24 junho 2015

Academia de letras de Trás-os-Montes

 Introdução

Breve síntese do caminho percorrido


A Academia de Letras de Trás-os-Montes teve registo de nascimento em 12 de Junho de 2010, com domicílio na Sede do Centro Cultural Municipal Adriano Moreira, cidade de Bragança. É agora uma robusta criança com cinco anos de idade.
Tem múltiplos, bons e dedicados padrinhos que a acarinharam desde a primeira hora.
Amadeu Ferreira, saudoso amigo e Presidente da Comissão Instaladora justificou assim a iniciativa na sessão que oficializou o nascimento da Academia: «é uma forma de reafirmar as identidades que temos que são, no fundo, a nossa salvação». Por sua vez, Adriano Moreira salientou a propósito que «nos momentos de crise o recurso às identidades aparece como fundamental». Por isso, «esta academia inscreve-se na consciência de que esse é o facto». «O que está em crise na Europa e em Portugal é o Estado e não a identidade. E são as identidades que precisam de ser defendidas porque são a pedra de base para a reorganização de que precisamos».
Por outro lado, os documentos escritos são suportes visíveis que explicam o abstrato, enquanto a palavra escrita tende a inspirar um sentimento apreciado.
Ficam assim claros como a água, os princípios inspiradores que guiaram e hão-de continuar a iluminar o nosso caminho.
 A AcadeMia de Letras de Trás-os-Montes ficou sediada em Bragança, atendendo a que foi «a autarquia, na pessoa do seu presidente, Jorge Nunes, a viabilizar a concretização da ideia e a dar o mote», tendo como significativo, o imediato apoio e a participação ativa de três dezenas de escritores transmontanos.

 Embora sediada em Bragança, ficou desde logo explícita a intenção de acolher todos escritores de Trás-os-Montes ou sobre temática ligada à região. É a segunda do género, inscrita na Academia de Ciências de Lisboa.
Ao cumprir as primeiras e decisivas cinco primaveras de vida acolhe já a participação de 110 escritores e um naipe considerável de sócios honorários.

Triénio 2010 -2013

 A Instituição entrou em funcionamento regular em 5 de Outubro de 2010, uma vez constituídos os primeiros corpos gerentes.
Adriano Moreira foi eleito Presidente Honorário da Academia.
Os restantes órgãos ficaram assim estabelecidos:

Assembleia Geral  

António M. Pires Cabral

Fernando Calado

Maria da Assunção Anes Morais

Direção

Ernesto Rodrigues

Fernando de Castro Branco

Amadeu Ferreira

Manuel Cardoso

Maria Hercília Agarez


Conselho Fiscal


Rogério Rodrigues

Idalina Brito

Alfredo Cameirão

No decorrer da sua vigência, entre 5 de Outubro de 2010 e 14 de Setembro de 2013, merecem especial destaque as acções seguintes:

-      Publicação e/ou organização de duas antologias de autores transmontanos, sob o título “TERRA DE DUAS LÌNGUAS”;

-      Participação como patrocinadora da Obra Completa do Padre António Vieira, formada por 30 volumes e milhares de exemplares distribuídos pelo mundo luso falante;

-      Lançamento de alguns volumes da Bibliografia do Distrito de Bragança, da antologia de homenagem a Pires Cabral nos seus 70 anos, da celebração dos cem anos de Raul Rego (em parceria com o Grémio Literário Vilarealense);

-      Início e prosseguimento das entrevistas mensais na Rádio Brigantia;

-      Sessões individualizadas de apreço a Bento da Cruz e a Barroso da Fonte (este nos seus 60 anos de vida jornalístico-literária);

-      Exposição biblio-iconográfica da Embaixada da Hungria;

-      Pedido de realização de nove documentários em vídeo sobre nove escritores transmontanos associados, solicitados a Leonel de Brito, trabalho que foi concretizado no decorrer do segundo mandato;

      -   Organização do catálogo de livros da Biblioteca;

      -   Organização e participação em três feiras do livro realizadas em Bragança.


Triénio 2013-2016

Buscando a partilha de esforços de forma mais equitativa entre geografias, os novos corpos sociais reforçaram ligeiramente a presença de Vila Real. Amadeu Ferreira, na qualidade de Presidente da Direção, pugnou pela realização de reuniões descentralizadas e um melhor conhecimento «do que uns e outros fazemos». É esse o caminho que os atuais corpos gerentes vão prosseguir e aprofundar.
Por má fortuna, Amadeu Ferreira não pode pôr em prática muitos dos seus propósitos relativos à recuperação dos valores identificadores da nossa cultura, à reassunção da memória e à autoestima, como condição prévia para sustentar uma participação condigna no palco das comunidades que constituem a diversidade das entidades nacional, lusófona, europeia e global do presente e do mundo novo que bate à porta.
Nestes aspectos há um longo caminho a percorrer, a começar pelo interior de cada um de nós, com vista a uma tomada de consciência entre o que fomos e o que somos, ameaças e oportunidades enquanto povo e sua matriz cultural. Não há lugar nem tempo para adiar opções que se revelam cada vez mais de difícil concretização, num contexto de acelerada mudança do tecido social.
Devido à enfermidade prolongada que atingiu cruelmente o nosso ilustre e devotado Presidente e amigo, umbilicalmente ligado à cultura transmontana e ao ressurgimento da língua Mirandesa, o mandato perdeu a estabilidade e a tranquilidade necessárias à prossecução dos objectivos fixados. Obrigou mesmo a uma cooptação forçada e à realização de novas eleições que tiveram lugar no pretérito dia 6 de Junho. Os atuais Corpos Gerentes eleitos ficaram assim formados:

Assembleia Geral

António Manuel Monteiro

Maria da Assunção Anes Morais

João Cabrita

Direção

António Chaves

José Mário Leite

Maria Idalina Alves de Brito

Carlos do Nascimento ferreira

António Pimenta de Castro


Conselho Fiscal

João Barroso da Fonte

José Fernando Rua de Castro

Cláudio Amílcar Carneiro

Com as seguintes linhas gerais de orientação:
Na sua constituição houve como primeira preocupação estabelecer pontes de contato com outras agremiações transmontanas da mesma natureza, de modo a reforçar o impacto das ações e melhor coordenar os calendários das iniciativas concernentes a cada associação. Reconhecemos as fragilidades com que lidamos para não nos darmos ao luxo de espartilhar esforços com iniciativas frequentemente sobrepostas. Assim, António Manuel Monteiro, Presidente da Assembleia Geral, é simultaneamente Grão-Mestre da Confraria dos Enófilos e Gastrónomos de Trás-os-Montes e Alto Douro; Carlos Ferreira, membro da Direção da ALTM, é o Presidente da Associação da Lengua e Cultura Mirandesa; João Barroso da Fonte, Presidente do Conselho Fiscal, é além de autor e jornalista dedicado às causas transmontanas, Diretor do jornal POETAS E TROVADORES onde irão ter amplo acolhimento e divulgação as iniciativas da Academia, dirigidas a um auditório específico e singular; José Fernando Rua de Castro é Presidente, fundador e timoneiro do Forum Galaico Transmontano, com enraizada implantação na Galiza e em Trás-os-Montes.

*
Uma breve análise das ameaças e oportunidades
 A observação da evolução dos dados referentes à região leva-nos a constatar, com inquietação, que a população transmontana está a diminuir drasticamente e a envelhecer, seguindo uma tendência de muito difícil reversão. Essa marca está a ser igualmente observada no interior da Academia, que no final do presente mandato, na ausência de medidas corretoras, os seus membros vão atingir uma média de 68 anos de idade. É por isso importante estimular a captação de elementos das gerações mais jovens para a sua adesão ao universo da escrita, como reforço da trave mestra que sustenta a constância do mundo imaterial e material das nossas comunidades, sem o que corremos o risco, a breve prazo, de deixarmos de saber o que fomos, o que somos e o que representamos no palco das identidades territoriais da Europa e do Mundo.

Precisamos de dar mais atenção à relevância deste fenómeno e de criar repostas adequadas a partir de uma mobilização colectiva multigeracional, propiciando um debate de ideias de como revigorar os traços de identidade que nos permitem continuar como comunidade, por direito próprio, na nova arquitectura territorial das regiões da Comunidade Europeia e do mundo da lusofonia. A fragilidade económica e social acentua a perda de valores e a diminuição da confiança básica no seio das comunidades locais: «Uma cultura é o conjunto partilhado de valores, crenças, atitudes, pressupostos, interpretações, hábitos, costumes, práticas, conhecimentos e comportamentos de uma comunidade que relembra um icebergue: Valores, crenças e interpretações são invisíveis, situadas abaixo da linha de água, enquanto os costumes, práticas e comportamentos são atributos visíveis, acima da tona de água». Os valores nucleares fundeiam no oceano invisível. As culturas fortes têm muitas vantagens, mas uma cultura forte também pode adoecer. A partir de meados do século XX, Trás-os-Montes converteu-se gradualmente numa região repulsiva, marcada por uma perda sistemática de população.
«Uma comunidade que não identifica os pontos nevrálgicos dos seus dramas, porque teme as conclusões, não conseguirá sair do retrocesso histórico e está a adiar e a agigantar conflitos inevitáveis».
Chegar junto das gerações mais novas, fornecer-lhes algo mais que a simples transmissão de conhecimentos é uma tarefa primordial e inadiável, no nosso entender, para garantir a preservação das identidades.
*
São “ideias chave” do presente mandato:
-Dar prioridade à entrada de novos membros, de acordo com as normas constantes dos Estatutos. Estabelecemos, para os próximos três anos, o objetivo inscrever 50 novos associados;
-Realização de conferências, seminários e Workshops para despertar novas vocações para a escrita, divulgando métodos pedagógicos direccionados a escolas e professores do ensino de português e cidadãos interessados em suplantar as barreiras naturais que nos afastam do nosso ser criativo.
- Descentralizar gradualmente as iniciativas e proporcionar um melhor conhecimento mútuo entre os membros da Academia, «do que uns e outros fazemos», dando assim continuidade ao pensamento de Amadeu Ferreira. Desejamos incentivar a formação de grupos de trabalho de base local e regional e privilegiar a comunicação em rede, na vez de uma estrutura hierarquizada, onde «uns mandam e os outros obedecem».
-Vai ser retomado o programa do registo em vídeo dos testemunhos de vida e perfil literário e humano de um novo grupo de escritores, estudando, ao mesmo tempo, novas formas consensuais de partilha da informação.
A calendarização concreta destas iniciativas está dependente, em boa medida, da constituição de novos recursos, uma vez que os valores actuais em depósitos estão praticamente comprometidos, a curto prazo, face a responsabilidades anteriormente assumidas.
Pelas mesmas razões, esperamos a colaboração efetiva de todos, quanto ao pagamento atempado das respetivas quotas, porquanto, como é sabido, só é possível gerir meios e, sem eles, a concretização dos objectivos fica comprometida. Acreditamos no contributo consciente e fraterno de todos. Esperamos também ter condições para, em breve, podermos calendarizar as ações operacionais concretas.
Entretanto vamos organizar os registos e formas de comunicação que facilitem um melhor conhecimento «uns dos outros» e prometemos voltar, em breve ao contacto.

Saudações fraternas,

António Chaves

Presidente da Direção

2015/06/22

Anexos:
Sócios outorgantes da escritura de constituição: Adriano Moreira, Amadeu Ferreira, António Afonso, Regina Gouveia, Barroso da Fonte, Manuel Cardoso, César Afonso, Ernesto Rodrigues, Alfredo Cameirão, Pires Cabral, Virgílio do Vale. Rogério Rodrigues. António Mourinho, José Castro Branco, José Baptista e Sá, Isaac Barreira, Modesto Navarro e Cláudio Carneiro.
Sócios honorários: Adriano Moreira, António Baptista Lopes, Bento da Cruz, Eduarda Chiotte, Hirondino Paixão Fernandes, Jorge Nunes, José Rentes de Carvalho Leonel de Brito, Luísa Dacosta, Nuno Canavez e Teresa Martins Marques.

Endereço Postal

Academia de Letras de Trás-os-Montes

Centro Cultural Municipal Adriano Moreira

Praça Camões

5300-104 Bragança – Tel. 273 300 850

(atende por norma José Pedro dos Santos, funcionário destacado)

Elementos identificadores da Academia:

Número de Identificação de Pessoa coletiva: 509 669 131

Entidade Bancária: Caixa Geral de Depósitos

Nº de Conta: 0417023749430

NIB: 0035 0417 0002 3749 4303 5

IBAN: PT5000 35041 7000 2374 9430 35

CGDIPTPL


Endereços eletrónicos:



 
 
 


16 junho 2015

FESTIVAL LITERÁRIO DE BRAGANÇA - Poema de Manuel Amendoeira

 Fui a um festival de prosa e de poesia
Na minha querida cidade de Bragança
Recebi esse convite com tanta alegria
Que fu lá falar da vida e da esperança.

Escutei os vários prosadores e poetas
Que tinham tendências tão diferentes
Mas tudo era uma oração sem pressas
Mesmo bordejando ali várias correntes…

Os nossos queridos irmãos Brasileiros
Chegaram de braços e coração abertos
Traziam no seu rosto estampados enleios
Que mereceram todos os nossos afetos.

A linda imagem de marca era a bonomia
Timbre dum povo maravilhoso, acolhedor
Que só nos trouxe sentimentos de alegria
Que é apanágio em quem pratica o amor.
              
Serão bem-vindos sempre meus irmãos
À nossa acolhedora cidade de Bragança
Porque se os dois países derem as mãos
Cimentaremos mais a nossa esperança…

Então, para que esta experiência tão linda
Possa perdurar sempre nas nossas vidas
Iremos esperar anualmente a vossa vinda
Sem medo, sem receio, sem contrapartidas.

02 junho 2015

Festival Literário de Bragança

Nos próximos dias 4, 5 e 6 de junho vai ter lugar em Bragança o Festival Literário, este ano no evento vão estar representados três autores da Lema d'Origem que são Hercília Agarez, João Cabrita e António Sá Gué.

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25 maio 2015

As Asas da Libelinha, por Hercília Agarez













Prefácio
As Asas da Libelinha: breves pinceladas de luz sobre o quotidiano

Não chegue o dia/ em que eu pense/ não ter nada para aprender, diz-nos Hercília Agarez num dos pequenos poemas que compõem este livro. Como o leitor rapidamente perceberá, embora breves, estas estrofes alojam dentro de si uma larga sabedoria. Por vezes, fazem-nos sorrir, outras vezes reflectir, apresentando-se sempre como guias de um olhar minucioso e atento do mundo que nos rodeia.
Hercília Agarez, com obra publicada no domínio da ficção e do ensaio, escolheu, desta vez, oferecer aos seus leitores uma experiência no campo da poesia. Num registo que vai do poético ao humorístico, neste livro desfilam poemas curtos que, a partir de uma observação directa, e segundo contextos e vivências diversas, abordam essencialmente aspectos do quotidiano. 
A brevidade e a forma dos poemas aproxima-os do haiku, uma estrutura poética que tem a sua origem no Japão, país onde conta com muitos admiradores e praticantes. Os haiku são compostos por 17 sílabas métricas, dispostas em três versos de cinco-sete-cinco sílabas, e têm como tema aspectos da vida quotidiana do Japão, emoldurados pelas estações do ano. O âmago destes poemas é de o fazer crescer uma imagem e ecoar um pensamento num número mínimo de palavras. O efeito das palavras sobre o leitor deve ter a força do trovão e iluminar como a luz do raio. Brevidade e intensidade são, pois, palavras próximas deste tipo de poesia.
Em Portugal, esta forma de labor poético conhece já alguns admiradores e tem já disponivéis algumas obras publicadas. Foram, aliás, alguns desses autores que ajudaram a perceber a complexa mecânica poética do haiku. Ajudaram, também, a perceber que, de qualquer modo, mesmo se não completamente fiéis à métrica original, o que se vai publicando no nosso país tem como objectivo aproximar-se do espírito do haiku. O mais relevante, referem, é ser uma poesia fiel aos cinco sentidos e à observação das coisas que povoam o mundo, sendo que o resultado se deve traduzir numa forma breve e intensa de revelação desse mesmo mundo.
Em As Asas da Libelinha, Hercília Agarez encontra no dia a dia múltiplos motivos para reflexão. Desde apontamentos sobre o mundo natural, os animais e o ser humano, a autora olha o que a rodeia, procurando, muitas vezes, dar leveza àquilo que quase sempre é incómodo — Gentes e cães/ revolvem lixo:/ irmãos de fome. Lado a lado, o leitor encontra poemas de crítica social — Inúteis, os reformados:/ lâmpadas fundidas/ nunca mais dão luz —, de cariz mais pessoal e emotivo — Partiste./ No quintal ficaram/ sonhos soterrados — e com um carácter mais reflexivo — Sorrisos abertos,/ corações fechados:/ hipocrisia. Lado a lado, encontram-se o literal e o alusivo, dialética que emblematiza a essência do discurso poético: das coisas parte-se para o metafórico, para o alargamento do sentido: Urtigas mordentes/ invadem culturas:/ estéril inveja.
Este último poema exemplifica, aliás, uma das características do haiku presente em muitos dos pequenos poemas deste livro: a oposição entre ideias, imagens, sentimentos ou emoções. Essa dialéctica visa provocar o estranhamento e, consequentemente, a surpresa: Trepo à árvore/ e apanho cerejas:/ outra vez menina. Ou seja, esta poesia atesta não só o primor com que o autor escolhe as palavras, como convida o leitor a completar o que por vezes é apenas sugerido. Acima de tudo, Hercília Agarez convida-nos a olhar de novo aquilo que nos é familiar e conhecido. Neste sentido, e próximos de uma visão fenomenológica, aquela que descreve os fenómenos conforme são dados à experiência imediata, estes poemas são o resultado de uma nova abordagem e uma nova visão a vivências que todos conhecemos e já experimentámos. 
Tal como as palavras de Vasco Graça Moura — Sou um mau aluno. / faço um exercício em casa,/ sem contar muito as sílabas —, a autora de As Asas da Libelinha, não contando muito as sílabas, e ancorada em autores portugueses que lhe são queridos, oferece ao leitor um exercício de aproximação à essência do haiku. Ou seja, nestes breves apontamentos poéticos encontramos um entendimento da vida humana como algo essencialmente frágil e lembrando que a solidão, o mistério e a inquietação habitam os dias e as noites de muitos de nós. Na minha opinião, o que de mais forte Hercília Agarez oferece no livro é dar ao leitor a possibilidade da redenção, ou seja, face à solidão, à hipocrisia, ao abandono, a possibilidade de se encontrar — na inocência da infância, no voo da borboleta branca, nas asas da libelinha — o mesmo destino das aves: o infinito. O mesmo é dizer, a autora convida o leitor a habitar um tempo que é o da poesia e que por isso não se deixa escravizar por Cronos, permitindo, antes, ver e ler a vida sob um (breve) rasgo de luz e claridade: Canta a cigarra/ um hino ao presente —/ lição de vida.

Isabel Alves

18 maio 2015

AMADEU FERREIRA, UM CIBO DE TRÁS-OS-MONTES

AMADEU FERREIRA, UM CIBO DE TRÁS-OS-MONTES

    Nunca percebi porque o branco não é a cor da morte, como a cinza ou o silêncio. Branca como uma folha por escrever. Branca como a geada e o gelo.

Fracisco Niebro, in Belheç Velhice




    Nasceu numa aldeia de nome eufónico, feito de sonoridades doces, melodiosas. Sendim. Um recanto de um Trás-os-Montes profundo onde nascem, vivem e morrem gentes conformadas com o isolamento e a dureza de vida, a subsistência conseguida com os magros favores de uma terra sempre a exigir muito suor, muitas costas vergadas, muito manejo de alfaias adjuvantes.
    Amadeu Ferreira tinha de ser poeta. Assim determinava o seu código genético. Que, em contrapartida, lhe reservava um percurso de vida com laivos de alpinismo. Não empurrou sem cessar uma pedra até ao cimo de uma montanha, como Sísifo, porque não desafiou nenhum deus. Ele seguiu o conselho de Miguel Torga.


            Recomeça...
Se puderes,
sem angústia
E sem pressa.

E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
  [...]
  "Sísifo" in ANTOLOGIA POÉTICA

    "Com os meus mestres, aprendi a humildade das coisas essenciais." Parece ter sido esse um dos lemas da sua vida. Ele seguiu à risca o conselho de Ricardo Reis - "põe tudo quanto és no mínimo que fazes". Só que, para ele tudo era mais essencial do que acidental - a própria vida, a família, os amigos, as causas defendidas, a escrita, o pensamento. Nele quase tudo era espírito, transcendência.
  Quando o "mal ruim" o surpreendeu, não "entregou os pontos". A sua mente fervilhava de projectos a meio do caminho. Urgia dá-los por terminados, deixá-los dar lugar a outros. Manteve o ânimo, a esperança, a tenacidade, a capacidade de resistir, a arte de iludir os amigos. Encarava equívocos sinais de recuperação como vitórias de mais fracos sobre mais fortes. Trabalhou, por vezes de madrugada, até ao limite imposto pela corrosão de corpo e de espírito.
    Manteve o seu sorriso emboinado mesmo quando eram evidentes os sinais dos tratamentos. Engordou, perdeu cabelo, deformou-se-lhe o rosto esguio donde sobressaia aquele bigodinho de estimação. Nem por isso se escondeu dentro das suas quatro paredes nem impediu que o fotografassem. Estava vivo, embora pressentisse que seria poupado a uma velhice muito temida:

se o vento te empurrar para o beco
da velhice, não tenhas medo:
basta que te respeites até ao fim.

tudo fazemos para esconder a morte
e ainda mais para esconder a velhice....

    Para trás e para longe ficaram o seminário, a construção civil, o emprego em adega corporativa, os estudos de Filosofia e de Letras, primeiro no Porto, depois em Lisboa. Aí acabou por fixar-se. Envolveu-se activamente na política e foi, de raspão, deputado pela UDP. Licenciou-se em Direito e trabalhou em publicidade. Publicou livros. Fez o mestrado, aventurou-se a um doutoramento que o destino não deixou completar. Foi presidente da Associação de Língua Mirandesa na qual tem escrito poesia, conto, histórias infantis, romance. Traduziu escritores latinos, os Lusíadas, os quatro evangelhos, Camões, Pessoa, até Asterix. Publicou milhares de textos em jornais regionais e nacionais e em blogues. No seu mirandês. Exerceu a docência como professor auxiliar convidado na Faculdade de Direito de Lisboa e chegou ao alto cargo de vice-presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários. De vice-presidente passou a presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes. Foi, desde 2004, Comendador da Ordem de Mérito da República Portuguesa. Gostou do ensino. A sua cultura permitiu-lhe ser competente em matérias como a Educação Musical, a Filosofia, o Latim e, como atrás se disse, o Direito. Deu cursos de mirandês: "l mirandés naciu-me i l portués fui ua cunquista" assume. 
    Com Ernesto Rodrigues organizou dois volumes da Antologia A Terra de Duas Línguas, de titulo inequívoco.  Por concluir ficou, hélas, o Dicionário de Mirandés-Pertués. Deve tê-lo levado atravessado na garganta como Torga o sétimo dia da criação do mundo.
    Chegou ao alto como partiu de baixo. Nunca se deslumbrou com o valor que cons- ensualmente lhe foi reconhecido – simples, despretensioso, afável, bom conversador.  Amadeu e Fracisco, duas faces da mesma moeda. O homem e o artista. A mesma simplicidade, a mesma generosidade.
    A lição de vida que nos quis dar foi exemplar e quase sobre-humana. Nunca esquecerei um telefonema que me fez para me dizer que estava melhor, que lhe telefonasse quando quisesse. As gargalhadas tão características não tinham perdido sonoridade. E o ritmo de trabalho, esse, a alegria dos seus dias, só afrouxou quando as faculdades mentais se foram dele despedindo, cobardemente, injustamente.
   Gostava de o ver com a sua boina basca que sabia quando e onde usar. Era ela um  cibo da ruralidade e modéstia de alguém para quem o ninho térreo e a infância pobre foram sempre assumidos como um privilégio - o de ter nascido numa região onde o boi barrosão é adorado como um deus, onde as portas das casas estão sempre abertas, onde, no seu tempo de menino descalço, ainda se  cozia o pão no forno do povo, se representava o Auto da Paixão, as vezeiras obedeciam a qualquer guardador, reinava, enfim, o espírito comunitário.
    Em 2014 foi publicado Norteando, um álbum que é uma obra de artes. Um fotógrafo, Luís Borges, poetizou a natureza nordestina com a sua objectiva: os espaços, as gentes, os bichos. Amadeu "legendou" as imagens numa prosa poética, bem ao seu estilo. Aproveitou para regressar ao seu tempo e ao seu espaço de um passado sempre presente. A propósito da assunção da modéstia das suas origens, escreve em "O voo erótico da madressilva":
     Um dia, teria eu quatro ou cinco anos, a minha mãe trouxe do campo um raminho
de madressilvas que colocou dentro de um copo de esmalte no seu humilde louceiro da cozinha de telha vã: o aroma  possuiu-me  de tal maneira que a madressilva entrou dento de mim para sempre; agora, quando a quero ver, começo por fechar os olhos e chamo o seu odor até que me deixe quase em transe, qual pitonisa em Delfos: é essa a altura de abrir de novo os olhos e seguir a imagem como um sonho erótico: voa leve sobre a parede com os seus falos ao rubro e, à medida que avança, vai explodindo num branco fogo-de-artifício, amarelo depois, com os seus tontos espermatozóides a fecundar o ar com o seu aroma: nada volta a ser igual depois de uma madressilva ter entrado dentro de ti, que até as pedras se esfumam e perde brilho o azul do céu. 
    Amadeu era um homem múltiplo que, à imagem de Fernando Pessoa, teve de se desdobrar em pseudónimos, cada um dos quais correspondente a um tipo de registo literário. Amadeu foi o nome do cidadão multifacetado e multi-dotado e também do artista que o adoptou em Tempo de Fogo, uma estreia tardia na ficção, narrativa de cariz histórico cuja acção decorre em finais do século XVII e que, segundo Teresa Martins Marques, é "um romance de matriz realista e de valores intemporais, ancorado na memória...."
   Guardou Fracisco Niebro essencialmente para a poesia, de que é de destacar a obra publicada em 2012 e intitulada Ars Vivendi Ars Moriendi, um testemunho apaixonante do sentir e do pensar de um homem sensível  e saudoso do seu aconchego afectivo que quase desconhece:

agora, na rua, já só mora uma pessoa
e as casas encostam-se de arrimo entre si.

    Apesar disso a sua matriz sendinense não se lhe descola da pele, não quer, nem pode, escorraçá-la do pensamento:

tocou o sino,
fui num voo à minha terra:
a raiz não voa.

no tear das nuvens,
fios de água tecem o planalto:
tempestade ao longe.

   E também para o conto infantil,  para as traduções. O mirandês foi a sua língua de casa, de família, de amigos miúdos e crescidos. Pela sua preservação e ensino lutou como ninguém, insistindo, sugerindo, movendo influências, andando de terra em terra a evidenciar a importância daquele património imaterial que enriquece o desertificado nordeste transmontano subvalorizado pelos poderes centrais. Se hoje em dia as crianças aprendem nas escolas a língua dos seus avós, esse  é o resultado da sua luta sem desfalecimentos.
    Com outros nomes escreveu e traduziu outras obras. Ele foi Marcus Miranda, ele foi Fonso Roixo. 
    Por escassos dias, não assistiu à sua última publicação: Belleç/Vellice - notável e poético hino ao quotidiano da ruralidade nordestina em meados do século passado -  mas ainda pôde  empunhar outros dos seus trabalhos de paciência cenobítica - Ditos Dezideiros, recolha de provérbios mirandeses com 5.000 entradas e Lhéngua Mirandesa Manifesto em forma de hino. Quantas terão ficado, completas ou incompletas, à espera de uma Âncora  que os  liberte da lei do esquecimento.
   A sua vida dava vários romances, que o digam o realizador e amigo Leonel Brito que gravou mais de trinta horas do seu desfiar de memórias e Teresa Martins Marques que cedo tomou consciência da necessidade de lhe fixar o acidentado e rico percurso numa espécie de biografa, resultante de incontáveis conversas cúmplices em que o narrador se desnuda sem complexos, antes com orgulho de ter saído donde saiu e ter chegado onde chegou. O Fio das Lembrança, da escritora citada, contém uma primeira parte de cariz biográfico e uma segunda onde teve o trabalho incansável e meritório de recolher depoimentos de amigos e textos ensaísticos sobre a sua obra.
     Deixo-vos um conselho do Amadeu em forma de haikai, fácil de fixar. Ele há-de gostar de ser lembrado sem lágrimas:

não coes o sorriso,
    deixa-o sentir em bruto:
peneirada basta a farinha.

Nota 1: todos os poemas apresentados pertencem a Ars Vivendi Ars Moriendi, Âncora Editora, 2012.    
Nota 2: texto publicado na revista ALDRABA de Abril de 2015.

M. Hercília Agarez, Março de 2014

11 maio 2015

ALFÂNDEGA DA FÉ - Apresentação da obra do escritor António Sá Gué, por Norberto Veiga

 A primeira obra publicada pelo escritor António Sá Gué foi “As duas Faces da Moeda” e pode ser encarada, de certa maneira, como a carta de apresentação do autor ao sues leitores, apesar de o escritor não se dirigir a eles, de forma explícita, como é prática corrente nas obras subsequentes.
O romance recupera dois temas que marcaram, de forma significativa, a vida do país e, em especial, a vida dos transmontanos. Num primeiro momento, o leitor vê-se confrontado com o ciclo da emigração clandestina para a Europa, ocorrida nos anos 60 do século passado, onde muitos transmontanos, para fugir à fome, à miséria e à pobreza da terra, empreenderam uma viagem, que foi uma autêntica odisseia, quando a travessia das fronteiras se fazia a pé, pela calada da noite, muitas vezes perdidos, orientando-se apenas pela sua vontade de triunfar na vida.
O segundo, mas não menos importante, refere-se à Guerra Colonial que assolou Portugal na década de sessenta do século XX. Para se cumprir a ordem de Salazar, “Para Angola e em força” muitos jovens, corroborando as palavras de Pessoa, perderam a vida, muitas noivas ficaram por casar e muitas mães jamais abraçaram os seus filhos. Cabe à personagem “Gaio” estabelecer a ligação entre as duas temáticas. Emigrante inadaptado acaba por regressar, comprar umas ovelhas e viver feliz, entre os montes e o céu, numa vida simples de pastor. Todavia, este sossego foi curto, uma vez que se viu obrigado a ir para a Guerra Colonial da qual regressará com muitas cicatrizes físicas e o cansaço da alma que o hão de atormentar o resto da vida.

13 abril 2015

Apresentação de “As divinas nádegas de Joana Ludovina” de Fernando Mascarenhas

A Intriga, desta novela, desenrola-se numa vila do Nordeste Transmontano, denominada Vilancete, região que Miguel Torga batizou de “Reino Maravilhoso” e local que nós hoje temos o privilégio de habitar. A obra relata as vivências e as peripécias do protagonista, José Bernardo, um engenheiro reformado que regressa da cidade para, pensava ele, desfrutar da sua reforma com placidez, esperançado no conforto e proteção da casa e propriedade familiar, que anos antes o vira nascer.
Mas como é frequente dizer-se, de boas intenções está o inferno cheio. E, sem contar, o protagonista vê-se envolvido em acontecimentos que o arrastam para outros locais. Por conseguinte, a ação é levada para outros espaços: Porto, Lisboa, Madrid, Brasil e Suíça, por onde o protagonista deambula com o intuito de ordenar o caos provocado pelas outras personagens que de uma ou de outra forma a ele se encontram ligados numa teia bem urdida que o narrador nos vai desvendando com mestria e concisão, prendendo, deste modo, o leitor ao texto.
A obra apresenta um número reduzido de personagens onde, salvo raras exceções, quem dita o devir da ação é a personagem feminina. Este facto traz à nossa memória as antigas sociedades matriarcais. Assim, no livro, é a mulher, ou melhor, pela mulher que o protagonista se bate, qual Dom Quixote sempre pronto a socorrer a sua Dulcineia e, por conseguinte, a repor a justiça ou a colocar em ordem o caos que se havia instalado.
Passo, sucintamente, a mencionar algumas das personagens pelo seu revelo. Desde logo, o amigo de infância, Alexandre Manuel, que desempenha as funções de confidente. De seguida, a neta do protagonista, Constança que, de certa forma, podemos considerar uma personagem tipo, visto que representa todas as mulheres que são vítimas de violência doméstica e que dificilmente se conseguem livrar das garras dos agressores sem a ajuda de terceiros. Abro aqui um parêntese para recordar, não sem mágoa e tristeza, que este flagelo está, infelizmente, a aumentar em Portugal, como constantemente vemos noticiado na comunicação social. Estou em crer que nem outra foi a intenção do autor, a não ser condenar, de forma veemente, este “crime” e levar o leitor a refletir na humilhação a que alguns seres humanos estão sujeitos. Por outro lado, Alexandre Manuel, em minha opinião, representa o amigo genuíno, sincero e o companheiro de todas as horas, sempre pronto a ouvir, a ajudar e a aconselhar José Bernardo. 
Fecho o parêntese, apresentado a personagem Dirce, uma brasileira, não cheia de encantos e deslumbres, mas antes pelo contrário plena de malícia e crueldade. Parece-me que, à semelhança de Constança, Dirce representa todas as mulheres oportunistas e sem escrúpulos que não olham a meios para atingirem os fins, mesmo que isso implique acabar com outro casamento e cometer, em desespero de causa, o próprio suicídio. Por último, apresento a personagem Joana Ludovina, que dá título à obra, e que por antonomásia representa todas as mulheres altruístas e filantropas que dão a sua vida e o melhor de si em prol dos outros, mais necessitados. Nesse sentido, esta personagem é mais quimérica do que real, sendo, também, aquela que apresenta uma maior densidade psicológica. Esta personagem, sobretudo no fim da narrativa, quando o leitor tem acesso à sua história de vida, faz-nos pensar que ainda é possível, neste mundo cruel e desumano, encontrar anjos da guarda que “abdicam” da sua vida para dar rumo e sentido à vida dos outros.
Para além das temáticas já mencionadas acima, também são afloradas na obra as seguintes: a emigração tanto a primeira leva provocada pela miséria e pela fome que grassavam em Portugal nas décadas de cinquenta e sessenta do século passado, representada no texto pela personagem Luciana, como pela emigração atual incentivada pela falta de emprego e oportunidades, empurrando os nossos melhores jovens para fora do país, situação que o autor relata de forma corrosiva. O tema da caça, associada ao passatempo, ao prazer e ao companheirismo, também se encontra patente na obra. Outra realidade que a obra atesta é a imigração de pessoas dos países de leste que encontram em Portugal e, mais concretamente, no Nordeste Transmontano, trabalho e acolhimento. Esta situação é documentada na obra pelo casal Vladimir e esposa. A derradeira temática, mas nem por isso menos relevante, que encontramos no final da narrativa, em jeito de remissão definitiva, está relacionada, ainda, com a Guerra Colonial, que deixou um património impalpável, mas perdurável de traumas e distúrbios de índole psíquica num grande número de soldados, como um vasto filão literário tem vindo a corroborar. Estes combatentes encontram-se personificados, nesta narrativa, pelo engenheiro e protagonista José Eduardo. 
Para além destes motivos de reflexão que, como vimos, a obra proporciona, o autor usa e abusa da ironia e do sarcasmo nas várias passagens do texto em que reflete sobre a dura situação económica e social que vem assolando Portugal. O autor chega ao ponto de nomear os agentes políticos responsáveis pela situação a que o país chegou. Estas personalidades, ironia do destino, continuam impunes e indiferentes ao sofrimento e à miséria da população, aumentando, este facto, a indignação do autor.
A obra é, ainda, enriquecida pelas referências literárias que convoca e sua pertinência, permitindo fazer inferências com o que está a ser narrado.
Concluo, asseverando que a leitura de “As Divinas Nádegas de Joana Ludovina”, de Fernando Mascarenhas, é aprazível e cativa, pelo tom coloquial, pelo vocabulário acessível e referencial, pelas temáticas escalpelizadas e pelo enredo, o leitor que facilmente se identifica com algumas das personagens do livro.

Norberto Veiga

03 abril 2015

Assembleia Geral - Convocatória



Nos termos legais (art.º 11, n.º 2, e art. 19.º dos Estatutos, e sem que a Direcção tenha recorrido ao art.º 14, n.º 3, seja, cooptação de elemento em falta, por morte do anterior presidente, Amadeu Ferreira), e por decisão da AG de 28 de Março, convocam-se os sócios da Academia de Letras de Trás-os-Montes para a Assembleia Geral Eleitoral, a realizar no dia 6 de Junho de 2015, pelas 10.30 horas, no Centro Cultural Municipal Adriano Moreira, em Bragança, com a seguinte ordem de trabalhos:

1.  Leitura da acta da reunião anterior.
2.  Apresentação de listas candidatas aos órgãos da ALTM [Presidente da AG e dois vogais; na Direcção, um presidente, um vice-presidente e três vogais; no Conselho Fiscal, um presidente e dois vogais].
3. Eleição por escrutínio secreto.

Se à hora marcada não houver quorum, a reunião realizar-se-á 30 minutos depois, com qualquer número de sócios presentes.

Observações:

1. As candidaturas são aceites até 26 de Maio, e logo publicitadas, de modo a facilitar o voto por correspondência (o sobrescrito com a indicação de voto deve ser colocado dentro de outro sobrescrito, a cujo nome de associado só o presidente da AG terá acesso).
2. É dever dos candidatos e eleitores que tenham as quotas em dia, incluindo a relativa a 2015 (art.º 7.º, alínea b, dos Estatutos).


Bragança, 30 de Março de 2015.

O Presidente da Assembleia Geral

Ernesto Rodrigues


Voto de pesar por Amadeu Ferreira - Assembleia Municipal da Amadora






01 abril 2015

Testemunho de Teresa Martins Marques

Teresa Martins Marques é uma incansável pesquisadora, com inúmeros títulos ensaísticos publicados, onde avultam abordagens sobre José Rodrigues Miguéis e David Mourão-Ferreira (o escritor a quem dedicou sua tese de Doutorado, depois de ter organizado seu imenso espólio).Em 2013, tornou-se romancista de sucesso com o livro A Mulher que Venceu Don Juan e recentemente lançou O Fio das Lembranças – Biografia de Amadeu Ferreira.


Fonte: http://www.lerjorgedesena.letras.ufrj.br/vida/novo-testemunho-de-teresa-martins-marques/

31 março 2015

Lendo Sá Gué

Para ti não faço versos,
Ares da minha serra
Lendo Sá Gué
Quem percorre a primavera através de um ramo de amendoeira florida sabe que a vida é frágil e conclui que essa fragilidade está em tudo o que desponta e se mostra. Ainda assim é conveniente tratar das coisas para que elas nos pareçam mais firmes porque mais conformes com o nosso destino ou pelo menos com um modo de estar que assenta em boa parte numa herança cultural que, assimilada lentamente, nos faz como somos, nos determina a essência. Educação, sim, mas devagar. Tudo volta ao mesmo quando somos confrontados com paisagens interiores que nos interpelam e de certa forma constituem um exterior, já que publicadas, vindas a lume na cidade. A terra e o seu apelo nascem todos os dias aos pés de quem foi criado em ambiente de aldeia e sabe que tem reserva natural nesses poisos ainda que deles fuja, ou melhor, veja os seus afastarem-se sabe-se lá porquê e ao certo em nome de quê. Voltar? Sim, mas como, se até a pedra tende a volver tranquibérnia, a par da velha e ainda sã oliveira tanta vez deslocada do seu lugar a fim de aí progredir o que é novo e assumindo outras qualidades?
Fechava-se em casa, evitava sair para o campo, pois era como que o matassem ver o moitedo da altura do plantio – antes preferia ver o diabo arrastar uma alma para o inferno. Tudo lhe passava pela cabeça. Tornava-se-lhe insuportável saber que os seus de nada queriam saber da terra. Se pudesse, voltaria atrás, gastaria tudo na taberna, e pronto, acabavam-se os problemas.
Assumida a linguagem composta de boas maneiras que se vão formando não sem que seja preciso persistência e sem fazer de nós e em definitivo sujeitos agarrados pelo jeito um tanto ultrapassado do idealista e sequaz convicto de ideologias canhestras, abertos a pontos interessantes ou que resultem de um peneirar a que a sociologia no seu geral não é estranha, podemos ter chegado a ponto de admitir a vinda de mensageiros que traziam informes de outros povos, que semelhavam Homero, a catalogar naus: os de Fornos diziam-se firmes como fragas, armados de fustes e hastes, homiziados em palheiros, e mantendo piquetes de atalaia noite e dia; os do Lagoaçal cavaram fossos, levantaram barricadas e, entrincheirados e de escopetas assestadas, estavam preparados para o que desse e viesse; os de Rós já contavam cinquenta peltastas de prol que, armados de chuços e lazarinas, acaudilhados por um sargento de infantaria reformado, prometiam antes quebrar que torcer; os do Souto, homiziados em valhacoutos de castanheiros, armados de estadulhos e virotes, dali não arredavam pé, sem apitar o comboio, nem que caísse o Carmo e a Trindade; os de Mós, de esculcas avançadas a espiar movimentos do inimigo, e de manganelas e trabucos assestados, eram capazes de atirar pedradas a mais de trezentas braças. Diziam-se a vanguarda daquela milícia popular e formidolosa.
De sossego a aflição, aflição a sossego, contemplando, de certo modo e antes que seja tudo bem diferente, amavios de bezerra parida, que escoucinha, escoucinha com medo de perder a cria, uma multiplicidade de hipóteses se nos apresenta, qual formigueiro multicolor como as penas de gaio, tornando-nos irrequietos como levandiscas, saltitantes como cabritos e ridentes como gralha, ainda que tenhamos percorrido bastas vezes um par de escadas curvadas que subiam ao primeiro piso como se fossem as hastes de um bigode decaído.
O para muitos incrível tempo do desinço dos meloais e dos melanciais e de outros mabiscos de sazão era compatível com o sair da procissão em que o Santo António vai à frente, depois o Santo Estêvão. Vistas assim as coisas, de modo alargado, ainda que balizadas por certa estreiteza, que mais dará, dar-lhe no toutiço ou no toutiço lhe dar? Em boa verdade, em terreiro aberto e barulhento quanto mais não seja devido à acção de uma senhora banda, não é fácil a concentração no principal, fazendo suspeitar se aquelas cândidas e sacras figuras rezavam orações ou ciciavam censuras. Certamente que o demo não andava por ali a atacar a figura da frente, a coalhar-se-lhe na ideia, atazanar-lhe a alma e tirar-lhe o juízo, não querendo semelhar fruta fendida, cujo paladar se vai deteriorando à medida que a eiva vai alastrando e a vai apodrecendo. Num contexto assim e um pouco lá para o meio se não mesmo bem na rectaguarda, a linha dos cinco clarinetes dir-se-ia uma galinha e respetivos pintainhos.
Houve tempos em que as fúrias do Áfrico se espelhavam desde o chão dando corpo a fantasmas que pareciam colonizar a sua alma, retirando corpo ao castanheiro de longas torcidas ao dependuro como se uma gaivota que tentava pousar no tejadilho assim improvisado se arvorasse a truanices de serão, qual guarda-freio que assistisse à composição a enveredar por uma linha colateral e marginal sem ter a certeza do que estava a fazer.
Chulipa na massa do calabre é que não deve ser, nem com o pé, até por que a passagem de nível com guarda, que ia atravessar, estava cortada pela manifestação e aí nem pé nem mão, enquanto algumas carruagens deambulavam por uma linha religiosa, talvez cega, talvez perdida, todos não pintainhos, todos muito quentinhos em redor da fornalha do comboio protector. Dão-se nomes, mas que importa? Aliás o nome geral é um nome em si, o senhor Sicrano, fundamentalmente renitente quando se põe a hipótese de atravessar as carruagens, subir à máquina, sim, ai daquele que não cumprisse os deveres para com o Comboio.
No mais ermo dos locais à superfície da terra não faltam formas de vida.
Onde se pensa que não há movimento, afinal tudo mexe.
Tira partido do veneno que o envolve.
Que nenhum livro fique por escrever. Sim, claro. Muitos impressionam pelo rigor, pela singeleza e todavia passam sem deixarem grandes marcas. Basta pensar em contra-ciclos que alberguem, paradoxalmente, o ramal do facilitismo e, por outro lado ou talvez não, o Novo-Rico da Silva.
Finalmente Karl Marx! Finalmente pão para todos!
É caso para escrever: “Abaixo a superabundância!”
Porque em tais ambientes o importante é camuflar a realidade. Fazer de conta, como as crianças.
Tudo isto se dá sem recurso visível a um grande mestre-de-cerimónias do Grande Circo Ocidental (…), sem palhaços, sem a ingenuidade das crianças, sem malabaristas nem trapezistas que arriscassem a vida, sem crenças num outro mundo. Só a jaula do homo pouco sapiens, encurralado e dominado por ele próprio, ocupava a pista. Ocupava e ocupa. Em boa parte, o conhecimento, ou a falta dele, tornou-se perigoso, será a conclusão deste ponto.
Ninguém é livre se estiver preso à obediência a um professor, a um regime, a uma religião.
Estava aquela acácia, mesmo no meio do caminho, para ser impossível passar sem ser vista.
Não assestemos, por nossa parte, a crítica, porquanto não é isso que o autor faz, antes sugere uma escola que diríamos nova se o conceito não fosse já ele mesmo velho. Nesta escola os valores que contam são imateriais: das alegorias, dos arquétipos, da simbologia, da história… A simbologia?, perguntarão alguns. Sim, os símbolos, já esquecidos, que nos guiaram no início do caminho, eles são como rochas que afloram nos montes, eles trazem à superfície, ao consciente, os arquétipos comuns, eles dão-nos a noção do caminho feito e a fazer, do ideal a perseguir (…), não haverá condicionamentos, gurus ou pregadores. (…). O telhado deste caminho-escola é a sociedade.
Escuta o coração, não percas a faculdade de pensar.
Carimbar a caderneta é também um sinal de descanso.
Ao serão fazíamos defumadouros de palha centeia para combater as frieiras e ainda sem sabermos que milhares de peregrinos afectados pelo “Fogo de Santo Antão”, uma enfermidade causada pela ingestão de um fungo, o ergot, que cresce no centeio e provoca uma espécie de gangrena nas extremidades do corpo e que essa palha, que por certo também conheceu Cristo, era susceptível de albergar uma das variantes do Diabo. Não façamos aqui a ponte, mantenhamos antes as margens cada uma no seu sítio, ainda que as pontes sejam a centralidade de todo o caminho. (…). As pontes são assim, surgem-nos quando menos esperamos, surgem pelo trabalho, pelo silêncio, pela descida em nós mesmos. É no silêncio que as ideias nascem, amadurecem e ganham forma. É no silêncio que se talham pedras e se erguem catedrais.
Trabalho, tripalium, lembra um inquirir. Façam um pequeno esforço mental, imaginem o homem sem trabalho, talvez nos tempos que correm não seja difícil, mas coloquem as coisas noutra dimensão.
Para que o trabalho liberte é preciso gostar do que se faz, o que não inibe necessariamente a presença de um transformador de consciências, um torniquete benigno que não seja estranho ao efeito borboleta. Porém, as notícias importantes devem ser captadas no vento. Sim! É ele que nos dá o verdadeiro sentido do caminho. Nunca procurem esse sentido no bulício do dia.
O caminho descobre-se dentro de nós, quer se faça de bicicleta, a pé ou a cavalo. Seja ele qual for, nenhum caminho é iluminado na totalidade. A fórmula da sapiência é estar sempre em movimento.
Se na frescura das primeiras águas do outono, inçavam sanchas, a vitela dos pinhais, disponíveis para um viajante de floresta não solitário (ainda que em muitos pontos só), absorvendo o Tu, que verdadeiramente nasces todos os dias, lá para os lados da Serra do Reboredo, que ficava à sua mão esquerda, vista dali mais parecia um simples monte. Prolongava-se longitudinalmente ao olhar e acabava por não dar a noção do longo e robusto torso que possuía. Mais parecia a imagem do Cabeço da Mua que ficava do outro lado e semelhava ser o seu reflexo. Não sei se era o cabeço a querer agigantar-se se a serra a querer amesquinhar-se.
Há muitas formas de escravidão. Até escravo de si próprio se pode ser.
Foi aquele ladrão… não fui eu, foi ele, só pode ter sido ele.
A voz que assim fala tem atributos próprios e elegíveis para o rol dos autores, já naquela época, admitindo-se que talvez se possa dizer que ainda não conhecia a existência de mundos sobrepostos. Ligados uns aos outros por elementos racionalmente incompreensíveis e uma vez que, frequentemente, o debrum se apresentava todo ele plasmado no gradeado do castelo, figurando gente que ali perto, por sua vez, esperava a audiência de dissensão e de julgamento que em boa verdade não o é em face da lhaneza das perguntas.
Que profissões conhecia? Pastor e lavrador. Só conhecia duas, embora com variantes.
Nas vagas dos montes me enlevo/ Nas fragas vejo justiça/ No pó dos caminhos me perco/ nos homens encontro cobiça (…)
Ó ladeiras, ó vales que daqui abarco/ Ó ribeiras onde me acalmo./ Adeus! Nas costas do vento embarco.
A tradição que persiste encarna num João Caramês… cabeça descaída… permanente mudez… semblante… certa satisfação que ainda assim e por uma razão maior se afasta ou distingue da chusma de labrostes que cobria o terreiro e que hoje já não cobre mas pelas más razões, sim, que o estômago pedia trabalho e houve que abalar para outras bandas.

O vento, em rajadas fortes, fustigava ferozmente todos, sem exceção nem preconceitos, sem distinção de classes nem religião
Todos os tilintares de espada, vindos do fundo do seu ser, dir-se-ia que do ser da própria espada, que o autor deixa sempre o caminho aberto para este tipo de interpretação. Seres que estão em tudo o que nos cerca e não nos cerca, formando páginas, o ábaco das suas existências.
Já era noite quando entraram na cidade. Os candeeiros de gás já tinham sido acesos.
Era um corrupio de gente esfomeada para agarrar um codorno de pão empedernido ou uma escudela de caldo que mais parecia vianda para porcos
Embutido num recanto da parede ficava o balde das necessidades fisiológicas.
É a guerra. A prisão. A ânsia de libertação. Estamos já muito para além da liberdade. Ou esperando, sem pressas, esse momento redentor.
Sinto tanto frio, a escuridão é tão solitária, libertem-me. Deixem-me regressar às minhas colinas tempestuosas. Deixem-me lavar a alma nas águas límpidas dos ribeiros. Deixem-me refrescar o fogo da minha existência à sombra dos choupos. Libertem-me! Matem-me!
Não deixa de ser curiosos que haja como que uma premonição de interesse geral: também ele, preso n.º 44 (editado em abril de 2013). Claro que não há ninguém que não pense tolices e tenha tendência a reformular o mapa da cidade desconhecida/ frágil madrugada de mim.
Incubus
Succubus
O velho castanheiro não lhe trazia nenhuma proteção.
Sempre se precisará de ajuda, quanto mais não seja da medicina, ainda que por vezes nos queira aliviar, nunca saberemos bem e completamente o quê, a partir de um tom cruel e caridoso que ficará sempre reverberando nas mentes daqueles desafortunados, vítimas, a arder em febre, em que habitavam ogres gigantes, viscosas serpentes que não havia meio de dispersarem a ponto de se poderem considerar ausentes perante um teatro bem mobilado, aparentemente, por artefactos de cirurgia, a semelhar uma oficina de carpintaria, com nomes e principiando em cabos que davam bem a dimensão da dor e do sofrimento.
Já ninguém o reconhecia pelo próprio nome, desde esse tempo passou a ser alcunhado (…). Ele não se importava, quando ouvia esse apodo assomava-lhe um sorriso aos lábios e desaparecia na esquina do edifício da Cruz Vermelha, onde agora recuperava.
Viver nesse mundo, por momentos, pareceu-lhe ser a terra do arco-íris, a terra da felicidade.
Sonhar (é) procurar a substância do ser.
Segue pela Avenida dos Despreocupados, a Estrada dos Crentes, mas não desenterres as frustrações, as incompreensões de ti e dos outros, os sonhos impossíveis, não exumes os cacos frios do passado.
Esperou encontrar uma gota de água naquele mundo que lhe parecia seco mas coerente. Uma gota de orvalho que fosse.
O autor ergue-se a partir de um peso que carrega, pode ser lã, pode ser chumbo, considerando volume equiparável.
Sinto que não tenho/ nada para dizer…
Lá, onde a razão não impera. Lá, onde o desgaste físico dá lugar à consciência da inconsciência. Lá, onde o desgaste psicológico dá lugar à loucura saborosa. Lá, onde os sonhos são nuvens, que se tocam e derrubam paredes.
Creio que posso afirmar que desconheço o ócio, até mesmo nos momentos de recolhimento.
Falemos por ele e através dele, sem ofensa para ninguém, nem para a turbamulta ou o que lhe possamos chamar. Diga-se que fugiu da terra natal para ficar em linha, mas nunca ficou. Nunca encontrou esse alinhamento. Nunca o encontrou porque o único alinhamento que encontrava era o alinhamento de humanos em torno de chefes sem ideias, sem conceitos sustentáveis. É grave. Gravidade essa que nos leva ao nosso abismo, como se fosse uma atracção perigosa, mas que se ambiciona conhecer e da qual não se consegue sair.
Às vezes procurava os nós, os atilhos daquela embalagem, e apenas encontrava resquícios de o grande Nó Górdio que o Tempo atou, que nenhuma espada e nenhum Alexandre consegue cortar.
Provido do saco das palavras que levava a tiracolo e onde, de vez em quando, metia a mão para as libertar, sair (sem querer?) do imenso túnel de palavras a fim de alcançar (abraçar?) as pessoas, conhecê-las, saltar a aporia, resolver a equação nem que tenha de pedir ajuda.
As pessoas que não conheço são sempre simpáticas comigo. (…) Aliás, todos são simpáticos, conhecidos e não conhecidos, mas não me ouvem e, depois, ainda para complicar mais, tudo o que dizem não me interessa.
As areias do tempo são finas – respondeu ele, virando-lhe as costas
Estava a apontar-lhe a Rua do Torno. Aquela que tudo molda à sua imagem e semelhança.
Riu-se quando a viu. Nem queria acreditar. A noite do outro dia.
A realidade não é tangível.
Caminhou cinquenta anos apenas numa noite
A odisseia continua pela caverna subterrânea, por veredas
por precipícios
por escuridões
por tempestades
De mãos e pés nus
Como quem segue a linha branca que delimita a estrada em dia de nevoeiro
Havia uma estrada. Há um caminho. O tempo era cada vez mais lento na estrada. Paradoxalmente? Sim. No centro do vórtice foi-se desenhando uma figura mítica, sem pai nem mãe.
A escrita deste autor surpreende-nos no seu todo. Muitos dirão que está profundamente marcada pelas vivências de um interior a que ninguém liga e que, por outro lado, já muitos escavaram, escavaram sem irem além de propostas no alto balizadas por um Aquilino Ribeiro (que mandou fazer umas botas novas para melhor fugir da aldeia por causa da perseguição que a cidade de aldeões a dada altura lhe movera) ou por um Miguel Torga (que sempre se quis cobrir de manto telúrico afinal tão frágil e condizente com a sua condição de poeta). E todavia não é bem assim, porquanto cada um, se quer ser além, abarcar em si um universo sem o pretender transaccionar (no que ao essencial diz respeito) faz de si um ponto de partida e, sem o saber ou querer saber, um ponto de chegada.
Partir para outra etapa. Chegar-se para o mesmo campo desenhado pelas estações do ano, sim, mas principalmente pelo dia e pela noite que em nós aportam. Um campo aberto. Um campo fechado. Para uns e para outros e outras que o possam ou queiram atingir, sem o ferir, ferindo-se, porventura, suturando, dando uma volta sem capa e muito menos de cara tapada. Está vento, é desagradável? Pois bem, cubramo-nos. Trata-se de movimentar o que estava por de mais parado.


CARLOS SAMBADE