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30 julho 2014
10 julho 2014
Setenta anos de NOVOS CONTOS DA MONTANHA de Miguel Torga,por M. Hercília Agarez
Nirvana
Paz da montanha, meu alívio
certo.
O girassol do mundo, aberto,
E o coração a vê-lo sossegado.
Fresco e purificado,
O ar que se respira.
Os acordes da lira
Audíveis no silêncio do
cenário.
A bem-aventurança sem mentira:
Asas nos pés e o céu
desnecessário.
Miguel Torga, in Diário VII
Montanha. Palavra mágica para o poeta que
nasceu no meio das fragas transmontanas onde crescem a urze, a giesta e o
rosmaninho. E também os tojos que lhe inspiram um traço de autocaracterização –
“tojo arnal”. Torga é como as rochas que o embalaram – duro, resistente à
erosão, poiso para descanso, solitário. “Eu sou um homem de granito”, afirma.
Dividido entre o mar e a terra – “eu sou um
animal anfíbio” – é ela a sua matriz, a sua pátria, a sua raiz, o seu paraíso,
o seu “chão sagrado”. E de toda esta
“nesga de terra debruada de mar” sobressai, em toda a sua evidência, a paixão
por Trás-os-Montes. Ele o diz numa entrada do Diário VII escrita no Gerês: “[…] O pouco que sou devo-o às fragas.
Foi a pisá-las que aprendi a conhecer a dureza do mundo e a admirar o ímpeto
que se não resigna à lisa sonolência duma paz interior espalmada. A inquietação
da terra vê-se nos montes. […]”
Veio à
luz em S. Martinho de Anta, “debaixo de telha”, já que a mãe andava, naquele
dia 12 de Agosto de 1907, a juntar o milho na eira contígua ao casebre paterno,
com uma vassoura de codessos, quando lhe rebentaram as águas. Na aldeia foi o
aluno mais distinto do professor Botelho, mas também um garoto travesso como os
ganapos com quem brincava.
Inteligente, precoce observador da realidade social que
rodeava a sua infância, familiarizado com o quotidiano rural , pequeno aprendiz
de tarefas agrícolas, estranhamente consciente da sua dureza e da exploração do trabalhador, a sua memória
guardará até ao fim esse passado. Com as raízes tão fundamente enterradas no
solo nativo como a torga que lhe deu o apelido de artista, não admira que a
obsessão da montanha física e humana lhe tenha inspirado muitos poemas, uma peça de teatro (Terra Firme), comunicações, incontáveis
entradas nos dezasseis volumes do Diário,
colectâneas de contos.
Em 1941 publicou o livro Montanha, logo apreendido pela censura.
Embora impermeável a quaisquer influências de correntes literárias, os contos não
andavam longe dos pressupostos da corrente neo-realista cujo marco foi Gaibéus, de Alves Redol, datado de 1940.
Em 1955 sairá uma segunda edição no Rio de Janeiro com o título Contos da Montanha que viajou
clandestinamente até ao nosso país. A terceira edição, de 1962, é ainda da responsabilidade
de um país que consumiu a adolescência do então Adolfo Rocha.
Mas não é este conjunto de histórias de
vida protagonizadas pela gente iletrada e humilde da sua região que justifica
esta breve abordagem. O que pretendemos, neste ano de 2014, é assinalar o
septuagésimo aniversário da primeira edição de Novos Contos da Montanha de que constam dezassete narrativas às
quais vieram a juntar-se seis nas edições posteriores, revistas, refundidas,
aumentadas, com prefácios (três delas). Curioso é que o autor tenha excluído de
todas elas o conto “Firmeza”, talvez o mais cruamente acusatório da tirania dos
“senhores” com aqueles desgraçados sem poder reivindicativo e com receio de
perderem o magro ganha-pão.
Novos Contos vêm dar sequência ficcionada
aos Contos. O mesmo cenário, a mesma atracção pelas alturas rochosas,
personagens de nomes e vidas diferentes, mas protagonizando dramas próprios da
sua qualidade de gente rude, humilde, frontal, autêntica. Contos, quase todos
eles, de desenlace intuído pelo leitor que conhece a massa de que são feitos
homens e mulheres a quem o destino ditou a desgraça na vida e na morte.
Deste livro foram feitas quinze edições em
português. Foi traduzido para polaco e para castelhano, tendo sido ultrapassado
por Bichos que chegou à 19ª edição
(1995) e teve traduções em sete línguas.
Socorramo-nos de excerto da prefácio à
terceira edição (1952) para compreender o espírito que presidiu à escrita
destes contos:
Leitor
amigo:
[…] Painel tosco e montanhês, como sabes.
Mas nosso, quer queiramos, quer não, e dos outros também, quando a curiosidade
dos outros der a volta ao mundo.
Então, embora sorriam da ingénua pintura do artista, hão-de certamente
render-se à penitente grandeza desses irmãos serranos, que se purificam com o
sofrimento universal num purgatório de chamas transmontanas.
Na conferência proferida em Pedras Salgadas
em 1941, durante o Segundo Congresso Transmontano – Um Reino Maravilhoso (Trás-os-Montes)
– , posteriormente incluída em PORTUGAL,
Miguel Torga, numa análise exaustiva da realidade transmontana em todas as suas
vertentes, define o carácter do homem que, como ele, se plasmou nos rigores de
um cantinho esquecido e abandonado, mau grado as suas potencialidades materiais
e imateriais. E escreve:
[…] Homens de uma só peça,
inteiriços, altos e espadaúdos, que olham de frente e têm no rosto as mesmas
rugas do chão. Castiços nos usos e costumes, cobrem-se com varinos, croças,
capuchas e mais roupas de serrobeco ou de colmo, e nas grandes ocasiões
ostentam uma capa de honras, que nenhum rei!
[…] Fiéis à palavra dada, amigos do seu
amigo, valentes e leais, é movidos por altos sentimentos que matam ou morrem.
Ufanos da alma que herdaram querem-na sempre lavada, nem que seja com sangue. A
lendária franqueza que vem nos
livros, é deles, realmente. […]
Com
efeito, se bem que as personagens das narrativas se movam num chão
geograficamente assinalado e que se divide entre Trás-os-Montes e o Alto-Douro,
se a acção de cada uma decorre num tempo determinado (década de quarenta do
século passado), os sentimentos que os movem, por serem humanos, bons e maus,
transformam-nos em heróis (ou anti-heróis) intemporais e universais. Traços como
o trabalho resignado, a aplicação da justiça segundo a Pena de Talião, a defesa
da honra, a solidariedade, a conciliação do divino com o profano, o espírito do
antes quebrar que torcer, o ciúme, a aceitação do destino traçado por Deus,
tudo isto e não só, confirma aquela frase do escritor que qualquer torguiano
que se preze gosta de citar: “O universal é o local sem paredes” com que o
homem de S. Martinho enceta um parágrafo da conferência “Trás-os-Montes no
Brasil” apresentada no Rio de Janeiro e em S. Paulo em 1954 e que continua
assim:
É o
autêntico que pode ser visto de todos os lados, e em todos os lados está certo,
como a verdade. Ora Trás-os-Montes é uma realidade sem muros, esse torrão
aberto aos olhos do mundo, cioso de lhe pertencer e de o servir.
Ler os contos de Miguel Torga é compreender
a identidade transmontana do “Entre quem é!” que o tempo empurrou para o
abismo. É conhecer uma realidade a que a efabulação não retirou verosimilhança.
É recuar ao passado para melhor valorizar o presente. É degustar uma escrita
viva, exemplar, emotiva, poética, despojada. É regalar-se o leitor com o
tipicismo da linguagem regional, comover-se com dramas irreversíveis,
revoltar-se com desenlaces catárticos. É mostrarmo-nos dignos do legado
literário de um comprovinciano que voou mais alto sem perder, como escreveu, “a
virgindade do coração”. Um homem a quem arrancaram do berço e que nunca
consegui enraizar-se em nenhum outro lugar.
“Vou e venho. Perco-me por lá, encontro-me
aqui”, escreve numa visita às berças onde se desloca para “tonificar a
esperança”, para ir em busca da “estabilidade perdida”, para, pisando a terra,
sentir a inexpugnabilidade de Anteu.
S. Martinho de Anta, 20 de Setembro de 1968 – De todos os mitos de
que tenho notícia, é o de Anteu que mais admiro e mais vezes ponho à prova, sem
me esquecer, evidentemente, de reduzir o tamanho do gigante à escala humana, e
o corpo divino da Terra olímpica ao chão natural de Trás-os-Montes. […] Sempre
que, prestes a sucumbir ao morbo do desalento, toco uma destas fragas, todas as
energias perdidas começam de novo a correr-me nas veias. É como se recebesse
instantaneamente uma transfusão de seiva.
[…] Devotado de corpo e alma a estes montes, não concebo desgraça maior
do que deixá-los para sempre na sombra de uma saudade desiludida. […]
Diário XI
M.
Hercília Agarez, Julho de 2014
21 junho 2014
Destino para uma Língua Moribunda (manifesto em forma de hino), por Amadeu Ferreira ( Fracisco Niebro)
Quando uma língua não serve para rezar. Quando se dizem todos os pecados
a Deus, sem medo, e se tem vergonha de rezar em mirandês. Quando é assim, não
há língua que resista. Parece que Deus, quando andou pelo mundo a aprender as
línguas, chegou aqui e passou ao lado. Eu creio que o desviaram. É tempo de
Deus não ter vergonha de falar em mirandês.
Quando uma língua não se escreve, dizem que a história ainda não começou,
porque não há como contar essa história. Apenas pode ser contada pela língua
dos outros. Uma língua sem história não pode durar para sempre.
O pior é quando a língua deixa de servir para pensar. Ou, quando
dormimos, não aparece a falar nos sonhos, porque a língua dos sonhos é aquela
que está dentro de nós. Fala-se como se respira. Se o leite que mamamos não vem
misturado com a língua, esta não pode ficar metida dentro de nós e ser tão
importante para a vida como o estômago, o coração, a cabeça, o fígado. Só dessa
maneira não se pode viver sem ela. Apenas assim aparece nos sonhos, ainda que não
queiramos. Uma língua que não fala nos sonhos não vai longe.
Há palavras que, quando as dizemos, nos deixam com pele de galinha, mas
apenas nós nos apercebemos; há sons que mos envolvem como uma onda de calor,
mas apenas nós sentimos o gelo que por vezes trazemos dentro de nós a derreter;
há trejeitos da língua dentro da boca, falando, que nos fazem cócegas que
ninguém mais sente; há ditos que não têm outra maneira de se dizer e ninguém se
apercebe quando não conseguimos traduzi-los; há coisas que, quando usamos outra
língua para as dizer, soam como estranhas e, no fim, ficamos com a ideia de que
não fomos capazes de as dizer. Há palavras, sons, ditos, coisas, que dormiram
durante tanto tempo connosco, que tomaram cama para um lado e quando não nos
deitamos para esse lado é como dormir sobre uma pedra.
20 junho 2014
CONTOS NO TERREIRO AO LUAR DE AGOSTO, de Júlia Ribeiro. Apresentação de Hercília Agarez
A memória é a sentinela do
espírito
Shakespeare
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| Hercília Agarez e Júlia Ribeiro no "artes e livros" |
Para quem a
não conhece, diremos que nasceu em Torre de Moncorvo, se licenciou em Filologia
Germânica em Coimbra, é mestre em Ciências da Educação e exerceu importantes cargos no âmbito do
ensino, tendo sido leitora na Universidade de Leipzig.
Para o que
aqui nos interessa, diga-se que foi autora de vários livros cujas datas de
publicação desconhecemos. É para falar da última obra que estamos aqui, embora
pouco tenhamos a acrescentar ao que constitui a sua matéria introdutória. Na
verdade, após um prefácio escrito por mão segura e conhecedora dos meandros da
cultura popular transmontana em que são realçados os aspectos mais relevantes
do livro aos níveis do conteúdo e da forma, temos dois testemunhos sobre o
mesmo e a introdução da responsabilidade da própria autora. Não temos,
portanto, muito a acrescentar, com a desvantagem (ou vantagem?) de
desconhecermos Júlia Ribeiro.
Lemos o seu
livro na totalidade, embora não profundamente por falta de disponibilidade.
Assim, passaremos à sua apreciação, resultante da nossa sensibilidade enquanto
leitores.
Parece ser
timbre dos transmontanos o seu apego às raízes. Nascidos em terras desfavorecidas
e vítimas de uma interioridade madrasta, tiveram, aqueles a quem estavam
reservados mais altos voos, de se deslocar para meios académicos. Outros, para
quem o amor soou mais alto, seguiram o seu destino familiar a arrastá-los para
longes terras. Seja como for, raramente renegaram o berço, tantas vezes
humilde, onde abriram os olhos para um mundo de pureza e de silêncio. E ei-los,
sempre que possível, em busca de sítios e gentes da sua infância, a segregarem
baba, como o cão de Pavlov, à simples ideia de irem saborear aquele fumeiro
inconfundível, a tenrura de uma boa posta, o sabor das couves num caldo bem
regado com azeite da região e migado com a broa que conseguiu escapar à
modernidade.
UNEARTA - Nr. 21, Setembro 2003
19 junho 2014
Alfândega da Fé - Convite
Apresentação da obra Percursos do poeta Francisco José Lopes
Por
Norberto Francisco Machado da Veiga
I – Breve resenha biobibliográfica
do autor
Francisco
José Lopes nasceu em 1955, em Alfândega da Fé, onde reside. Licenciou-se em
História, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e é professor do
quadro no Agrupamento de Escolas de Alfândega da Fé, onde desempenha,
atualmente, as funções de Diretor. A sua atividade profissional tem-se
desenvolvido essencialmente no campo da educação, do ensino, da cultura e da
comunicação autárquica.
Tem
vários textos publicados na imprensa regional (Quanza-Sul, Angola, O Elvense,
de Elvas, Maré Viva, de Espinho, Fonte Nova, de Portalegre, Terra Quente, de Mirandela e A Voz do Nordeste, de Bragança). Foi, também,
coordenador do Boletim Municipal da
Câmara Municipal de Alfândega da Fé desde o seu primeiro número, saído em 1990,
até praticamente à sua extinção.
Prefaciou várias obras de diversos autores,
dos quais menciono: Fernando Pereira, Modesto Navarro, Virgílio Tavares, Regina
Gouveia, Hélder Rodrigues e Aida Borges e apresentou, igualmente, muitos desses
trabalhos. Além disso, é o autor do texto «Alfândega da Fé», inserido no Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e
Alto Durienses. O autor está representado em Entre o Sono e o Sonho, Antologia
da Poesia Contemporânea, Vol. V, publicada pela Chiado Editora, em março de
2014.
Da sua publicação literária saliento:
"O Arquivo Histórico Municipal de Alfândega
da Fé", edição da CMAF, em 1994; No
tempo das musas, poesia, edição de autor, em 1999 (2.ª edição, da CMAF,
2001); Memórias do tempo, poesia, edição
de autor, em 2001; No tempo das palavras,
poesia, edição da CMAF, em 2003, e Alfândega
da Fé – Registos de um Percurso Histórico, vol. I, edição da CMAF, em 2006.
Termino
este sucinto percurso de vida com uma afirmação suscetível de causar alguma
celeuma, mas aceite pela maioria dos Alfandeguenses, Francisco José Lopes foi e
continua a ser o principal dinamizador cultural de Alfândega da Fé, desde a
década de oitenta do século passado até ao presente.
II –
Uma possível porta de entrada para o “lago
escuro” da obra Percursos do poeta
Francisco José Lopes.
“Quantos ledores, tantas as sentenças” Sá de
Miranda
12 junho 2014
09 junho 2014
O FARANDULO DE TÓ, por Antero Neto
Janela aberta, para o conhecimento de uma das
localidades mais antigas do nosso actual concelho de Mogadouro. Digo, actual
porque o autor traça na sua obra o percurso histórico administrativo, bem como
o rico património material e imaterial da freguesia de Tó. Dando, neste último tipo
de património, enfoque à figura do Farandulo.
Nesta obra são aventadas diversas explicações
sobre a evolução do topónimo Tó e a sua progressão fonética, que poderá ser
encontrada nas propostas que o autor expõe de forma congruente e lógica,
acessível para todos os leitores, incentivando os mesmos ao estudo sobre a
origem do topónimo desta freguesia.
O autor, conhecido escritor da nossa terra de
Mogadouro, demonstra a sua preocupação em promover, divulgar e conhecer a
história de cada uma das diversas povoações do nosso concelho, tendo já
publicado algumas obras de carácter relevante sobre o seu património e a sua
história, procurando assim conservar pedaços da memória colectiva que poderiam
perder-se nos tempos próximos.
Elegeu para esta nova obra a freguesia de Tó,
rica em património arqueológico e histórico, mas que no entanto, como refere o
próprio autor, onde ainda há muito por descobrir, conhecer e preservar. Senti
que a mensagem do autor é a de que se devem manter vivas as tradições e delas
tirar o conhecimento que se pode perder.
PERCURSOS, por Francisco José Lopes
Poesia da vida
Por Norberto Francisco Machado da Veiga[1]
O poeta é
aquele que escolheu ter um ser através da sua linguagem. Isso pressupõe que a
linguagem possa dizer o ser. Por essência a poesia nunca duvidou disso, ou
duvidou
afirmando-se
através dessa dúvida.
Eduardo Lourenço, Pessoa
Revisitado, Gradiva,
2.ª Ed.ª, 2003, p. 23
Começo por convocar, em minha defesa,
as palavras de Eduardo Lourenço: «O crítico é o leitor que se crê autorizado a
decidir por imaginar ter descoberto os critérios, os pontos de referência, o
sistema capazes de introduzir uma ordem no caos da criação»[2]. E, ainda,
as palavras de Gastão Cruz: «O discurso
crítico perseguirá o poema sem nunca alcançar o que ele é, porventura,
inalcançável, ou melhor, o que nele não é explicável, nem parafraseável, nem
redutível a uma segunda linguagem»[3] É,
pois, adotando estas duas atitudes que escrevo o presente texto.
I – Temas e motivos da poética de Francisco Lopes
Na Epístola aos Pisões do poeta latino Horácio que, anos
mais tarde, Quintiliano apelidaria de «Ars Poetica» ou «De Arte Poetica Liber»
encontra-se o seguinte preceito: «No arranjo das palavras deverás também ser
subtil e cauteloso e magnificamente dirás se,
por engenhosa combinação, transformares em novidades as palavras mais correntes.»[4].
Creio poder asseverar, sem cometer um crime de lesa-majestade, que Francisco
Lopes, ao longo da sua atividade literária, seguiu este preceito à letra. O
mesmo se encontra patente nos seus vários livros de poesia e, de forma mais
acutilante, nos dois derradeiros, onde, sem qualquer dissídio, a sua ars,
atinge uma tal depuração que corrobora a citação do grande poeta latino. Ora
esta capacidade de traduzir o mundo através das palavras foi uma decisão
prematura que o poeta abraçou desde tenra idade, quando despontou para o mundo
da escrita e da poesia. Com o tempo apreendeu um outro ensinamento de Horário
que se traduz na comparação do ofício cantante, isto é, da arte poética com a
arte do marceneiro no apurado e demorado trabalho da lima que, em termos
poéticos, nada mais significa do que muita emenda e aperfeiçoamento dos versos
que enformam o poema. Esta qualidade não deixa de ser percetível ao leitor que
se entregue à tarefa de ler os restantes três livros de poesia, a seguir
mencionados, que o autor já publicou e encontra-se, de forma cristalizada, em Percursos.
06 junho 2014
05 junho 2014
04 junho 2014
03 junho 2014
A FILANDORRA,por António Tiza
Era o fim de um
chuvoso domingo de Outubro. A rapaziada fazia a sua ronda pelas adegas. Não que
fosse muito habitual, mas, havendo assuntos a tratar, aproveitavam a ocasião.
Bebiam do vinho novo, meio turvo e ainda um meio adocicado; o velho, esse já
havia muito que se enxugara nas pipas. Emborcavam todos do mesmo copo, do pipo
ou da bota, consoante as posses de cada anfitrião. E roíam umas castanhas,
coisa que não faltava em Varge, terra fria, de corpulentos castanheiros, como
gigantes. Assim enganavam o estômago e sempre podiam dar mais umas goladas que,
nesse tempo, a rapaziada era numerosa e nenhuma adega podia ficar sem a devida
visita.
Por via de regra,
os mordomos dos rapazes eram escolhidos entre os mais experientes. Não foi o
caso nesse ano. Tendo sido “eleitos” no Santo Estêvão do ano anterior, como
sempre se procedia, Joaquim da Frairenga e Manuel João eram dois novatos;
Dera-se o caso que os “velhos”, combinados entre si, quiseram pregar-lhes a
partida ou, por assim dizer, tomar-lhes o pulso. Como mandam as regras, no fim
do almoço, deram duas voltas por trás da mesa, um por cada lado, deixando cair,
à vez, os seus enfeitados chapéus de mordomos nas cabeças de todos. Contudo,
não chegaram a fazer duas passagens. Queriam fazer a surpresa. Inesperadamente
(havia sempre uns mais velhos que já contavam com o ovo no cu da galinha), os
chapéus permaneceram pousados na cabeça do Joaquim e do Manuel João. Só
passados alguns momentos é que o pessoal se deu conta do que havia acontecido:
tinham sido eles os “eleitos”. Não obstante, houve aplausos entusiásticos e a
algazarra foi geral. Tinham para o ano mordomos verdadeiramente “novos”. Eles
saberiam dar conta do recado.
Joaquim era um
rapaz sossegado, um “paz d’alma” que se dava bem com todos e estava sempre pronto
a dar uma mão. Tinha feito a quarta classe, mas dali, como a grande maioria,
dali não tinha passado. Queda para os estudos, isso tinha ele, mas as leiras da
família e os cinco irmãos mais novos que havia para criar não davam para o pôr
a estudar na cidade. Cedo, com os seus onze anos, já andava agarrado à rabiça
do arado, atrás da junta de vacas. Agora, com dezasseis anos feitos, era
mordomo da festa dos rapazes.
O seu companheiro
de funções, o Manuel João, na casa dos dezoito, não era mau diabo, mas tinha lá
o seu feitio; “mau génio”, dizia o povo. Na hora da eleição, tinha ficado todo
emproado e não cabia em si de contente. Joaquim conhecia-o bem: na escola tinha
havido umas disputas por dá-cá-aquela-palha, mas as coisas ficaram por ali
porque o Joaquim não queria problemas com ninguém, muito menos com ele.
Raramente se encontravam; evitavam-se, sem deixarem de se falar. Mas na hora da
sua escolha para mordomos, ambos se tinham esquecido das rixas do passado. E
abraçaram-se como grandes amigos.
Chegado o mês de
outubro, a prova de fogo dos mordomos ia começar. Era agora. Sim, porque outras
tarefas haviam sido realizadas já durante o verão, mas nada que se assemelhasse
à lenha dos Santos; tinham feito umas quantas jeiras para lavradores
carenciados de mão-de-obra, executadas pela “sociedade” dos rapazes, para
angariação de fundos para a festa. Peditórios, nada; só para os santos, que uma
festa pagã não gozava de estatuto que lhos permitisse fazer. Até mesmo a
arrematação da lenha dos Santos se destinava, na quase totalidade, para o
sufrágio das almas.
Os Santos estavam
mesmo à porta. No fim da ronda das adegas, Joaquim lança então o aviso, tomando
a palavra com a autoridade de que estava revestido:
− Rapazes, no
domingo que vem, é preciso arrancar as cepas. Este ano vamos à Pena Veladeira,
bem sabeis, os tratores da floresta já lá andaram a romper o mato, está tudo
revolcado e temos lá coisa que chegue e sobre para uma boa carrada.
Ficou, pois, assim
decidido. Aquele lugar ficava a mais de duas léguas da aldeia, a raiar o termo
de Rio de Onor. Mas, enfim, trocavam um mais longo carrego do carro pelo
trabalho facilitado da arranca das cepas, num terreno já completamente
desbravado. Bem mais duro seria arrancá-las num qualquer matagal onde até os
javardos entrariam com muito custo.
Na verdade, nos
princípios dos anos sessenta, as máquinas dos Serviços Florestais já haviam
ocupado quase todos os baldios cultivados, plantados agora com pinhos ou em
vias disso. Uma boa parte da mocidade por lá trabalhava, sempre era uma boa
ajuda para o sustento da casa. Só os mais abastados dispensavam essas magras
jeiras; nem tempo para isso tinham, ocupados que andavam no amanho das terras.
Era uma canseira todo o ano. Como tal, Vale de Espinheiros, as Rachas ou a Pena
Veladeira, em qualquer um destes lugares tinham o trabalho bastante facilitado.
Mas, é claro, a distância era consideravelmente maior do que o habitual. Ainda
assim, optaram por esta solução, com algumas vozes discordantes e resmungonas,
poucas.
Nesse domingo, bem
cedo, lá foram. Apesar de algumas faltas, formara-se um grupo numeroso. Fizeram
todo o caminho a pé. Ainda assim, chegaram à Pena Veladeira com tempo de sobra
para arrancarem um castelo de cepas. A meio da manhã começou a cair uma chuva
miudinha, de molha-tolos, e que aos poucos foi engrossando. Sem se importarem
com o contratempo ou sem darem por isso, continuaram o trabalho: cravar o
enxadão bem fundo na terra meio esfarelada pelas máquinas, sacar as cepas das
urzes, em jeito de pé-de-cabra, e sacudi-las até ficarem limpas dos torrões.
Mesmo com a terra amolecida, sempre era um trabalho árduo: cepas grandes, com
raízes profundas, que haviam de dar para uma boa arrematação.
Chegou a hora da
merenda. Havia ali uma fraga de enormes proporções e em forma de gruta. E lá se
abrigaram todos. E mais que viessem. Lá se viam ainda os restos das paredes que
um antigo pastor de cabras construíra, havia muitos anos. Pastor-ermitão, dela
fizera a sua casa, por lá passara os seus dias. Cada vez que baixava ao povoado,
diziam os antigos, era para fazer um filho.
A dada altura,
começaram a ouvir vozes que se tornavam mais percetíveis à medida que se
acercavam. Certamente, buscavam o mesmo abrigo.
− São os de Rei
D’nor – adiantou Chico Tonho. Só poderia ser, naquele monte, domingo e àquela
hora, alguém que andasse ao mesmo que eles. Quando os avistaram, Manuel João,
tendo confirmado de quem se tratava, lança o convite: “Vinde p’ra aqui, cabemos
cá todos”.
Couberam, sem
dificuldade. Sacaram as merendas, pão, toucinho, uns nacos de presunto (só para
os mais abastados) e vinho. Alheias e chouriças frescas, vinham mesmo a calhar,
para assar em brasas de estevas. Mas quê, as matanças tardariam mais um mês. O
isco que levaram já tinha ranço de um ano. E o que havia, partilhado foi por
todos.
Conversavam
animadamente; os de Varge sentiam-se emproados por receberem os vizinhos em sua
“casa”. Sim, porque a dita fraga se situava dentro seu termo. Inesperadamente,
um de Varge, o Rogério, lança uma provocação, virando-se para os de Rio de
Onor, alto e bom som para que todos ouvissem:
− Qual é o maricas
que este ano vai de Filandorra?
− Vê lá como é que
falas! – responde o mordomo da festa dos Reis. Ato contínuo, um dos outros
avança em direção a Rogério, com a navalha em riste. A confusão estava prestes
a rebentar. Alberto Lameira, o outro mordomo, segura-o pelas costas para evitar
o que já parecia inevitável:
− Vá, vá! Tem calma
– ordenou, como que a dizer que era ele quem impunha ordem na sua rapaziada –
não queremos cá confusões.
Calaram-se todos,
olhando uns para os outros sem saber como reagir. E a coisa ficou assim meio
suspensa, na expetativa de ver como aquilo ia acabar.
Rogério Cabeço era
o único que conhecia bem a festa dos reis de Rio de Onor. Seu pai era
guarda-fiscal, tinha sido colocado lá no posto e ele por lá tinha sido criado
até ao fim da primária. Nessa altura, o pai fora promovido a cabo e chefiava
agora o posto de Aveleda. E ele, querendo mostrar que sabia daquilo e sentindo
as costas quentes pelo estatuto do pai, tinha feito aquela provocação
irrefletida. Mesmo tendo saído de lá havia oito anos, lembrava-se bem da
Filandorra, essa figura feminina representada por um dos rapazes, que
acompanhava os mordomos pela aldeia no peditório.
− Desculpai,
rapazes, não será por causa deste desbocado que vamos estragar a merenda –
pediu Joaquim da Frairenga, levantando os braços em sinal de paz.
− Está. Mas deixa
que te apanhe. Vais pagá-las – ameaçou o outro.
Era Manolito, nome
que lhe vinha do pai que era de Arriba, o que naquele ano ia fazer de
Filandorra. Fora, por isso, atingido em cheio na sua masculinidade e, sem
querer, havia-se denunciado. Nestas condições, tal provocação poderia ter um
desfecho desagradável. Mas, por agora, nada, tudo acalmou e logo voltaram ao
trabalho das cepas, cada grupo para o seu terreno.
António Tiza
01 junho 2014
artes e livros - “ EFÉMERA GLÓRIA D’EL REY SEM TRONO “
A Peça de Teatro, “ EFÉMERA GLÓRIA D’EL REY SEM TRONO “ de
autoria de António Afonso, é uma ficção dramática, que assentando em factos
históricos verídicos, se desenvolve a partir da pretensão do Duque de Lencastre,
John of Gaunt, ao trono de Castela e Leão, em que como aliado de Inglaterra por
tratados antes celebrados, está envolvido D. João I de Portugal.
Intitulando-se já como Rei de Castela
e Leão, como consta do texto do próprio Tratado
de Babe, o nobre inglês abdicava de qualquer direito que no futuro viesse a
ter sobre a Coroa de Portugal.
Sem efeitos políticos dignos de nota,
mas por fazerem parte da história local, não poderão os factos ser desvalorizados
ou ignorados.
Através do seu processo criativo e
baseado em factos reais, a Ficção transporta-nos no Tempo e torna-se fisicamente
presente, como ferramenta da nossa memória colectiva.
Sendo ainda a Ficção, um género
literário complementar ao nosso imaginário, é a Arte Cénica um veículo da mesma
por excelência, tornando-a em nosso entender, culturalmente legítima.
PREFÁCIO
Foi com alguma
surpresa, que recebi o convite do meu ilustre amigo António Afonso para
escrever o prefácio da sua peça de teatro: Efémera Glória d’El Rey Sem Trono
- A História Atribulada do Tratado de Babe. Surpresa, porque nunca tinha
escrito um prefácio para uma peça de teatro mas, alguma vez havia de ser a
primeira... Depois de ler o supracitado texto da peça, fiquei muito mais à
vontade, na medida em que o tema era inteiramente ligado à minha formação
académica, ou seja, à História. Por isso, foi com toda a alegria e algum
atrevimento, que aceitei tão honroso convite.
Tenho uma grande admiração e estima pelo meu grande amigo
António Afonso, desde há muitos anos, por isso, não me é fácil falar dele. Como
pessoa, para além de uma vasta cultura e erudição, tem aquela maneira de ser
tão transmontana, que nos põe completamente à vontade, como se nos
conhecesse-mos desde sempre. Espírito aberto, alma cristalina, coração sem
reservas.
Como homem de Arte, este Bragançano é um criador
multifacetado, fecundo, cria um pouco de tudo, à maneira dos intelectuais
renascentistas: escreve poesia, é autor de várias peças de teatro e de prosa,
pintor, participou (e participa), em incontáveis exposições (quer individuais,
quer colectivas), pronunciou inúmeras conferências e palestras, enfim um
artista completo, com um curriculum vastíssimo, que preenche várias folhas e
que aqui referi muito sucintamente.
A peça Efémera Glória d’El Rey Sem Trono - A História
Atribulada do Tratado de Babe, para além de estar muito bem elaborada,
escrita numa linguagem acessível quer aos intelectuais quer ao público em geral
vale também pela valorização da História local, normalmente tão esquecida. Há
muitos anos que vimos defendendo que, as nossas escolas deviam ter uma disciplina
de História Local para que os nossos alunos conhecessem a História da sua terra
e das suas gentes.
O texto fala-nos no célebre “Tratado de Babe”, do qual
falaremos mais à frente. Devo confessar que visitei pela primeira vez Babe,
aquando do Congresso “A Festa Popular em Trás-os-Montes”, decorrido entre 3 e 5
de Novembro de 1993, em Bragança e Miranda do Douro, em companhia sabedora do
saudoso Senhor Padre Belarmino Afonso. Foi uma lição de História, que jamais
esquecerei.
Mas voltemos ao contexto em que se desenvolve a supra
referida peça. Decorria a guerra pela independência de Portugal, face a
Castela. Eram tempos difíceis de guerra, com muitas incertezas sobre o futuro,
sobretudo para Portugal.
Eleito nas Cortes de Coimbra,
Regedor e Defensor do Reino, o Mestre de Aviz, era doravante Rei de Portugal,
ou seja, era D. João I de Portugal. Haviam de se encontrar estratégias para
defender e consolidar a nossa independência face a Castela. Assim, nesse
sentido, em 1383, consegue-se um tratado de aliança entre Portugal e a
Inglaterra e em 9 de Maio, pelo Tratado de Windsor novo tratado. Este Tratado
determinava que entre estes dois reinos haveria «uma liga, amizade e
confederação real e perpétua, de maneira que um seria obrigado a prestar
auxílio ao outro contra todos os que tentassem destruir o Estado do outro».
Este tratado servia perfeitamente quer os nossos objectivos quer os da
Inglaterra. Portugal contava assim com um poderoso aliado contra Castela. Por
sua vez, também servia perfeitamente os interesses ingleses na medida em que
era importante para a pretensão do Duque de Lencastre, ao trono de Castela. É
que o Duque de Lencastre, D. João de Gaunt, quarto filho do Rei Eduardo III de
Inglaterra, após ter ficado viúvo de Blanche de Lancastrer (de quem teve D.
Filipa de Lencastre, que nasceu em Inglaterra em 1359), casou em 1371, em
segundas núpcias, com a Princesa Constança, filha do falecido Rei Pedro I de
Castela, O Cruel, envolvendo-se assim, na política castelhana ao declarar-se
pretendente da Coroa de Castela, rivalizando com Henrique de Trastâmara, na
disputa do mesmo propósito. Muito inteligentemente, D. João I de Portugal,
apercebeu-se que esta era a grande oportunidade para ter um aliado contra
Castela, uma vez que iria não só dividir as tropas do inimigo, como também,
viriam para a Península Ibérica muitos mais militares, gente que apoiava o
Duque de Lencastre. Por isso enviou um emissário a Inglaterra, oferecendo auxílio ao Duque de
Lancaster. O Duque inglês aceita a oferta e desembarca o seu exército na
Corunha. O encontro entre os dois aliados dá-se em Ponte de Mouro, perto de
Melgaço, onde subscrevem um novo Tratado de Aliança, contra o Rei de Castela.
Como era costume na época, com a finalidade de reforçar essa aliança, ficou
combinado o casamento de D. João I de Portugal, com D. Filipa de Lencastre,
filha do Duque inglês.
Entretanto o Duque de Lencastre e as suas tropas seguem
para Bragança, onde fica hospedado no Mosteiro de Castro de Avelãs. Após se ter
solicitado a Roma a necessária dispensa do mestrado de Avis, veio D. Filipa,
alojando-se no Porto, no Paço do Bispo. Na manhã do dia 2 de Fevereiro de 1387,
na cidade do Porto, na Igreja de S. Francisco, realiza-se o referido casamento.
D. João I de Portugal demorou-se bastante no Porto e o seu sogro, farto de
esperar, parte com as suas tropas para Babe, povoação fronteiriça, perto da
cidade de Bragança, onde os dois exércitos se iriam reunir. Aqui, em 26 de
Março de 1387, era assinado um novo tratado, o Tratado de Babe. Por este
Tratado, o Duque de Lancaster desistia de qualquer direito, que no futuro
viesse a ter, sobre a coroa de Portugal.
Após a assinatura deste Tratado, os
dois exércitos aliados, atravessaram o Rio Maçãs e rumaram a Alcanices.
Entretanto, D. João de
Gaunt, chega a acordo com o rei de Castela e, para selar este acordo, casa outra sua filha, com o Rei de Castela, tendo o
Duque de Lencastre regressado a Inglaterra. No entanto, a guerra entre Portugal
e Castela, estava longe de ter acabado. Morto D. João I de Castela, o
seu sucessor, D. Henrique III, reavivando a guerra, invadiria Trás-os-Montes,
em 1397, não respeitando as pazes anteriormente assentes, entre os anteriores
monarcas, dos dois reinos.
Conquista Bragança, Vinhais e
Mogadouro, obrigando D. João I de Portugal, a entrar pela Galiza, para libertar estas terras
transmontanas, em 4 de Maio de 1398.
A paz definitiva entre estes dois reinos, apenas seria
alcançada em 1411.
Dentro do contexto de uma guerra tão prolongada, quero
salientar alguns factos, relacionados com estas terras transmontanas. Assim em
16 de Maio de 1386, D. João I de Portugal, doou um Foral ao Azinhoso (renovado
em 13 de Fevereiro de 1520 por D. Manuel I Rei de Portugal).
Segundo a História, D. Nuno Álvares Pereira, o
Condestável de D. João I de Portugal, terá rezado junto ao altar de Nossa
Senhora da Natividade, no ano de 1386, na centenária Igreja de Santa Maria do
Azinhoso, pedindo protecção à Virgem, contra os Castelhanos. Também há uma
grande polémica sobre o local onde se terá realizado o célebre Alardo da
Vilariça (é que há duas povoações possíveis de ter ocorrido porque ambas se
chamam Vilariça, uma no concelho de Torre de Moncorvo, outra, muito perto do
Azinhoso, concelho de Mogadouro).
Para concluir, devo chamar a atenção para uma reprodução
“fac-símile”, do Tratado de Babe, incluído neste livro. Como o pergaminho
original, guardado na Torre do Tombo está em muito mau estado, a Associação
Bragança Histórica, de que o António Afonso é membro fundador, tomou a notável
iniciativa de o mandar restaurar, parabéns!
Só me resta desejar ao leitor uma boa leitura desta
notável peça de teatro.
António
Pimenta de Castro
30 maio 2014
artes e livros - Jacob(Francisco) Rodrigues Pereira
RESUMO
Aproxima-se a passagem do 3º
centenário sobre a morte de Jacob Rodrigues Pereira, o inventor de um método inovador
de educação dos surdos-mudos. Casualmente nascido em Espanha quando seus pais
iam fugidos da inquisição de Portugal, ele e seus familiares sempre se
consideraram portugueses.
Seus ascendentes eram todos
trasmontanos e por isso pensamos que devemos ser nós os trasmontanos a promover
uma celebração digna de tal efeméride, pois que Jacob Rodrigues Pereira será,
porventura, o homem trasmontano mais conhecido no estrangeiro.
Pensamos, por outro lado, que a
melhor forma de celebrar o centenário do nascimento de Jacob Rodrigues Pereira
é ir ao encontro da nossa própria história onde os marranos e os judeus
desempenharam um papel de extrema importância. Também eles ajudaram a moldar o
Homem Trasmontano que, ontem como hoje, sempre soube afirmar-se como cidadão do
mundo, na boa tradição sefardita. Como escreveu Jorge Luís Borges, também ele
descendente orgulhoso de Trasmontanos, nas veias de todos nós corre uma gota de
sangue judeu.
Foi a
pensar em tudo isto que escrevemos este livro tentando fazer reviver a
ambiência marrana em Trás-os-Montes ao tempo do nascimento de Francisco
Rodrigues Pereira. Escrevemo-lo com a consciência de que temos de acertar
contas com a história e de orgulhosamente dizer quem somos: - Nós trasmontanos,
sefarditas e marranos.
Os autores
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