04 agosto 2014

Rostos Transmontanos de Paulo Patoleia

Apresentação do livro em Sendim 
Apresentação do livro de Paulo Patoleia, “Rostos Transmontanos”, em Torre de Moncorvo, no dia 26 de Julho de 2014, pelas 21 horas, na igreja da Misericórdia

Boas noites!
Bem-hajam por terem vindo.
E sejam bem-vindos à vetusta vila de Torre de Moncorvo, fundada pelo rei Dinis no já longínquo ano de 1285, mais precisamente a 12 de Abril, momento em que lhe foi outorgada carta de foro, não obstante a povoação já existir como aldeia da então sede, hoje a Derruída Santa Cruz da Vilariça.
Saúdo o Presidente da Câmara Municipal, o Alcalde-presidente da Municipalidade de Morille (Salamanca), o Vice-presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes, o Provedor da Misericórdia, a Bibliotecária Helena Pontes, os familiares, os colegas, os conterrâneos, os amigos e amigas.
E uma saudação especial, aos três “rostos” representados neste livro e nesta sala presentes. Eles são os protagonistas desta cerimónia.
Reunimo-nos aqui para assistir ao lançamento de um livro, um livro que na verdade é um monumento, um monumento que pretende homenagear a gente transmontana, gente que herdou um território e que se prepara para no-lo legar.
É um livro pelas suas características, especial. Especial pelo conteúdo -fotografias e textos- e pelo cuidado com que foi trabalhado para poder circular, para poder ser usufruído.
Relativamente às características físicas do livro, saberá o Editor dizer melhor do que eu.
Mas atentem bem nesta capa! Capa sobre a qual, há dois dias, o meu amigo Euclides Griné, membro dos Estudos Literários da Universidade de Coimbra, ao agradecer o convite que lhe enderecei para este encontro (e que ainda não conhece o livro, apenas a capa), dizia que “a capa é notável: vejo nela o tempo feito, o coração no meio e a interrogação adiante”.
Nele se apresentam 74 fotografias, sendo que uma delas representa o Fotógrafo e é de autoria do seu amigo e nosso conterrâneo Leonel Lopes, e a cuja memória foi o livro dedicado.
Possui 4 textos mais extensos, a minha Apresentação, o Prefácio da Tradutora / Intérprete Isabel Matos, a Introdução pelo Conservador / Restaurador e amante da Fotografia Jorge Abreu, e um Posfácio do Alcalde de Morille e professor da Universidade de Salamanca Manuel Ambrosio Sánchez.
Todos aqui presentes.
Mas a ele livro se associaram mais 46 amigos que, com a sua pena, legendaram os retratos, o que perfaz um total de 52 autores.
52 autores! Reparem bem! Só um registo fotográfico com esta força anímica é capaz de mobilizar tanta gente.
São eles (exceptuando-se os dois Fotógrafos), por ordem alfabética: A. M. Pires Cabral; Alfredo Cameirão; Amadeu Ferreira; Antero Neto; António Afonso; Antonio Gómez; António Júlio Andrade; António Luís Pereira; António Pimenta de Castro; António Sá Gué; António Tiza; Arnaldo Silva; Artur Salgado; Assunção Anes Morais; Augusto Bordalo Ferreira; Bernardino Henriques; Berta Nunes; Carlos Carvalheira; Carlos d’Abreu; Carlos Pedro; Carlos Sambade; Chus Sánchez Villasante e José Ballesteros; Emilio Rivas Calvo; Ernesto Rodrigues; Fernanda Guimarães; Fernando Mascarenhas; Henrique Pedro; Isabel Mateus; Isabel Matos; J. Rentes de Carvalho; João Farias; Jorge Abreu; Jorge Cordeiro; Júlia Ribeiro; Lara de León; Leandro Vale; Leonel Brito; M. Hercília Agarez; Manuel Ambrosio Sánchez; Maria de São Miguel; Miguel Pires Cabral; Paula Machado; Renato Roque; Rogério Rodrigues; Rosa Sánchez; Teresa Leonardo Fernandes; Tiago Patrício; Virgínia do Carmo; e Vitor da Rocha.
O meu bem-haja a todos eles por terem aceitado, sem hesitar, este desafio. Desafio que, com o Editor António Lopes, tive o prazer de coordenar.
Editor a quem muito devemos por ter tornado possível este livro. E eu que o diga!
Quando as fotografias de Paulo Patoleia começaram a ser mostradas na exposição itinerante, rapidamente alguns de nós percebemos que mereciam ser reproduzidas em livro para mais gente a elas poder aceder. Isto ocorreu em 2011. Nesse ano uma editora de fora foi contactada, não por mim. E o seu responsável aceitou o desafio e chegou com o Fotógrafo a assinar um contrato, contando ela vir a ser subsidiada através de mercenários que operam na zona mas, a subvenção falhou e o contrato caducou.
Entrei eu em cena a pedido do amigo Patoleia. Foram solicitados os textos a três outros autores em Janeiro de 2012.
Fui organizando o material, solicitei a elaboração da maqueta, pedi alguns orçamentos a gráficas, tudo com vista a candidatar a sua publicação ao “Programa de Apoio aos Agentes Culturais”, da Direcção Regional de Cultura do Norte, através da Associação Cultural e Recreativa de Maçores.
A candidatura foi apresentada em Março desse ano e após vencidas todas as burocracias, da qual ficámos a aguardar o desfecho, desfecho que se demorou vários meses -muito para além do calendário previsto no regulamento do referido programa-, findo os quais, recebemos a notícia de que o nosso projecto não havia sido contemplado.
A verdade é que o programa apoiou na região, nesse ano, 37 outros projectos, no valor de 30.700 €.
Entretanto quis o acaso, cruzar-me com o nosso conterrâneo Editor António Lopes, a quem dei conhecimento do projecto. De imediato se propôs reunir connosco para conhecer o trabalho e, após essa reunião, decidiu apoiar incondicionalmente a publicação. Naturalmente que isto aconteceu, porque o Escritor António Sá Gué também é transmontano e, a sua condição de Agente Cultural da região, não previa outra decisão face a material com esta qualidade, no qual, logo nos comunicou, também se revia.
Mas para não alongar este acto, uma vez que há várias outras pessoas que deverão intervir, passo directamente à minha leitura da Obra:
Rostos Transmontanos,
tal é o mote. E que dele ninguém remoque porque o não permitiremos!
O nosso conterrâneo e amigo Paulo Patoleia, rebelde na juventude, ainda hoje de espírito irrequieto, após muitas aventuras, venturas e (algumas) desventuras, descobriu nos últimos anos o gosto pela Fotografia. Desenvolveu-o e achou a arte que ela encerra. Conseguiu-o através do género “retrato”. Não o retrato que os nossos antepassados mais próximos buscavam nos fotógrafos da vila de Moncorvo (que os teve muito bons), para remeterem aos familiares ausentes nas Áfricas ou nos Brasis. Ou os exigidos pela Administração, para o Bilhete de Identidade. Não! Estes são retratos especiais. Muito especiais. As fotografias aqui reproduzidas revelam primeiro que tudo o olhar do fotógrafo. De seguida, o rosto registado pelo fotógrafo, o sujeito da fotografia, não a coisa, o objecto, mas a pessoa e o seu mundo. Depois… Bem, depois o nosso olhar é conduzido a penetrar o olhar do fotografado. E é a leitura que daí resulta, que nos faz perceber a mestria do Paulo.
Se neste trabalho o Paulo Patoleia revela, por um lado, coragem (porque arrisca expor, expondo-se), por outro mostra-se generoso (porque sabe partilhar). É nesta partilha e só devido a ela, que podemos perceber que é um criador.
Estes rostos não deixam ninguém indiferente. São o rosto de uma região inteira. Contêm toda a Geografia Transmontana, revelada pelos sulcos neles impressos durante a passagem do khrónos. Tempo e telurismo, juntos. Solo e clima agrestes. Ladeiras, fragas e arroios. Moroiços, socalcos, cepas, oliveiras e amendoeiras. Janeiros geadeiros e canículas estivais. As leiras. Afinal daimosos porque dobrados pela vontade inquebrantável de sobreviver no território que lhes calhou para viverem.
São retratos, são gente, gente que povoa um território que se despovoa. São metáforas. Mensagens de canseira, de solidão, de sofrimento, de mágoa, de privações, de sobrevivência, por vezes de resignação. Mas também os há, de confiança, de grandeza, de fé e até esplendor. Todos dignos.
E não resultam de um casual registo do real, antes de uma intenção facilitada pelo facto do retratista estar também retratado. Pois só quem sente ou pertence verdadeiramente a um povo, lhe consegue captar a sua essência.
Quando vimos pela primeira vez este conjunto de retratos, perguntamo-nos se os retratados, quando se deixaram fotografar, imaginaram que viriam a ser mostrados em público. Nesse momento chegamos a questionar-nos da licitude do acto, quer dizer, do direito ou não de expor na àgora, uma pessoa assim, “desnudada”. Se o fotógrafo os informara da sua intenção. E muito menos que sobre eles viéssemos a escrever. Será que se alguns deles nos vierem a ler, directamente ou por interposta pessoa, se não rirão de nós, por pormos ar tão grave em rostos e vidas tão simples? Que legitimidade temos para registar e sobretudo tentar interpretar a vida alheia? É esse um exercício necessário? Que contributo damos, uns e outros, para melhorar a vida deste povo?
A verdade é que este conjunto de telas é um registo in extremis de um corpo extenuado, que definha porque o seu sangue embarca todos os dias. Já não é só o vinho que desce o Douro, é também quem plantou as cepas. E antes que elas mirrem, contemplemos os multifacetados rostos do Paulo Patoleia!
Carlos d’Abreu

“Rostos Transmontanos” de Paulo Patoleia

Academia de Letras, PROGRAMA DE JULHO, na Rádio Brigantia - ANTÓNIO AFONSO



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10 julho 2014

Setenta anos de NOVOS CONTOS DA MONTANHA de Miguel Torga,por M. Hercília Agarez


Nirvana

Paz da montanha, meu alívio certo.
O girassol do mundo, aberto,
E o coração a vê-lo sossegado.
Fresco e purificado,
O ar que se respira.
Os acordes da lira
Audíveis no silêncio do cenário.
A bem-aventurança sem mentira:
Asas nos pés e o céu desnecessário.

                                                                                                    Miguel Torga, in Diário VII


    Montanha. Palavra mágica para o poeta que nasceu no meio das fragas transmontanas onde crescem a urze, a giesta e o rosmaninho. E também os tojos que lhe inspiram um traço de autocaracterização – “tojo arnal”. Torga é como as rochas que o embalaram – duro, resistente à erosão, poiso para descanso, solitário. “Eu sou um homem de granito”, afirma.
    Dividido entre o mar e a terra – “eu sou um animal anfíbio” – é ela a sua matriz, a sua pátria, a sua raiz, o seu paraíso, o seu “chão sagrado”.  E de toda esta “nesga de terra debruada de mar” sobressai, em toda a sua evidência, a paixão por Trás-os-Montes. Ele o diz numa entrada do Diário VII escrita no Gerês: “[…] O pouco que sou devo-o às fragas. Foi a pisá-las que aprendi a conhecer a dureza do mundo e a admirar o ímpeto que se não resigna à lisa sonolência duma paz interior espalmada. A inquietação da terra vê-se nos montes. […]”
   Veio à luz em S. Martinho de Anta, “debaixo de telha”, já que a mãe andava, naquele dia 12 de Agosto de 1907, a juntar o milho na eira contígua ao casebre paterno, com uma vassoura de codessos, quando lhe rebentaram as águas. Na aldeia foi o aluno mais distinto do professor Botelho, mas também um garoto travesso como os ganapos com quem brincava.
    Inteligente, precoce observador da realidade social que rodeava a sua infância, familiarizado com o quotidiano rural , pequeno aprendiz de tarefas agrícolas, estranhamente consciente da sua dureza  e da exploração do trabalhador, a sua memória guardará até ao fim esse passado. Com as raízes tão fundamente enterradas no solo nativo como a torga que lhe deu o apelido de artista, não admira que a obsessão da montanha física e humana lhe tenha inspirado muitos  poemas, uma peça de teatro (Terra Firme), comunicações, incontáveis entradas nos dezasseis volumes do Diário, colectâneas de contos.
    Em 1941 publicou o livro Montanha, logo apreendido pela censura. Embora impermeável a quaisquer influências de correntes literárias, os contos não andavam longe dos pressupostos da corrente neo-realista cujo marco foi Gaibéus, de Alves Redol, datado de 1940. Em 1955 sairá uma segunda edição no Rio de Janeiro com o título Contos da Montanha que viajou clandestinamente até ao nosso país. A terceira edição, de 1962, é ainda da responsabilidade de um país que consumiu a adolescência do então Adolfo Rocha.
    Mas não é este conjunto de histórias de vida protagonizadas pela gente iletrada e humilde da sua região que justifica esta breve abordagem. O que pretendemos, neste ano de 2014, é assinalar o septuagésimo aniversário da primeira edição de Novos Contos da Montanha de que constam dezassete narrativas às quais vieram a juntar-se seis nas edições posteriores, revistas, refundidas, aumentadas, com prefácios (três delas). Curioso é que o autor tenha excluído de todas elas o conto “Firmeza”, talvez o mais cruamente acusatório da tirania dos “senhores” com aqueles desgraçados sem poder reivindicativo e com receio de perderem o magro ganha-pão.
    Novos Contos vêm dar sequência ficcionada aos Contos. O mesmo cenário, a mesma atracção pelas alturas rochosas, personagens de nomes e vidas diferentes, mas protagonizando dramas próprios da sua qualidade de gente rude, humilde, frontal, autêntica. Contos, quase todos eles, de desenlace intuído pelo leitor que conhece a massa de que são feitos homens e mulheres a quem o destino ditou a desgraça na vida e na morte.
    Deste livro foram feitas quinze edições em português. Foi traduzido para polaco e para castelhano, tendo sido ultrapassado por Bichos que chegou à 19ª edição (1995) e teve traduções em sete línguas.
    Socorramo-nos de excerto da prefácio à terceira edição (1952) para compreender o espírito que presidiu à escrita destes contos:

                                                                                     Leitor amigo:

    […] Painel tosco e montanhês, como sabes. Mas nosso, quer queiramos, quer não, e dos outros também, quando a curiosidade dos outros der a volta ao mundo.
Então, embora sorriam da ingénua pintura do artista, hão-de certamente render-se à penitente grandeza desses irmãos serranos, que se purificam com o sofrimento universal num purgatório de chamas transmontanas.

    Na conferência proferida em Pedras Salgadas em 1941, durante o Segundo Congresso Transmontano – Um Reino Maravilhoso (Trás-os-Montes) – , posteriormente incluída em PORTUGAL, Miguel Torga, numa análise exaustiva da realidade transmontana em todas as suas vertentes, define o carácter do homem que, como ele, se plasmou nos rigores de um cantinho esquecido e abandonado, mau grado as suas potencialidades materiais e imateriais. E escreve:

    […] Homens de uma só peça, inteiriços, altos e espadaúdos, que olham de frente e têm no rosto as mesmas rugas do chão. Castiços nos usos e costumes, cobrem-se com varinos, croças, capuchas e mais roupas de serrobeco ou de colmo, e nas grandes ocasiões ostentam uma capa de honras, que nenhum rei!
    […] Fiéis à palavra dada, amigos do seu amigo, valentes e leais, é movidos por altos sentimentos que matam ou morrem. Ufanos da alma que herdaram querem-na sempre lavada, nem que seja com sangue. A lendária franqueza que vem nos livros, é deles, realmente. […]

    Com efeito, se bem que as personagens das narrativas se movam num chão geograficamente assinalado e que se divide entre Trás-os-Montes e o Alto-Douro, se a acção de cada uma decorre num tempo determinado (década de quarenta do século passado), os sentimentos que os movem, por serem humanos, bons e maus, transformam-nos em heróis (ou anti-heróis) intemporais e universais. Traços como o trabalho resignado, a aplicação da justiça segundo a Pena de Talião, a defesa da honra, a solidariedade, a conciliação do divino com o profano, o espírito do antes quebrar que torcer, o ciúme, a aceitação do destino traçado por Deus, tudo isto e não só, confirma aquela frase do escritor que qualquer torguiano que se preze gosta de citar: “O universal é o local sem paredes” com que o homem de S. Martinho enceta um parágrafo da conferência “Trás-os-Montes no Brasil” apresentada no Rio de Janeiro e em S. Paulo em 1954 e que continua assim:

É o autêntico que pode ser visto de todos os lados, e em todos os lados está certo, como a verdade. Ora Trás-os-Montes é uma realidade sem muros, esse torrão aberto aos olhos do mundo, cioso de lhe pertencer e de o servir.

    Ler os contos de Miguel Torga é compreender a identidade transmontana do “Entre quem é!” que o tempo empurrou para o abismo. É conhecer uma realidade a que a efabulação não retirou verosimilhança. É recuar ao passado para melhor valorizar o presente. É degustar uma escrita viva, exemplar, emotiva, poética, despojada. É regalar-se o leitor com o tipicismo da linguagem regional, comover-se com dramas irreversíveis, revoltar-se com desenlaces catárticos. É mostrarmo-nos dignos do legado literário de um comprovinciano que voou mais alto sem perder, como escreveu, “a virgindade do coração”. Um homem a quem arrancaram do berço e que nunca consegui enraizar-se em nenhum outro lugar.
     “Vou e venho. Perco-me por lá, encontro-me aqui”, escreve numa visita às berças onde se desloca para “tonificar a esperança”, para ir em busca da “estabilidade perdida”, para, pisando a terra, sentir a inexpugnabilidade de Anteu.

    S. Martinho de Anta, 20 de Setembro de 1968 – De todos os mitos de que tenho notícia, é o de Anteu que mais admiro e mais vezes ponho à prova, sem me esquecer, evidentemente, de reduzir o tamanho do gigante à escala humana, e o corpo divino da Terra olímpica ao chão natural de Trás-os-Montes. […] Sempre que, prestes a sucumbir ao morbo do desalento, toco uma destas fragas, todas as energias perdidas começam de novo a correr-me nas veias. É como se recebesse instantaneamente uma transfusão de seiva.
[…] Devotado de corpo e alma a estes montes, não concebo desgraça maior do que deixá-los para sempre na sombra de uma saudade desiludida. […]

                                                                                                                                              Diário XI



M. Hercília Agarez, Julho de 2014

21 junho 2014

Destino para uma Língua Moribunda (manifesto em forma de hino), por Amadeu Ferreira ( Fracisco Niebro)

Nosso Senhor é como as pessoas de Miranda, não fala mirandês.
Quando uma língua não serve para rezar. Quando se dizem todos os pecados a Deus, sem medo, e se tem vergonha de rezar em mirandês. Quando é assim, não há língua que resista. Parece que Deus, quando andou pelo mundo a aprender as línguas, chegou aqui e passou ao lado. Eu creio que o desviaram. É tempo de Deus não ter vergonha de falar em mirandês.
Quando uma língua não se escreve, dizem que a história ainda não começou, porque não há como contar essa história. Apenas pode ser contada pela língua dos outros. Uma língua sem história não pode durar para sempre.
O pior é quando a língua deixa de servir para pensar. Ou, quando dormimos, não aparece a falar nos sonhos, porque a língua dos sonhos é aquela que está dentro de nós. Fala-se como se respira. Se o leite que mamamos não vem misturado com a língua, esta não pode ficar metida dentro de nós e ser tão importante para a vida como o estômago, o coração, a cabeça, o fígado. Só dessa maneira não se pode viver sem ela. Apenas assim aparece nos sonhos, ainda que não queiramos. Uma língua que não fala nos sonhos não vai longe.
Há palavras que, quando as dizemos, nos deixam com pele de galinha, mas apenas nós nos apercebemos; há sons que mos envolvem como uma onda de calor, mas apenas nós sentimos o gelo que por vezes trazemos dentro de nós a derreter; há trejeitos da língua dentro da boca, falando, que nos fazem cócegas que ninguém mais sente; há ditos que não têm outra maneira de se dizer e ninguém se apercebe quando não conseguimos traduzi-los; há coisas que, quando usamos outra língua para as dizer, soam como estranhas e, no fim, ficamos com a ideia de que não fomos capazes de as dizer. Há palavras, sons, ditos, coisas, que dormiram durante tanto tempo connosco, que tomaram cama para um lado e quando não nos deitamos para esse lado é como dormir sobre uma pedra.

"A voz e o eco", de Carlos Moreno


20 junho 2014

CONTOS NO TERREIRO AO LUAR DE AGOSTO, de Júlia Ribeiro. Apresentação de Hercília Agarez

 A memória é a sentinela do espírito      Shakespeare

Hercília Agarez e Júlia Ribeiro no "artes e livros"
    Para quem a não conhece, diremos que nasceu em Torre de Moncorvo, se licenciou em Filologia Germânica em Coimbra, é mestre em Ciências da Educação  e exerceu importantes cargos no âmbito do ensino, tendo sido leitora na Universidade de Leipzig.
    Para o que aqui nos interessa, diga-se que foi autora de vários livros cujas datas de publicação desconhecemos. É para falar da última obra que estamos aqui, embora pouco tenhamos a acrescentar ao que constitui a sua matéria introdutória. Na verdade, após um prefácio escrito por mão segura e conhecedora dos meandros da cultura popular transmontana em que são realçados os aspectos mais relevantes do livro aos níveis do conteúdo e da forma, temos dois testemunhos sobre o mesmo e a introdução da responsabilidade da própria autora. Não temos, portanto, muito a acrescentar, com a desvantagem (ou vantagem?) de desconhecermos Júlia Ribeiro.
    Lemos o seu livro na totalidade, embora não profundamente por falta de disponibilidade. Assim, passaremos à sua apreciação, resultante da nossa sensibilidade enquanto leitores.

   Parece ser timbre dos transmontanos o seu apego às raízes. Nascidos em terras desfavorecidas e vítimas de uma interioridade madrasta, tiveram, aqueles a quem estavam reservados mais altos voos, de se deslocar para meios académicos. Outros, para quem o amor soou mais alto, seguiram o seu destino familiar a arrastá-los para longes terras. Seja como for, raramente renegaram o berço, tantas vezes humilde, onde abriram os olhos para um mundo de pureza e de silêncio. E ei-los, sempre que possível, em busca de sítios e gentes da sua infância, a segregarem baba, como o cão de Pavlov, à simples ideia de irem saborear aquele fumeiro inconfundível, a tenrura de uma boa posta, o sabor das couves num caldo bem regado com azeite da região e migado com a broa que conseguiu escapar à modernidade.

UNEARTA - Nr. 21, Setembro 2003

                                Para ler o PDF completo clique aqui

Enviado por António Chaves

19 junho 2014

Júlia Ribeiro em Leiria (Contos no Terreiro ao Luar de Agosto)


Alfândega da Fé - Convite

Apresentação da obra Percursos do poeta Francisco José Lopes
Por Norberto Francisco Machado da Veiga

I – Breve resenha biobibliográfica do autor

Francisco José Lopes nasceu em 1955, em Alfândega da Fé, onde reside. Licenciou-se em História, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e é professor do quadro no Agrupamento de Escolas de Alfândega da Fé, onde desempenha, atualmente, as funções de Diretor. A sua atividade profissional tem-se desenvolvido essencialmente no campo da educação, do ensino, da cultura e da comunicação autárquica.
Tem vários textos publicados na imprensa regional (Quanza-Sul, Angola, O Elvense, de Elvas, Maré Viva, de Espinho, Fonte Nova, de Portalegre, Terra Quente, de Mirandela e A Voz do Nordeste, de Bragança). Foi, também, coordenador do Boletim Municipal da Câmara Municipal de Alfândega da Fé desde o seu primeiro número, saído em 1990, até praticamente à sua extinção.
 Prefaciou várias obras de diversos autores, dos quais menciono: Fernando Pereira, Modesto Navarro, Virgílio Tavares, Regina Gouveia, Hélder Rodrigues e Aida Borges e apresentou, igualmente, muitos desses trabalhos. Além disso, é o autor do texto «Alfândega da Fé», inserido no Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses. O autor está representado em Entre o Sono e o Sonho, Antologia da Poesia Contemporânea, Vol. V, publicada pela Chiado Editora, em março de 2014.
            Da sua publicação literária saliento: "O Arquivo Histórico Municipal de Alfândega da Fé", edição da CMAF, em 1994; No tempo das musas, poesia, edição de autor, em 1999 (2.ª edição, da CMAF, 2001); Memórias do tempo, poesia, edição de autor, em 2001; No tempo das palavras, poesia, edição da CMAF, em 2003, e Alfândega da Fé – Registos de um Percurso Histórico, vol. I, edição da CMAF, em 2006.
Termino este sucinto percurso de vida com uma afirmação suscetível de causar alguma celeuma, mas aceite pela maioria dos Alfandeguenses, Francisco José Lopes foi e continua a ser o principal dinamizador cultural de Alfândega da Fé, desde a década de oitenta do século passado até ao presente.
II – Uma possível porta de entrada para o “lago escuro” da obra Percursos do poeta Francisco José Lopes. 
 “Quantos ledores, tantas as sentenças” Sá de Miranda

09 junho 2014

O FARANDULO DE TÓ, por Antero Neto

Janela aberta, para o conhecimento de uma das localidades mais antigas do nosso actual concelho de Mogadouro. Digo, actual porque o autor traça na sua obra o percurso histórico administrativo, bem como o rico património material e imaterial da freguesia de Tó. Dando, neste último tipo de património, enfoque à figura do Farandulo.
Nesta obra são aventadas diversas explicações sobre a evolução do topónimo Tó e a sua progressão fonética, que poderá ser encontrada nas propostas que o autor expõe de forma congruente e lógica, acessível para todos os leitores, incentivando os mesmos ao estudo sobre a origem do topónimo desta freguesia.
O autor, conhecido escritor da nossa terra de Mogadouro, demonstra a sua preocupação em promover, divulgar e conhecer a história de cada uma das diversas povoações do nosso concelho, tendo já publicado algumas obras de carácter relevante sobre o seu património e a sua história, procurando assim conservar pedaços da memória colectiva que poderiam perder-se nos tempos próximos.
Elegeu para esta nova obra a freguesia de Tó, rica em património arqueológico e histórico, mas que no entanto, como refere o próprio autor, onde ainda há muito por descobrir, conhecer e preservar. Senti que a mensagem do autor é a de que se devem manter vivas as tradições e delas tirar o conhecimento que se pode perder.

PERCURSOS, por Francisco José Lopes

Poesia da vida

Por Norberto Francisco Machado da Veiga[1]

O poeta é aquele que escolheu ter um ser através da sua linguagem. Isso pressupõe que a linguagem possa dizer o ser. Por essência a poesia nunca duvidou disso, ou duvidou
afirmando-se através dessa dúvida.

Eduardo Lourenço, Pessoa Revisitado, Gradiva,
2.ª Ed.ª, 2003, p. 23


Começo por convocar, em minha defesa, as palavras de Eduardo Lourenço: «O crítico é o leitor que se crê autorizado a decidir por imaginar ter descoberto os critérios, os pontos de referência, o sistema capazes de introduzir uma ordem no caos da criação»[2]. E, ainda, as palavras de Gastão Cruz: «O discurso crítico perseguirá o poema sem nunca alcançar o que ele é, porventura, inalcançável, ou melhor, o que nele não é explicável, nem parafraseável, nem redutível a uma segunda linguagem»[3] É, pois, adotando estas duas atitudes que escrevo o presente texto.
I – Temas e motivos da poética de Francisco Lopes

Na Epístola aos Pisões do poeta latino Horácio que, anos mais tarde, Quintiliano apelidaria de «Ars Poetica» ou «De Arte Poetica Liber» encontra-se o seguinte preceito: «No arranjo das palavras deverás também ser subtil e cauteloso e magnificamente dirás se, por engenhosa combinação, transformares em novidades as palavras mais correntes[4]. Creio poder asseverar, sem cometer um crime de lesa-majestade, que Francisco Lopes, ao longo da sua atividade literária, seguiu este preceito à letra. O mesmo se encontra patente nos seus vários livros de poesia e, de forma mais acutilante, nos dois derradeiros, onde, sem qualquer dissídio, a sua ars, atinge uma tal depuração que corrobora a citação do grande poeta latino. Ora esta capacidade de traduzir o mundo através das palavras foi uma decisão prematura que o poeta abraçou desde tenra idade, quando despontou para o mundo da escrita e da poesia. Com o tempo apreendeu um outro ensinamento de Horário que se traduz na comparação do ofício cantante, isto é, da arte poética com a arte do marceneiro no apurado e demorado trabalho da lima que, em termos poéticos, nada mais significa do que muita emenda e aperfeiçoamento dos versos que enformam o poema. Esta qualidade não deixa de ser percetível ao leitor que se entregue à tarefa de ler os restantes três livros de poesia, a seguir mencionados, que o autor já publicou e encontra-se, de forma cristalizada, em Percursos.

04 junho 2014

artes e livros -Convite


artes e livros -Convite


artes e livros -Convite


artes e livros -Convite


artes e livros -Convite


artes e livros -Convite


artes e livros - Convite



artes e livros - Convite


artes e livros - Convite


03 junho 2014

A FILANDORRA,por António Tiza


Era o fim de um chuvoso domingo de Outubro. A rapaziada fazia a sua ronda pelas adegas. Não que fosse muito habitual, mas, havendo assuntos a tratar, aproveitavam a ocasião. Bebiam do vinho novo, meio turvo e ainda um meio adocicado; o velho, esse já havia muito que se enxugara nas pipas. Emborcavam todos do mesmo copo, do pipo ou da bota, consoante as posses de cada anfitrião. E roíam umas castanhas, coisa que não faltava em Varge, terra fria, de corpulentos castanheiros, como gigantes. Assim enganavam o estômago e sempre podiam dar mais umas goladas que, nesse tempo, a rapaziada era numerosa e nenhuma adega podia ficar sem a devida visita.
Por via de regra, os mordomos dos rapazes eram escolhidos entre os mais experientes. Não foi o caso nesse ano. Tendo sido “eleitos” no Santo Estêvão do ano anterior, como sempre se procedia, Joaquim da Frairenga e Manuel João eram dois novatos; Dera-se o caso que os “velhos”, combinados entre si, quiseram pregar-lhes a partida ou, por assim dizer, tomar-lhes o pulso. Como mandam as regras, no fim do almoço, deram duas voltas por trás da mesa, um por cada lado, deixando cair, à vez, os seus enfeitados chapéus de mordomos nas cabeças de todos. Contudo, não chegaram a fazer duas passagens. Queriam fazer a surpresa. Inesperadamente (havia sempre uns mais velhos que já contavam com o ovo no cu da galinha), os chapéus permaneceram pousados na cabeça do Joaquim e do Manuel João. Só passados alguns momentos é que o pessoal se deu conta do que havia acontecido: tinham sido eles os “eleitos”. Não obstante, houve aplausos entusiásticos e a algazarra foi geral. Tinham para o ano mordomos verdadeiramente “novos”. Eles saberiam dar conta do recado.
Joaquim era um rapaz sossegado, um “paz d’alma” que se dava bem com todos e estava sempre pronto a dar uma mão. Tinha feito a quarta classe, mas dali, como a grande maioria, dali não tinha passado. Queda para os estudos, isso tinha ele, mas as leiras da família e os cinco irmãos mais novos que havia para criar não davam para o pôr a estudar na cidade. Cedo, com os seus onze anos, já andava agarrado à rabiça do arado, atrás da junta de vacas. Agora, com dezasseis anos feitos, era mordomo da festa dos rapazes.
O seu companheiro de funções, o Manuel João, na casa dos dezoito, não era mau diabo, mas tinha lá o seu feitio; “mau génio”, dizia o povo. Na hora da eleição, tinha ficado todo emproado e não cabia em si de contente. Joaquim conhecia-o bem: na escola tinha havido umas disputas por dá-cá-aquela-palha, mas as coisas ficaram por ali porque o Joaquim não queria problemas com ninguém, muito menos com ele. Raramente se encontravam; evitavam-se, sem deixarem de se falar. Mas na hora da sua escolha para mordomos, ambos se tinham esquecido das rixas do passado. E abraçaram-se como grandes amigos.
Chegado o mês de outubro, a prova de fogo dos mordomos ia começar. Era agora. Sim, porque outras tarefas haviam sido realizadas já durante o verão, mas nada que se assemelhasse à lenha dos Santos; tinham feito umas quantas jeiras para lavradores carenciados de mão-de-obra, executadas pela “sociedade” dos rapazes, para angariação de fundos para a festa. Peditórios, nada; só para os santos, que uma festa pagã não gozava de estatuto que lhos permitisse fazer. Até mesmo a arrematação da lenha dos Santos se destinava, na quase totalidade, para o sufrágio das almas. 
Os Santos estavam mesmo à porta. No fim da ronda das adegas, Joaquim lança então o aviso, tomando a palavra com a autoridade de que estava revestido:
− Rapazes, no domingo que vem, é preciso arrancar as cepas. Este ano vamos à Pena Veladeira, bem sabeis, os tratores da floresta já lá andaram a romper o mato, está tudo revolcado e temos lá coisa que chegue e sobre para uma boa carrada. 
Ficou, pois, assim decidido. Aquele lugar ficava a mais de duas léguas da aldeia, a raiar o termo de Rio de Onor. Mas, enfim, trocavam um mais longo carrego do carro pelo trabalho facilitado da arranca das cepas, num terreno já completamente desbravado. Bem mais duro seria arrancá-las num qualquer matagal onde até os javardos entrariam com muito custo.
Na verdade, nos princípios dos anos sessenta, as máquinas dos Serviços Florestais já haviam ocupado quase todos os baldios cultivados, plantados agora com pinhos ou em vias disso. Uma boa parte da mocidade por lá trabalhava, sempre era uma boa ajuda para o sustento da casa. Só os mais abastados dispensavam essas magras jeiras; nem tempo para isso tinham, ocupados que andavam no amanho das terras. Era uma canseira todo o ano. Como tal, Vale de Espinheiros, as Rachas ou a Pena Veladeira, em qualquer um destes lugares tinham o trabalho bastante facilitado. Mas, é claro, a distância era consideravelmente maior do que o habitual. Ainda assim, optaram por esta solução, com algumas vozes discordantes e resmungonas, poucas.
Nesse domingo, bem cedo, lá foram. Apesar de algumas faltas, formara-se um grupo numeroso. Fizeram todo o caminho a pé. Ainda assim, chegaram à Pena Veladeira com tempo de sobra para arrancarem um castelo de cepas. A meio da manhã começou a cair uma chuva miudinha, de molha-tolos, e que aos poucos foi engrossando. Sem se importarem com o contratempo ou sem darem por isso, continuaram o trabalho: cravar o enxadão bem fundo na terra meio esfarelada pelas máquinas, sacar as cepas das urzes, em jeito de pé-de-cabra, e sacudi-las até ficarem limpas dos torrões. Mesmo com a terra amolecida, sempre era um trabalho árduo: cepas grandes, com raízes profundas, que haviam de dar para uma boa arrematação.
Chegou a hora da merenda. Havia ali uma fraga de enormes proporções e em forma de gruta. E lá se abrigaram todos. E mais que viessem. Lá se viam ainda os restos das paredes que um antigo pastor de cabras construíra, havia muitos anos. Pastor-ermitão, dela fizera a sua casa, por lá passara os seus dias. Cada vez que baixava ao povoado, diziam os antigos, era para fazer um filho.

A dada altura, começaram a ouvir vozes que se tornavam mais percetíveis à medida que se acercavam. Certamente, buscavam o mesmo abrigo.
− São os de Rei D’nor – adiantou Chico Tonho. Só poderia ser, naquele monte, domingo e àquela hora, alguém que andasse ao mesmo que eles. Quando os avistaram, Manuel João, tendo confirmado de quem se tratava, lança o convite: “Vinde p’ra aqui, cabemos cá todos”.
Couberam, sem dificuldade. Sacaram as merendas, pão, toucinho, uns nacos de presunto (só para os mais abastados) e vinho. Alheias e chouriças frescas, vinham mesmo a calhar, para assar em brasas de estevas. Mas quê, as matanças tardariam mais um mês. O isco que levaram já tinha ranço de um ano. E o que havia, partilhado foi por todos.
Conversavam animadamente; os de Varge sentiam-se emproados por receberem os vizinhos em sua “casa”. Sim, porque a dita fraga se situava dentro seu termo. Inesperadamente, um de Varge, o Rogério, lança uma provocação, virando-se para os de Rio de Onor, alto e bom som para que todos ouvissem:
− Qual é o maricas que este ano vai de Filandorra?
− Vê lá como é que falas! – responde o mordomo da festa dos Reis. Ato contínuo, um dos outros avança em direção a Rogério, com a navalha em riste. A confusão estava prestes a rebentar. Alberto Lameira, o outro mordomo, segura-o pelas costas para evitar o que já parecia inevitável:
− Vá, vá! Tem calma – ordenou, como que a dizer que era ele quem impunha ordem na sua rapaziada – não queremos cá confusões.
Calaram-se todos, olhando uns para os outros sem saber como reagir. E a coisa ficou assim meio suspensa, na expetativa de ver como aquilo ia acabar.
Rogério Cabeço era o único que conhecia bem a festa dos reis de Rio de Onor. Seu pai era guarda-fiscal, tinha sido colocado lá no posto e ele por lá tinha sido criado até ao fim da primária. Nessa altura, o pai fora promovido a cabo e chefiava agora o posto de Aveleda. E ele, querendo mostrar que sabia daquilo e sentindo as costas quentes pelo estatuto do pai, tinha feito aquela provocação irrefletida. Mesmo tendo saído de lá havia oito anos, lembrava-se bem da Filandorra, essa figura feminina representada por um dos rapazes, que acompanhava os mordomos pela aldeia no peditório.
− Desculpai, rapazes, não será por causa deste desbocado que vamos estragar a merenda – pediu Joaquim da Frairenga, levantando os braços em sinal de paz.
− Está. Mas deixa que te apanhe. Vais pagá-las – ameaçou o outro.
Era Manolito, nome que lhe vinha do pai que era de Arriba, o que naquele ano ia fazer de Filandorra. Fora, por isso, atingido em cheio na sua masculinidade e, sem querer, havia-se denunciado. Nestas condições, tal provocação poderia ter um desfecho desagradável. Mas, por agora, nada, tudo acalmou e logo voltaram ao trabalho das cepas, cada grupo para o seu terreno.
António Tiza