25 maio 2015

As Asas da Libelinha, por Hercília Agarez













Prefácio
As Asas da Libelinha: breves pinceladas de luz sobre o quotidiano

Não chegue o dia/ em que eu pense/ não ter nada para aprender, diz-nos Hercília Agarez num dos pequenos poemas que compõem este livro. Como o leitor rapidamente perceberá, embora breves, estas estrofes alojam dentro de si uma larga sabedoria. Por vezes, fazem-nos sorrir, outras vezes reflectir, apresentando-se sempre como guias de um olhar minucioso e atento do mundo que nos rodeia.
Hercília Agarez, com obra publicada no domínio da ficção e do ensaio, escolheu, desta vez, oferecer aos seus leitores uma experiência no campo da poesia. Num registo que vai do poético ao humorístico, neste livro desfilam poemas curtos que, a partir de uma observação directa, e segundo contextos e vivências diversas, abordam essencialmente aspectos do quotidiano. 
A brevidade e a forma dos poemas aproxima-os do haiku, uma estrutura poética que tem a sua origem no Japão, país onde conta com muitos admiradores e praticantes. Os haiku são compostos por 17 sílabas métricas, dispostas em três versos de cinco-sete-cinco sílabas, e têm como tema aspectos da vida quotidiana do Japão, emoldurados pelas estações do ano. O âmago destes poemas é de o fazer crescer uma imagem e ecoar um pensamento num número mínimo de palavras. O efeito das palavras sobre o leitor deve ter a força do trovão e iluminar como a luz do raio. Brevidade e intensidade são, pois, palavras próximas deste tipo de poesia.
Em Portugal, esta forma de labor poético conhece já alguns admiradores e tem já disponivéis algumas obras publicadas. Foram, aliás, alguns desses autores que ajudaram a perceber a complexa mecânica poética do haiku. Ajudaram, também, a perceber que, de qualquer modo, mesmo se não completamente fiéis à métrica original, o que se vai publicando no nosso país tem como objectivo aproximar-se do espírito do haiku. O mais relevante, referem, é ser uma poesia fiel aos cinco sentidos e à observação das coisas que povoam o mundo, sendo que o resultado se deve traduzir numa forma breve e intensa de revelação desse mesmo mundo.
Em As Asas da Libelinha, Hercília Agarez encontra no dia a dia múltiplos motivos para reflexão. Desde apontamentos sobre o mundo natural, os animais e o ser humano, a autora olha o que a rodeia, procurando, muitas vezes, dar leveza àquilo que quase sempre é incómodo — Gentes e cães/ revolvem lixo:/ irmãos de fome. Lado a lado, o leitor encontra poemas de crítica social — Inúteis, os reformados:/ lâmpadas fundidas/ nunca mais dão luz —, de cariz mais pessoal e emotivo — Partiste./ No quintal ficaram/ sonhos soterrados — e com um carácter mais reflexivo — Sorrisos abertos,/ corações fechados:/ hipocrisia. Lado a lado, encontram-se o literal e o alusivo, dialética que emblematiza a essência do discurso poético: das coisas parte-se para o metafórico, para o alargamento do sentido: Urtigas mordentes/ invadem culturas:/ estéril inveja.
Este último poema exemplifica, aliás, uma das características do haiku presente em muitos dos pequenos poemas deste livro: a oposição entre ideias, imagens, sentimentos ou emoções. Essa dialéctica visa provocar o estranhamento e, consequentemente, a surpresa: Trepo à árvore/ e apanho cerejas:/ outra vez menina. Ou seja, esta poesia atesta não só o primor com que o autor escolhe as palavras, como convida o leitor a completar o que por vezes é apenas sugerido. Acima de tudo, Hercília Agarez convida-nos a olhar de novo aquilo que nos é familiar e conhecido. Neste sentido, e próximos de uma visão fenomenológica, aquela que descreve os fenómenos conforme são dados à experiência imediata, estes poemas são o resultado de uma nova abordagem e uma nova visão a vivências que todos conhecemos e já experimentámos. 
Tal como as palavras de Vasco Graça Moura — Sou um mau aluno. / faço um exercício em casa,/ sem contar muito as sílabas —, a autora de As Asas da Libelinha, não contando muito as sílabas, e ancorada em autores portugueses que lhe são queridos, oferece ao leitor um exercício de aproximação à essência do haiku. Ou seja, nestes breves apontamentos poéticos encontramos um entendimento da vida humana como algo essencialmente frágil e lembrando que a solidão, o mistério e a inquietação habitam os dias e as noites de muitos de nós. Na minha opinião, o que de mais forte Hercília Agarez oferece no livro é dar ao leitor a possibilidade da redenção, ou seja, face à solidão, à hipocrisia, ao abandono, a possibilidade de se encontrar — na inocência da infância, no voo da borboleta branca, nas asas da libelinha — o mesmo destino das aves: o infinito. O mesmo é dizer, a autora convida o leitor a habitar um tempo que é o da poesia e que por isso não se deixa escravizar por Cronos, permitindo, antes, ver e ler a vida sob um (breve) rasgo de luz e claridade: Canta a cigarra/ um hino ao presente —/ lição de vida.

Isabel Alves

18 maio 2015

AMADEU FERREIRA, UM CIBO DE TRÁS-OS-MONTES

AMADEU FERREIRA, UM CIBO DE TRÁS-OS-MONTES

    Nunca percebi porque o branco não é a cor da morte, como a cinza ou o silêncio. Branca como uma folha por escrever. Branca como a geada e o gelo.

Fracisco Niebro, in Belheç Velhice




    Nasceu numa aldeia de nome eufónico, feito de sonoridades doces, melodiosas. Sendim. Um recanto de um Trás-os-Montes profundo onde nascem, vivem e morrem gentes conformadas com o isolamento e a dureza de vida, a subsistência conseguida com os magros favores de uma terra sempre a exigir muito suor, muitas costas vergadas, muito manejo de alfaias adjuvantes.
    Amadeu Ferreira tinha de ser poeta. Assim determinava o seu código genético. Que, em contrapartida, lhe reservava um percurso de vida com laivos de alpinismo. Não empurrou sem cessar uma pedra até ao cimo de uma montanha, como Sísifo, porque não desafiou nenhum deus. Ele seguiu o conselho de Miguel Torga.


            Recomeça...
Se puderes,
sem angústia
E sem pressa.

E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
  [...]
  "Sísifo" in ANTOLOGIA POÉTICA

    "Com os meus mestres, aprendi a humildade das coisas essenciais." Parece ter sido esse um dos lemas da sua vida. Ele seguiu à risca o conselho de Ricardo Reis - "põe tudo quanto és no mínimo que fazes". Só que, para ele tudo era mais essencial do que acidental - a própria vida, a família, os amigos, as causas defendidas, a escrita, o pensamento. Nele quase tudo era espírito, transcendência.
  Quando o "mal ruim" o surpreendeu, não "entregou os pontos". A sua mente fervilhava de projectos a meio do caminho. Urgia dá-los por terminados, deixá-los dar lugar a outros. Manteve o ânimo, a esperança, a tenacidade, a capacidade de resistir, a arte de iludir os amigos. Encarava equívocos sinais de recuperação como vitórias de mais fracos sobre mais fortes. Trabalhou, por vezes de madrugada, até ao limite imposto pela corrosão de corpo e de espírito.
    Manteve o seu sorriso emboinado mesmo quando eram evidentes os sinais dos tratamentos. Engordou, perdeu cabelo, deformou-se-lhe o rosto esguio donde sobressaia aquele bigodinho de estimação. Nem por isso se escondeu dentro das suas quatro paredes nem impediu que o fotografassem. Estava vivo, embora pressentisse que seria poupado a uma velhice muito temida:

se o vento te empurrar para o beco
da velhice, não tenhas medo:
basta que te respeites até ao fim.

tudo fazemos para esconder a morte
e ainda mais para esconder a velhice....

    Para trás e para longe ficaram o seminário, a construção civil, o emprego em adega corporativa, os estudos de Filosofia e de Letras, primeiro no Porto, depois em Lisboa. Aí acabou por fixar-se. Envolveu-se activamente na política e foi, de raspão, deputado pela UDP. Licenciou-se em Direito e trabalhou em publicidade. Publicou livros. Fez o mestrado, aventurou-se a um doutoramento que o destino não deixou completar. Foi presidente da Associação de Língua Mirandesa na qual tem escrito poesia, conto, histórias infantis, romance. Traduziu escritores latinos, os Lusíadas, os quatro evangelhos, Camões, Pessoa, até Asterix. Publicou milhares de textos em jornais regionais e nacionais e em blogues. No seu mirandês. Exerceu a docência como professor auxiliar convidado na Faculdade de Direito de Lisboa e chegou ao alto cargo de vice-presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários. De vice-presidente passou a presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes. Foi, desde 2004, Comendador da Ordem de Mérito da República Portuguesa. Gostou do ensino. A sua cultura permitiu-lhe ser competente em matérias como a Educação Musical, a Filosofia, o Latim e, como atrás se disse, o Direito. Deu cursos de mirandês: "l mirandés naciu-me i l portués fui ua cunquista" assume. 
    Com Ernesto Rodrigues organizou dois volumes da Antologia A Terra de Duas Línguas, de titulo inequívoco.  Por concluir ficou, hélas, o Dicionário de Mirandés-Pertués. Deve tê-lo levado atravessado na garganta como Torga o sétimo dia da criação do mundo.
    Chegou ao alto como partiu de baixo. Nunca se deslumbrou com o valor que cons- ensualmente lhe foi reconhecido – simples, despretensioso, afável, bom conversador.  Amadeu e Fracisco, duas faces da mesma moeda. O homem e o artista. A mesma simplicidade, a mesma generosidade.
    A lição de vida que nos quis dar foi exemplar e quase sobre-humana. Nunca esquecerei um telefonema que me fez para me dizer que estava melhor, que lhe telefonasse quando quisesse. As gargalhadas tão características não tinham perdido sonoridade. E o ritmo de trabalho, esse, a alegria dos seus dias, só afrouxou quando as faculdades mentais se foram dele despedindo, cobardemente, injustamente.
   Gostava de o ver com a sua boina basca que sabia quando e onde usar. Era ela um  cibo da ruralidade e modéstia de alguém para quem o ninho térreo e a infância pobre foram sempre assumidos como um privilégio - o de ter nascido numa região onde o boi barrosão é adorado como um deus, onde as portas das casas estão sempre abertas, onde, no seu tempo de menino descalço, ainda se  cozia o pão no forno do povo, se representava o Auto da Paixão, as vezeiras obedeciam a qualquer guardador, reinava, enfim, o espírito comunitário.
    Em 2014 foi publicado Norteando, um álbum que é uma obra de artes. Um fotógrafo, Luís Borges, poetizou a natureza nordestina com a sua objectiva: os espaços, as gentes, os bichos. Amadeu "legendou" as imagens numa prosa poética, bem ao seu estilo. Aproveitou para regressar ao seu tempo e ao seu espaço de um passado sempre presente. A propósito da assunção da modéstia das suas origens, escreve em "O voo erótico da madressilva":
     Um dia, teria eu quatro ou cinco anos, a minha mãe trouxe do campo um raminho
de madressilvas que colocou dentro de um copo de esmalte no seu humilde louceiro da cozinha de telha vã: o aroma  possuiu-me  de tal maneira que a madressilva entrou dento de mim para sempre; agora, quando a quero ver, começo por fechar os olhos e chamo o seu odor até que me deixe quase em transe, qual pitonisa em Delfos: é essa a altura de abrir de novo os olhos e seguir a imagem como um sonho erótico: voa leve sobre a parede com os seus falos ao rubro e, à medida que avança, vai explodindo num branco fogo-de-artifício, amarelo depois, com os seus tontos espermatozóides a fecundar o ar com o seu aroma: nada volta a ser igual depois de uma madressilva ter entrado dentro de ti, que até as pedras se esfumam e perde brilho o azul do céu. 
    Amadeu era um homem múltiplo que, à imagem de Fernando Pessoa, teve de se desdobrar em pseudónimos, cada um dos quais correspondente a um tipo de registo literário. Amadeu foi o nome do cidadão multifacetado e multi-dotado e também do artista que o adoptou em Tempo de Fogo, uma estreia tardia na ficção, narrativa de cariz histórico cuja acção decorre em finais do século XVII e que, segundo Teresa Martins Marques, é "um romance de matriz realista e de valores intemporais, ancorado na memória...."
   Guardou Fracisco Niebro essencialmente para a poesia, de que é de destacar a obra publicada em 2012 e intitulada Ars Vivendi Ars Moriendi, um testemunho apaixonante do sentir e do pensar de um homem sensível  e saudoso do seu aconchego afectivo que quase desconhece:

agora, na rua, já só mora uma pessoa
e as casas encostam-se de arrimo entre si.

    Apesar disso a sua matriz sendinense não se lhe descola da pele, não quer, nem pode, escorraçá-la do pensamento:

tocou o sino,
fui num voo à minha terra:
a raiz não voa.

no tear das nuvens,
fios de água tecem o planalto:
tempestade ao longe.

   E também para o conto infantil,  para as traduções. O mirandês foi a sua língua de casa, de família, de amigos miúdos e crescidos. Pela sua preservação e ensino lutou como ninguém, insistindo, sugerindo, movendo influências, andando de terra em terra a evidenciar a importância daquele património imaterial que enriquece o desertificado nordeste transmontano subvalorizado pelos poderes centrais. Se hoje em dia as crianças aprendem nas escolas a língua dos seus avós, esse  é o resultado da sua luta sem desfalecimentos.
    Com outros nomes escreveu e traduziu outras obras. Ele foi Marcus Miranda, ele foi Fonso Roixo. 
    Por escassos dias, não assistiu à sua última publicação: Belleç/Vellice - notável e poético hino ao quotidiano da ruralidade nordestina em meados do século passado -  mas ainda pôde  empunhar outros dos seus trabalhos de paciência cenobítica - Ditos Dezideiros, recolha de provérbios mirandeses com 5.000 entradas e Lhéngua Mirandesa Manifesto em forma de hino. Quantas terão ficado, completas ou incompletas, à espera de uma Âncora  que os  liberte da lei do esquecimento.
   A sua vida dava vários romances, que o digam o realizador e amigo Leonel Brito que gravou mais de trinta horas do seu desfiar de memórias e Teresa Martins Marques que cedo tomou consciência da necessidade de lhe fixar o acidentado e rico percurso numa espécie de biografa, resultante de incontáveis conversas cúmplices em que o narrador se desnuda sem complexos, antes com orgulho de ter saído donde saiu e ter chegado onde chegou. O Fio das Lembrança, da escritora citada, contém uma primeira parte de cariz biográfico e uma segunda onde teve o trabalho incansável e meritório de recolher depoimentos de amigos e textos ensaísticos sobre a sua obra.
     Deixo-vos um conselho do Amadeu em forma de haikai, fácil de fixar. Ele há-de gostar de ser lembrado sem lágrimas:

não coes o sorriso,
    deixa-o sentir em bruto:
peneirada basta a farinha.

Nota 1: todos os poemas apresentados pertencem a Ars Vivendi Ars Moriendi, Âncora Editora, 2012.    
Nota 2: texto publicado na revista ALDRABA de Abril de 2015.

M. Hercília Agarez, Março de 2014

11 maio 2015

ALFÂNDEGA DA FÉ - Apresentação da obra do escritor António Sá Gué, por Norberto Veiga

 A primeira obra publicada pelo escritor António Sá Gué foi “As duas Faces da Moeda” e pode ser encarada, de certa maneira, como a carta de apresentação do autor ao sues leitores, apesar de o escritor não se dirigir a eles, de forma explícita, como é prática corrente nas obras subsequentes.
O romance recupera dois temas que marcaram, de forma significativa, a vida do país e, em especial, a vida dos transmontanos. Num primeiro momento, o leitor vê-se confrontado com o ciclo da emigração clandestina para a Europa, ocorrida nos anos 60 do século passado, onde muitos transmontanos, para fugir à fome, à miséria e à pobreza da terra, empreenderam uma viagem, que foi uma autêntica odisseia, quando a travessia das fronteiras se fazia a pé, pela calada da noite, muitas vezes perdidos, orientando-se apenas pela sua vontade de triunfar na vida.
O segundo, mas não menos importante, refere-se à Guerra Colonial que assolou Portugal na década de sessenta do século XX. Para se cumprir a ordem de Salazar, “Para Angola e em força” muitos jovens, corroborando as palavras de Pessoa, perderam a vida, muitas noivas ficaram por casar e muitas mães jamais abraçaram os seus filhos. Cabe à personagem “Gaio” estabelecer a ligação entre as duas temáticas. Emigrante inadaptado acaba por regressar, comprar umas ovelhas e viver feliz, entre os montes e o céu, numa vida simples de pastor. Todavia, este sossego foi curto, uma vez que se viu obrigado a ir para a Guerra Colonial da qual regressará com muitas cicatrizes físicas e o cansaço da alma que o hão de atormentar o resto da vida.

13 abril 2015

Apresentação de “As divinas nádegas de Joana Ludovina” de Fernando Mascarenhas

A Intriga, desta novela, desenrola-se numa vila do Nordeste Transmontano, denominada Vilancete, região que Miguel Torga batizou de “Reino Maravilhoso” e local que nós hoje temos o privilégio de habitar. A obra relata as vivências e as peripécias do protagonista, José Bernardo, um engenheiro reformado que regressa da cidade para, pensava ele, desfrutar da sua reforma com placidez, esperançado no conforto e proteção da casa e propriedade familiar, que anos antes o vira nascer.
Mas como é frequente dizer-se, de boas intenções está o inferno cheio. E, sem contar, o protagonista vê-se envolvido em acontecimentos que o arrastam para outros locais. Por conseguinte, a ação é levada para outros espaços: Porto, Lisboa, Madrid, Brasil e Suíça, por onde o protagonista deambula com o intuito de ordenar o caos provocado pelas outras personagens que de uma ou de outra forma a ele se encontram ligados numa teia bem urdida que o narrador nos vai desvendando com mestria e concisão, prendendo, deste modo, o leitor ao texto.
A obra apresenta um número reduzido de personagens onde, salvo raras exceções, quem dita o devir da ação é a personagem feminina. Este facto traz à nossa memória as antigas sociedades matriarcais. Assim, no livro, é a mulher, ou melhor, pela mulher que o protagonista se bate, qual Dom Quixote sempre pronto a socorrer a sua Dulcineia e, por conseguinte, a repor a justiça ou a colocar em ordem o caos que se havia instalado.
Passo, sucintamente, a mencionar algumas das personagens pelo seu revelo. Desde logo, o amigo de infância, Alexandre Manuel, que desempenha as funções de confidente. De seguida, a neta do protagonista, Constança que, de certa forma, podemos considerar uma personagem tipo, visto que representa todas as mulheres que são vítimas de violência doméstica e que dificilmente se conseguem livrar das garras dos agressores sem a ajuda de terceiros. Abro aqui um parêntese para recordar, não sem mágoa e tristeza, que este flagelo está, infelizmente, a aumentar em Portugal, como constantemente vemos noticiado na comunicação social. Estou em crer que nem outra foi a intenção do autor, a não ser condenar, de forma veemente, este “crime” e levar o leitor a refletir na humilhação a que alguns seres humanos estão sujeitos. Por outro lado, Alexandre Manuel, em minha opinião, representa o amigo genuíno, sincero e o companheiro de todas as horas, sempre pronto a ouvir, a ajudar e a aconselhar José Bernardo. 
Fecho o parêntese, apresentado a personagem Dirce, uma brasileira, não cheia de encantos e deslumbres, mas antes pelo contrário plena de malícia e crueldade. Parece-me que, à semelhança de Constança, Dirce representa todas as mulheres oportunistas e sem escrúpulos que não olham a meios para atingirem os fins, mesmo que isso implique acabar com outro casamento e cometer, em desespero de causa, o próprio suicídio. Por último, apresento a personagem Joana Ludovina, que dá título à obra, e que por antonomásia representa todas as mulheres altruístas e filantropas que dão a sua vida e o melhor de si em prol dos outros, mais necessitados. Nesse sentido, esta personagem é mais quimérica do que real, sendo, também, aquela que apresenta uma maior densidade psicológica. Esta personagem, sobretudo no fim da narrativa, quando o leitor tem acesso à sua história de vida, faz-nos pensar que ainda é possível, neste mundo cruel e desumano, encontrar anjos da guarda que “abdicam” da sua vida para dar rumo e sentido à vida dos outros.
Para além das temáticas já mencionadas acima, também são afloradas na obra as seguintes: a emigração tanto a primeira leva provocada pela miséria e pela fome que grassavam em Portugal nas décadas de cinquenta e sessenta do século passado, representada no texto pela personagem Luciana, como pela emigração atual incentivada pela falta de emprego e oportunidades, empurrando os nossos melhores jovens para fora do país, situação que o autor relata de forma corrosiva. O tema da caça, associada ao passatempo, ao prazer e ao companheirismo, também se encontra patente na obra. Outra realidade que a obra atesta é a imigração de pessoas dos países de leste que encontram em Portugal e, mais concretamente, no Nordeste Transmontano, trabalho e acolhimento. Esta situação é documentada na obra pelo casal Vladimir e esposa. A derradeira temática, mas nem por isso menos relevante, que encontramos no final da narrativa, em jeito de remissão definitiva, está relacionada, ainda, com a Guerra Colonial, que deixou um património impalpável, mas perdurável de traumas e distúrbios de índole psíquica num grande número de soldados, como um vasto filão literário tem vindo a corroborar. Estes combatentes encontram-se personificados, nesta narrativa, pelo engenheiro e protagonista José Eduardo. 
Para além destes motivos de reflexão que, como vimos, a obra proporciona, o autor usa e abusa da ironia e do sarcasmo nas várias passagens do texto em que reflete sobre a dura situação económica e social que vem assolando Portugal. O autor chega ao ponto de nomear os agentes políticos responsáveis pela situação a que o país chegou. Estas personalidades, ironia do destino, continuam impunes e indiferentes ao sofrimento e à miséria da população, aumentando, este facto, a indignação do autor.
A obra é, ainda, enriquecida pelas referências literárias que convoca e sua pertinência, permitindo fazer inferências com o que está a ser narrado.
Concluo, asseverando que a leitura de “As Divinas Nádegas de Joana Ludovina”, de Fernando Mascarenhas, é aprazível e cativa, pelo tom coloquial, pelo vocabulário acessível e referencial, pelas temáticas escalpelizadas e pelo enredo, o leitor que facilmente se identifica com algumas das personagens do livro.

Norberto Veiga

03 abril 2015

Assembleia Geral - Convocatória



Nos termos legais (art.º 11, n.º 2, e art. 19.º dos Estatutos, e sem que a Direcção tenha recorrido ao art.º 14, n.º 3, seja, cooptação de elemento em falta, por morte do anterior presidente, Amadeu Ferreira), e por decisão da AG de 28 de Março, convocam-se os sócios da Academia de Letras de Trás-os-Montes para a Assembleia Geral Eleitoral, a realizar no dia 6 de Junho de 2015, pelas 10.30 horas, no Centro Cultural Municipal Adriano Moreira, em Bragança, com a seguinte ordem de trabalhos:

1.  Leitura da acta da reunião anterior.
2.  Apresentação de listas candidatas aos órgãos da ALTM [Presidente da AG e dois vogais; na Direcção, um presidente, um vice-presidente e três vogais; no Conselho Fiscal, um presidente e dois vogais].
3. Eleição por escrutínio secreto.

Se à hora marcada não houver quorum, a reunião realizar-se-á 30 minutos depois, com qualquer número de sócios presentes.

Observações:

1. As candidaturas são aceites até 26 de Maio, e logo publicitadas, de modo a facilitar o voto por correspondência (o sobrescrito com a indicação de voto deve ser colocado dentro de outro sobrescrito, a cujo nome de associado só o presidente da AG terá acesso).
2. É dever dos candidatos e eleitores que tenham as quotas em dia, incluindo a relativa a 2015 (art.º 7.º, alínea b, dos Estatutos).


Bragança, 30 de Março de 2015.

O Presidente da Assembleia Geral

Ernesto Rodrigues


Voto de pesar por Amadeu Ferreira - Assembleia Municipal da Amadora






01 abril 2015

Testemunho de Teresa Martins Marques

Teresa Martins Marques é uma incansável pesquisadora, com inúmeros títulos ensaísticos publicados, onde avultam abordagens sobre José Rodrigues Miguéis e David Mourão-Ferreira (o escritor a quem dedicou sua tese de Doutorado, depois de ter organizado seu imenso espólio).Em 2013, tornou-se romancista de sucesso com o livro A Mulher que Venceu Don Juan e recentemente lançou O Fio das Lembranças – Biografia de Amadeu Ferreira.


Fonte: http://www.lerjorgedesena.letras.ufrj.br/vida/novo-testemunho-de-teresa-martins-marques/

31 março 2015

Lendo Sá Gué

Para ti não faço versos,
Ares da minha serra
Lendo Sá Gué
Quem percorre a primavera através de um ramo de amendoeira florida sabe que a vida é frágil e conclui que essa fragilidade está em tudo o que desponta e se mostra. Ainda assim é conveniente tratar das coisas para que elas nos pareçam mais firmes porque mais conformes com o nosso destino ou pelo menos com um modo de estar que assenta em boa parte numa herança cultural que, assimilada lentamente, nos faz como somos, nos determina a essência. Educação, sim, mas devagar. Tudo volta ao mesmo quando somos confrontados com paisagens interiores que nos interpelam e de certa forma constituem um exterior, já que publicadas, vindas a lume na cidade. A terra e o seu apelo nascem todos os dias aos pés de quem foi criado em ambiente de aldeia e sabe que tem reserva natural nesses poisos ainda que deles fuja, ou melhor, veja os seus afastarem-se sabe-se lá porquê e ao certo em nome de quê. Voltar? Sim, mas como, se até a pedra tende a volver tranquibérnia, a par da velha e ainda sã oliveira tanta vez deslocada do seu lugar a fim de aí progredir o que é novo e assumindo outras qualidades?
Fechava-se em casa, evitava sair para o campo, pois era como que o matassem ver o moitedo da altura do plantio – antes preferia ver o diabo arrastar uma alma para o inferno. Tudo lhe passava pela cabeça. Tornava-se-lhe insuportável saber que os seus de nada queriam saber da terra. Se pudesse, voltaria atrás, gastaria tudo na taberna, e pronto, acabavam-se os problemas.
Assumida a linguagem composta de boas maneiras que se vão formando não sem que seja preciso persistência e sem fazer de nós e em definitivo sujeitos agarrados pelo jeito um tanto ultrapassado do idealista e sequaz convicto de ideologias canhestras, abertos a pontos interessantes ou que resultem de um peneirar a que a sociologia no seu geral não é estranha, podemos ter chegado a ponto de admitir a vinda de mensageiros que traziam informes de outros povos, que semelhavam Homero, a catalogar naus: os de Fornos diziam-se firmes como fragas, armados de fustes e hastes, homiziados em palheiros, e mantendo piquetes de atalaia noite e dia; os do Lagoaçal cavaram fossos, levantaram barricadas e, entrincheirados e de escopetas assestadas, estavam preparados para o que desse e viesse; os de Rós já contavam cinquenta peltastas de prol que, armados de chuços e lazarinas, acaudilhados por um sargento de infantaria reformado, prometiam antes quebrar que torcer; os do Souto, homiziados em valhacoutos de castanheiros, armados de estadulhos e virotes, dali não arredavam pé, sem apitar o comboio, nem que caísse o Carmo e a Trindade; os de Mós, de esculcas avançadas a espiar movimentos do inimigo, e de manganelas e trabucos assestados, eram capazes de atirar pedradas a mais de trezentas braças. Diziam-se a vanguarda daquela milícia popular e formidolosa.
De sossego a aflição, aflição a sossego, contemplando, de certo modo e antes que seja tudo bem diferente, amavios de bezerra parida, que escoucinha, escoucinha com medo de perder a cria, uma multiplicidade de hipóteses se nos apresenta, qual formigueiro multicolor como as penas de gaio, tornando-nos irrequietos como levandiscas, saltitantes como cabritos e ridentes como gralha, ainda que tenhamos percorrido bastas vezes um par de escadas curvadas que subiam ao primeiro piso como se fossem as hastes de um bigode decaído.
O para muitos incrível tempo do desinço dos meloais e dos melanciais e de outros mabiscos de sazão era compatível com o sair da procissão em que o Santo António vai à frente, depois o Santo Estêvão. Vistas assim as coisas, de modo alargado, ainda que balizadas por certa estreiteza, que mais dará, dar-lhe no toutiço ou no toutiço lhe dar? Em boa verdade, em terreiro aberto e barulhento quanto mais não seja devido à acção de uma senhora banda, não é fácil a concentração no principal, fazendo suspeitar se aquelas cândidas e sacras figuras rezavam orações ou ciciavam censuras. Certamente que o demo não andava por ali a atacar a figura da frente, a coalhar-se-lhe na ideia, atazanar-lhe a alma e tirar-lhe o juízo, não querendo semelhar fruta fendida, cujo paladar se vai deteriorando à medida que a eiva vai alastrando e a vai apodrecendo. Num contexto assim e um pouco lá para o meio se não mesmo bem na rectaguarda, a linha dos cinco clarinetes dir-se-ia uma galinha e respetivos pintainhos.
Houve tempos em que as fúrias do Áfrico se espelhavam desde o chão dando corpo a fantasmas que pareciam colonizar a sua alma, retirando corpo ao castanheiro de longas torcidas ao dependuro como se uma gaivota que tentava pousar no tejadilho assim improvisado se arvorasse a truanices de serão, qual guarda-freio que assistisse à composição a enveredar por uma linha colateral e marginal sem ter a certeza do que estava a fazer.
Chulipa na massa do calabre é que não deve ser, nem com o pé, até por que a passagem de nível com guarda, que ia atravessar, estava cortada pela manifestação e aí nem pé nem mão, enquanto algumas carruagens deambulavam por uma linha religiosa, talvez cega, talvez perdida, todos não pintainhos, todos muito quentinhos em redor da fornalha do comboio protector. Dão-se nomes, mas que importa? Aliás o nome geral é um nome em si, o senhor Sicrano, fundamentalmente renitente quando se põe a hipótese de atravessar as carruagens, subir à máquina, sim, ai daquele que não cumprisse os deveres para com o Comboio.
No mais ermo dos locais à superfície da terra não faltam formas de vida.
Onde se pensa que não há movimento, afinal tudo mexe.
Tira partido do veneno que o envolve.
Que nenhum livro fique por escrever. Sim, claro. Muitos impressionam pelo rigor, pela singeleza e todavia passam sem deixarem grandes marcas. Basta pensar em contra-ciclos que alberguem, paradoxalmente, o ramal do facilitismo e, por outro lado ou talvez não, o Novo-Rico da Silva.
Finalmente Karl Marx! Finalmente pão para todos!
É caso para escrever: “Abaixo a superabundância!”
Porque em tais ambientes o importante é camuflar a realidade. Fazer de conta, como as crianças.
Tudo isto se dá sem recurso visível a um grande mestre-de-cerimónias do Grande Circo Ocidental (…), sem palhaços, sem a ingenuidade das crianças, sem malabaristas nem trapezistas que arriscassem a vida, sem crenças num outro mundo. Só a jaula do homo pouco sapiens, encurralado e dominado por ele próprio, ocupava a pista. Ocupava e ocupa. Em boa parte, o conhecimento, ou a falta dele, tornou-se perigoso, será a conclusão deste ponto.
Ninguém é livre se estiver preso à obediência a um professor, a um regime, a uma religião.
Estava aquela acácia, mesmo no meio do caminho, para ser impossível passar sem ser vista.
Não assestemos, por nossa parte, a crítica, porquanto não é isso que o autor faz, antes sugere uma escola que diríamos nova se o conceito não fosse já ele mesmo velho. Nesta escola os valores que contam são imateriais: das alegorias, dos arquétipos, da simbologia, da história… A simbologia?, perguntarão alguns. Sim, os símbolos, já esquecidos, que nos guiaram no início do caminho, eles são como rochas que afloram nos montes, eles trazem à superfície, ao consciente, os arquétipos comuns, eles dão-nos a noção do caminho feito e a fazer, do ideal a perseguir (…), não haverá condicionamentos, gurus ou pregadores. (…). O telhado deste caminho-escola é a sociedade.
Escuta o coração, não percas a faculdade de pensar.
Carimbar a caderneta é também um sinal de descanso.
Ao serão fazíamos defumadouros de palha centeia para combater as frieiras e ainda sem sabermos que milhares de peregrinos afectados pelo “Fogo de Santo Antão”, uma enfermidade causada pela ingestão de um fungo, o ergot, que cresce no centeio e provoca uma espécie de gangrena nas extremidades do corpo e que essa palha, que por certo também conheceu Cristo, era susceptível de albergar uma das variantes do Diabo. Não façamos aqui a ponte, mantenhamos antes as margens cada uma no seu sítio, ainda que as pontes sejam a centralidade de todo o caminho. (…). As pontes são assim, surgem-nos quando menos esperamos, surgem pelo trabalho, pelo silêncio, pela descida em nós mesmos. É no silêncio que as ideias nascem, amadurecem e ganham forma. É no silêncio que se talham pedras e se erguem catedrais.
Trabalho, tripalium, lembra um inquirir. Façam um pequeno esforço mental, imaginem o homem sem trabalho, talvez nos tempos que correm não seja difícil, mas coloquem as coisas noutra dimensão.
Para que o trabalho liberte é preciso gostar do que se faz, o que não inibe necessariamente a presença de um transformador de consciências, um torniquete benigno que não seja estranho ao efeito borboleta. Porém, as notícias importantes devem ser captadas no vento. Sim! É ele que nos dá o verdadeiro sentido do caminho. Nunca procurem esse sentido no bulício do dia.
O caminho descobre-se dentro de nós, quer se faça de bicicleta, a pé ou a cavalo. Seja ele qual for, nenhum caminho é iluminado na totalidade. A fórmula da sapiência é estar sempre em movimento.
Se na frescura das primeiras águas do outono, inçavam sanchas, a vitela dos pinhais, disponíveis para um viajante de floresta não solitário (ainda que em muitos pontos só), absorvendo o Tu, que verdadeiramente nasces todos os dias, lá para os lados da Serra do Reboredo, que ficava à sua mão esquerda, vista dali mais parecia um simples monte. Prolongava-se longitudinalmente ao olhar e acabava por não dar a noção do longo e robusto torso que possuía. Mais parecia a imagem do Cabeço da Mua que ficava do outro lado e semelhava ser o seu reflexo. Não sei se era o cabeço a querer agigantar-se se a serra a querer amesquinhar-se.
Há muitas formas de escravidão. Até escravo de si próprio se pode ser.
Foi aquele ladrão… não fui eu, foi ele, só pode ter sido ele.
A voz que assim fala tem atributos próprios e elegíveis para o rol dos autores, já naquela época, admitindo-se que talvez se possa dizer que ainda não conhecia a existência de mundos sobrepostos. Ligados uns aos outros por elementos racionalmente incompreensíveis e uma vez que, frequentemente, o debrum se apresentava todo ele plasmado no gradeado do castelo, figurando gente que ali perto, por sua vez, esperava a audiência de dissensão e de julgamento que em boa verdade não o é em face da lhaneza das perguntas.
Que profissões conhecia? Pastor e lavrador. Só conhecia duas, embora com variantes.
Nas vagas dos montes me enlevo/ Nas fragas vejo justiça/ No pó dos caminhos me perco/ nos homens encontro cobiça (…)
Ó ladeiras, ó vales que daqui abarco/ Ó ribeiras onde me acalmo./ Adeus! Nas costas do vento embarco.
A tradição que persiste encarna num João Caramês… cabeça descaída… permanente mudez… semblante… certa satisfação que ainda assim e por uma razão maior se afasta ou distingue da chusma de labrostes que cobria o terreiro e que hoje já não cobre mas pelas más razões, sim, que o estômago pedia trabalho e houve que abalar para outras bandas.

O vento, em rajadas fortes, fustigava ferozmente todos, sem exceção nem preconceitos, sem distinção de classes nem religião
Todos os tilintares de espada, vindos do fundo do seu ser, dir-se-ia que do ser da própria espada, que o autor deixa sempre o caminho aberto para este tipo de interpretação. Seres que estão em tudo o que nos cerca e não nos cerca, formando páginas, o ábaco das suas existências.
Já era noite quando entraram na cidade. Os candeeiros de gás já tinham sido acesos.
Era um corrupio de gente esfomeada para agarrar um codorno de pão empedernido ou uma escudela de caldo que mais parecia vianda para porcos
Embutido num recanto da parede ficava o balde das necessidades fisiológicas.
É a guerra. A prisão. A ânsia de libertação. Estamos já muito para além da liberdade. Ou esperando, sem pressas, esse momento redentor.
Sinto tanto frio, a escuridão é tão solitária, libertem-me. Deixem-me regressar às minhas colinas tempestuosas. Deixem-me lavar a alma nas águas límpidas dos ribeiros. Deixem-me refrescar o fogo da minha existência à sombra dos choupos. Libertem-me! Matem-me!
Não deixa de ser curiosos que haja como que uma premonição de interesse geral: também ele, preso n.º 44 (editado em abril de 2013). Claro que não há ninguém que não pense tolices e tenha tendência a reformular o mapa da cidade desconhecida/ frágil madrugada de mim.
Incubus
Succubus
O velho castanheiro não lhe trazia nenhuma proteção.
Sempre se precisará de ajuda, quanto mais não seja da medicina, ainda que por vezes nos queira aliviar, nunca saberemos bem e completamente o quê, a partir de um tom cruel e caridoso que ficará sempre reverberando nas mentes daqueles desafortunados, vítimas, a arder em febre, em que habitavam ogres gigantes, viscosas serpentes que não havia meio de dispersarem a ponto de se poderem considerar ausentes perante um teatro bem mobilado, aparentemente, por artefactos de cirurgia, a semelhar uma oficina de carpintaria, com nomes e principiando em cabos que davam bem a dimensão da dor e do sofrimento.
Já ninguém o reconhecia pelo próprio nome, desde esse tempo passou a ser alcunhado (…). Ele não se importava, quando ouvia esse apodo assomava-lhe um sorriso aos lábios e desaparecia na esquina do edifício da Cruz Vermelha, onde agora recuperava.
Viver nesse mundo, por momentos, pareceu-lhe ser a terra do arco-íris, a terra da felicidade.
Sonhar (é) procurar a substância do ser.
Segue pela Avenida dos Despreocupados, a Estrada dos Crentes, mas não desenterres as frustrações, as incompreensões de ti e dos outros, os sonhos impossíveis, não exumes os cacos frios do passado.
Esperou encontrar uma gota de água naquele mundo que lhe parecia seco mas coerente. Uma gota de orvalho que fosse.
O autor ergue-se a partir de um peso que carrega, pode ser lã, pode ser chumbo, considerando volume equiparável.
Sinto que não tenho/ nada para dizer…
Lá, onde a razão não impera. Lá, onde o desgaste físico dá lugar à consciência da inconsciência. Lá, onde o desgaste psicológico dá lugar à loucura saborosa. Lá, onde os sonhos são nuvens, que se tocam e derrubam paredes.
Creio que posso afirmar que desconheço o ócio, até mesmo nos momentos de recolhimento.
Falemos por ele e através dele, sem ofensa para ninguém, nem para a turbamulta ou o que lhe possamos chamar. Diga-se que fugiu da terra natal para ficar em linha, mas nunca ficou. Nunca encontrou esse alinhamento. Nunca o encontrou porque o único alinhamento que encontrava era o alinhamento de humanos em torno de chefes sem ideias, sem conceitos sustentáveis. É grave. Gravidade essa que nos leva ao nosso abismo, como se fosse uma atracção perigosa, mas que se ambiciona conhecer e da qual não se consegue sair.
Às vezes procurava os nós, os atilhos daquela embalagem, e apenas encontrava resquícios de o grande Nó Górdio que o Tempo atou, que nenhuma espada e nenhum Alexandre consegue cortar.
Provido do saco das palavras que levava a tiracolo e onde, de vez em quando, metia a mão para as libertar, sair (sem querer?) do imenso túnel de palavras a fim de alcançar (abraçar?) as pessoas, conhecê-las, saltar a aporia, resolver a equação nem que tenha de pedir ajuda.
As pessoas que não conheço são sempre simpáticas comigo. (…) Aliás, todos são simpáticos, conhecidos e não conhecidos, mas não me ouvem e, depois, ainda para complicar mais, tudo o que dizem não me interessa.
As areias do tempo são finas – respondeu ele, virando-lhe as costas
Estava a apontar-lhe a Rua do Torno. Aquela que tudo molda à sua imagem e semelhança.
Riu-se quando a viu. Nem queria acreditar. A noite do outro dia.
A realidade não é tangível.
Caminhou cinquenta anos apenas numa noite
A odisseia continua pela caverna subterrânea, por veredas
por precipícios
por escuridões
por tempestades
De mãos e pés nus
Como quem segue a linha branca que delimita a estrada em dia de nevoeiro
Havia uma estrada. Há um caminho. O tempo era cada vez mais lento na estrada. Paradoxalmente? Sim. No centro do vórtice foi-se desenhando uma figura mítica, sem pai nem mãe.
A escrita deste autor surpreende-nos no seu todo. Muitos dirão que está profundamente marcada pelas vivências de um interior a que ninguém liga e que, por outro lado, já muitos escavaram, escavaram sem irem além de propostas no alto balizadas por um Aquilino Ribeiro (que mandou fazer umas botas novas para melhor fugir da aldeia por causa da perseguição que a cidade de aldeões a dada altura lhe movera) ou por um Miguel Torga (que sempre se quis cobrir de manto telúrico afinal tão frágil e condizente com a sua condição de poeta). E todavia não é bem assim, porquanto cada um, se quer ser além, abarcar em si um universo sem o pretender transaccionar (no que ao essencial diz respeito) faz de si um ponto de partida e, sem o saber ou querer saber, um ponto de chegada.
Partir para outra etapa. Chegar-se para o mesmo campo desenhado pelas estações do ano, sim, mas principalmente pelo dia e pela noite que em nós aportam. Um campo aberto. Um campo fechado. Para uns e para outros e outras que o possam ou queiram atingir, sem o ferir, ferindo-se, porventura, suturando, dando uma volta sem capa e muito menos de cara tapada. Está vento, é desagradável? Pois bem, cubramo-nos. Trata-se de movimentar o que estava por de mais parado.


CARLOS SAMBADE

Relatório e contas de 2014

Relatório e contas de 2014

Receitas
Saldo do ano anterior ------------------------------------------------------------------- € 1 185,37
Quotas e joias de inscrição ------------------------------------------------------------- € 560,00
Subsídios para a produção dos documentários
                               Câmara Municipal de Bragança --------------------------------- € 350,00
                               Câmara Municipal de Montalegre ---------------------------- € 1 050,00
                               Direção Regional da Cultura do Norte ----------------------- € 1 000,00
                                Câmara Municipal de Vila Real --------------------------------  € 200,00
Outras ------------------------------------------------------------------------------------   € 70,00

Total ------------ € 4 414,37                                                                                               


Despesas
Realização e produção dos documentários de autores transmontanos - ---€ 1 623,64
Correio ----------------------------------------------------------------------------------------- € 58,68
Livro de recibos ------------------------------------------------------------------------------ € 30,75
Deslocações ---------------------------------------------------------------------------------- € 68,43
Cartão de Pessoa Coletiva --------------------------------------------------------------- € 14,00
Requisição de livro de cheques --------------------------------------------------------- € 8,05

                                                                                                              Total ------------ € 1 803,55


Bragança, 25 de Janeiro de 2015

                Pela Direção:

______________________________________________________

Visto e aprovado.
O Conselho Fiscal:

_______________________________________________________

_______________________________________________________

_______________________________________________________

RELATÓRIO DE ATIVIDADES Ano de 2014

RELATÓRIO DE ATIVIDADES
Ano de 2014

            Dando seguimento ao Plano de Atividades aprovado para o ano de 2014, foi elaborado o presente Relatório o qual pretende sintetizar o conjunto das atividades desenvolvidas tendentes ao cumprimento dos objetivos definidos para o período anual em questão.

1.      Documentários sobre escritores transmontanos
Conforme o compromisso assumido nas duas últimas reuniões da Assembleia Geral, o realizador Leonel Brito concluiu os trabalhos de realização dos seguintes escritores transmontanos:
- Bento Gonçalves da Cruz;
- João Barroso da Fonte;
- António Lourenço Fontes;
- António Manuel Pires Cabral;
- António Passos Coelho;
- Hirondino da Paixão Fernandes
- António Modesto Navarro;
- Júlia Guarda Ribeiro.  
- Adriano Moreira.
            Para concluir a produção desta primeira série de dez documentários fica apenas em falta o referente a Rentes de Carvalho que se mostrou disponível para o efeito mas que, segundo ele próprio nos informou, se encontrava nos últimos meses do ano transacto, numa situação delicada em temos do seu estado de saúde. Logo que possível, retomaremos a conclusão deste trabalho.
            Convém lembrar, por ser de inteira justiça, que alguns destes trabalhos foram apoiados financeiramente por algumas das câmaras municipais de cujos municípios são oriundos os escritores: Bragança, Vila Real e Montalegre. Igualmente, obtivemos um subsídio monetário da Direção Regional da Cultura do Norte.

2.      Produção e emissão do programa Academia de Letras
Foi dada continuidade à produção e emissão do programa Academia de Letras na Rádio Brigantia; trata-se de um tempo de conversa com os escritores, autores, poetas ou investigadores nossos associados, de reflexão sobre as suas obras, projetos e sobre as suas vivências. Com a duração aproximada de 50 minutos e periodicidade mensal. No ano de 2014, foram os seguintes os autores que nele participaram:
- António Sá Gué
- António Júlio Andrade
- António Fortuna
- António Monteiro
- Alexandre Parafita
- Antero Neto
- Hirondino Fernandes
- António Afonso
- Joaquim Ribeiro Aires
- A. M. Pires Cabral
- Virgínia do Carmo e Casimiro Fernandes (Dia do Livro e do Livreiro)
- Ernesto Rodrigues

3.      Artes e Livros
Organização, em parceria com a Câmara Municipal de Bragança, do evento literário “Artes e Livros”, de 11 a 14 de junho. Durante os quatro dias do evento, foram lançados ou apresentados cerca de uma vintena de livros de autores transmontanos e de outros escritores. Foram também apresentados os documentários de Hirondino Fernandes e Júlia Ribeira.
No âmbito da programação deste evento foi realizada uma sessão de homenagem ao Dr. Hirondino Fernandes, que incluía a referida apresentação do documentário e a intervenção do homenageado e de outros associados, participantes, amigos…

4.      Homenagem: “40 anos de vida literária de Ernesto Rodrigues”
Uma organização conjunta da Academia e da Câmara Municipal de Bragança, realizada no dia 13 de dezembro, na Biblioteca Municipal de Bragança. Do programa, salienta-se:
- a intervenção do professor José Eduardo Franco;
- a mesa redonda com colegas e amigos do homenageado;
- a apresentação do livro Passos Perdidos de Ernesto Rodrigues;
- a apresentação do documentário “Ernesto Rodrigues – 40 anos de vida literária”;
- as exposições: Bibliografia de Ernesto Rodrigues e “Bragança – anos 1970/2014”.

5.      Antologia de Autoras Transmontanas
Efetuou-se uma parte substancial do trabalho da organização da Antologia de Autoras Transmontanas, a cargo das nossas associadas Hercília Agarez e Isabel Alves, um trabalho que reúne 28 escritoras e que virá a lume no decorrer do ano de 2015.

6.       Blog da Academia
A dinamização do blog da Academia, para além das intervenções que vinham sendo efectuadas, foi possível pelas novas participações, nomeadamente, a publicação dos programas de rádio, o que permite a sua audição a todos os interessados, mesmo em regiões ou países que estão fora do alcance das emissões da rádio Brigantia. Por outro lado, têm vindo a ser inseridos no blog textos vários de autores que, para o efeito os disponibilizam.

7.      Arquivo documental do Padre António Lourenço Fontes
Realizou-se no dia 30 de junho, em Vilar de Perdizes, uma reunião, que havia sido solicitada pela Direção da Academia e que contou com a presença do Vice-Presidente da Câmara Municipal de Montalegre, do Padre Lourenço Fontes e do Vice-Presidente da Direção da Academia, a fim de estudar uma solução para o vasto arquivo bibliográfico deste autor barrosão.

8. A Academia, por intermédio dos membros da sua Direção, sempre que solicitada ou por iniciativa própria, marcou presença em vários eventos literários, nomeadamente os que diziam respeito a apresentações de livros dos seus associados.

Em face do exposto, a Direção considera que foram cabalmente atingidos os objetivos definidos no respetivo Plano de Atividades, pelo que deliberou apresentar o presente Relatório, para sua aprovação, à Assembleia Geral a realizar em 28 de março do corrente ano.

Bragança, 26 de Janeiro de 2015


A Direção