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05 junho 2014
04 junho 2014
03 junho 2014
A FILANDORRA,por António Tiza
Era o fim de um
chuvoso domingo de Outubro. A rapaziada fazia a sua ronda pelas adegas. Não que
fosse muito habitual, mas, havendo assuntos a tratar, aproveitavam a ocasião.
Bebiam do vinho novo, meio turvo e ainda um meio adocicado; o velho, esse já
havia muito que se enxugara nas pipas. Emborcavam todos do mesmo copo, do pipo
ou da bota, consoante as posses de cada anfitrião. E roíam umas castanhas,
coisa que não faltava em Varge, terra fria, de corpulentos castanheiros, como
gigantes. Assim enganavam o estômago e sempre podiam dar mais umas goladas que,
nesse tempo, a rapaziada era numerosa e nenhuma adega podia ficar sem a devida
visita.
Por via de regra,
os mordomos dos rapazes eram escolhidos entre os mais experientes. Não foi o
caso nesse ano. Tendo sido “eleitos” no Santo Estêvão do ano anterior, como
sempre se procedia, Joaquim da Frairenga e Manuel João eram dois novatos;
Dera-se o caso que os “velhos”, combinados entre si, quiseram pregar-lhes a
partida ou, por assim dizer, tomar-lhes o pulso. Como mandam as regras, no fim
do almoço, deram duas voltas por trás da mesa, um por cada lado, deixando cair,
à vez, os seus enfeitados chapéus de mordomos nas cabeças de todos. Contudo,
não chegaram a fazer duas passagens. Queriam fazer a surpresa. Inesperadamente
(havia sempre uns mais velhos que já contavam com o ovo no cu da galinha), os
chapéus permaneceram pousados na cabeça do Joaquim e do Manuel João. Só
passados alguns momentos é que o pessoal se deu conta do que havia acontecido:
tinham sido eles os “eleitos”. Não obstante, houve aplausos entusiásticos e a
algazarra foi geral. Tinham para o ano mordomos verdadeiramente “novos”. Eles
saberiam dar conta do recado.
Joaquim era um
rapaz sossegado, um “paz d’alma” que se dava bem com todos e estava sempre pronto
a dar uma mão. Tinha feito a quarta classe, mas dali, como a grande maioria,
dali não tinha passado. Queda para os estudos, isso tinha ele, mas as leiras da
família e os cinco irmãos mais novos que havia para criar não davam para o pôr
a estudar na cidade. Cedo, com os seus onze anos, já andava agarrado à rabiça
do arado, atrás da junta de vacas. Agora, com dezasseis anos feitos, era
mordomo da festa dos rapazes.
O seu companheiro
de funções, o Manuel João, na casa dos dezoito, não era mau diabo, mas tinha lá
o seu feitio; “mau génio”, dizia o povo. Na hora da eleição, tinha ficado todo
emproado e não cabia em si de contente. Joaquim conhecia-o bem: na escola tinha
havido umas disputas por dá-cá-aquela-palha, mas as coisas ficaram por ali
porque o Joaquim não queria problemas com ninguém, muito menos com ele.
Raramente se encontravam; evitavam-se, sem deixarem de se falar. Mas na hora da
sua escolha para mordomos, ambos se tinham esquecido das rixas do passado. E
abraçaram-se como grandes amigos.
Chegado o mês de
outubro, a prova de fogo dos mordomos ia começar. Era agora. Sim, porque outras
tarefas haviam sido realizadas já durante o verão, mas nada que se assemelhasse
à lenha dos Santos; tinham feito umas quantas jeiras para lavradores
carenciados de mão-de-obra, executadas pela “sociedade” dos rapazes, para
angariação de fundos para a festa. Peditórios, nada; só para os santos, que uma
festa pagã não gozava de estatuto que lhos permitisse fazer. Até mesmo a
arrematação da lenha dos Santos se destinava, na quase totalidade, para o
sufrágio das almas.
Os Santos estavam
mesmo à porta. No fim da ronda das adegas, Joaquim lança então o aviso, tomando
a palavra com a autoridade de que estava revestido:
− Rapazes, no
domingo que vem, é preciso arrancar as cepas. Este ano vamos à Pena Veladeira,
bem sabeis, os tratores da floresta já lá andaram a romper o mato, está tudo
revolcado e temos lá coisa que chegue e sobre para uma boa carrada.
Ficou, pois, assim
decidido. Aquele lugar ficava a mais de duas léguas da aldeia, a raiar o termo
de Rio de Onor. Mas, enfim, trocavam um mais longo carrego do carro pelo
trabalho facilitado da arranca das cepas, num terreno já completamente
desbravado. Bem mais duro seria arrancá-las num qualquer matagal onde até os
javardos entrariam com muito custo.
Na verdade, nos
princípios dos anos sessenta, as máquinas dos Serviços Florestais já haviam
ocupado quase todos os baldios cultivados, plantados agora com pinhos ou em
vias disso. Uma boa parte da mocidade por lá trabalhava, sempre era uma boa
ajuda para o sustento da casa. Só os mais abastados dispensavam essas magras
jeiras; nem tempo para isso tinham, ocupados que andavam no amanho das terras.
Era uma canseira todo o ano. Como tal, Vale de Espinheiros, as Rachas ou a Pena
Veladeira, em qualquer um destes lugares tinham o trabalho bastante facilitado.
Mas, é claro, a distância era consideravelmente maior do que o habitual. Ainda
assim, optaram por esta solução, com algumas vozes discordantes e resmungonas,
poucas.
Nesse domingo, bem
cedo, lá foram. Apesar de algumas faltas, formara-se um grupo numeroso. Fizeram
todo o caminho a pé. Ainda assim, chegaram à Pena Veladeira com tempo de sobra
para arrancarem um castelo de cepas. A meio da manhã começou a cair uma chuva
miudinha, de molha-tolos, e que aos poucos foi engrossando. Sem se importarem
com o contratempo ou sem darem por isso, continuaram o trabalho: cravar o
enxadão bem fundo na terra meio esfarelada pelas máquinas, sacar as cepas das
urzes, em jeito de pé-de-cabra, e sacudi-las até ficarem limpas dos torrões.
Mesmo com a terra amolecida, sempre era um trabalho árduo: cepas grandes, com
raízes profundas, que haviam de dar para uma boa arrematação.
Chegou a hora da
merenda. Havia ali uma fraga de enormes proporções e em forma de gruta. E lá se
abrigaram todos. E mais que viessem. Lá se viam ainda os restos das paredes que
um antigo pastor de cabras construíra, havia muitos anos. Pastor-ermitão, dela
fizera a sua casa, por lá passara os seus dias. Cada vez que baixava ao povoado,
diziam os antigos, era para fazer um filho.
A dada altura,
começaram a ouvir vozes que se tornavam mais percetíveis à medida que se
acercavam. Certamente, buscavam o mesmo abrigo.
− São os de Rei
D’nor – adiantou Chico Tonho. Só poderia ser, naquele monte, domingo e àquela
hora, alguém que andasse ao mesmo que eles. Quando os avistaram, Manuel João,
tendo confirmado de quem se tratava, lança o convite: “Vinde p’ra aqui, cabemos
cá todos”.
Couberam, sem
dificuldade. Sacaram as merendas, pão, toucinho, uns nacos de presunto (só para
os mais abastados) e vinho. Alheias e chouriças frescas, vinham mesmo a calhar,
para assar em brasas de estevas. Mas quê, as matanças tardariam mais um mês. O
isco que levaram já tinha ranço de um ano. E o que havia, partilhado foi por
todos.
Conversavam
animadamente; os de Varge sentiam-se emproados por receberem os vizinhos em sua
“casa”. Sim, porque a dita fraga se situava dentro seu termo. Inesperadamente,
um de Varge, o Rogério, lança uma provocação, virando-se para os de Rio de
Onor, alto e bom som para que todos ouvissem:
− Qual é o maricas
que este ano vai de Filandorra?
− Vê lá como é que
falas! – responde o mordomo da festa dos Reis. Ato contínuo, um dos outros
avança em direção a Rogério, com a navalha em riste. A confusão estava prestes
a rebentar. Alberto Lameira, o outro mordomo, segura-o pelas costas para evitar
o que já parecia inevitável:
− Vá, vá! Tem calma
– ordenou, como que a dizer que era ele quem impunha ordem na sua rapaziada –
não queremos cá confusões.
Calaram-se todos,
olhando uns para os outros sem saber como reagir. E a coisa ficou assim meio
suspensa, na expetativa de ver como aquilo ia acabar.
Rogério Cabeço era
o único que conhecia bem a festa dos reis de Rio de Onor. Seu pai era
guarda-fiscal, tinha sido colocado lá no posto e ele por lá tinha sido criado
até ao fim da primária. Nessa altura, o pai fora promovido a cabo e chefiava
agora o posto de Aveleda. E ele, querendo mostrar que sabia daquilo e sentindo
as costas quentes pelo estatuto do pai, tinha feito aquela provocação
irrefletida. Mesmo tendo saído de lá havia oito anos, lembrava-se bem da
Filandorra, essa figura feminina representada por um dos rapazes, que
acompanhava os mordomos pela aldeia no peditório.
− Desculpai,
rapazes, não será por causa deste desbocado que vamos estragar a merenda –
pediu Joaquim da Frairenga, levantando os braços em sinal de paz.
− Está. Mas deixa
que te apanhe. Vais pagá-las – ameaçou o outro.
Era Manolito, nome
que lhe vinha do pai que era de Arriba, o que naquele ano ia fazer de
Filandorra. Fora, por isso, atingido em cheio na sua masculinidade e, sem
querer, havia-se denunciado. Nestas condições, tal provocação poderia ter um
desfecho desagradável. Mas, por agora, nada, tudo acalmou e logo voltaram ao
trabalho das cepas, cada grupo para o seu terreno.
António Tiza
01 junho 2014
artes e livros - “ EFÉMERA GLÓRIA D’EL REY SEM TRONO “
A Peça de Teatro, “ EFÉMERA GLÓRIA D’EL REY SEM TRONO “ de
autoria de António Afonso, é uma ficção dramática, que assentando em factos
históricos verídicos, se desenvolve a partir da pretensão do Duque de Lencastre,
John of Gaunt, ao trono de Castela e Leão, em que como aliado de Inglaterra por
tratados antes celebrados, está envolvido D. João I de Portugal.
Intitulando-se já como Rei de Castela
e Leão, como consta do texto do próprio Tratado
de Babe, o nobre inglês abdicava de qualquer direito que no futuro viesse a
ter sobre a Coroa de Portugal.
Sem efeitos políticos dignos de nota,
mas por fazerem parte da história local, não poderão os factos ser desvalorizados
ou ignorados.
Através do seu processo criativo e
baseado em factos reais, a Ficção transporta-nos no Tempo e torna-se fisicamente
presente, como ferramenta da nossa memória colectiva.
Sendo ainda a Ficção, um género
literário complementar ao nosso imaginário, é a Arte Cénica um veículo da mesma
por excelência, tornando-a em nosso entender, culturalmente legítima.
PREFÁCIO
Foi com alguma
surpresa, que recebi o convite do meu ilustre amigo António Afonso para
escrever o prefácio da sua peça de teatro: Efémera Glória d’El Rey Sem Trono
- A História Atribulada do Tratado de Babe. Surpresa, porque nunca tinha
escrito um prefácio para uma peça de teatro mas, alguma vez havia de ser a
primeira... Depois de ler o supracitado texto da peça, fiquei muito mais à
vontade, na medida em que o tema era inteiramente ligado à minha formação
académica, ou seja, à História. Por isso, foi com toda a alegria e algum
atrevimento, que aceitei tão honroso convite.
Tenho uma grande admiração e estima pelo meu grande amigo
António Afonso, desde há muitos anos, por isso, não me é fácil falar dele. Como
pessoa, para além de uma vasta cultura e erudição, tem aquela maneira de ser
tão transmontana, que nos põe completamente à vontade, como se nos
conhecesse-mos desde sempre. Espírito aberto, alma cristalina, coração sem
reservas.
Como homem de Arte, este Bragançano é um criador
multifacetado, fecundo, cria um pouco de tudo, à maneira dos intelectuais
renascentistas: escreve poesia, é autor de várias peças de teatro e de prosa,
pintor, participou (e participa), em incontáveis exposições (quer individuais,
quer colectivas), pronunciou inúmeras conferências e palestras, enfim um
artista completo, com um curriculum vastíssimo, que preenche várias folhas e
que aqui referi muito sucintamente.
A peça Efémera Glória d’El Rey Sem Trono - A História
Atribulada do Tratado de Babe, para além de estar muito bem elaborada,
escrita numa linguagem acessível quer aos intelectuais quer ao público em geral
vale também pela valorização da História local, normalmente tão esquecida. Há
muitos anos que vimos defendendo que, as nossas escolas deviam ter uma disciplina
de História Local para que os nossos alunos conhecessem a História da sua terra
e das suas gentes.
O texto fala-nos no célebre “Tratado de Babe”, do qual
falaremos mais à frente. Devo confessar que visitei pela primeira vez Babe,
aquando do Congresso “A Festa Popular em Trás-os-Montes”, decorrido entre 3 e 5
de Novembro de 1993, em Bragança e Miranda do Douro, em companhia sabedora do
saudoso Senhor Padre Belarmino Afonso. Foi uma lição de História, que jamais
esquecerei.
Mas voltemos ao contexto em que se desenvolve a supra
referida peça. Decorria a guerra pela independência de Portugal, face a
Castela. Eram tempos difíceis de guerra, com muitas incertezas sobre o futuro,
sobretudo para Portugal.
Eleito nas Cortes de Coimbra,
Regedor e Defensor do Reino, o Mestre de Aviz, era doravante Rei de Portugal,
ou seja, era D. João I de Portugal. Haviam de se encontrar estratégias para
defender e consolidar a nossa independência face a Castela. Assim, nesse
sentido, em 1383, consegue-se um tratado de aliança entre Portugal e a
Inglaterra e em 9 de Maio, pelo Tratado de Windsor novo tratado. Este Tratado
determinava que entre estes dois reinos haveria «uma liga, amizade e
confederação real e perpétua, de maneira que um seria obrigado a prestar
auxílio ao outro contra todos os que tentassem destruir o Estado do outro».
Este tratado servia perfeitamente quer os nossos objectivos quer os da
Inglaterra. Portugal contava assim com um poderoso aliado contra Castela. Por
sua vez, também servia perfeitamente os interesses ingleses na medida em que
era importante para a pretensão do Duque de Lencastre, ao trono de Castela. É
que o Duque de Lencastre, D. João de Gaunt, quarto filho do Rei Eduardo III de
Inglaterra, após ter ficado viúvo de Blanche de Lancastrer (de quem teve D.
Filipa de Lencastre, que nasceu em Inglaterra em 1359), casou em 1371, em
segundas núpcias, com a Princesa Constança, filha do falecido Rei Pedro I de
Castela, O Cruel, envolvendo-se assim, na política castelhana ao declarar-se
pretendente da Coroa de Castela, rivalizando com Henrique de Trastâmara, na
disputa do mesmo propósito. Muito inteligentemente, D. João I de Portugal,
apercebeu-se que esta era a grande oportunidade para ter um aliado contra
Castela, uma vez que iria não só dividir as tropas do inimigo, como também,
viriam para a Península Ibérica muitos mais militares, gente que apoiava o
Duque de Lencastre. Por isso enviou um emissário a Inglaterra, oferecendo auxílio ao Duque de
Lancaster. O Duque inglês aceita a oferta e desembarca o seu exército na
Corunha. O encontro entre os dois aliados dá-se em Ponte de Mouro, perto de
Melgaço, onde subscrevem um novo Tratado de Aliança, contra o Rei de Castela.
Como era costume na época, com a finalidade de reforçar essa aliança, ficou
combinado o casamento de D. João I de Portugal, com D. Filipa de Lencastre,
filha do Duque inglês.
Entretanto o Duque de Lencastre e as suas tropas seguem
para Bragança, onde fica hospedado no Mosteiro de Castro de Avelãs. Após se ter
solicitado a Roma a necessária dispensa do mestrado de Avis, veio D. Filipa,
alojando-se no Porto, no Paço do Bispo. Na manhã do dia 2 de Fevereiro de 1387,
na cidade do Porto, na Igreja de S. Francisco, realiza-se o referido casamento.
D. João I de Portugal demorou-se bastante no Porto e o seu sogro, farto de
esperar, parte com as suas tropas para Babe, povoação fronteiriça, perto da
cidade de Bragança, onde os dois exércitos se iriam reunir. Aqui, em 26 de
Março de 1387, era assinado um novo tratado, o Tratado de Babe. Por este
Tratado, o Duque de Lancaster desistia de qualquer direito, que no futuro
viesse a ter, sobre a coroa de Portugal.
Após a assinatura deste Tratado, os
dois exércitos aliados, atravessaram o Rio Maçãs e rumaram a Alcanices.
Entretanto, D. João de
Gaunt, chega a acordo com o rei de Castela e, para selar este acordo, casa outra sua filha, com o Rei de Castela, tendo o
Duque de Lencastre regressado a Inglaterra. No entanto, a guerra entre Portugal
e Castela, estava longe de ter acabado. Morto D. João I de Castela, o
seu sucessor, D. Henrique III, reavivando a guerra, invadiria Trás-os-Montes,
em 1397, não respeitando as pazes anteriormente assentes, entre os anteriores
monarcas, dos dois reinos.
Conquista Bragança, Vinhais e
Mogadouro, obrigando D. João I de Portugal, a entrar pela Galiza, para libertar estas terras
transmontanas, em 4 de Maio de 1398.
A paz definitiva entre estes dois reinos, apenas seria
alcançada em 1411.
Dentro do contexto de uma guerra tão prolongada, quero
salientar alguns factos, relacionados com estas terras transmontanas. Assim em
16 de Maio de 1386, D. João I de Portugal, doou um Foral ao Azinhoso (renovado
em 13 de Fevereiro de 1520 por D. Manuel I Rei de Portugal).
Segundo a História, D. Nuno Álvares Pereira, o
Condestável de D. João I de Portugal, terá rezado junto ao altar de Nossa
Senhora da Natividade, no ano de 1386, na centenária Igreja de Santa Maria do
Azinhoso, pedindo protecção à Virgem, contra os Castelhanos. Também há uma
grande polémica sobre o local onde se terá realizado o célebre Alardo da
Vilariça (é que há duas povoações possíveis de ter ocorrido porque ambas se
chamam Vilariça, uma no concelho de Torre de Moncorvo, outra, muito perto do
Azinhoso, concelho de Mogadouro).
Para concluir, devo chamar a atenção para uma reprodução
“fac-símile”, do Tratado de Babe, incluído neste livro. Como o pergaminho
original, guardado na Torre do Tombo está em muito mau estado, a Associação
Bragança Histórica, de que o António Afonso é membro fundador, tomou a notável
iniciativa de o mandar restaurar, parabéns!
Só me resta desejar ao leitor uma boa leitura desta
notável peça de teatro.
António
Pimenta de Castro
30 maio 2014
artes e livros - Jacob(Francisco) Rodrigues Pereira
RESUMO
Aproxima-se a passagem do 3º
centenário sobre a morte de Jacob Rodrigues Pereira, o inventor de um método inovador
de educação dos surdos-mudos. Casualmente nascido em Espanha quando seus pais
iam fugidos da inquisição de Portugal, ele e seus familiares sempre se
consideraram portugueses.
Seus ascendentes eram todos
trasmontanos e por isso pensamos que devemos ser nós os trasmontanos a promover
uma celebração digna de tal efeméride, pois que Jacob Rodrigues Pereira será,
porventura, o homem trasmontano mais conhecido no estrangeiro.
Pensamos, por outro lado, que a
melhor forma de celebrar o centenário do nascimento de Jacob Rodrigues Pereira
é ir ao encontro da nossa própria história onde os marranos e os judeus
desempenharam um papel de extrema importância. Também eles ajudaram a moldar o
Homem Trasmontano que, ontem como hoje, sempre soube afirmar-se como cidadão do
mundo, na boa tradição sefardita. Como escreveu Jorge Luís Borges, também ele
descendente orgulhoso de Trasmontanos, nas veias de todos nós corre uma gota de
sangue judeu.
Foi a
pensar em tudo isto que escrevemos este livro tentando fazer reviver a
ambiência marrana em Trás-os-Montes ao tempo do nascimento de Francisco
Rodrigues Pereira. Escrevemo-lo com a consciência de que temos de acertar
contas com a história e de orgulhosamente dizer quem somos: - Nós trasmontanos,
sefarditas e marranos.
Os autores
29 maio 2014
28 maio 2014
artes e livros: Trás-os-Tempos
Sinopse:
A luz de um objeto que avistamos
no espaço, luz essa que se libertou há milhões de anos, no momento em que chega
até nós estamos a observar o passado, a partir do presente.
É assim este livro: o autor
observa «o-seu-tempo» a partir do presente. E não é um tempo absoluto, estático,
newtoniano, apesar de o contabilizar. É um tempo pluridimensional, um tempo
espacial, um tempo emocional, um «espaço-tempo» que o unifica e que nos
unifica. Com ele percebemos a natureza das coisas e de onde provieram, com ele
percebemos porque somos como somos.
António Sá Gué
27 maio 2014
artes e livros: ABRIGO COM PINTURAS RUPESTRES DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO
Não são muitos aqueles que, entre nós, se dedicam ao
estudo dos testemunhos que, por comodidade, denominamos arte pré-histórica,
apesar dos existentes no território actualmente nacional não só serem bem
numerosos como mostrarem variados acervos iconográficos e cronologias.
Os poucos textos disponíveis
sobre tal matéria devem-se, sobretudo, a arqueólogos, encontrando-se alheados
dessa importante informação, capaz de melhor definir a nossa condição de
humanos, como criadores e manipuladores de símbolos que quaisquer conjuntos de
artefactos ou de acções planeadas, tanto antropólogos, como historiadores da
arte, sociólogos, semiólogos e muitos outros cientistas sociais. A falta dos
contributos destes enforma lacuna na dialéctica conducente à construção de
modelos interpretativos, não apenas no que se consideram ser as vertentes de
análise mais comuns do passado humano, como a economia, a organização social ou
os estádios tecnológicos, mas principalmente no campo ideológico e, mais
abrangente, da vida cognitiva. E é nesta área que residem não poucas das bases
que estruturam o pensamento actual, onde para além de nos constituirmos como
herdeiros físicos, de longínquos antepassados de cuja humanidade até há pouco
se duvidava, em nós ecoam velhíssimas construções cosmogónicas e mitemas, cujo
impacto fez atravessarem sucessivas gerações.
Pinturas, gravuras ou
relevos, pré e proto-históricos, oferecem-nos iconografias de mundos
conceptuais, cujo significado importa tentar conhecer, pois mesmo quando
indecifrados, em termos funcionais e de significados, não deixam de nos atrair,
conforme acontece com todos os enigmas, ou de nos proporem questões capazes de
estimularem as nossas capacidades intelectuais, como de nos despertarem os
sentidos e as emoções.
Foi sobretudo o amor da autora
à Terra Transmontana, prenhe de força telúrica, que a conduziu a optar pelos
riscos de, em exercício académico, abordar o estudo da actividade humana
pretérita através de três abrigos conservando pinturas pré-históricas. Pala
Pinta, Penas Róias e Cachão da Rapa, são os mais antigos abrigos pintados
identificados em Trás-os-Montes e o último daqueles não haveria de passar
desapercebido ainda nos inícios do século XVIII, altura em que se publicou
imagem das suas iconografias. Eles mostram registos pictóricos distintos,
talvez com objectivos, idades e, até, contextos culturais algo diferentes, mas
que a autora da presença obra estuda, partindo da perspectiva do “estado da
arte”, não deixando de recorrer a metodologia rigorosa e a abordagens que
passam pela Arqueologia da Paisagem, entendida como construção social, a par da
valorização narrativa dos signos e das conceptualizações que estes sugerem
evidenciar. Pela primeira vez se faz, de modo sistemático, a inventariação do reportório
iconográfico dos três abrigos e o registo monográfico dos espólios encontrados
junto àqueles, daí se retirando as conclusões possíveis. Trata-se de leitura,
onde a informação empírica, proporcionada pelos testemunhos arqueológicos, se
perspectiva segundo os conceitos teóricos da Arqueologia, mas que também
recorre é Etnografia, para dar “carne e sangue” àqueles, como em tempos
escreveu o antropólogo E. Leach (1973, p. 761).
Como qualquer obra, e apesar
dos méritos que o leitor facilmente reconhecerá nesta que se apresenta, ela
tem, afinal, também a virtude de ser aberta.
Mário Varela Gomes (Faculdade de Ciências Sociais e
Humanas da Universidade Nova de Lisboa).
Leach, E., 1973, Concluding
adress, The Explanation of Culture
Change. Models in Prehistory, pp. 761-771, University of Pittsburgh Press,
Pittsburgh.
26 maio 2014
O PATO CATITA E A PATA DENGOSA (Lengalenga em jeito de fábula),por M. Hercília Agarez
Nota prévia: foi este texto
encontrado, manuscrito a lápis e sem data, em selecção de papéis antigos de
destino duvidoso. Surpreendeu-me ao ponto de duvidar ser eu a sua autora. Onde
isso já vai…Resolvi salvá-lo do caixote do lixo e dar-lhe a oportunidade de se
exibir, embora ciente da sua simplicidade. Ele é o exemplo de uma tendência antiga
para versos rimados a que não ouso chamar poesia. Isso é caso muito mais sério!
Vivia o pato Catita
Numa quinta bem bonita
E cheia de bicharada.
Eram frangas, pintainhos,
Galos, pintos, peruzinhos,
Gansos e uma pintada.
Com todos se entendia,
Com alguns se divertia,
Não sabendo o que eram mágoas.
Como era um tanto vaidoso
Exibia-se, garboso,
A nadar nas mansas águas.
Ao ver a senhora Zinha
Com a faca da cozinha
Bem agarrada na mão,
Ouviu um grande alvoroço:
De quem seria o pescoço
Cortado para a refeição?
De quem foi chegada a vez?
Do perú ou da pedrez,
Do frango ou da pintada?
Fosse este ou fosse aquele
Nada tinha a ver com ele,
Disse, dando uma risada.
Quando lhe chegou a idade
A que chamam puberdade
Quando se trata de gente,
Pôs-se a catrapiscar
Uma pata de encantar
Com plumagem reluzente.
Chamava-se ela Dengosa,
Era bela, apetitosa,
Mas um tanto levantada.
Dava trela a todo
o pato,
Sem decoro nem recato,
Por ser tão galanteada.
O Catita, ciumento,
Fez porém um juramento
Perante a pata amada:
Por ela esperaria,
Por ela tudo faria
Sua alma apaixonada.
Foi chegado, enfim, o dia
Em que, com muita alegria,
Ela aceitou o pedido.
Fez-se então o casamento
Com todo o espavento
Por ambos bem merecido.
Mas tanto amor e ternura
Foram sol de pouca dura
Como vos vou revelar.
Quis o destino cruel
Pôr fim à lua-de-mel
Que mal estava a começar.
Chegou um dia a criada
Com receita aconselhada
Pela cozinheira Rita.
A patroa, curiosa,
Quis ver se era gostosa
E foi atrás do Catita.
Foi direita aos “pombinhos”,
Derretidos, aos beijinhos,
E o pescoço lhe cortou.
Dele se fez uma arrozada
Que deixou deliciada
A gente que a larpou.*
E desta forma maldita
Foi castigado o Catita
Diante da companheira.
Riu-se dos pobres coitados
Antes dele sacrificados
Morreu da mesma maneira.
Para fábula isto ser
Necessário é conter
Uma lição de moral:
- Não sejas nunca escarninho
Da desgraça do vizinho
Se não queres pagar por tal.
*comeu
M. Hercília Agarez
23 maio 2014
EM BUSCA DO SER,novo livro de António Sá Gué
Prefácio
Como se de uma oração se tratasse
Este texto – Em Busca do Ser – afigura-se como um
momento de atenção, uma espécie de oração num mundo cada vez mais inquieto e
rumoroso. Tal como uma oração, este é um texto que pretende levar o leitor de
um pensamento a outro, do ruído ao silêncio interior; tal como numa oração, assiste-se
a um diálogo: um “eu” conversa com um “tu” (aqui, 3 vozes distintas), com o
objectivo de compreender mistério da vida.
A sua estrutura híbrida – alternam textos em prosa e em
verso – ilustra e reforça a ideia de movimento que percorre toda a obra. O
movimento aqui é o do pensamento. A linguagem – simples, pautada aqui e além
pela sobriedade da erudição – intensifica o conteúdo e clarifica a forma:
perante a fragmentação, busca-se a totalidade. Os poemas, síntese e essência de
todo o texto, sublinham os tópicos centrais – a demanda de sentido, a luta com
as palavras e com as trevas, o desejo de infinito –, ilustrando, como se disse,
a linha dorsal de toda a obra: a deslocação do pensamento, da imaginação e do
entendimento.
A viagem inscrita nesta obra de António Sá Gué não se
realiza através da geografia; antes, é uma viagem toda ela feita de visitação
ao interior do ser, aos cantos mais recônditos da alma de um sujeito que clama
pela luz.
Poucas são as indicações geográficas – apenas se fala de
uma ponte e do sentido de a atravessar, sabendo-se que do outro lado existem
“as terras da liberdade”. Mas a passagem oferece-se, como refere o sujeito,
apenas como “possibilidade de fuga ao absurdo de mim” (22). Sempre, esta é uma
viagem que resulta num ponto centrípto, é sempre um “caminhar para dentro”
(34), uma “descida ao centro de si” (17).
O movimento descendente é importante, pois ele desenha a
catábase ao mundo subterrâneo, ao inferno que o próprio indíviduo alimenta em
si mesmo. Por vezes, a este processo chama-se loucura, outras vezes, um
movimento que descreve a busca da leveza numa paisagem caracterizada pela
tristeza. Essa via descendente pode também configurar a busca, no reino das
sombras, da luz mais fulgurante, um modo de vida que alinhe “poeira e vento”
(42), ou seja, as antíteses que o ser humano carrega nos ombros de uma
existência sempre frágil e conturbada.
Este é um livro que não apresenta, por isso, um caminho
fácil ou plano. É, antes, um caminho estreito e tortuoso que exprime a sede de
infinito, a eterna busca da beleza, a união total que Fernando Pessoa refere em
“A Chuva Oblíqua.” Mas que, tal como no poema pessoano, se torna inalcansável;
pelo contrário, é algo fugidio, inacessível: “A bola rola pelo despenhadeiro
dos meus sonhos interrompidos.” Também em Em Busca do Ser se despenham
em abismos insondáveis o sonho, a realidade, a idealidade.
Quando escolhemos pensar neste texto como uma oração,
quisemos sublinhar a sua vertente espiritual, pois vemos nele um diálogo entre
o humano e o divino, uma conversa com Algo que está fora do mundo, mas que
representa a única via para a sobrevivência. Como um inquieto Job, o autor
escolhe os caminhos da mitologia clássica para dar ao leitor ecos de uma
inquietação metafísica. E assim, para a eterna sede e a fome sempre
insatisfeita, António Sá Gué escolhe Tântalo, figura que espelha a dor de viver
e o encontro repetidamente adiado entre o desejo e a realidade. Mesmo que o
sujeito de Em Busca do Ser esteja na posse do fio de Ariadne – aquele
que permite a Teseu encontrar a saída do labirinto – este não conhece as
vitórias de Teseu. Antes, permanece Sísifo, ou seja, a imagem daquele que está
condenado a viver com a consciência de que a procura de si mesmo é uma tarefa
interminável.
Claro que na busca de si o narrador/poeta enuncia também
a procura das palavras para falar de si e do seu diálogo com o mundo. E por
isso se encontram no texto referentes literários e filosóficos que bordejam o
caminho do ‘eu’ – Dante, Dostoiewski, Kafka e Jack Kerouac, Erasmo, Platão,
Freud – nomes que lhe permitem revisitar a memória do mundo. Numa luta sempre
constante pela busca de sentido – das palavras, da vida – o narrador não se
quer sozinho e por isso procura companhia que sustente a sua viagem, que o
ajude à compreensão do real. Embora fugidio, é a esse real que ele tem de se
agarrar para regressar do reino das sombras. Sim, porque este sujeito
“aprisionado pelo universo do verbo,” perdido e “pendurado no princípio do
tempo” (11), quer “sair daquele poço”, quer “subir ao sol” (58). Tal como
Prometeu, espera-se a libertação – aqui entendida como a compreensão da
natureza das coisas, a “linguagem da origem do mundo” (109). Para isso, há que
“caminhar descalço, tropeçar nas pedras, pisar a neve, mas caminhar sempre,
mesmo que a alma já esteja desnuda e em carne viva” (16). Só assim se percebe a
força das palavras de Dostoiewski escolhidas para epígrafe de Em Busca do
Ser – o Homem é um mistério; só caminhando, só buscando, só insistindo com
o mundo não se desiste do mundo.
Este parece-nos ser o mérito de António Sá Gué – não
desisitir de se entender. Ao procurar-se a si é a todos que busca compreender;
na medida em que não quer abdicar do mistério da sua alma, aprisionada em
contrários insolúveis, persiste na luta com as trevas e com a linguagem, numa
tentativa de “encontrar vida em si” (116), de encontrar vida em nós, seus
companheiros de viagem.
“Já é tarde”, diz-se; mas também se escreve: “nunca é
tarde” (128). Cabe-nos a nós, leitores, escolher a fórmula de salvação.
Isabel Alves
22 maio 2014
II Jornadas Culturais de Mogadouro: Trindade Coelho visto por...
14
de junho de 2014
Casa
da Cultura de Mogadouro
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Biblioteca Municipal Trindade Coelho
14 maio 2014
L SEGUNDO LIBRO DE BERSOS,de Fonso Roixo
Fonso Roixo, poeta popular, a modos António Aleixo mirandés, mais sofesticado, que solo scribe an mirandés. Fonso Roixo, ye un de ls pseudónimos de Amadeu Ferreira. Para ls que tenían saludades de sues quadras ende se pónen alguas de l nuobo lhibrico que stá na frauga.
425.
Ciertos mundos nun se béien,
mas hai que star cun atento,
pus mui ralo l ser por fuora
mostra l que somos andrento.
L Praino Cun Sue Giente i Sue Bida
494.
[Praino]
Antre ocres i amarielhos
oulia l berde an sploson
de sequidade: ye l Praino
cula sede an ouracion.
495.
Largo camino onde lieba
se l azul tan loinje aceinha?
Na Prainada árden fogueiras
de silenço, até sien leinha!
496.
Tan largos son ls hourizontes
i quaije óndias ls cabeços,
que apledia l pensar sierras
i ls uolhos sónhan ampeços.
497.
Amarielho ye l restroilho,
amarielhas son penheiras:
nadas que esta tierra dá,
adubadas cun canseiras.
425.
Ciertos mundos nun se béien,
mas hai que star cun atento,
pus mui ralo l ser por fuora
mostra l que somos andrento.
L Praino Cun Sue Giente i Sue Bida
494.
[Praino]
Antre ocres i amarielhos
oulia l berde an sploson
de sequidade: ye l Praino
cula sede an ouracion.
495.
Largo camino onde lieba
se l azul tan loinje aceinha?
Na Prainada árden fogueiras
de silenço, até sien leinha!
496.
Tan largos son ls hourizontes
i quaije óndias ls cabeços,
que apledia l pensar sierras
i ls uolhos sónhan ampeços.
497.
Amarielho ye l restroilho,
amarielhas son penheiras:
nadas que esta tierra dá,
adubadas cun canseiras.
Fonte: https://www.facebook.com/antonio.cangueiro?fref=ts
13 maio 2014
12 maio 2014
09 maio 2014
Mirandês: Unidade ou Divisão, por Amadeu Ferreira
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06 maio 2014
OLHAR A ÁGUA, MEDIR A ALMA: CONSIDERAÇÕES EM REDOR DA ESCRITA SOBRE A NATUREZA[1],por ISABEL ALVES
À memória de Zé Nascimento, que partiu
inesperadamente e sem que
tivéssemos conversado acerca deste assunto.
Na tradição
anglo-saxónica, a escrita sobre a natureza realiza-se a partir de uma reflexão
que o autor faz sobre o homem e sobre a linguagem, traduzindo em palavras o
mundo natural que o rodeia, conferindo-lhe uma ordem e um sentido. Nesse
sentido, a escrita sobre a natureza é um espaço literário onde se cruzam
apontamentos sobre história natural e enunciados de cariz subjectivo.
O que aqui designamos
por escrita sobre a natureza é, no domínio da crítica literária, passível de se
encontrar sob outras designações; assim, a representação das relações entre o
homem e o mundo natural constituem o âmago de textos cuja denominação pode
surgir também como ‘estudos sobre a paisagem’, ‘natureza na literatura’,
‘pastoralismo’, ‘regionalismo’, ‘ecologia humana’. Os estudos que aliam
ecologia e literatura só na década de noventa recebem um estatuto de escola
crítica, surgindo então um novo território de crítica literária: a ecocrítica.
Este tipo de análise literária privilegia não apenas a atitude do autor para
com a natureza, mas ilumina o padrão de inter-relações entre o homem e o mundo
não humano, postulando a ideia de que viver melhor passa também pelo modo como
se olha o mundo natural e nele se habita.
Se na tradição inglesa as primeiras obras se
reportam aos séculos XVII e XVIII[2],
é no século dezanove, sob a influência da estética romântica, que o
amadurecimento deste tipo de escrita acontece. William Wordsworth (1770-1850),
o poeta inglês para quem os fenómenos naturais eram dignos de figurar nos seus
versos, influencia definitivamente o Romantismo, um movimento cultural,
filosófico e literário que enaltece o contacto do ser humano com a natureza.
Acrescentando que a natureza pode dar forma, beleza e paz ao nosso espírito
mais íntimo e elevar alto os nossos pensamentos, este poeta acredita também que
os sentimentos dos homens são passíveis de serem tornados mais sãos e puros
através de um contato mais directo e intenso com a natureza. Claramente,
Wordsworth educou o olhar humano, ensinando-o a olhar intensa e profundamente o
mundo natural. Para além do exposto, acrescente-se que o século dezanove foi
riquíssimo no que ao desenvolvimento da história natural diz respeito. Veja-se,
por exemplo, o dinamismo da biologia e da geologia decorrentes da exploração de
Alexander von Humboldt à América do Sul (1799-1804) e da publicação de A
Origem das Espécies (1851) de Charles Darwin.
Na
América, a tradição da escrita sobre a natureza está associada à curiosidade e
ao interesse de naturalistas que, viajando pelos vastos e desconhecidos
terrritórios, produziam mapas e faziam inventários das muitas e novas espécies
do Novo Mundo[3].
Assim, neste país, o embrião da escrita sobre a natureza encontra-se, por um
lado, ligado ao desejo de narrar uma realidade completamente nova e, por outro,
à procura de palavras e perspectivas que efectivamente traduzissem essa nova
circunstância do homem no Novo Mundo. Consequentemente, a natureza e a forma –
paradoxal – como tem sido lida e interpretada constitui um elemento essencial
da matriz cultural e literária norte-americana. Embora o século dezanove
tivesse tido nomes de incontestável importância neste domínio, e refiram-se
apenas os de Ralph Waldo Emerson (1803-1882) e Henry David Thoreau (1817-1862),
a definição de escrita sobre a natureza não deixa de causar estranheza,como se
depreende das palavras de James Fenimore Cooper que, ao elogiar a obra Rural
Hours, publicada em 1850 pela sua filha, Susan Fenimore Cooper, não deixa
de confessar que o mundo não saberá o que fazer com um livro como aquele:
estruturado segundo o ciclo das estações do ano, e que se desenrola em redor de
um olhar pessoal e feminino acerca da vida rural de Cooperstown, Nova Iorque.
Porém, nos dias de hoje, a obra de Susan Fenimore Cooper é vista como um
exemplo de ética ambiental, pois tem como central a ideia de que os americanos
se tornam mais virtuosos se mantiverem uma relação estreita com o ambiente
natural que os rodeia, exortando-os a olharem com atenção o mundo para além da
porta: “um prado é um delicado bordado de cores que deve ser examinado
atentamente a fim de compreender todo o seu valor; e quanto mais de perto,
melhor”[4].
A
relação particularmente intensa entre a escrita sobre a natureza e a América
deve-se ao facto de esta ser uma nação cuja mitologia proclama a perpetuação da
ideia da América--como-natureza e, consequentemente, um espaço de contínua
reinvenção e renascimento. Aquando da chegada dos europeus à América, e graças
à forma de vida equilibrada das tribos nativas, estes poderam usufruir, à luz
matinal daquele novo continente, de visões primevas, “frente a frente, pela
derradeira vez na história, com algo comensurável com a sua capacidade de
assombro” (Fitzgerald, 177). Procurando-se narrar o que nunca tinha sido
colocado em palavras – a paisagem americana ‒, os autores de uma escrita sobre
a natureza criam um espaço literário híbrido, procurando palavras e
perspectivas que efetivamente traduzissem essa nova circunstância do homem
europeu no Novo Mundo.
A diversidade e o
movimento estão na base deste género literário, e são estas as características
que o tornam um género congenial ao modo de ser americano. A fim de olhar
atentamente o fenómeno da natureza e assim caminhar no sentido de um maior
conhecimento do eu, os autores que se dedicam à escrita sobre a natureza
privilegiam o peripatetismo: na base das considerações que fazem sobre a
natureza estão as caminhadas em redor de paisagens, lugares que definem como
sendo de movimento, e que estão na base de associações imaginativas e processos
alquímicos de transformação. Esses passeios decorrem maioritariamente em locais
que o autor conhece bem, o que significa que atentar no meio natural é também
celebrar o lugar e reconhecer o seu efeito sobre a existência humana. É também
uma aprendizagem da humildade. Neste sentido, podemos afirmar que a escrita
sobre natureza intensifica a curiosidade humana sobre o particular, dando a
conhecer o que de surpreendente nos reserva um olhar atento sobre o que de
antemão consideramos apenas próximo e familiar. A escrita sobre a natureza é um
género cujos textos se caracterizam por uma estrutura narrativa aberta,
valorizando-se sobretudo a vitalidade, o movimento e a imaginação, aspectos
fulcrais uma vez que estes se encontram em sintonia com o facto de nesses
textos se cultivar a ideia da interdependência ‒ dos organismos vivos com a
vida humana.
Pilgrim
at Tinter Creek,
obra que em 1974 deu a Annie Dillard o Pulitzer, gira em torno da metáfora da
visão: percorrendo a natureza circundante, e prestando atenção aos fenómenos
que a constituem, Dillard quer ver o que de outro modo lhe passaria
despercebido: “Saí; vejo qualquer coisa, um qualquer acontecimento que de outro
modo se teria escapado, perdido completamente. Ou qualquer coisa me vê, um
enorme poder varre-me com a sua asa perfeita, ressoando como um sino” (Dillard,
5)[5].
A natureza apresenta-se como um território de descoberta pessoal e ver
significa apreender melhor um eu interior. Dillard, à semelhança de Henry David
Thoreau, deseja escrever um diário meteorológico da mente: interligar as
histórias e visões que nascem da observação dos vales, cursos de água e
montanhas de Blue Ridge, Virginia, com o território desconhecido da mente
humana. O olhar de Dillard fortalece a perspectiva de que escrever sobre a
natureza é, tal como o indica a água sempre em movimento do ribeiro – Tinter
creek –, tentar apreender o que se mostra inapreensível; o mundo oferece-se em
constante mutação. Contrariamente a uma montanha, representante do mistério
antigo e passivo, o ribeiro representa o mistério da criação contínua, o seu
curso de água plasmando a incerteza, o terror das formas fixas, a dissolução do
presente, a complexidade da beleza, a força da fecundidade, a ilusão das formas
livres, a natureza nem sempre perfeita da perfeição (Dillard, 3).
Antes de Dillard, Emerson
e Thoreau já haviam chamado à atenção para o património natural americano, esse
que haveria de se constituir em voz singular da América. No texto fundacional,
“Nature” (1836), diz Emerson: “Por que motivo não haveremos nós de desfrutar,
também, de uma relação directa com a Natureza?” (Emerson, 13-14). Henry David
Thoreau, por seu lado, experimentou, de forma direta, a natureza americana. É
em redor de Concord, Massachusetts, que observa minuciosamente a natureza –
identifica árvores, flores e gramíneas, anota o regresso das aves na primavera,
mede o nível das águas dos rios, os anéis das árvores e o tamanho das sementes.
Vivendo embora no século dezanove, ele é um precursor do moderno discurso
ambientalista, pois reivindica a necessidade de conservar a natureza como um
domínio de vitalidade e de diversidade. Balizado por um saber científico,
Thoreau, no entanto, não descura a imaginação e dedica o seu tempo a observar e
estudar a paisagem à sua volta. Partindo do particular, deseja alcançar os
ritmos e os padrões universais, tendo sempre à mão uma linguagem poética:
confessa ter grande fé numa semente; perante uma semente, prepara-se para
esperar maravilhas.
[...]
In: A Terra de Duas Línguas II – Antologia de Autores Transmontanos
[1] Esta é uma
versão atualizada do texto apresentado no “Congresso de Homenagem ao
Douro/Duero e seus rios: memória, cultura e porvir”, Zamora, Abril 2006.
[2] Finch e Elder
assinalam as obras de John Ray, The Wisdom of God Manifested in the Works of
Creation (1691) e de Gilbert White A Natural History of Selborne (1789)
como sendo aquelas que inauguram uma tradição de teologia natural: a natureza é
um território onde a presença divina se faz sentir. Esta mesma tradição
encontrará solo fértil também do outro lado do Atlântico.
[3] Sempre que no
texto referimos “América”, “americanos” ou “Novo Mundo”, temos em mente o
território e o povo dos Estados Unidos da América.
[4] No
original: “a meadow is a delicate embroidery in colors, which you must examine
closely to understand all its merits; the nearer you are, the better” (Cooper,
1998: 76). Nossa tradução.
[5] "I walk out; I see something,
some event that would otherwise have been utterly missed or lost; or something
sees me, some enormous power brushes me with its clean wing, and I resound like
a beaten bell". Nossa tradução.
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