27 março 2015

Panegírico à Vida em Belheç/Velhice de Fracisco Niebro (Amadeu Ferreira)


Norberto Veiga[1]

“A velhice não afasta necessariamente os homens da vida ativa porque há
uma atividade muito própria dos velhos: muitos continuam a servir
a pátria com a sua prudência e autoridade; outros entregam-se ao estudo
das letras e das ciências; alguns, ao cultivo das terras”.
[Cícero, De Senectute, sublinhado meu][2]


Manuel da Fonseca num dos contos da obra O fogo e as cinzas, “O Largo”, escreveu “o Largo era o centro do mundo”. Parece-me ser essa a intenção de Fracisco Niebro, no introito da obra, ao colocar o protagonista do relato, “um velho”, enfatizo a utilização do determinante indefinido, sentado na ombreira da sua porta, isto é, na rua, que dá para um largo [8] da qual faz o centro do “seu” mundo. O velho assume na primeira pessoa o relato da vida, com laivos autobiográficos do autor. Embora o mundo, para ele, seja tão só a sua aldeia, “Nos meus oitenta anos quase não saí daqui. O mundo é grande. (…) Por isso, o centro só pode ficar onde ponho a ponta da minha bengala” [30]. Esta ideia é, de novo, reforçada na página 52, onde se lê: “Passo os dias sentado no poial de pedra da rua: quem passa olha para mim”. Esta atitude reflexiva do velho, sobre as pessoas da sua aldeia, coloca o leitor, por sinédoque, perante o espetáculo do mundo e leva-o à autognose. A tarefa é árdua mas ele não desiste de recordar/escrever para nos questionar: “Desde que estou aqui sentado na rua já passaram mais de cem pessoas” [98].  
Qual é, então, o propósito do velho/da obra? As intenções são várias. Em primeiro lugar, reiteramos a questionação do leitor para o levar à reflexão sobre a vida e a melhor forma de a “merecer”. Por isso, o autor nos faculta uma espécie de manual, isto é, uma carta de intenções que, segundo creio, constituiu a sua filosofia/ideias de vida, fixada na página 38, sempre atual e de muita utilidade para o cidadão hodierno.
A reflexão do velho, escrita com grandes dificuldades físicas, é feita em flashback recordando as memórias do passado para chegar à desconfortável conclusão: “Há coisas, por exemplo cantigas, em que já não caibo, mundos que parecem já nada querer ter a ver comigo” [8]. Estas palavras trazem à memória do leitor a réplica de Beresford a Principal Sousa, da obra Felizmente Há Luar! de Luís de Sttau Monteiro: “O velho está sempre a ceder perante o novo e o novo sempre a destruir o velho”[3]. Parece-me que é também para isto que a personagem/narrador velho escreve, ou seja, para ser memória futura do povo e das tradições que enformaram a sua vida e que persistem em continuar, apesar da veracidade das palavras de Beresford.
Por conseguinte, o velho, ciente do inexorável curso de Apolo, decide perpetuar a sua memória através da escrita, como o autor afirma: “Depois, veio-me a vontade de escrever”, que lemos na segunda página da obra [8]. Esta vontade, em meu juízo, traduz-se em dois propósitos: o primeiro, em não deixar morrer as tradições e a língua de um povo, pelas quais o autor se bateu, de forma abnegada, ao logo da sua vida; o segundo cumpre-se no legítimo e almejado desejo do homem, Amadeu Ferreira, em nos legar uma obra perene que jamais possa ser ignorada. Esta postura lembra o tópico da imortalidade que se adquire pelo valor da obra literária, imortalizado na ode XXX, do livro terceiro de Horácio[4].
O ato de escrita aprece-nos, nesta obra, associado ao alimento que prende o escritor à vida: “escrever é como um alimento que me vai mantendo vivo, tal como a bengala me permite manter-me de pé” [56]. Logo, a escrita, aliada à sabedoria da palavra, que é equiparada a diamante que brilha [20], remete, em minha opinião, para a possibilidade de a literatura transformar o mundo real. Pois, como assevera Vítor Aguiar e Silva, na obra Teoria da Literatura: “O escritor, ao emitir o seu texto não só transfigura o real nomeado ou aludido, mas reinventa e instaura o próprio real, o real absoluto, com a urdidura encantatória do seu discurso[5]”. Nesta postura do escritor fulge a figura de Prometeu que, latu sensu, simboliza a capacidade de a comunicação literária contribuir para transformar o real, o real antropológico e o real histórico-social. Estas palavras do autor de Velhice corroboram estes preceitos: “Gostam de sentir que as histórias têm uma vida diferente, como os sonhos. As histórias ensinam a sonhar e falam de um mundo tão diferente que fazem nascer a vontade de mudar aquele em que vivemos” [108]. No entanto, esta força performativa da palavra pode ser ineficaz se o leitor se recusar a aceitá-la, como se depreende das palavras do autor: “Pensamos que já sabemos tanto que nunca somos capazes de encontrar um espaço para aprender” [64].
Na base destas preocupações patenteia-se a ideia angustiante do esquecimento que para o escritor se assemelha à morte: “Estar só não é morrer, é não nascer. Uma pessoa morre quando já ninguém olha para ela” [32][6]. Creio não restarem dúvidas aos leitores mais assíduos da obra de Amadeu Ferreira que a sua luta, ou melhor a sua escrita, foi sempre esta pugna hercúlea contra o esquecimento, que, não raras vezes, dói mais que a própria morte. É por esta ordem de razões, que se aceita que toda a vasta produção literária de Amadeu Ferreira, e esta em particular, foi animada pelo anseio de se “libertar da lei morte”.
Outro grande filão do livro cumpre-se no título desta crítica, isto é, o elogio da vida, sempre associado à ousadia e à vontade de querer vencer e antecipar o futuro, pois: “Apenas é nosso o que fazemos porque o queremos” [50]. Este encómio à vida está patente nas palavras do autor: “Quando olho para trás e vejo o que ficou, sorrio. Houvesse quem fora capaz de sorrir e olhar para a frente… Nada há tão difícil como isso. Olhar para diante mete medo. E com medo ninguém sorri com vontade. E quando ninguém sorri, as coisas e a vida ficam tão pesadas que custam a suportar” [44, sublinhado meu]. Mas por mais espinhosa que seja a nossa missão, em vez de desistir devemos recomeçar, uma vez que: “Quando se perde a vontade de começar, começamos a morrer” [46]. E Amadeu Ferreira foi um exemplo acabado desse recomeçar, porque a energia e a força telúrica, imortalizada por Torga, que sorvia das arribas do Douro, o impelia a “nunca contentar-se de contente”.
Todavia, uma certa desilusão atormenta o escritor, porque ninguém pensa nada, “Para pensar, há que parar. (…) E como ninguém pensa, nada muda” [28]. Registe-se que o sofrimento está associado à lucidez e à inquietação das pessoas, pois “quem mais sabe mais sofre.” (cf. Pessoa “Se estou só, quero não estar”). O ato de cogitar aumenta o conhecimento e, por conseguinte, o sofrimento: “Até os velhos, porque pensam mais, morrem mais depressa” [28]. O velho acaba por sucumbir ao afirmar: “Por vezes sabe muito bem uma pessoa não se lembrar de nada e ficar encandeada com coisas tão pequeninas como florzinhas de telhado” [126].
Ouso, pois, afirmar, sem ambages e dissídios, que Fracisco Niebro/Amadeu Ferreira se “libertou da lei da morte” e continuará perenemente, como lembra Horácio, a viver na vastíssima e riquíssima obra que nos legou. Pois ele, mais que outrem, teve a coragem de “não morrer”, como se infere das suas palavras: “Apenas há um segredo para uma pessoa não morrer: agarrar-se a uma ideia com tanta força que não mais se desprenda” [34]. Creio não andar longe da verdade ao afirmar que “a ideia” a que Amadeu Ferreira se agarrou foi a difusão e a ratificação da Língua Mirandesa.
Termino apelando à leitura da obra deste ilustre Transmontano/Mirandês na qual são audíveis os ecos de uma luta contínua contra a resignação, o determinismo e o fatalismo, instigando-nos a assumir uma atitude de trabalho abnegado, norteado pelos valores e pela ética, alicerces de qualquer sociedade.

Bragança, 25 de março de 2015





[1] Doutor em Literatura Portuguesa, Universidade de Salamanca.
[2] O diálogo Cato Maior ou De Senectute de Cícero é, segundo Gérard Genette, Palimpsestes, o hipertexto da Belheç/Velhice de Fracisco Niebro.
[3] MONTEIRO, Luís de Sttau, Felizmente Há Luar!, Areal Editores, 1999, pág. 54.
[4] O poeta latino Horácio, nesta ode, fala da importância da obra literária que resistirá, como nenhuma outra, às intempéries naturais e, consecutivamente, ao esquecimento.
[5] AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel, Teoria da Literatura, Livraria Almedina, Coimbra, 1988, 8.ª Ed.ª, p. 334.
[6] Leia-se o poema de Fernando Pessoa, que aqui reproduzo, por me parecer que encerra a mesma filosofia de vida que Fracisco Niebro/Amadeu Ferreira defende nesta e em todas as suas obras: “A morte é a curva da estrada, / Morrer é só não ser visto. / Se escuto, eu te oiço a passada / Existir como eu existo. // A terra é feita de céu. / A mentira não tem ninho. / Nunca ninguém se perdeu. / Tudo é verdade e caminho.” (Sublinhado meu) PESSOA, Fernando, Poesias, Ática, Lisboa, 1942 (15.ª ed.ª 1995), p. 142.

Biografia de Amadeu Ferreira é apresentada em Bragança

Biografia de Amadeu Ferreira é apresentada em Bragança

As obras O Fio das Lembranças – Biografia de Amadeu Ferreira, de Teresa Martins Marques, e Belheç / Velhice, último livro de Amadeu Ferreira, são apresentadas este sábado, 28 de Março, em Bragança. A sessão decorre pelas 11:30 horas, no Centro Cultural Municipal Adriano Moreira.

A biografia de Amadeu Ferreira, escritor e vice-presidente da CMVM falecido no passado dia 1 de Março, será apresentada por António Jorge Nunes, antigo presidente da Câmara de Bragança e amigo do biografado, enquanto Teresa Martins Marques, investigadora do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, fará a apresentação da obra bilingue Belheç / Velhice, em mirandês e português, publicada sob o pseudónimo Fracisco Niebro.

Em baixo seguem as sinopses dos livros e, em anexo, o convite para a sessão.

O Fio das Lembranças – Biografia de Amadeu Ferreira, de Teresa Martins Marques
Esta é a biografia de Amadeu Ferreira (Sendim, 29 de Julho de 1950 – Lisboa, 1 de Março de 2015), professor universitário, jurista, vice-presidente da CMVM, mas também escritor – poeta, romancista, contista, dramaturgo, ficcionista, ensaísta – e tradutor, assumindo o seu nome civil ou vários pseudónimos: Fracisco Niebro, Marcus Miranda, Fonso Roixo. Grande divulgador da língua e cultura mirandesas, para além da própria obra literária, fez traduções para mirandês de Luís de Camões e Fernando Pessoa, da maior parte dos poetas portugueses do século XX, mas também dos latinos Horácio, Catulo e Virgílio, e de Os Quatro Evangelhos.
O livro assume ainda uma vertente de sociografia, ao focar: a infância na Terra de Miranda, mostrando a vida real em Trás-os-Montes, no Portugal profundo dos anos 50 e 60, que via na emigração a alternativa à miséria; a adolescência e juventude nos espaços opressivos dos seminários de Vinhais e Bragança, única saída para o prosseguimento dos estudos dos filhos dos pobres; a expulsão do seminário, por adesão empenhada às doutrinas renovadoras do concílio Vaticano II, em oposição às da hierarquia enfeudada ao concílio de Trento; alguns aspectos da sua intervenção no 25 de Abril e no 25 de Novembro; a militância partidária na extrema-esquerda, a passagem pelo Parlamento e a dissidência ideológica; o vazio, o recomeçar do zero, o curso brilhante de Direito, a carreira fulgurante na CMVM, o professor universitário, impulsionador da criação dos estudos dos Valores Mobiliários na Universidade e co-redactor do respectivo Código, com Carlos Ferreira de Almeida.
A recolha de materiais para esta biografia assenta, em grande parte, numa entrevista de 31 horas feita ao autor e a seus pais, filmada pelo cineasta Leonel Brito, bem como em mais de uma centena de depoimentos de personalidades que conviveram com o biografado e diversos estudos críticos incidindo sobre as obras de Amadeu Ferreira.

Belheç / Velhice, de Fracisco Niebro
Nos anos cinquenta do século XX, um velho de oitenta anos, numa aldeia transmontana, senta-se todos os dias no poial da sua porta de casa e vê passar o mundo nas pessoas da sua aldeia. Este livro pretende ficcionar o que esse velho teria escrito.
O original mirandês é acompanhado de um apoio para leitura em português. A obra, de Fracisco Niebro (pseudónimo de Amadeu Ferreira), tem ilustrações de Manuol Bandarra.


Estamos ao dispor para mais informações.

Com os melhores cumprimentos,


Inês Figueiras

12 março 2015

Ernesto Rodrigues foi eleito director do CLEPUL.

INVESTIGAÇÃO UNIVERSITÁRIA


Ernesto Rodrigues foi eleito director do CLEPUL (CENTRO DE LITERATURAS E CULTURAS LUSÓFONAS E EUROPEIAS DA FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA)
A nova direcção é composta por três mulheres e três homens:
Ernesto Rodrigues, José Eduardo Franco, Luísa Paolinelli, Ana Paula Tavares, Paula Carreira, Luís Pinheiro.
A Faculdade de Letras tem 10 Centros de Investigação. No CLEPUL existem dois tipos de investigadores: integrados (PHD) e colaboradores.
A totalidade dos Centros de Investigação da Faculdade de Letras tem 443 membros na categoria de Integrados. O CLEPUL tem 111 membros nesta categoria.
O CLEPUL foi fundado em 1975, pelo Prof. Jacinto do Prado Coelho.


Ernesto Rodrigues

Torre de Dona Chama, 17-6-1956

10 março 2015

Amadeu Ferreira - Um Santo, por Rogério Rodrigues

O seminário tornou-o um ateu; a vida, um santo.
E morreu, no passado domingo, após uma luta cheia de esperança contra o cancro do cérebro, ele que era um dos melhores cérebros e alma que conheci. O cérebro perdeu-se, a alma é que não.
As cinzas vão renascer nas terras de Sendim (Miranda do Douro) e nas águas do Douro como se antecipassem a Primavera.
Os deuses deram-lhe génio demais para tão curta vida.
No Verão, já o pão recolhido nas eiras (memórias da sua infância) e pintado já o bago da videira, ia fazer 65 anos.
Amadeu Ferreira –e é de um santo que estamos a falar—nasceu em Sendim, de pais analfabetos,  mas sábios; foi seminarista até ao fim do curso (Humanidades, Filosofia e Teologia); preferiu a expulsão a ser uma esperança do clero com viagem prometida para estudos superiores em Roma.
Mergulhado no mundo profano, sobreviveu a dar explicações  em Bragança, em quarto partilhado com Armando Vara, foi dirigente do movimento de extrema esquerda ( PPC(R)/UDP), deputado durante alguns dias, desiludido com a política, irradiado do partido; foi professor de música numa escola da Outra Banda, ainda trabalhou na construção civil, aluno à noite da Faculdade de Direito de que foi o melhor aluno do curso, quer do diurno quer do nocturno.
Conhecemo-nos há 40 anos. Durante tempos, seguindo caminhos não cruzados, não nos encontrámos. Um dia, por casualidade, parámos na mesma estação de serviço. E começámos a conversar como se o último encontro tivesse sido ontem. Eu acabara de receber de França, os três volumes da Histoire intérieure du parti communiste de Philippe Robrieux, um antigo trotkista. Emprestei-lhe os volumes e durante tempos discutimos, ou melhor, debatemos este clássico, onde já aparece a vertente do PCP português. Nada do que é humano era alheio a Amadeu Ferreira.
Terminado o curso, com uma dissertação sobre os Valores Mobiliários cuja bibliografia era escassa ( o último trabalho com alguma profundidade já teria mais de 50 anos ) acabou por ser convidado para a  CMVM (Comissão de Mercados de Valores Mobiliários), onde chegou a vice-presidente e docente da Faculdade de Direito.
Nunca abdicou a boina espanhola nem do bigode. Todos os meses andava 500 quilómetros para visitar os pais e pelas manhãs podíamos vê-lo na horta( como eu vi, num fim de semana que passamos em sua casa) a regar o cebolo ou orgulhar-se das couves tronchudas onde as gotas de orvalho mais pareciam lágrimas de alegria.
Lutador até ao fim, com outros mirandeses, homens de planalto, celtas e judeus, o Amadeu, cuja família tem por alcunha os Bandarras, conseguiu que o mirandês se transformasse, por aprovação na Assembleia da República,  a segunda língua oficial do País. E começou a traduzir  com o pseudónimo, ou heterónimo, como queiram, de Fracisco Niebro ( Niebro em mirandês significa zimbro) a Mensagem de Pessoa, Os Lusíadas, o Asterix, os Quatro Evangelhos da vulgata de S. Jerónimo que os traduzira do hebraico para o latim, e não da versão Septuaginta em grego.
Traduziu os clássicos, que ele tanto amava: Virgílio, Horácio e Catulo. Hesíodo, o poeta do Trabalhos dos Dias será a sua fonte para o livro de poemas Ars Vivendi,Ars Moriendi que eu, a seu pedido, traduzi para mirandês, utilizando um dicionário da sua autoria e do filho Pedro Ferreira, que ainda não está publicado, com a ajuda preciosa de António Cangueiro que, até ao fim dos dias do Amadeu,  foi mais do que o seu secretário. Amadeu lúcido, mas já sem ver, pedia a António que lhe lesse e ditava-lhe os últimos textos que pensou antes de morrer.
Toda ou quase toda a a sua obra e o seu curriculum podem ser consultados nas 295 páginas que Hirondino Fernandes lhe dedica na Bibliografia do Distrito de Bragança (II volume).
Na ficção, baseada em longas investigações  na Torre do Tombo, deixou o Tempo de Fogo, um libelo acusatório das perseguições da Inquisição em terras de Miranda.
Amadeu até na morte foi grande e discreto. Deixou-nos como último acto da sabedoria a Velhice , a lembrar o De Senectute de Cícero.
O jovem que conheci há 40 anos era o mesmo que conheci até ao passado domingo.
Se teve pecados, não lhos conheço. A tê-los, foram já santificados.

Fazes-me falta, Amadeu.

Rogério Rodrigues

Amandeu Ferreira - Um transmontano Invulgar, por António Chaves


Clique na imagem para ampliar

Fonte: Correio do Planalto, nr. 689 de 28/02/2015, pág 8

04 março 2015

Homenagem a Amadeu Ferreira

Caro amigo e companheiro António Tiza, mui digno Vice-Presidente da A.L.T.M.
Como membro da Academia e transmontano de corpo inteiro, venho por este meio apresentar o meu profundo pesar à família do Presidente Amadeu Ferreira pelo seu passamento, após uma brilhante carreira nas mais diversas actividades humanas, incluindo a poesia e a prosa. Foi curta a vida, mas extenso e esplendoroso o legado que nos deixa.
Congratulo-me pelo lançamento da sua biografia e a sua mais recente obra poética, Belleç/ Velhice em mirandês, língua que minha avó paterna e meu pai, mirandeses, falavam e acarinhavam.
Aqui deixo, com estas simples mas sentidas palavras, a homenagem que tão ilustre transmontano merece.
Para todos os membros da Academia os meus respeitosos cumprimentos e para si, meu amigo, um abraço fraterno e solidário.
O companheiro:
Fernando Augusto Ferreirinha Antunes
( Fernando Aldeia)

01 março 2015

FALECIMENTO DE AMADEU FERREIRA



A notícia que não queríamos dar: o falecimento do nosso Presidente, Amadeu Ferreira.
Hoje, 1 de março, de manhã, aos 64 anos, partiu para a eternidade Amadeu Ferreira, o Presidente da Direção da Academia de Letras de Trás-os-Montes, após a mais longa e derradeira batalha da sua vida. Sim, porque muitas outras tinha travado das quais sempre havia saído vencedor: a da língua mirandesa, das letras e cultura transmontanas, do ensino em seus diversos graus, da legalidade e justiça e de muito mais para cuja expressão, neste momento, faltam palavras.
Além de presidir à Academia de Letras, era também presidente da Associação de Língua e Cultura Mirandesas, vice-presidente da Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), professor convidado da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico de Bragança e presidente da Assembleia Geral da Academia Ibérica da Máscara.
 Em 2004, recebeu do Presidente da República a comenda da Ordem do Mérito da República Portuguesa.
É o autor de uma vasta obra em Português e em Mirandês, onde assinava com os pseudónimos Fracisco Niebro, Marcus Miranda e Fonso Roixo, para além do seu nome próprio.
Amadeu Ferreira escreveu obras literárias em poesia e em prosa nas duas línguas que ele tanto amava: o Português e o Mirandês. Publicou também várias obras no domínio do Direito, de que era professor.
 Entre muitas outras, referimos, sem a pretensão de sermos exaustivos:
Poesia: Ars Vivendi / Ars Moriendi (sua obra-prima), Norteando e Cebadeiros;
Prosa: La Bouba de la Tenerie / Tempo de Fogo (versão mirandesa e portuguesa), Cuntas de Tiu Jouquin e Ditos Dezideiros / Provérbios Mirandeses.
É o autor do manifesto da língua mirandesa Lhéngua Mirandesa - Manifesto an Forma de Hino.
Direito: Homicídio Privilegiado e Direito dos Valores Mobiliários.

No domínio da tradução, destaca-se a nossa obra maior, Os Lusíadas, de Luís de Camões, para a língua mirandesa e ainda Os Quatro Evangelhos, a Mensagem de Fernando Pessoa, Astérix e obras de Horácio, Vergílio.
 Colaborador em mirandês, de diversos meios de comunicação social de âmbito regional e nacional: Jornal Nordeste, Mensageiro de Bragança, Diário de Trás-os-Montes e O Público.
No próximo dia 5 de março, quinta-feira, será lançada a grande obra da sua biografia, de Teresa Martins Marques, na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, onde ele era professor. Nesse mesmo evento, será lançada a sua mais recente livra poética, Belheç / Velhice (em Mirandês e Português), sob o pseudónimo de Fracisco Niebro, a obra que não chegou a ver publicada.
A todos os amigos, em nome da Academia de Letras de Trás-os-Montes, faço o convite para participarem no lançamento destas duas obras, na próxima quinta-feira, na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa. Será o momento de prestarmos a nossa homenagem a Amadeu Ferreira, quatro dias volvidos sobre a sua passagem à eternidade.
António Tiza
(Vice-Presidente)

25 fevereiro 2015

TIAGO PATRÍCIO vai à Biblioteca Municipal de Bragança


Apresentação do Livro: 
"Mil Nocenetos e Setenta e Cinco", por António Tiza, Vice-Presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes.



16 fevereiro 2015

BELHEÇ - VELHICE, de Francisco Niebro (Amadeu Ferreira)

Sinopse:

Ne ls anhos cinquenta de l século xx un bielho de uitenta anhos, nua aldé stramontana, senta se to ls dies ne l puial de la sue puorta de casa i bei l mundo a passar nas pessonas de la sue tierra. Este libro pretende ser l que esse tiu haberá screbido.
L oureginal mirandés ye acumpanhado de ua bersion an pertués de apoio para leitura.
------
Nos anos cinquenta do século xx um velho de oitenta anos, numa aldeia transmontana, senta-se todos os dias no poial da sua porta de casa e vê passar o mundo nas pessoas da sua aldeia. Este livro pretende ser o que esse velho teria escrito.
O original mirandês é acompanhado de um apoio para leitura em português.



O autor:
Fracisco Niebro é um dos pseudónimos de Amadeu Ferreira (1950, Sendim, Miranda do Douro). Presidente da ALM (Associaçon de Lhéngua i Cultura Mirandesa) e da Academia de Letras de Trás-os-Montes, é ainda vice-presidente da CMVM (Comissão do Mercado de Valores Mobiliários) e professor convidado da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa.
Autor e tradutor de uma vasta obra em português e em mirandês, também sob os pseudónimos Marcus Miranda e Fonso Roixo. Traduziu Mensagem, de Fernando Pessoa, obras de escritores latinos (Horácio, Virgílio e Catulo), Os Quatro Evangelhos e duas aventuras de Astérix.
Na Âncora Editora publicou as traduções para a língua mirandesa de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, e uma edição comemorativa dos 25 anos da adaptação daquela obra para banda desenhada por José Ruy, com quem também colaborou no álbum Mirandês – História de uma Língua e de um Povo, e correspondente versão em mirandês. É autor de La Bouba de la Tenerie / Tempo de Fogo, primeiro romance publicado simultaneamente em mirandês e português, e das obras Norteando, com fotografias de Luís Borges, Ars Vivendi Ars Moriendi (poesia), Lhéngua Mirandesa – Manifesto an Modo de Hino / Língua Mirandesa – Manifesto em Forma de Hino e Ditos Dezideiros – Provérbios Mirandeses.

LUÍSA DACOSTA - Falecimento

É com enorme pesar que levo ao conhecimento dos nossos associados e amigos que faleceu hoje, 15 de fevereiro, a nossa sócia honorária Luísa Dacosta. O corpo da escritora ficará amanhã depositado no Tanatório Municipal de Matosinhos até à cerimónia da despedida, a realizar entre as 10e as 10 e trinta horas de terça-feira, 17 de fevereiro, após a qual se procederá à cremação do seu corpo.
Natural de Vila Real (1927), Luísa Dacosta completaria amanhã, 16 de fevereiro, 88 anos.
Licenciada em Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, desde muito cedo se interessou pela literatura.
O mar era o tema da sua preferência da sua poesia e das suas crónicas,  numa abordagem centrada nas mulheres dos pescadores ou das mães dos que partiam para o mar e, muitas vezes, naufragavam.
O tema da condição feminina ocupa também um lugar de destaque na sua escrita – os diários, o romance, o conto, a poesia.
No ano de 2013, a Academia de Letras de Trás-os-Montes dedicou-lhe uma singela homenagem, na sua sede em Bragança, com uma representação teatral a cargo do nosso associado António Afonso e uma dissertação de Hercília Agarez, membro da Direção, sobre a sua pessoa e a sua obra.

A Antologia Literária de Escritoras Transmontanas, que a Academia está a organizar e que, em breve, virá a lume, contempla parte da obra poética de Luísa Dacosta.

António Pinelo Tiza
15-02-2015

10 fevereiro 2015

PASSOS PERDIDOS, de Ernesto Rodrigues - Convite


Academia de Letras, PROGRAMA DE JANEIRO, na Rádio Brigantia - Fracisco Alves




Academia de Letras, PROGRAMA DE JANEIRO, na Rádio Brigantia - Francisco Alves


Pode preencher  a ficha de Inscrição da ALTM AQUI


L mirandés

AguarelaDouro.JPG
“Há palavras que, quando as dizemos, nos deixam com pele de galinha, mas apenas nós nos apercebemos; há sons que nos envolvem como uma onda de calor, mas apenas nós sentimos o gelo que por vezes trazemos dentro de nós a derreter; há trejeitos da língua dentro da boca, falando, que nos fazem cócegas que mais ninguém sente; há ditos que não têm outra maneira de se dizer e ninguém se apercebe quando não conseguimos traduzi-los; há coisas que, quando usamos outra língua para as dizer, soam como estranhas e, no fim, ficamos com a ideia de que não fomos capazes de as dizer. Há palavras, sons, ditos, coisas, que dormiram durante tanto tempo connosco, que se tornaram cama para um lado e quando não nos deitamos para esse lado é como dormir sobre uma pedra.”
Amadeu Ferreira, in Língua Mirandesa – Manifesto em Forma de Hino

AmadeuFerreira_AncoraEdit.jpg
 Miranda do Douro lutou sempre pela sua identidade, e o mesmo se pode dizer de Amadeu Ferreira. Natural de Sendim, este mirandês tem uma história singular ligada à sua língua materna.

19 janeiro 2015

A Biblioteca de Babel, Jorge Luís Borges, por José Mário Leite

Do editor de texto à wikipédia
(de Gutenberg a Borges)
  
“ O universo (a que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido e, talvez infinito, de galerias hexagonais...”

“...por uma linha razoável ou uma notícia correcta há léguas de insensatas cacofonias, de embrulhadas verbais e incoerências.”

A Biblioteca de Babel, Jorge Luís Borges

Borges e a embaixada Moncorvense
Este meu texto não faz parte da wikipédia. Pertencerá ao ciberespaço quando o Leonel de Brito o publicar no seu blog ou noutro local que entenda. Mas está, de há muito, contemplado na Divina Biblioteca pormenorizadamente concebida e descrita pelo escritor argentino de ascendência moncorvense, Jorge Luis Borges. Não só este texto mas todos os outros que o antecederam (usei algumas crónicas antigas e outros registos meus para o elaborar), bem como todas as versões, correções e revisões que com a ajuda e contributo da Lurdes concorreram para a versão final que enviei ao Lelo de Moncorvo. E todas as variações que venha mais tarde a conceber, escreva-as ou não, publique-as ou guarde-as na gaveta do meu computador. Usando já não caneta de tinta permanente ou esferográfica, mas o editor de texto que me permite escolher sucessivamente cada um dos caracteres do alfabeto justapondo-os para compor palavras e agrupando-as para formar frases, parágrafos, textos tal como Johannes Gutenberg concebeu e implementou. Na prática nasceu no século XV, pelas mãos deste inventor germânico o primeiro editor de texto. Tal como a wikipédia tem a sua génese em Buenos Aires na descrição borgiana. Os computadores e os programas informáticos que hoje usamos com os mesmos fins apenas vieram mecanizar e facilitar a sua utilização. Sendo certo que com a possibilidade de introdução de imagens os editores de texto realizam a totalidade da proposição gutenbergiana, já a wikipédia tem ainda um longuíssimo caminho (provavelmente de extensão infinita) para realizar a conceção borgiana apesar da sua (aparente) limitação.
 É por causa desta suposta limitação que a seguir descrevo que me é apontada a falta de rigor quando (re)afirmo a existência deste texto no universo hexagonóide – apesar das dúvidas que me assaltam sobre o acerto do uso desta palavra ela existe em número quase infinito no referido repositório – tal como recentemente garanti que o célebre e celebrado Aleph está ali contido, descrito e explicado. Porque, o sistema descrito e largamente difundido tem regras precisas e limitativas. Os volumes que compõem o universo de Babel têm um formato rígido: quatrocentas e dez páginas cada um, quarenta linhas por página e oitenta caracteres por linha. Um milhão, trezentos e doze mil simbolos gráficos iguais ou diferentes, os que Gutenberg idealizou e usou e todos os demais sucedânios. Como posso eu garantir que cabem neste “espartilho” os textos que escrevo e as descrições do própio autor das Ficções? Porque, como atrás fui “desvendando” essa limitação é aparente. Existe, suponho eu, apenas para satisfazer o génio exigente do autor e para que a descrição obedecesse ao seu critério de descrição exaustiva. Que aliás, independentemente, dessa mesma “métrica” a própria descrição traz consigo a forma de dela se libertar.
Como a biblioteca tem uma extensão tendencialmente infinita, garantindo a exaustão de todas as combinações permite que qualquer obra com dimensão superior ao modelo base seja perfeitamente possível que a descrição perfeita no tamanho modular terá a correspondente continuação num outro local, num outro volume. Que pode, como a seguir se demonstrará, ter um tamanho igual ou inferior ao padrão. Porque um dos caracteres aceites é o espaço, que é o separador de palavras. Por isso mesmo haverá inúmeros documentos com tantas repetições do caracter espaço, quantas as necessárias para que os restantes se combinem em todos os textos que garantam o tamanho efetivo (conjunto de caracteres legíveis) que se pretender, inferior ao standard e com a formatação desejada. Resolvido o tamanho superior e inferior tudo o resto fica, por definição, contemplado na belíssima prosa de Borges.

Tal como o processador de texto potencia e realiza o conceito de Gutenberg, igualmente os computadores podem ser programados para materealizarem a fabulosa biblioteca que apenas pôde existir concetualmente. Basta escrever um programa simples que produza, sucessivamente e em ciclos iterativos, todos os caracteres dos diferentes alfabetos, para cada uma das posições de cada uma das obras. O repositório deverá ser digital. Não só porque será de difícil armazenamento se passado a papel, como isso permitirá por um lado usar as ferramentas de pesquisa e fazer uma depuração de tudo o que objetivamente não faça qualquer sentido de forma simples e automática que, como o próprio autor admitiu, em nada diminui a grandeza do empreendimento. “A Biblioteca é tão enorme que toda a redução de origem humana se torna infinitésima”. Humana ou mecânica, acrescentaria eu, desde que limitada ao acessório e consensualmente aceite como desnecessário e absurdo, tal como a repeitção exaustiva de um único caracter.
Mesmo tendo em devida conta uma outra limitação de apenas serem admissíveis vinte e cinco símbolos gráficos –  às vinte e duas letras do alfabeto juntou dois sinais de pontuação,  a vírgula e o ponto, acrescidos do espaço. Mas como todos os caracteres serão conjugados em todas as suas combinações possíveis, facilmente se deduz que em algumas dessas variações parecerá a descrição dos caracteres “em falta”. Com esses mesmos símbolos, que não haja dúvida alguma, para além de inúmeras obras inúteis, disparatadas, sem qualquer sentido, absolutamente estúpidas e horríveis, tudo o resto que interessa existe neste local fabuloso, ali hão-de existir todas as biografias de todos os homens que nasceram, que hão-de nascer e que nunca nascerão. As reais, as romanceadas e as totalmente inventadas.
Existirão todos os tratados científicos, a sua prova e a sua refutação. Verdadeiras e falsas.
Todos os romances, todas as edições, todas as revisões, análises criticas, ensaios elogios e detracções.
Todos os livros escritos, pensados, corrigidos, destruídos, editados, “engavetados”, deitados no lixo, rasurados ou simplesmente esboçados...desde que tenham o formato de 410 páginas com 40 linhas de 80 caracteres. E, ainda assim para qualquer livro ali existente haverá igualmente, na mesma, milhões de livros quase iguais e outros tantos absolutamente opostos. Quer nos textos, quer nos conceitos. Para um dado livro há trinta e dois milhões, e oitocentos mil livros que diferem deste apenas num caracter (nmero que resulta da multiplicação de 25 – número de caracteres diferentes admitidos por Borges – pelos 1.312.000 caracteres que cada livro tem). Assim se pode imaginar o valor astronómico que um único tema pode suscitar nesta fabulosa estrutura.
E, como atrás demonstrei, todos os que possam ter um tamanho inferior. Ou superior. Desde que possa ser obtido pela junção de um ou vários dos outros de tamanho padrão ou outro.

Haverá quem garanta que este desiderato concorre com a intenção da Unesco de reconstruir a fabulosa Biblioteca de Alexandria onde se reúnam cópias de todas as obras existentes. De todas as obras relevantes, entenda-se.
Apesar de ambas as Bibliotecas terem uma vocação universal, as semelhanças terminam aí. Uma delas existe desde sempre e será eterna. A sua criação “só pode ser obra de um deus”. A outra é obra humana e a sua existência limitada no tempo (foi criada na antiguidade, destruída, foi reconstruída e há-de destruir-se um dia, por causas naturais ou outras).
Na Biblioteca de Babel há, garantidamente a história detalhada da Biblioteca de Alexandria. O pormenorizado relato do seu nascimento e destruição. Do seu renascimento e do fim definitivo, com a marca exata do tempo e circunstâncias em que acontecerá. E todas as histórias e lendas, verdadeiras e falsas e as negações das mesmas, associadas ou associáveis ao arquivo egípcio.
Na Biblioteca da Alexandria não há nenhum livro que descreva exaustivamente e com exactidão a Biblioteca Universal. Nenhum relatará a sua génese. Nenhum terá notícia da sua extinção.
A primeira “perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta”.
A segunda, limitada no tempo e no espaço, interactiva, útil e adulterável será pública e dedicada exclusivamente a “disseminar o conhecimento entre os diferentes povos e nações do mundo”. Apesar de monumental será limitada também no espaço e destinar-se-á a conter os tratados científicos devidamente certificados e so seus eventuais contraditórios se, e APENAS SE estes forem relevante para o conhecimento.

Este meu escrito (ou qualquer um que eu venha a escrever, por muito que viva e escreva) não tem lugar na mais pequena e insignificante estante da Biblioteca egípcia. Nem tão pouco num dos seus inúmeros caixotes do lixo...
Contrariamente, existe, desde sempre, na Biblioteca Universal. Escrevi-o mas poderia simplesmente tê-lo encontrado. Não o fiz porque seria tarefa bem mais complexa e incomensuravelmente mais demorada. Artigos com esta dimensão, assinados por mim e com este título, existem milhões na Biblioteca Universal. Desde os que diferem deste apenas numa letra, numa vírgula ou na simples disposição gráfica, até aos que, igual a este têm apenas e precisamente o título e a assinatura. Um deles era exactamente igual ao descrito por Jorge Luís Borges, excepto nestas duas características: tinha o título igual a este e era assinado com o meu nome. O seu conteúdo, contudo, era precisamente a repetição exaustiva e enfática dos caracteres M C V tal como o livro de quatrocentas e dez páginas encontrado pelo pai do escritor argentino, num hexágono do circuito quinze noventa e quatro da Biblioteca original.
Provavelmente consumiria toda a minha vida para o identificar. Encontrar uma determinada obra na Biblioteca é milhões de vezes mais difícil do que ganhar o totoloto. É por isso mais fácil escrever o que quer que seja, desde uma simples nota de rodapé a uma obra-prima, do que encontrá-lo na sua verdadeira e genuína forma na Biblioteca de Babel. Pelo contrário, no repositório magrebino não há obras que não tenham sido devidamente escritas e,quase exclusivamente, na sua versão final. Encontrar qualquer uma delas poderá ser difícil, mas incomparavelmente mais simples porque não se confundirá com nenhuma das que a mimetizam e que aqui não têm lugar.
  
Nota Final:

Pode parecer que em tese se afirma foi Borges o inventor da Biblioteca de Babel a que também chamou de Biblioteca Divina ou Biblioteca Universal. Não. Jorge Luís Borges apenas a teorizou. Regulou-a. Estabeleceu os fundamentos teóricos e a sustentação programática da sua existência. Postulou as leis, os princípios, a regulamentação e a estrutura a que obedece. Numa lógica borgiana com requisitos particulares “factuais” e até restritivos, como era seu apanágio. Mas esta biblioteca existe desde sempre. Como ele próprio, aliás, claramente afirma.
Nem sequer é dele a primeira descoberta. A enunciação e implementação do princípio fundador. Este pertence a Johannes Gutenberg no ido século XV.
Borges teorizou-a. Nada fez para a implementar. Mas a sua concretização física já está em marcha. Em computadores, claro. De forma desordenada, ainda. Pouco sistemática. Sem obediência rigorosa às regras. Não há a conjugação exaustiva de todos os caracteres (há alguns que são muitíssimo mais usados que os outros). Por um lado, são raríssimos os textos com um único carácter, por outro existem muitos textos absolutamente iguais o que, sendo um desperdício representam também uma desobediência clara aos postulados primários.
Mas nem são essas as maiores lacunas da implementação, dita virtual, da BIBLIOTECA. O pior é a falta dos escritos em línguas desconhecidas e os tratados e enunciados sobre coisas e acontecimentos ainda não inventados nem ocorridos.
Começou com Alan Turing na primeira metade do século XX em que foi possível guardar e organizar informação em máquinas eletrónicas. Teve um incremento substancial na segunda metade com Timothy Berners-Lee com a introdução da world wide web e de forma mais organizada com a wikipédia de Jimmy Wales e Larry Sanger já neste século. Não é A BIBLIOTECA DE BABEL, mas é um começo com a virtualidade de mostrar a forma que o Divino Repositório poderá/deverá ter quando forem cumpridas todos os postulados borgianos.
Abusivamente (ou não) acrescentarei a estes, um princípio básico que carece de demosntração pela evidência intrínsica da sua formulação, tal como Wolf Singer o enunciou: “ Com 26 letras é possível escrever a literatura de todo o mundo pela simples recombinação dessas letras de modo flexível”

José Mário Leite

12 janeiro 2015

O MEDO DO SEXO, UMA OBSESSÃO PERMANENTE! O FIO DAS LEMBRANÇAS, por Teresa Martins Marques

 Teresa Martins Marques e Amadeu Ferreira
(Excerto da Biografia que escrevo sobre Amadeu Ferreira)

O seminário de São José de Bragança dispunha de um regulamento datado de Março de 1934, qe era também preceituado em Vinhais. Trata-se de um opúsculo de 88 páginas e 175 artigos. O seu autor, D. Luís de Almeida, colige vários regulamentos “já abonados pelos bons resultados da sua adopção”. Consultei a edição em vigor ao tempo em que Amadeu Ferreira frequentou estes seminários, ou seja, a 2ª edição, revista e retocada, publicada na Escola Tipográfica, em Junho de 1957, com prefácio de D. Abílio Vaz das Neves, que nos diz: “ O Regulamento de um seminário é a estrutura moral da vida de formação de um neo-sacerdote. Tomado como tal, e observado com consciência, ajuda maravilhosamente a formar os caracteres dos obreiros da vinha do Senhor […] lapidando pedras preciosas, ajudando a edificação da Jerusalém Celeste.”

Este regulamento era instilado na alma dos seminaristas, que deviam “estimá-lo em grande apreço, manuseá-lo frequentemente deixando-se impregnar e saturar o seu espírito”, através da leitura semanal, comentada no refeitório e noutros lugares, que o Reitor entendesse oportunos (pp. 31 e 69).

09 janeiro 2015

Tempo e memória em El Color de las Hayas de Epigmenio Rodrígues, por Norberto da Veiga

Tempo e memória em El Color de las Hayas de Epigmenio Rodrígues

Por Norberto Francisco Machado da Veiga[1]

Este primeiro andamento da trilogia “DE INFERNIS” deixa, desde já, uma nostalgia no leitor e aguça o apetite para as restantes obras, esperando-se que vejam a luz do dia, quantos antes.
Começo por felicitar o autor pelo belo trabalho que escreveu, pois foi um prazer ler e reler algumas passagens que convocaram, de forma nostálgica, as minhas recordações de infância, passada numa pequena povoação análoga àquela que é descrita na novela.
Foi particularmente feliz a eleição da epígrafe de Italo Calvino, porque permite, desde logo, estabelecer inferências que podem auxiliar a compreensão global do texto, assumindo-se, ab initio, como uma possível porta de entrada para este “Inferno” que é, afinal, a vida terrena, que o autor escalpeliza, de forma inequívoca, ao longo da novela.
Segundo creio, é nesse sentido que deve ser descodificada a citação de Virgílio, Écloga, III, 93, onde se sugere ao leitor a associação da serpente com o pecado/o inferno/a dor, ou seja, com o sofrimento humano, que é a pedra de toque de toda a obra.
Outra opção, do autor, que, em meu juízo, valoriza o texto é o uso do latim nos títulos dos capítulos, uma vez que não soa a anacrónico, mas, pelo contrário, dá ao livro um caráter académico e erudito.
Quanto ao tempo, recuperado pela memória prodigiosa do autor/narrador, é trabalhado magnificamente, apesar das diversas analepses. Realço, também, a circularidade da novela que constitui mais um motivo de empatia com a narrativa, prendendo o leitor ao texto, de forma quase viciante. O ritmo do relato, que é rápido, e as referências cronológicas mais explícitas e concretas, nos últimos capítulos da obra, amplificam, ainda mais, o prazer da leitura.
Dos temas aflorados na obra, destaco: a sangria das aldeias, que se viram privadas da sua população mais jovem e útil, que partiu em busca de melhores condições de vida; as relações entre as pessoas do campo, em especial nos negócios de feira; o movimento de retrocesso daqueles que, após uma vida de trabalho em terras longínquas, regressam para desfrutar do merecido remanso, na quietude da terra natal.
Ao lermos “El Color de las Hayas, Hacia la Mitad del Ontoño” de Epigmenio Rodrígues, por momentos, vem-nos à memória os contos mágicos de Torga, sobretudo, nos conflitos interpessoais e nas paisagens bucólicas e esplendorosas, que ambos nos oferecem. Parece-me que, apesar de o leitor ser transportado para o passado (o tempo mítico e onírico da infância e adolescência do autor/narrador, recuperado em flashback pela memória límpida do mesmo), o objetivo do autor/narrador é levá-lo, inequivocamente, a refletir sobre as questões atuais e prementes do homem hodierno que, afinal, não são tão díspares, como à primeira vista possam parecer, daquelas que são dissecadas na obra.
Reafirmo, mais uma vez, que toda a narrativa tem o condão de transportar o leitor para o mundo mágico e inesquecível da infância, esse paraíso perdido e irrecuperável, como bem asseverou Pessoa. À mesma conclusão chegará o leitor de “El Color de las Hayas” no término da narração. Importa, também, salientar, convocando, de novo, Torga para corroborar as suas palavras, que “Em qualquer aventura, (eu digo leitura) o que importa é partir, não é chegar”.
Concluo reiterando que, segundo creio, os leitores "devorarão" as mais de trezentas páginas do livro, escrito com mão firme e astuta, onde é percetível a deslumbrante música da linguagem e o cadenciado ritmo narrativo, mestria que atesta o labor literário do autor.

Bragança 01 de janeiro de 2015



[1] Doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de Salamanca.



Tiempo y memoria en El color de las hayas, de Epigmenio Rodríguez

Por Norberto Francisco Machado da Veiga[1]

            Esta primera entrega de la trilogía “DE INFERNIS” deja, desde el primer momento, una nostalgia en el lector, y estimula el apetito para las restantes obras, esperando que vean la luz del día cuanto antes.
            Comienzo por felicitar al autor por la hermosa obra que ha escrito, pues fue un placer leer y releer algunos pasajes que me trasladaron, con nostalgia, a mis recuerdos de la infancia, que transcurrió en una pequeña población similar a la que se  describe en la novela.
            Me ha parecido muy acertada la elección, en las citas, del pasaje de Italo Calvino, porque ayuda a inferir algunos elementos que contribuyen a la compresión global de la obra, constituyéndose, abinitio, en una posible puerta de entrada a este “Infierno” que es, a la postre, la vida terrenal, y que el autor desarrolla, de forma inequívoca, a lo largo de la novela.
            Pienso que es en ese sentido en el que debe ser interpretada la cita de Virgilio (Écloga, III, 93),  donde se sugiere al lector una asociación de la serpiente con el pecado/el infierno/el dolor, o sea, con el sufrimiento humano, que es la piedra de toque de toda la obra.
            Otra decisión del autor, que, en mi opinión, realza el valor de la obra es el uso del latín en los títulos de los capítulos, pues no resulta anacrónico, antes al contrario, da al libro un carácter académico y erudito.
            En cuanto al tiempo, recuperado por la memoria prodigiosa del autor/narrador, está magníficamente trabajado, a pesar de las diversas analepsis. Es reseñable, también, el carácter circular de la novela, lo que constituye un motivo más de empatía con la narración, enganchando al lector a la historia de una manera poco menos que adictiva. El ritmo del relato, vivo, y las referencias cronológicas más explícitas y concretas, en los últimos capítulos de la obra, incrementan, aún más, el placer de la lectura.
            De entre los temas abordados en la obra, considero destacables: la sangría de los pueblos pequeños, que se han visto privados de la población más joven y útil, que se fue en busca de mejores condiciones de vida; las relaciones entre las personas del medio rural, en especial en el negocio de las ferias de ganado; el retorno de aquéllos que, después de una vida de trabajo en tierras lejanas, regresan para disfrutar de un merecido descanso en la quietud de su tierra natal.
Al leer “El color de las hayas, hacia la mitad del otoño”, de Epigmenio Rodríguez, nos vienen a la memoria, por momentos, los cuentos mágicos de Torga, sobre todo en los conflictos interpersonales y en los paisajes bucólicos y esplendorosos que ambos nos ofrecen. Me parece que, pese a que el lector es transportado hacia el pasado (el tiempo mítico y onírico de la infancia y la adolescencia del autor/narrador, recuperado en flashback por la memoria límpida del mismo), el objetivo del autor/narrador es llevarlo, inequívocamente, a reflexionar sobre las cuestiones actuales y apremiantes del hombre de hoy, que, al fin y al cabo, no son tan dispares como podría parecer a primera vista de aquéllas que se abordan en la obra.
Reafirmo, una vez más, que toda la narración tiene el poder de transportar al lector al mundo mágico e inolvidable de la infacia, ese paraíso perdido e irrecuperable, como bien afirmó Pessoa. A esa misma conclusión llegará el lector de “El color de las hayas” al final de la narración. Es importante, también, señalar, citando de nuevo a Torga para corroborar sus palabras, que “En cualquier aventura (yo digo lectura) lo que importa es partir, no llegar”.
Concluyo reiterando que, estoy seguro de ello, los lectores “devorarán” las más de trescientas páginas del libro, escrito con mano firme y astuta, en el que se percibe la música deslumbrante del lenguaje y el cadenciado ritmo narrativo, lo que da fe del trabajo literario del autor.

Bragança, 01 de enero de 2015


[1]Doctor en Literatura Portuguesa por la Universidad de Salamanca.

08 janeiro 2015

Ernesto Rodrigues - 40 anos de vida literária


Clique na imagem para aumentar ou abra a imagem numa nova janela para poder ampliá-la ainda mais.
(Clique com o botão direito do rato em cima da imagem que pretende ampliar e depois escolha a opção: "Abrir hiperligação numa nova janela", na mesma surge ainda uma lupa com um + para poder ampliar uma segunda vez)

Fonte: Jornal de Letras / 10 a 23 de Dezembro de 2014