21 setembro 2015

Amadeu Ferreira ,Teresa Martins Marques e Eugénio Lisboa

Amadeu Ferreira ,Teresa Martins Marques e Eugénio Lisboa

Foi em recolhimento que li este texto (publicado no “JL”) em que Eugénio Lisboa, uma marcante personalidade da Cultura, fala de um homem bom, Amadeu Ferreira, com a generosidade que perpassa nas suas palavras, evocando a brilhante biografia escrita por Teresa Martins Marques sobre "essa grande figura do intelecto, da acção e do coração". É, portanto, em agradecimento a Eugénio Lisboa (que, em outras ocasiões, tem proporcionado ao DRN idênticas e valiosas oportunidades) que ora se publica esta peça literária:

“Nunca faças coisas pela metade”.
Provérbio

De uma biografia falo hoje. As biografias são uma espécie traiçoeira: dizia Wilde que todo o grande homem tem os seus discípulos, mas é sempre Judas quem lhe escreve a biografia. Tem-se visto que é assim. Mas não é de modo nenhum o caso que hoje aqui nos traz: a monumental dádiva biográfica que Teresa Martins Marques quis consagrar a essa grande figura do intelecto, da acção e do coração, que foi Amadeu Ferreira, há pouco falecido.

O livro que tenho à minha frente – O Fio das Lembranças / Biografia de Amadeu Ferreira – é o monstruoso pagamento de uma promessa. É o mais improvável acto de generosidade e entrega a que, até hoje, me foi dado assistir: 400 páginas de texto construído sob o império de uma vontade inquebrantável e à pressão de uma terrível urgência (concluir a obra, se possível, a tempo de o biografado – mortalmente doente – a poder ainda ler), acrescidas de outras tantas de testemunhos de amigos, colegas e admiradores, arrancados, coligidos e “montados”, com uma energia que não é deste mundo. Pacto fáustico com o diabo? Sei lá!

De qualquer modo, Teresa Martins Marques tem o hábito de obedecer ao provérbio que dou em epígrafe: “Nunca faças coisas pela metade.” As obras dela, começadas, talvez, como coisas para dimensões normais, acabam por se lhe expandir, nas mãos, alargando-se, pantagruelicamente, até atingirem o volume capaz de lá se lhe meter tudo. Viu-se isso com a monumental dissertação de doutoramento que dedicou a David Mourão-Ferreira, e vê-se, agora, com este prodigioso empreendimento, que é o livro que dá nova e mais concentrada vida à vida singular desse jurista, professor, poeta, romancista, e estudioso e divulgador do mirandês – além de “campeador melhorista”, para usar uma expressão de António Sérgio – que foi Amadeu Ferreira.
Teresa Martins Marques e Amadeu Ferreira

 Eugénio Lisboa
Em 2009, a autora desta biografia conheceu o jurista, escritor e militante da cultura mirandesa, Amadeu Ferreira, num almoço aprazado entre este e o seu amigo Ernesto Rodrigues – e logo se deixou enfeitiçar pela “luminosidade do olhar, o sorriso franco, a perspicácia das observações, a determinação das suas posições, a agilidade da sua inteligência.” Depois, ao longo dos encontros e das leituras, foi coleccionando outras virtudes do futuro biografado: cultura, simpatia, bondade, dedicação aos outros (de preferência aos “necessitados”), postura cívica impecável. A que veio acrescentar-se a admiração pelo poeta, pelo ficcionista e pelo campeador da língua de Miranda, para a qual verteu a “Mensagem” e” Os Lusíadas”.
Com a empatia profunda, o apelo tornou-se irresistível. Num encontro em Bragança, finalmente, tudo aconteceu: “num impulso que ainda hoje não sei explicar”, disse-lhe: «Você merece que lhe escrevam a biografia.»” O resultado da promessa então feita é este livro, levado a cabo a golpes de energia e obstinação. Boa pagadora de promessas, Teresa Martins Marques foi dando forma e volume à vida verdadeiramente épica e exemplar do autor de “Tempo de Fogo “(La Bouba de la Tenerie, em Mirandês). Dizia Virginia Woolf que “biografia é dar a um homem uma espécie de forma, depois da sua morte”. Foi isto mesmo que fez a biógrafa deste homem bom e inteligente (binário improvável), ao longo das 800 páginas desta obra (porque as 400 de testemunhos cumprem exactamente o mesmo objectivo): livro que se não pode ler, a não ser com muitas horas disponíveis e um pequeno guindaste que o suspenda diante dos nossos olhos atónitos e dos nossos braços impotentes…
 Segundo Carlyle, o dos “Heróis”, uma vida bem escrita é quase tão rara como uma vida bem vivida. Amadeu Ferreira foi, neste sentido, um privilegiado: apesar de originalmente pobre, no sentido mais despido do termo – oriundo de um berço desacautelado, em Sendim, Miranda do Douro – viveu uma vida bem recheada, onde nada lhe foi dado e tudo teve que conquistar (e foi muito) a pulso e à força de carácter e inteligência, subindo, sem golpes nem atropelos, ao topo de uma carreira difícil e minada, e deixando, atrás de si, um rasto luminoso de seres a quem ajudou, promoveu e libertou. 
Tendo, no final, e contra todas as probabilidades, encontrado quem lhe escrevesse a odisseia, uma, talvez, destacando-se de poucas mais, idênticas, mas que ficaram, essas, sem crónica que as lembre à memória dos homens. Pode ser que ser pobre não seja um crime, como rezam uns provérbios que andam por aí a tentar amaciar uma condição intolerável, mas permitir que a pobreza exista e persista – é, por certo, um crime hediondo, que os nossos quarenta e um anos de democracia ainda nem sequer tentaram resolver, permitindo até que se concentre quase toda a riqueza nas mãos de alguns oficialmente cristãos, que piamente nos aconselham a vivermos com pouco e a resignarmo-nos muito. Que, dos pobres, é o reino dos céus, o qual os ricos meticulosamente evitam.
 O livro, em boa hora congeminado e redigido por Teresa Martins Marques, apoiou-se numa séria e abundante consulta de documentos e em muitas horas de entrevista filmada pelo excelente e cuidadoso Leonel de Brito, entre Novembro de 2013 e Janeiro de 2014 (ao todo, 31 horas “densas de pormenores, riquíssimas de conteúdo”) – obra que “permitisse entender o pulsar da sua inteligência” e, acentua Teresa, “retribuir-lhe a atenção que ele sempre dá aos outros.”
 Não resisto a reproduzir aqui como tudo isto – a filmagem – aconteceu: “A ideia que permitiu escrever esta biografia no prazo de um ano partiu dele [de Leonel de Brito] como sempre acontece. O Leonel tem belas ideias e sabe colocá-las rapidamente em prática, graças à sua imensa experiência de cineasta conceituado, que sabe fazer belos filmes como Gente do Norte, que voltei a ver agora na Cinemateca. Num café ao lado da nova CMVM, na Rua Laura Alves, o Leonel, o António Tiza, o Rogério Rodrigues e eu esperávamos a chegada do Ernesto [Rodrigues] para visualizarmos, com o Amadeu, o documentário que o Leonel fizera em Sendim, com os pais [do Amadeu], a seu pedido. Discutíamos entre nós a melhor forma de dar alegria ao Amadeu, naquele momento tão complicado da sua saúde. O Leonel olha para mim e pergunta: «E se fizéssemos também um filme com o Amadeu?» Sorri e agarrei a ideia no ar. Mal entrámos no seu gabinete, na CMVM, ataquei o objectivo: «Amadeu, quero pedir-te uma coisa: preciso que faças umas gravações com o Leonel, como material de base da biografia.» Nem um segundo hesitou: «Quando começamos?»”
 Eis o que permitiu à biógrafa colher ao vivo, a quente, o depoimento, em discurso directo, do biografado – com a vitalidade pulsante que nenhum documento transmite.
 É quase criminoso fazer uma recensão crítica confinada ao cárcere dos 6000 ou 7000 caracteres que o JL me concede, quando se trata de um livro tão volumoso, tão rico, tão cheio de histórias de exemplo e proveito, como é este Fio das Lembranças, que nos entrega, generoso, inteligente e palpitante, um dos mais singulares passageiros do nosso tempo.
 Quero terminar, transcrevendo umas palavras que Amadeu Ferreira proferiu, numa entrevista dada, em Abril de 2005, ao Programa Nordeste com Carinho, de Maria de Jesus Cepeda e Marcolino Cepeda. Ao pedido dos entrevistadores – “Fale-nos da sua «Construção do Céu», para utilizar palavras suas” – Amadeu Ferreira respondeu: “A «Construção do Céu» é um pouco aquela ideia que eu teria… eu tenho uma dívida para com a sociedade… A primeira imagem de uma sociedade perfeita que eu conheci, conheci-a no seminário, que é o «Céu» e, portanto, de alguma forma, achei que tinha o dever de fazer com que o Céu fosse cá na Terra. De alguma forma foi esse o céu em que eu sempre acreditei, pelo qual sempre me esforcei e isso passou por várias atitudes na minha vida (…)”.
 Amadeu Ferreira sentiu, desde muito novo, que tinha “uma dívida para com a sociedade” e prometeu a si próprio pagá-la. Bom e honesto pagador de promessas, saldou, com generoso exagero, essa dívida. Teresa Martins Marques, por sua vez, quando o conheceu, sentiu que lhe devia uma biografia e prometeu fazê-la: também boa pagadora de promessas, cumpriu, à grande medida e sem se poupar, a dívida contraída. Duas belas histórias de pagamento de promessas, em tempos em que muito se promete e pouco se cumpre. Uma pessoa com coragem constitui uma maioria, disse Andrew Jackson. Duas pessoas com coragem constituem uma imensa maioria.

Eugénio Lisboa

«Tertulia sobre Trás-os-Montes e Alto Douro e os seus escritores

Ao C/ do Presidente e de toda a Direcção da Academia: 

Para conhecimento da Direcção e na sequência do convite que me foi feito pelo Dr. António Chaves para o representar na «Tertulia sobre Trás-os-Montes e Alto Douro e os seus escritores, que decorreu na Biblioteca do Porto, no Pavilhão dos Jardins do Palácio de Cristal, integrado na Feira do Livro pelas 16 h do dia 20 de Setembro , cuja iniciativa ficou a dever-se à Empresa Traga-Mundos, de António Alberto Alves, informo que procurei cumprir a incumbência, desde a abertura até final. A Tertúlia foi moderada pelo n/ Associado Sagué, que chamou para a mesa  o Filósofo Francisco Alves e a Drª Hercília Agarez. Todos eles centraram o seu depoimento no papel dos autores Transmontanos, acentuando a identidade, os aspectos relacionados com a antropologia cultural, com qualidade e quantidade dos muitos e bons autores que a Região teve, desde os primórdios da nacionalidade. Não foram esquecidos os três vultos da literatura que este ano nos deixaram, nomeadamente: Amadeu Ferreira, Luísa Dacosta e Bento da Cruz.
O moderador convidou-nos, na qualidade de representante do Presidente da Direcção da Academia para esclarecer os participantes das vantagens de sermos cada vez mais solidários e coesos na defesa dos nossos valores.
 Usaram ainda da palavra os autores: Jorge José Alves e Virgínia Cunha que falou do êxito do V Encontro de Escritores Transmontanos em Macedo de Cavaleiros, onde a Academia também esteve representada por três membros da Direcção. Sou de opinião que esta tertúlia teve apenas uma hora de debate e deveria funcionar como experiência para fins de semana, em sistema rotativo pelos núcleos dos grupos de associados de que se falou na reunião de Direcção de 6 de Junho último. Marcaram presença cerca de três dezenas. É que no fim desta tarde de Domingo, o promotor deste Encontro conseguiu reunir muita gente interessada em falar e ouvir falar de os seus comprovincianos. Vários nos disseram que vinham para intervir e trocar experiências. E que uma hora passou depressa.Também eu regressei a Guimarães radiante com o que ouvi não só dos três membros da Mesa, mas também a resignação de quem ali foi para passar horas. O infatigável António Alberto Alves que criou e dirige a Livraria Traga-Mundos, já provou ser pioneiro destacado nesta dimensão cultural que faz escola, gera movimentos culturais, concilia produtos tão diversificados como a difusão dos melhores vinhos do Douro e de toda a região, de produtos da terra e de livros, novos e velhos  e até consegue espaço em ambientes como foi este da Feira do Livro do Porto. Com a Traga Mundos colaborou a Editora Lema d' Origem. Guimarães, 20/9/2015 . 

Barroso da Fonte

 

17 setembro 2015

José Mário Leite // CULTURA POR CAUSA CULTURA POR ACASO

A dramática morte de Amadeu Ferreira conduziu à convocação de eleições para os corpos dirigentes da Academia de Letras de Trás-os-Montes a que presidia.
A nova direção, na sua primeira reunião, em Bragança, ciente da enorme herança recebida das carismáticas presidências que a antecederam, resolveu arregaçar as mangas e começar a trabalhar. Sendo a sua atividade baseada no voluntariado dos associados que têm, na sua maioria, outras ocupações profissionais e residem, muitos deles, fora da região, foi deliberado fazer-se representar, no distrito de Vila Real pelo presidente, António Chaves e no distrito de Bragança, pelo vice-presidente, o que muito me honrou.
Informei que era minha intenção iniciar tal tarefa com a apresentação de cumprimentos a todas as Câmaras Municipais começando pela capital do distrito e continuando a partir do sul do distrito onde iria estar durante um curto período de férias. Aproveitaria para indagar junto do poder político quais as possibilidades de cooperação entre as autarquias e a Academia. Sabia bem que o período de férias tem as suas contingências próprias da época e estava, obviamente, a contar com algumas dificuldades não só de agendamento mas também de obter a atenção necessária dos autarcas brigantinos. Foi, por isso mesmo, uma enorme e agradável satisfação constatar a forma afável e de genuíno interesse com que fui recebido nos Paços do Concelho, pelos respetivos autarcas. Todos os que me receberam me brindaram com disponibilidade e empenho para promover a literatura e os autores transmontanos e assim contribuir para a divulgação e enriquecimento das línguas portuguesa e mirandesa.
A falta de tempo não me permitia programar reuniões em todas as Câmaras. Das que estavam na minha agenda houve apenas uma onde não consegui apresentar-me. Estou certo que a culpa não terá sido dos responsáveis políticos. Mas isso não me compete a mim avaliar. Relato apenas o ocorrido.
– Bom dia! É da Câmara Municipal? Eu queria marcar uma curta audiência com os senhor presidente da Câmara.
– Um minuto. Vou passar ao gabinete de Apoio.
– Concerteza...
– Quem é que quer falar com o Presidente?
– Sou José Mário Leite, vice-presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes e queria apresentar, pessoalmente, cumprimentos ao sr. Presidente. Amanhã ou depois...
– O Presidente não está amanhã nem depois. Pode ser com o vereador da Cultura, depois de amanhã?
– Pode. Diga-me a que horas.
– Não lhe posso dizer agora. Primeiro tenho de lhe perguntar.
– Quando posso telefonar de novo para saber?
– O sr. não precisa telefonar. Eu ligo-lhe a informar...
– Mas eu não me importo de ligar...
– O senhor não entendeu o que eu lhe disse? – ríspida! – O senhor não liga. Eu tenho aqui o seu numero registado e sou eu que lhe ligo, depois.
Nesse dia não liguei. E no seguinte só telefonei às dezasseis menos um quarto, receoso de ver gorada a marcação. Atendeu-me a telefonista que, simpaticamente me informou que a pessoa com quem tinha falado no dia anterior já não estava. “Saímos às quatro” informou.  “Mas ainda não são quatro horas...” balbuciei. “A hora de saída agora é às quatro” reforçou. Tentei falar com outra pessoa mas já não estava ninguém, nem no secretariado do presidente nem do vereador, nem nenhum dos titulares. “Ligasse mais cedo” “Garantiram que me ligavam...” “Se lhe garantiram que ligavam, vão ligar. Tem de esperar...”
 
Cá estou eu à espera. Desde meados de Agosto! 
Fonte: Mensageiro de Bragança( http://www.mdb.pt/content/cultura-por-causa-cultura-por-acaso )

03 setembro 2015

Bento da Cruz -Discurso

Bento da Cruz - O Príncipe do Planalto


O Príncipe das Letras do Planalto Barrosão deixou-nos na passada noite de 25 para 26 de Agosto, depois de ter abraçado o filho com comovente serenidade.
A sua dimensão humana e literária e a grandeza de caráter impõem que partilhamos com os seus pares uma breve síntese do que foram os traços dominantes do seu percurso de vida e de obra, dirigida em particular a quem não teve a oportunidade de privar de perto com esta grande figura.
Bento da Cruz nasceu na aldeia de Peireses, concelho de Montalegre em 22 de Fevereiro de 1925.
Filho de lavradores da família conhecida pelos Marinheiros, as dificuldades da época levaram-no desde cedo ao trabalho do campo e à vida de pastor, atividades principais de sustentação das aldeias, dentro da moldura de economia rural de subsistência.
Fez os estudos primários na Escola de S. Vicente, sede da Freguesia, forçando-o a percorrer, duas vezes ao dia, a distância de três quilómetros, isto quando as chuvas e subidas dos níveis da água dos ribeiros não obrigavam a optar por outros percursos mais longos.
Em 1940 (aos 15 anos de idade) entrou para a Escola Claustral de Singeverga, dirigida por monges beneditinos, disposto a seguir a vida religiosa, única saída possível para continuar os estudos e a cultivar a paixão pelos livros. Aí completou com distinção o curso de humanidades dos Seminários, período durante o qual foi diretor literário das revistas “O Colégio” e “Claustrália”. Entrou no noviciado em 1945, mas acabou, no final do ano, por renunciar à continuação da educação religiosa. Durante o tempo de clausura entre os quinze e vinte e um anos de idade leu e traduziu extensos textos de escritores clássicos romanos e gregos da antiguidade, consolidando assim uma séria base de trabalho para o futuro escritor, habilitando-o a combinar de forma sábia, o falar e o diálogo populares com o ritmo trilhado pelos escritores clássicos.
Sobre esse longo período de seis anos de clausura diz-nos o autor: “a maior pena que tenho desse tempo é não ter vivido a experiência de vida entre os quinze e os vinte e um anos. Senti toda a vida a falta desse percurso de juventude”.
Dois anos depois deu entrada na Universidade de Coimbra onde se licenciou em Medicina e se especializou em estomatologia. Tinha então em mente regressar à sua região de origem, com uma especialidade que pudesse exercer localmente, dado que ainda não tinha chegado a energia elétrica a Montalegre.
A partir de 1957, e como médico, percorreu toda a região de Barroso, ficando conhecido pelo serviço aos pobres, a quem não levava dinheiro e até oferecia os medicamentos, em certos casos. Existe um leque de testemunhos de como naquelas terras isoladas tratou e salvou muitas vidas. Em 1971 radicou-se no Porto passando a exercer estomatologia em regime de exclusividade. Aí fundou o jornal “Correio do Planalto” que dirigiu até ao seu último sopro de vida, adquirindo particular evidência os seus “Prolegómenos”, uma parte dos quais editados já em três volumes.
Nunca se desligou da aldeia e do mundo rural em que nasceu. Passava ali as férias e ia lá sempre que podia. Reconstruiu a casa do avô Marinheiro, respeitando a traça original; e admitia: “aqui respiro melhor, durmo melhor e penso melhor”.
Demarcou desde cedo o planalto da sua ficção: “ É um planalto ou meseta delimitada por quatro serras principais e respetivos contrafortes: Larouco a norte, Alturas de Barroso a nascente, Cabreira a sul e o Gerês ao sol-posto”. 
Resumiu a sua intensa vida literária numa simples frase: “Em pequeno comecei por sachar a minha leira, como via fazer a todos os outros. Quando troquei a enxada pela caneta a minha leira passou a ser Barroso”.
Obras publicadas:
 Poesia – Hemoptise, com pseudónimo de Sabiel Truta
 Ficção – Planalto em Chamas (1963); Ao Longo da Fronteira (1964); Filhas de Lot (1967); Contos de Gostofrio (1973); O Lobo Guerrilheiro (1980); Planalto do Gostofrio (1982); Histórias da Vermelhinha (1991); Victor Branco, Escritor Barrosão – Vida e Obra (1995); O Retábulo das Virgens Loucas (1996); A Loba (2000); A Lenda de Hiran e Belkiss (2005); A Fárria (comemoração dos 50 anos de vida Literária; 2010). Biografia – Victor Branco: Escritor Barrosão, Vida e Obra (1995); Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes (2005); Camilo Castelo Branco: Por terras de Barroso e outros lugares (2012). Crónicas – Prolegómenos (2007); Prolegómenos II (2009); Prolegómenos III (2012).
Mendez Ferrin apreciado escritor galego qualificou, deste modo, o percurso do escritor:
Bento da Cruz é uma figura única e excecional. Salvou a memória de um período histórico, que doutra forma ficaria esquecida para sempre.
Salvou também a boa saúde da língua portuguesa e a sua capacidade múltipla, rica, numerosa, lexicamente não dependente dos dicionários e das normas nacionais.
Bento da Cruz, como Aquilino Ribeiro, como Miguel Torga pertencem a uma casta dos absolutamente incorruptíveis, de escritores que acreditam na sua própria língua, na sua capacidade, que sabem que ela é grande e suscetível de ser infinitamente ainda mais engrandecida.
Fixou como era socialmente a aldeia de Barroso do século XIX e princípios do século XX. Explicou-nos como era a aldeia, a sua composição social, as classes sociais, os ricos e os pobres, os morgados e os padres, lavradores e cabaneiros, todos representados no seu papel social e nas suas contradições de classe. Não era o lugar idílico onde todos eram iguais; havia amos e escravos, sofredores e os que infringiam o sofrimento.
É esta a preciosa oferenda que nos legou este grande escritor e grande analista da história.
Os muitos anos de estreito convívio e de sólida amizade impõem-me o dever de clarificar vários sentidos subjacentes na sua ficção, em especial os relativos à cultura e à evolução social e territorial de Barroso, perspetiva extensível também a todo o interior rural de Portugal, tarefa a que tenho dedicado alguma atenção, esperando vir a partilhar essa reflexão, em futuro próximo.
Ao bom e dedicado amigo, um forte e saudoso abraço.


António Chaves

25 agosto 2015

A VIDA, por Cláudio Carneiro




A VIDA

A vida é um rio, é a morte o mar
Que se evapora por volver à vida.
E nós a essência, para ser vivida
Num Mundo inteligível, singular.

A terra, sem descanso, anda a girar,
É tal qual um comboio de corrida,
Entre quatro Estações, como perdida.
O vento é um cantor que agita o ar.

O Céu o que será? Ninguém o sabe,
É uma abstracção, que só a fé
O sabe discernir na crença antiga.

E Deus? Quem será Deus? Só a Deus cabe
Saber, que ninguém mais sabe quem é.
Se acaso alguém o sabe, então que o diga.
Cláudio Carneiro

21 agosto 2015

Para Que Este Mundo Não Acabe - Documentario Dedicado a Tras-Os-Montes


A SENHORA DA SERRA, por Cláudio Carneiro


          A SENHORA DA SERRA

 
Desamparada, assim, Menino ao colo,

Martirizada, triste, em desalento,

Na ermidinha da serra, exposta ao vento,

Habita a Virgem Mãe, resvés ao solo.


Constrange-me este quadro, o desconsolo

Desta humilde Mulher. Sem um lamento,

Descalça e mal vestida, em sofrimento,

Não fora no Menino achar consolo.

 

A aparição do anjo, o seu recado,

A concepção de Cristo, O Incriado,

Que é Pai e Filho, é Deus e é Jesus.

Não discerne, talvez, que afaga ao peito

Quem, no devir dos anos, Homem feito,

Será crucificado numa Cruz.


 
Com amizade, o chacinense


Cláudio Carneiro.  

06 agosto 2015

L’Eiternidade de las Yerbas / A Eternidade das Ervas - Apresentação



L’Eiternidade de las Yerbas / A Eternidade das Ervas

Ernesto Rodrigues
Universidade de Lisboa

Caros Amigos

Deixei de fazer apresentações públicas de obras e de ser apresentado. Abro esta excepção, porque às memórias felizes nunca podemos dizer que não. Amadeu Ferreira faz parte dessas memórias.
Entro no Seminário de Bragança, com 12 anos, e oiço falar de quem, seis anos mais velho, hiperactivo, procura aquilo que, nessa pequena comunidade intelectual, também eu perseguia: fazer-se um nome. Sou colega de Manuel Ferreira, já então artista, que se renova como a natureza que ele tão bem retrata nestas páginas de devoção ao irmão.
Ao deixar a Casa Amarela, aos 15 anos, em 1971 – que Amadeu abandonava no ano seguinte -, eu trocava jornais de parede ou a stêncil por títulos impressos, não querendo ficar atrás dos mais velhos, de Teologia, que me animavam a colaborar no Mensageiro de Bragança, onde o nosso sendinês já assinava.
Saudou, num encontro de acaso, a minha estreia em livro, em 1973, sendo essa generosidade, nele, um gesto fácil, sincero, sem reservas. Ficou, daí, uma cumplicidade noutros instantes reiterada, até que, já assistente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, dou com ele, em 1990, frente à reitoria, acabava de se licenciar e de encerrar um difícil ciclo de vida, doravante memorada na obra que faz juz à sua grandeza de alma: O Fio das Lembranças. Biografia de Amadeu Ferreira, escrita por Teresa Martins Marques.
Redobrámos os contactos após 2002, quando nos revimos em tertúlia na quinta da Ribeirinha, Santarém, boleando-me até Oeiras, como de outras vezes faria. E abancámos para almoços regulares a partir de finais de 2009, quando me solicitou prefácio para a tradução de Os Lusíadas. As conversas tornaram-se regulares, os abraços semanais, projectos foram mil e um. À mesa, em sofás, em passeio, também nas longas viagens entre o Nordeste e Lisboa, discorremos sobre livros e autores, sobre as nossas origens e melhorias destas terras. Foi neste quadro que se pensou a Academia de Letras de Trás-os-Montes, a cuja comissão instaladora presidiu, e para cuja primeira presidência me lançou, jantávamos no Solar Bragançano, em 4 de Outubro de 2010.

03 agosto 2015

CHAVES - PERCURSOS DE HISTÓRICAS MEMÓRIAS de Maria Isabel Viçoso

Maria Isabel Viçoso acaba de publicar um belo e excelente livro sobre a história e as memórias da Cidade de Chaves
Depois de uma excelente carreira como professora do Liceu Nacional de Chaves, a nossa estimada conterrânea, natural da aldeia de Gralhós, Montalegre, dedicou-se por inteiro à Grupo Cultural “Aquae Flaviae”, coordenando em particular a publicação de perto de meia centena de números da revista com o mesmo nome, sempre plena de interesse, onde se divulgaram inúmeros aspetos ligados à região, subscritos por destacadas figuras, nas diferentes áreas do conhecimento ali referenciadas.
A apresentação desta obra ficou a cargo de António Cruz Serra,      Reitor da Universidade de Lisboa, seu antigo aluno, natural de Chaves, que se mostrou conhecedor dos traços históricos e culturais da urbe e  guardião de boas memórias da sua professora dos verdes anos. Foi delicioso seguir esse passeio de recordações pela cidade, ou melhor, pelas cidades, visto existirem, como disse, duas urbes sobrepostas, uma romana e outra sobre ela edificada desde então até aos tempos atuais; basta levantar uma pedra, onde quer que seja, para logo se revelarem vestígios dos tempos áureos da presença romana. O acontecimento mais recente deu-se há poucos anos quando ao se iniciarem as obras para a construção de um parque subterrâneo, frente ao Palácio da Justiça, logo se revelaram ali as ruínas de um antigo balneário termal, soterrado por aluimento de terras no século IV (depois de Cristo).
Este volumoso livro de 520 páginas com grande número de ilustrações a cores, constitui o referencial mais completo que conheço sobre o património histórico e cultural da cidade e arredores, uma obra de consulta indispensável para quem se interessa por estes temas e uma leitura obrigatória para todos os professores aqui colocados ao longo dos anos, que necessitam de uma cabal identificação com o território onde desenvolvem a sua importante missão de ensinar, de orientar e ajudar a crescer as gerações mais novas.
Não é de ânimo leve que alguém lança mão de um projeto desta envergadura; só quem consagra uma vida em obediência à concretização de causas pode estar à altura de um desafio desta importância. O mérito é exclusivamente seu e dos familiares e amigos próximos que acompanharam o processo, mas não podemos esconder o regozijo por vermos mais uma personalidade barrosã a distinguir-se pela importância e seriedade dos cometimentos que abraçou e pela ponderação e constância com que os realizou.
António Chaves

24 junho 2015

Academia de letras de Trás-os-Montes

 Introdução

Breve síntese do caminho percorrido


A Academia de Letras de Trás-os-Montes teve registo de nascimento em 12 de Junho de 2010, com domicílio na Sede do Centro Cultural Municipal Adriano Moreira, cidade de Bragança. É agora uma robusta criança com cinco anos de idade.
Tem múltiplos, bons e dedicados padrinhos que a acarinharam desde a primeira hora.
Amadeu Ferreira, saudoso amigo e Presidente da Comissão Instaladora justificou assim a iniciativa na sessão que oficializou o nascimento da Academia: «é uma forma de reafirmar as identidades que temos que são, no fundo, a nossa salvação». Por sua vez, Adriano Moreira salientou a propósito que «nos momentos de crise o recurso às identidades aparece como fundamental». Por isso, «esta academia inscreve-se na consciência de que esse é o facto». «O que está em crise na Europa e em Portugal é o Estado e não a identidade. E são as identidades que precisam de ser defendidas porque são a pedra de base para a reorganização de que precisamos».
Por outro lado, os documentos escritos são suportes visíveis que explicam o abstrato, enquanto a palavra escrita tende a inspirar um sentimento apreciado.
Ficam assim claros como a água, os princípios inspiradores que guiaram e hão-de continuar a iluminar o nosso caminho.
 A AcadeMia de Letras de Trás-os-Montes ficou sediada em Bragança, atendendo a que foi «a autarquia, na pessoa do seu presidente, Jorge Nunes, a viabilizar a concretização da ideia e a dar o mote», tendo como significativo, o imediato apoio e a participação ativa de três dezenas de escritores transmontanos.

 Embora sediada em Bragança, ficou desde logo explícita a intenção de acolher todos escritores de Trás-os-Montes ou sobre temática ligada à região. É a segunda do género, inscrita na Academia de Ciências de Lisboa.
Ao cumprir as primeiras e decisivas cinco primaveras de vida acolhe já a participação de 110 escritores e um naipe considerável de sócios honorários.

Triénio 2010 -2013

 A Instituição entrou em funcionamento regular em 5 de Outubro de 2010, uma vez constituídos os primeiros corpos gerentes.
Adriano Moreira foi eleito Presidente Honorário da Academia.
Os restantes órgãos ficaram assim estabelecidos:

Assembleia Geral  

António M. Pires Cabral

Fernando Calado

Maria da Assunção Anes Morais

Direção

Ernesto Rodrigues

Fernando de Castro Branco

Amadeu Ferreira

Manuel Cardoso

Maria Hercília Agarez


Conselho Fiscal


Rogério Rodrigues

Idalina Brito

Alfredo Cameirão

No decorrer da sua vigência, entre 5 de Outubro de 2010 e 14 de Setembro de 2013, merecem especial destaque as acções seguintes:

-      Publicação e/ou organização de duas antologias de autores transmontanos, sob o título “TERRA DE DUAS LÌNGUAS”;

-      Participação como patrocinadora da Obra Completa do Padre António Vieira, formada por 30 volumes e milhares de exemplares distribuídos pelo mundo luso falante;

-      Lançamento de alguns volumes da Bibliografia do Distrito de Bragança, da antologia de homenagem a Pires Cabral nos seus 70 anos, da celebração dos cem anos de Raul Rego (em parceria com o Grémio Literário Vilarealense);

-      Início e prosseguimento das entrevistas mensais na Rádio Brigantia;

-      Sessões individualizadas de apreço a Bento da Cruz e a Barroso da Fonte (este nos seus 60 anos de vida jornalístico-literária);

-      Exposição biblio-iconográfica da Embaixada da Hungria;

-      Pedido de realização de nove documentários em vídeo sobre nove escritores transmontanos associados, solicitados a Leonel de Brito, trabalho que foi concretizado no decorrer do segundo mandato;

      -   Organização do catálogo de livros da Biblioteca;

      -   Organização e participação em três feiras do livro realizadas em Bragança.


Triénio 2013-2016

Buscando a partilha de esforços de forma mais equitativa entre geografias, os novos corpos sociais reforçaram ligeiramente a presença de Vila Real. Amadeu Ferreira, na qualidade de Presidente da Direção, pugnou pela realização de reuniões descentralizadas e um melhor conhecimento «do que uns e outros fazemos». É esse o caminho que os atuais corpos gerentes vão prosseguir e aprofundar.
Por má fortuna, Amadeu Ferreira não pode pôr em prática muitos dos seus propósitos relativos à recuperação dos valores identificadores da nossa cultura, à reassunção da memória e à autoestima, como condição prévia para sustentar uma participação condigna no palco das comunidades que constituem a diversidade das entidades nacional, lusófona, europeia e global do presente e do mundo novo que bate à porta.
Nestes aspectos há um longo caminho a percorrer, a começar pelo interior de cada um de nós, com vista a uma tomada de consciência entre o que fomos e o que somos, ameaças e oportunidades enquanto povo e sua matriz cultural. Não há lugar nem tempo para adiar opções que se revelam cada vez mais de difícil concretização, num contexto de acelerada mudança do tecido social.
Devido à enfermidade prolongada que atingiu cruelmente o nosso ilustre e devotado Presidente e amigo, umbilicalmente ligado à cultura transmontana e ao ressurgimento da língua Mirandesa, o mandato perdeu a estabilidade e a tranquilidade necessárias à prossecução dos objectivos fixados. Obrigou mesmo a uma cooptação forçada e à realização de novas eleições que tiveram lugar no pretérito dia 6 de Junho. Os atuais Corpos Gerentes eleitos ficaram assim formados:

Assembleia Geral

António Manuel Monteiro

Maria da Assunção Anes Morais

João Cabrita

Direção

António Chaves

José Mário Leite

Maria Idalina Alves de Brito

Carlos do Nascimento ferreira

António Pimenta de Castro


Conselho Fiscal

João Barroso da Fonte

José Fernando Rua de Castro

Cláudio Amílcar Carneiro

Com as seguintes linhas gerais de orientação:
Na sua constituição houve como primeira preocupação estabelecer pontes de contato com outras agremiações transmontanas da mesma natureza, de modo a reforçar o impacto das ações e melhor coordenar os calendários das iniciativas concernentes a cada associação. Reconhecemos as fragilidades com que lidamos para não nos darmos ao luxo de espartilhar esforços com iniciativas frequentemente sobrepostas. Assim, António Manuel Monteiro, Presidente da Assembleia Geral, é simultaneamente Grão-Mestre da Confraria dos Enófilos e Gastrónomos de Trás-os-Montes e Alto Douro; Carlos Ferreira, membro da Direção da ALTM, é o Presidente da Associação da Lengua e Cultura Mirandesa; João Barroso da Fonte, Presidente do Conselho Fiscal, é além de autor e jornalista dedicado às causas transmontanas, Diretor do jornal POETAS E TROVADORES onde irão ter amplo acolhimento e divulgação as iniciativas da Academia, dirigidas a um auditório específico e singular; José Fernando Rua de Castro é Presidente, fundador e timoneiro do Forum Galaico Transmontano, com enraizada implantação na Galiza e em Trás-os-Montes.

*
Uma breve análise das ameaças e oportunidades
 A observação da evolução dos dados referentes à região leva-nos a constatar, com inquietação, que a população transmontana está a diminuir drasticamente e a envelhecer, seguindo uma tendência de muito difícil reversão. Essa marca está a ser igualmente observada no interior da Academia, que no final do presente mandato, na ausência de medidas corretoras, os seus membros vão atingir uma média de 68 anos de idade. É por isso importante estimular a captação de elementos das gerações mais jovens para a sua adesão ao universo da escrita, como reforço da trave mestra que sustenta a constância do mundo imaterial e material das nossas comunidades, sem o que corremos o risco, a breve prazo, de deixarmos de saber o que fomos, o que somos e o que representamos no palco das identidades territoriais da Europa e do Mundo.

Precisamos de dar mais atenção à relevância deste fenómeno e de criar repostas adequadas a partir de uma mobilização colectiva multigeracional, propiciando um debate de ideias de como revigorar os traços de identidade que nos permitem continuar como comunidade, por direito próprio, na nova arquitectura territorial das regiões da Comunidade Europeia e do mundo da lusofonia. A fragilidade económica e social acentua a perda de valores e a diminuição da confiança básica no seio das comunidades locais: «Uma cultura é o conjunto partilhado de valores, crenças, atitudes, pressupostos, interpretações, hábitos, costumes, práticas, conhecimentos e comportamentos de uma comunidade que relembra um icebergue: Valores, crenças e interpretações são invisíveis, situadas abaixo da linha de água, enquanto os costumes, práticas e comportamentos são atributos visíveis, acima da tona de água». Os valores nucleares fundeiam no oceano invisível. As culturas fortes têm muitas vantagens, mas uma cultura forte também pode adoecer. A partir de meados do século XX, Trás-os-Montes converteu-se gradualmente numa região repulsiva, marcada por uma perda sistemática de população.
«Uma comunidade que não identifica os pontos nevrálgicos dos seus dramas, porque teme as conclusões, não conseguirá sair do retrocesso histórico e está a adiar e a agigantar conflitos inevitáveis».
Chegar junto das gerações mais novas, fornecer-lhes algo mais que a simples transmissão de conhecimentos é uma tarefa primordial e inadiável, no nosso entender, para garantir a preservação das identidades.
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São “ideias chave” do presente mandato:
-Dar prioridade à entrada de novos membros, de acordo com as normas constantes dos Estatutos. Estabelecemos, para os próximos três anos, o objetivo inscrever 50 novos associados;
-Realização de conferências, seminários e Workshops para despertar novas vocações para a escrita, divulgando métodos pedagógicos direccionados a escolas e professores do ensino de português e cidadãos interessados em suplantar as barreiras naturais que nos afastam do nosso ser criativo.
- Descentralizar gradualmente as iniciativas e proporcionar um melhor conhecimento mútuo entre os membros da Academia, «do que uns e outros fazemos», dando assim continuidade ao pensamento de Amadeu Ferreira. Desejamos incentivar a formação de grupos de trabalho de base local e regional e privilegiar a comunicação em rede, na vez de uma estrutura hierarquizada, onde «uns mandam e os outros obedecem».
-Vai ser retomado o programa do registo em vídeo dos testemunhos de vida e perfil literário e humano de um novo grupo de escritores, estudando, ao mesmo tempo, novas formas consensuais de partilha da informação.
A calendarização concreta destas iniciativas está dependente, em boa medida, da constituição de novos recursos, uma vez que os valores actuais em depósitos estão praticamente comprometidos, a curto prazo, face a responsabilidades anteriormente assumidas.
Pelas mesmas razões, esperamos a colaboração efetiva de todos, quanto ao pagamento atempado das respetivas quotas, porquanto, como é sabido, só é possível gerir meios e, sem eles, a concretização dos objectivos fica comprometida. Acreditamos no contributo consciente e fraterno de todos. Esperamos também ter condições para, em breve, podermos calendarizar as ações operacionais concretas.
Entretanto vamos organizar os registos e formas de comunicação que facilitem um melhor conhecimento «uns dos outros» e prometemos voltar, em breve ao contacto.

Saudações fraternas,

António Chaves

Presidente da Direção

2015/06/22

Anexos:
Sócios outorgantes da escritura de constituição: Adriano Moreira, Amadeu Ferreira, António Afonso, Regina Gouveia, Barroso da Fonte, Manuel Cardoso, César Afonso, Ernesto Rodrigues, Alfredo Cameirão, Pires Cabral, Virgílio do Vale. Rogério Rodrigues. António Mourinho, José Castro Branco, José Baptista e Sá, Isaac Barreira, Modesto Navarro e Cláudio Carneiro.
Sócios honorários: Adriano Moreira, António Baptista Lopes, Bento da Cruz, Eduarda Chiotte, Hirondino Paixão Fernandes, Jorge Nunes, José Rentes de Carvalho Leonel de Brito, Luísa Dacosta, Nuno Canavez e Teresa Martins Marques.

Endereço Postal

Academia de Letras de Trás-os-Montes

Centro Cultural Municipal Adriano Moreira

Praça Camões

5300-104 Bragança – Tel. 273 300 850

(atende por norma José Pedro dos Santos, funcionário destacado)

Elementos identificadores da Academia:

Número de Identificação de Pessoa coletiva: 509 669 131

Entidade Bancária: Caixa Geral de Depósitos

Nº de Conta: 0417023749430

NIB: 0035 0417 0002 3749 4303 5

IBAN: PT5000 35041 7000 2374 9430 35

CGDIPTPL


Endereços eletrónicos:



 
 
 


16 junho 2015

FESTIVAL LITERÁRIO DE BRAGANÇA - Poema de Manuel Amendoeira

 Fui a um festival de prosa e de poesia
Na minha querida cidade de Bragança
Recebi esse convite com tanta alegria
Que fu lá falar da vida e da esperança.

Escutei os vários prosadores e poetas
Que tinham tendências tão diferentes
Mas tudo era uma oração sem pressas
Mesmo bordejando ali várias correntes…

Os nossos queridos irmãos Brasileiros
Chegaram de braços e coração abertos
Traziam no seu rosto estampados enleios
Que mereceram todos os nossos afetos.

A linda imagem de marca era a bonomia
Timbre dum povo maravilhoso, acolhedor
Que só nos trouxe sentimentos de alegria
Que é apanágio em quem pratica o amor.
              
Serão bem-vindos sempre meus irmãos
À nossa acolhedora cidade de Bragança
Porque se os dois países derem as mãos
Cimentaremos mais a nossa esperança…

Então, para que esta experiência tão linda
Possa perdurar sempre nas nossas vidas
Iremos esperar anualmente a vossa vinda
Sem medo, sem receio, sem contrapartidas.

02 junho 2015

Festival Literário de Bragança

Nos próximos dias 4, 5 e 6 de junho vai ter lugar em Bragança o Festival Literário, este ano no evento vão estar representados três autores da Lema d'Origem que são Hercília Agarez, João Cabrita e António Sá Gué.

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