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Blogue Oficial da Academia de Letras de Trás-os-Montes || Email: academiadeletrasosmontes@gmail.com
12 novembro 2014
07 novembro 2014
COMEMORAÇÕES DOS 5OO ANOS DO FORAL DE BRAGANÇA - CONVITE
NO ÂMBITO DAS COMEMORAÇÕES DOS 5OO ANOS DO FORAL DOADO POR D.MANUEL I À CIDADE DE BRAGANÇA, CONVIDAM-SE OS MEMBROS DA ACADEMIA DE LETRAS DE TRÁS-OS-MONTES, A ASSISTIR À APRESENTAÇÃO DO LIVRO E REPRESENTAÇÃO DA PEÇA DE TEATRO, " O INEFÁVEL FORAL D'EL REY E SENHOR D. MANUEL", A OCORRER NO MUSEU DO ABADE DE BAÇAL, DIA 11 DE NOVEMBRO, PELAS 19 HORAS.
GRATO PELA PRESENÇA
ANTÓNIO AFONSO
04 novembro 2014
A importância da Memória dos povos, por António Chaves
Sem memória não há passado nem futuro. Tudo se
reduz ao imediatismo.
- Que importa a memória do passado, das
pessoas e dos povos, se tudo isso pertence já ao domínio do inalterável?
Évariste Galois é um caso trágico mas
revelador da importância da memória. Aos vinte anos, e apenas cinco depois de
se dedicar em exclusivo a estudar matemática, consegue fazer frutificar uma
original e ardente paixão, ao determinar a condição necessária e suficiente
para que um polinómio possa ser resolvido por raízes; não só resolveu um antigo
problema em aberto, como criou um domínio inteiramente novo da álgebra
abstrata: a teoria dos grupos.
Por essa altura é atraído por uma dama que
estava noiva. Stephanie já estava comprometida com um cidadão chamado Pescheux
d’Herbinville, que descobriu a infidelidade de sua noiva. Furioso e sendo um
dos melhores atiradores da França não hesitou em desafiar Galois para um duelo
ao raiar do dia seguinte. Évariste conhecia a perícia de seu desafiante, com a
pistola. Na noite anterior ao confronto, que acreditava ser a última
oportunidade para registrar suas ideias no papel; ele escreveu cartas para os
amigos explicando as circunstâncias...”eu cedi à provocação que tentei evitar
por todos os meios". Um dos seus maiores temores era que sua pesquisa,
rejeitada pela Academia, se perdesse para sempre. Numa tentativa desesperada de
conseguir reconhecimento, ele trabalhou a noite toda, escrevendo o teorema que,
acreditava, explicaria o enigma de uma equação do quinto grau. As páginas eram,
na maior parte, uma transcrição das ideias que ele já enviara a Cauchy e
Fourier, mas sem os detalhes explicativos da complexa álgebra explanada.
Naquele turbilhão da noite foi fazendo referências ocasionais obre o seu estado
de espírito e exprimindo exclamações de desespero.
–
"Eu não tenho tempo, eu não tenho tempo!" No final da noite, quando
seus cálculos estavam completos, ele escreveu uma carta explicativa ao seu
amigo Auguste Chevalier, pedindo que, caso morresse, aquelas páginas fossem
enviadas aos grandes matemáticos da Europa.
Na manhã seguinte, Quarta-feira, 30 de maio de
1832 num campo isolado, Galois e d’Herbinville enfrentaram-se a uma distância
de vinte e seis passos, armados com pistolas. D’Herbinville viera acompanhado
de dois assistentes, Évariste Galois estava sozinho. Ele não contara a ninguém
o seu drama. As pistolas erguidas, dispararam. D’Herbinville continuou de pé.
Galois foi atingido no estômago. Ficou a agonizar no chão. Não havia nenhum
cirurgião por perto e o vencedor foi embora calmamente, deixando seu oponente
ferido para morrer. Algumas horas depois Alfred chegou ao local e levou seu
irmão para o hospital. Era muito tarde, já ocorrera uma peritonite e no dia
seguinte Galois faleceu. Antes de morrer disse para seu irmão: "- Não
chore, preciso de toda a minha coragem para morrer aos vinte anos".
03 novembro 2014
NATÁLIA CORREIA, UM “FESTIVAL DE MULHER”, por Hercília Agarez
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| Leonel Brito e Dórdio Guimarães com "Florbela Espanca". Rodagem do documentário realizado pelo Dórdio e texto de Natália Correia |
“Que festival de mulher te expandes, sou já celebridade ao olhar-te”.
Dórdio Guimarães
Poeta menor, sobretudo em
confronto com os que enriqueceram a nossa literatura lírica na segunda metade
do século vinte, Dórdio Leal Guimarães nasceu no Porto em 1938, quinze anos
depois daquela que, vinda dos Açores ainda criança, haveria de fazê-lo esperar
trinta e oito anos. Por ela se apaixonou com catorze, com ela travou
conhecimento aos vinte e quatro.
Como escreve Inês Pedrosa, “ (…)
depôs-lhe nas mãos a sua vida, incluindo todas as suas múltiplas aspirações
artísticas. Ela tinha o impulso criador, ele tinha o desejo de o ter”.
Poetou-a nos livros publicados
com o nome de Cynthia. Após a morte da sua deusa abandonou a escrita de que ela
foi a única musa inspiradora.
Depois de dois casamentos
efémeros e de um duradouro (39 anos) Natália Correia aceitou casar com ele,
curiosamente por sugestão do homem que os amigos consideram ter sido o grande
amor da sua vida: Alfredo Machado. Por horror à solidão, ela que era incapaz de
dormir sozinha por medo dos fantasmas. E porque, como justificou, por
considerá-lo a única pessoa capaz de organizar e catalogar a sua obra. Não
nutria por ele mais que um ligeiro afecto, como pode ver-se num soneto que lhe
ofereceu com a dedicatória “Ao Dórdio, meu irmão”, espécie de resumo irónico de
uma história de vassalagem amorosa.
O
BEIJO DE ANTIKONIE
Foi no mês alumbrado dos
bruxedos
o ardente encontro. Estava eu nos trinta.
Abrasavam-te vinte chamas
verdes
e enluarado me chamaste Cynthia.
Como uma puma pelos meus
vinhedos
sedoso e hábil me laçaste a cinta
e encantaste-me em sala de brinquedos
da tua boca bárbara e faminta.
Mas declino e o Anjo de
alabastro
tatua-me na fronte o frio astro
que a tormenta do sangue anestesia.
Ó trémula beleza sem apoio!
Fiz-te pássaro e mato-te no
voo.
Não me culpes, amor. Foi bruxaria.
Se Dórdio foi o homem que Natália
desposou, por interesse ou comiseração, aos sessenta e sete anos, se Alfredo
Machado foi o cavalheiro galante que lhe transmitiu serenidade e com ela
partilhou intensa vida social e intelectual, tendo sido, além de amante (no
sentido etimológico do termo), uma espécie de pai que não teve, a sua grande
paixão foi um primo açoriano vinte e cinco anos mais novo – José António
Correia. Viveram oito anos na mesma casa, como amantes fogosos, divertindo-se
com um jogo de casamento fictício, celebrado com dispensa de testemunhas.
Durante os dois anos em que o
jovem que a amou sofregamente esteve na Guiné a cumprir o serviço militar,
escreveu-lhe ela 218 cartas arrebatadoras nas quais ele surge como um misto de
anjo e de objecto de gozo carnal. Atente-se no extracto de uma delas: (…)
“Está-se a dar um milagre comigo; julguei que não podia amar à distância, mas
afinal de contas é possível.
Tu conseguiste esse milagre. É
certo que o eco do teu amor chega-me incessantemente, estimulando o meu. Nunca
deixarás de o fazer? Pois não, meu maridinho adorado, meu primeiro homem, meu
Adão de arminho e pássaros. Ontem a tua voz ao telefone derramou-se no meu
sangue como fogo. Oh, beijo-te, beijo-te, entrego-me à fome do teu corpo e
volto a renová-la sempre mais, amor. (…) Amo-te, amo-te, violentamente,
ternamente, tudo”.
Esclarecedor quanto ao ardor
passional é, também, o poema que se segue:
Para
o José António
Tu és o meu regato e o meu
vulcão,
eu sou a tua pomba, a tua cobra
e os nossos gestos são a proporção
de
um sentimento de fogo e solidão
em
que nada nos falta e nada sobra.
A nossa estrela é estarmos condenados
pela perfeição que os ossos nos reclama
a morrer um no outro extasiados,
anjos gravados na pedra de uma
cama.
Quem era essa “mulher-menina,
mulher fatal”, como lhe chama Clara Rocha? Diz quem a conheceu ou simplesmente
a viu nos cafés, bares e ruas de Lisboa ser uma das mais bonitas da capital
onde esbanjava a sua sensualidade, despertando ardentes paixões tanto em homens
mais velhos como em adolescentes que a endeusavam e se lhe prostravam aos pés.
Tinha, pois, uma corte de admiradores de que se vangloriava, exibindo-os,
vaidosa, como troféus. Bela, exuberante, provocadora, era “uma deusa rodeada de
sacerdotes ou veneradores”. Coquette mais do que o normal, segura
dos seus atractivos, exercia um irreprimível poder de sedução.
Afrontando, em jeito de desafio,
os preconceitos da moral vigente, fumava por uma longa boquilha, sua imagem de
marca, e exibia o seu colo desnudado, para além do limite do decoro, aos
olhares concupiscentes de quantos, esperançada ou desperançadamente, a
cortejavam.
Não obstante o que fica dito, não
era sem constrangimento que a poeta se apercebia de que a sua beleza física se
sobrepunha aos seus dotes de mulher de cultura aos olhos da opinião pública.
Paradigmático quanto a tal facto, a reacção intempestiva perante as palavras
com que Mário Soares iniciou o seu discurso ao galardoá-la com a Ordem da
Liberdade: “Não me diga que eu era muito bonita, já sei que só olhava para o
meu corpo”.
E, insurgindo-se contra a sua
fama mítica de “predadora” de homens, escreve:
Essa asquerosa lenda é a herança de uma
mentalidade que subsiste, mentalidade essa que, valorizando o meu aspecto
físico, obscureceu o meu valor intelectual.
Acrescente-se o que o referido
político registou no prefácio do livro Retrato de
Natália Correia, de Ângelo Almeida e publicado pelo Círculo de
Leitores:
Nesse tempo, em que a Natália
começava a abrir caminho nas Letras, vinda da sua ‘Pátria Açoriana’ para se
fixar numa Lisboa pacata, mas em plena ebulição, e fumava por uma enorme
boquilha, com os seus ares dominadores e os seus pronunciados decotes, não era
fácil perceber que estava ali uma das personalidades mais marcantes do último
meio século da vida cultural portuguesa.
Bibliografia: PEDROSA, Inês, “O Amor
Louco de Natália Correia” in REVISTA
EXPRESSO nº 1298
de 13 de Setembro de
1997.
30 outubro 2014
27 outubro 2014
23 outubro 2014
40 anos de vida literária de Ernesto Rodrigues - Depoimentos (José Manuel Neto Jacob)
Depoimento de Neto Jacob from Leonel Brito on Vimeo.
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Ernesto Rodrigues - 40 Anos de Vida Literária - Cartaz
Ernesto Rodrigues - 40 Anos de Vida Literária - ProgramaMENSAGEM DA DIREÇÃO
40 anos de vida literária de Ernesto Rodrigues - Depoimentos:
(António Baptista Lopes)
(José Manuel Mendes)
(José Augusto França)
(Desidério Rodrigues)
(Amadeu Ferreira)
(Frei Henrique Perdigão)
(Hirondino Fernandes)
(José Mário Leite)
(Alcides Rodrigues)
(Teresa Martins Marques)
(José Manuel Neto Jacob)
(Carlos Pires)
(Jorge Nunes)
22 outubro 2014
Comidas Conversadas, novo livro de António Manuel Monteiro
Comidas conversadas – memórias de herança transmontana são conversas e
histórias de comeres, cibos de gana a outros apetites, reencontros e partilha
de costumes, meras curiosidades, falas e enguiços, com especial referência a
Trás-os-Montes e Alto Douro. Resultaram de um percurso pessoal, técnico e de
vivências várias. É o início de um pequeno e modesto roteiro de memórias
comestíveis e de algumas transmontanices – de Torre de Moncorvo a Évreux, de
Freixo de Espada à Cinta a Şanliurfa, de Vinhais a Meknès
ou de Mirandela a Ponta Delgada.
A marcha dos alimentos ao lado da história
das religiões, as estórias imateriais e a utopia diária da vida como a
argamassa solidificante do edifício da História e a razão do ser das suas
estórias, o contento ao aperto fisiológico e o sublimar dessa função, os
comeres e os falares enjeitados ou a ilusão e a racionalidade das escolhas
existenciais, são, tão-só, motes para a conversa e pretextos ao elogio da
castanha ou à eterna paciência de beber vinho, à espera de outros tempos ou aos
equívocos agro-alimentares, à excelência dos produtos de identidade territorial
ou à virgindade do azeite… enfim… à comemoração
da memória e da simplicidade dos saberes.
A memória é, naturalmente, a capacidade de permanência face ao tempo que
corre e que passa – o salvar do passado para serventia do Futuro que queremos!
AMMonteiro
Nota de
Abertura
Com a publicação deste livro, iniciamos
uma colecção de gastronomia e cultura, à qual se irão juntar obras importantes
para um melhor conhecimento das tradições alimentares portuguesas, capítulo fundamental
para entender as actuais circunstâncias da mesa, e seus atos conviviais,
partindo do pressuposto de que «não há futuro sem passado». A alimentação,
finalmente considerada como património imaterial, é um elemento diferenciador
da cultura dos povos, e assim assume um papel de relevo na história da
humanidade.
António Manuel Monteiro é um autor
invulgar e possuidor de um rico conhecimento das tradições nacionais, com
particular incidência da memória transmontana. A sua escrita, com um
vocabulário muito próprio, ou das gentes de para lá dos montes, é um dos
fascínios desta obra. No entanto, e para uma melhor leitura, foi criado um
glossário simples e elucidativo dos vocábulos menos utilizados. O vigor da
informação e a precisão das fontes que confirmam as suas afirmações fazem do
conjunto destes textos uma documentação fundamental para quem queira entender a
forma como alguns produtos, ou algumas receitas, chegaram até nós.
A Âncora Editora orgulha-se de poder
começar esta colecção com este livro e este autor.
Virgílio Nogueira Gomes
Director da colecção
Nota: Apresentação do livro na Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo no dia 29, por Rogério Rodrigues.
21 outubro 2014
40 anos de vida literária de Ernesto Rodrigues - Depoimentos (Carlos Pires)
Ernesto Rodrigues - 40 Anos de Vida Literária - PROGRAMA
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Ernesto Rodrigues - 40 Anos de Vida Literária - Cartaz
Ernesto Rodrigues - 40 Anos de Vida Literária - Programa
MENSAGEM DA DIREÇÃO
40 anos de vida literária de Ernesto Rodrigues - Depoimentos:
(António Baptista Lopes)
(José Manuel Mendes)
(José Augusto França)
(Desidério Rodrigues)
(Amadeu Ferreira)
(Frei Henrique Perdigão)
(Hirondino Fernandes)
(José Mário Leite)
(Alcides Rodrigues)
(Teresa Martins Marques)
(José Manuel Neto Jacob)
(Carlos Pires)
(Jorge Nunes)
Os lugares de Patrick Modiano, Nobel da Literatura, por Ernesto Rodrigues (40 anos de vida literária)
Após mais de oito anos como detective
particular, ao lado de Hutte, patrão e amigo que decide gozar a reforma em
Nice, o narrador vai dar início a uma investigação muito particular: saber quem
é, donde veio, como se chama, qual foi o seu passado. «Não sou nada», lê-se no
intróito. Uma amnésia roubou-lhe a memória quando, com Denise, procurava fugir
à Segunda Guerra Mundial através da fronteira franco-suíça. Ambos enganados
pelos passadores, e já separados, o nosso herói vagueia pelo branco da neve até
retomar os antigos passos que façam luz sobre um optimismo crescente.
Da família e amigos a ódios que se esvaíram,
lenta é a perquisição, emaranhando-se as pistas, chocando-se nomes supostos e
acaso verdadeiros, num desvelar de situações que pedem grande atenção e
paciência ao leitor. Os seus interlocutores são figuras, de algum modo,
marginalizadas, mas sempre generosas. Todos cedem as fotografias que iluminam
um périplo e que o herói guarda num bolso interior, acalentando-as como a um
antigamente que se elabora na topografia de Paris, também esta já não de todo
intacta.
A propósito do seu Remise de Peine, L’Express
(5-II-1988) referia esta particular característica de Patrick Modiano (1945):
«Primeiro, os lugares. Porque há um Paris de Modiano. Não épico como em Balzac,
nem mundano como em Proust, mas obcecado pela lembrança, reduzido às dimensões
do inconsciente, submerso.» Outras obsessões que traz a adolescência – desde
edifícios, números de polícia e moradas precisas até às recorrentes garagens –
são confessadas por Modiano em entrevista a El País (Madrid) de 16-V-2009.
É curiosa esta presença de Balzac
(institucional) e Proust (sentimental), a que era mister acrescentar Céline – parisiense,
tal o herói, igualmente se distrai um pouco da cidade-luz, mas a cujas
periferias ou bairros perdidos sempre regressa. A relação que Modiano
estabelece com os seus escritores passa normalmente pelos cenários dos
respectivos livros, de que se torna familiar, e onde facilmente situa e
confunde personagens reais e de ficção.
Se se dá o caso de o universo lhe parecer
longínquo, como, em artigo de homenagem (Le Matin (Paris), 17-IX-1980),
reconhece ter sido o de Giono, aí, a aproximação acontece «graças à força e à
simplicidade do estilo», que são, do mesmo pé, características da sua obra.
As vagas reminiscências que emergem e se
coligam obrigam a uma forma alusiva de contar. Esta faz uso de textos
cristalizados, como moradas extraídas de anuários e listas telefónicas, ou das
investigações que provêm de um detective a seu cargo. Parte do texto ergue-se,
assim (idêntica estratégia na correspondência militar em Pantaleão e as
Visitadores, de Vargas Llosa), do nevoeiro ou de um «sonho que tentamos agarrar,
quando despertamos, para reconstruir o sonho inteiro» (p. 93). Deste modo pode
ser vista a situação do narrador, quando arranca em busca de uma identidade
(sujeita a origens e filiação), não isenta de culpa, como em Fleurs de Ruine
(1991).
De cada texto seu, e de como de Une Jeunesse
(1981) escreveu François Nourrissier (Le Figaro Magazine, 14-II-1981), Modiano
faz «um romance-murmúrio», onde «se risca tanto quanto se escreve», onde, se há
recuos, é para melhor apreender a fluidez dos instantes, onde se ensaia tocar a
respiração de várias solidões. Ou, como de Dimanches d’Août (1986) escreveu
Antoine Audouard (Le Figaro Magazine, 20-IX-1986), «O milagre é que esta dor
doce, esta suave habilidade [...], nunca cansam».
Se Na Rua das Lojas Escuras (porquê traduzir
[Lisboa, 1987] este sexto romance Na Rua..., se a personagem nunca se encontra
nessa rua, mas tão-só projecta conhecer-se enfim na Roma sonhada?) é uma busca
no labirinto da identidade, já, em Domingos de Agosto [Lisboa, 1988, donde
cito], passa-se um pouco dos mistérios quase sem solução para um enigma que nos
dá resposta. O antigo fotógrafo de arte transformou-se em garagista.
Depara-se-lhe, em Nice, Villecourt, vendedor ambulante que, até sete anos
antes, fora feliz com Sylvie e que esta abandonara pelo fotógrafo.
A humidade e mofo meridionais anunciam,
todavia, a vindicta das «águas lodosas do Marne», onde as personagens se tinham
encontrado. Os Neal, um casal-figura da duplicidade sempre convivendo em
Modiano, preparam-se para vingar o amigo desprezado... Um diamante riquíssimo
sobre Sylvie arrastará os fugitivos para a definitiva separação.
Como se vê, também aqui é mais uma história de
amor breve e sem amanhã. São, precisamente, os fugidios instantes desse Agosto
de há sete anos que suavizam a memória e encandeiam o texto. No tempo do
discurso, sabemos que estamos perante «silhuetas do passado», ou que, como diz
o narrador, «os fantasmas não morrem» (p. 32). O tom nostálgico escorre como a
chuva no Passeio dos Ingleses, nessa «cidade de fantasmas onde o tempo parou»
(p. 93), Nice. Temos duas histórias de enganos em que os narradores perdem as
amantes, mas em ambas existe a reconstrução através da fotografia ou, o que vem
dar ao mesmo, daquilo que fomos um dia: além, o narrador, ex-detective, evolui na
companhia de, e serve-se de, um detective; aqui, Jean, antigo fotógrafo,
compreende o logro e reconhece Neal com a colaboração do fotógrafo ambulante do
Passeio dos Ingleses. Como se dissesse: não se pode fugir ao nosso destino.
Nos dois livros, ainda, comparece a Roma
mítica, «a única cidade em que eu imaginava que poderíamos fixar-nos para o
resto da nossa vida, essa Roma que se adequava maravilhosamente a naturezas tão
insolentes como as nossas» (p. 92). Na ausência do lugar, o seu murmúrio.
[A escolha de Modiano surpreendeu,
naturalmente, a bem informada crítica portuguesa. O texto acima é adaptação do
que já escrevi no semanário Tempo, em 28 de Abril de… 1988.]
Fonte: Mensageiro de Bragança, edição 3495
Ernesto Rodrigues - 40 Anos de Vida Literária - PROGRAMA
Fonte: Mensageiro de Bragança, edição 3495
Ernesto Rodrigues - 40 Anos de Vida Literária - PROGRAMA
20 outubro 2014
NATÁLIA CORREIA, A POÉTA SATÍRICA, por Hercília Agarez
Começamos
por justificar o acento colocado na palavra poéta. É dele responsável o
escultor Martins Correia, amigo de Natália e autor de um busto seu em que
perpetua a imagem da beleza sensual de uma mulher no auge do seu esplendor. Na
base da obra plástica está inscrita a forma acentuada, como que a dar maior
ênfase à condição daquela que, embora autora de quatro romances, de cinco peças
de teatro e de inúmeros ensaios, ganhou notoriedade como cultora de poesia lírica
e satírica, tendo publicado, em quarenta e três anos, treze colectâneas de
versos.
Como
escreve Clara Rocha em “Sobre Poesia Completa de Natália Correia”, estudo
inserido em O Cachimbo
de António Nobre e Outros Ensaios, a produção poética da escritora açoriana
encerra “matrizes estético-literárias tão díspares como o Barroco, o Romantismo
e o Surrealismo”, caracterizando-se, também, por “uma pluralidade de um rosto
que proteicamente se diz em figurações várias, na alternância entre o frívolo e
o sério, o riso e as lágrimas, a alegria e a mágoa…”, por um “constante
movimento de temas e de tons”.
Na
primeira badana de O Sol nas Noites e o Luar nos Dias pode ler-se: “ (…) é
sobretudo na poesia que o seu talento de escritora vanguardista e independente
de quaisquer agrupamentos poéticos ganha plena expressão, assegurando-lhe um
lugar de destaque entre os grandes vultos da literatura contemporânea”.
Se
lhe reconhecemos mestria no domínio da lírica, patente, sobretudo, nos sonetos,
consideramos que a força indomável da sua inspiração fulgura predominantemente
quando, na senda da nossa melhor tradição maledicente iniciada na Sátira
Trovadoresca medieval com as Cantigas de Escárnio e Maldizer, desfere as suas
afiadas farpas em pessoas e acontecimentos do Portugal político pós 25 de
Abril.
Eleita
deputada à Assembleia da República pelo partido de Sá Carneiro (a quem
apresentou Snu Abecassis) em 1979,
a sua voz incómoda e sem peias abalou as estruturas do
Parlamento, quebrou a sisudez composta do hemiciclo, atreveu-se a ridicularizar
políticos de vários quadrantes, incluindo o seu, num pluripartidarismo lúcido e
imparcial. Parodiou decisões governamentais, ridicularizou ministros,
dirigentes, deputados, candidatos a cargos políticos, como foi o caso de
Marcelo Rebelo de Sousa aquando da sua campanha eleitoral autárquica da
Coligação por Lisboa. A ele dedicou o “Cancioneiro Joco-Marcelino”, constituído
por oito poemas de que apresento o seguinte:
O FADO DO
COVEIRO
Das artes
mágicas campeão audaz
tira Marcelo da
manga outra faceta:
por sua dama Lisboa, o Galaaz
faz-se à viela e
ginga à lisboeta.
Calça à boca de
sino e cachené
ao marialva senil metendo inveja,
fidalgo edil que canta para a ralé
o faduncho
finório gargareja.
Estremece Aníbal
com o pardal fadista
que aquilo é treino para o último
regalo:
escaqueirar o reinado cavaquista
e sobre a tumba,
por fim, cantar de galo.
Ernesto Rodrigues - 40 Anos de Vida Literária - PROGRAMA
Bragança,
13 de Dezembro de 2014
Centro
Cultural Adriano Moreira / Biblioteca Municipal
Uma
jornada sobre Ernesto Rodrigues
Uma
organização da Câmara Municipal de Bragança e da Academia de Letras de
Trás-os-Montes
PROGRAMA:
10h00
– Abertura: Presidente da Câmara Municipal de Bragança
Presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes
10h30 – Intervenção: - José Manuel
Mendes – Universidade do Minho
11h15 – Pausa para Café.
11h40 – Intervenção: - José Eduardo
Franco - Universidade de Lisboa.
15h00
- Mesa redonda: Teresa Martins Marques, José Mário Leite, Neto Jacob, Hirondino
Fernandes, Baptista Lopes, António Pinelo Tiza, Alberto Fernandes, Teófilo
Valdemar, Mara e Marcolino Cepeda.
17h00 - Pausa para café.
17h15 - Apresentação do livro:
"Passos Perdidos" de Ernesto Rodrigues.
18h30 - Apresentação do documentário:
"Ernesto Rodrigues - 40 anos de vida Literária".
19h30 - Encerramento e visita às
exposições: Bibliografia de Ernesto Rodrigues e "Bragança anos 70/14".
Nota:
As marcações do almoço e do jantar devem ser feitas pelos seguintes contactos:
Pinelo
Tiza – 966410635
Leonel
Brito – 926844177
ALTM
– academiadeletrasosmontes@gmail.com
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Restaurante
“Solar Bragançano”
Almoço
Entradas
Fumeiro,
Chouriço, Alheira, Presunto, Queijos
Sopa
-
Canja de Perdiz
-
Sopa de Legumes
Pratos
-
Túbaras Solarengas
-
Arroz de Galinhola
-
Posta de Vitela Mirandesa
-
Veado ou Javali estufado em pote de ferro
Um Real Gabinete pujante - Ernesto Rodrigues (40 anos de vida literária)
O 7.º Colóquio do Polo de Pesquisas
Luso-Brasileiras do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro
reuniu, entre 1 e 5 de Setembro, 160 conferencistas à volta de “Percursos
interculturais luso-brasileiros: modos de pensar e fazer”, numa demonstração de
invejável pujança, à imagem da coordenadora-geral, Gilda Santos.
Na Sala dos Brasões, após a abertura pelo
presidente do RGPL, António Gomes da Costa, e da representante do cônsul-geral,
a diversidade de trânsitos Brasil-Portugal veio inaugurada na conferência de
Isabel Pires de Lima, sobre autores recentes, e na adaptação cinematográfica do
romance Estive em Lisboa e lembrei de você, que ultima José Barahona.
As sessões plenárias foram dedicadas a Eça de
Queirós, Camões ‒ Vanda Anastácio historiou o nascimento da disciplina de
Estudos Camonianos na Faculdade de Letras de Lisboa (1925) ‒, urbanismo
(extraordinária influência pombalina na morfologia de São Luís do Maranhão, por
Margareth Gomes de Figueiredo), poesia, cinema e dança (Ida Ferreira Alves,
Joana Matos Frias, Mônica Fagundes), intercâmbio jornalístico e
romance-folhetim (Ernesto Rodrigues, Maria Eunice Moreira, Nelson Schapochnik,
Teresa Martins Marques), Castilho cronista, paisagens de pobreza em Torga e
Manuel da Fonseca, Adolfo Casais Monteiro ensaísta (Eduardo da Cruz, Francisco
Ferreira de Lima, João Tiago Lima). O encerramento simbólico deu-se com o
testemunho de Zuenir Ventura sobre “Os cravos de Abril, 40 anos depois”, ele
que foi o primeiro jornalista brasileiro a reportar a Revolução, tendo na
assistência Cleonice Berardinelli, com 98 anos ainda frescos.
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| Ernesto Rodrigues |
Eis pálida imagem de semana intensa, ainda com
o chorinho do grupo Vê se gostas, que actuou na Biblioteca, e, diante dos
olhos, o projecto O Real em Revista, com patrocínio da Petrobras ‒ 600 mil reais
para, em 20 meses, digitalizar, e disponibilizar online, 30 mil páginas de
periódicos, como se explica em No Giro do Mundo. Os periódicos do Real Gabinete
Português de Leitura no século XIX (2014), primeiro volume organizado por
Eduardo da Cruz.
FOLHETIM EM ASSIS
Já na Faculdade de Ciências e Letras da Unesp,
campus de Assis, o XII Seminário Internacional de Estudos Literários, entre 9 e
11 de Setembro, dedicado aos “Avatares do folhetim”, reuniu 150 estudiosos
brasileiros ‒ citemos Yasmin Jamil Nadaf, Germana Araújo Sales, Socorro
Barbosa, Lúcia Granja, Maria Eulália Ramicelli, Orna Messer Levin, Sílvia Maria
Azevedo, Rosane Feitosa ‒, a que se associaram as universidades de Lisboa
(Teresa Martins Marques apresentou A mulher que venceu D. Juan e Ernesto Rodrigues
fez a conferência de abertura), Roma Tre (Giorgio De Marchis) e Sorbonne
Nouvelle, Paris III (Jacqueline Penjon, que encerrou). Iniciativa do Programa
de Pós-Graduação em Letras coordenado por Alvaro Santos Simões Junior e Maira
Pandolfi, impressiona o trabalho que borbulha sobre ou a partir de género
jornalístico-literário com tradição secular.
[JL-Jornal de Letras, Artes e Ideais,
15-X-2014, p. 28.]
17 outubro 2014
MENSAGEM DA DIREÇÃO
MENSAGEM DA DIREÇÃO
Caros
associados e amigos.
Vai a Câmara Municipal de Bragança e
a Academia de Letras de Trás-os-Montes prestar a merecida homenagem ao
Professor Doutor Ernesto José Rodrigues, cumpridos que são quarenta anos da sua
vida literária. O evento decorrerá no próximo dia 13 de Dezembro, conforme o
programa aqui divulgado.
Sendo certo que dispensa qualquer apresentação,
permitam-me, no entanto, que lhes lembre que Ernesto Rodrigues é doutor em
Letras pela Universidade de Lisboa e professor na Faculdade de Letras da mesma
universidade. Do seu riquíssimo curriculum
vitae, destacamos apenas as funções de leitor de Português na Universidade
de Budapeste, onde desenvolveu um notável trabalho de aproximação cultural
entre a Hungria e Portugal que, aliás, está a prosseguir, com diversas atividades
de cooperação entre ambos os países. No distrito de Bragança, foi professor na
Escola Superior de Educação e membro do Conselho Científico da Escola Superior
de Tecnologia do IPB, de Mirandela, e de outras instituições do ensino
superior.
Como escritor, poeta e ensaísta
possui uma vasta obra que foi elaborando ao longo destes quarenta anos de atividade
literária. Correndo o risco de pecarmos por defeito, referimos o romance Torre de Dona Chama, O Romance do Gramático, A Casa de Bragança, Fastigínia, Passos
Perdidos (a ser lançado no âmbito da homenagem), obras integradas num muito
mais vasto trabalho no campo da poesia, do romance, do ensaio literário e da
tradução de autores consagrados.
Para a celebração dos quarenta anos
da vida literária, a Academia de Letras de Trás-os-Montes solicitou ao
realizador cinematográfico Leonel Brito a produção de um documentário sobre a
vida e a obra do escritor, com o título “Ernesto Rodrigues – 40 anos de vida
literária”, trabalho a apresentar também nesse dia.
Por todas estas razões, vimos
convidá-los a participar neste evento que é dedicado às letras transmontanas,
por via da homenagem ao escritor e poeta Ernesto Rodrigues, o primeiro Presidente
que foi da Direção desta Academia e que a ela se mantém ligado, dirigindo os
trabalhos da sua Assembleia Geral.
Com as nossas saudações académicas.
António Pinelo Tiza
(Vice-Presidente da Direção)
Ernesto Rodrigues - 40 Anos de Vida Literária - PROGRAMA
16 outubro 2014
Antologia da Poesia Húngara (Selecção e tradução: Ernesto Rodrigues)
Sinopse: Reúnem-se, aqui, 320 poemas escritos
de 1448 a 1996, por 45 poetas húngaros nascidos entre 1434 e 1959. Do humanista
Janus Pannonius, com 37 epigramas tirados do latim, a József Attila, o mais
representado (de quem se traduz um em francês), fica o leitor a conhecer
Balassi, Zrínyi, Csokonai, Vörösmarty, Arany, Petőfi, Ady, Babits e outros
novecentistas entretanto vertidos nos últimos vinte anos. Recolhendo autores
canónicos – mesmo os extraídos de uma já antiga, mas pioneira, Novíssima Poesia
Húngara (Lisboa, 1985), também devida a Ernesto Rodrigues –, podem, agora, os
portugueses ficar com uma ideia de literatura cuja distância, a começar pelo
diverso sistema linguístico, já politicamente se esbate.
Biografia do autor: Ernesto Rodrigues (Torre
de Dona Chama, 1956) é poeta, ficcionista, crítico e ensaísta, editor
literário, tradutor de húngaro. Professor auxiliar com agregação da Faculdade
de Letras da Universidade de Lisboa, preside à direcção da Academia de Letras
de Trás-os-Montes.
Estreado em 1973, resume 40 anos de poesia em
Do Movimento Operário e Outras Viagens, 2013. Na ficção, assinou: Várias Bulhas
e Algumas Vítimas, 1980; A Flor e a Morte, 1983; A Serpente de Bronze, 1989;
Torre de Dona Chama, 1994; Histórias para Acordar, 1996; O Romance do
Gramático, 2011; A Casa de Bragança, 2013. Principais títulos ensaísticos:
Mágico Folhetim – Literatura e Jornalismo em Portugal, 1998; Cultura Literária
Oitocentista, 1999; Verso e Prosa de Novecentos, 2000. Editou ‘O Século’ de
Lopes de Mendonça: O Primeiro Jornal Socialista, 2008, e Tomé Pinheiro da
Veiga, Fastigínia, 2011.
Antologia da Poesia Húngara
Antologia da Poesia Húngara
Selecção e tradução: Ernesto Rodrigues
15 outubro 2014
Gilda Santos, Belver, Brasil, por Ernesto Rodrigues (40 anos de vida literária)
Fomos encontrar, Teresa e eu, o nome de Belver
encimando a casa da serra de Gilda Santos, em Araras, Petrópolis, a menos de
duas horas do apartamento carioca da Gávea. É um condomínio fechado em silêncio
e largueza de pulmões, e, no interior da moradia, sinais de viagens ou
colecções cuidadas pela ex-professora da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, onde se doutorou sobre O Físico Prodigioso seniano. Desperta-me a
atenção alto gargalo vencido em rolhas de cortiça, outras tantas garrafas de
vinho bebido pelo raro enólogo que é o marido, Emmanoel. No exterior, entre
canteiros bem tratados por quem nomeia cada flor e um relvado que olha o nome
da aldeia natal, Belver, percorremos a Rua de Portugal, como informa um dos
muitos azulejos que nos deixam em família. Ela aproveita para gravar os nossos
depoimentos destinados à página Ler Jorge de Sena, com que acaba de conquistar
o Prémio Jorge de Sena (a entregar em Novembro), oferta de anónimo e decisão de
júri escolhido pelo CLEPUL ‒ Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e
Europeias da Universidade de Lisboa (Grupo 1).
Antes da subida ‒ indica-nos, à esquerda, a
casa de Elba Ramalho ‒, lauteámo-nos na Pousada da Alcobaça, em Corrêas, onde,
só de olhar ao almoço e à envolvente natural, apetece ficar uns dias. Vínhamos
com apetite, já, após longa travessia desde D. João VI e seu neto Pedro II, que
de Petrópolis fazia, no Verão, capital imperial, em cujo palácio ‒ hoje, museu
‒ passeámos, dentro de chinelos próprios. O imperador, aliás, gostava de usar
pantufas…
Ora, este 6 de Setembro, sábado
histórico-ecológico, é generosidade de quem acaba de viver cinco dias
intensíssimos enquanto coordenadora-geral do 7.º Colóquio do Polo de Pesquisas
Luso-Brasileiras do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro
(também vice-preside a este), que distribuiu 160 conferencistas sobre
“Percursos interculturais luso-brasileiros: modos de pensar e fazer” pelo Real
Gabinete e Liceu Literário Português. É difícil, em Portugal, imaginar uma
organização destas, em que Gilda tanto pensa o almoço dos convidados como
dirige mesa de jovens pesquisadores. Gostei que trouxesse à Sala dos Brasões a
querida professora Cleonice Berardinelli, 98 anos em 28 de Agosto.
Aos seis anos, partiu para o Brasil a menina
de Belver, Carrazeda de Ansiães. Lá e cá, é a principal ponte entre as margens
do Atlântico.
Ernesto Rodrigues - 40 Anos de Vida Literária - PROGRAMA (Cartaz)
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13 outubro 2014
D. Fernando I, segundo duque de Bragança, por Ernesto Rodrigues (40 anos de vida literária)
D. Fernando I, segundo duque de Bragança
Fora a carta de foro dada no arraial de Ceuta,
em 20 de Fevereiro de 1464, era de Cristo; Pero de Alcáçova, que a escrevera,
entregou cópia a um parente meu, Afonso Roiz, ou Rodrigues, e, a rogo do duque,
recado para vir mostrá-la em pessoa, obrando aquela fala breve.
A história dirá quem era esse Afonso
Rodrigues, e antepassados. Quem sou eu, do mesmo nome, cujos últimos dias
talvez venham escondidos num fio da sua meada.
Foi há 550 anos; não imaginava que, na
indefinição de criança em calções, sandálias lestas, o passado viria
acariciar-me, exigindo este discurso.
Saudava, agradecido, D. Fernando I, segundo
duque de Bragança, na estátua de bronze, sobre três blocos rectangulares de
granito em assento leve, rodeada de folhame. Em cota leve, flectia ligeiramente
a perna direita, espada embainhada e oblíqua, fincada, rígida, à esquerda, com
determinação; e, entreaberta na mão direita, a carta foraleira, que oferecia, confiado,
à cidade. Miudamente, observava as cotoveleiras, joelheiras, o cabelo grisalho
caindo sobre as orelhas, e franjado na testa, com duas rugas verticais, fundas.
A comissura dos lábios era grave. O neto de D. João I, rei ínclito que renovara
o castelo – filho do primogénito D. Afonso, primeiro duque de Bragança −,
mostrava-se firme, teso como a dignidade.
Eu assistira à inauguração, em 1964, ganapo
ainda, enroscado nos pilares de ferro em que assentava um dos cinco candeeiros.
Tinha oito anos, nada sabia de nós. Lembro-me da formatura de senhores, que
escureciam o dia, e, talvez por isso, menina vestida de branco, um loiro
anelado, da minha idade, sobressaía na manhã fresca, oferecendo salva de prata.
Agora, vinha aqui todos os dias, a casa dos
avós, cada vez mais tristes, por mim, sentia. Antes, repousava no rectângulo de
pedra frente à estátua, que dois bancos em voo semicircular enquadravam.
Alternava verde; à direita, a pousada de São Bartolomeu, onde sonhava
descansar, um dia; em fundo, o ronronar do Rio Fervença, sucedendo galos, cães,
poalha de vozes… Nas tardes de sol, árvores e duque estampavam-se na tela
muralhada.
Ao tempo, D. Fernando I e eu ouvíramos outros
discursos embalados em patriotismo – civis, militares, religiosos; exaltados
telegramas de cumprimentos e saudações, martelados de stop, à imagem de um país
sem iniciativa.
A Casa de Bragança, Lisboa, Âncora Editora,
2013.
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