21 setembro 2015

«Tertulia sobre Trás-os-Montes e Alto Douro e os seus escritores

Ao C/ do Presidente e de toda a Direcção da Academia: 

Para conhecimento da Direcção e na sequência do convite que me foi feito pelo Dr. António Chaves para o representar na «Tertulia sobre Trás-os-Montes e Alto Douro e os seus escritores, que decorreu na Biblioteca do Porto, no Pavilhão dos Jardins do Palácio de Cristal, integrado na Feira do Livro pelas 16 h do dia 20 de Setembro , cuja iniciativa ficou a dever-se à Empresa Traga-Mundos, de António Alberto Alves, informo que procurei cumprir a incumbência, desde a abertura até final. A Tertúlia foi moderada pelo n/ Associado Sagué, que chamou para a mesa  o Filósofo Francisco Alves e a Drª Hercília Agarez. Todos eles centraram o seu depoimento no papel dos autores Transmontanos, acentuando a identidade, os aspectos relacionados com a antropologia cultural, com qualidade e quantidade dos muitos e bons autores que a Região teve, desde os primórdios da nacionalidade. Não foram esquecidos os três vultos da literatura que este ano nos deixaram, nomeadamente: Amadeu Ferreira, Luísa Dacosta e Bento da Cruz.
O moderador convidou-nos, na qualidade de representante do Presidente da Direcção da Academia para esclarecer os participantes das vantagens de sermos cada vez mais solidários e coesos na defesa dos nossos valores.
 Usaram ainda da palavra os autores: Jorge José Alves e Virgínia Cunha que falou do êxito do V Encontro de Escritores Transmontanos em Macedo de Cavaleiros, onde a Academia também esteve representada por três membros da Direcção. Sou de opinião que esta tertúlia teve apenas uma hora de debate e deveria funcionar como experiência para fins de semana, em sistema rotativo pelos núcleos dos grupos de associados de que se falou na reunião de Direcção de 6 de Junho último. Marcaram presença cerca de três dezenas. É que no fim desta tarde de Domingo, o promotor deste Encontro conseguiu reunir muita gente interessada em falar e ouvir falar de os seus comprovincianos. Vários nos disseram que vinham para intervir e trocar experiências. E que uma hora passou depressa.Também eu regressei a Guimarães radiante com o que ouvi não só dos três membros da Mesa, mas também a resignação de quem ali foi para passar horas. O infatigável António Alberto Alves que criou e dirige a Livraria Traga-Mundos, já provou ser pioneiro destacado nesta dimensão cultural que faz escola, gera movimentos culturais, concilia produtos tão diversificados como a difusão dos melhores vinhos do Douro e de toda a região, de produtos da terra e de livros, novos e velhos  e até consegue espaço em ambientes como foi este da Feira do Livro do Porto. Com a Traga Mundos colaborou a Editora Lema d' Origem. Guimarães, 20/9/2015 . 

Barroso da Fonte

 

17 setembro 2015

José Mário Leite // CULTURA POR CAUSA CULTURA POR ACASO

A dramática morte de Amadeu Ferreira conduziu à convocação de eleições para os corpos dirigentes da Academia de Letras de Trás-os-Montes a que presidia.
A nova direção, na sua primeira reunião, em Bragança, ciente da enorme herança recebida das carismáticas presidências que a antecederam, resolveu arregaçar as mangas e começar a trabalhar. Sendo a sua atividade baseada no voluntariado dos associados que têm, na sua maioria, outras ocupações profissionais e residem, muitos deles, fora da região, foi deliberado fazer-se representar, no distrito de Vila Real pelo presidente, António Chaves e no distrito de Bragança, pelo vice-presidente, o que muito me honrou.
Informei que era minha intenção iniciar tal tarefa com a apresentação de cumprimentos a todas as Câmaras Municipais começando pela capital do distrito e continuando a partir do sul do distrito onde iria estar durante um curto período de férias. Aproveitaria para indagar junto do poder político quais as possibilidades de cooperação entre as autarquias e a Academia. Sabia bem que o período de férias tem as suas contingências próprias da época e estava, obviamente, a contar com algumas dificuldades não só de agendamento mas também de obter a atenção necessária dos autarcas brigantinos. Foi, por isso mesmo, uma enorme e agradável satisfação constatar a forma afável e de genuíno interesse com que fui recebido nos Paços do Concelho, pelos respetivos autarcas. Todos os que me receberam me brindaram com disponibilidade e empenho para promover a literatura e os autores transmontanos e assim contribuir para a divulgação e enriquecimento das línguas portuguesa e mirandesa.
A falta de tempo não me permitia programar reuniões em todas as Câmaras. Das que estavam na minha agenda houve apenas uma onde não consegui apresentar-me. Estou certo que a culpa não terá sido dos responsáveis políticos. Mas isso não me compete a mim avaliar. Relato apenas o ocorrido.
– Bom dia! É da Câmara Municipal? Eu queria marcar uma curta audiência com os senhor presidente da Câmara.
– Um minuto. Vou passar ao gabinete de Apoio.
– Concerteza...
– Quem é que quer falar com o Presidente?
– Sou José Mário Leite, vice-presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes e queria apresentar, pessoalmente, cumprimentos ao sr. Presidente. Amanhã ou depois...
– O Presidente não está amanhã nem depois. Pode ser com o vereador da Cultura, depois de amanhã?
– Pode. Diga-me a que horas.
– Não lhe posso dizer agora. Primeiro tenho de lhe perguntar.
– Quando posso telefonar de novo para saber?
– O sr. não precisa telefonar. Eu ligo-lhe a informar...
– Mas eu não me importo de ligar...
– O senhor não entendeu o que eu lhe disse? – ríspida! – O senhor não liga. Eu tenho aqui o seu numero registado e sou eu que lhe ligo, depois.
Nesse dia não liguei. E no seguinte só telefonei às dezasseis menos um quarto, receoso de ver gorada a marcação. Atendeu-me a telefonista que, simpaticamente me informou que a pessoa com quem tinha falado no dia anterior já não estava. “Saímos às quatro” informou.  “Mas ainda não são quatro horas...” balbuciei. “A hora de saída agora é às quatro” reforçou. Tentei falar com outra pessoa mas já não estava ninguém, nem no secretariado do presidente nem do vereador, nem nenhum dos titulares. “Ligasse mais cedo” “Garantiram que me ligavam...” “Se lhe garantiram que ligavam, vão ligar. Tem de esperar...”
 
Cá estou eu à espera. Desde meados de Agosto! 
Fonte: Mensageiro de Bragança( http://www.mdb.pt/content/cultura-por-causa-cultura-por-acaso )

03 setembro 2015

Bento da Cruz -Discurso

Bento da Cruz - O Príncipe do Planalto


O Príncipe das Letras do Planalto Barrosão deixou-nos na passada noite de 25 para 26 de Agosto, depois de ter abraçado o filho com comovente serenidade.
A sua dimensão humana e literária e a grandeza de caráter impõem que partilhamos com os seus pares uma breve síntese do que foram os traços dominantes do seu percurso de vida e de obra, dirigida em particular a quem não teve a oportunidade de privar de perto com esta grande figura.
Bento da Cruz nasceu na aldeia de Peireses, concelho de Montalegre em 22 de Fevereiro de 1925.
Filho de lavradores da família conhecida pelos Marinheiros, as dificuldades da época levaram-no desde cedo ao trabalho do campo e à vida de pastor, atividades principais de sustentação das aldeias, dentro da moldura de economia rural de subsistência.
Fez os estudos primários na Escola de S. Vicente, sede da Freguesia, forçando-o a percorrer, duas vezes ao dia, a distância de três quilómetros, isto quando as chuvas e subidas dos níveis da água dos ribeiros não obrigavam a optar por outros percursos mais longos.
Em 1940 (aos 15 anos de idade) entrou para a Escola Claustral de Singeverga, dirigida por monges beneditinos, disposto a seguir a vida religiosa, única saída possível para continuar os estudos e a cultivar a paixão pelos livros. Aí completou com distinção o curso de humanidades dos Seminários, período durante o qual foi diretor literário das revistas “O Colégio” e “Claustrália”. Entrou no noviciado em 1945, mas acabou, no final do ano, por renunciar à continuação da educação religiosa. Durante o tempo de clausura entre os quinze e vinte e um anos de idade leu e traduziu extensos textos de escritores clássicos romanos e gregos da antiguidade, consolidando assim uma séria base de trabalho para o futuro escritor, habilitando-o a combinar de forma sábia, o falar e o diálogo populares com o ritmo trilhado pelos escritores clássicos.
Sobre esse longo período de seis anos de clausura diz-nos o autor: “a maior pena que tenho desse tempo é não ter vivido a experiência de vida entre os quinze e os vinte e um anos. Senti toda a vida a falta desse percurso de juventude”.
Dois anos depois deu entrada na Universidade de Coimbra onde se licenciou em Medicina e se especializou em estomatologia. Tinha então em mente regressar à sua região de origem, com uma especialidade que pudesse exercer localmente, dado que ainda não tinha chegado a energia elétrica a Montalegre.
A partir de 1957, e como médico, percorreu toda a região de Barroso, ficando conhecido pelo serviço aos pobres, a quem não levava dinheiro e até oferecia os medicamentos, em certos casos. Existe um leque de testemunhos de como naquelas terras isoladas tratou e salvou muitas vidas. Em 1971 radicou-se no Porto passando a exercer estomatologia em regime de exclusividade. Aí fundou o jornal “Correio do Planalto” que dirigiu até ao seu último sopro de vida, adquirindo particular evidência os seus “Prolegómenos”, uma parte dos quais editados já em três volumes.
Nunca se desligou da aldeia e do mundo rural em que nasceu. Passava ali as férias e ia lá sempre que podia. Reconstruiu a casa do avô Marinheiro, respeitando a traça original; e admitia: “aqui respiro melhor, durmo melhor e penso melhor”.
Demarcou desde cedo o planalto da sua ficção: “ É um planalto ou meseta delimitada por quatro serras principais e respetivos contrafortes: Larouco a norte, Alturas de Barroso a nascente, Cabreira a sul e o Gerês ao sol-posto”. 
Resumiu a sua intensa vida literária numa simples frase: “Em pequeno comecei por sachar a minha leira, como via fazer a todos os outros. Quando troquei a enxada pela caneta a minha leira passou a ser Barroso”.
Obras publicadas:
 Poesia – Hemoptise, com pseudónimo de Sabiel Truta
 Ficção – Planalto em Chamas (1963); Ao Longo da Fronteira (1964); Filhas de Lot (1967); Contos de Gostofrio (1973); O Lobo Guerrilheiro (1980); Planalto do Gostofrio (1982); Histórias da Vermelhinha (1991); Victor Branco, Escritor Barrosão – Vida e Obra (1995); O Retábulo das Virgens Loucas (1996); A Loba (2000); A Lenda de Hiran e Belkiss (2005); A Fárria (comemoração dos 50 anos de vida Literária; 2010). Biografia – Victor Branco: Escritor Barrosão, Vida e Obra (1995); Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes (2005); Camilo Castelo Branco: Por terras de Barroso e outros lugares (2012). Crónicas – Prolegómenos (2007); Prolegómenos II (2009); Prolegómenos III (2012).
Mendez Ferrin apreciado escritor galego qualificou, deste modo, o percurso do escritor:
Bento da Cruz é uma figura única e excecional. Salvou a memória de um período histórico, que doutra forma ficaria esquecida para sempre.
Salvou também a boa saúde da língua portuguesa e a sua capacidade múltipla, rica, numerosa, lexicamente não dependente dos dicionários e das normas nacionais.
Bento da Cruz, como Aquilino Ribeiro, como Miguel Torga pertencem a uma casta dos absolutamente incorruptíveis, de escritores que acreditam na sua própria língua, na sua capacidade, que sabem que ela é grande e suscetível de ser infinitamente ainda mais engrandecida.
Fixou como era socialmente a aldeia de Barroso do século XIX e princípios do século XX. Explicou-nos como era a aldeia, a sua composição social, as classes sociais, os ricos e os pobres, os morgados e os padres, lavradores e cabaneiros, todos representados no seu papel social e nas suas contradições de classe. Não era o lugar idílico onde todos eram iguais; havia amos e escravos, sofredores e os que infringiam o sofrimento.
É esta a preciosa oferenda que nos legou este grande escritor e grande analista da história.
Os muitos anos de estreito convívio e de sólida amizade impõem-me o dever de clarificar vários sentidos subjacentes na sua ficção, em especial os relativos à cultura e à evolução social e territorial de Barroso, perspetiva extensível também a todo o interior rural de Portugal, tarefa a que tenho dedicado alguma atenção, esperando vir a partilhar essa reflexão, em futuro próximo.
Ao bom e dedicado amigo, um forte e saudoso abraço.


António Chaves

25 agosto 2015

A VIDA, por Cláudio Carneiro




A VIDA

A vida é um rio, é a morte o mar
Que se evapora por volver à vida.
E nós a essência, para ser vivida
Num Mundo inteligível, singular.

A terra, sem descanso, anda a girar,
É tal qual um comboio de corrida,
Entre quatro Estações, como perdida.
O vento é um cantor que agita o ar.

O Céu o que será? Ninguém o sabe,
É uma abstracção, que só a fé
O sabe discernir na crença antiga.

E Deus? Quem será Deus? Só a Deus cabe
Saber, que ninguém mais sabe quem é.
Se acaso alguém o sabe, então que o diga.
Cláudio Carneiro

21 agosto 2015

Para Que Este Mundo Não Acabe - Documentario Dedicado a Tras-Os-Montes


A SENHORA DA SERRA, por Cláudio Carneiro


          A SENHORA DA SERRA

 
Desamparada, assim, Menino ao colo,

Martirizada, triste, em desalento,

Na ermidinha da serra, exposta ao vento,

Habita a Virgem Mãe, resvés ao solo.


Constrange-me este quadro, o desconsolo

Desta humilde Mulher. Sem um lamento,

Descalça e mal vestida, em sofrimento,

Não fora no Menino achar consolo.

 

A aparição do anjo, o seu recado,

A concepção de Cristo, O Incriado,

Que é Pai e Filho, é Deus e é Jesus.

Não discerne, talvez, que afaga ao peito

Quem, no devir dos anos, Homem feito,

Será crucificado numa Cruz.


 
Com amizade, o chacinense


Cláudio Carneiro.  

06 agosto 2015

L’Eiternidade de las Yerbas / A Eternidade das Ervas - Apresentação



L’Eiternidade de las Yerbas / A Eternidade das Ervas

Ernesto Rodrigues
Universidade de Lisboa

Caros Amigos

Deixei de fazer apresentações públicas de obras e de ser apresentado. Abro esta excepção, porque às memórias felizes nunca podemos dizer que não. Amadeu Ferreira faz parte dessas memórias.
Entro no Seminário de Bragança, com 12 anos, e oiço falar de quem, seis anos mais velho, hiperactivo, procura aquilo que, nessa pequena comunidade intelectual, também eu perseguia: fazer-se um nome. Sou colega de Manuel Ferreira, já então artista, que se renova como a natureza que ele tão bem retrata nestas páginas de devoção ao irmão.
Ao deixar a Casa Amarela, aos 15 anos, em 1971 – que Amadeu abandonava no ano seguinte -, eu trocava jornais de parede ou a stêncil por títulos impressos, não querendo ficar atrás dos mais velhos, de Teologia, que me animavam a colaborar no Mensageiro de Bragança, onde o nosso sendinês já assinava.
Saudou, num encontro de acaso, a minha estreia em livro, em 1973, sendo essa generosidade, nele, um gesto fácil, sincero, sem reservas. Ficou, daí, uma cumplicidade noutros instantes reiterada, até que, já assistente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, dou com ele, em 1990, frente à reitoria, acabava de se licenciar e de encerrar um difícil ciclo de vida, doravante memorada na obra que faz juz à sua grandeza de alma: O Fio das Lembranças. Biografia de Amadeu Ferreira, escrita por Teresa Martins Marques.
Redobrámos os contactos após 2002, quando nos revimos em tertúlia na quinta da Ribeirinha, Santarém, boleando-me até Oeiras, como de outras vezes faria. E abancámos para almoços regulares a partir de finais de 2009, quando me solicitou prefácio para a tradução de Os Lusíadas. As conversas tornaram-se regulares, os abraços semanais, projectos foram mil e um. À mesa, em sofás, em passeio, também nas longas viagens entre o Nordeste e Lisboa, discorremos sobre livros e autores, sobre as nossas origens e melhorias destas terras. Foi neste quadro que se pensou a Academia de Letras de Trás-os-Montes, a cuja comissão instaladora presidiu, e para cuja primeira presidência me lançou, jantávamos no Solar Bragançano, em 4 de Outubro de 2010.

03 agosto 2015

CHAVES - PERCURSOS DE HISTÓRICAS MEMÓRIAS de Maria Isabel Viçoso

Maria Isabel Viçoso acaba de publicar um belo e excelente livro sobre a história e as memórias da Cidade de Chaves
Depois de uma excelente carreira como professora do Liceu Nacional de Chaves, a nossa estimada conterrânea, natural da aldeia de Gralhós, Montalegre, dedicou-se por inteiro à Grupo Cultural “Aquae Flaviae”, coordenando em particular a publicação de perto de meia centena de números da revista com o mesmo nome, sempre plena de interesse, onde se divulgaram inúmeros aspetos ligados à região, subscritos por destacadas figuras, nas diferentes áreas do conhecimento ali referenciadas.
A apresentação desta obra ficou a cargo de António Cruz Serra,      Reitor da Universidade de Lisboa, seu antigo aluno, natural de Chaves, que se mostrou conhecedor dos traços históricos e culturais da urbe e  guardião de boas memórias da sua professora dos verdes anos. Foi delicioso seguir esse passeio de recordações pela cidade, ou melhor, pelas cidades, visto existirem, como disse, duas urbes sobrepostas, uma romana e outra sobre ela edificada desde então até aos tempos atuais; basta levantar uma pedra, onde quer que seja, para logo se revelarem vestígios dos tempos áureos da presença romana. O acontecimento mais recente deu-se há poucos anos quando ao se iniciarem as obras para a construção de um parque subterrâneo, frente ao Palácio da Justiça, logo se revelaram ali as ruínas de um antigo balneário termal, soterrado por aluimento de terras no século IV (depois de Cristo).
Este volumoso livro de 520 páginas com grande número de ilustrações a cores, constitui o referencial mais completo que conheço sobre o património histórico e cultural da cidade e arredores, uma obra de consulta indispensável para quem se interessa por estes temas e uma leitura obrigatória para todos os professores aqui colocados ao longo dos anos, que necessitam de uma cabal identificação com o território onde desenvolvem a sua importante missão de ensinar, de orientar e ajudar a crescer as gerações mais novas.
Não é de ânimo leve que alguém lança mão de um projeto desta envergadura; só quem consagra uma vida em obediência à concretização de causas pode estar à altura de um desafio desta importância. O mérito é exclusivamente seu e dos familiares e amigos próximos que acompanharam o processo, mas não podemos esconder o regozijo por vermos mais uma personalidade barrosã a distinguir-se pela importância e seriedade dos cometimentos que abraçou e pela ponderação e constância com que os realizou.
António Chaves

24 junho 2015

Academia de letras de Trás-os-Montes

 Introdução

Breve síntese do caminho percorrido


A Academia de Letras de Trás-os-Montes teve registo de nascimento em 12 de Junho de 2010, com domicílio na Sede do Centro Cultural Municipal Adriano Moreira, cidade de Bragança. É agora uma robusta criança com cinco anos de idade.
Tem múltiplos, bons e dedicados padrinhos que a acarinharam desde a primeira hora.
Amadeu Ferreira, saudoso amigo e Presidente da Comissão Instaladora justificou assim a iniciativa na sessão que oficializou o nascimento da Academia: «é uma forma de reafirmar as identidades que temos que são, no fundo, a nossa salvação». Por sua vez, Adriano Moreira salientou a propósito que «nos momentos de crise o recurso às identidades aparece como fundamental». Por isso, «esta academia inscreve-se na consciência de que esse é o facto». «O que está em crise na Europa e em Portugal é o Estado e não a identidade. E são as identidades que precisam de ser defendidas porque são a pedra de base para a reorganização de que precisamos».
Por outro lado, os documentos escritos são suportes visíveis que explicam o abstrato, enquanto a palavra escrita tende a inspirar um sentimento apreciado.
Ficam assim claros como a água, os princípios inspiradores que guiaram e hão-de continuar a iluminar o nosso caminho.
 A AcadeMia de Letras de Trás-os-Montes ficou sediada em Bragança, atendendo a que foi «a autarquia, na pessoa do seu presidente, Jorge Nunes, a viabilizar a concretização da ideia e a dar o mote», tendo como significativo, o imediato apoio e a participação ativa de três dezenas de escritores transmontanos.

 Embora sediada em Bragança, ficou desde logo explícita a intenção de acolher todos escritores de Trás-os-Montes ou sobre temática ligada à região. É a segunda do género, inscrita na Academia de Ciências de Lisboa.
Ao cumprir as primeiras e decisivas cinco primaveras de vida acolhe já a participação de 110 escritores e um naipe considerável de sócios honorários.

Triénio 2010 -2013

 A Instituição entrou em funcionamento regular em 5 de Outubro de 2010, uma vez constituídos os primeiros corpos gerentes.
Adriano Moreira foi eleito Presidente Honorário da Academia.
Os restantes órgãos ficaram assim estabelecidos:

Assembleia Geral  

António M. Pires Cabral

Fernando Calado

Maria da Assunção Anes Morais

Direção

Ernesto Rodrigues

Fernando de Castro Branco

Amadeu Ferreira

Manuel Cardoso

Maria Hercília Agarez


Conselho Fiscal


Rogério Rodrigues

Idalina Brito

Alfredo Cameirão

No decorrer da sua vigência, entre 5 de Outubro de 2010 e 14 de Setembro de 2013, merecem especial destaque as acções seguintes:

-      Publicação e/ou organização de duas antologias de autores transmontanos, sob o título “TERRA DE DUAS LÌNGUAS”;

-      Participação como patrocinadora da Obra Completa do Padre António Vieira, formada por 30 volumes e milhares de exemplares distribuídos pelo mundo luso falante;

-      Lançamento de alguns volumes da Bibliografia do Distrito de Bragança, da antologia de homenagem a Pires Cabral nos seus 70 anos, da celebração dos cem anos de Raul Rego (em parceria com o Grémio Literário Vilarealense);

-      Início e prosseguimento das entrevistas mensais na Rádio Brigantia;

-      Sessões individualizadas de apreço a Bento da Cruz e a Barroso da Fonte (este nos seus 60 anos de vida jornalístico-literária);

-      Exposição biblio-iconográfica da Embaixada da Hungria;

-      Pedido de realização de nove documentários em vídeo sobre nove escritores transmontanos associados, solicitados a Leonel de Brito, trabalho que foi concretizado no decorrer do segundo mandato;

      -   Organização do catálogo de livros da Biblioteca;

      -   Organização e participação em três feiras do livro realizadas em Bragança.


Triénio 2013-2016

Buscando a partilha de esforços de forma mais equitativa entre geografias, os novos corpos sociais reforçaram ligeiramente a presença de Vila Real. Amadeu Ferreira, na qualidade de Presidente da Direção, pugnou pela realização de reuniões descentralizadas e um melhor conhecimento «do que uns e outros fazemos». É esse o caminho que os atuais corpos gerentes vão prosseguir e aprofundar.
Por má fortuna, Amadeu Ferreira não pode pôr em prática muitos dos seus propósitos relativos à recuperação dos valores identificadores da nossa cultura, à reassunção da memória e à autoestima, como condição prévia para sustentar uma participação condigna no palco das comunidades que constituem a diversidade das entidades nacional, lusófona, europeia e global do presente e do mundo novo que bate à porta.
Nestes aspectos há um longo caminho a percorrer, a começar pelo interior de cada um de nós, com vista a uma tomada de consciência entre o que fomos e o que somos, ameaças e oportunidades enquanto povo e sua matriz cultural. Não há lugar nem tempo para adiar opções que se revelam cada vez mais de difícil concretização, num contexto de acelerada mudança do tecido social.
Devido à enfermidade prolongada que atingiu cruelmente o nosso ilustre e devotado Presidente e amigo, umbilicalmente ligado à cultura transmontana e ao ressurgimento da língua Mirandesa, o mandato perdeu a estabilidade e a tranquilidade necessárias à prossecução dos objectivos fixados. Obrigou mesmo a uma cooptação forçada e à realização de novas eleições que tiveram lugar no pretérito dia 6 de Junho. Os atuais Corpos Gerentes eleitos ficaram assim formados:

Assembleia Geral

António Manuel Monteiro

Maria da Assunção Anes Morais

João Cabrita

Direção

António Chaves

José Mário Leite

Maria Idalina Alves de Brito

Carlos do Nascimento ferreira

António Pimenta de Castro


Conselho Fiscal

João Barroso da Fonte

José Fernando Rua de Castro

Cláudio Amílcar Carneiro

Com as seguintes linhas gerais de orientação:
Na sua constituição houve como primeira preocupação estabelecer pontes de contato com outras agremiações transmontanas da mesma natureza, de modo a reforçar o impacto das ações e melhor coordenar os calendários das iniciativas concernentes a cada associação. Reconhecemos as fragilidades com que lidamos para não nos darmos ao luxo de espartilhar esforços com iniciativas frequentemente sobrepostas. Assim, António Manuel Monteiro, Presidente da Assembleia Geral, é simultaneamente Grão-Mestre da Confraria dos Enófilos e Gastrónomos de Trás-os-Montes e Alto Douro; Carlos Ferreira, membro da Direção da ALTM, é o Presidente da Associação da Lengua e Cultura Mirandesa; João Barroso da Fonte, Presidente do Conselho Fiscal, é além de autor e jornalista dedicado às causas transmontanas, Diretor do jornal POETAS E TROVADORES onde irão ter amplo acolhimento e divulgação as iniciativas da Academia, dirigidas a um auditório específico e singular; José Fernando Rua de Castro é Presidente, fundador e timoneiro do Forum Galaico Transmontano, com enraizada implantação na Galiza e em Trás-os-Montes.

*
Uma breve análise das ameaças e oportunidades
 A observação da evolução dos dados referentes à região leva-nos a constatar, com inquietação, que a população transmontana está a diminuir drasticamente e a envelhecer, seguindo uma tendência de muito difícil reversão. Essa marca está a ser igualmente observada no interior da Academia, que no final do presente mandato, na ausência de medidas corretoras, os seus membros vão atingir uma média de 68 anos de idade. É por isso importante estimular a captação de elementos das gerações mais jovens para a sua adesão ao universo da escrita, como reforço da trave mestra que sustenta a constância do mundo imaterial e material das nossas comunidades, sem o que corremos o risco, a breve prazo, de deixarmos de saber o que fomos, o que somos e o que representamos no palco das identidades territoriais da Europa e do Mundo.

Precisamos de dar mais atenção à relevância deste fenómeno e de criar repostas adequadas a partir de uma mobilização colectiva multigeracional, propiciando um debate de ideias de como revigorar os traços de identidade que nos permitem continuar como comunidade, por direito próprio, na nova arquitectura territorial das regiões da Comunidade Europeia e do mundo da lusofonia. A fragilidade económica e social acentua a perda de valores e a diminuição da confiança básica no seio das comunidades locais: «Uma cultura é o conjunto partilhado de valores, crenças, atitudes, pressupostos, interpretações, hábitos, costumes, práticas, conhecimentos e comportamentos de uma comunidade que relembra um icebergue: Valores, crenças e interpretações são invisíveis, situadas abaixo da linha de água, enquanto os costumes, práticas e comportamentos são atributos visíveis, acima da tona de água». Os valores nucleares fundeiam no oceano invisível. As culturas fortes têm muitas vantagens, mas uma cultura forte também pode adoecer. A partir de meados do século XX, Trás-os-Montes converteu-se gradualmente numa região repulsiva, marcada por uma perda sistemática de população.
«Uma comunidade que não identifica os pontos nevrálgicos dos seus dramas, porque teme as conclusões, não conseguirá sair do retrocesso histórico e está a adiar e a agigantar conflitos inevitáveis».
Chegar junto das gerações mais novas, fornecer-lhes algo mais que a simples transmissão de conhecimentos é uma tarefa primordial e inadiável, no nosso entender, para garantir a preservação das identidades.
*
São “ideias chave” do presente mandato:
-Dar prioridade à entrada de novos membros, de acordo com as normas constantes dos Estatutos. Estabelecemos, para os próximos três anos, o objetivo inscrever 50 novos associados;
-Realização de conferências, seminários e Workshops para despertar novas vocações para a escrita, divulgando métodos pedagógicos direccionados a escolas e professores do ensino de português e cidadãos interessados em suplantar as barreiras naturais que nos afastam do nosso ser criativo.
- Descentralizar gradualmente as iniciativas e proporcionar um melhor conhecimento mútuo entre os membros da Academia, «do que uns e outros fazemos», dando assim continuidade ao pensamento de Amadeu Ferreira. Desejamos incentivar a formação de grupos de trabalho de base local e regional e privilegiar a comunicação em rede, na vez de uma estrutura hierarquizada, onde «uns mandam e os outros obedecem».
-Vai ser retomado o programa do registo em vídeo dos testemunhos de vida e perfil literário e humano de um novo grupo de escritores, estudando, ao mesmo tempo, novas formas consensuais de partilha da informação.
A calendarização concreta destas iniciativas está dependente, em boa medida, da constituição de novos recursos, uma vez que os valores actuais em depósitos estão praticamente comprometidos, a curto prazo, face a responsabilidades anteriormente assumidas.
Pelas mesmas razões, esperamos a colaboração efetiva de todos, quanto ao pagamento atempado das respetivas quotas, porquanto, como é sabido, só é possível gerir meios e, sem eles, a concretização dos objectivos fica comprometida. Acreditamos no contributo consciente e fraterno de todos. Esperamos também ter condições para, em breve, podermos calendarizar as ações operacionais concretas.
Entretanto vamos organizar os registos e formas de comunicação que facilitem um melhor conhecimento «uns dos outros» e prometemos voltar, em breve ao contacto.

Saudações fraternas,

António Chaves

Presidente da Direção

2015/06/22

Anexos:
Sócios outorgantes da escritura de constituição: Adriano Moreira, Amadeu Ferreira, António Afonso, Regina Gouveia, Barroso da Fonte, Manuel Cardoso, César Afonso, Ernesto Rodrigues, Alfredo Cameirão, Pires Cabral, Virgílio do Vale. Rogério Rodrigues. António Mourinho, José Castro Branco, José Baptista e Sá, Isaac Barreira, Modesto Navarro e Cláudio Carneiro.
Sócios honorários: Adriano Moreira, António Baptista Lopes, Bento da Cruz, Eduarda Chiotte, Hirondino Paixão Fernandes, Jorge Nunes, José Rentes de Carvalho Leonel de Brito, Luísa Dacosta, Nuno Canavez e Teresa Martins Marques.

Endereço Postal

Academia de Letras de Trás-os-Montes

Centro Cultural Municipal Adriano Moreira

Praça Camões

5300-104 Bragança – Tel. 273 300 850

(atende por norma José Pedro dos Santos, funcionário destacado)

Elementos identificadores da Academia:

Número de Identificação de Pessoa coletiva: 509 669 131

Entidade Bancária: Caixa Geral de Depósitos

Nº de Conta: 0417023749430

NIB: 0035 0417 0002 3749 4303 5

IBAN: PT5000 35041 7000 2374 9430 35

CGDIPTPL


Endereços eletrónicos:



 
 
 


16 junho 2015

FESTIVAL LITERÁRIO DE BRAGANÇA - Poema de Manuel Amendoeira

 Fui a um festival de prosa e de poesia
Na minha querida cidade de Bragança
Recebi esse convite com tanta alegria
Que fu lá falar da vida e da esperança.

Escutei os vários prosadores e poetas
Que tinham tendências tão diferentes
Mas tudo era uma oração sem pressas
Mesmo bordejando ali várias correntes…

Os nossos queridos irmãos Brasileiros
Chegaram de braços e coração abertos
Traziam no seu rosto estampados enleios
Que mereceram todos os nossos afetos.

A linda imagem de marca era a bonomia
Timbre dum povo maravilhoso, acolhedor
Que só nos trouxe sentimentos de alegria
Que é apanágio em quem pratica o amor.
              
Serão bem-vindos sempre meus irmãos
À nossa acolhedora cidade de Bragança
Porque se os dois países derem as mãos
Cimentaremos mais a nossa esperança…

Então, para que esta experiência tão linda
Possa perdurar sempre nas nossas vidas
Iremos esperar anualmente a vossa vinda
Sem medo, sem receio, sem contrapartidas.

02 junho 2015

Festival Literário de Bragança

Nos próximos dias 4, 5 e 6 de junho vai ter lugar em Bragança o Festival Literário, este ano no evento vão estar representados três autores da Lema d'Origem que são Hercília Agarez, João Cabrita e António Sá Gué.

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25 maio 2015

As Asas da Libelinha, por Hercília Agarez













Prefácio
As Asas da Libelinha: breves pinceladas de luz sobre o quotidiano

Não chegue o dia/ em que eu pense/ não ter nada para aprender, diz-nos Hercília Agarez num dos pequenos poemas que compõem este livro. Como o leitor rapidamente perceberá, embora breves, estas estrofes alojam dentro de si uma larga sabedoria. Por vezes, fazem-nos sorrir, outras vezes reflectir, apresentando-se sempre como guias de um olhar minucioso e atento do mundo que nos rodeia.
Hercília Agarez, com obra publicada no domínio da ficção e do ensaio, escolheu, desta vez, oferecer aos seus leitores uma experiência no campo da poesia. Num registo que vai do poético ao humorístico, neste livro desfilam poemas curtos que, a partir de uma observação directa, e segundo contextos e vivências diversas, abordam essencialmente aspectos do quotidiano. 
A brevidade e a forma dos poemas aproxima-os do haiku, uma estrutura poética que tem a sua origem no Japão, país onde conta com muitos admiradores e praticantes. Os haiku são compostos por 17 sílabas métricas, dispostas em três versos de cinco-sete-cinco sílabas, e têm como tema aspectos da vida quotidiana do Japão, emoldurados pelas estações do ano. O âmago destes poemas é de o fazer crescer uma imagem e ecoar um pensamento num número mínimo de palavras. O efeito das palavras sobre o leitor deve ter a força do trovão e iluminar como a luz do raio. Brevidade e intensidade são, pois, palavras próximas deste tipo de poesia.
Em Portugal, esta forma de labor poético conhece já alguns admiradores e tem já disponivéis algumas obras publicadas. Foram, aliás, alguns desses autores que ajudaram a perceber a complexa mecânica poética do haiku. Ajudaram, também, a perceber que, de qualquer modo, mesmo se não completamente fiéis à métrica original, o que se vai publicando no nosso país tem como objectivo aproximar-se do espírito do haiku. O mais relevante, referem, é ser uma poesia fiel aos cinco sentidos e à observação das coisas que povoam o mundo, sendo que o resultado se deve traduzir numa forma breve e intensa de revelação desse mesmo mundo.
Em As Asas da Libelinha, Hercília Agarez encontra no dia a dia múltiplos motivos para reflexão. Desde apontamentos sobre o mundo natural, os animais e o ser humano, a autora olha o que a rodeia, procurando, muitas vezes, dar leveza àquilo que quase sempre é incómodo — Gentes e cães/ revolvem lixo:/ irmãos de fome. Lado a lado, o leitor encontra poemas de crítica social — Inúteis, os reformados:/ lâmpadas fundidas/ nunca mais dão luz —, de cariz mais pessoal e emotivo — Partiste./ No quintal ficaram/ sonhos soterrados — e com um carácter mais reflexivo — Sorrisos abertos,/ corações fechados:/ hipocrisia. Lado a lado, encontram-se o literal e o alusivo, dialética que emblematiza a essência do discurso poético: das coisas parte-se para o metafórico, para o alargamento do sentido: Urtigas mordentes/ invadem culturas:/ estéril inveja.
Este último poema exemplifica, aliás, uma das características do haiku presente em muitos dos pequenos poemas deste livro: a oposição entre ideias, imagens, sentimentos ou emoções. Essa dialéctica visa provocar o estranhamento e, consequentemente, a surpresa: Trepo à árvore/ e apanho cerejas:/ outra vez menina. Ou seja, esta poesia atesta não só o primor com que o autor escolhe as palavras, como convida o leitor a completar o que por vezes é apenas sugerido. Acima de tudo, Hercília Agarez convida-nos a olhar de novo aquilo que nos é familiar e conhecido. Neste sentido, e próximos de uma visão fenomenológica, aquela que descreve os fenómenos conforme são dados à experiência imediata, estes poemas são o resultado de uma nova abordagem e uma nova visão a vivências que todos conhecemos e já experimentámos. 
Tal como as palavras de Vasco Graça Moura — Sou um mau aluno. / faço um exercício em casa,/ sem contar muito as sílabas —, a autora de As Asas da Libelinha, não contando muito as sílabas, e ancorada em autores portugueses que lhe são queridos, oferece ao leitor um exercício de aproximação à essência do haiku. Ou seja, nestes breves apontamentos poéticos encontramos um entendimento da vida humana como algo essencialmente frágil e lembrando que a solidão, o mistério e a inquietação habitam os dias e as noites de muitos de nós. Na minha opinião, o que de mais forte Hercília Agarez oferece no livro é dar ao leitor a possibilidade da redenção, ou seja, face à solidão, à hipocrisia, ao abandono, a possibilidade de se encontrar — na inocência da infância, no voo da borboleta branca, nas asas da libelinha — o mesmo destino das aves: o infinito. O mesmo é dizer, a autora convida o leitor a habitar um tempo que é o da poesia e que por isso não se deixa escravizar por Cronos, permitindo, antes, ver e ler a vida sob um (breve) rasgo de luz e claridade: Canta a cigarra/ um hino ao presente —/ lição de vida.

Isabel Alves

18 maio 2015

AMADEU FERREIRA, UM CIBO DE TRÁS-OS-MONTES

AMADEU FERREIRA, UM CIBO DE TRÁS-OS-MONTES

    Nunca percebi porque o branco não é a cor da morte, como a cinza ou o silêncio. Branca como uma folha por escrever. Branca como a geada e o gelo.

Fracisco Niebro, in Belheç Velhice




    Nasceu numa aldeia de nome eufónico, feito de sonoridades doces, melodiosas. Sendim. Um recanto de um Trás-os-Montes profundo onde nascem, vivem e morrem gentes conformadas com o isolamento e a dureza de vida, a subsistência conseguida com os magros favores de uma terra sempre a exigir muito suor, muitas costas vergadas, muito manejo de alfaias adjuvantes.
    Amadeu Ferreira tinha de ser poeta. Assim determinava o seu código genético. Que, em contrapartida, lhe reservava um percurso de vida com laivos de alpinismo. Não empurrou sem cessar uma pedra até ao cimo de uma montanha, como Sísifo, porque não desafiou nenhum deus. Ele seguiu o conselho de Miguel Torga.


            Recomeça...
Se puderes,
sem angústia
E sem pressa.

E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
  [...]
  "Sísifo" in ANTOLOGIA POÉTICA

    "Com os meus mestres, aprendi a humildade das coisas essenciais." Parece ter sido esse um dos lemas da sua vida. Ele seguiu à risca o conselho de Ricardo Reis - "põe tudo quanto és no mínimo que fazes". Só que, para ele tudo era mais essencial do que acidental - a própria vida, a família, os amigos, as causas defendidas, a escrita, o pensamento. Nele quase tudo era espírito, transcendência.
  Quando o "mal ruim" o surpreendeu, não "entregou os pontos". A sua mente fervilhava de projectos a meio do caminho. Urgia dá-los por terminados, deixá-los dar lugar a outros. Manteve o ânimo, a esperança, a tenacidade, a capacidade de resistir, a arte de iludir os amigos. Encarava equívocos sinais de recuperação como vitórias de mais fracos sobre mais fortes. Trabalhou, por vezes de madrugada, até ao limite imposto pela corrosão de corpo e de espírito.
    Manteve o seu sorriso emboinado mesmo quando eram evidentes os sinais dos tratamentos. Engordou, perdeu cabelo, deformou-se-lhe o rosto esguio donde sobressaia aquele bigodinho de estimação. Nem por isso se escondeu dentro das suas quatro paredes nem impediu que o fotografassem. Estava vivo, embora pressentisse que seria poupado a uma velhice muito temida:

se o vento te empurrar para o beco
da velhice, não tenhas medo:
basta que te respeites até ao fim.

tudo fazemos para esconder a morte
e ainda mais para esconder a velhice....

    Para trás e para longe ficaram o seminário, a construção civil, o emprego em adega corporativa, os estudos de Filosofia e de Letras, primeiro no Porto, depois em Lisboa. Aí acabou por fixar-se. Envolveu-se activamente na política e foi, de raspão, deputado pela UDP. Licenciou-se em Direito e trabalhou em publicidade. Publicou livros. Fez o mestrado, aventurou-se a um doutoramento que o destino não deixou completar. Foi presidente da Associação de Língua Mirandesa na qual tem escrito poesia, conto, histórias infantis, romance. Traduziu escritores latinos, os Lusíadas, os quatro evangelhos, Camões, Pessoa, até Asterix. Publicou milhares de textos em jornais regionais e nacionais e em blogues. No seu mirandês. Exerceu a docência como professor auxiliar convidado na Faculdade de Direito de Lisboa e chegou ao alto cargo de vice-presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários. De vice-presidente passou a presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes. Foi, desde 2004, Comendador da Ordem de Mérito da República Portuguesa. Gostou do ensino. A sua cultura permitiu-lhe ser competente em matérias como a Educação Musical, a Filosofia, o Latim e, como atrás se disse, o Direito. Deu cursos de mirandês: "l mirandés naciu-me i l portués fui ua cunquista" assume. 
    Com Ernesto Rodrigues organizou dois volumes da Antologia A Terra de Duas Línguas, de titulo inequívoco.  Por concluir ficou, hélas, o Dicionário de Mirandés-Pertués. Deve tê-lo levado atravessado na garganta como Torga o sétimo dia da criação do mundo.
    Chegou ao alto como partiu de baixo. Nunca se deslumbrou com o valor que cons- ensualmente lhe foi reconhecido – simples, despretensioso, afável, bom conversador.  Amadeu e Fracisco, duas faces da mesma moeda. O homem e o artista. A mesma simplicidade, a mesma generosidade.
    A lição de vida que nos quis dar foi exemplar e quase sobre-humana. Nunca esquecerei um telefonema que me fez para me dizer que estava melhor, que lhe telefonasse quando quisesse. As gargalhadas tão características não tinham perdido sonoridade. E o ritmo de trabalho, esse, a alegria dos seus dias, só afrouxou quando as faculdades mentais se foram dele despedindo, cobardemente, injustamente.
   Gostava de o ver com a sua boina basca que sabia quando e onde usar. Era ela um  cibo da ruralidade e modéstia de alguém para quem o ninho térreo e a infância pobre foram sempre assumidos como um privilégio - o de ter nascido numa região onde o boi barrosão é adorado como um deus, onde as portas das casas estão sempre abertas, onde, no seu tempo de menino descalço, ainda se  cozia o pão no forno do povo, se representava o Auto da Paixão, as vezeiras obedeciam a qualquer guardador, reinava, enfim, o espírito comunitário.
    Em 2014 foi publicado Norteando, um álbum que é uma obra de artes. Um fotógrafo, Luís Borges, poetizou a natureza nordestina com a sua objectiva: os espaços, as gentes, os bichos. Amadeu "legendou" as imagens numa prosa poética, bem ao seu estilo. Aproveitou para regressar ao seu tempo e ao seu espaço de um passado sempre presente. A propósito da assunção da modéstia das suas origens, escreve em "O voo erótico da madressilva":
     Um dia, teria eu quatro ou cinco anos, a minha mãe trouxe do campo um raminho
de madressilvas que colocou dentro de um copo de esmalte no seu humilde louceiro da cozinha de telha vã: o aroma  possuiu-me  de tal maneira que a madressilva entrou dento de mim para sempre; agora, quando a quero ver, começo por fechar os olhos e chamo o seu odor até que me deixe quase em transe, qual pitonisa em Delfos: é essa a altura de abrir de novo os olhos e seguir a imagem como um sonho erótico: voa leve sobre a parede com os seus falos ao rubro e, à medida que avança, vai explodindo num branco fogo-de-artifício, amarelo depois, com os seus tontos espermatozóides a fecundar o ar com o seu aroma: nada volta a ser igual depois de uma madressilva ter entrado dentro de ti, que até as pedras se esfumam e perde brilho o azul do céu. 
    Amadeu era um homem múltiplo que, à imagem de Fernando Pessoa, teve de se desdobrar em pseudónimos, cada um dos quais correspondente a um tipo de registo literário. Amadeu foi o nome do cidadão multifacetado e multi-dotado e também do artista que o adoptou em Tempo de Fogo, uma estreia tardia na ficção, narrativa de cariz histórico cuja acção decorre em finais do século XVII e que, segundo Teresa Martins Marques, é "um romance de matriz realista e de valores intemporais, ancorado na memória...."
   Guardou Fracisco Niebro essencialmente para a poesia, de que é de destacar a obra publicada em 2012 e intitulada Ars Vivendi Ars Moriendi, um testemunho apaixonante do sentir e do pensar de um homem sensível  e saudoso do seu aconchego afectivo que quase desconhece:

agora, na rua, já só mora uma pessoa
e as casas encostam-se de arrimo entre si.

    Apesar disso a sua matriz sendinense não se lhe descola da pele, não quer, nem pode, escorraçá-la do pensamento:

tocou o sino,
fui num voo à minha terra:
a raiz não voa.

no tear das nuvens,
fios de água tecem o planalto:
tempestade ao longe.

   E também para o conto infantil,  para as traduções. O mirandês foi a sua língua de casa, de família, de amigos miúdos e crescidos. Pela sua preservação e ensino lutou como ninguém, insistindo, sugerindo, movendo influências, andando de terra em terra a evidenciar a importância daquele património imaterial que enriquece o desertificado nordeste transmontano subvalorizado pelos poderes centrais. Se hoje em dia as crianças aprendem nas escolas a língua dos seus avós, esse  é o resultado da sua luta sem desfalecimentos.
    Com outros nomes escreveu e traduziu outras obras. Ele foi Marcus Miranda, ele foi Fonso Roixo. 
    Por escassos dias, não assistiu à sua última publicação: Belleç/Vellice - notável e poético hino ao quotidiano da ruralidade nordestina em meados do século passado -  mas ainda pôde  empunhar outros dos seus trabalhos de paciência cenobítica - Ditos Dezideiros, recolha de provérbios mirandeses com 5.000 entradas e Lhéngua Mirandesa Manifesto em forma de hino. Quantas terão ficado, completas ou incompletas, à espera de uma Âncora  que os  liberte da lei do esquecimento.
   A sua vida dava vários romances, que o digam o realizador e amigo Leonel Brito que gravou mais de trinta horas do seu desfiar de memórias e Teresa Martins Marques que cedo tomou consciência da necessidade de lhe fixar o acidentado e rico percurso numa espécie de biografa, resultante de incontáveis conversas cúmplices em que o narrador se desnuda sem complexos, antes com orgulho de ter saído donde saiu e ter chegado onde chegou. O Fio das Lembrança, da escritora citada, contém uma primeira parte de cariz biográfico e uma segunda onde teve o trabalho incansável e meritório de recolher depoimentos de amigos e textos ensaísticos sobre a sua obra.
     Deixo-vos um conselho do Amadeu em forma de haikai, fácil de fixar. Ele há-de gostar de ser lembrado sem lágrimas:

não coes o sorriso,
    deixa-o sentir em bruto:
peneirada basta a farinha.

Nota 1: todos os poemas apresentados pertencem a Ars Vivendi Ars Moriendi, Âncora Editora, 2012.    
Nota 2: texto publicado na revista ALDRABA de Abril de 2015.

M. Hercília Agarez, Março de 2014