11 setembro 2014

APRESENTAÇÃO DE RELEVOS DE VIRGÍNIA DO CARMO, por Hercília Agarez

APRESENTAÇÃO DE RELEVOS DE VIRGÍNIA DO CARMO

Os poetas podem contemplar as estrelas, enquanto os bichos sociais se devoram na sombra (?)

    Há coisas que se não medem com fita métrica, não se pesam com balança, não se lhes avalia a temperatura com termómetro. Há coisas cujo valor é imaterial, coisas que nenhum dinheiro pode comprar. O talento é uma delas. O talento, esse privilégio, esse dom atribuído por um qualquer deus e que guinda quem o possui a alturas onde aves não chegam, lá para os lados das estrelas.
    Nenhuma arte nasce sem essa centelha de génio que ilumina o artista. Hoje falamos de literatura, mais precisamente de poesia, para festejarmos uma obra que, a haver justiça, mostrará à intelligentsia deste pais que, se Portugal é um país de poetas, Trás-os-Montes ajuda a confirmar a asserção.
    No interior deste espaço telúrico mais lembrado por uns resquícios de tradições, pela gastronomia e por alguma paisagem vendida ao turista a troco de um cálice de mau vinho fino, vive gente, mais e menos jovem, que, ao dedicar-se à escrita, o faz por paixão, cônscia de que dificilmente alguém lhe faça uma recensão, lhe dedique umas linhas na imprensa cultural, lhe ponha os livros ao alto em estantes de livrarias onde se acotovelam biografias de futebolistas, manuais de receitas de senhoras da televisão, Dan Browns da moda.
   Neste interior de rigores climáticos, de distanciamento das capitais, Virgínia do Carmo não cruza os braços, melhor, não põe um dique a estancar a inspiração. Vocacionada para a valorização da riqueza cultural, acaricia os livros com mãos de veludo, abre-lhes o seu peito, qual tabernáculo, onde, como veremos, arrecada ciosamente patrimónios afectivos e vivências, estrelas e mar, rios e flores, pássaros e pedras. Mulher destemida, empreendedora, persistente, livreira e editora, prosadora e poeta, de voz acetinada e olhar luminoso, anfitriã que gosta de mimar quem a visita nem que seja só com o seu sorriso, reservou-nos uma surpresa  para a rentrée. Não é uma estreia no género, é uma pérola ainda mais preciosa que as anteriores. Se Sou e Sinto (não conheço Tempos Cruzados) é uma espécie de aperitivo gourmet, RELEVOS é um prato substancial, uma harmoniosa e saborosa mistura de sabores, aromas e texturas, uma delícia para o paladar do espírito. Mas já lá vamos
     Em certas circunstâncias sinto-me no dever de justificar a minha presença como apresentadora de uma obra literária. Não sou macedense, não sou poeta. Estou, pois, aqui pela simples razão de gostar da Virgínia e de ela gostar de mim. Ela quis arriscar. Por isso lhe estou grata. Eu, talvez levianamente, aceitei.
    Na minha longa carreira de professora de Literatura que ainda sou, quantas vezes me interroguei sobre a análise de um texto literário, sobretudo poético. Quem somos nós, leigos na arte da escrita, para impingir aos alunos as nossas leituras?
    A este propósito não posso deixar de referir um episódio recentemente passado com Pires Cabral a propósito da Gaveta do Fundo. Num encontro de leitores, uma colega escolheu um poema para ler e deu-lhe a sua interpretação ao que ele respondeu: não era isso que eu queria dizer, mas agradeço-a e acho-a aceitável.
    Há dias, aqui neste lugar de cultura e de afectos, punha-se uma questão que teria dado pano para mangas, se não para um fato completo… O que é um escritor? O que é um poeta? Sem preocupações académicas nem de teorização literária, eu responderia com toda a clareza e simplicidade: o escritor distingue-se do escrevinhador como o poeta do versejador.
     Sobre os poetas, direi ainda que eles têm ideias. Pensam, escrevem e, quem sabe, sonham poesia, enquanto os outros se limitam a rimar banalidades, obcecados com as regras aprendidas na escola. Melhor do que eu falam vozes credíveis. Como Adolfo Casais Monteiro em

Aurora

A poesia não é voz – é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

voo sem pássaro lento.

    Pires Cabral chama à poesia “o danoso ofício das metáforas” e Francisco José Viegas afirma: “A poesia não tem a ver com a literatura. Releva do domínio do sagrado indizível”. E Torga escreve: “Os poetas são como os faróis, dão chicotadas de luz na escuridão”.
    Antes de nos pronunciarmos sobre a poesia da Virgínia, vamos ver como ela se nos apresenta:

Na medida de todas as coisas

Na medida de todas as coisas, eu
a ser pequena.

O ar a doer-me, a não caber no coração
pequeno. E as mãos, tão pequenas, a perderem
os gestos no avesso de todos os tamanhos.

E eu,
a ser pequena.

Um horizonte a rasgar-me, a não caber
nos meus olhos pequenos.

Um chão de lume a consumir-me pés
e passos. A vida a doer-me, a não caber
no meu corpo pequeno. Tão pequeno.

E na medida de todas as coisas, eu,
a ser pequena.

Permitam-me que apresente a minha versão dos dois últimos versos:

E na medida das coisas poéticas, eu
a não ser pequena.

    Este livro chama-se RELEVOS. A plurissignificação obriga a um esclarecimento: um vocábulo, três acepções. Cabe ao leitor a escolha da que entende mais adaptada ao teor dos poemas. Ele tem essa liberdade. Por mim, opto pelo segundo sentido. Porque ele me sugere a orografia transmontana, as suas fragas  -  altos-relevos esculpidos em pedra (“E há fragas de pó no teu peito sem janelas”). Em contraste com a com a brandura lisa e amarela da planície alentejana. E também porque a vida da autora nos surge pautada por uma não linearidade, antes por percursos acidentados, sinuosos, exterior e interiormente. A própria afirma: Não sou uma linha recta;não sei ir direito para dentro de mim. O seu caminho, no duplo sentido de o caminho por onde vai e o caminho que é, é feito de sobressaltos, de ciladas, de incidentes e acidentes, de desafios, ilusões e desilusões, de mais dúvidas do que certezas: Não sou caminho de bermas simétricas.
    Alheia a um mundo que a rodeia onde os ditames sociais imperam, ela orienta “os seus próprios passos” , como afirma José Régio em “Cântico Negro, segundo o que lhe pede o peito, esse reduto inviolável do seu ser, essa caixinha de segredos, esse espaço onde gostaria de guardar constelações e penedias, essa redoma onde se refugia “dos ares contaminados: […] O corpo é um lugar que podes adormecer para / dissecar. Mas o peito não. O peito é uma pedra dura…” (in “Dor”)
    A propósito de pedra, assinalemos a recorrência desta palavra a que vêm juntar-se chão e caminho, peito, corpo e pele. Porquê pedras? Por serem parte integrante de chão? Pela sua firmeza, pela resistência que oferecem ao efeito corrosivo do tempo? Pela garantia de perenidade? Por serem testemunhas caladas do seu estar só?

“O peito é uma pedra dura”;
“[…] a síntese química das pedras”;
“É um cordão de pedras e nós a engolir silêncios  / irrespiráveis…”
“Apetece-me // o silêncio das pedras”.

    Quanto ao emprego frequente da palavra chão, usada no seu sentido literal, não poderemos ver nela um sinónimo do elemento terra? E de Terra Mater? Não será esse chão para Virgínia o que foi para Anteu, o gigante da mitologia que se sentia inexpugnável ao pisá-lo? Um chão que ampara os passos, as quedas, que não devora nem amputa como as ondas do mar: Perdi os braços no alto mar.

 “Cansada de tudo o que me sobra de chão”;
“[…] luz estilhaçada no ventre do chão vazio”;
“Um chão de lume a consumir-me pés e passos”;
“um grito de esperança a eclodir do chão”.

    Da recorrência dos vocábulos corpo, peito e pele falaremos oportunamente.

    As duas primeiras partes do livro são dominadas por um eu que se desnuda perante o leitor, que lhe transmite as suas angústias, os seus desejos e as suas frustrações, um eu que é como um novelo enrolado para o lado de dentro como se considerava Fernando Pessoa. É um ser que sofre e que deixa transparecer a sua dor através do uso de palavras como susto, medo, saudade, solidão, lágrimas, gritos, vazio, perda, suspiro, desmaio, algumas delas a servir de título (ou parte dele) aos poemas


Não há desespero algum neste estar só. Se
permaneço imóvel é porque o silêncio é mais
simples do que a voz de alguém. Na fala dos
outros há sempre a rouquidão das coisas. O
gemido latente das mãos a quererem mais. E
no chão fora de mim há estilhaços onde corro
o risco de ferir os pés. Corações que se partiram
contra as manhãs de vidro dos sonhos.

Aqui estou a salvo. Neste estar só onde é impossível
enlouquecer. Onde não há janelas que me atirem
tempestades. Nem sol que me arda no peito.

    E a propósito uma questão se me levanta: há relação entre o estar só e a criação poética? Calculo que sim.

    Temos a sensação de que o sujeito poético (para usar a terminologia da moda) impõe-se como é antes de fazer entrar em cena o tu que com o eu forma o nós, ambos protagonistas de um drama sentimental adivinhadamente acidentado e que atinge o clímax na III parte. É a explosão dorida do sentimento amoroso, é o assumir de uma dependência sentimental da mulher que, como nas Cantigas de Amigo, suspira pela vinda do amado, pelos seus encontros, dele pede novas às flores do verde pino.
    É, também, a altura de recorrências linguísticas como corpo, peito, pele, sugerindo uma comunhão de desejos e de palavras, de cruzar de caminhos e de afectos. Como acontece em todas as partes do livro, Virgínia faz uma curta introdução também ela poética como as anteriores:

Existir-me-á para sempre // [A doer-me tanto] // O sulco fundo e transparente de um fio de luz a // bordar-te em mim.

    Não cheguei a despedir-me de ti

Não cheguei a despedir-me de ti. Deixaste manhãs
nas cortinas das palavras que ainda não tínhamos
dito, e foste.

 [Uma planície de silêncios a queimar-me os pés. Passos
em combustão no limiar da boca.]

No peitoril da janela aberta morreu pouco depois a
~brancura. E o eco das lágrimas que ela chovia do alto
dessa paz de te querer tanto. E eu, quantas vezes
adormeci sobre a brisa de claridades nascidas da tua
presença simples, sem sombras, eu, que preciso tanto
desse céu limpo sobre o corpo deste não dizer, desse
cair sem dor no chão dos teus dedos, morro agora.

De olhos secos. Derramada em faúlhas de espera. Sem
eco que me salve da tristeza,

[um vento forte a sacudir as palavras que ainda não
tínhamos dito)

porque foste,
e não cheguei a despedir-me de ti.

(alternativas – “No avesso dos voos”, “Dói-me o caminho que sou”,

    A IV parte inicia-se, talvez propositadamente, com o poema “Catástrofe”. É o regresso de um eu agora imbuído de uma preocupação com os outros ( “Sobre as Pedras” – a fome que mata crianças todos os dias), sensível à natureza e às suas dádivas – (“O tempo das laranjas”), crítico em relação a atitudes de religiosidade imposta (“Páscoa”  - Na vigília extensa do Teu nome / algumas mulheres cobrem a cabeça. // Quase todas se vergam em sacrifícios estabelecidos/ e genuflexões mecânicas, e natal (“Que natal é este” – Dentro de mim não há-de caber um natal / que não sabe caber dentro de todos.

    Além do que, creio, ficou patente quanto ao valor literário da poesia de Virgínia do Carmo, gostaria de referir pormenores que me não passaram desapercebidos. Falo da riqueza vocabular por vezes conseguida pela inusitada adjectivação (liquidez inabraçável do mar; gritos angulares; um anseio vertical; flores acéfalas; aresta áspera e estrídula) pelo recurso a termos eruditos (atérmico, admonição; disfásicas; assíncronos; ambular), pela pluralidade de léxicos relativos a áreas do saber convocadas como a geologia, a geografia, a psicologia e a filosofia, a física e a química e, sobretudo, a geometria. Não se trata de intromissões abusivas e arbitrárias, antes surgem como elementos de clarificação de ideias:

Perdi […] a triangulação das estrelas e a síntese química das pedras;
…na rota recta dos/ olhos, na planura esguia dos ângulos do tempo // [obtusos demais];
…Não tenho ângulos para / medir a congruência dos passos.
  
   Termino agradecendo aos presentes a paciência com que me ouviram. Contava escrever um texto curto, mas a obra não mo autorizou. Entusiasmei-me, e lá vai disto…
   Reitero a ideia de que RELEVOS é uma colectânea poética de Relevo. Um marco na poesia portuguesa dos nossos dias a ombrear com poetas vivas como Teresa Horta, Ana Luísa Amaral, Maria do Rosário Pedreira e outras. Que todo o relevo seja dado a este livro em que alguém que tem a poesia inscrita no seu código genético dá prova de segurança e de maturidade, eis o que desejo à autora a quem me cabe agradecer o ter-me investido de tamanha responsabilidade. Obrigada.

M. Hercília Agarez, Macedo de Cavaleiros, 7/ 9 / 2014

04 setembro 2014

Hirondino Fernandes - Homenagem e apresentação do documentário

Leonel Brito e Dr. Hirondino Fernandes
 Palavras proferidas por ocasião da "Homenagem e apresentação do documentário Hirondino da Paixão Fernandes na Primeira Pessoa"
 (Centro Cultural Municipal Adriano Moreira, Bragança, 2014. 06. 14, 21h30)
Ex.mo Senhor Presidente da Câmara Municipal de Bragança
Ex.mo Senhor Vice-Presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes
Minhas Senhoras e meus Senhores
Respondendo a um amável e super-generoso convite do distinto Vice-Presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes, Prof. Doutor António Tiza, secundado pelo programa das "Exposições no Centro Cultural Municipal Adriano Moreira",  de 11 a 14 de junho 2014, que menciona a "Homenagem e apresentação do documentário Hirondino da Paixão Fernandes na Primeira Pessoa", provindo das mãos do mesmo, aqui estamos dizendo PRESENTE. 
Ao fazê-lo, as nossas primeiras palavras são:

"Estas honras e este culto
Bem se podiam prestar
A homens de grande vulto.
Mas a mim, poeta inculto,
Espontâneo, popular…
É deveras singular!".

Assim respondia João de Deus, neste belo improviso, a uma homenagem que lhe foi prestada por iniciativa dos estudantes de Coimbra — por sinal das mais significativas, para ele,  dizem que terá dito.
Como João de Deus, assim vamos dizer também nós, agora:

"Estas honras e este culto
Bem se podiam prestar
A homens de grande vulto.

E não adiantamos mais nada nesta direcção, por razões mais que evidentes. Antes perguntaremos: Que é que fizemos nós para merecer a distinção em causa?!…
Não pode aspirar a voos de condor quem nasce para piriquito — e nascer onde nascemos, bem como em tantos lugarejos congéneres (as nossas aldeias todas, ontem, sobretudo), era/é sinónimo disto mesmo: não passar de piriquito: conhecer o combóio quando os meninos bonitos da cidade estavam já cansados de andar de avião…
Fomos/somos, pois, um menino feio, que sempre se refugiou nos seus livros e para eles e com eles tem vivido: primeiramente em Bragança e depois em Coimbra, a estudá-los; logo a seguir, em Leiria, de novo em Bragança e, até ao fim da missão, de novo em Coimbra — sempre na esperança/obrigação de os dar a conhecer aos outros, para formar "Home(ns) de um só parecer, / D' um só rosto, uma só fé, / D' antes quebrar, que torcer […]", como diz certa carta que, certo dia, Sá de Miranda enviou a el-rei D. João III.
Nas horas vagas desta missão …
… mas nós nunca tivemos horas vagas para coisíssima nenhuma porque sempre ocupámos as horas que deveriam ser vagas com a BdB, ora nas bibliotecas/arquivos de Coimbra, Lisboa, Porto, uma vez por outra Bragança e várias vezes em Vila Flor, ora em casa …
Certo, em casa, porém, como?… qual o fim a darmos ao que íamos recolhendo?…
Por estranhíssimo que possa parecer, tinha-nos dado a resposta o Padre António Vieira, em 22 de Junho de 1657, lá de longe, do colégio de Jesuítas de S. Luís do Maranhão, Brasil: "Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão e começa a formar um homem: primeiro, membro a membro e, depois, feição por feição, até à mais miúda. Ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos […]". Ele é tão … lindo este Sermão do Espírito Santo que custa ter de o truncar, mesmo sabendo que V. Excelências o conhecem bem. 
Material reunido, foi, portanto, desbastar o mais grosso, tomar o maço e o cinzel na mão …
Não, minhas Senhoras e Meus Senhores, não vamos falar-lhes, pelo menos em pormenor, de como nasceu e cresceu a BdB propriamente dita — os seus IV volumes iniciais, hoje esgotados e esquecidos, + os IX completados há dias, + o X, que há-de aparecer brevemente, para não falarmos dos eventuais XI e XII, que já deram os primeiros passos — os primeiros IV + os IX ultimamente publicados, com as suas virtudes, que esperamos sejam … muitas, e os seus defeitos, que presumimos serem poucos … certos, todavia, de que são alguns.
Pequenos os que se nos têm deparado neste total de volumes até hoje publicados, 4+9 = 13, e ninguém tem querido apontar-no-los, para os corrigirmos! Por favor, façam-no. Agradecemos.
A hora é de júbilo.
De júbilo, pela querida presença de V. Excelências nesta hora e lugar, porque ela é a prova provada:

a) de que não errámos quando nos lançámos nesta "ciclópica" tarefa (assim houve quem a já tivesse designado), de anos e mais anos, quase uma eternidade em bibliotecas e arquivos; 
b) de que não erraram o Prof. Engenheiro Dionísio Afonso Gonçalves e o Prof. Doutor Francisco José Terroso Cepeda (Instituto Politécnico) que, juntos à Câmara Municipal e ao Arquivo Distrital publicaram os 4 volumes da Série Documentos; 
c) e de que igualmente não erraram o saudoso Presidente (da Câmara citada, Bragança), Mestre Eng. António Jorge Nunes, que inciou a sua publicação, e o actual Presidente (da mesma Câmara) Dr. Hernâni Dinis Venâncio Dias, que a continua, publicando a Série Escritores, Jornalistas, Artistas.

A hora é de júbilo, dissemos e repetimos, porque temos a alegria de saber que, entre V. Excelências, estão vários dos muitos que, desde longe, nos vem dando com o seu exemplo e a sua palavra amiga a coragem necessária para não baixarmos os braços:
O primeiro deles todos, de corpo e alma, a toda a hora e em tudo sempre presente, por razões múltiplas que não pôde anular, falta agora aqui, mas já esteve telefonicamente connosco, como acontece quase todos os dias, com as suas informações e o seu conselho prudente. Sem a sua ajuda, tudo teria sido deveras mais difícil. Obrigado, Prof. Doutor Telmo Verdelho.
O segundo temos o grato prazer e a subidíssima honra de o vermos mais uma vez entre nós — a bem dizer ele está também sempre connosco desde o dia em que nos encontrámos, já lá vão anos, na Biblioteca Nacional de Lisboa e nos animou a seguir em frente, com determinação. Desde então, a sua postura tem sido invariavelmente a mesma, culminando com a gentileza da nossa nomeação para sócio honorário da Academia de Letras de Trás-os-Montes e agora, cremos, com a indicação do nosso nome para figurar na lista dos documentários a levar a efeito pela mesma Academia. Não falando nas muitas informações, sempre que solicitadas de imediato remetidas. Obrigado, Prof. Doutor Ernesto Rodrigues. 
E os Patrocinadores da obra acima referidos que, sem nunca a terem visto, não hesitaram minimamente em a mandar para a Tipografia?!… Como lhes estamos grato — pela publicação, sim, mas, acima de tudo, pela confiança que sempre lhes merecemos!… O gesto de V. Excelências não tem preço. Obrigado, mil vezes obrigado Prof. Engenheiro Dionísio Afonso Gonçalves e Prof. Doutor Francisco José Terroso Cepeda, Mestre Eng. António Jorge Nunes e Dr. Hernâni Dinis Venâncio Dias. 
E o Juiz Conselheiro Francisco Diogo Fernandes, que há poucas horas, com vontade de ficar, partiu … porque de há muito se comprometera a estar presente na Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro do Porto, a estas horas!… Quanto não valem as informações tantas vezes prestadas e a certeza do seu apoio moral nunca regateado!… Obrigado, Conselheiro Francisco Diogo Fernandes. 
E outros, com múltiplas informações, a respeito de  A e B e C, D e etc.,  o alfabeto todo quase não chega, não é verdade, Prof. Doutor António Tiza, Prof. Doutor Carlos d' Abreu,  Prof. Doutor Armando Palavras, Mestre Amadeu Ferreira, Mestres Ana Maria Afonso e Élia Mofreita, Dr. Pires Cabral, Dr. Artur Barracosa Mendonça ?… Ele foram/são tantos …
Não é verdade, Mestre Amadeu Ferreira?! Diga-nos que sim, querido Amigo, o Mirandês precisa de si e nós precisamos ainda mais. Mande a doença para os infernos. Grite-nos a dizer que o mau tempo já lá vai. Diga-nos que já está bom. Breve, que estamos intranquilos, o coração a doer. Já está bom, ora já?!…
E há mais, muitíssimos outros, que agora não temos tempo para referir mas que, a seu tempo, haveremos de lembrar.
Cremos estar a alongar-nos demasiado. Coisas destas são para duas palavras, Muitíssmo Obrigado  e disse. Temos de terminar, pois, para ir embora.
Também só nos falta a resposta a uma forçosa pergunta: Que dizer do documentário, produção e realização do distinto cineasta  — foi vê-lo e tê-lo por Amigo — Leonel Brito?
Apenas que, se de lupa na mão alguém descobrir alguma imperfeição ou erro, a culpa é do modelo: feio que nem chimpanzé, palrador que nem corujo, a memória já semi-avariada … Deixe lá, prezadíssimo Leonel Brito. Cá por nós, o documentário do Hirondino … está mais que bem. Disse: mais que bem, repare. Obrigado.
E falta isto que, sendo pouco, nos parece mais que super-relevante: Felicitar, muito de alma e coração, os promotores ou promotor desta iniciativa da Academia — onde há muito quem, por direito muito próprio, nela, iniciativa, mereça figurar e a nós, por generosidade, nos encaixaram — o Prof. Doutor Ernesto Rodrigues, se não único, principal promotor, por certo. Que ela se torne o grande centro de recolha de dados de que Bragança poderá ser exemplo.
Em frente, com isto ou algo como isto mesmo. E que todos se dêem as mãos porque só a união faz a força … para tudo necessária. 
Obrigado, mil vezes Obrigado! 
Agora sim, terminamos, minhas Senhoras e meus Senhores, socorrendo-nos de António Ferreira, poeta do séc. XVI, tantas vezes, graças a este mesmo dístico, lembrado:

“Eu desta Glória só fico contente
que minha terra amei e a minha gente”.


Dissemos.

Hirondino Fernandes

31 agosto 2014

L Ampeço de ls Milagres



L Ampeço de ls Milagres
NORTEANDO
Lisboua

Amadeu Ferreira e Luis Borges na
apresentação do livro em Sendim
No Praino, an Sendim, l purmeiro bózio de bida, neste die 29 de Julio i 64 anhos se passórun. Replicórun se beisos i abraços, tantos que nun cuntabas. Anhos a filo andubíste a sembrar sementicas d’amisade que fondas raízes criórun; eilhi staba la proba: «ls amigos scuolhemo los nós, la famílha a que mos calha na rifa.» 
Golseaba la sala. Cadeiras nun habie para to ls que quejírun i podírun star persentes i a las paredes alredror amparórun outros. L sol de berano a fin de tarde sbarra nas jinelas i la calor muita mas naide arreda pies i sinte se l houmano carino an cada gestio, an cada mirar.
Serenados animos que eimoçones cachónan de las antranhas, cumo rieiro an primabera, Juan Bandarra dá mos sue musica eiletrónica feita d’apropósito para este die de doble fiesta: anhos de sou pai, Amadeu Ferreira i salimiento de l libro NORTEANDO. Sonoros suables sonidos, parabienes para ti tamien Juan.
Cuntrairos. Tiempo de scuitar l Coro da Mútua dos Pescadores/Ponto Seguro, derigido pul sou maestro, Castro Cruz. Coros d’ amisades cun bozes sonoras i afinadas de special dedicaçon a Amadeu Ferreira, cantórun i ancantórun.
Çprendidas las palmas achega se l tiempo de apersentar l lhibro, NORTEANDO. Agradecimientos de l repersentante de l duonho de la casa, L Corte Anglés, que mui bien recibe to l mundo, na persona de João Pereira Faria.
Tiempo de l eiditor, dr. Baptista Lopes, repersentante de la Âncora Eiditora, dezir sues eimotibas palabras, cumo quien rega la huorta d’amisade an eidade d’einocéncia i que nun deixa l terreno de ls lhibros a cadal. Diç el: «conheço o Amadeu Ferreira há 7 anos, é pouco tempo e é um enorme prazer tê-lo como amigo, ao mesmo tempo refiro: o tempo que perdi sem o conhecer…» «Peço desculpa ao Luís Borges e que se não sinta ofuscado, pois é um gosto ser editor, amigo e sendo um apaixonado pela cultura em geral e mirandesa em particular…», saluda toda la famílha de Amadeu i ende l abraço arrochado i caloroso.
Adelaide Gonçalves, madrina de dous apaixonados: un de la scrita, outro de ls retratos i, que por acaso, ls ajuntou, ancatrapelhando se un ne l outro nun se caírun mas de pies ponírun este guapo lhibro: NORTEANDO.
Agarrada la palabra por Luís Borges, a el que le gusta i se sinte mais confortable cula máquina a sacar retratos pulas aldés de l Norte, quaije sien naide, a falar culs poucos bielhos que alhá andan i apuis dalgua cumbersa siempre les piede se puode sacar un retrato. Acrecenta tener ganhado l euromilhones i que se nun andubísse norteando acha que yá se tenerie morrido. Agradecido a la eiditora i a Amadeu Ferreira por nele tenéren reparado, torna a las aldés adonde se sinte an casa, dezindo: «as aldeias estão despidas de crianças e as pessoas precisam de pessoas para conversar… muitas estão retratadas, não por estarem em vias de extinção mas pelo carinho de estar com elas e as retratar.»
«Stou até als lhimites cun eimoçon i la eideia de l dr. Baptista Lopes para star eiqui cun fuorça de bibir i cula gratidon pula bida.»
Referiu quatro nomes: la filha que ganhou, Mariana que trai cun eilha la Lhuizie, sue nieta que seia la purmeira persona a tener l registro an mirandés i sous filhos: Jesé i Juan que son dous filhos fantásticos. «Yé strourdinairo cumo la bida se renoba i agradecer a todos ls que me tenen ajudado.»
Dixo de seguida que de la obra NORTEANDO, titalo mui guapo de autorie de Luís Borges, traduç mui bien l andar pul norte de l nuosso paíç, acrecentando que Luís ye un fotografo ´FANTÁÁÁTICO` que solo cun meio anho de trabalho acuntéçan cousas simples mas fabulosas. L fotógrafo capta sfergantes que se eiternizan, «HAI RETRATOS AMPOSSIBLES!» Ye algo del próprio i «Amadeu Ferreira lhimitou se a mirar ls retratos, horas i horas i apuis screbir l que bai para lhá de las palabras, reescrebidas dues ó trés bezes cun referéncias culturales a un mundo que eilhi stá cun ua lheitura possible.»
Amadeu Ferreira finda la sue anterbençon cul deseio que le guste a las personas este lhibro NORTEANDO i seia ua prenda purfeita, acrecentando star mui orguolhoso de tener colaborado cun Luís Borges i l mais amportante de l salimiento de l lhibro: « l Ampeço de la Amisade faç parte de l nuosso ADN;  l Ampeço de la Amisade ye l Ampeço de ls Milagres.»
Lisboua, 29 de Julio de 2014
António Cangueiro
ROSTOS TRANSMONTANOS

Antegrado an las atebidades culturales de l Festibal Anterceltibo, arrimado a las onze de la manhana la Casa de la Cultura de Sendin, neste die de 2 de Agosto, adonde yá ninos se nun ansinan, puis eilhi fui la purmeira scuola purmaira, amostran se agora lhibros que registran rostros i testos que muito mos dízen quien somos i donde somos.
Carlos d’Abreu fizo l’ apersentaçon de l lhibro “ROSTOS TRANSMONTANOS”, dezindo: «ls mirandeses son ls que melhor repersentan las tierras de Trás-ls-Montes”. Paulo Patoleia, fotógrafo que registra estas personas ye cumo znudar las, amostrando mos sues antemidades eiternizando las.
LA AMISADE CUMO AMPEÇO DE LS MILAGRES
Sendin
L lhibro NORTEANDO apersenta se an Sendin, tierra adonde naciu Amadeu Ferreira i que guapa houmenage. Mais de 150 personas persentes. Na purmeira fila, sou pai i sue mai: eilhi stan ourgolhos de tener gerado un filho de fuorça, corage i balentie; siempre home hounesto i trabalhador; daprendiu purmeiro a scabar la tierra para poner ua leira de patatas; a fazer redaçones solo quando las purmeiras lhetras de pertués le fóran ansinadas. Fizo un camino que lo ancaminou pula antegridade de l bibir de cabeça dreita adonde la scrita se bai antranhando cumo lhabrador que ara sues tierras i las sementicas sembradas ban creciendo i dando froles i fruitos que a cada anho se renuoban i renácen. Ls lhibros i la scrita a par de l trabalho fazen l sou camino. Sou mundo ye mais que ua sola tierra, un solo paiç, un rapaç que creciu i se feç home i siempre filho de tiu Abilho i tie Albertina, un sendinês, un stramuntano que passou a ser home de l mundo i a ber alhá  de un simples mirar.
Deixo bos ls purmeiros bersos de sou poema dues lhénguas:
“Andube anhos a filo cula lhéngua trocida pula
oubrigar a salir de l sou camino i tener de
pensar antes de dezir las palabras ciertas:
ua lhéngua naciu-me comi-la an merendas bubi-la an fuontes i rigueiros
outra ye çpoijo dua guerra de muitas batailhas.
Agora tengo dues lhénguas cumigo
i yá nun passo sin dambas a dues.
Stou siempre a trocar de lhéngua mei a miedo
cumo se fura un caso de bigamie.
……………………”
Diç l famoso professor Julio Machado Vaz sobre o Lhivro NORTEANDO:
“O Amadeu Ferreira teve a gentileza de me enviar Norteando, publicado na Âncora, em que os seus textos e as fotografias de Luís Borges conseguem o impensável – em absoluto fazer justiça ao Norte que os – e me - viu nascer. O livro é um deslumbramento, porque nenhuma fotografia é ilustração; nenhum texto legenda. Viviam já entrelaçados na realidade, muito antes do projecto ser sonhado. Nesse sentido, ambos são poetas – “limitam-se” a dar a conhecer ao comum dos mortais a essência da Vida, que se nega ao olhar rápido, distraído, tangencial; sem ambição, nostalgia ou culpa; alarvemente saciado pelo efémero.”
Apuis de las apersentaçones de todos ls anterbenietes: dr. Baptista Lopes, Adelaide, Luís Borges, Amadeu Ferreira finda culas seguintes palabras:
“Esta obra fui ua terapie straordinaira. L’Amisade faç parte de l nuosso ADN. La Amisade ye l Ampeço de ls Milagres.”

Sendin, 02 Agosto de 2014.

30 agosto 2014

Academia de Letras, PROGRAMA DE JUNHO, na Rádio Brigantia - ANTERO NETO


Academia de Letras, PROGRAMA DE JUNHO, na Rádio Brigantia - ANTERO NETO


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O RESGATE DO RESPEITO E DO AFECTO, por Helena Martins Marques Faria

A MULHER QUE VENCEU DON JUAN:
O RESGATE DO RESPEITO E DO AFECTO

  Como profissional de educação, não posso deixar de dar os parabéns à minha querida irmã, pelo exímio tratado de educação que tão sabiamente desenvolveu no romance A Mulher que Venceu Don Juan.
Um livro abrangente que versa toda a espécie de violência, não esquecendo a violência dos filhos em relação aos pais. A nossa geração quis dar o melhor aos filhos, sonhámos grandes sonhos para eles, foram criados como "reizinhos" e agora?
Assistimos a comportamentos de filhos que não reconhecem a autoridade dos pais e não refiro autoritarismo. Nivelam as relações como se fossem iguais entre si. Não tendo a noção da dívida moral e ética que o filho tem na cadeia da existência.
É fundamental o resgate do respeito e do afecto.
Helena Martins Marques Faria

16 agosto 2014

POESIA DE LARA DE LÉON (Pseudónimo de Maria Idalina Alves de Brito)


ÉBRIO ENCANTAMENTO

Teu olhar é um poema cantado
meu amor. Primavera, sol e lua cheia,
encontram-te em quereres e tempo
ofuscado de ébrio encantamento no brilho
luminoso do dia bebido em madrugadas
doces e infindas e, na limpidez das nuvens
de deuses envoltos na alegria e paz
dos silêncios.

Meu amor! Meu amor!

És minha lua cheia, sol escaldante,
minha serena e fresca sombra.
És meu sal, meu mel, meu fel.
És minha amarga e doce esperança.

Meu amor! Meu amor!

És a beleza de instantes, carícia frágil
de eternos momentos. És a cega memória
de meigas palavras e, esta água límpida
que corre em crua ilusão de liberdade.

Meu amor! Meu amor!


2013.04.23

Ver :

L Ampeço de ls Milagres, por António Cangueiro



L Ampeço de ls Milagres

NORTEANDO
Lisboua

No Praino, an Sendim, l purmeiro bózio de bida, neste die 29 de Julio i 64 anhos se passórun. Replicórun se beisos i abraços, tantos que nun cuntabas. Anhos a filo andubíste a sembrar sementicas d’amisade que fondas raízes criórun; eilhi staba la proba: «ls amigos scuolhemo los nós, la famílha a que mos calha na rifa.» 
Golseaba la sala. Cadeiras nun habie para to ls que quejírun i podírun star persentes i a las paredes alredror amparórun outros. L sol de berano a fin de tarde sbarra nas jinelas i la calor muita mas naide arreda pies i sinte se l houmano carino an cada gestio, an cada mirar.
Serenados animos que eimoçones cachónan de las antranhas, cumo rieiro an primabera, Juan Bandarra dá mos sue musica eiletrónica feita d’apropósito para este die de doble fiesta: anhos de sou pai, Amadeu Ferreira i salimiento de l libro NORTEANDO. Sonoros suables sonidos, parabienes para ti tamien Juan.

Cuntrairos. Tiempo de scuitar l Coro da Mútua dos Pescadores/Ponto Seguro, derigido pul sou maestro, Castro Cruz. Coros d’ amisades cun bozes sonoras i afinadas de special dedicaçon a Amadeu Ferreira, cantórun i ancantórun.
Çprendidas las palmas achega se l tiempo de apersentar l lhibro, NORTEANDO. Agradecimientos de l repersentante de l duonho de la casa, L Corte Anglés, que mui bien recibe to l mundo, na persona de João Pereira Faria.
Tiempo de l eiditor, dr. Baptista Lopes, repersentante de la Âncora Eiditora, dezir sues eimotibas palabras, cumo quien rega la huorta d’amisade an eidade d’einocéncia i que nun deixa l terreno de ls lhibros a cadal. Diç el: «conheço o Amadeu Ferreira há 7 anos, é pouco tempo e é um enorme prazer tê-lo como amigo, ao mesmo tempo refiro: o tempo que perdi sem o conhecer…» «Peço desculpa ao Luís Borges e que se não sinta ofuscado, pois é um gosto ser editor, amigo e sendo um apaixonado pela cultura em geral e mirandesa em particular…», saluda toda la famílha de Amadeu i ende l abraço arrochado i caloroso.
Adelaide Gonçalves, madrina de dous apaixonados: un de la scrita, outro de ls retratos i, que por acaso, ls ajuntou, ancatrapelhando se un ne l outro nun se caírun mas de pies ponírun este guapo lhibro: NORTEANDO.
Agarrada la palabra por Luís Borges, a el que le gusta i se sinte mais confortable cula máquina a sacar retratos pulas aldés de l Norte, quaije sien naide, a falar culs poucos bielhos que alhá andan i apuis dalgua cumbersa siempre les piede se puode sacar un retrato. Acrecenta tener ganhado l euromilhones i que se nun andubísse norteando acha que yá se tenerie morrido. Agradecido a la eiditora i a Amadeu Ferreira por nele tenéren reparado, torna a las aldés adonde se sinte an casa, dezindo: «as aldeias estão despidas de crianças e as pessoas precisam de pessoas para conversar… muitas estão retratadas, não por estarem em vias de extinção mas pelo carinho de estar com elas e as retratar.»
«Stou até als lhimites cun eimoçon i la eideia de l dr. Baptista Lopes para star eiqui cun fuorça de bibir i cula gratidon pula bida.»
Referiu quatro nomes: la filha que ganhou, Mariana que trai cun eilha la Lhuizie, sue nieta que seia la purmeira persona a tener l registro an mirandés i sous filhos: Jesé i Juan que son dous filhos fantásticos. «Yé strourdinairo cumo la bida se renoba i agradecer a todos ls que me tenen ajudado.»
Dixo de seguida que de la obra NORTEANDO, titalo mui guapo de autorie de Luís Borges, traduç mui bien l andar pul norte de l nuosso paíç, acrecentando que Luís ye un fotografo ´FANTÁÁÁTICO` que solo cun meio anho de trabalho acuntéçan cousas simples mas fabulosas. L fotógrafo capta sfergantes que se eiternizan, «HAI RETRATOS AMPOSSIBLES!» Ye algo del próprio i «Amadeu Ferreira lhimitou se a mirar ls retratos, horas i horas i apuis screbir l que bai para lhá de las palabras, reescrebidas dues ó trés bezes cun referéncias culturales a un mundo que eilhi stá cun ua lheitura possible.»
Amadeu Ferreira finda la sue anterbençon cul deseio que le guste a las personas este lhibro NORTEANDO i seia ua prenda purfeita, acrecentando star mui orguolhoso de tener colaborado cun Luís Borges i l mais amportante de l salimiento de l lhibro: « l Ampeço de la Amisade faç parte de l nuosso ADN;  l Ampeço de la Amisade ye l Ampeço de ls Milagres.»

Lisboua, 29 de Julio de 2014

António Cangueiro



ROSTOS TRANSMONTANOS

04 agosto 2014

Rostos Transmontanos de Paulo Patoleia

Apresentação do livro em Sendim 
Apresentação do livro de Paulo Patoleia, “Rostos Transmontanos”, em Torre de Moncorvo, no dia 26 de Julho de 2014, pelas 21 horas, na igreja da Misericórdia

Boas noites!
Bem-hajam por terem vindo.
E sejam bem-vindos à vetusta vila de Torre de Moncorvo, fundada pelo rei Dinis no já longínquo ano de 1285, mais precisamente a 12 de Abril, momento em que lhe foi outorgada carta de foro, não obstante a povoação já existir como aldeia da então sede, hoje a Derruída Santa Cruz da Vilariça.
Saúdo o Presidente da Câmara Municipal, o Alcalde-presidente da Municipalidade de Morille (Salamanca), o Vice-presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes, o Provedor da Misericórdia, a Bibliotecária Helena Pontes, os familiares, os colegas, os conterrâneos, os amigos e amigas.
E uma saudação especial, aos três “rostos” representados neste livro e nesta sala presentes. Eles são os protagonistas desta cerimónia.
Reunimo-nos aqui para assistir ao lançamento de um livro, um livro que na verdade é um monumento, um monumento que pretende homenagear a gente transmontana, gente que herdou um território e que se prepara para no-lo legar.
É um livro pelas suas características, especial. Especial pelo conteúdo -fotografias e textos- e pelo cuidado com que foi trabalhado para poder circular, para poder ser usufruído.
Relativamente às características físicas do livro, saberá o Editor dizer melhor do que eu.
Mas atentem bem nesta capa! Capa sobre a qual, há dois dias, o meu amigo Euclides Griné, membro dos Estudos Literários da Universidade de Coimbra, ao agradecer o convite que lhe enderecei para este encontro (e que ainda não conhece o livro, apenas a capa), dizia que “a capa é notável: vejo nela o tempo feito, o coração no meio e a interrogação adiante”.
Nele se apresentam 74 fotografias, sendo que uma delas representa o Fotógrafo e é de autoria do seu amigo e nosso conterrâneo Leonel Lopes, e a cuja memória foi o livro dedicado.
Possui 4 textos mais extensos, a minha Apresentação, o Prefácio da Tradutora / Intérprete Isabel Matos, a Introdução pelo Conservador / Restaurador e amante da Fotografia Jorge Abreu, e um Posfácio do Alcalde de Morille e professor da Universidade de Salamanca Manuel Ambrosio Sánchez.
Todos aqui presentes.
Mas a ele livro se associaram mais 46 amigos que, com a sua pena, legendaram os retratos, o que perfaz um total de 52 autores.
52 autores! Reparem bem! Só um registo fotográfico com esta força anímica é capaz de mobilizar tanta gente.
São eles (exceptuando-se os dois Fotógrafos), por ordem alfabética: A. M. Pires Cabral; Alfredo Cameirão; Amadeu Ferreira; Antero Neto; António Afonso; Antonio Gómez; António Júlio Andrade; António Luís Pereira; António Pimenta de Castro; António Sá Gué; António Tiza; Arnaldo Silva; Artur Salgado; Assunção Anes Morais; Augusto Bordalo Ferreira; Bernardino Henriques; Berta Nunes; Carlos Carvalheira; Carlos d’Abreu; Carlos Pedro; Carlos Sambade; Chus Sánchez Villasante e José Ballesteros; Emilio Rivas Calvo; Ernesto Rodrigues; Fernanda Guimarães; Fernando Mascarenhas; Henrique Pedro; Isabel Mateus; Isabel Matos; J. Rentes de Carvalho; João Farias; Jorge Abreu; Jorge Cordeiro; Júlia Ribeiro; Lara de León; Leandro Vale; Leonel Brito; M. Hercília Agarez; Manuel Ambrosio Sánchez; Maria de São Miguel; Miguel Pires Cabral; Paula Machado; Renato Roque; Rogério Rodrigues; Rosa Sánchez; Teresa Leonardo Fernandes; Tiago Patrício; Virgínia do Carmo; e Vitor da Rocha.
O meu bem-haja a todos eles por terem aceitado, sem hesitar, este desafio. Desafio que, com o Editor António Lopes, tive o prazer de coordenar.
Editor a quem muito devemos por ter tornado possível este livro. E eu que o diga!
Quando as fotografias de Paulo Patoleia começaram a ser mostradas na exposição itinerante, rapidamente alguns de nós percebemos que mereciam ser reproduzidas em livro para mais gente a elas poder aceder. Isto ocorreu em 2011. Nesse ano uma editora de fora foi contactada, não por mim. E o seu responsável aceitou o desafio e chegou com o Fotógrafo a assinar um contrato, contando ela vir a ser subsidiada através de mercenários que operam na zona mas, a subvenção falhou e o contrato caducou.
Entrei eu em cena a pedido do amigo Patoleia. Foram solicitados os textos a três outros autores em Janeiro de 2012.
Fui organizando o material, solicitei a elaboração da maqueta, pedi alguns orçamentos a gráficas, tudo com vista a candidatar a sua publicação ao “Programa de Apoio aos Agentes Culturais”, da Direcção Regional de Cultura do Norte, através da Associação Cultural e Recreativa de Maçores.
A candidatura foi apresentada em Março desse ano e após vencidas todas as burocracias, da qual ficámos a aguardar o desfecho, desfecho que se demorou vários meses -muito para além do calendário previsto no regulamento do referido programa-, findo os quais, recebemos a notícia de que o nosso projecto não havia sido contemplado.
A verdade é que o programa apoiou na região, nesse ano, 37 outros projectos, no valor de 30.700 €.
Entretanto quis o acaso, cruzar-me com o nosso conterrâneo Editor António Lopes, a quem dei conhecimento do projecto. De imediato se propôs reunir connosco para conhecer o trabalho e, após essa reunião, decidiu apoiar incondicionalmente a publicação. Naturalmente que isto aconteceu, porque o Escritor António Sá Gué também é transmontano e, a sua condição de Agente Cultural da região, não previa outra decisão face a material com esta qualidade, no qual, logo nos comunicou, também se revia.
Mas para não alongar este acto, uma vez que há várias outras pessoas que deverão intervir, passo directamente à minha leitura da Obra:
Rostos Transmontanos,
tal é o mote. E que dele ninguém remoque porque o não permitiremos!
O nosso conterrâneo e amigo Paulo Patoleia, rebelde na juventude, ainda hoje de espírito irrequieto, após muitas aventuras, venturas e (algumas) desventuras, descobriu nos últimos anos o gosto pela Fotografia. Desenvolveu-o e achou a arte que ela encerra. Conseguiu-o através do género “retrato”. Não o retrato que os nossos antepassados mais próximos buscavam nos fotógrafos da vila de Moncorvo (que os teve muito bons), para remeterem aos familiares ausentes nas Áfricas ou nos Brasis. Ou os exigidos pela Administração, para o Bilhete de Identidade. Não! Estes são retratos especiais. Muito especiais. As fotografias aqui reproduzidas revelam primeiro que tudo o olhar do fotógrafo. De seguida, o rosto registado pelo fotógrafo, o sujeito da fotografia, não a coisa, o objecto, mas a pessoa e o seu mundo. Depois… Bem, depois o nosso olhar é conduzido a penetrar o olhar do fotografado. E é a leitura que daí resulta, que nos faz perceber a mestria do Paulo.
Se neste trabalho o Paulo Patoleia revela, por um lado, coragem (porque arrisca expor, expondo-se), por outro mostra-se generoso (porque sabe partilhar). É nesta partilha e só devido a ela, que podemos perceber que é um criador.
Estes rostos não deixam ninguém indiferente. São o rosto de uma região inteira. Contêm toda a Geografia Transmontana, revelada pelos sulcos neles impressos durante a passagem do khrónos. Tempo e telurismo, juntos. Solo e clima agrestes. Ladeiras, fragas e arroios. Moroiços, socalcos, cepas, oliveiras e amendoeiras. Janeiros geadeiros e canículas estivais. As leiras. Afinal daimosos porque dobrados pela vontade inquebrantável de sobreviver no território que lhes calhou para viverem.
São retratos, são gente, gente que povoa um território que se despovoa. São metáforas. Mensagens de canseira, de solidão, de sofrimento, de mágoa, de privações, de sobrevivência, por vezes de resignação. Mas também os há, de confiança, de grandeza, de fé e até esplendor. Todos dignos.
E não resultam de um casual registo do real, antes de uma intenção facilitada pelo facto do retratista estar também retratado. Pois só quem sente ou pertence verdadeiramente a um povo, lhe consegue captar a sua essência.
Quando vimos pela primeira vez este conjunto de retratos, perguntamo-nos se os retratados, quando se deixaram fotografar, imaginaram que viriam a ser mostrados em público. Nesse momento chegamos a questionar-nos da licitude do acto, quer dizer, do direito ou não de expor na àgora, uma pessoa assim, “desnudada”. Se o fotógrafo os informara da sua intenção. E muito menos que sobre eles viéssemos a escrever. Será que se alguns deles nos vierem a ler, directamente ou por interposta pessoa, se não rirão de nós, por pormos ar tão grave em rostos e vidas tão simples? Que legitimidade temos para registar e sobretudo tentar interpretar a vida alheia? É esse um exercício necessário? Que contributo damos, uns e outros, para melhorar a vida deste povo?
A verdade é que este conjunto de telas é um registo in extremis de um corpo extenuado, que definha porque o seu sangue embarca todos os dias. Já não é só o vinho que desce o Douro, é também quem plantou as cepas. E antes que elas mirrem, contemplemos os multifacetados rostos do Paulo Patoleia!
Carlos d’Abreu

“Rostos Transmontanos” de Paulo Patoleia