03 junho 2014

A FILANDORRA,por António Tiza


Era o fim de um chuvoso domingo de Outubro. A rapaziada fazia a sua ronda pelas adegas. Não que fosse muito habitual, mas, havendo assuntos a tratar, aproveitavam a ocasião. Bebiam do vinho novo, meio turvo e ainda um meio adocicado; o velho, esse já havia muito que se enxugara nas pipas. Emborcavam todos do mesmo copo, do pipo ou da bota, consoante as posses de cada anfitrião. E roíam umas castanhas, coisa que não faltava em Varge, terra fria, de corpulentos castanheiros, como gigantes. Assim enganavam o estômago e sempre podiam dar mais umas goladas que, nesse tempo, a rapaziada era numerosa e nenhuma adega podia ficar sem a devida visita.
Por via de regra, os mordomos dos rapazes eram escolhidos entre os mais experientes. Não foi o caso nesse ano. Tendo sido “eleitos” no Santo Estêvão do ano anterior, como sempre se procedia, Joaquim da Frairenga e Manuel João eram dois novatos; Dera-se o caso que os “velhos”, combinados entre si, quiseram pregar-lhes a partida ou, por assim dizer, tomar-lhes o pulso. Como mandam as regras, no fim do almoço, deram duas voltas por trás da mesa, um por cada lado, deixando cair, à vez, os seus enfeitados chapéus de mordomos nas cabeças de todos. Contudo, não chegaram a fazer duas passagens. Queriam fazer a surpresa. Inesperadamente (havia sempre uns mais velhos que já contavam com o ovo no cu da galinha), os chapéus permaneceram pousados na cabeça do Joaquim e do Manuel João. Só passados alguns momentos é que o pessoal se deu conta do que havia acontecido: tinham sido eles os “eleitos”. Não obstante, houve aplausos entusiásticos e a algazarra foi geral. Tinham para o ano mordomos verdadeiramente “novos”. Eles saberiam dar conta do recado.
Joaquim era um rapaz sossegado, um “paz d’alma” que se dava bem com todos e estava sempre pronto a dar uma mão. Tinha feito a quarta classe, mas dali, como a grande maioria, dali não tinha passado. Queda para os estudos, isso tinha ele, mas as leiras da família e os cinco irmãos mais novos que havia para criar não davam para o pôr a estudar na cidade. Cedo, com os seus onze anos, já andava agarrado à rabiça do arado, atrás da junta de vacas. Agora, com dezasseis anos feitos, era mordomo da festa dos rapazes.
O seu companheiro de funções, o Manuel João, na casa dos dezoito, não era mau diabo, mas tinha lá o seu feitio; “mau génio”, dizia o povo. Na hora da eleição, tinha ficado todo emproado e não cabia em si de contente. Joaquim conhecia-o bem: na escola tinha havido umas disputas por dá-cá-aquela-palha, mas as coisas ficaram por ali porque o Joaquim não queria problemas com ninguém, muito menos com ele. Raramente se encontravam; evitavam-se, sem deixarem de se falar. Mas na hora da sua escolha para mordomos, ambos se tinham esquecido das rixas do passado. E abraçaram-se como grandes amigos.
Chegado o mês de outubro, a prova de fogo dos mordomos ia começar. Era agora. Sim, porque outras tarefas haviam sido realizadas já durante o verão, mas nada que se assemelhasse à lenha dos Santos; tinham feito umas quantas jeiras para lavradores carenciados de mão-de-obra, executadas pela “sociedade” dos rapazes, para angariação de fundos para a festa. Peditórios, nada; só para os santos, que uma festa pagã não gozava de estatuto que lhos permitisse fazer. Até mesmo a arrematação da lenha dos Santos se destinava, na quase totalidade, para o sufrágio das almas. 
Os Santos estavam mesmo à porta. No fim da ronda das adegas, Joaquim lança então o aviso, tomando a palavra com a autoridade de que estava revestido:
− Rapazes, no domingo que vem, é preciso arrancar as cepas. Este ano vamos à Pena Veladeira, bem sabeis, os tratores da floresta já lá andaram a romper o mato, está tudo revolcado e temos lá coisa que chegue e sobre para uma boa carrada. 
Ficou, pois, assim decidido. Aquele lugar ficava a mais de duas léguas da aldeia, a raiar o termo de Rio de Onor. Mas, enfim, trocavam um mais longo carrego do carro pelo trabalho facilitado da arranca das cepas, num terreno já completamente desbravado. Bem mais duro seria arrancá-las num qualquer matagal onde até os javardos entrariam com muito custo.
Na verdade, nos princípios dos anos sessenta, as máquinas dos Serviços Florestais já haviam ocupado quase todos os baldios cultivados, plantados agora com pinhos ou em vias disso. Uma boa parte da mocidade por lá trabalhava, sempre era uma boa ajuda para o sustento da casa. Só os mais abastados dispensavam essas magras jeiras; nem tempo para isso tinham, ocupados que andavam no amanho das terras. Era uma canseira todo o ano. Como tal, Vale de Espinheiros, as Rachas ou a Pena Veladeira, em qualquer um destes lugares tinham o trabalho bastante facilitado. Mas, é claro, a distância era consideravelmente maior do que o habitual. Ainda assim, optaram por esta solução, com algumas vozes discordantes e resmungonas, poucas.
Nesse domingo, bem cedo, lá foram. Apesar de algumas faltas, formara-se um grupo numeroso. Fizeram todo o caminho a pé. Ainda assim, chegaram à Pena Veladeira com tempo de sobra para arrancarem um castelo de cepas. A meio da manhã começou a cair uma chuva miudinha, de molha-tolos, e que aos poucos foi engrossando. Sem se importarem com o contratempo ou sem darem por isso, continuaram o trabalho: cravar o enxadão bem fundo na terra meio esfarelada pelas máquinas, sacar as cepas das urzes, em jeito de pé-de-cabra, e sacudi-las até ficarem limpas dos torrões. Mesmo com a terra amolecida, sempre era um trabalho árduo: cepas grandes, com raízes profundas, que haviam de dar para uma boa arrematação.
Chegou a hora da merenda. Havia ali uma fraga de enormes proporções e em forma de gruta. E lá se abrigaram todos. E mais que viessem. Lá se viam ainda os restos das paredes que um antigo pastor de cabras construíra, havia muitos anos. Pastor-ermitão, dela fizera a sua casa, por lá passara os seus dias. Cada vez que baixava ao povoado, diziam os antigos, era para fazer um filho.

A dada altura, começaram a ouvir vozes que se tornavam mais percetíveis à medida que se acercavam. Certamente, buscavam o mesmo abrigo.
− São os de Rei D’nor – adiantou Chico Tonho. Só poderia ser, naquele monte, domingo e àquela hora, alguém que andasse ao mesmo que eles. Quando os avistaram, Manuel João, tendo confirmado de quem se tratava, lança o convite: “Vinde p’ra aqui, cabemos cá todos”.
Couberam, sem dificuldade. Sacaram as merendas, pão, toucinho, uns nacos de presunto (só para os mais abastados) e vinho. Alheias e chouriças frescas, vinham mesmo a calhar, para assar em brasas de estevas. Mas quê, as matanças tardariam mais um mês. O isco que levaram já tinha ranço de um ano. E o que havia, partilhado foi por todos.
Conversavam animadamente; os de Varge sentiam-se emproados por receberem os vizinhos em sua “casa”. Sim, porque a dita fraga se situava dentro seu termo. Inesperadamente, um de Varge, o Rogério, lança uma provocação, virando-se para os de Rio de Onor, alto e bom som para que todos ouvissem:
− Qual é o maricas que este ano vai de Filandorra?
− Vê lá como é que falas! – responde o mordomo da festa dos Reis. Ato contínuo, um dos outros avança em direção a Rogério, com a navalha em riste. A confusão estava prestes a rebentar. Alberto Lameira, o outro mordomo, segura-o pelas costas para evitar o que já parecia inevitável:
− Vá, vá! Tem calma – ordenou, como que a dizer que era ele quem impunha ordem na sua rapaziada – não queremos cá confusões.
Calaram-se todos, olhando uns para os outros sem saber como reagir. E a coisa ficou assim meio suspensa, na expetativa de ver como aquilo ia acabar.
Rogério Cabeço era o único que conhecia bem a festa dos reis de Rio de Onor. Seu pai era guarda-fiscal, tinha sido colocado lá no posto e ele por lá tinha sido criado até ao fim da primária. Nessa altura, o pai fora promovido a cabo e chefiava agora o posto de Aveleda. E ele, querendo mostrar que sabia daquilo e sentindo as costas quentes pelo estatuto do pai, tinha feito aquela provocação irrefletida. Mesmo tendo saído de lá havia oito anos, lembrava-se bem da Filandorra, essa figura feminina representada por um dos rapazes, que acompanhava os mordomos pela aldeia no peditório.
− Desculpai, rapazes, não será por causa deste desbocado que vamos estragar a merenda – pediu Joaquim da Frairenga, levantando os braços em sinal de paz.
− Está. Mas deixa que te apanhe. Vais pagá-las – ameaçou o outro.
Era Manolito, nome que lhe vinha do pai que era de Arriba, o que naquele ano ia fazer de Filandorra. Fora, por isso, atingido em cheio na sua masculinidade e, sem querer, havia-se denunciado. Nestas condições, tal provocação poderia ter um desfecho desagradável. Mas, por agora, nada, tudo acalmou e logo voltaram ao trabalho das cepas, cada grupo para o seu terreno.
António Tiza


01 junho 2014

artes e livros - “ EFÉMERA GLÓRIA D’EL REY SEM TRONO “

A Peça de Teatro, “ EFÉMERA GLÓRIA D’EL REY SEM TRONO “ de autoria de António Afonso, é uma ficção dramática, que assentando em factos históricos verídicos, se desenvolve a partir da pretensão do Duque de Lencastre, John of Gaunt, ao trono de Castela e Leão, em que como aliado de Inglaterra por tratados antes celebrados, está envolvido D. João I de Portugal.
Intitulando-se já como Rei de Castela e Leão, como consta do texto do próprio Tratado de Babe, o nobre inglês abdicava de qualquer direito que no futuro viesse a ter sobre a Coroa de Portugal.
Sem efeitos políticos dignos de nota, mas por fazerem parte da história local, não poderão os factos ser desvalorizados ou ignorados.
Através do seu processo criativo e baseado em factos reais, a Ficção transporta-nos no Tempo e torna-se fisicamente presente, como ferramenta da nossa memória colectiva.
Sendo ainda a Ficção, um género literário complementar ao nosso imaginário, é a Arte Cénica um veículo da mesma por excelência, tornando-a em nosso entender, culturalmente legítima.


 PREFÁCIO

 Foi com alguma surpresa, que recebi o convite do meu ilustre amigo António Afonso para escrever o prefácio da sua peça de teatro: Efémera Glória d’El Rey Sem Trono - A História Atribulada do Tratado de Babe. Surpresa, porque nunca tinha escrito um prefácio para uma peça de teatro mas, alguma vez havia de ser a primeira... Depois de ler o supracitado texto da peça, fiquei muito mais à vontade, na medida em que o tema era inteiramente ligado à minha formação académica, ou seja, à História. Por isso, foi com toda a alegria e algum atrevimento, que aceitei tão honroso convite.
Tenho uma grande admiração e estima pelo meu grande amigo António Afonso, desde há muitos anos, por isso, não me é fácil falar dele. Como pessoa, para além de uma vasta cultura e erudição, tem aquela maneira de ser tão transmontana, que nos põe completamente à vontade, como se nos conhecesse-mos desde sempre. Espírito aberto, alma cristalina, coração sem reservas.
Como homem de Arte, este Bragançano é um criador multifacetado, fecundo, cria um pouco de tudo, à maneira dos intelectuais renascentistas: escreve poesia, é autor de várias peças de teatro e de prosa, pintor, participou (e participa), em incontáveis exposições (quer individuais, quer colectivas), pronunciou inúmeras conferências e palestras, enfim um artista completo, com um curriculum vastíssimo, que preenche várias folhas e que aqui referi muito sucintamente.   
A peça Efémera Glória d’El Rey Sem Trono - A História Atribulada do Tratado de Babe, para além de estar muito bem elaborada, escrita numa linguagem acessível quer aos intelectuais quer ao público em geral vale também pela valorização da História local, normalmente tão esquecida. Há muitos anos que vimos defendendo que, as nossas escolas deviam ter uma disciplina de História Local para que os nossos alunos conhecessem a História da sua terra e das suas gentes.
O texto fala-nos no célebre “Tratado de Babe”, do qual falaremos mais à frente. Devo confessar que visitei pela primeira vez Babe, aquando do Congresso “A Festa Popular em Trás-os-Montes”, decorrido entre 3 e 5 de Novembro de 1993, em Bragança e Miranda do Douro, em companhia sabedora do saudoso Senhor Padre Belarmino Afonso. Foi uma lição de História, que jamais esquecerei.
Mas voltemos ao contexto em que se desenvolve a supra referida peça. Decorria a guerra pela independência de Portugal, face a Castela. Eram tempos difíceis de guerra, com muitas incertezas sobre o futuro, sobretudo para Portugal.
Eleito nas Cortes de Coimbra, Regedor e Defensor do Reino, o Mestre de Aviz, era doravante Rei de Portugal, ou seja, era D. João I de Portugal. Haviam de se encontrar estratégias para defender e consolidar a nossa independência face a Castela. Assim, nesse sentido, em 1383, consegue-se um tratado de aliança entre Portugal e a Inglaterra e em 9 de Maio, pelo Tratado de Windsor novo tratado. Este Tratado determinava que entre estes dois reinos haveria «uma liga, amizade e confederação real e perpétua, de maneira que um seria obrigado a prestar auxílio ao outro contra todos os que tentassem destruir o Estado do outro». Este tratado servia perfeitamente quer os nossos objectivos quer os da Inglaterra. Portugal contava assim com um poderoso aliado contra Castela. Por sua vez, também servia perfeitamente os interesses ingleses na medida em que era importante para a pretensão do Duque de Lencastre, ao trono de Castela. É que o Duque de Lencastre, D. João de Gaunt, quarto filho do Rei Eduardo III de Inglaterra, após ter ficado viúvo de Blanche de Lancastrer (de quem teve D. Filipa de Lencastre, que nasceu em Inglaterra em 1359), casou em 1371, em segundas núpcias, com a Princesa Constança, filha do falecido Rei Pedro I de Castela, O Cruel, envolvendo-se assim, na política castelhana ao declarar-se pretendente da Coroa de Castela, rivalizando com Henrique de Trastâmara, na disputa do mesmo propósito. Muito inteligentemente, D. João I de Portugal, apercebeu-se que esta era a grande oportunidade para ter um aliado contra Castela, uma vez que iria não só dividir as tropas do inimigo, como também, viriam para a Península Ibérica muitos mais militares, gente que apoiava o Duque de Lencastre. Por isso enviou um emissário a Inglaterra, oferecendo auxílio ao Duque de Lancaster. O Duque inglês aceita a oferta e desembarca o seu exército na Corunha. O encontro entre os dois aliados dá-se em Ponte de Mouro, perto de Melgaço, onde subscrevem um novo Tratado de Aliança, contra o Rei de Castela. Como era costume na época, com a finalidade de reforçar essa aliança, ficou combinado o casamento de D. João I de Portugal, com D. Filipa de Lencastre, filha do Duque inglês.
Entretanto o Duque de Lencastre e as suas tropas seguem para Bragança, onde fica hospedado no Mosteiro de Castro de Avelãs. Após se ter solicitado a Roma a necessária dispensa do mestrado de Avis, veio D. Filipa, alojando-se no Porto, no Paço do Bispo. Na manhã do dia 2 de Fevereiro de 1387, na cidade do Porto, na Igreja de S. Francisco, realiza-se o referido casamento. D. João I de Portugal demorou-se bastante no Porto e o seu sogro, farto de esperar, parte com as suas tropas para Babe, povoação fronteiriça, perto da cidade de Bragança, onde os dois exércitos se iriam reunir. Aqui, em 26 de Março de 1387, era assinado um novo tratado, o Tratado de Babe. Por este Tratado, o Duque de Lancaster desistia de qualquer direito, que no futuro viesse a ter, sobre a coroa de Portugal. 
Após a assinatura deste Tratado, os dois exércitos aliados, atravessaram o Rio Maçãs e rumaram a Alcanices. Entretanto, D. João de Gaunt, chega a acordo com o rei de Castela e, para selar este acordo, casa outra sua filha, com o Rei de Castela, tendo o Duque de Lencastre regressado a Inglaterra. No entanto, a guerra entre Portugal e Castela, estava longe de ter acabado. Morto D. João I de Castela, o seu sucessor, D. Henrique III, reavivando a guerra, invadiria Trás-os-Montes, em 1397, não respeitando as pazes anteriormente assentes, entre os anteriores monarcas, dos dois reinos.
Conquista Bragança, Vinhais e Mogadouro, obrigando D. João I de Portugal, a entrar pela Galiza, para libertar estas terras transmontanas, em 4 de Maio de 1398.
A paz definitiva entre estes dois reinos, apenas seria alcançada em 1411.
Dentro do contexto de uma guerra tão prolongada, quero salientar alguns factos, relacionados com estas terras transmontanas. Assim em 16 de Maio de 1386, D. João I de Portugal, doou um Foral ao Azinhoso (renovado em 13 de Fevereiro de 1520 por D. Manuel I Rei de Portugal).
Segundo a História, D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável de D. João I de Portugal, terá rezado junto ao altar de Nossa Senhora da Natividade, no ano de 1386, na centenária Igreja de Santa Maria do Azinhoso, pedindo protecção à Virgem, contra os Castelhanos. Também há uma grande polémica sobre o local onde se terá realizado o célebre Alardo da Vilariça (é que há duas povoações possíveis de ter ocorrido porque ambas se chamam Vilariça, uma no concelho de Torre de Moncorvo, outra, muito perto do Azinhoso, concelho de Mogadouro).
Para concluir, devo chamar a atenção para uma reprodução “fac-símile”, do Tratado de Babe, incluído neste livro. Como o pergaminho original, guardado na Torre do Tombo está em muito mau estado, a Associação Bragança Histórica, de que o António Afonso é membro fundador, tomou a notável iniciativa de o mandar restaurar, parabéns!
Só me resta desejar ao leitor uma boa leitura desta notável peça de teatro.      

António Pimenta de Castro

30 maio 2014

artes e livros - Jacob(Francisco) Rodrigues Pereira

RESUMO
Aproxima-se a passagem do 3º centenário sobre a morte de Jacob Rodrigues Pereira, o inventor de um método inovador de educação dos surdos-mudos. Casualmente nascido em Espanha quando seus pais iam fugidos da inquisição de Portugal, ele e seus familiares sempre se consideraram portugueses.
Seus ascendentes eram todos trasmontanos e por isso pensamos que devemos ser nós os trasmontanos a promover uma celebração digna de tal efeméride, pois que Jacob Rodrigues Pereira será, porventura, o homem trasmontano mais conhecido no estrangeiro.
Pensamos, por outro lado, que a melhor forma de celebrar o centenário do nascimento de Jacob Rodrigues Pereira é ir ao encontro da nossa própria história onde os marranos e os judeus desempenharam um papel de extrema importância. Também eles ajudaram a moldar o Homem Trasmontano que, ontem como hoje, sempre soube afirmar-se como cidadão do mundo, na boa tradição sefardita. Como escreveu Jorge Luís Borges, também ele descendente orgulhoso de Trasmontanos, nas veias de todos nós corre uma gota de sangue judeu.
Foi a pensar em tudo isto que escrevemos este livro tentando fazer reviver a ambiência marrana em Trás-os-Montes ao tempo do nascimento de Francisco Rodrigues Pereira. Escrevemo-lo com a consciência de que temos de acertar contas com a história e de orgulhosamente dizer quem somos: - Nós trasmontanos, sefarditas e marranos.
Os autores

28 maio 2014

Academia de Letras - PROGRAMA DE MAIO NA RÁDIO BRIGANTIA - Alexandre Parafita



 Academia de Letras, PROGRAMA DE MAIO, na Rádio Brigantia - ALEXANDRE PARAFITA



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artes e livros: Trás-os-Tempos

Sinopse: 

A luz de um objeto que avistamos no espaço, luz essa que se libertou há milhões de anos, no momento em que chega até nós estamos a observar o passado, a partir do presente.
É assim este livro: o autor observa «o-seu-tempo» a partir do presente. E não é um tempo absoluto, estático, newtoniano, apesar de o contabilizar. É um tempo pluridimensional, um tempo espacial, um tempo emocional, um «espaço-tempo» que o unifica e que nos unifica. Com ele percebemos a natureza das coisas e de onde provieram, com ele percebemos porque somos como somos.
António Sá Gué


27 maio 2014

artes e livros: ABRIGO COM PINTURAS RUPESTRES DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO

Apresentação

Não são muitos aqueles que, entre nós, se dedicam ao estudo dos testemunhos que, por comodidade, denominamos arte pré-histórica, apesar dos existentes no território actualmente nacional não só serem bem numerosos como mostrarem variados acervos iconográficos e cronologias.
Os poucos textos disponíveis sobre tal matéria devem-se, sobretudo, a arqueólogos, encontrando-se alheados dessa importante informação, capaz de melhor definir a nossa condição de humanos, como criadores e manipuladores de símbolos que quaisquer conjuntos de artefactos ou de acções planeadas, tanto antropólogos, como historiadores da arte, sociólogos, semiólogos e muitos outros cientistas sociais. A falta dos contributos destes enforma lacuna na dialéctica conducente à construção de modelos interpretativos, não apenas no que se consideram ser as vertentes de análise mais comuns do passado humano, como a economia, a organização social ou os estádios tecnológicos, mas principalmente no campo ideológico e, mais abrangente, da vida cognitiva. E é nesta área que residem não poucas das bases que estruturam o pensamento actual, onde para além de nos constituirmos como herdeiros físicos, de longínquos antepassados de cuja humanidade até há pouco se duvidava, em nós ecoam velhíssimas construções cosmogónicas e mitemas, cujo impacto fez atravessarem sucessivas gerações.
Pinturas, gravuras ou relevos, pré e proto-históricos, oferecem-nos iconografias de mundos conceptuais, cujo significado importa tentar conhecer, pois mesmo quando indecifrados, em termos funcionais e de significados, não deixam de nos atrair, conforme acontece com todos os enigmas, ou de nos proporem questões capazes de estimularem as nossas capacidades intelectuais, como de nos despertarem os sentidos e as emoções.
Foi sobretudo o amor da autora à Terra Transmontana, prenhe de força telúrica, que a conduziu a optar pelos riscos de, em exercício académico, abordar o estudo da actividade humana pretérita através de três abrigos conservando pinturas pré-históricas. Pala Pinta, Penas Róias e Cachão da Rapa, são os mais antigos abrigos pintados identificados em Trás-os-Montes e o último daqueles não haveria de passar desapercebido ainda nos inícios do século XVIII, altura em que se publicou imagem das suas iconografias. Eles mostram registos pictóricos distintos, talvez com objectivos, idades e, até, contextos culturais algo diferentes, mas que a autora da presença obra estuda, partindo da perspectiva do “estado da arte”, não deixando de recorrer a metodologia rigorosa e a abordagens que passam pela Arqueologia da Paisagem, entendida como construção social, a par da valorização narrativa dos signos e das conceptualizações que estes sugerem evidenciar. Pela primeira vez se faz, de modo sistemático, a inventariação do reportório iconográfico dos três abrigos e o registo monográfico dos espólios encontrados junto àqueles, daí se retirando as conclusões possíveis. Trata-se de leitura, onde a informação empírica, proporcionada pelos testemunhos arqueológicos, se perspectiva segundo os conceitos teóricos da Arqueologia, mas que também recorre é Etnografia, para dar “carne e sangue” àqueles, como em tempos escreveu o antropólogo E. Leach (1973, p. 761).
Como qualquer obra, e apesar dos méritos que o leitor facilmente reconhecerá nesta que se apresenta, ela tem, afinal, também a virtude de ser aberta.

Mário Varela Gomes (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa).

Leach, E., 1973, Concluding adress, The Explanation of Culture Change. Models in Prehistory, pp. 761-771, University of Pittsburgh Press, Pittsburgh.


26 maio 2014

O PATO CATITA E A PATA DENGOSA (Lengalenga em jeito de fábula),por M. Hercília Agarez


Nota prévia: foi este texto encontrado, manuscrito a lápis e sem data, em selecção de papéis antigos de destino duvidoso. Surpreendeu-me ao ponto de duvidar ser eu a sua autora. Onde isso já vai…Resolvi salvá-lo do caixote do lixo e dar-lhe a oportunidade de se exibir, embora ciente da sua simplicidade. Ele é o exemplo de uma tendência antiga para versos rimados a que não ouso chamar poesia. Isso é caso muito mais sério!

Vivia o pato Catita
Numa quinta bem bonita
E cheia de bicharada.
Eram frangas, pintainhos,
Galos, pintos, peruzinhos,
Gansos e uma pintada.

Com todos se entendia,
Com alguns se divertia,
Não sabendo o que eram mágoas.
Como era um tanto vaidoso
Exibia-se, garboso,
A nadar nas mansas águas.

Ao ver a senhora Zinha
Com a faca da cozinha
Bem agarrada na mão,
Ouviu um grande alvoroço:
De quem seria o pescoço
Cortado para a refeição?

De quem foi chegada a vez?
Do perú ou da pedrez,
Do frango ou da pintada?
Fosse este ou fosse aquele
Nada tinha a ver com ele,
Disse, dando uma risada.

Quando lhe chegou a idade
A que chamam puberdade
Quando se trata de gente,
Pôs-se a catrapiscar
Uma pata de encantar
Com plumagem reluzente.

Chamava-se ela Dengosa,
Era bela, apetitosa,
Mas um tanto levantada.
 Dava trela a todo o pato,
Sem decoro nem recato,
Por ser tão galanteada.

O Catita, ciumento,
Fez porém um juramento
Perante a pata amada:
Por ela esperaria,
Por ela tudo faria
Sua alma apaixonada.

Foi chegado, enfim, o dia
Em que, com muita alegria,
Ela aceitou o pedido.
Fez-se então o casamento
Com todo o espavento
Por ambos bem merecido.

Mas tanto amor e ternura
Foram sol de pouca dura
Como vos vou revelar.
Quis o destino cruel
Pôr fim à lua-de-mel
Que mal estava a começar.

Chegou um dia a criada
Com receita aconselhada
Pela cozinheira Rita.
A patroa, curiosa,
Quis ver se era gostosa
E foi atrás do Catita.

Foi direita aos “pombinhos”,
Derretidos, aos beijinhos,
E o pescoço lhe cortou.
Dele se fez uma arrozada
Que deixou deliciada
A gente que a larpou.*

E desta forma maldita
Foi castigado o Catita
Diante da companheira.
Riu-se dos pobres coitados
Antes dele sacrificados
Morreu da mesma maneira.

Para fábula isto ser
Necessário é conter
Uma lição de moral:
- Não sejas nunca escarninho
Da desgraça do vizinho
Se não queres pagar por tal.

*comeu


M. Hercília Agarez

23 maio 2014

EM BUSCA DO SER,novo livro de António Sá Gué

Prefácio

Como se de uma oração se tratasse

Este texto – Em Busca do Ser – afigura-se como um momento de atenção, uma espécie de oração num mundo cada vez mais inquieto e rumoroso. Tal como uma oração, este é um texto que pretende levar o leitor de um pensamento a outro, do ruído ao silêncio interior; tal como numa oração, assiste-se a um diálogo: um “eu” conversa com um “tu” (aqui, 3 vozes distintas), com o objectivo de compreender mistério da vida.
A sua estrutura híbrida – alternam textos em prosa e em verso – ilustra e reforça a ideia de movimento que percorre toda a obra. O movimento aqui é o do pensamento. A linguagem – simples, pautada aqui e além pela sobriedade da erudição – intensifica o conteúdo e clarifica a forma: perante a fragmentação, busca-se a totalidade. Os poemas, síntese e essência de todo o texto, sublinham os tópicos centrais – a demanda de sentido, a luta com as palavras e com as trevas, o desejo de infinito –, ilustrando, como se disse, a linha dorsal de toda a obra: a deslocação do pensamento, da imaginação e do entendimento.
A viagem inscrita nesta obra de António Sá Gué não se realiza através da geografia; antes, é uma viagem toda ela feita de visitação ao interior do ser, aos cantos mais recônditos da alma de um sujeito que clama pela luz.
Poucas são as indicações geográficas – apenas se fala de uma ponte e do sentido de a atravessar, sabendo-se que do outro lado existem “as terras da liberdade”. Mas a passagem oferece-se, como refere o sujeito, apenas como “possibilidade de fuga ao absurdo de mim” (22). Sempre, esta é uma viagem que resulta num ponto centrípto, é sempre um “caminhar para dentro” (34), uma “descida ao centro de si” (17).
O movimento descendente é importante, pois ele desenha a catábase ao mundo subterrâneo, ao inferno que o próprio indíviduo alimenta em si mesmo. Por vezes, a este processo chama-se loucura, outras vezes, um movimento que descreve a busca da leveza numa paisagem caracterizada pela tristeza. Essa via descendente pode também configurar a busca, no reino das sombras, da luz mais fulgurante, um modo de vida que alinhe “poeira e vento” (42), ou seja, as antíteses que o ser humano carrega nos ombros de uma existência sempre frágil e conturbada.
Este é um livro que não apresenta, por isso, um caminho fácil ou plano. É, antes, um caminho estreito e tortuoso que exprime a sede de infinito, a eterna busca da beleza, a união total que Fernando Pessoa refere em “A Chuva Oblíqua.” Mas que, tal como no poema pessoano, se torna inalcansável; pelo contrário, é algo fugidio, inacessível: “A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos.” Também em Em Busca do Ser se despenham em abismos insondáveis o sonho, a realidade, a idealidade.
Quando escolhemos pensar neste texto como uma oração, quisemos sublinhar a sua vertente espiritual, pois vemos nele um diálogo entre o humano e o divino, uma conversa com Algo que está fora do mundo, mas que representa a única via para a sobrevivência. Como um inquieto Job, o autor escolhe os caminhos da mitologia clássica para dar ao leitor ecos de uma inquietação metafísica. E assim, para a eterna sede e a fome sempre insatisfeita, António Sá Gué escolhe Tântalo, figura que espelha a dor de viver e o encontro repetidamente adiado entre o desejo e a realidade. Mesmo que o sujeito de Em Busca do Ser esteja na posse do fio de Ariadne – aquele que permite a Teseu encontrar a saída do labirinto – este não conhece as vitórias de Teseu. Antes, permanece Sísifo, ou seja, a imagem daquele que está condenado a viver com a consciência de que a procura de si mesmo é uma tarefa interminável.
Claro que na busca de si o narrador/poeta enuncia também a procura das palavras para falar de si e do seu diálogo com o mundo. E por isso se encontram no texto referentes literários e filosóficos que bordejam o caminho do ‘eu’ – Dante, Dostoiewski, Kafka e Jack Kerouac, Erasmo, Platão, Freud – nomes que lhe permitem revisitar a memória do mundo. Numa luta sempre constante pela busca de sentido – das palavras, da vida – o narrador não se quer sozinho e por isso procura companhia que sustente a sua viagem, que o ajude à compreensão do real. Embora fugidio, é a esse real que ele tem de se agarrar para regressar do reino das sombras. Sim, porque este sujeito “aprisionado pelo universo do verbo,” perdido e “pendurado no princípio do tempo” (11), quer “sair daquele poço”, quer “subir ao sol” (58). Tal como Prometeu, espera-se a libertação – aqui entendida como a compreensão da natureza das coisas, a “linguagem da origem do mundo” (109). Para isso, há que “caminhar descalço, tropeçar nas pedras, pisar a neve, mas caminhar sempre, mesmo que a alma já esteja desnuda e em carne viva” (16). Só assim se percebe a força das palavras de Dostoiewski escolhidas para epígrafe de Em Busca do Ser – o Homem é um mistério; só caminhando, só buscando, só insistindo com o mundo não se desiste do mundo.
Este parece-nos ser o mérito de António Sá Gué – não desisitir de se entender. Ao procurar-se a si é a todos que busca compreender; na medida em que não quer abdicar do mistério da sua alma, aprisionada em contrários insolúveis, persiste na luta com as trevas e com a linguagem, numa tentativa de “encontrar vida em si” (116), de encontrar vida em nós, seus companheiros de viagem.
“Já é tarde”, diz-se; mas também se escreve: “nunca é tarde” (128). Cabe-nos a nós, leitores, escolher a fórmula de salvação.

Isabel Alves


22 maio 2014

II Jornadas Culturais de Mogadouro: Trindade Coelho visto por...

14 de junho de 2014
Casa da Cultura de Mogadouro

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Biblioteca Municipal Trindade Coelho
R. Bombeiros Voluntários

5200-264 Mogadouro

14 maio 2014

L SEGUNDO LIBRO DE BERSOS,de Fonso Roixo

Fonso Roixo, poeta popular, a modos António Aleixo mirandés, mais sofesticado, que solo scribe an mirandés. Fonso Roixo, ye un de ls pseudónimos de Amadeu Ferreira. Para ls que tenían saludades de sues quadras ende se pónen alguas de l nuobo lhibrico que stá na frauga.

425.
Ciertos mundos nun se béien,
mas hai que star cun atento,
pus mui ralo l ser por fuora
mostra l que somos andrento.

L Praino Cun Sue Giente i Sue Bida

494.
[Praino]
Antre ocres i amarielhos
oulia l berde an sploson
de sequidade: ye l Praino
cula sede an ouracion.

495.
Largo camino onde lieba
se l azul tan loinje aceinha?
Na Prainada árden fogueiras
de silenço, até sien leinha!

496.
Tan largos son ls hourizontes
i quaije óndias ls cabeços,
que apledia l pensar sierras
i ls uolhos sónhan ampeços.

497.
Amarielho ye l restroilho,
amarielhas son penheiras:
nadas que esta tierra dá,
adubadas cun canseiras.

Fonte: https://www.facebook.com/antonio.cangueiro?fref=ts

09 maio 2014

Mirandês: Unidade ou Divisão, por Amadeu Ferreira



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06 maio 2014

OLHAR A ÁGUA, MEDIR A ALMA: CONSIDERAÇÕES EM REDOR DA ESCRITA SOBRE A NATUREZA[1],por ISABEL ALVES

À memória de Zé Nascimento, que partiu inesperadamente e sem que
tivéssemos conversado acerca deste assunto.

Na tradição anglo-saxónica, a escrita sobre a natureza realiza-se a partir de uma reflexão que o autor faz sobre o homem e sobre a linguagem, traduzindo em palavras o mundo natural que o rodeia, conferindo-lhe uma ordem e um sentido. Nesse sentido, a escrita sobre a natureza é um espaço literário onde se cruzam apontamentos sobre história natural e enunciados de cariz subjectivo.
O que aqui designamos por escrita sobre a natureza é, no domínio da crítica literária, passível de se encontrar sob outras designações; assim, a representação das relações entre o homem e o mundo natural constituem o âmago de textos cuja denominação pode surgir também como ‘estudos sobre a paisagem’, ‘natureza na literatura’, ‘pastoralismo’, ‘regionalismo’, ‘ecologia humana’. Os estudos que aliam ecologia e literatura só na década de noventa recebem um estatuto de escola crítica, surgindo então um novo território de crítica literária: a ecocrítica. Este tipo de análise literária privilegia não apenas a atitude do autor para com a natureza, mas ilumina o padrão de inter-relações entre o homem e o mundo não humano, postulando a ideia de que viver melhor passa também pelo modo como se olha o mundo natural e nele se habita.
 Se na tradição inglesa as primeiras obras se reportam aos séculos XVII e XVIII[2], é no século dezanove, sob a influência da estética romântica, que o amadurecimento deste tipo de escrita acontece. William Wordsworth (1770-1850), o poeta inglês para quem os fenómenos naturais eram dignos de figurar nos seus versos, influencia definitivamente o Romantismo, um movimento cultural, filosófico e literário que enaltece o contacto do ser humano com a natureza. Acrescentando que a natureza pode dar forma, beleza e paz ao nosso espírito mais íntimo e elevar alto os nossos pensamentos, este poeta acredita também que os sentimentos dos homens são passíveis de serem tornados mais sãos e puros através de um contato mais directo e intenso com a natureza. Claramente, Wordsworth educou o olhar humano, ensinando-o a olhar intensa e profundamente o mundo natural. Para além do exposto, acrescente-se que o século dezanove foi riquíssimo no que ao desenvolvimento da história natural diz respeito. Veja-se, por exemplo, o dinamismo da biologia e da geologia decorrentes da exploração de Alexander von Humboldt à América do Sul (1799-1804) e da publicação de A Origem das Espécies (1851) de Charles Darwin.
Na América, a tradição da escrita sobre a natureza está associada à curiosidade e ao interesse de naturalistas que, viajando pelos vastos e desconhecidos terrritórios, produziam mapas e faziam inventários das muitas e novas espécies do Novo Mundo[3]. Assim, neste país, o embrião da escrita sobre a natureza encontra-se, por um lado, ligado ao desejo de narrar uma realidade completamente nova e, por outro, à procura de palavras e perspectivas que efectivamente traduzissem essa nova circunstância do homem no Novo Mundo. Consequentemente, a natureza e a forma – paradoxal – como tem sido lida e interpretada constitui um elemento essencial da matriz cultural e literária norte-americana. Embora o século dezanove tivesse tido nomes de incontestável importância neste domínio, e refiram-se apenas os de Ralph Waldo Emerson (1803-1882) e Henry David Thoreau (1817-1862), a definição de escrita sobre a natureza não deixa de causar estranheza,como se depreende das palavras de James Fenimore Cooper que, ao elogiar a obra Rural Hours, publicada em 1850 pela sua filha, Susan Fenimore Cooper, não deixa de confessar que o mundo não saberá o que fazer com um livro como aquele: estruturado segundo o ciclo das estações do ano, e que se desenrola em redor de um olhar pessoal e feminino acerca da vida rural de Cooperstown, Nova Iorque. Porém, nos dias de hoje, a obra de Susan Fenimore Cooper é vista como um exemplo de ética ambiental, pois tem como central a ideia de que os americanos se tornam mais virtuosos se mantiverem uma relação estreita com o ambiente natural que os rodeia, exortando-os a olharem com atenção o mundo para além da porta: “um prado é um delicado bordado de cores que deve ser examinado atentamente a fim de compreender todo o seu valor; e quanto mais de perto, melhor”[4].
A relação particularmente intensa entre a escrita sobre a natureza e a América deve-se ao facto de esta ser uma nação cuja mitologia proclama a perpetuação da ideia da América--como-natureza e, consequentemente, um espaço de contínua reinvenção e renascimento. Aquando da chegada dos europeus à América, e graças à forma de vida equilibrada das tribos nativas, estes poderam usufruir, à luz matinal daquele novo continente, de visões primevas, “frente a frente, pela derradeira vez na história, com algo comensurável com a sua capacidade de assombro” (Fitzgerald, 177). Procurando-se narrar o que nunca tinha sido colocado em palavras – a paisagem americana ‒, os autores de uma escrita sobre a natureza criam um espaço literário híbrido, procurando palavras e perspectivas que efetivamente traduzissem essa nova circunstância do homem europeu no Novo Mundo.

A diversidade e o movimento estão na base deste género literário, e são estas as características que o tornam um género congenial ao modo de ser americano. A fim de olhar atentamente o fenómeno da natureza e assim caminhar no sentido de um maior conhecimento do eu, os autores que se dedicam à escrita sobre a natureza privilegiam o peripatetismo: na base das considerações que fazem sobre a natureza estão as caminhadas em redor de paisagens, lugares que definem como sendo de movimento, e que estão na base de associações imaginativas e processos alquímicos de transformação. Esses passeios decorrem maioritariamente em locais que o autor conhece bem, o que significa que atentar no meio natural é também celebrar o lugar e reconhecer o seu efeito sobre a existência humana. É também uma aprendizagem da humildade. Neste sentido, podemos afirmar que a escrita sobre natureza intensifica a curiosidade humana sobre o particular, dando a conhecer o que de surpreendente nos reserva um olhar atento sobre o que de antemão consideramos apenas próximo e familiar. A escrita sobre a natureza é um género cujos textos se caracterizam por uma estrutura narrativa aberta, valorizando-se sobretudo a vitalidade, o movimento e a imaginação, aspectos fulcrais uma vez que estes se encontram em sintonia com o facto de nesses textos se cultivar a ideia da interdependência ‒ dos organismos vivos com a vida humana.
Pilgrim at Tinter Creek, obra que em 1974 deu a Annie Dillard o Pulitzer, gira em torno da metáfora da visão: percorrendo a natureza circundante, e prestando atenção aos fenómenos que a constituem, Dillard quer ver o que de outro modo lhe passaria despercebido: “Saí; vejo qualquer coisa, um qualquer acontecimento que de outro modo se teria escapado, perdido completamente. Ou qualquer coisa me vê, um enorme poder varre-me com a sua asa perfeita, ressoando como um sino” (Dillard, 5)[5]. A natureza apresenta-se como um território de descoberta pessoal e ver significa apreender melhor um eu interior. Dillard, à semelhança de Henry David Thoreau, deseja escrever um diário meteorológico da mente: interligar as histórias e visões que nascem da observação dos vales, cursos de água e montanhas de Blue Ridge, Virginia, com o território desconhecido da mente humana. O olhar de Dillard fortalece a perspectiva de que escrever sobre a natureza é, tal como o indica a água sempre em movimento do ribeiro – Tinter creek –, tentar apreender o que se mostra inapreensível; o mundo oferece-se em constante mutação. Contrariamente a uma montanha, representante do mistério antigo e passivo, o ribeiro representa o mistério da criação contínua, o seu curso de água plasmando a incerteza, o terror das formas fixas, a dissolução do presente, a complexidade da beleza, a força da fecundidade, a ilusão das formas livres, a natureza nem sempre perfeita da perfeição (Dillard, 3).
Antes de Dillard, Emerson e Thoreau já haviam chamado à atenção para o património natural americano, esse que haveria de se constituir em voz singular da América. No texto fundacional, “Nature” (1836), diz Emerson: “Por que motivo não haveremos nós de desfrutar, também, de uma relação directa com a Natureza?” (Emerson, 13-14). Henry David Thoreau, por seu lado, experimentou, de forma direta, a natureza americana. É em redor de Concord, Massachusetts, que observa minuciosamente a natureza – identifica árvores, flores e gramíneas, anota o regresso das aves na primavera, mede o nível das águas dos rios, os anéis das árvores e o tamanho das sementes. Vivendo embora no século dezanove, ele é um precursor do moderno discurso ambientalista, pois reivindica a necessidade de conservar a natureza como um domínio de vitalidade e de diversidade. Balizado por um saber científico, Thoreau, no entanto, não descura a imaginação e dedica o seu tempo a observar e estudar a paisagem à sua volta. Partindo do particular, deseja alcançar os ritmos e os padrões universais, tendo sempre à mão uma linguagem poética: confessa ter grande fé numa semente; perante uma semente, prepara-se para esperar maravilhas.
[...]

In: A Terra de Duas Línguas II – Antologia de Autores Transmontanos




[1] Esta é uma versão atualizada do texto apresentado no “Congresso de Homenagem ao Douro/Duero e seus rios: memória, cultura e porvir”, Zamora, Abril 2006.

[2] Finch e Elder assinalam as obras de John Ray, The Wisdom of God Manifested in the Works of Creation (1691) e de Gilbert White A Natural History of Selborne (1789) como sendo aquelas que inauguram uma tradição de teologia natural: a natureza é um território onde a presença divina se faz sentir. Esta mesma tradição encontrará solo fértil também do outro lado do Atlântico.

[3] Sempre que no texto referimos “América”, “americanos” ou “Novo Mundo”, temos em mente o território e o povo dos Estados Unidos da América.

[4] No original: “a meadow is a delicate embroidery in colors, which you must examine closely to understand all its merits; the nearer you are, the better” (Cooper, 1998: 76). Nossa tradução.

[5] "I walk out; I see something, some event that would otherwise have been utterly missed or lost; or something sees me, some enormous power brushes me with its clean wing, and I resound like a beaten bell". Nossa tradução.

23 abril 2014

Ainda os lugares, por António Sá Gué


 De facto, nestas terras, não existem grandes monumentos de invejável beleza e de admirável grandeza, como existem noutras regiões, nacionais ou estrangeiras. É como se não existissem factos históricos a comemorar, como se a alma humana, por pequenez ou abandono, não sentisse essa necessidade de deixar marcas aos vindouros. Tenho as minhas explicações, corretas ou não, pouco interessa. Aquilo que posso afirmar, com clareza, é que a alma do povo é grande, isso eu sei, apesar de nunca a ter medido, mas conheço-a como a palma da minha mão, é de lá que venho. Estas coisas sabem-se, sentem-se mas não são mensuráveis.
Eu sinto essa grandeza perante uma pequena ermida, uma capela, uma grande pedra. Sinto a grandeza do tempo que passou por ela, sinto a grandeza do esforço de quem a construiu, de quem a içou na roldana, o suor de quem a moldou, de quem se encostou a ela. Gosto de pensar que nos caminhos vivem as almas de quem os calcorreou milhentas vezes, e de olhar para as marcas da erosão como as marcas dessas almas. Gosto de pensar que a pedra quadrada da parede de uma pequena igreja adquiriu o sentir do pedreiro que a talhou. Gosto de pensar que os locais e as coisas adquirem o espírito do tempo. Gosto de olhar para elas e tentar captar esse mesmo espírito que acredito encerrarem.
Nesta minha ingenuidade, acabo por falar de uma capela como se fosse a maior obra de arte, acabo por falar das coisas com uma paixão e um sentimento que não correspondem às constatações objetivas. Gosto de falar delas com a importância que tiveram, para quem as construiu, mas que em boa verdade não passam de meras paredes erguidas, a quem o tempo geológico não perdoará.
.
António Sá Gué

In: Quadros da Transmontaneidade


BRAGANÇA - Dia Mundial do Livro


22 abril 2014

CONVITE

 Convite para a apresentação do romance Espada de Santa Maria, editado pela Chiado Editora do autor César Alexandre Afonso. A apresentação terá lugar em Vinhais no centro Cultural Solar dos Condes dia 16 de Maio pelas 17h30, pelo Escritor Francisco Moita Flores, aquando da abertura da Feira do Livro de Vinhais.

Provérbios - Três por dia


1 - Cá e lá rabos de palha há.
2 - Cá na Terra, tudo se faz e tudo se paga.
3 - Cá se faz(em), cá se paga(m).

21 abril 2014

Consuelo, o amor proibido - CONVITE

Nota do editor

A raia foi muito mais que um espaço geográfico. A raia foi um microcosmo, um espaço multicultural, económico e comunitário, um espaço de partilhas que os seus habitantes sempre souberam conciliar, às vezes ignorando a lei, lei essa muitas vezes ao serviço de outros interesses e não os dessa comunidade.
A raia, como se percebe, é o pano de fundo de grande parte dos contos que o autor nos oferece. Essas vivências transfronteiriças surgem-nos num período conturbado da nossa história, num período em que a guerra civil grassava em Portugal e onde, mais uma vez, os ideais eram comuns em ambos os lados da fronteira.
Perante esta realidade histórica, que é um facto, somos obrigados a questionar-nos sobre a física fragilidade da mesma e, quem sabe, a elevar o nosso pensamento para este nosso tempo, este início do século XXI, muito próprio, muito global, mas simultaneamente egocentrista.
Consuelo, o amor proibido, não é uma obra de mera ficção. Estas bem urdidas narrativas de Bernardino Henriques possuem uma dimensão humana que me leva a apostar na sua divulgação. Nelas, há a eterna luta entre a emoção e a razão, seja ela qual for, e que muitas vezes é o resultado de uma época histórica, de uma ética e moral vigentes, e não fruto do desenvolvimento e do progresso humano.
O ser humano é-nos apresentado frágil, cheio de contradições, e nem o estatuto profissional o consegue enobrecer. As emoções, sejam elas de celibatários ou não, acabam sempre por influenciar o nosso comportamento, às vezes extremo, e a questão põe-se mais uma vez: onde acaba a emoção e começa a razão, ou vice-versa?
O autor não nos dá nenhuma resposta, e nem é necessário. Isso é sempre algo que permanecerá na consciência de cada um de nós, e poderá ser sempre avaliado de diferentes perspectivas. Há uma relatividade em tudo o que é profundamente humano, esse relativismo é atávico, faz parte da sua natureza e permanecerá nele, em nós, ao longo da sua existência.

António Sá Gué