20 outubro 2014

Ernesto Rodrigues - 40 Anos de Vida Literária - PROGRAMA

Bragança, 13 de Dezembro de 2014

Centro Cultural Adriano Moreira / Biblioteca Municipal
Uma jornada sobre Ernesto Rodrigues
Uma organização da Câmara Municipal de Bragança e da Academia de Letras de Trás-os-Montes

PROGRAMA:
                
            10h00 – Abertura: Presidente da Câmara Municipal de Bragança
                                           Presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes
            10h30 – Intervenção: - José Manuel Mendes – Universidade do Minho
            11h15 – Pausa para Café.
            11h40 – Intervenção: - José Eduardo Franco - Universidade de Lisboa.
            15h00 - Mesa redonda: Teresa Martins Marques, José Mário Leite, Neto Jacob, Hirondino Fernandes, Baptista Lopes, António Pinelo Tiza, Alberto Fernandes, Teófilo Valdemar, Mara e Marcolino Cepeda.
             17h00 - Pausa para café.
             17h15 - Apresentação do livro: "Passos Perdidos" de Ernesto Rodrigues.
             18h30 - Apresentação do documentário: "Ernesto Rodrigues - 40 anos de vida Literária".
             19h30 - Encerramento e visita às exposições: Bibliografia de Ernesto Rodrigues e   "Bragança anos 70/14".


Nota: As marcações do almoço e do jantar devem ser feitas pelos seguintes contactos:

Pinelo Tiza – 966410635
Leonel Brito – 926844177

ALTM – academiadeletrasosmontes@gmail.com   

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Restaurante “Solar Bragançano”
Almoço

Entradas
Fumeiro, Chouriço, Alheira, Presunto, Queijos
Sopa
- Canja de Perdiz
- Sopa de Legumes
Pratos
- Túbaras Solarengas
- Arroz de Galinhola
- Posta de Vitela Mirandesa
- Veado ou Javali estufado em pote de ferro

Um Real Gabinete pujante - Ernesto Rodrigues (40 anos de vida literária)

Real Gabinete Português de
 Leitura do Rio de Janeiro
O 7.º Colóquio do Polo de Pesquisas Luso-Brasileiras do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro reuniu, entre 1 e 5 de Setembro, 160 conferencistas à volta de “Percursos interculturais luso-brasileiros: modos de pensar e fazer”, numa demonstração de invejável pujança, à imagem da coordenadora-geral, Gilda Santos.
Na Sala dos Brasões, após a abertura pelo presidente do RGPL, António Gomes da Costa, e da representante do cônsul-geral, a diversidade de trânsitos Brasil-Portugal veio inaugurada na conferência de Isabel Pires de Lima, sobre autores recentes, e na adaptação cinematográfica do romance Estive em Lisboa e lembrei de você, que ultima José Barahona.
As sessões plenárias foram dedicadas a Eça de Queirós, Camões ‒ Vanda Anastácio historiou o nascimento da disciplina de Estudos Camonianos na Faculdade de Letras de Lisboa (1925) ‒, urbanismo (extraordinária influência pombalina na morfologia de São Luís do Maranhão, por Margareth Gomes de Figueiredo), poesia, cinema e dança (Ida Ferreira Alves, Joana Matos Frias, Mônica Fagundes), intercâmbio jornalístico e romance-folhetim (Ernesto Rodrigues, Maria Eunice Moreira, Nelson Schapochnik, Teresa Martins Marques), Castilho cronista, paisagens de pobreza em Torga e Manuel da Fonseca, Adolfo Casais Monteiro ensaísta (Eduardo da Cruz, Francisco Ferreira de Lima, João Tiago Lima). O encerramento simbólico deu-se com o testemunho de Zuenir Ventura sobre “Os cravos de Abril, 40 anos depois”, ele que foi o primeiro jornalista brasileiro a reportar a Revolução, tendo na assistência Cleonice Berardinelli, com 98 anos ainda frescos.
Ernesto Rodrigues
Enquanto isso, as manhãs do RGPL e, no último dia, o Liceu Literário Português assistiam a dezenas de comunicações sobre figuras portuguesas oitocentistas (Eça na Província de São Pedro, por Carlos Alexandre Baumgarten), poesia finissecular e de hoje, Pessoa, Guimarães Rosa, Vergílio Ferreira, Saramago e ficção contemporânea dos dois lados atlânticos, teatro (Francisco Maciel Silveira deitando no divã Pedro e Inês, Flavia Corradin sobre Madame, de Maria Velho da Costa).
Eis pálida imagem de semana intensa, ainda com o chorinho do grupo Vê se gostas, que actuou na Biblioteca, e, diante dos olhos, o projecto O Real em Revista, com patrocínio da Petrobras ‒ 600 mil reais para, em 20 meses, digitalizar, e disponibilizar online, 30 mil páginas de periódicos, como se explica em No Giro do Mundo. Os periódicos do Real Gabinete Português de Leitura no século XIX (2014), primeiro volume organizado por Eduardo da Cruz.
FOLHETIM EM ASSIS
Já na Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, campus de Assis, o XII Seminário Internacional de Estudos Literários, entre 9 e 11 de Setembro, dedicado aos “Avatares do folhetim”, reuniu 150 estudiosos brasileiros ‒ citemos Yasmin Jamil Nadaf, Germana Araújo Sales, Socorro Barbosa, Lúcia Granja, Maria Eulália Ramicelli, Orna Messer Levin, Sílvia Maria Azevedo, Rosane Feitosa ‒, a que se associaram as universidades de Lisboa (Teresa Martins Marques apresentou A mulher que venceu D. Juan e Ernesto Rodrigues fez a conferência de abertura), Roma Tre (Giorgio De Marchis) e Sorbonne Nouvelle, Paris III (Jacqueline Penjon, que encerrou). Iniciativa do Programa de Pós-Graduação em Letras coordenado por Alvaro Santos Simões Junior e Maira Pandolfi, impressiona o trabalho que borbulha sobre ou a partir de género jornalístico-literário com tradição secular.

[JL-Jornal de Letras, Artes e Ideais, 15-X-2014, p. 28.]

17 outubro 2014

MENSAGEM DA DIREÇÃO

MENSAGEM DA DIREÇÃO

            Caros associados e amigos.
Vai a Câmara Municipal de Bragança e a Academia de Letras de Trás-os-Montes prestar a merecida homenagem ao Professor Doutor Ernesto José Rodrigues, cumpridos que são quarenta anos da sua vida literária. O evento decorrerá no próximo dia 13 de Dezembro, conforme o programa aqui divulgado.
Sendo certo que dispensa qualquer apresentação, permitam-me, no entanto, que lhes lembre que Ernesto Rodrigues é doutor em Letras pela Universidade de Lisboa e professor na Faculdade de Letras da mesma universidade. Do seu riquíssimo curriculum vitae, destacamos apenas as funções de leitor de Português na Universidade de Budapeste, onde desenvolveu um notável trabalho de aproximação cultural entre a Hungria e Portugal que, aliás, está a prosseguir, com diversas atividades de cooperação entre ambos os países. No distrito de Bragança, foi professor na Escola Superior de Educação e membro do Conselho Científico da Escola Superior de Tecnologia do IPB, de Mirandela, e de outras instituições do ensino superior.
Como escritor, poeta e ensaísta possui uma vasta obra que foi elaborando ao longo destes quarenta anos de atividade literária. Correndo o risco de pecarmos por defeito, referimos o romance Torre de Dona Chama, O Romance do Gramático, A Casa de Bragança, Fastigínia, Passos Perdidos (a ser lançado no âmbito da homenagem), obras integradas num muito mais vasto trabalho no campo da poesia, do romance, do ensaio literário e da tradução de autores consagrados.
Para a celebração dos quarenta anos da vida literária, a Academia de Letras de Trás-os-Montes solicitou ao realizador cinematográfico Leonel Brito a produção de um documentário sobre a vida e a obra do escritor, com o título “Ernesto Rodrigues – 40 anos de vida literária”, trabalho a apresentar também nesse dia.
Por todas estas razões, vimos convidá-los a participar neste evento que é dedicado às letras transmontanas, por via da homenagem ao escritor e poeta Ernesto Rodrigues, o primeiro Presidente que foi da Direção desta Academia e que a ela se mantém ligado, dirigindo os trabalhos da sua Assembleia Geral.
Com as nossas saudações académicas.

António Pinelo Tiza

(Vice-Presidente da Direção)

Ernesto Rodrigues - 40 Anos de Vida Literária - PROGRAMA

16 outubro 2014

Maçores - Rostos Transmontanos


Antologia da Poesia Húngara (Selecção e tradução: Ernesto Rodrigues)

Sinopse: Reúnem-se, aqui, 320 poemas escritos de 1448 a 1996, por 45 poetas húngaros nascidos entre 1434 e 1959. Do humanista Janus Pannonius, com 37 epigramas tirados do latim, a József Attila, o mais representado (de quem se traduz um em francês), fica o leitor a conhecer Balassi, Zrínyi, Csokonai, Vörösmarty, Arany, Petőfi, Ady, Babits e outros novecentistas entretanto vertidos nos últimos vinte anos. Recolhendo autores canónicos – mesmo os extraídos de uma já antiga, mas pioneira, Novíssima Poesia Húngara (Lisboa, 1985), também devida a Ernesto Rodrigues –, podem, agora, os portugueses ficar com uma ideia de literatura cuja distância, a começar pelo diverso sistema linguístico, já politicamente se esbate.
Biografia do autor: Ernesto Rodrigues (Torre de Dona Chama, 1956) é poeta, ficcionista, crítico e ensaísta, editor literário, tradutor de húngaro. Professor auxiliar com agregação da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, preside à direcção da Academia de Letras de Trás-os-Montes.
Estreado em 1973, resume 40 anos de poesia em Do Movimento Operário e Outras Viagens, 2013. Na ficção, assinou: Várias Bulhas e Algumas Vítimas, 1980; A Flor e a Morte, 1983; A Serpente de Bronze, 1989; Torre de Dona Chama, 1994; Histórias para Acordar, 1996; O Romance do Gramático, 2011; A Casa de Bragança, 2013. Principais títulos ensaísticos: Mágico Folhetim – Literatura e Jornalismo em Portugal, 1998; Cultura Literária Oitocentista, 1999; Verso e Prosa de Novecentos, 2000. Editou ‘O Século’ de Lopes de Mendonça: O Primeiro Jornal Socialista, 2008, e Tomé Pinheiro da Veiga, Fastigínia, 2011.

Antologia da Poesia Húngara
Selecção e tradução: Ernesto Rodrigues

15 outubro 2014

Gilda Santos, Belver, Brasil, por Ernesto Rodrigues (40 anos de vida literária)

Fomos encontrar, Teresa e eu, o nome de Belver encimando a casa da serra de Gilda Santos, em Araras, Petrópolis, a menos de duas horas do apartamento carioca da Gávea. É um condomínio fechado em silêncio e largueza de pulmões, e, no interior da moradia, sinais de viagens ou colecções cuidadas pela ex-professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde se doutorou sobre O Físico Prodigioso seniano. Desperta-me a atenção alto gargalo vencido em rolhas de cortiça, outras tantas garrafas de vinho bebido pelo raro enólogo que é o marido, Emmanoel. No exterior, entre canteiros bem tratados por quem nomeia cada flor e um relvado que olha o nome da aldeia natal, Belver, percorremos a Rua de Portugal, como informa um dos muitos azulejos que nos deixam em família. Ela aproveita para gravar os nossos depoimentos destinados à página Ler Jorge de Sena, com que acaba de conquistar o Prémio Jorge de Sena (a entregar em Novembro), oferta de anónimo e decisão de júri escolhido pelo CLEPUL ‒ Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa (Grupo 1).
Antes da subida ‒ indica-nos, à esquerda, a casa de Elba Ramalho ‒, lauteámo-nos na Pousada da Alcobaça, em Corrêas, onde, só de olhar ao almoço e à envolvente natural, apetece ficar uns dias. Vínhamos com apetite, já, após longa travessia desde D. João VI e seu neto Pedro II, que de Petrópolis fazia, no Verão, capital imperial, em cujo palácio ‒ hoje, museu ‒ passeámos, dentro de chinelos próprios. O imperador, aliás, gostava de usar pantufas…
Ora, este 6 de Setembro, sábado histórico-ecológico, é generosidade de quem acaba de viver cinco dias intensíssimos enquanto coordenadora-geral do 7.º Colóquio do Polo de Pesquisas Luso-Brasileiras do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro (também vice-preside a este), que distribuiu 160 conferencistas sobre “Percursos interculturais luso-brasileiros: modos de pensar e fazer” pelo Real Gabinete e Liceu Literário Português. É difícil, em Portugal, imaginar uma organização destas, em que Gilda tanto pensa o almoço dos convidados como dirige mesa de jovens pesquisadores. Gostei que trouxesse à Sala dos Brasões a querida professora Cleonice Berardinelli, 98 anos em 28 de Agosto.

Aos seis anos, partiu para o Brasil a menina de Belver, Carrazeda de Ansiães. Lá e cá, é a principal ponte entre as margens do Atlântico.

Ernesto Rodrigues - 40 Anos de Vida Literária - PROGRAMA (Cartaz)

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13 outubro 2014

D. Fernando I, segundo duque de Bragança, por Ernesto Rodrigues (40 anos de vida literária)

D. Fernando I, segundo duque de Bragança
Fora a carta de foro dada no arraial de Ceuta, em 20 de Fevereiro de 1464, era de Cristo; Pero de Alcáçova, que a escrevera, entregou cópia a um parente meu, Afonso Roiz, ou Rodrigues, e, a rogo do duque, recado para vir mostrá-la em pessoa, obrando aquela fala breve.
A história dirá quem era esse Afonso Rodrigues, e antepassados. Quem sou eu, do mesmo nome, cujos últimos dias talvez venham escondidos num fio da sua meada.
Foi há 550 anos; não imaginava que, na indefinição de criança em calções, sandálias lestas, o passado viria acariciar-me, exigindo este discurso.

Saudava, agradecido, D. Fernando I, segundo duque de Bragança, na estátua de bronze, sobre três blocos rectangulares de granito em assento leve, rodeada de folhame. Em cota leve, flectia ligeiramente a perna direita, espada embainhada e oblíqua, fincada, rígida, à esquerda, com determinação; e, entreaberta na mão direita, a carta foraleira, que oferecia, confiado, à cidade. Miudamente, observava as cotoveleiras, joelheiras, o cabelo grisalho caindo sobre as orelhas, e franjado na testa, com duas rugas verticais, fundas. A comissura dos lábios era grave. O neto de D. João I, rei ínclito que renovara o castelo – filho do primogénito D. Afonso, primeiro duque de Bragança −, mostrava-se firme, teso como a dignidade.
Eu assistira à inauguração, em 1964, ganapo ainda, enroscado nos pilares de ferro em que assentava um dos cinco candeeiros. Tinha oito anos, nada sabia de nós. Lembro-me da formatura de senhores, que escureciam o dia, e, talvez por isso, menina vestida de branco, um loiro anelado, da minha idade, sobressaía na manhã fresca, oferecendo salva de prata.
Agora, vinha aqui todos os dias, a casa dos avós, cada vez mais tristes, por mim, sentia. Antes, repousava no rectângulo de pedra frente à estátua, que dois bancos em voo semicircular enquadravam. Alternava verde; à direita, a pousada de São Bartolomeu, onde sonhava descansar, um dia; em fundo, o ronronar do Rio Fervença, sucedendo galos, cães, poalha de vozes… Nas tardes de sol, árvores e duque estampavam-se na tela muralhada.
Ao tempo, D. Fernando I e eu ouvíramos outros discursos embalados em patriotismo – civis, militares, religiosos; exaltados telegramas de cumprimentos e saudações, martelados de stop, à imagem de um país sem iniciativa.


A Casa de Bragança, Lisboa, Âncora Editora, 2013.

08 outubro 2014

Júlio Machado Vaz - Convite

Era uma vez um professor…, de Júlio Machado Vaz

Resumo: Em Era uma vez um professor…, o médico psiquiatra Júlio Machado Vaz reúne uma série de textos proferidos em diferentes conferências ao longo da sua carreira. Esta é uma leitura de extremo interesse, em que aborda assuntos curiosos da forma didáctica, científica mas descontraída, que caracteriza o seu discurso.

Júlio Machado Vaz debruça-se sobre pessoas e temas tão diversos como Mozart, José Sócrates e Álvaro Siza Vieira; o amor cortês, a arquitectura e o Serviço Nacional de Saúde. Porque, com
o Abel Salazar reflectiu, «um médico que só sabe Medicina nem Medicina sabe».
 Autor:
Júlio Guilherme Ferreira Machado Vaz nasceu a 16 de Outubro de 1949, no Porto.
É médico psiquiatra. Professor auxiliar a título definitivo aposentado e ex-regente de Antropologia Médica no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar. Membro do Conselho Consultivo da Universidade Lusíada.
Membro do Conselho Consultivo da Fundação da Juventude e director técnico da Comunidade de Inserção Eng. Paulo Vallada, para adolescentes grávidas e mães com seus filhos. No mesmo contexto, preside a Direcção da Associação Acolher e Cuidar para a Cidadania, que passará a assegurar o funcionamento da referida comunidade.
Director clínico da Comunidade Terapêutica para recuperação de toxicodependentes de Adaúfe, em Braga. Membro da Comissão de Ensino da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica e vice-presidente da mesma sociedade.
Livros publicados: O Sexo dos AnjosO Fio InvisívelDomingos, Sábados e Outros DiasMurosConversas no PapelEstilhaçosEstes Difíceis AmoresO Amor é…Aqui entre NósVinte Anos Depois.
Programas de rádio: «Sexo dos Anjos» e «A Bela e os Monstros». Nos últimos dez anos, é autor/apresentador de «O Amor é...», na Antena 1.
Programas de televisão: «Sexualidades» e «Serralves Fora de Horas». Actualmente, é comentador residente do Porto Canal.
 CARTA AOS MEUS NETOS
À GUISA DE PREFÁCIO
«Rapazes,
À primeira vista, tresanda a redundância dedicar-vos um livro que pontua a minha entrada na velhice oficial. Vocês são o futuro da tribo, os parceiros de almoços apressados entre aulas e partidas de ping-pongpreguiçosas em Cantelães, a terapêutica de choque se o sorriso ameaça de divórcio o coração. (O dos lábios não é problema, ora sublinha alegrias, ora disfarça tristezas, é multiusos; epidérmico. Mas o do coração é fundo. Se nos deixa, a força de viver, órfã e às escuras, hiberna sem Primavera garantida.) Logo, tudo o que escrevo ou digo vos pisca o olho, na esperança de um segundo de atenção, com sorte, do privilégio da vossa curiosidade.

06 outubro 2014

LÍNGUA CHARRA - Regionalismos de Trás-os-Montes e Alto Douro, por A. M. Pires Cabral (Letra B)

BÁ. interj. Pois seja! Está bem assim! M.
Cavaleiros; Mogadouro. Por ‘vá’, do v. ‘ir’.

BABADEIRA. s. Babeiro. PEREIRA RL XI.
Comum no país.

BABANCA. s. Lorpa; palerma.



04 outubro 2014

40 anos de vida literária de Ernesto Rodrigues - O POETA E O FRADE,por Teresa Martins Marques


 Em 2006, o Ernesto e eu fomos à Feira do Livro de Braga. Ao passarmos perto do Seminário de Montariol, o Ernesto comentou:
- Foi ali que aos 16 anos mandei imprimir o meu primeiro livro de poesia- «INCONVENCIONAL», pago pelo meu pai, é claro.
- Ali? Mas ali é um seminário franciscano!
-Sim, mas tinham lá uma gráfica. Era um frade que tomava conta dela. Um tal Frei Perdigão. Deve ter morrido há muito. Já era velho nesse tempo.
-Velho? Tu tinhas 16 anos qualquer um te parecia velho! Vamos mas é lá ver se o homem morreu ou não!
Levei o Ernesto atrás de mim, e chegámos à recepção. Camilianamente, pergunta :
- Frei Perdigão ainda é vivo?
Uns olhos muito abertos respondem:
-Sim... Está além naquele anexo. E apontava para o fundo do jardim. O Ernesto faz um ar intrigado e já eu...
-Vamos lá falar com ele!
E fomos. Um homem ainda bem conservado, soubemos depois que tinha 67 anos, olha para nós, curioso. O meu companheiro avança em direcção ao frade:
-Frei Perdigão?
Entrada principal de Montariol
-Sim. Quem me procura?
- Ernesto Rodrigues.
-Mas não é de Bragança, pois não?
-Sim... Do distrito de Bragança, da Torre de Dona Chama.
- Ora uma destas !
E nós ainda mais espantados do que ele.
- Então você é aquele catraio que me entrou aqui num dia de temporal com um livrinho de poesia para eu editar?!
- Siimm... Sou eu ...- gaguejou o Ernesto.
-Não me diga!
- Hum...
- E o que e que faz na vida o poetinha?
-Sou professor em Lisboa... na Faculdade de Letras.
- Logo vi! Logo vi que ali havia coisa com futuro!
O Ernesto emudeceu e eu atalhei.
-Mas porquê, Frei Perdigão?
- Porque eu recebia aqui quilos de poesia boa para embrulhar mercearia e de repente aparece-me um livrinho diferente, um livrinho catita e eu disse com os meus botões: sim senhor, este catraio é bom! Temos aqui homem!
-Então e continua a ser poeta, não é verdade?
- Sim...
E eu:
-Poeta e romancista... Pelo menos...
Frei Perdigão sorriu quis saber o "pelo menos", informou-se dos títulos, cada vez mais encantado. Um fantasma aparecera-lhe assim de repente do passado, não era para menos. Olha-me sorridente:
- Sabe que não o deixei ir embora nesse dia ? Começou a trovejar e disse-lhe:
-O menino hoje não sai daqui com este temporal! Vai dormir ali numa cela ...
E o frade contava , contava...
Interrompo : Frei Perdigão, o senhor que idade tinha nesse tempo?
Sorriso franco e nostálgico:
-Oh! nesse tempo era ainda um rapaz novo. Deixe ver... Tinha os meus 36 anos...
Já recompostos da emoção, na descida de Montariol, não resisti:
- Com que então, Ernesto, quando tu tinhas 16 anos o frade já era velho, muito velho...
-Longa vida, Frei Perdigão!


Teresa Martins Marques, 18 de Março de 2014.


 O Acaso  vestido de  Franciscano
 Balzac  disse que o acaso é o maior romancista do mundo. Na realidade,  ao olharmos para certos acontecimentos, que são fruto  do puro acaso, eles parecem-nos saídos das páginas de uma ficção premeditada ao ínfimo detalhe.

É o caso do meu encontro com Frei Perdigão, o franciscano que publicou Inconvencional - o primeiro livro de poesia do meu companheiro Ernesto Rodrigues.   Adolescente, eu frequentava  o Colégio de Nossa Senhora da Bonança, em Vila Nova de Gaia,  dirigido pelas Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição, quando a  minha professora de Português nos mandou fazer uma redacção  comemorativa do dia do santo padroeiro - São Francisco. A melhor redacção teria como prémio a publicação no jornal das Missões Franciscanas , editado em Braga, no seminário de Montariol, cuja gráfica era dirigida por Frei Henrique Perdigão. A professora mandou para a gráfica  as três melhores redacções . Frei Perdigão escolheu e publicou a minha poesia intitulada « No Alverne».  O recorte que  guardei dessa primeira aventura  em redondilha maior,  tem a data cortada.  Eu teria  talvez 14 ou 15 anos.   O acaso apareceu na adolescência  do Ernesto e na minha , vestido de frade franciscano…


NO ALVERNE

Por entre aquela montanha
Propícia à contemplação,
O Poverello se embrenha
Fazendo meditação.
Não receia as escarpas
Tempestades ou calor.
Recearia, sim, perder
O seu tão Supremo Amor.
Animado de tal vida
De tal força, de tal Fé
Já não é o pecador
Pois o seu tão grande Amor
Diz quão santo ele já é.

Di-lo a irmã cotovia,
Poisando em sua mão.
Despertando-o p’ra Matinas,
Di-lo o irmão falcão.
Revela-o Frei Pecorella
Em sua terna afeição.
Di-lo o Alverne inteiro
Em seu clamor mais profundo:
Entre mim esteve o Santo
Mais santo de todo o mundo.
Teresa Martins Marques  (14 ou 15 anos)

Publicado no jornal mensário dos Franciscanos (Braga, Abril de 1965 ? 1966?)



Frei Henrique Perdigão
Natural da Ribeira de Palheiros, freguesia de Miragaia, conselho da Lourinhã, onde nasceu a 23.01.1939. Entrou na ordem Franciscana a 10.01.1957, fez votos temporários a 15.08.1958 e, votos solenes e perpétuos 15.08.1962.
Na Província dos Portugueses da Ordem Franciscana, tem desempenhado várias  tarefas de serviço aos Irmão e à comunidade dos Homens, como enfermeiro, é o responsável pela enfermaria Provincial de Montariol e co-fundador da "Fraternidade Cristã dos Doentes e Limitados Físicos". Trabalhou com grupos de catequese e jovens.
De 1954/1980 trabalhou na Tipografia Editorial Franciscana de Montariol como compositor  mecânico e Vice-Administrador da mesma.
De 1981/1983 foi Prefeito-Adjunto do Colégio Franciscano de Motariol e  e de 1981/1984 acumulou a tarefa de Professor de Moral e Trabalhos Oficinais, no mesmo colégio.
De 1984/2000 foi responsável pelo acolhimento dos grupos juvenis que utilizavam os espaços daquela casa Franciscana para encontros, retiros, etc. Desde 1987 desempenha as funções de cronista do Convento Franciscano de Montariol.
Foi membro do conselho Pastoral e Paroquial de S. Victor; do Secretariado da Catequese da cidade de Braga; do Sínodo Diocesano pelos religiosos não clérigos ( 1994/1997). Fundou o Agrupamento de 660 CNE de Montariol, vindo a ser condecorado com a cruz de prata de S. Jorge em 1985, foi lhe atribuído Louvor Nacional pelas  Proposta  Educativa para a terceira Secção do CNE em 1992, recebeu em 1995 a medalha de ouro S. Jorge e em 2005 a Cruz Monselhor Avelino Jesus Gonçalves; coordenou a Comissão Norte das Comemorações do Stº António  em 1995 com a respectiva Exposição e vinda das Relíquias do mesmo a Portugal em 1996; organizou entre outras as exposições  do Centenário  das  Missões Franciscanas em Moçambique em 1993; Oitavo Centenário da Vocação Franciscana em 2007 e o Museu das Missões no Centro Cultural Franciscano de Lisboa

e autor  dos desenhos de suporte vitrais antonianos da Igreja de Stº António da Florida, Vigo, Espanha.

Bibliografia

Publicou os seguintes títulos:
- 60 Anos de Escutismo Católico em Portugal (1984), ed. CNE.
- Subsídios para a História da Ribeira de Palhjeiros (1992).
- D. Lourenço Vicente, Arcebispo de Braga e Primaz das Espanha (1997). (Esgotado).
- Stº António na Eiriceira (1996).
- Convento de Stº António da Lourinhã (parceira) (2003).
- Montariol nos últimos 25 anos, 1978/2003, (apresentado na reunião dos Antigos Alunos a 16 deJaneiro de 2004).
- Frei Boaventra Fernandes (2005). (Esgotado).
- Frei José Maria Custódio (1993). (Esgotado).
- Marcados mas Vivos (2005). (Esgotado).
- 25 anos ao serviço da Juventude - História do Agrupamento Escuta de Montariol. (2005).
- Colabora no jornal "Alvorada", nas revistas "Carta do Amigo" e "Monumento à Imaculada"



18 setembro 2014

Livraria Traga-Mundos presente na FEIRA DO LIVRO DO PORTO 2014

A livraria Traga-Mundos de Vila Real estará PRESENTE na Feira do Livro do Porto 2014 – stand n.º 35 –, levando o mundo literário e cultural de Trás-os-Montes e Alto Douro, de 5 a 21 de Setembro de 2014, nos Jardins do Palácio de Cristal, no Porto.
Recordamos que a Traga-Mundos é uma livraria especializada na temática de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Onde estão presentes os autores locais e regionais, grande parte com projecção nacional e universal – Agustina Bessa-Luís, Alexandre Parafita, Altino Moreira Cardoso, Alves Redol, A.M. Pires Cabral, Amadeu Ferreira (Fracisco Niebro), Antero Neto, António Barreto, António Borges Coelho, António Cabral, António Fontes, António Fortuna, António Júlio Andrade, António Modesto Navarro, António Pena Gil, António Sá Gué, A. Passos Coelho, Armando Sena, Barroso da Fonte, Bento da Cruz, Camilo Castelo Branco, Camilo de Araújo Correia, Damas da Silva, Dias Vieira, Domingos Monteiro, Dulce Maria Cardoso, Emílio Miranda, Ernesto Rodrigues, Eurico Figueiredo, Fernão de Magalhães Gonçalves, Francisco José Viegas, Gaspar Martins Pereira, Graça Pina de Morais, Guerra Junqueiro, Isabel Mateus, Joaquim de Barros Ferreira, João de Araújo Correia, João Bigotte Chorão, João Cabrita, João de Deus Rodrigues, João Domingos Gomes Sanches, João Parente, João Pinto Vieira da Costa, José Braga-Amaral, J. Rentes de Carvalho, Luísa Dacosta, Manuel Cardoso, Manuel Vaz de Carvalho, Manuela Morais, Maria Fernanda Guimarães, Maria Olinda Rodrigues Santana, Marília Miranda Lopes, Mário Correia, Mário Mendes, M. Hercília Agarez, Miguel Torga, Nadir Afonso, Natália Fauvrelle, Otílio Figueiredo, Paula Godinho, Rául Rêgo, Ribeiro Aires, Rui Pires Cabral, Sílvia Alves, Tiago Patrício, Teixeira de Pascoaes, Vergílio Taborda, Virgínia do Carmo, Vítor Nogueira, etc...
Obras em prosa ou poesia; romances, novelas e contos; livros técnicos e revistas temáticas; álbuns infanto-juvenis e de banda-desenhada; de edições de bolso a álbuns de fotografia; de guias turísticos a cd’s e dvd’s; de edições de autor a edições de associações e outras instituições; em português e an mirandés; num esforço para se reunir e apresentar num mesmo local a riqueza cultural e literária da região de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Visitem(-nos)...
António Alberto Alves
Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisas do Douro
Rua Miguel Bombarda, 24 – 26 – 28 em Vila Real
2.ª, 3.ª, 5.ª, 6.ª, Sáb. das 10h00 às 20h00 e 4.ª feira das 14h00 às 23h00
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Próximos eventos:
- de 20 de Agosto a 30 Setembro de 2014: exposição 5 cartazes originais das Corridas de Vila Real (1967, 1968, 1970, 1972, 1973);
- 27 e 28 de Setembro de 2014: presença com uma banca de livros, mais algumas coisas e loisas, no Festival Aldeias Vinhateiras, em Provesende;
- dia 4 de Outubro de 2014 (quinta-feira): presença com uma banca de livros, mais algumas coisas e loisas, no VI Encontro de Didática do Português da DPG - Associação de Professores de Português na Galiza.

"Relevos", de Virgínia do Carmo - FEIRA DO LIVRO DO PORTO

Tenho um cerco de cicatrizes na raiz das mãos.
Um muro de sustos entre mim e ti. O desejo
nasce-me informe por todo o corpo e eu não sei
onde colocar os lábios quando a sede me derruba.
Procuro a minha boca no chão. Mas hoje é isso
que eu sou: um corpo mudo cheio de palavras
por dentro
"Relevos", de Virgínia do Carmo
Poética Edições, Setembro de 2014

«Virgínia do Carmo nasceu em Champagnole, França, em 1973. É licenciada em Comunicação Social, tendo exercido jornalismo no início da sua vida profissional. Mais tarde tornou-se livreira e vem desenvolvendo, desde há um ano, um pequeno projecto editorial.  É também autora das obras “Tempos Cruzados” (poesia, Pé de Página Editores, Coimbra, 2004), “Sou, e Sinto” (poesia, Temas Originais, Coimbra, 2010) e “Uma luz que nos nasce por dentro” (contos, Lua de Marfim Editora, Lisboa, 2011).»

11 setembro 2014

APRESENTAÇÃO DE RELEVOS DE VIRGÍNIA DO CARMO, por Hercília Agarez

APRESENTAÇÃO DE RELEVOS DE VIRGÍNIA DO CARMO

Os poetas podem contemplar as estrelas, enquanto os bichos sociais se devoram na sombra (?)

    Há coisas que se não medem com fita métrica, não se pesam com balança, não se lhes avalia a temperatura com termómetro. Há coisas cujo valor é imaterial, coisas que nenhum dinheiro pode comprar. O talento é uma delas. O talento, esse privilégio, esse dom atribuído por um qualquer deus e que guinda quem o possui a alturas onde aves não chegam, lá para os lados das estrelas.
    Nenhuma arte nasce sem essa centelha de génio que ilumina o artista. Hoje falamos de literatura, mais precisamente de poesia, para festejarmos uma obra que, a haver justiça, mostrará à intelligentsia deste pais que, se Portugal é um país de poetas, Trás-os-Montes ajuda a confirmar a asserção.
    No interior deste espaço telúrico mais lembrado por uns resquícios de tradições, pela gastronomia e por alguma paisagem vendida ao turista a troco de um cálice de mau vinho fino, vive gente, mais e menos jovem, que, ao dedicar-se à escrita, o faz por paixão, cônscia de que dificilmente alguém lhe faça uma recensão, lhe dedique umas linhas na imprensa cultural, lhe ponha os livros ao alto em estantes de livrarias onde se acotovelam biografias de futebolistas, manuais de receitas de senhoras da televisão, Dan Browns da moda.
   Neste interior de rigores climáticos, de distanciamento das capitais, Virgínia do Carmo não cruza os braços, melhor, não põe um dique a estancar a inspiração. Vocacionada para a valorização da riqueza cultural, acaricia os livros com mãos de veludo, abre-lhes o seu peito, qual tabernáculo, onde, como veremos, arrecada ciosamente patrimónios afectivos e vivências, estrelas e mar, rios e flores, pássaros e pedras. Mulher destemida, empreendedora, persistente, livreira e editora, prosadora e poeta, de voz acetinada e olhar luminoso, anfitriã que gosta de mimar quem a visita nem que seja só com o seu sorriso, reservou-nos uma surpresa  para a rentrée. Não é uma estreia no género, é uma pérola ainda mais preciosa que as anteriores. Se Sou e Sinto (não conheço Tempos Cruzados) é uma espécie de aperitivo gourmet, RELEVOS é um prato substancial, uma harmoniosa e saborosa mistura de sabores, aromas e texturas, uma delícia para o paladar do espírito. Mas já lá vamos
     Em certas circunstâncias sinto-me no dever de justificar a minha presença como apresentadora de uma obra literária. Não sou macedense, não sou poeta. Estou, pois, aqui pela simples razão de gostar da Virgínia e de ela gostar de mim. Ela quis arriscar. Por isso lhe estou grata. Eu, talvez levianamente, aceitei.
    Na minha longa carreira de professora de Literatura que ainda sou, quantas vezes me interroguei sobre a análise de um texto literário, sobretudo poético. Quem somos nós, leigos na arte da escrita, para impingir aos alunos as nossas leituras?
    A este propósito não posso deixar de referir um episódio recentemente passado com Pires Cabral a propósito da Gaveta do Fundo. Num encontro de leitores, uma colega escolheu um poema para ler e deu-lhe a sua interpretação ao que ele respondeu: não era isso que eu queria dizer, mas agradeço-a e acho-a aceitável.
    Há dias, aqui neste lugar de cultura e de afectos, punha-se uma questão que teria dado pano para mangas, se não para um fato completo… O que é um escritor? O que é um poeta? Sem preocupações académicas nem de teorização literária, eu responderia com toda a clareza e simplicidade: o escritor distingue-se do escrevinhador como o poeta do versejador.
     Sobre os poetas, direi ainda que eles têm ideias. Pensam, escrevem e, quem sabe, sonham poesia, enquanto os outros se limitam a rimar banalidades, obcecados com as regras aprendidas na escola. Melhor do que eu falam vozes credíveis. Como Adolfo Casais Monteiro em

Aurora

A poesia não é voz – é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

voo sem pássaro lento.

    Pires Cabral chama à poesia “o danoso ofício das metáforas” e Francisco José Viegas afirma: “A poesia não tem a ver com a literatura. Releva do domínio do sagrado indizível”. E Torga escreve: “Os poetas são como os faróis, dão chicotadas de luz na escuridão”.
    Antes de nos pronunciarmos sobre a poesia da Virgínia, vamos ver como ela se nos apresenta:

Na medida de todas as coisas

Na medida de todas as coisas, eu
a ser pequena.

O ar a doer-me, a não caber no coração
pequeno. E as mãos, tão pequenas, a perderem
os gestos no avesso de todos os tamanhos.

E eu,
a ser pequena.

Um horizonte a rasgar-me, a não caber
nos meus olhos pequenos.

Um chão de lume a consumir-me pés
e passos. A vida a doer-me, a não caber
no meu corpo pequeno. Tão pequeno.

E na medida de todas as coisas, eu,
a ser pequena.

Permitam-me que apresente a minha versão dos dois últimos versos:

E na medida das coisas poéticas, eu
a não ser pequena.

    Este livro chama-se RELEVOS. A plurissignificação obriga a um esclarecimento: um vocábulo, três acepções. Cabe ao leitor a escolha da que entende mais adaptada ao teor dos poemas. Ele tem essa liberdade. Por mim, opto pelo segundo sentido. Porque ele me sugere a orografia transmontana, as suas fragas  -  altos-relevos esculpidos em pedra (“E há fragas de pó no teu peito sem janelas”). Em contraste com a com a brandura lisa e amarela da planície alentejana. E também porque a vida da autora nos surge pautada por uma não linearidade, antes por percursos acidentados, sinuosos, exterior e interiormente. A própria afirma: Não sou uma linha recta;não sei ir direito para dentro de mim. O seu caminho, no duplo sentido de o caminho por onde vai e o caminho que é, é feito de sobressaltos, de ciladas, de incidentes e acidentes, de desafios, ilusões e desilusões, de mais dúvidas do que certezas: Não sou caminho de bermas simétricas.
    Alheia a um mundo que a rodeia onde os ditames sociais imperam, ela orienta “os seus próprios passos” , como afirma José Régio em “Cântico Negro, segundo o que lhe pede o peito, esse reduto inviolável do seu ser, essa caixinha de segredos, esse espaço onde gostaria de guardar constelações e penedias, essa redoma onde se refugia “dos ares contaminados: […] O corpo é um lugar que podes adormecer para / dissecar. Mas o peito não. O peito é uma pedra dura…” (in “Dor”)
    A propósito de pedra, assinalemos a recorrência desta palavra a que vêm juntar-se chão e caminho, peito, corpo e pele. Porquê pedras? Por serem parte integrante de chão? Pela sua firmeza, pela resistência que oferecem ao efeito corrosivo do tempo? Pela garantia de perenidade? Por serem testemunhas caladas do seu estar só?

“O peito é uma pedra dura”;
“[…] a síntese química das pedras”;
“É um cordão de pedras e nós a engolir silêncios  / irrespiráveis…”
“Apetece-me // o silêncio das pedras”.

    Quanto ao emprego frequente da palavra chão, usada no seu sentido literal, não poderemos ver nela um sinónimo do elemento terra? E de Terra Mater? Não será esse chão para Virgínia o que foi para Anteu, o gigante da mitologia que se sentia inexpugnável ao pisá-lo? Um chão que ampara os passos, as quedas, que não devora nem amputa como as ondas do mar: Perdi os braços no alto mar.

 “Cansada de tudo o que me sobra de chão”;
“[…] luz estilhaçada no ventre do chão vazio”;
“Um chão de lume a consumir-me pés e passos”;
“um grito de esperança a eclodir do chão”.

    Da recorrência dos vocábulos corpo, peito e pele falaremos oportunamente.

    As duas primeiras partes do livro são dominadas por um eu que se desnuda perante o leitor, que lhe transmite as suas angústias, os seus desejos e as suas frustrações, um eu que é como um novelo enrolado para o lado de dentro como se considerava Fernando Pessoa. É um ser que sofre e que deixa transparecer a sua dor através do uso de palavras como susto, medo, saudade, solidão, lágrimas, gritos, vazio, perda, suspiro, desmaio, algumas delas a servir de título (ou parte dele) aos poemas


Não há desespero algum neste estar só. Se
permaneço imóvel é porque o silêncio é mais
simples do que a voz de alguém. Na fala dos
outros há sempre a rouquidão das coisas. O
gemido latente das mãos a quererem mais. E
no chão fora de mim há estilhaços onde corro
o risco de ferir os pés. Corações que se partiram
contra as manhãs de vidro dos sonhos.

Aqui estou a salvo. Neste estar só onde é impossível
enlouquecer. Onde não há janelas que me atirem
tempestades. Nem sol que me arda no peito.

    E a propósito uma questão se me levanta: há relação entre o estar só e a criação poética? Calculo que sim.

    Temos a sensação de que o sujeito poético (para usar a terminologia da moda) impõe-se como é antes de fazer entrar em cena o tu que com o eu forma o nós, ambos protagonistas de um drama sentimental adivinhadamente acidentado e que atinge o clímax na III parte. É a explosão dorida do sentimento amoroso, é o assumir de uma dependência sentimental da mulher que, como nas Cantigas de Amigo, suspira pela vinda do amado, pelos seus encontros, dele pede novas às flores do verde pino.
    É, também, a altura de recorrências linguísticas como corpo, peito, pele, sugerindo uma comunhão de desejos e de palavras, de cruzar de caminhos e de afectos. Como acontece em todas as partes do livro, Virgínia faz uma curta introdução também ela poética como as anteriores:

Existir-me-á para sempre // [A doer-me tanto] // O sulco fundo e transparente de um fio de luz a // bordar-te em mim.

    Não cheguei a despedir-me de ti

Não cheguei a despedir-me de ti. Deixaste manhãs
nas cortinas das palavras que ainda não tínhamos
dito, e foste.

 [Uma planície de silêncios a queimar-me os pés. Passos
em combustão no limiar da boca.]

No peitoril da janela aberta morreu pouco depois a
~brancura. E o eco das lágrimas que ela chovia do alto
dessa paz de te querer tanto. E eu, quantas vezes
adormeci sobre a brisa de claridades nascidas da tua
presença simples, sem sombras, eu, que preciso tanto
desse céu limpo sobre o corpo deste não dizer, desse
cair sem dor no chão dos teus dedos, morro agora.

De olhos secos. Derramada em faúlhas de espera. Sem
eco que me salve da tristeza,

[um vento forte a sacudir as palavras que ainda não
tínhamos dito)

porque foste,
e não cheguei a despedir-me de ti.

(alternativas – “No avesso dos voos”, “Dói-me o caminho que sou”,

    A IV parte inicia-se, talvez propositadamente, com o poema “Catástrofe”. É o regresso de um eu agora imbuído de uma preocupação com os outros ( “Sobre as Pedras” – a fome que mata crianças todos os dias), sensível à natureza e às suas dádivas – (“O tempo das laranjas”), crítico em relação a atitudes de religiosidade imposta (“Páscoa”  - Na vigília extensa do Teu nome / algumas mulheres cobrem a cabeça. // Quase todas se vergam em sacrifícios estabelecidos/ e genuflexões mecânicas, e natal (“Que natal é este” – Dentro de mim não há-de caber um natal / que não sabe caber dentro de todos.

    Além do que, creio, ficou patente quanto ao valor literário da poesia de Virgínia do Carmo, gostaria de referir pormenores que me não passaram desapercebidos. Falo da riqueza vocabular por vezes conseguida pela inusitada adjectivação (liquidez inabraçável do mar; gritos angulares; um anseio vertical; flores acéfalas; aresta áspera e estrídula) pelo recurso a termos eruditos (atérmico, admonição; disfásicas; assíncronos; ambular), pela pluralidade de léxicos relativos a áreas do saber convocadas como a geologia, a geografia, a psicologia e a filosofia, a física e a química e, sobretudo, a geometria. Não se trata de intromissões abusivas e arbitrárias, antes surgem como elementos de clarificação de ideias:

Perdi […] a triangulação das estrelas e a síntese química das pedras;
…na rota recta dos/ olhos, na planura esguia dos ângulos do tempo // [obtusos demais];
…Não tenho ângulos para / medir a congruência dos passos.
  
   Termino agradecendo aos presentes a paciência com que me ouviram. Contava escrever um texto curto, mas a obra não mo autorizou. Entusiasmei-me, e lá vai disto…
   Reitero a ideia de que RELEVOS é uma colectânea poética de Relevo. Um marco na poesia portuguesa dos nossos dias a ombrear com poetas vivas como Teresa Horta, Ana Luísa Amaral, Maria do Rosário Pedreira e outras. Que todo o relevo seja dado a este livro em que alguém que tem a poesia inscrita no seu código genético dá prova de segurança e de maturidade, eis o que desejo à autora a quem me cabe agradecer o ter-me investido de tamanha responsabilidade. Obrigada.

M. Hercília Agarez, Macedo de Cavaleiros, 7/ 9 / 2014