O edénico termo,
campestre e pastoril, da antiga vila dionisíaca de Chacim, situada a nordeste
de Trás-os-Montes, na encosta a nascente da serra de Bornes, tem a configuração
de um triângulo escaleno, representando e lembrando, grosso modo, metade da
estrela de David, que desce, de rompante, do alto da serra de Bornes
à povoação. E, depois, suavemente, para um dos seus vértices, na ponte romana,
sobre o rio Azibo, que liga Balsamão à Paradinha, por baixo da colina do Monte do
Carrascal, que lhe serve de contraforte e de firmeza, com a protecção de Nossa
Senhora do Bálsamo, que está sempre presente e vigilante, que as surpresas
aparecem quando menos se espera, dos lugares menos esperados.
Em tempos antiquíssimos,
neste mesmo local, outra ponte teria existido, segundo deduzo por vestígios
deixados. Mas os Povos do lugar tê-la-iam derrubado, embora a sua falta,
impedindo, assim, deste modo, os inimigos provindos daqueles lados de leste, já
então um flagelo constante, da sua arribação ou, pelo menos, retardá-los.
Séculos volvidos, os nossos primos romanos a teriam reerguido,
facilitando-lhes, assim, a passagem para o Monte do Carrascal, aonde haviam
estabelecido, neste lugar, por detrás dos montes, o seu Quartel-General,
reforçado no alto do Lombo, que lhe ficava e fica sobranceiro..
Chacim tem Nossa Senhora do
Bálsamo a resguardá-la dos seus inimigos, de perto e de longe, que para esse
propósito viera do Paraíso e ali se mantém, na Sua igreja, branca como um
pombal, acompanhada pelo santo polaco Frei Casimiro, para onde veio, talvez
chamado por Ela, em 1754, sem dúvida com esse mesmo propósito e
que, por essa circunstância, por lá ficara e continua, dada a
proximidade de acesso ao Paraíso Celeste, que não por causa de forças inimigas
provenientes de onde menos eram esperadas, que os tempos mudaram para melhor,
em que os Povos todos dão as mãos, como irmãos em tempo de partilhas..
Nos tempos idos da minha meninice,
adolescência e parte da mocidade e que parece que ainda fora ontem, que o tempo
que nos regula e guia é incansável, nunca pára sequer um momento para descanso,
havia, há e há-de haver, que na Natureza nada se perde, embora se transforme,
como dizia aquele filósofo francês, deixo-vos com esta sugestiva quadra popular, que
então se cantava, entre outras, nos trabalhos campestres de mondas, de arranque
de lentilhas, de azeitona e de outros trabalhos, de evocação a Nossa Senhora do
Bálsamo:
Senhora
de Balsamão
Onde
estás tão metidinha
Entre
Chacim e os Olmos,
O
Lombo e a Paradinha.
O termo chacinense estende-se do
termo dos Olmos e de Malta, subindo e passando pelo alto da serra de Bornes, ao
termo de Gebelim, nas Derruídas, resvés à ribeira da Camba. E desce, para sul,
destas alturas alcantiladas, próximo de São Bernardino, protector dos
possessos, que ali vão pedir auxílio, contra o maligno, ao Alto da
Deveza, Prados, Alto de Valongo, Alto de Valqueimado,
Alto de vale dos Órfãos, Alto de Escornabeis, ponte romana. E contorna e segue
para norte, às Olgas, Escarledo acima, a fechar no termo dos Olmos, de onde
partíramos.
Contém a povoação e o edénico termo,
além das fontes e nascentes, a ribeira dos Olmos, a de Malta, a de Chacim, que
o divide a meio, a de Santa Comba, a de Requeixo, a de Vale de Ganso, a de
Valongo, a de Valqueimado, a de Vale dos Órfãos, o regato do Escornabeis, as
termas sulfurosas da Abelheira e do Escarledo, o regato da Taipa, de águas
permanentes e outros de permeio, quando chove e pelas invernias. Daí a
suavidade e a fecundidade do solo, propício a olivais, vinhedos,
hortas, pomares, soutos, na encosta da serra e da Vinha Velha.
A Corografia Portuguesa de 1706,
escreve: “Chacim é dos bons lugares da Província de Trás-os-Montes, por ser
fresco de verão e abundante de águas que correm pela villa e seus campos e
entram em todas as casas da villa, excepto uma ou duas. Tem lugares e tendas de
mercadorias e se contracta em sêdas e couramas, que tudo a faz rica.
Recolhe pão, vinho, azeite, linho galego, alguns gados e caças
miúdas” e, acrescento eu, cebolas, casulas, batatas e melões e duas feiras
mensais, a 4 e a 19 e em Setembro três, no dia 10, chamada das cebolas ou
Azinhoso e uma banda de música, de eloquente mestria.


