31 março 2015

Orçamento para o ano de 2015

Orçamento para o ano de 2015

1.      Receitas
Quotas e jóias de inscrição dos associados                                    € 2 000,00
Subsídios                                                                                              € 2 500,00
TOTAL        € 4 500,00

2.      Despesas
Participação na edição da obra do Padre António Vieira         € 1 000,00
Documentários sobre os escritores transmontanos                   € 500,00
Antologia das escritoras transmontanas                                     € 2 000,00 
Deslocações                                                                                        € 700,00
Material informático e de secretaria                                              € 50,00
Correio                                                                                                 € 150,00
Outros                                                                                                  € 100,00
TOTAL     € 4 500,00

Bragança, 25 de Janeiro de 2015

A Direção,



ACTA DA ASSEMBLEIA GERAL DA ACADEMIA DE LETRAS DE TRÁS-OS-MONTES REALIZADA A 1 DE MARÇO DE 2014

ACTA DA ASSEMBLEIA GERAL DA ACADEMIA DE LETRAS DE TRÁS-OS-MONTES REALIZADA A 1 DE MARÇO DE 2014 NO AUDITÓRIO DO CENTRO CULTURAL MUNICIPAL ADRIANO MOREIRA EM BRAGANÇA.


A Assembleia Geral teve início cerca das 10.30 H, pela saudação a todos os presentes do seu Presidente, Ernesto Rodrigues. De seguida, procedeu-se à operacionalização da ordem de trabalhos enviada por email, e, em tempo oportuno, a todos os sócios.--------------------------------
Ponto 1. Leitura da acta da reunião anterior – realizada pela 1ª secretária, Mª da Assunção Anes Morais, a qual, não havendo nada a opor, se deu por aprovada. Seguiu-se o-----------------------
Ponto 2. Aprovação do Relatório de Actividades e do Relatório de Contas do exercício de 2013.
O Presidente da Mesa da Assembleia Geral, Ernesto Rodrigues, deu a palavra ao Vice-Presidente da Direcção, António Tiza, que, antes de iniciar o referido ponto, leu uma mensagem do Presidente da Direcção da Academia de Letras, Amadeu Ferreira, ausente, por razões de saúde. Nela, é expresso um agradecimento ao Vice-Presidente da Direcção, ao Presidente da Mesa da Assembleia Geral e aos restantes elementos da Direcção, pelo trabalho desenvolvido, ao mesmo tempo que apresenta a sua concordância com os documentos que irão ser analisados nesta Assembleia Geral. Pensa estar presente numa próxima oportunidade. De seguida, o Vice-Presidente da Direcção agradeceu a presença de todos os sócios da Academia nesta Assembleia, principalmente aos que tinham vindo de mais longe, como Lisboa, Porto, Vila Real, Moncorvo, Mirandela ou Macedo, não se compreendendo, assim, a ausência dos que residem mais perto, em Bragança, por exemplo. O Presidente da Assembleia Geral interveio, entretanto, para resumir o Relatório de Contas do exercício de 2013, em que, após a apresentação das despesas e das receitas, havia um saldo positivo de cerca de 1.200,00 €. Voltou novamente a intervir o Vice-Presidente da Direcção para apresentar o Relatório de Actividades. Referiu o trabalho notável realizado por  Leonel Brito na realização e produção de 7 vídeos, de um conjunto de 11 programados; as intervenções da Academia de Letras de Trás-os-Montes no Programa da Rádio Brigantia e Rádio Bragançana (RBA), não só nos últimos 3 meses do ano de 2013, mas em outros,  em que participaram os seguintes autores: Ernesto Rodrigues, Hercília Agarez, Amadeu Ferreira, António Tiza, Rogério Rodrigues, Hirondino Fernandes, Fernando Mascarenhas e Fernando de Castro Branco. No que concerne ao blogue da Academia de Letras, entrou numa nova dinâmica, desde que foi assumido pelo Leonel Brito e Pedro Santos. Para terminar este ponto, o Presidente da Mesa da Assembleia Geral fez uma síntese do mesmo, focando o valioso trabalho existente, memória documental notável nos vídeos realizados, e que Direcção se tinha de debruçar sobre o destino e uso a dar-lhe. De seguida, passámos para o ---------------------------
Ponto 3. Aprovação do Plano de Actividades e do Orçamento para 2014. Neste Ponto, intervieram quer Ernesto Rodrigues, quer António Tiza, pelo que vamos referir-nos aos pontos, conforme apresentados. 1) Orçamento: Valor previsto em quotas/jóias dos sócios: 2.500,00 €, valor considerável favorável, e, de Subsídios: 2.000,00 €, resultante de financiamentos das Câmaras onde serão apresentados os vídeos dos autores daí originários; considera-se que este valor será baixo para a previsão. 2) Plano de Actividades: Continuação do apoio à obra do Padre António Vieira; Continuação da realização dos Documentários; Participação no evento Artes e Livros, que a Câmara Municipal de Bragança costuma organizar por volta do dia 10 de Junho, indo-se contactar a Vereadora do respectivo pelouro para o efeito; Publicação da Antologia de Escritoras Transmontanas (ideia inovadora); Reuniões com as Câmaras para apoio de autores menos conhecidos, a fim de apoiarem a publicação dos seus escritos; Visita a Belém do Pará - Brasil; Continuação do Programa de Rádio (no corrente ano, foram já apresentados, em Janeiro, Sá Gué, e, em Fevereiro, António Júlio Andrade; em Março, será a vez de António Fortuna). Acrescentou-se que a Academia não tinha verbas para o pagamento de todas as despesas, nomeadamente a viagem ao Brasil, tornando-se esta bastante dispendiosa; e, para a Antologia de Escritoras Transmontanas, tinha-se inscrito no orçamento um valor de 1.000,00€. Sobre este ponto seguiram-se intervenções dos seguintes membros: Rogério Rodrigues, informando que a Editora Âncora, de A. Batista Lopes, se encontrava disponível para publicar novas obras, à semelhança da Editora Lema d’Origem, de António Sá Gué. Fernando Mascarenhas solicitou informação da existência, ou não, do compromisso de o autor adquirir um certo número de exemplares por si ou por uma 3ª pessoa/entidade, nomeadamente a Autarquia. Foi informado que a prática da Âncora não era essa. Rogério Rodrigues acrescentou que a Âncora tinha uma distribuidora própria, o que lhe possibilitava uma poupança de cerca de 50% em comparação com outras editoras. Além disso, recorria a um nicho de mercado, nomeadamente na FNAC, Bertrand e outras livrarias locais. Ernesto Rodrigues informou que, por exemplo, tal compromisso não era só das pequenas editoras, já que tinha conhecimento, por exemplo, da Porto Editora, que oferecia algumas chancelas aos autores, e, caso os livros não se vendessem, os mesmos tinham de o adquirir o remanescente. Relativamente à Âncora, não se passava isso, mesmo no campo da poesia, onde as tiragens eram menores, área que o Rogério Rodrigues dirigia, conseguindo apoios locais e regionais para o efeito. José Mário Leite interveio no sentido em que, relativamente aos Documentários sobre os autores oriundos de alguns Municípios, e o apoio por parte destes, considerava que o valor orçamentado ‒ 2.000,00 € ‒ era muito pequeno, já que, no seu parecer, as obras “faraónicas” tinham acabado, encontrando-nos num novo ciclo político, e seria tempo de se preservar a memória do povo através da cultura, comentário corroborado por Fernando Mascarenhas. Rogério Rodrigues interveio para propor que fosse pensada a criação de uma união das Câmaras do distrito, com representação em Bragança e com o Patrocínio da Academia, cujo objetivo seria o apoio na apresentação das obras dos diferentes autores. Ernesto Rodrigues lançou o repto aos autores presentes de Vila Real, nomeadamente, Hercília Agarez, Isabel Alves e António Fortuna, em associação com o Grémio Literário, exemplificando com uma experiência anterior, própria, o lançamento de volume de Raul Rêgo.-----------------------------
Passou-se, depois, ao -----------------------------------------------------------------------------------------
Ponto 4. Proposta de Leonel Brito como sócio honorário. Seguiram-se alguns testemunhos sobre a pessoa e obra de Leonel Brito, e merecida distinção. O Presidente da Assembleia Geral e o Vice-Presidente da Direcção referiram a obra de realização e produção dos Documentários dos Autores Transmontanos, o elevado número de horas de trabalho efectuado e a sua dedicação ao blogue da Academia de Letras, pelo que gostariam de o ter como sócio honorário. Rogério Rodrigues fez uma retrospectiva da vasta obra cinematográfica e de produção de Leonel Brito desde o 25 de abril de 1974, até ao presente, contemplando quase todas as zonas do País, com evidência para Trás-os-Montes, Porto, Madeira, para além da sua referência de amigo, há cerca de 50 anos. Ernesto Rodrigues acrescentou o trabalho de 23 H com Amadeu Ferreira, um importantíssimo documentário sobre a sua vida e obra. Hercília Agarez referiu a dinamização do blogue e a sua eficácia. Ernesto Rodrigues terminou com uma saudação e um agradecimento por estar presente, sendo a proposta aprovada por unanimidade e aclamação. Leonel Brito tomou a palavra, emocionado, falando sobre algum do seu trabalho neste último ano, concretamente a gravação que fez com Amadeu Ferreira e também sobre os pais deste, relatando a vida de Sendim – Miranda, a sua infância, a vida de seminarista, a sua vida profissional; referiu, enfim, que, no documentário dos diferentes autores, o que lhe interessou foi a parte humana do escritor, concretamente os depoimentos sobre a sua vida desde a meninice até ao presente. Histórias de vida que o marcaram. Concorda, pois, que as Câmara Municipais colaborem e ajudem na sua divulgação. Relativamente ao blogue, é um trabalho dos diferentes escritores, solicitando o envio de textos para a respetiva integração no mesmo, nomeadamente, livros, congressos em que participaram, apresentações, entrevistas, etc. Este é um trabalho que fica para sempre. Pode ser impresso, estudado, trabalhado. É um oferecimento de trabalho cívico. Ernesto Rodrigues referenciou o apoio também a autores não nascidos na região, mas aqui ligados pela escrita, como é o caso de Teresa Martins Marques. ---------------------------------------------------------------
Seguiu-se o último ponto, o ----------------------------------------------------------------------------------
Ponto 5. Outros assuntos. Sá Gué interveio, congratulando-se por Leonel Brito estar connosco, pessoa que, sendo sua conterrânea, o ajudou muito, quer como autor, quer como editor. Neste caso, na edição de autores, para uma editora da dimensão da sua, surgem sempre alguns constrangimentos, até porque nem as Autarquias estão a apoiar. Lança a ideia da Criação de um Centro de Estudos Transmontanos, sobre autores e novos autores que têm trabalhos realizados, concretamente de mestrados e doutoramentos, e que mereciam ser publicados. A Academia devia ser como um impulsionador nestas situações. Ernesto Rodrigues referiu que, nesta matéria, existe uma experiência muito interessante no Funchal que é o Centro de Estudos do Atlântico, onde, em vez da edição do exemplar completo, só é impresso 1 primeiro capítulo, resumo, de cerca de 16 páginas, e o restante texto é apresentado em CD, que se anexa, tornando-se assim mais barato e com maior facilidade de acesso ao público em geral. Deu, ainda, o exemplo das Memórias Arqueológico-Históricas… do Abade de Baçal, apresentadas no blogue da Academia, que Leonel Brito sustenta e coordena. Referiu, também, haver online muitas teses de doutoramento e dissertações de mestrados, cujos autores não autorizam a recolha de elementos. A Academia poderia realizar esse trabalho, contribuindo, assim, como uma fonte de receitas, situação a estudar, levando um preço simbólico por cada consulta. É seu parecer que nenhuma editora arriscaria investir em tais trabalhos. Teresa Matyins Marques referiu a existência de textos para diferentes universos, em que as citações seriam recolhidas com download directo, com um público especializado e mais barato para todos. Leonel Brito confirmou a informação de Teresa Marques, dando, como exemplo, um filme que fez com Rogério Rodrigues e se encontra como documento na biblioteca da Câmara de Torre de Moncorvo, e também no blogue “Farrapos de Memória”, que teve quase 1 milhão de visitas, tornando inviável o seu controlo. Referiu-se à biblioteca digital, e à passagem do pergaminho ao papel, até ao digital. Mesmo o CD ‒ considerou ‒ vai desaparecer. Ernesto Rodrigues solicitou a António Tiza que desse a informação sobre o 3º Encontro Livreiro que se realizara no anterior fim-de-semana (sábado) na livraria Rosa D`Ouro, em Bragança, participado por livrarias dos distritos de Vila Real e Bragança, e vários Autores. A Academia também esteve presente, oferecendo a sua colaboração. Após um pequeno resumo de como decorreu, Sá Gué acrescentou que a ideia resultante deste Encontro é fazer circular pelas diferentes livrarias os autores nas suas apresentações, donde resultava que, se, antes, só se viam nas livrarias as grandes editoras, neste momento, as pequenas já têm alguma visibilidade. Teresa Martins Marques acrescentou ser também necessário que as apresentações de obras de autores se concretizem em novas formas, com alguma criatividade, dando o exemplo de uma entrevista ao próprio autor.-----------
Questionando os presentes  sobre se alguém desejaria falar, o que não aconteceu, o Presidente da Mesa da Assembleia deu por finda a Assembleia Geral cerca das 13 H.--------------------------
Da mesma, elaborou-se a presente Acta que vai ser datada e assinada pelos elementos da Assembleia Geral.

Bragança, 1 de Março de 2014.

Ernesto Rodrigues
Maria da Assunção Anes Morais
Idalina Brito


30 março 2015

Testemunho de Ernesto Rodrigues

Testemunho de Ernesto Rodrigues
Docente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, recém-eleito diretor do CLEPUL, Ernesto Rodrigues é também ensaísta, jornalista, ficcionista, poeta, tradutor, além de membro ativo da Academia de Letras de Trás-os-Montes, que ajudou a fundar. Com mais de 80 títulos publicados, com toda justiça, acaba de ser homenageado em Bragança pelos seus 40 anos de vida literária.

Neste testemunho, recorda seu encontro com a obra e a figura Jorge de Sena. O texto de sua autoria a que alude encontra-se em “95. A morte do Papa“.



Fonte: http://www.lerjorgedesena.letras.ufrj.br/vida/novo-testemunho-de-ernesto-rodrigues/

Voto de Pesar pelo falecimento de Amadeu Ferreira




Clique na imagem para ler o documento.

27 março 2015

Panegírico à Vida em Belheç/Velhice de Fracisco Niebro (Amadeu Ferreira)


Norberto Veiga[1]

“A velhice não afasta necessariamente os homens da vida ativa porque há
uma atividade muito própria dos velhos: muitos continuam a servir
a pátria com a sua prudência e autoridade; outros entregam-se ao estudo
das letras e das ciências; alguns, ao cultivo das terras”.
[Cícero, De Senectute, sublinhado meu][2]


Manuel da Fonseca num dos contos da obra O fogo e as cinzas, “O Largo”, escreveu “o Largo era o centro do mundo”. Parece-me ser essa a intenção de Fracisco Niebro, no introito da obra, ao colocar o protagonista do relato, “um velho”, enfatizo a utilização do determinante indefinido, sentado na ombreira da sua porta, isto é, na rua, que dá para um largo [8] da qual faz o centro do “seu” mundo. O velho assume na primeira pessoa o relato da vida, com laivos autobiográficos do autor. Embora o mundo, para ele, seja tão só a sua aldeia, “Nos meus oitenta anos quase não saí daqui. O mundo é grande. (…) Por isso, o centro só pode ficar onde ponho a ponta da minha bengala” [30]. Esta ideia é, de novo, reforçada na página 52, onde se lê: “Passo os dias sentado no poial de pedra da rua: quem passa olha para mim”. Esta atitude reflexiva do velho, sobre as pessoas da sua aldeia, coloca o leitor, por sinédoque, perante o espetáculo do mundo e leva-o à autognose. A tarefa é árdua mas ele não desiste de recordar/escrever para nos questionar: “Desde que estou aqui sentado na rua já passaram mais de cem pessoas” [98].  
Qual é, então, o propósito do velho/da obra? As intenções são várias. Em primeiro lugar, reiteramos a questionação do leitor para o levar à reflexão sobre a vida e a melhor forma de a “merecer”. Por isso, o autor nos faculta uma espécie de manual, isto é, uma carta de intenções que, segundo creio, constituiu a sua filosofia/ideias de vida, fixada na página 38, sempre atual e de muita utilidade para o cidadão hodierno.
A reflexão do velho, escrita com grandes dificuldades físicas, é feita em flashback recordando as memórias do passado para chegar à desconfortável conclusão: “Há coisas, por exemplo cantigas, em que já não caibo, mundos que parecem já nada querer ter a ver comigo” [8]. Estas palavras trazem à memória do leitor a réplica de Beresford a Principal Sousa, da obra Felizmente Há Luar! de Luís de Sttau Monteiro: “O velho está sempre a ceder perante o novo e o novo sempre a destruir o velho”[3]. Parece-me que é também para isto que a personagem/narrador velho escreve, ou seja, para ser memória futura do povo e das tradições que enformaram a sua vida e que persistem em continuar, apesar da veracidade das palavras de Beresford.
Por conseguinte, o velho, ciente do inexorável curso de Apolo, decide perpetuar a sua memória através da escrita, como o autor afirma: “Depois, veio-me a vontade de escrever”, que lemos na segunda página da obra [8]. Esta vontade, em meu juízo, traduz-se em dois propósitos: o primeiro, em não deixar morrer as tradições e a língua de um povo, pelas quais o autor se bateu, de forma abnegada, ao logo da sua vida; o segundo cumpre-se no legítimo e almejado desejo do homem, Amadeu Ferreira, em nos legar uma obra perene que jamais possa ser ignorada. Esta postura lembra o tópico da imortalidade que se adquire pelo valor da obra literária, imortalizado na ode XXX, do livro terceiro de Horácio[4].
O ato de escrita aprece-nos, nesta obra, associado ao alimento que prende o escritor à vida: “escrever é como um alimento que me vai mantendo vivo, tal como a bengala me permite manter-me de pé” [56]. Logo, a escrita, aliada à sabedoria da palavra, que é equiparada a diamante que brilha [20], remete, em minha opinião, para a possibilidade de a literatura transformar o mundo real. Pois, como assevera Vítor Aguiar e Silva, na obra Teoria da Literatura: “O escritor, ao emitir o seu texto não só transfigura o real nomeado ou aludido, mas reinventa e instaura o próprio real, o real absoluto, com a urdidura encantatória do seu discurso[5]”. Nesta postura do escritor fulge a figura de Prometeu que, latu sensu, simboliza a capacidade de a comunicação literária contribuir para transformar o real, o real antropológico e o real histórico-social. Estas palavras do autor de Velhice corroboram estes preceitos: “Gostam de sentir que as histórias têm uma vida diferente, como os sonhos. As histórias ensinam a sonhar e falam de um mundo tão diferente que fazem nascer a vontade de mudar aquele em que vivemos” [108]. No entanto, esta força performativa da palavra pode ser ineficaz se o leitor se recusar a aceitá-la, como se depreende das palavras do autor: “Pensamos que já sabemos tanto que nunca somos capazes de encontrar um espaço para aprender” [64].
Na base destas preocupações patenteia-se a ideia angustiante do esquecimento que para o escritor se assemelha à morte: “Estar só não é morrer, é não nascer. Uma pessoa morre quando já ninguém olha para ela” [32][6]. Creio não restarem dúvidas aos leitores mais assíduos da obra de Amadeu Ferreira que a sua luta, ou melhor a sua escrita, foi sempre esta pugna hercúlea contra o esquecimento, que, não raras vezes, dói mais que a própria morte. É por esta ordem de razões, que se aceita que toda a vasta produção literária de Amadeu Ferreira, e esta em particular, foi animada pelo anseio de se “libertar da lei morte”.
Outro grande filão do livro cumpre-se no título desta crítica, isto é, o elogio da vida, sempre associado à ousadia e à vontade de querer vencer e antecipar o futuro, pois: “Apenas é nosso o que fazemos porque o queremos” [50]. Este encómio à vida está patente nas palavras do autor: “Quando olho para trás e vejo o que ficou, sorrio. Houvesse quem fora capaz de sorrir e olhar para a frente… Nada há tão difícil como isso. Olhar para diante mete medo. E com medo ninguém sorri com vontade. E quando ninguém sorri, as coisas e a vida ficam tão pesadas que custam a suportar” [44, sublinhado meu]. Mas por mais espinhosa que seja a nossa missão, em vez de desistir devemos recomeçar, uma vez que: “Quando se perde a vontade de começar, começamos a morrer” [46]. E Amadeu Ferreira foi um exemplo acabado desse recomeçar, porque a energia e a força telúrica, imortalizada por Torga, que sorvia das arribas do Douro, o impelia a “nunca contentar-se de contente”.
Todavia, uma certa desilusão atormenta o escritor, porque ninguém pensa nada, “Para pensar, há que parar. (…) E como ninguém pensa, nada muda” [28]. Registe-se que o sofrimento está associado à lucidez e à inquietação das pessoas, pois “quem mais sabe mais sofre.” (cf. Pessoa “Se estou só, quero não estar”). O ato de cogitar aumenta o conhecimento e, por conseguinte, o sofrimento: “Até os velhos, porque pensam mais, morrem mais depressa” [28]. O velho acaba por sucumbir ao afirmar: “Por vezes sabe muito bem uma pessoa não se lembrar de nada e ficar encandeada com coisas tão pequeninas como florzinhas de telhado” [126].
Ouso, pois, afirmar, sem ambages e dissídios, que Fracisco Niebro/Amadeu Ferreira se “libertou da lei da morte” e continuará perenemente, como lembra Horácio, a viver na vastíssima e riquíssima obra que nos legou. Pois ele, mais que outrem, teve a coragem de “não morrer”, como se infere das suas palavras: “Apenas há um segredo para uma pessoa não morrer: agarrar-se a uma ideia com tanta força que não mais se desprenda” [34]. Creio não andar longe da verdade ao afirmar que “a ideia” a que Amadeu Ferreira se agarrou foi a difusão e a ratificação da Língua Mirandesa.
Termino apelando à leitura da obra deste ilustre Transmontano/Mirandês na qual são audíveis os ecos de uma luta contínua contra a resignação, o determinismo e o fatalismo, instigando-nos a assumir uma atitude de trabalho abnegado, norteado pelos valores e pela ética, alicerces de qualquer sociedade.

Bragança, 25 de março de 2015





[1] Doutor em Literatura Portuguesa, Universidade de Salamanca.
[2] O diálogo Cato Maior ou De Senectute de Cícero é, segundo Gérard Genette, Palimpsestes, o hipertexto da Belheç/Velhice de Fracisco Niebro.
[3] MONTEIRO, Luís de Sttau, Felizmente Há Luar!, Areal Editores, 1999, pág. 54.
[4] O poeta latino Horácio, nesta ode, fala da importância da obra literária que resistirá, como nenhuma outra, às intempéries naturais e, consecutivamente, ao esquecimento.
[5] AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel, Teoria da Literatura, Livraria Almedina, Coimbra, 1988, 8.ª Ed.ª, p. 334.
[6] Leia-se o poema de Fernando Pessoa, que aqui reproduzo, por me parecer que encerra a mesma filosofia de vida que Fracisco Niebro/Amadeu Ferreira defende nesta e em todas as suas obras: “A morte é a curva da estrada, / Morrer é só não ser visto. / Se escuto, eu te oiço a passada / Existir como eu existo. // A terra é feita de céu. / A mentira não tem ninho. / Nunca ninguém se perdeu. / Tudo é verdade e caminho.” (Sublinhado meu) PESSOA, Fernando, Poesias, Ática, Lisboa, 1942 (15.ª ed.ª 1995), p. 142.

Biografia de Amadeu Ferreira é apresentada em Bragança

Biografia de Amadeu Ferreira é apresentada em Bragança

As obras O Fio das Lembranças – Biografia de Amadeu Ferreira, de Teresa Martins Marques, e Belheç / Velhice, último livro de Amadeu Ferreira, são apresentadas este sábado, 28 de Março, em Bragança. A sessão decorre pelas 11:30 horas, no Centro Cultural Municipal Adriano Moreira.

A biografia de Amadeu Ferreira, escritor e vice-presidente da CMVM falecido no passado dia 1 de Março, será apresentada por António Jorge Nunes, antigo presidente da Câmara de Bragança e amigo do biografado, enquanto Teresa Martins Marques, investigadora do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, fará a apresentação da obra bilingue Belheç / Velhice, em mirandês e português, publicada sob o pseudónimo Fracisco Niebro.

Em baixo seguem as sinopses dos livros e, em anexo, o convite para a sessão.

O Fio das Lembranças – Biografia de Amadeu Ferreira, de Teresa Martins Marques
Esta é a biografia de Amadeu Ferreira (Sendim, 29 de Julho de 1950 – Lisboa, 1 de Março de 2015), professor universitário, jurista, vice-presidente da CMVM, mas também escritor – poeta, romancista, contista, dramaturgo, ficcionista, ensaísta – e tradutor, assumindo o seu nome civil ou vários pseudónimos: Fracisco Niebro, Marcus Miranda, Fonso Roixo. Grande divulgador da língua e cultura mirandesas, para além da própria obra literária, fez traduções para mirandês de Luís de Camões e Fernando Pessoa, da maior parte dos poetas portugueses do século XX, mas também dos latinos Horácio, Catulo e Virgílio, e de Os Quatro Evangelhos.
O livro assume ainda uma vertente de sociografia, ao focar: a infância na Terra de Miranda, mostrando a vida real em Trás-os-Montes, no Portugal profundo dos anos 50 e 60, que via na emigração a alternativa à miséria; a adolescência e juventude nos espaços opressivos dos seminários de Vinhais e Bragança, única saída para o prosseguimento dos estudos dos filhos dos pobres; a expulsão do seminário, por adesão empenhada às doutrinas renovadoras do concílio Vaticano II, em oposição às da hierarquia enfeudada ao concílio de Trento; alguns aspectos da sua intervenção no 25 de Abril e no 25 de Novembro; a militância partidária na extrema-esquerda, a passagem pelo Parlamento e a dissidência ideológica; o vazio, o recomeçar do zero, o curso brilhante de Direito, a carreira fulgurante na CMVM, o professor universitário, impulsionador da criação dos estudos dos Valores Mobiliários na Universidade e co-redactor do respectivo Código, com Carlos Ferreira de Almeida.
A recolha de materiais para esta biografia assenta, em grande parte, numa entrevista de 31 horas feita ao autor e a seus pais, filmada pelo cineasta Leonel Brito, bem como em mais de uma centena de depoimentos de personalidades que conviveram com o biografado e diversos estudos críticos incidindo sobre as obras de Amadeu Ferreira.

Belheç / Velhice, de Fracisco Niebro
Nos anos cinquenta do século XX, um velho de oitenta anos, numa aldeia transmontana, senta-se todos os dias no poial da sua porta de casa e vê passar o mundo nas pessoas da sua aldeia. Este livro pretende ficcionar o que esse velho teria escrito.
O original mirandês é acompanhado de um apoio para leitura em português. A obra, de Fracisco Niebro (pseudónimo de Amadeu Ferreira), tem ilustrações de Manuol Bandarra.


Estamos ao dispor para mais informações.

Com os melhores cumprimentos,


Inês Figueiras

12 março 2015

Ernesto Rodrigues foi eleito director do CLEPUL.

INVESTIGAÇÃO UNIVERSITÁRIA


Ernesto Rodrigues foi eleito director do CLEPUL (CENTRO DE LITERATURAS E CULTURAS LUSÓFONAS E EUROPEIAS DA FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA)
A nova direcção é composta por três mulheres e três homens:
Ernesto Rodrigues, José Eduardo Franco, Luísa Paolinelli, Ana Paula Tavares, Paula Carreira, Luís Pinheiro.
A Faculdade de Letras tem 10 Centros de Investigação. No CLEPUL existem dois tipos de investigadores: integrados (PHD) e colaboradores.
A totalidade dos Centros de Investigação da Faculdade de Letras tem 443 membros na categoria de Integrados. O CLEPUL tem 111 membros nesta categoria.
O CLEPUL foi fundado em 1975, pelo Prof. Jacinto do Prado Coelho.


Ernesto Rodrigues

Torre de Dona Chama, 17-6-1956

10 março 2015

Amadeu Ferreira - Um Santo, por Rogério Rodrigues

O seminário tornou-o um ateu; a vida, um santo.
E morreu, no passado domingo, após uma luta cheia de esperança contra o cancro do cérebro, ele que era um dos melhores cérebros e alma que conheci. O cérebro perdeu-se, a alma é que não.
As cinzas vão renascer nas terras de Sendim (Miranda do Douro) e nas águas do Douro como se antecipassem a Primavera.
Os deuses deram-lhe génio demais para tão curta vida.
No Verão, já o pão recolhido nas eiras (memórias da sua infância) e pintado já o bago da videira, ia fazer 65 anos.
Amadeu Ferreira –e é de um santo que estamos a falar—nasceu em Sendim, de pais analfabetos,  mas sábios; foi seminarista até ao fim do curso (Humanidades, Filosofia e Teologia); preferiu a expulsão a ser uma esperança do clero com viagem prometida para estudos superiores em Roma.
Mergulhado no mundo profano, sobreviveu a dar explicações  em Bragança, em quarto partilhado com Armando Vara, foi dirigente do movimento de extrema esquerda ( PPC(R)/UDP), deputado durante alguns dias, desiludido com a política, irradiado do partido; foi professor de música numa escola da Outra Banda, ainda trabalhou na construção civil, aluno à noite da Faculdade de Direito de que foi o melhor aluno do curso, quer do diurno quer do nocturno.
Conhecemo-nos há 40 anos. Durante tempos, seguindo caminhos não cruzados, não nos encontrámos. Um dia, por casualidade, parámos na mesma estação de serviço. E começámos a conversar como se o último encontro tivesse sido ontem. Eu acabara de receber de França, os três volumes da Histoire intérieure du parti communiste de Philippe Robrieux, um antigo trotkista. Emprestei-lhe os volumes e durante tempos discutimos, ou melhor, debatemos este clássico, onde já aparece a vertente do PCP português. Nada do que é humano era alheio a Amadeu Ferreira.
Terminado o curso, com uma dissertação sobre os Valores Mobiliários cuja bibliografia era escassa ( o último trabalho com alguma profundidade já teria mais de 50 anos ) acabou por ser convidado para a  CMVM (Comissão de Mercados de Valores Mobiliários), onde chegou a vice-presidente e docente da Faculdade de Direito.
Nunca abdicou a boina espanhola nem do bigode. Todos os meses andava 500 quilómetros para visitar os pais e pelas manhãs podíamos vê-lo na horta( como eu vi, num fim de semana que passamos em sua casa) a regar o cebolo ou orgulhar-se das couves tronchudas onde as gotas de orvalho mais pareciam lágrimas de alegria.
Lutador até ao fim, com outros mirandeses, homens de planalto, celtas e judeus, o Amadeu, cuja família tem por alcunha os Bandarras, conseguiu que o mirandês se transformasse, por aprovação na Assembleia da República,  a segunda língua oficial do País. E começou a traduzir  com o pseudónimo, ou heterónimo, como queiram, de Fracisco Niebro ( Niebro em mirandês significa zimbro) a Mensagem de Pessoa, Os Lusíadas, o Asterix, os Quatro Evangelhos da vulgata de S. Jerónimo que os traduzira do hebraico para o latim, e não da versão Septuaginta em grego.
Traduziu os clássicos, que ele tanto amava: Virgílio, Horácio e Catulo. Hesíodo, o poeta do Trabalhos dos Dias será a sua fonte para o livro de poemas Ars Vivendi,Ars Moriendi que eu, a seu pedido, traduzi para mirandês, utilizando um dicionário da sua autoria e do filho Pedro Ferreira, que ainda não está publicado, com a ajuda preciosa de António Cangueiro que, até ao fim dos dias do Amadeu,  foi mais do que o seu secretário. Amadeu lúcido, mas já sem ver, pedia a António que lhe lesse e ditava-lhe os últimos textos que pensou antes de morrer.
Toda ou quase toda a a sua obra e o seu curriculum podem ser consultados nas 295 páginas que Hirondino Fernandes lhe dedica na Bibliografia do Distrito de Bragança (II volume).
Na ficção, baseada em longas investigações  na Torre do Tombo, deixou o Tempo de Fogo, um libelo acusatório das perseguições da Inquisição em terras de Miranda.
Amadeu até na morte foi grande e discreto. Deixou-nos como último acto da sabedoria a Velhice , a lembrar o De Senectute de Cícero.
O jovem que conheci há 40 anos era o mesmo que conheci até ao passado domingo.
Se teve pecados, não lhos conheço. A tê-los, foram já santificados.

Fazes-me falta, Amadeu.

Rogério Rodrigues

Amandeu Ferreira - Um transmontano Invulgar, por António Chaves


Clique na imagem para ampliar

Fonte: Correio do Planalto, nr. 689 de 28/02/2015, pág 8

04 março 2015

Homenagem a Amadeu Ferreira

Caro amigo e companheiro António Tiza, mui digno Vice-Presidente da A.L.T.M.
Como membro da Academia e transmontano de corpo inteiro, venho por este meio apresentar o meu profundo pesar à família do Presidente Amadeu Ferreira pelo seu passamento, após uma brilhante carreira nas mais diversas actividades humanas, incluindo a poesia e a prosa. Foi curta a vida, mas extenso e esplendoroso o legado que nos deixa.
Congratulo-me pelo lançamento da sua biografia e a sua mais recente obra poética, Belleç/ Velhice em mirandês, língua que minha avó paterna e meu pai, mirandeses, falavam e acarinhavam.
Aqui deixo, com estas simples mas sentidas palavras, a homenagem que tão ilustre transmontano merece.
Para todos os membros da Academia os meus respeitosos cumprimentos e para si, meu amigo, um abraço fraterno e solidário.
O companheiro:
Fernando Augusto Ferreirinha Antunes
( Fernando Aldeia)

01 março 2015

FALECIMENTO DE AMADEU FERREIRA



A notícia que não queríamos dar: o falecimento do nosso Presidente, Amadeu Ferreira.
Hoje, 1 de março, de manhã, aos 64 anos, partiu para a eternidade Amadeu Ferreira, o Presidente da Direção da Academia de Letras de Trás-os-Montes, após a mais longa e derradeira batalha da sua vida. Sim, porque muitas outras tinha travado das quais sempre havia saído vencedor: a da língua mirandesa, das letras e cultura transmontanas, do ensino em seus diversos graus, da legalidade e justiça e de muito mais para cuja expressão, neste momento, faltam palavras.
Além de presidir à Academia de Letras, era também presidente da Associação de Língua e Cultura Mirandesas, vice-presidente da Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), professor convidado da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico de Bragança e presidente da Assembleia Geral da Academia Ibérica da Máscara.
 Em 2004, recebeu do Presidente da República a comenda da Ordem do Mérito da República Portuguesa.
É o autor de uma vasta obra em Português e em Mirandês, onde assinava com os pseudónimos Fracisco Niebro, Marcus Miranda e Fonso Roixo, para além do seu nome próprio.
Amadeu Ferreira escreveu obras literárias em poesia e em prosa nas duas línguas que ele tanto amava: o Português e o Mirandês. Publicou também várias obras no domínio do Direito, de que era professor.
 Entre muitas outras, referimos, sem a pretensão de sermos exaustivos:
Poesia: Ars Vivendi / Ars Moriendi (sua obra-prima), Norteando e Cebadeiros;
Prosa: La Bouba de la Tenerie / Tempo de Fogo (versão mirandesa e portuguesa), Cuntas de Tiu Jouquin e Ditos Dezideiros / Provérbios Mirandeses.
É o autor do manifesto da língua mirandesa Lhéngua Mirandesa - Manifesto an Forma de Hino.
Direito: Homicídio Privilegiado e Direito dos Valores Mobiliários.

No domínio da tradução, destaca-se a nossa obra maior, Os Lusíadas, de Luís de Camões, para a língua mirandesa e ainda Os Quatro Evangelhos, a Mensagem de Fernando Pessoa, Astérix e obras de Horácio, Vergílio.
 Colaborador em mirandês, de diversos meios de comunicação social de âmbito regional e nacional: Jornal Nordeste, Mensageiro de Bragança, Diário de Trás-os-Montes e O Público.
No próximo dia 5 de março, quinta-feira, será lançada a grande obra da sua biografia, de Teresa Martins Marques, na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, onde ele era professor. Nesse mesmo evento, será lançada a sua mais recente livra poética, Belheç / Velhice (em Mirandês e Português), sob o pseudónimo de Fracisco Niebro, a obra que não chegou a ver publicada.
A todos os amigos, em nome da Academia de Letras de Trás-os-Montes, faço o convite para participarem no lançamento destas duas obras, na próxima quinta-feira, na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa. Será o momento de prestarmos a nossa homenagem a Amadeu Ferreira, quatro dias volvidos sobre a sua passagem à eternidade.
António Tiza
(Vice-Presidente)

25 fevereiro 2015

TIAGO PATRÍCIO vai à Biblioteca Municipal de Bragança


Apresentação do Livro: 
"Mil Nocenetos e Setenta e Cinco", por António Tiza, Vice-Presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes.



16 fevereiro 2015

BELHEÇ - VELHICE, de Francisco Niebro (Amadeu Ferreira)

Sinopse:

Ne ls anhos cinquenta de l século xx un bielho de uitenta anhos, nua aldé stramontana, senta se to ls dies ne l puial de la sue puorta de casa i bei l mundo a passar nas pessonas de la sue tierra. Este libro pretende ser l que esse tiu haberá screbido.
L oureginal mirandés ye acumpanhado de ua bersion an pertués de apoio para leitura.
------
Nos anos cinquenta do século xx um velho de oitenta anos, numa aldeia transmontana, senta-se todos os dias no poial da sua porta de casa e vê passar o mundo nas pessoas da sua aldeia. Este livro pretende ser o que esse velho teria escrito.
O original mirandês é acompanhado de um apoio para leitura em português.



O autor:
Fracisco Niebro é um dos pseudónimos de Amadeu Ferreira (1950, Sendim, Miranda do Douro). Presidente da ALM (Associaçon de Lhéngua i Cultura Mirandesa) e da Academia de Letras de Trás-os-Montes, é ainda vice-presidente da CMVM (Comissão do Mercado de Valores Mobiliários) e professor convidado da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa.
Autor e tradutor de uma vasta obra em português e em mirandês, também sob os pseudónimos Marcus Miranda e Fonso Roixo. Traduziu Mensagem, de Fernando Pessoa, obras de escritores latinos (Horácio, Virgílio e Catulo), Os Quatro Evangelhos e duas aventuras de Astérix.
Na Âncora Editora publicou as traduções para a língua mirandesa de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, e uma edição comemorativa dos 25 anos da adaptação daquela obra para banda desenhada por José Ruy, com quem também colaborou no álbum Mirandês – História de uma Língua e de um Povo, e correspondente versão em mirandês. É autor de La Bouba de la Tenerie / Tempo de Fogo, primeiro romance publicado simultaneamente em mirandês e português, e das obras Norteando, com fotografias de Luís Borges, Ars Vivendi Ars Moriendi (poesia), Lhéngua Mirandesa – Manifesto an Modo de Hino / Língua Mirandesa – Manifesto em Forma de Hino e Ditos Dezideiros – Provérbios Mirandeses.

LUÍSA DACOSTA - Falecimento

É com enorme pesar que levo ao conhecimento dos nossos associados e amigos que faleceu hoje, 15 de fevereiro, a nossa sócia honorária Luísa Dacosta. O corpo da escritora ficará amanhã depositado no Tanatório Municipal de Matosinhos até à cerimónia da despedida, a realizar entre as 10e as 10 e trinta horas de terça-feira, 17 de fevereiro, após a qual se procederá à cremação do seu corpo.
Natural de Vila Real (1927), Luísa Dacosta completaria amanhã, 16 de fevereiro, 88 anos.
Licenciada em Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, desde muito cedo se interessou pela literatura.
O mar era o tema da sua preferência da sua poesia e das suas crónicas,  numa abordagem centrada nas mulheres dos pescadores ou das mães dos que partiam para o mar e, muitas vezes, naufragavam.
O tema da condição feminina ocupa também um lugar de destaque na sua escrita – os diários, o romance, o conto, a poesia.
No ano de 2013, a Academia de Letras de Trás-os-Montes dedicou-lhe uma singela homenagem, na sua sede em Bragança, com uma representação teatral a cargo do nosso associado António Afonso e uma dissertação de Hercília Agarez, membro da Direção, sobre a sua pessoa e a sua obra.

A Antologia Literária de Escritoras Transmontanas, que a Academia está a organizar e que, em breve, virá a lume, contempla parte da obra poética de Luísa Dacosta.

António Pinelo Tiza
15-02-2015

10 fevereiro 2015

PASSOS PERDIDOS, de Ernesto Rodrigues - Convite


Academia de Letras, PROGRAMA DE JANEIRO, na Rádio Brigantia - Fracisco Alves




Academia de Letras, PROGRAMA DE JANEIRO, na Rádio Brigantia - Francisco Alves


Pode preencher  a ficha de Inscrição da ALTM AQUI


L mirandés

AguarelaDouro.JPG
“Há palavras que, quando as dizemos, nos deixam com pele de galinha, mas apenas nós nos apercebemos; há sons que nos envolvem como uma onda de calor, mas apenas nós sentimos o gelo que por vezes trazemos dentro de nós a derreter; há trejeitos da língua dentro da boca, falando, que nos fazem cócegas que mais ninguém sente; há ditos que não têm outra maneira de se dizer e ninguém se apercebe quando não conseguimos traduzi-los; há coisas que, quando usamos outra língua para as dizer, soam como estranhas e, no fim, ficamos com a ideia de que não fomos capazes de as dizer. Há palavras, sons, ditos, coisas, que dormiram durante tanto tempo connosco, que se tornaram cama para um lado e quando não nos deitamos para esse lado é como dormir sobre uma pedra.”
Amadeu Ferreira, in Língua Mirandesa – Manifesto em Forma de Hino

AmadeuFerreira_AncoraEdit.jpg
 Miranda do Douro lutou sempre pela sua identidade, e o mesmo se pode dizer de Amadeu Ferreira. Natural de Sendim, este mirandês tem uma história singular ligada à sua língua materna.

19 janeiro 2015

A Biblioteca de Babel, Jorge Luís Borges, por José Mário Leite

Do editor de texto à wikipédia
(de Gutenberg a Borges)
  
“ O universo (a que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido e, talvez infinito, de galerias hexagonais...”

“...por uma linha razoável ou uma notícia correcta há léguas de insensatas cacofonias, de embrulhadas verbais e incoerências.”

A Biblioteca de Babel, Jorge Luís Borges

Borges e a embaixada Moncorvense
Este meu texto não faz parte da wikipédia. Pertencerá ao ciberespaço quando o Leonel de Brito o publicar no seu blog ou noutro local que entenda. Mas está, de há muito, contemplado na Divina Biblioteca pormenorizadamente concebida e descrita pelo escritor argentino de ascendência moncorvense, Jorge Luis Borges. Não só este texto mas todos os outros que o antecederam (usei algumas crónicas antigas e outros registos meus para o elaborar), bem como todas as versões, correções e revisões que com a ajuda e contributo da Lurdes concorreram para a versão final que enviei ao Lelo de Moncorvo. E todas as variações que venha mais tarde a conceber, escreva-as ou não, publique-as ou guarde-as na gaveta do meu computador. Usando já não caneta de tinta permanente ou esferográfica, mas o editor de texto que me permite escolher sucessivamente cada um dos caracteres do alfabeto justapondo-os para compor palavras e agrupando-as para formar frases, parágrafos, textos tal como Johannes Gutenberg concebeu e implementou. Na prática nasceu no século XV, pelas mãos deste inventor germânico o primeiro editor de texto. Tal como a wikipédia tem a sua génese em Buenos Aires na descrição borgiana. Os computadores e os programas informáticos que hoje usamos com os mesmos fins apenas vieram mecanizar e facilitar a sua utilização. Sendo certo que com a possibilidade de introdução de imagens os editores de texto realizam a totalidade da proposição gutenbergiana, já a wikipédia tem ainda um longuíssimo caminho (provavelmente de extensão infinita) para realizar a conceção borgiana apesar da sua (aparente) limitação.
 É por causa desta suposta limitação que a seguir descrevo que me é apontada a falta de rigor quando (re)afirmo a existência deste texto no universo hexagonóide – apesar das dúvidas que me assaltam sobre o acerto do uso desta palavra ela existe em número quase infinito no referido repositório – tal como recentemente garanti que o célebre e celebrado Aleph está ali contido, descrito e explicado. Porque, o sistema descrito e largamente difundido tem regras precisas e limitativas. Os volumes que compõem o universo de Babel têm um formato rígido: quatrocentas e dez páginas cada um, quarenta linhas por página e oitenta caracteres por linha. Um milhão, trezentos e doze mil simbolos gráficos iguais ou diferentes, os que Gutenberg idealizou e usou e todos os demais sucedânios. Como posso eu garantir que cabem neste “espartilho” os textos que escrevo e as descrições do própio autor das Ficções? Porque, como atrás fui “desvendando” essa limitação é aparente. Existe, suponho eu, apenas para satisfazer o génio exigente do autor e para que a descrição obedecesse ao seu critério de descrição exaustiva. Que aliás, independentemente, dessa mesma “métrica” a própria descrição traz consigo a forma de dela se libertar.
Como a biblioteca tem uma extensão tendencialmente infinita, garantindo a exaustão de todas as combinações permite que qualquer obra com dimensão superior ao modelo base seja perfeitamente possível que a descrição perfeita no tamanho modular terá a correspondente continuação num outro local, num outro volume. Que pode, como a seguir se demonstrará, ter um tamanho igual ou inferior ao padrão. Porque um dos caracteres aceites é o espaço, que é o separador de palavras. Por isso mesmo haverá inúmeros documentos com tantas repetições do caracter espaço, quantas as necessárias para que os restantes se combinem em todos os textos que garantam o tamanho efetivo (conjunto de caracteres legíveis) que se pretender, inferior ao standard e com a formatação desejada. Resolvido o tamanho superior e inferior tudo o resto fica, por definição, contemplado na belíssima prosa de Borges.

Tal como o processador de texto potencia e realiza o conceito de Gutenberg, igualmente os computadores podem ser programados para materealizarem a fabulosa biblioteca que apenas pôde existir concetualmente. Basta escrever um programa simples que produza, sucessivamente e em ciclos iterativos, todos os caracteres dos diferentes alfabetos, para cada uma das posições de cada uma das obras. O repositório deverá ser digital. Não só porque será de difícil armazenamento se passado a papel, como isso permitirá por um lado usar as ferramentas de pesquisa e fazer uma depuração de tudo o que objetivamente não faça qualquer sentido de forma simples e automática que, como o próprio autor admitiu, em nada diminui a grandeza do empreendimento. “A Biblioteca é tão enorme que toda a redução de origem humana se torna infinitésima”. Humana ou mecânica, acrescentaria eu, desde que limitada ao acessório e consensualmente aceite como desnecessário e absurdo, tal como a repeitção exaustiva de um único caracter.
Mesmo tendo em devida conta uma outra limitação de apenas serem admissíveis vinte e cinco símbolos gráficos –  às vinte e duas letras do alfabeto juntou dois sinais de pontuação,  a vírgula e o ponto, acrescidos do espaço. Mas como todos os caracteres serão conjugados em todas as suas combinações possíveis, facilmente se deduz que em algumas dessas variações parecerá a descrição dos caracteres “em falta”. Com esses mesmos símbolos, que não haja dúvida alguma, para além de inúmeras obras inúteis, disparatadas, sem qualquer sentido, absolutamente estúpidas e horríveis, tudo o resto que interessa existe neste local fabuloso, ali hão-de existir todas as biografias de todos os homens que nasceram, que hão-de nascer e que nunca nascerão. As reais, as romanceadas e as totalmente inventadas.
Existirão todos os tratados científicos, a sua prova e a sua refutação. Verdadeiras e falsas.
Todos os romances, todas as edições, todas as revisões, análises criticas, ensaios elogios e detracções.
Todos os livros escritos, pensados, corrigidos, destruídos, editados, “engavetados”, deitados no lixo, rasurados ou simplesmente esboçados...desde que tenham o formato de 410 páginas com 40 linhas de 80 caracteres. E, ainda assim para qualquer livro ali existente haverá igualmente, na mesma, milhões de livros quase iguais e outros tantos absolutamente opostos. Quer nos textos, quer nos conceitos. Para um dado livro há trinta e dois milhões, e oitocentos mil livros que diferem deste apenas num caracter (nmero que resulta da multiplicação de 25 – número de caracteres diferentes admitidos por Borges – pelos 1.312.000 caracteres que cada livro tem). Assim se pode imaginar o valor astronómico que um único tema pode suscitar nesta fabulosa estrutura.
E, como atrás demonstrei, todos os que possam ter um tamanho inferior. Ou superior. Desde que possa ser obtido pela junção de um ou vários dos outros de tamanho padrão ou outro.

Haverá quem garanta que este desiderato concorre com a intenção da Unesco de reconstruir a fabulosa Biblioteca de Alexandria onde se reúnam cópias de todas as obras existentes. De todas as obras relevantes, entenda-se.
Apesar de ambas as Bibliotecas terem uma vocação universal, as semelhanças terminam aí. Uma delas existe desde sempre e será eterna. A sua criação “só pode ser obra de um deus”. A outra é obra humana e a sua existência limitada no tempo (foi criada na antiguidade, destruída, foi reconstruída e há-de destruir-se um dia, por causas naturais ou outras).
Na Biblioteca de Babel há, garantidamente a história detalhada da Biblioteca de Alexandria. O pormenorizado relato do seu nascimento e destruição. Do seu renascimento e do fim definitivo, com a marca exata do tempo e circunstâncias em que acontecerá. E todas as histórias e lendas, verdadeiras e falsas e as negações das mesmas, associadas ou associáveis ao arquivo egípcio.
Na Biblioteca da Alexandria não há nenhum livro que descreva exaustivamente e com exactidão a Biblioteca Universal. Nenhum relatará a sua génese. Nenhum terá notícia da sua extinção.
A primeira “perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta”.
A segunda, limitada no tempo e no espaço, interactiva, útil e adulterável será pública e dedicada exclusivamente a “disseminar o conhecimento entre os diferentes povos e nações do mundo”. Apesar de monumental será limitada também no espaço e destinar-se-á a conter os tratados científicos devidamente certificados e so seus eventuais contraditórios se, e APENAS SE estes forem relevante para o conhecimento.

Este meu escrito (ou qualquer um que eu venha a escrever, por muito que viva e escreva) não tem lugar na mais pequena e insignificante estante da Biblioteca egípcia. Nem tão pouco num dos seus inúmeros caixotes do lixo...
Contrariamente, existe, desde sempre, na Biblioteca Universal. Escrevi-o mas poderia simplesmente tê-lo encontrado. Não o fiz porque seria tarefa bem mais complexa e incomensuravelmente mais demorada. Artigos com esta dimensão, assinados por mim e com este título, existem milhões na Biblioteca Universal. Desde os que diferem deste apenas numa letra, numa vírgula ou na simples disposição gráfica, até aos que, igual a este têm apenas e precisamente o título e a assinatura. Um deles era exactamente igual ao descrito por Jorge Luís Borges, excepto nestas duas características: tinha o título igual a este e era assinado com o meu nome. O seu conteúdo, contudo, era precisamente a repetição exaustiva e enfática dos caracteres M C V tal como o livro de quatrocentas e dez páginas encontrado pelo pai do escritor argentino, num hexágono do circuito quinze noventa e quatro da Biblioteca original.
Provavelmente consumiria toda a minha vida para o identificar. Encontrar uma determinada obra na Biblioteca é milhões de vezes mais difícil do que ganhar o totoloto. É por isso mais fácil escrever o que quer que seja, desde uma simples nota de rodapé a uma obra-prima, do que encontrá-lo na sua verdadeira e genuína forma na Biblioteca de Babel. Pelo contrário, no repositório magrebino não há obras que não tenham sido devidamente escritas e,quase exclusivamente, na sua versão final. Encontrar qualquer uma delas poderá ser difícil, mas incomparavelmente mais simples porque não se confundirá com nenhuma das que a mimetizam e que aqui não têm lugar.
  
Nota Final:

Pode parecer que em tese se afirma foi Borges o inventor da Biblioteca de Babel a que também chamou de Biblioteca Divina ou Biblioteca Universal. Não. Jorge Luís Borges apenas a teorizou. Regulou-a. Estabeleceu os fundamentos teóricos e a sustentação programática da sua existência. Postulou as leis, os princípios, a regulamentação e a estrutura a que obedece. Numa lógica borgiana com requisitos particulares “factuais” e até restritivos, como era seu apanágio. Mas esta biblioteca existe desde sempre. Como ele próprio, aliás, claramente afirma.
Nem sequer é dele a primeira descoberta. A enunciação e implementação do princípio fundador. Este pertence a Johannes Gutenberg no ido século XV.
Borges teorizou-a. Nada fez para a implementar. Mas a sua concretização física já está em marcha. Em computadores, claro. De forma desordenada, ainda. Pouco sistemática. Sem obediência rigorosa às regras. Não há a conjugação exaustiva de todos os caracteres (há alguns que são muitíssimo mais usados que os outros). Por um lado, são raríssimos os textos com um único carácter, por outro existem muitos textos absolutamente iguais o que, sendo um desperdício representam também uma desobediência clara aos postulados primários.
Mas nem são essas as maiores lacunas da implementação, dita virtual, da BIBLIOTECA. O pior é a falta dos escritos em línguas desconhecidas e os tratados e enunciados sobre coisas e acontecimentos ainda não inventados nem ocorridos.
Começou com Alan Turing na primeira metade do século XX em que foi possível guardar e organizar informação em máquinas eletrónicas. Teve um incremento substancial na segunda metade com Timothy Berners-Lee com a introdução da world wide web e de forma mais organizada com a wikipédia de Jimmy Wales e Larry Sanger já neste século. Não é A BIBLIOTECA DE BABEL, mas é um começo com a virtualidade de mostrar a forma que o Divino Repositório poderá/deverá ter quando forem cumpridas todos os postulados borgianos.
Abusivamente (ou não) acrescentarei a estes, um princípio básico que carece de demosntração pela evidência intrínsica da sua formulação, tal como Wolf Singer o enunciou: “ Com 26 letras é possível escrever a literatura de todo o mundo pela simples recombinação dessas letras de modo flexível”

José Mário Leite

12 janeiro 2015

O MEDO DO SEXO, UMA OBSESSÃO PERMANENTE! O FIO DAS LEMBRANÇAS, por Teresa Martins Marques

 Teresa Martins Marques e Amadeu Ferreira
(Excerto da Biografia que escrevo sobre Amadeu Ferreira)

O seminário de São José de Bragança dispunha de um regulamento datado de Março de 1934, qe era também preceituado em Vinhais. Trata-se de um opúsculo de 88 páginas e 175 artigos. O seu autor, D. Luís de Almeida, colige vários regulamentos “já abonados pelos bons resultados da sua adopção”. Consultei a edição em vigor ao tempo em que Amadeu Ferreira frequentou estes seminários, ou seja, a 2ª edição, revista e retocada, publicada na Escola Tipográfica, em Junho de 1957, com prefácio de D. Abílio Vaz das Neves, que nos diz: “ O Regulamento de um seminário é a estrutura moral da vida de formação de um neo-sacerdote. Tomado como tal, e observado com consciência, ajuda maravilhosamente a formar os caracteres dos obreiros da vinha do Senhor […] lapidando pedras preciosas, ajudando a edificação da Jerusalém Celeste.”

Este regulamento era instilado na alma dos seminaristas, que deviam “estimá-lo em grande apreço, manuseá-lo frequentemente deixando-se impregnar e saturar o seu espírito”, através da leitura semanal, comentada no refeitório e noutros lugares, que o Reitor entendesse oportunos (pp. 31 e 69).