já o povo dizia que era mal empregada tanta fazenda sem herdeiros.
Mas a velha Estrudes aquietava os ânimos das mais insofridas.
- Quando se faz uma panela, faz-se logo o testo. O homem há-de aparecer. Mas está-me cá a parecer que não há-de ser destes lados...
E não era.

CHACIM, por Cláudio Carneiro

     O edénico termo, campestre e pastoril, da antiga vila dionisíaca de Chacim, situada a nordeste de Trás-os-Montes, na encosta a nascente da serra de Bornes, tem a configuração de um triângulo escaleno, representando e lembrando, grosso modo, metade da estrela de David,  que desce, de rompante, do alto da serra de Bornes à povoação. E, depois, suavemente, para um dos seus vértices, na ponte romana, sobre o rio Azibo, que liga Balsamão à Paradinha, por baixo da colina do Monte do Carrascal, que lhe serve de contraforte e de firmeza, com a protecção de Nossa Senhora do Bálsamo, que está sempre presente e vigilante, que as surpresas aparecem quando menos se espera, dos lugares menos esperados.  
      Em tempos antiquíssimos, neste mesmo local, outra ponte teria existido, segundo deduzo por vestígios deixados. Mas os Povos do lugar tê-la-iam derrubado, embora a sua falta, impedindo, assim, deste modo, os inimigos provindos daqueles lados de leste, já então um flagelo constante, da sua arribação ou, pelo menos, retardá-los. Séculos volvidos, os nossos primos romanos a teriam reerguido, facilitando-lhes, assim, a passagem para o Monte do Carrascal, aonde haviam estabelecido, neste lugar, por detrás dos montes, o seu Quartel-General, reforçado no alto do Lombo, que lhe ficava e fica sobranceiro..
     Chacim tem Nossa Senhora do Bálsamo a resguardá-la dos seus inimigos, de perto e de longe, que para esse propósito viera do Paraíso e ali se mantém, na Sua igreja, branca como um pombal, acompanhada pelo santo polaco Frei Casimiro, para onde veio, talvez chamado por Ela, em 1754, sem dúvida com esse mesmo propósito e que,  por essa circunstância, por lá ficara e continua, dada a proximidade de acesso ao Paraíso Celeste, que não por causa de forças inimigas provenientes de onde menos eram esperadas, que os tempos mudaram para melhor, em que os Povos todos dão as mãos, como irmãos em tempo de partilhas..
    Nos tempos idos da minha meninice, adolescência e parte da mocidade e que parece que ainda fora ontem, que o tempo que nos regula e guia é incansável, nunca pára sequer um momento para descanso, havia, há e há-de haver, que na Natureza nada se perde, embora se transforme, como dizia aquele filósofo francês, deixo-vos com esta sugestiva quadra popular,  que então se cantava, entre outras, nos trabalhos campestres de mondas, de arranque de lentilhas, de azeitona e de outros trabalhos, de evocação a Nossa Senhora do Bálsamo:

                                Senhora de Balsamão
                                Onde estás tão metidinha
                                Entre Chacim e os Olmos,
                                O Lombo e a Paradinha.

    O termo chacinense estende-se do termo dos Olmos e de Malta, subindo e passando pelo alto da serra de Bornes, ao termo de Gebelim, nas Derruídas, resvés à ribeira da Camba. E desce, para sul, destas alturas alcantiladas, próximo de São Bernardino, protector dos possessos, que ali vão pedir auxílio, contra o maligno, ao  Alto da Deveza, Prados,  Alto de Valongo,  Alto de Valqueimado, Alto de vale dos Órfãos, Alto de Escornabeis, ponte romana. E contorna e segue para norte, às Olgas, Escarledo acima, a fechar no termo dos Olmos, de onde partíramos.
    Contém a povoação e o edénico termo, além das fontes e nascentes, a ribeira dos Olmos, a de Malta, a de Chacim, que o divide a meio, a de Santa Comba, a de Requeixo, a de Vale de Ganso, a de Valongo, a de Valqueimado, a de Vale dos Órfãos, o regato do Escornabeis, as termas sulfurosas da Abelheira e do Escarledo, o regato da Taipa, de águas permanentes e outros de permeio, quando chove e pelas invernias. Daí a suavidade e a fecundidade do solo, propício a olivais, vinhedos, hortas,  pomares, soutos, na encosta da serra e da Vinha Velha.
    A Corografia Portuguesa de 1706, escreve: “Chacim é dos bons lugares da Província de Trás-os-Montes, por ser fresco de verão e abundante de águas que correm pela villa e seus campos e entram em todas as casas da villa, excepto uma ou duas. Tem lugares e tendas de mercadorias e se contracta em sêdas e couramas, que tudo a faz rica. Recolhe  pão, vinho, azeite, linho galego, alguns gados e caças miúdas” e, acrescento eu, cebolas, casulas, batatas e melões e duas feiras mensais, a 4 e a 19 e em Setembro três, no dia 10, chamada das cebolas ou Azinhoso e uma banda de música, de eloquente mestria.

Professor Doutor Adriano Moreira, por Cláudio Carneiro.

Só vós sois grande e sábio no pensar!
Dos homens o tamanho está na mente
E na grandeza de alma, tão-somente,
Que à criação das obras dá lugar

Ó fonte inesgotável, se calhar
Sois de essência divina, transcendente,
Emanação  do bem, cuja semente
Ousara em Trás-os-Montes germinar.

Eu vos venero e canto. Só é pena
Usufruir de rude e "agreste avena"
E de musas de humilde inspiração.

Canto-vos como sei, do que disponho,
Que a fantasia homérica de um sonho
É quanto vai, Senhor, da minha mão.

Com amizade, o chacinense

Cláudio Carneiro.

António José Maldonado, o professor e o poeta. por Regina Gouveia

Em Outubro de 1955, com 10 anos incompletos, entrei para o 1º ano do então Liceu Nacional de Bragança. O fascínio de uma nova etapa da minha vida onde quase tudo era novidade, a começar pela dimensão da escola. De entre as colegas da 4ª classe, poucas continuaram estudos, pelo que não conhecia a maior parte das alunas da  turma A, onde me “encaixaram” com mais 30 meninas. O Liceu era misto, contrariamente à escola onde fizera a 4ª classe mas, genericamente, meninos e meninas não partilhavam espaços. A professora Lina, fora substituída por vários professores, creio que nove. Entre esses professores estava o Dr. António José Maldonado, professor de Português. Recordo-o como um professor muito afável mas bastante permissivo pelo que  não se aprendia muito nas suas aulas.
Voltei a tê-lo como professor na disciplina de História no 5º ano (actual 9º). Por motivos de saúde foi substituído, creio que no início do 2º período.
Por essa altura, surgiu na escola uma nova professora de Inglês, a Drª Aurora, com quem o Dr. Maldonado viria a casar.
Não voltei a tê-lo como professor. Quer no 6º quer no 7º ano, embora as turmas fossem mistas, eram desdobradas na disciplina de Filosofia. O Dr. Maldonado dava aulas aos rapazes e o Dr. Lopes da Silva, então Reitor,  às meninas.
Já no fim da minha passagem por Bragança, constou-me que teria escrito um livro de poesia Futuros ou não.,
Embora tivesse sempre uma palavra gentil para me dizer se me visse na escola ou na rua, nunca me apercebi do seu lado poético, o que não é de estranhar pois era ainda muito jovem quando  fui sua aluna.

Transcrevo um dos poemas desse livro

Futuros ou não
viajemos um para o outro, tranquilos; 
viajemos, sombras fugidias, levemente 
            eternas:
- Tu para mim, eu para ti.
  Futuros ou não,
passemos nos lábios inventando o fogo, 
passemos nos corpos repartindo as nascentes, 
passemos nas almas pronunciando espaço. 
  Como o ruído dos passos gasta a solidão
            dos caminhos,
assim tu em mim,
chegada de muitos gestos, dum mundo e de 
            outro mundo, do alfa e do omega.


António José Maldonado foi inserido pela crítica na chamada "Geração de 50", que se tornou célebre pelo seu inconformismo e revolta contra o regime salazarista. De entre os seus poemas destacam-se particularmente "Êxodo", "Dies Irae" e "Os Fundadores de Cidades". 

Na passada semana tive o tempo um pouco mais livre pelo que deambulei pela Baixa, muito em particular por livrarias. E numa delas, na Praça Guilherme Gomes Fernandes, descobri  Limite Cultivado, um livro de  António José Maldonado, prefaciado por Fernando Guimarães que também conheci como professor do Liceu de Bragança, embora nunca tivesse sido meu professor 



O texto acima corresponde a um “post” que coloquei  no meu blogue (www.docaosaocosmos.blogspot.com)  em 12/7/2015

Acrescento agora dois poemas da obra  Limite cultivado.

PAREDE SEM QUADRO
Na parede
o orifício ultrapassado
desacertado na ferida
e na razão de usá-la

Chegámos ao fim
não temos passos de volta
-Companheiro
que esperas?

INVOCO ALDEIAS
Invoco aldeias
o lápis do rio escrevendo vidro
fiéis rebanhos a caminhos
E parto
entendido de teu rosto
e das sebes em declínio