07 novembro 2014

COMEMORAÇÕES DOS 5OO ANOS DO FORAL DE BRAGANÇA - CONVITE

  

NO ÂMBITO DAS COMEMORAÇÕES DOS 5OO ANOS DO FORAL DOADO POR D.MANUEL I À CIDADE DE BRAGANÇA, CONVIDAM-SE OS MEMBROS DA ACADEMIA DE LETRAS DE TRÁS-OS-MONTES, A ASSISTIR À APRESENTAÇÃO DO LIVRO E REPRESENTAÇÃO DA PEÇA DE TEATRO, " O INEFÁVEL FORAL D'EL REY E SENHOR D. MANUEL", A OCORRER NO MUSEU DO ABADE DE BAÇAL, DIA 11 DE NOVEMBRO, PELAS 19 HORAS.

  GRATO PELA PRESENÇA
  ANTÓNIO AFONSO

04 novembro 2014

A importância da Memória dos povos, por António Chaves

Sem memória não há passado nem futuro. Tudo se reduz ao imediatismo.
- Que importa a memória do passado, das pessoas e dos povos, se tudo isso pertence já ao domínio do inalterável?
Évariste Galois é um caso trágico mas revelador da importância da memória. Aos vinte anos, e apenas cinco depois de se dedicar em exclusivo a estudar matemática, consegue fazer frutificar uma original e ardente paixão, ao determinar a condição necessária e suficiente para que um polinómio possa ser resolvido por raízes; não só resolveu um antigo problema em aberto, como criou um domínio inteiramente novo da álgebra abstrata: a teoria dos grupos.
Por essa altura é atraído por uma dama que estava noiva. Stephanie já estava comprometida com um cidadão chamado Pescheux d’Herbinville, que descobriu a infidelidade de sua noiva. Furioso e sendo um dos melhores atiradores da França não hesitou em desafiar Galois para um duelo ao raiar do dia seguinte. Évariste conhecia a perícia de seu desafiante, com a pistola. Na noite anterior ao confronto, que acreditava ser a última oportunidade para registrar suas ideias no papel; ele escreveu cartas para os amigos explicando as circunstâncias...”eu cedi à provocação que tentei evitar por todos os meios". Um dos seus maiores temores era que sua pesquisa, rejeitada pela Academia, se perdesse para sempre. Numa tentativa desesperada de conseguir reconhecimento, ele trabalhou a noite toda, escrevendo o teorema que, acreditava, explicaria o enigma de uma equação do quinto grau. As páginas eram, na maior parte, uma transcrição das ideias que ele já enviara a Cauchy e Fourier, mas sem os detalhes explicativos da complexa álgebra explanada. Naquele turbilhão da noite foi fazendo referências ocasionais obre o seu estado de espírito e exprimindo exclamações de desespero.
 – "Eu não tenho tempo, eu não tenho tempo!" No final da noite, quando seus cálculos estavam completos, ele escreveu uma carta explicativa ao seu amigo Auguste Chevalier, pedindo que, caso morresse, aquelas páginas fossem enviadas aos grandes matemáticos da Europa.
Na manhã seguinte, Quarta-feira, 30 de maio de 1832 num campo isolado, Galois e d’Herbinville enfrentaram-se a uma distância de vinte e seis passos, armados com pistolas. D’Herbinville viera acompanhado de dois assistentes, Évariste Galois estava sozinho. Ele não contara a ninguém o seu drama. As pistolas erguidas, dispararam. D’Herbinville continuou de pé. Galois foi atingido no estômago. Ficou a agonizar no chão. Não havia nenhum cirurgião por perto e o vencedor foi embora calmamente, deixando seu oponente ferido para morrer. Algumas horas depois Alfred chegou ao local e levou seu irmão para o hospital. Era muito tarde, já ocorrera uma peritonite e no dia seguinte Galois faleceu. Antes de morrer disse para seu irmão: "- Não chore, preciso de toda a minha coragem para morrer aos vinte anos".

03 novembro 2014

NATÁLIA CORREIA, UM “FESTIVAL DE MULHER”, por Hercília Agarez

Leonel Brito e Dórdio Guimarães com "Florbela Espanca".
Rodagem do documentário realizado pelo Dórdio e
 texto de Natália Correia
“Que festival de mulher te expandes, sou já celebridade ao olhar-te”.
Dórdio Guimarães
     Poeta menor, sobretudo em confronto com os que enriqueceram a nossa literatura lírica na segunda metade do século vinte, Dórdio Leal Guimarães nasceu no Porto em 1938, quinze anos depois daquela que, vinda dos Açores ainda criança, haveria de fazê-lo esperar trinta e oito anos. Por ela se apaixonou com catorze, com ela travou conhecimento aos vinte e quatro.
    Como escreve Inês Pedrosa, “ (…) depôs-lhe nas mãos a sua vida, incluindo todas as suas múltiplas aspirações artísticas. Ela tinha o impulso criador, ele tinha o desejo de o ter”.
    Poetou-a nos livros publicados com o nome de Cynthia. Após a morte da sua deusa abandonou a escrita de que ela foi a única musa inspiradora.
    Depois de dois casamentos efémeros e de um duradouro (39 anos) Natália Correia aceitou casar com ele, curiosamente por sugestão do homem que os amigos consideram ter sido o grande amor da sua vida: Alfredo Machado. Por horror à solidão, ela que era incapaz de dormir sozinha por medo dos fantasmas. E porque, como justificou, por considerá-lo a única pessoa capaz de organizar e catalogar a sua obra. Não nutria por ele mais que um ligeiro afecto, como pode ver-se num soneto que lhe ofereceu com a dedicatória “Ao Dórdio, meu irmão”, espécie de resumo irónico de uma história de vassalagem amorosa.

O BEIJO DE ANTIKONIE

Foi no mês alumbrado dos bruxedos
 o ardente encontro. Estava eu nos trinta.
Abrasavam-te vinte chamas verdes
 e enluarado me chamaste Cynthia.

Como uma puma pelos meus vinhedos
 sedoso e hábil me laçaste a cinta
 e encantaste-me em sala de brinquedos
 da tua boca bárbara e faminta.


Mas declino e o Anjo de alabastro
 tatua-me na fronte o frio astro
 que a tormenta do sangue anestesia.

Ó trémula beleza sem apoio!
Fiz-te pássaro e mato-te no voo.
Não me culpes, amor. Foi bruxaria.

    Se Dórdio foi o homem que Natália desposou, por interesse ou comiseração, aos sessenta e sete anos, se Alfredo Machado foi o cavalheiro galante que lhe transmitiu serenidade e com ela partilhou intensa vida social e intelectual, tendo sido, além de amante (no sentido etimológico do termo), uma espécie de pai que não teve, a sua grande paixão foi um primo açoriano vinte e cinco anos mais novo – José António Correia. Viveram oito anos na mesma casa, como amantes fogosos, divertindo-se com um jogo de casamento fictício, celebrado com dispensa de testemunhas.
    Durante os dois anos em que o jovem que a amou sofregamente esteve na Guiné a cumprir o serviço militar, escreveu-lhe ela 218 cartas arrebatadoras nas quais ele surge como um misto de anjo e de objecto de gozo carnal. Atente-se no extracto de uma delas: (…) “Está-se a dar um milagre comigo; julguei que não podia amar à distância, mas afinal de contas é possível.
    Tu conseguiste esse milagre. É certo que o eco do teu amor chega-me incessantemente, estimulando o meu. Nunca deixarás de o fazer? Pois não, meu maridinho adorado, meu primeiro homem, meu Adão de arminho e pássaros. Ontem a tua voz ao telefone derramou-se no meu sangue como fogo. Oh, beijo-te, beijo-te, entrego-me à fome do teu corpo e volto a renová-la sempre mais, amor. (…) Amo-te, amo-te, violentamente, ternamente, tudo”.
    Esclarecedor quanto ao ardor passional é, também, o poema que se segue:

Para o José António

Tu és o meu regato e o meu vulcão,
 eu sou a tua pomba, a tua cobra
 e os nossos gestos são a proporção
            de um sentimento de fogo e solidão
            em que nada nos falta e nada sobra.
 A nossa estrela é estarmos condenados
 pela perfeição que os ossos nos reclama
 a morrer um no outro extasiados,
anjos gravados na pedra de uma cama.


    Quem era essa “mulher-menina, mulher fatal”, como lhe chama Clara Rocha? Diz quem a conheceu ou simplesmente a viu nos cafés, bares e ruas de Lisboa ser uma das mais bonitas da capital onde esbanjava a sua sensualidade, despertando ardentes paixões tanto em homens mais velhos como em adolescentes que a endeusavam e se lhe prostravam aos pés. Tinha, pois, uma corte de admiradores de que se vangloriava, exibindo-os, vaidosa, como troféus. Bela, exuberante, provocadora, era “uma deusa rodeada de sacerdotes ou veneradores”. Coquette mais do que o normal, segura dos seus atractivos, exercia um irreprimível poder de sedução.
    Afrontando, em jeito de desafio, os preconceitos da moral vigente, fumava por uma longa boquilha, sua imagem de marca, e exibia o seu colo desnudado, para além do limite do decoro, aos olhares concupiscentes de quantos, esperançada ou desperançadamente, a cortejavam.
    Não obstante o que fica dito, não era sem constrangimento que a poeta se apercebia de que a sua beleza física se sobrepunha aos seus dotes de mulher de cultura aos olhos da opinião pública. Paradigmático quanto a tal facto, a reacção intempestiva perante as palavras com que Mário Soares iniciou o seu discurso ao galardoá-la com a Ordem da Liberdade: “Não me diga que eu era muito bonita, já sei que só olhava para o meu corpo”.
    E, insurgindo-se contra a sua fama mítica de “predadora” de homens, escreve:

    Essa asquerosa lenda é a herança de uma mentalidade que subsiste, mentalidade essa que, valorizando o meu aspecto físico, obscureceu o meu valor intelectual.

    Acrescente-se o que o referido político registou no prefácio do livro Retrato de Natália Correia, de Ângelo Almeida e publicado pelo Círculo de Leitores:

Nesse tempo, em que a Natália começava a abrir caminho nas Letras, vinda da sua ‘Pátria Açoriana’ para se fixar numa Lisboa pacata, mas em plena ebulição, e fumava por uma enorme boquilha, com os seus ares dominadores e os seus pronunciados decotes, não era fácil perceber que estava ali uma das personalidades mais marcantes do último meio século da vida cultural portuguesa.

Bibliografia: PEDROSA, Inês, “O Amor
Louco de Natália Correia” in REVISTA
EXPRESSO nº 1298 de 13 de Setembro de
1997.


22 outubro 2014

Comidas Conversadas, novo livro de António Manuel Monteiro

Comidas conversadas – memórias de herança transmontana são conversas e histórias de comeres, cibos de gana a outros apetites, reencontros e partilha de costumes, meras curiosidades, falas e enguiços, com especial referência a Trás-os-Montes e Alto Douro. Resultaram de um percurso pessoal, técnico e de vivências várias. É o início de um pequeno e modesto roteiro de memórias comestíveis e de algumas transmontanices – de Torre de Moncorvo a Évreux, de Freixo de Espada à Cinta a Şanliurfa, de Vinhais a Meknès ou de Mirandela a Ponta Delgada.
     A marcha dos alimentos ao lado da história das religiões, as estórias imateriais e a utopia diária da vida como a argamassa solidificante do edifício da História e a razão do ser das suas estórias, o contento ao aperto fisiológico e o sublimar dessa função, os comeres e os falares enjeitados ou a ilusão e a racionalidade das escolhas existenciais, são, tão-só, motes para a conversa e pretextos ao elogio da castanha ou à eterna paciência de beber vinho, à espera de outros tempos ou aos equívocos agro-alimentares, à excelência dos produtos de identidade territorial ou à virgindade do azeite… enfim… à comemoração da memória e da simplicidade dos saberes.
     A memória é, naturalmente, a capacidade de permanência face ao tempo que corre e que passa – o salvar do passado para serventia do Futuro que queremos!

AMMonteiro

Nota de Abertura
     Com a publicação deste livro, iniciamos uma colecção de gastronomia e cultura, à qual se irão juntar obras importantes para um melhor conhecimento das tradições alimentares portuguesas, capítulo fundamental para entender as actuais circunstâncias da mesa, e seus atos conviviais, partindo do pressuposto de que «não há futuro sem passado». A alimentação, finalmente considerada como património imaterial, é um elemento diferenciador da cultura dos povos, e assim assume um papel de relevo na história da humanidade.
     António Manuel Monteiro é um autor invulgar e possuidor de um rico conhecimento das tradições nacionais, com particular incidência da memória transmontana. A sua escrita, com um vocabulário muito próprio, ou das gentes de para lá dos montes, é um dos fascínios desta obra. No entanto, e para uma melhor leitura, foi criado um glossário simples e elucidativo dos vocábulos menos utilizados. O vigor da informação e a precisão das fontes que confirmam as suas afirmações fazem do conjunto destes textos uma documentação fundamental para quem queira entender a forma como alguns produtos, ou algumas receitas, chegaram até nós.
     A Âncora Editora orgulha-se de poder começar esta colecção com este livro e este autor.

Virgílio Nogueira Gomes

Director da colecção

Nota: Apresentação do livro na Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo no dia 29, por Rogério Rodrigues.

21 outubro 2014

40 anos de vida literária de Ernesto Rodrigues - Depoimentos (Carlos Pires)

Depoimento de Carlos Pires from Leonel Brito on Vimeo.
Ernesto Rodrigues - 40 Anos de Vida Literária - PROGRAMA



Os lugares de Patrick Modiano, Nobel da Literatura, por Ernesto Rodrigues (40 anos de vida literária)

Ernesto Rodrigues
Após mais de oito anos como detective particular, ao lado de Hutte, patrão e amigo que decide gozar a reforma em Nice, o narrador vai dar início a uma investigação muito particular: saber quem é, donde veio, como se chama, qual foi o seu passado. «Não sou nada», lê-se no intróito. Uma amnésia roubou-lhe a memória quando, com Denise, procurava fugir à Segunda Guerra Mundial através da fronteira franco-suíça. Ambos enganados pelos passadores, e já separados, o nosso herói vagueia pelo branco da neve até retomar os antigos passos que façam luz sobre um optimismo crescente.
Da família e amigos a ódios que se esvaíram, lenta é a perquisição, emaranhando-se as pistas, chocando-se nomes supostos e acaso verdadeiros, num desvelar de situações que pedem grande atenção e paciência ao leitor. Os seus interlocutores são figuras, de algum modo, marginalizadas, mas sempre generosas. Todos cedem as fotografias que iluminam um périplo e que o herói guarda num bolso interior, acalentando-as como a um antigamente que se elabora na topografia de Paris, também esta já não de todo intacta.
A propósito do seu Remise de Peine, L’Express (5-II-1988) referia esta particular característica de Patrick Modiano (1945): «Primeiro, os lugares. Porque há um Paris de Modiano. Não épico como em Balzac, nem mundano como em Proust, mas obcecado pela lembrança, reduzido às dimensões do inconsciente, submerso.» Outras obsessões que traz a adolescência – desde edifícios, números de polícia e moradas precisas até às recorrentes garagens – são confessadas por Modiano em entrevista a El País (Madrid) de 16-V-2009.
É curiosa esta presença de Balzac (institucional) e Proust (sentimental), a que era mister acrescentar Céline – parisiense, tal o herói, igualmente se distrai um pouco da cidade-luz, mas a cujas periferias ou bairros perdidos sempre regressa. A relação que Modiano estabelece com os seus escritores passa normalmente pelos cenários dos respectivos livros, de que se torna familiar, e onde facilmente situa e confunde personagens reais e de ficção.
Se se dá o caso de o universo lhe parecer longínquo, como, em artigo de homenagem (Le Matin (Paris), 17-IX-1980), reconhece ter sido o de Giono, aí, a aproximação acontece «graças à força e à simplicidade do estilo», que são, do mesmo pé, características da sua obra.
As vagas reminiscências que emergem e se coligam obrigam a uma forma alusiva de contar. Esta faz uso de textos cristalizados, como moradas extraídas de anuários e listas telefónicas, ou das investigações que provêm de um detective a seu cargo. Parte do texto ergue-se, assim (idêntica estratégia na correspondência militar em Pantaleão e as Visitadores, de Vargas Llosa), do nevoeiro ou de um «sonho que tentamos agarrar, quando despertamos, para reconstruir o sonho inteiro» (p. 93). Deste modo pode ser vista a situação do narrador, quando arranca em busca de uma identidade (sujeita a origens e filiação), não isenta de culpa, como em Fleurs de Ruine (1991).
De cada texto seu, e de como de Une Jeunesse (1981) escreveu François Nourrissier (Le Figaro Magazine, 14-II-1981), Modiano faz «um romance-murmúrio», onde «se risca tanto quanto se escreve», onde, se há recuos, é para melhor apreender a fluidez dos instantes, onde se ensaia tocar a respiração de várias solidões. Ou, como de Dimanches d’Août (1986) escreveu Antoine Audouard (Le Figaro Magazine, 20-IX-1986), «O milagre é que esta dor doce, esta suave habilidade [...], nunca cansam».
Se Na Rua das Lojas Escuras (porquê traduzir [Lisboa, 1987] este sexto romance Na Rua..., se a personagem nunca se encontra nessa rua, mas tão-só projecta conhecer-se enfim na Roma sonhada?) é uma busca no labirinto da identidade, já, em Domingos de Agosto [Lisboa, 1988, donde cito], passa-se um pouco dos mistérios quase sem solução para um enigma que nos dá resposta. O antigo fotógrafo de arte transformou-se em garagista. Depara-se-lhe, em Nice, Villecourt, vendedor ambulante que, até sete anos antes, fora feliz com Sylvie e que esta abandonara pelo fotógrafo.
A humidade e mofo meridionais anunciam, todavia, a vindicta das «águas lodosas do Marne», onde as personagens se tinham encontrado. Os Neal, um casal-figura da duplicidade sempre convivendo em Modiano, preparam-se para vingar o amigo desprezado... Um diamante riquíssimo sobre Sylvie arrastará os fugitivos para a definitiva separação.
Como se vê, também aqui é mais uma história de amor breve e sem amanhã. São, precisamente, os fugidios instantes desse Agosto de há sete anos que suavizam a memória e encandeiam o texto. No tempo do discurso, sabemos que estamos perante «silhuetas do passado», ou que, como diz o narrador, «os fantasmas não morrem» (p. 32). O tom nostálgico escorre como a chuva no Passeio dos Ingleses, nessa «cidade de fantasmas onde o tempo parou» (p. 93), Nice. Temos duas histórias de enganos em que os narradores perdem as amantes, mas em ambas existe a reconstrução através da fotografia ou, o que vem dar ao mesmo, daquilo que fomos um dia: além, o narrador, ex-detective, evolui na companhia de, e serve-se de, um detective; aqui, Jean, antigo fotógrafo, compreende o logro e reconhece Neal com a colaboração do fotógrafo ambulante do Passeio dos Ingleses. Como se dissesse: não se pode fugir ao nosso destino.
Nos dois livros, ainda, comparece a Roma mítica, «a única cidade em que eu imaginava que poderíamos fixar-nos para o resto da nossa vida, essa Roma que se adequava maravilhosamente a naturezas tão insolentes como as nossas» (p. 92). Na ausência do lugar, o seu murmúrio.

[A escolha de Modiano surpreendeu, naturalmente, a bem informada crítica portuguesa. O texto acima é adaptação do que já escrevi no semanário Tempo, em 28 de Abril de… 1988.]

Fonte: Mensageiro de Bragança, edição 3495

Ernesto Rodrigues - 40 Anos de Vida Literária - PROGRAMA

20 outubro 2014

NATÁLIA CORREIA, A POÉTA SATÍRICA, por Hercília Agarez

    Começamos por justificar o acento colocado na palavra poéta. É dele responsável o escultor Martins Correia, amigo de Natália e autor de um busto seu em que perpetua a imagem da beleza sensual de uma mulher no auge do seu esplendor. Na base da obra plástica está inscrita a forma acentuada, como que a dar maior ênfase à condição daquela que, embora autora de quatro romances, de cinco peças de teatro e de inúmeros ensaios, ganhou notoriedade como cultora de poesia lírica e satírica, tendo publicado, em quarenta e três anos, treze colectâneas de versos.
    Como escreve Clara Rocha em “Sobre Poesia Completa de Natália Correia”, estudo inserido em O Cachimbo de António Nobre e Outros Ensaios, a produção poética da escritora açoriana encerra “matrizes estético-literárias tão díspares como o Barroco, o Romantismo e o Surrealismo”, caracterizando-se, também, por “uma pluralidade de um rosto que proteicamente se diz em figurações várias, na alternância entre o frívolo e o sério, o riso e as lágrimas, a alegria e a mágoa…”, por um “constante movimento de temas e de tons”.
    Na primeira badana de O Sol nas Noites e o Luar nos Dias pode ler-se: “ (…) é sobretudo na poesia que o seu talento de escritora vanguardista e independente de quaisquer agrupamentos poéticos ganha plena expressão, assegurando-lhe um lugar de destaque entre os grandes vultos da literatura contemporânea”.
    Se lhe reconhecemos mestria no domínio da lírica, patente, sobretudo, nos sonetos, consideramos que a força indomável da sua inspiração fulgura predominantemente quando, na senda da nossa melhor tradição maledicente iniciada na Sátira Trovadoresca medieval com as Cantigas de Escárnio e Maldizer, desfere as suas afiadas farpas em pessoas e acontecimentos do Portugal político pós 25 de Abril.
    Eleita deputada à Assembleia da República pelo partido de Sá Carneiro (a quem apresentou Snu Abecassis) em 1979, a sua voz incómoda e sem peias abalou as estruturas do Parlamento, quebrou a sisudez composta do hemiciclo, atreveu-se a ridicularizar políticos de vários quadrantes, incluindo o seu, num pluripartidarismo lúcido e imparcial. Parodiou decisões governamentais, ridicularizou ministros, dirigentes, deputados, candidatos a cargos políticos, como foi o caso de Marcelo Rebelo de Sousa aquando da sua campanha eleitoral autárquica da Coligação por Lisboa. A ele dedicou o “Cancioneiro Joco-Marcelino”, constituído por oito poemas de que apresento o seguinte:

O FADO DO COVEIRO

Das artes mágicas campeão audaz
tira Marcelo da manga outra faceta:
 por sua dama Lisboa, o Galaaz
faz-se à viela e ginga à lisboeta.

Calça à boca de sino e cachené
 ao marialva senil metendo inveja,
            fidalgo edil que canta para a ralé
o faduncho finório gargareja.


Estremece Aníbal com o pardal fadista
            que aquilo é treino para o último regalo:
 escaqueirar o reinado cavaquista
e sobre a tumba, por fim, cantar de galo.

Ernesto Rodrigues - 40 Anos de Vida Literária - PROGRAMA

Bragança, 13 de Dezembro de 2014

Centro Cultural Adriano Moreira / Biblioteca Municipal
Uma jornada sobre Ernesto Rodrigues
Uma organização da Câmara Municipal de Bragança e da Academia de Letras de Trás-os-Montes

PROGRAMA:
                
            10h00 – Abertura: Presidente da Câmara Municipal de Bragança
                                           Presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes
            10h30 – Intervenção: - José Manuel Mendes – Universidade do Minho
            11h15 – Pausa para Café.
            11h40 – Intervenção: - José Eduardo Franco - Universidade de Lisboa.
            15h00 - Mesa redonda: Teresa Martins Marques, José Mário Leite, Neto Jacob, Hirondino Fernandes, Baptista Lopes, António Pinelo Tiza, Alberto Fernandes, Teófilo Valdemar, Mara e Marcolino Cepeda.
             17h00 - Pausa para café.
             17h15 - Apresentação do livro: "Passos Perdidos" de Ernesto Rodrigues.
             18h30 - Apresentação do documentário: "Ernesto Rodrigues - 40 anos de vida Literária".
             19h30 - Encerramento e visita às exposições: Bibliografia de Ernesto Rodrigues e   "Bragança anos 70/14".


Nota: As marcações do almoço e do jantar devem ser feitas pelos seguintes contactos:

Pinelo Tiza – 966410635
Leonel Brito – 926844177

ALTM – academiadeletrasosmontes@gmail.com   

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Restaurante “Solar Bragançano”
Almoço

Entradas
Fumeiro, Chouriço, Alheira, Presunto, Queijos
Sopa
- Canja de Perdiz
- Sopa de Legumes
Pratos
- Túbaras Solarengas
- Arroz de Galinhola
- Posta de Vitela Mirandesa
- Veado ou Javali estufado em pote de ferro

Um Real Gabinete pujante - Ernesto Rodrigues (40 anos de vida literária)

Real Gabinete Português de
 Leitura do Rio de Janeiro
O 7.º Colóquio do Polo de Pesquisas Luso-Brasileiras do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro reuniu, entre 1 e 5 de Setembro, 160 conferencistas à volta de “Percursos interculturais luso-brasileiros: modos de pensar e fazer”, numa demonstração de invejável pujança, à imagem da coordenadora-geral, Gilda Santos.
Na Sala dos Brasões, após a abertura pelo presidente do RGPL, António Gomes da Costa, e da representante do cônsul-geral, a diversidade de trânsitos Brasil-Portugal veio inaugurada na conferência de Isabel Pires de Lima, sobre autores recentes, e na adaptação cinematográfica do romance Estive em Lisboa e lembrei de você, que ultima José Barahona.
As sessões plenárias foram dedicadas a Eça de Queirós, Camões ‒ Vanda Anastácio historiou o nascimento da disciplina de Estudos Camonianos na Faculdade de Letras de Lisboa (1925) ‒, urbanismo (extraordinária influência pombalina na morfologia de São Luís do Maranhão, por Margareth Gomes de Figueiredo), poesia, cinema e dança (Ida Ferreira Alves, Joana Matos Frias, Mônica Fagundes), intercâmbio jornalístico e romance-folhetim (Ernesto Rodrigues, Maria Eunice Moreira, Nelson Schapochnik, Teresa Martins Marques), Castilho cronista, paisagens de pobreza em Torga e Manuel da Fonseca, Adolfo Casais Monteiro ensaísta (Eduardo da Cruz, Francisco Ferreira de Lima, João Tiago Lima). O encerramento simbólico deu-se com o testemunho de Zuenir Ventura sobre “Os cravos de Abril, 40 anos depois”, ele que foi o primeiro jornalista brasileiro a reportar a Revolução, tendo na assistência Cleonice Berardinelli, com 98 anos ainda frescos.
Ernesto Rodrigues
Enquanto isso, as manhãs do RGPL e, no último dia, o Liceu Literário Português assistiam a dezenas de comunicações sobre figuras portuguesas oitocentistas (Eça na Província de São Pedro, por Carlos Alexandre Baumgarten), poesia finissecular e de hoje, Pessoa, Guimarães Rosa, Vergílio Ferreira, Saramago e ficção contemporânea dos dois lados atlânticos, teatro (Francisco Maciel Silveira deitando no divã Pedro e Inês, Flavia Corradin sobre Madame, de Maria Velho da Costa).
Eis pálida imagem de semana intensa, ainda com o chorinho do grupo Vê se gostas, que actuou na Biblioteca, e, diante dos olhos, o projecto O Real em Revista, com patrocínio da Petrobras ‒ 600 mil reais para, em 20 meses, digitalizar, e disponibilizar online, 30 mil páginas de periódicos, como se explica em No Giro do Mundo. Os periódicos do Real Gabinete Português de Leitura no século XIX (2014), primeiro volume organizado por Eduardo da Cruz.
FOLHETIM EM ASSIS
Já na Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, campus de Assis, o XII Seminário Internacional de Estudos Literários, entre 9 e 11 de Setembro, dedicado aos “Avatares do folhetim”, reuniu 150 estudiosos brasileiros ‒ citemos Yasmin Jamil Nadaf, Germana Araújo Sales, Socorro Barbosa, Lúcia Granja, Maria Eulália Ramicelli, Orna Messer Levin, Sílvia Maria Azevedo, Rosane Feitosa ‒, a que se associaram as universidades de Lisboa (Teresa Martins Marques apresentou A mulher que venceu D. Juan e Ernesto Rodrigues fez a conferência de abertura), Roma Tre (Giorgio De Marchis) e Sorbonne Nouvelle, Paris III (Jacqueline Penjon, que encerrou). Iniciativa do Programa de Pós-Graduação em Letras coordenado por Alvaro Santos Simões Junior e Maira Pandolfi, impressiona o trabalho que borbulha sobre ou a partir de género jornalístico-literário com tradição secular.

[JL-Jornal de Letras, Artes e Ideais, 15-X-2014, p. 28.]

17 outubro 2014

MENSAGEM DA DIREÇÃO

MENSAGEM DA DIREÇÃO

            Caros associados e amigos.
Vai a Câmara Municipal de Bragança e a Academia de Letras de Trás-os-Montes prestar a merecida homenagem ao Professor Doutor Ernesto José Rodrigues, cumpridos que são quarenta anos da sua vida literária. O evento decorrerá no próximo dia 13 de Dezembro, conforme o programa aqui divulgado.
Sendo certo que dispensa qualquer apresentação, permitam-me, no entanto, que lhes lembre que Ernesto Rodrigues é doutor em Letras pela Universidade de Lisboa e professor na Faculdade de Letras da mesma universidade. Do seu riquíssimo curriculum vitae, destacamos apenas as funções de leitor de Português na Universidade de Budapeste, onde desenvolveu um notável trabalho de aproximação cultural entre a Hungria e Portugal que, aliás, está a prosseguir, com diversas atividades de cooperação entre ambos os países. No distrito de Bragança, foi professor na Escola Superior de Educação e membro do Conselho Científico da Escola Superior de Tecnologia do IPB, de Mirandela, e de outras instituições do ensino superior.
Como escritor, poeta e ensaísta possui uma vasta obra que foi elaborando ao longo destes quarenta anos de atividade literária. Correndo o risco de pecarmos por defeito, referimos o romance Torre de Dona Chama, O Romance do Gramático, A Casa de Bragança, Fastigínia, Passos Perdidos (a ser lançado no âmbito da homenagem), obras integradas num muito mais vasto trabalho no campo da poesia, do romance, do ensaio literário e da tradução de autores consagrados.
Para a celebração dos quarenta anos da vida literária, a Academia de Letras de Trás-os-Montes solicitou ao realizador cinematográfico Leonel Brito a produção de um documentário sobre a vida e a obra do escritor, com o título “Ernesto Rodrigues – 40 anos de vida literária”, trabalho a apresentar também nesse dia.
Por todas estas razões, vimos convidá-los a participar neste evento que é dedicado às letras transmontanas, por via da homenagem ao escritor e poeta Ernesto Rodrigues, o primeiro Presidente que foi da Direção desta Academia e que a ela se mantém ligado, dirigindo os trabalhos da sua Assembleia Geral.
Com as nossas saudações académicas.

António Pinelo Tiza

(Vice-Presidente da Direção)

Ernesto Rodrigues - 40 Anos de Vida Literária - PROGRAMA

16 outubro 2014

Maçores - Rostos Transmontanos


Antologia da Poesia Húngara (Selecção e tradução: Ernesto Rodrigues)

Sinopse: Reúnem-se, aqui, 320 poemas escritos de 1448 a 1996, por 45 poetas húngaros nascidos entre 1434 e 1959. Do humanista Janus Pannonius, com 37 epigramas tirados do latim, a József Attila, o mais representado (de quem se traduz um em francês), fica o leitor a conhecer Balassi, Zrínyi, Csokonai, Vörösmarty, Arany, Petőfi, Ady, Babits e outros novecentistas entretanto vertidos nos últimos vinte anos. Recolhendo autores canónicos – mesmo os extraídos de uma já antiga, mas pioneira, Novíssima Poesia Húngara (Lisboa, 1985), também devida a Ernesto Rodrigues –, podem, agora, os portugueses ficar com uma ideia de literatura cuja distância, a começar pelo diverso sistema linguístico, já politicamente se esbate.
Biografia do autor: Ernesto Rodrigues (Torre de Dona Chama, 1956) é poeta, ficcionista, crítico e ensaísta, editor literário, tradutor de húngaro. Professor auxiliar com agregação da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, preside à direcção da Academia de Letras de Trás-os-Montes.
Estreado em 1973, resume 40 anos de poesia em Do Movimento Operário e Outras Viagens, 2013. Na ficção, assinou: Várias Bulhas e Algumas Vítimas, 1980; A Flor e a Morte, 1983; A Serpente de Bronze, 1989; Torre de Dona Chama, 1994; Histórias para Acordar, 1996; O Romance do Gramático, 2011; A Casa de Bragança, 2013. Principais títulos ensaísticos: Mágico Folhetim – Literatura e Jornalismo em Portugal, 1998; Cultura Literária Oitocentista, 1999; Verso e Prosa de Novecentos, 2000. Editou ‘O Século’ de Lopes de Mendonça: O Primeiro Jornal Socialista, 2008, e Tomé Pinheiro da Veiga, Fastigínia, 2011.

Antologia da Poesia Húngara
Selecção e tradução: Ernesto Rodrigues

15 outubro 2014

Gilda Santos, Belver, Brasil, por Ernesto Rodrigues (40 anos de vida literária)

Fomos encontrar, Teresa e eu, o nome de Belver encimando a casa da serra de Gilda Santos, em Araras, Petrópolis, a menos de duas horas do apartamento carioca da Gávea. É um condomínio fechado em silêncio e largueza de pulmões, e, no interior da moradia, sinais de viagens ou colecções cuidadas pela ex-professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde se doutorou sobre O Físico Prodigioso seniano. Desperta-me a atenção alto gargalo vencido em rolhas de cortiça, outras tantas garrafas de vinho bebido pelo raro enólogo que é o marido, Emmanoel. No exterior, entre canteiros bem tratados por quem nomeia cada flor e um relvado que olha o nome da aldeia natal, Belver, percorremos a Rua de Portugal, como informa um dos muitos azulejos que nos deixam em família. Ela aproveita para gravar os nossos depoimentos destinados à página Ler Jorge de Sena, com que acaba de conquistar o Prémio Jorge de Sena (a entregar em Novembro), oferta de anónimo e decisão de júri escolhido pelo CLEPUL ‒ Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa (Grupo 1).
Antes da subida ‒ indica-nos, à esquerda, a casa de Elba Ramalho ‒, lauteámo-nos na Pousada da Alcobaça, em Corrêas, onde, só de olhar ao almoço e à envolvente natural, apetece ficar uns dias. Vínhamos com apetite, já, após longa travessia desde D. João VI e seu neto Pedro II, que de Petrópolis fazia, no Verão, capital imperial, em cujo palácio ‒ hoje, museu ‒ passeámos, dentro de chinelos próprios. O imperador, aliás, gostava de usar pantufas…
Ora, este 6 de Setembro, sábado histórico-ecológico, é generosidade de quem acaba de viver cinco dias intensíssimos enquanto coordenadora-geral do 7.º Colóquio do Polo de Pesquisas Luso-Brasileiras do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro (também vice-preside a este), que distribuiu 160 conferencistas sobre “Percursos interculturais luso-brasileiros: modos de pensar e fazer” pelo Real Gabinete e Liceu Literário Português. É difícil, em Portugal, imaginar uma organização destas, em que Gilda tanto pensa o almoço dos convidados como dirige mesa de jovens pesquisadores. Gostei que trouxesse à Sala dos Brasões a querida professora Cleonice Berardinelli, 98 anos em 28 de Agosto.

Aos seis anos, partiu para o Brasil a menina de Belver, Carrazeda de Ansiães. Lá e cá, é a principal ponte entre as margens do Atlântico.

Ernesto Rodrigues - 40 Anos de Vida Literária - PROGRAMA (Cartaz)

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13 outubro 2014

D. Fernando I, segundo duque de Bragança, por Ernesto Rodrigues (40 anos de vida literária)

D. Fernando I, segundo duque de Bragança
Fora a carta de foro dada no arraial de Ceuta, em 20 de Fevereiro de 1464, era de Cristo; Pero de Alcáçova, que a escrevera, entregou cópia a um parente meu, Afonso Roiz, ou Rodrigues, e, a rogo do duque, recado para vir mostrá-la em pessoa, obrando aquela fala breve.
A história dirá quem era esse Afonso Rodrigues, e antepassados. Quem sou eu, do mesmo nome, cujos últimos dias talvez venham escondidos num fio da sua meada.
Foi há 550 anos; não imaginava que, na indefinição de criança em calções, sandálias lestas, o passado viria acariciar-me, exigindo este discurso.

Saudava, agradecido, D. Fernando I, segundo duque de Bragança, na estátua de bronze, sobre três blocos rectangulares de granito em assento leve, rodeada de folhame. Em cota leve, flectia ligeiramente a perna direita, espada embainhada e oblíqua, fincada, rígida, à esquerda, com determinação; e, entreaberta na mão direita, a carta foraleira, que oferecia, confiado, à cidade. Miudamente, observava as cotoveleiras, joelheiras, o cabelo grisalho caindo sobre as orelhas, e franjado na testa, com duas rugas verticais, fundas. A comissura dos lábios era grave. O neto de D. João I, rei ínclito que renovara o castelo – filho do primogénito D. Afonso, primeiro duque de Bragança −, mostrava-se firme, teso como a dignidade.
Eu assistira à inauguração, em 1964, ganapo ainda, enroscado nos pilares de ferro em que assentava um dos cinco candeeiros. Tinha oito anos, nada sabia de nós. Lembro-me da formatura de senhores, que escureciam o dia, e, talvez por isso, menina vestida de branco, um loiro anelado, da minha idade, sobressaía na manhã fresca, oferecendo salva de prata.
Agora, vinha aqui todos os dias, a casa dos avós, cada vez mais tristes, por mim, sentia. Antes, repousava no rectângulo de pedra frente à estátua, que dois bancos em voo semicircular enquadravam. Alternava verde; à direita, a pousada de São Bartolomeu, onde sonhava descansar, um dia; em fundo, o ronronar do Rio Fervença, sucedendo galos, cães, poalha de vozes… Nas tardes de sol, árvores e duque estampavam-se na tela muralhada.
Ao tempo, D. Fernando I e eu ouvíramos outros discursos embalados em patriotismo – civis, militares, religiosos; exaltados telegramas de cumprimentos e saudações, martelados de stop, à imagem de um país sem iniciativa.


A Casa de Bragança, Lisboa, Âncora Editora, 2013.