28 maio 2014

Academia de Letras - PROGRAMA DE MAIO NA RÁDIO BRIGANTIA - Alexandre Parafita



 Academia de Letras, PROGRAMA DE MAIO, na Rádio Brigantia - ALEXANDRE PARAFITA



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artes e livros: Trás-os-Tempos

Sinopse: 

A luz de um objeto que avistamos no espaço, luz essa que se libertou há milhões de anos, no momento em que chega até nós estamos a observar o passado, a partir do presente.
É assim este livro: o autor observa «o-seu-tempo» a partir do presente. E não é um tempo absoluto, estático, newtoniano, apesar de o contabilizar. É um tempo pluridimensional, um tempo espacial, um tempo emocional, um «espaço-tempo» que o unifica e que nos unifica. Com ele percebemos a natureza das coisas e de onde provieram, com ele percebemos porque somos como somos.
António Sá Gué


27 maio 2014

artes e livros: ABRIGO COM PINTURAS RUPESTRES DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO

Apresentação

Não são muitos aqueles que, entre nós, se dedicam ao estudo dos testemunhos que, por comodidade, denominamos arte pré-histórica, apesar dos existentes no território actualmente nacional não só serem bem numerosos como mostrarem variados acervos iconográficos e cronologias.
Os poucos textos disponíveis sobre tal matéria devem-se, sobretudo, a arqueólogos, encontrando-se alheados dessa importante informação, capaz de melhor definir a nossa condição de humanos, como criadores e manipuladores de símbolos que quaisquer conjuntos de artefactos ou de acções planeadas, tanto antropólogos, como historiadores da arte, sociólogos, semiólogos e muitos outros cientistas sociais. A falta dos contributos destes enforma lacuna na dialéctica conducente à construção de modelos interpretativos, não apenas no que se consideram ser as vertentes de análise mais comuns do passado humano, como a economia, a organização social ou os estádios tecnológicos, mas principalmente no campo ideológico e, mais abrangente, da vida cognitiva. E é nesta área que residem não poucas das bases que estruturam o pensamento actual, onde para além de nos constituirmos como herdeiros físicos, de longínquos antepassados de cuja humanidade até há pouco se duvidava, em nós ecoam velhíssimas construções cosmogónicas e mitemas, cujo impacto fez atravessarem sucessivas gerações.
Pinturas, gravuras ou relevos, pré e proto-históricos, oferecem-nos iconografias de mundos conceptuais, cujo significado importa tentar conhecer, pois mesmo quando indecifrados, em termos funcionais e de significados, não deixam de nos atrair, conforme acontece com todos os enigmas, ou de nos proporem questões capazes de estimularem as nossas capacidades intelectuais, como de nos despertarem os sentidos e as emoções.
Foi sobretudo o amor da autora à Terra Transmontana, prenhe de força telúrica, que a conduziu a optar pelos riscos de, em exercício académico, abordar o estudo da actividade humana pretérita através de três abrigos conservando pinturas pré-históricas. Pala Pinta, Penas Róias e Cachão da Rapa, são os mais antigos abrigos pintados identificados em Trás-os-Montes e o último daqueles não haveria de passar desapercebido ainda nos inícios do século XVIII, altura em que se publicou imagem das suas iconografias. Eles mostram registos pictóricos distintos, talvez com objectivos, idades e, até, contextos culturais algo diferentes, mas que a autora da presença obra estuda, partindo da perspectiva do “estado da arte”, não deixando de recorrer a metodologia rigorosa e a abordagens que passam pela Arqueologia da Paisagem, entendida como construção social, a par da valorização narrativa dos signos e das conceptualizações que estes sugerem evidenciar. Pela primeira vez se faz, de modo sistemático, a inventariação do reportório iconográfico dos três abrigos e o registo monográfico dos espólios encontrados junto àqueles, daí se retirando as conclusões possíveis. Trata-se de leitura, onde a informação empírica, proporcionada pelos testemunhos arqueológicos, se perspectiva segundo os conceitos teóricos da Arqueologia, mas que também recorre é Etnografia, para dar “carne e sangue” àqueles, como em tempos escreveu o antropólogo E. Leach (1973, p. 761).
Como qualquer obra, e apesar dos méritos que o leitor facilmente reconhecerá nesta que se apresenta, ela tem, afinal, também a virtude de ser aberta.

Mário Varela Gomes (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa).

Leach, E., 1973, Concluding adress, The Explanation of Culture Change. Models in Prehistory, pp. 761-771, University of Pittsburgh Press, Pittsburgh.


26 maio 2014

O PATO CATITA E A PATA DENGOSA (Lengalenga em jeito de fábula),por M. Hercília Agarez


Nota prévia: foi este texto encontrado, manuscrito a lápis e sem data, em selecção de papéis antigos de destino duvidoso. Surpreendeu-me ao ponto de duvidar ser eu a sua autora. Onde isso já vai…Resolvi salvá-lo do caixote do lixo e dar-lhe a oportunidade de se exibir, embora ciente da sua simplicidade. Ele é o exemplo de uma tendência antiga para versos rimados a que não ouso chamar poesia. Isso é caso muito mais sério!

Vivia o pato Catita
Numa quinta bem bonita
E cheia de bicharada.
Eram frangas, pintainhos,
Galos, pintos, peruzinhos,
Gansos e uma pintada.

Com todos se entendia,
Com alguns se divertia,
Não sabendo o que eram mágoas.
Como era um tanto vaidoso
Exibia-se, garboso,
A nadar nas mansas águas.

Ao ver a senhora Zinha
Com a faca da cozinha
Bem agarrada na mão,
Ouviu um grande alvoroço:
De quem seria o pescoço
Cortado para a refeição?

De quem foi chegada a vez?
Do perú ou da pedrez,
Do frango ou da pintada?
Fosse este ou fosse aquele
Nada tinha a ver com ele,
Disse, dando uma risada.

Quando lhe chegou a idade
A que chamam puberdade
Quando se trata de gente,
Pôs-se a catrapiscar
Uma pata de encantar
Com plumagem reluzente.

Chamava-se ela Dengosa,
Era bela, apetitosa,
Mas um tanto levantada.
 Dava trela a todo o pato,
Sem decoro nem recato,
Por ser tão galanteada.

O Catita, ciumento,
Fez porém um juramento
Perante a pata amada:
Por ela esperaria,
Por ela tudo faria
Sua alma apaixonada.

Foi chegado, enfim, o dia
Em que, com muita alegria,
Ela aceitou o pedido.
Fez-se então o casamento
Com todo o espavento
Por ambos bem merecido.

Mas tanto amor e ternura
Foram sol de pouca dura
Como vos vou revelar.
Quis o destino cruel
Pôr fim à lua-de-mel
Que mal estava a começar.

Chegou um dia a criada
Com receita aconselhada
Pela cozinheira Rita.
A patroa, curiosa,
Quis ver se era gostosa
E foi atrás do Catita.

Foi direita aos “pombinhos”,
Derretidos, aos beijinhos,
E o pescoço lhe cortou.
Dele se fez uma arrozada
Que deixou deliciada
A gente que a larpou.*

E desta forma maldita
Foi castigado o Catita
Diante da companheira.
Riu-se dos pobres coitados
Antes dele sacrificados
Morreu da mesma maneira.

Para fábula isto ser
Necessário é conter
Uma lição de moral:
- Não sejas nunca escarninho
Da desgraça do vizinho
Se não queres pagar por tal.

*comeu


M. Hercília Agarez

23 maio 2014

EM BUSCA DO SER,novo livro de António Sá Gué

Prefácio

Como se de uma oração se tratasse

Este texto – Em Busca do Ser – afigura-se como um momento de atenção, uma espécie de oração num mundo cada vez mais inquieto e rumoroso. Tal como uma oração, este é um texto que pretende levar o leitor de um pensamento a outro, do ruído ao silêncio interior; tal como numa oração, assiste-se a um diálogo: um “eu” conversa com um “tu” (aqui, 3 vozes distintas), com o objectivo de compreender mistério da vida.
A sua estrutura híbrida – alternam textos em prosa e em verso – ilustra e reforça a ideia de movimento que percorre toda a obra. O movimento aqui é o do pensamento. A linguagem – simples, pautada aqui e além pela sobriedade da erudição – intensifica o conteúdo e clarifica a forma: perante a fragmentação, busca-se a totalidade. Os poemas, síntese e essência de todo o texto, sublinham os tópicos centrais – a demanda de sentido, a luta com as palavras e com as trevas, o desejo de infinito –, ilustrando, como se disse, a linha dorsal de toda a obra: a deslocação do pensamento, da imaginação e do entendimento.
A viagem inscrita nesta obra de António Sá Gué não se realiza através da geografia; antes, é uma viagem toda ela feita de visitação ao interior do ser, aos cantos mais recônditos da alma de um sujeito que clama pela luz.
Poucas são as indicações geográficas – apenas se fala de uma ponte e do sentido de a atravessar, sabendo-se que do outro lado existem “as terras da liberdade”. Mas a passagem oferece-se, como refere o sujeito, apenas como “possibilidade de fuga ao absurdo de mim” (22). Sempre, esta é uma viagem que resulta num ponto centrípto, é sempre um “caminhar para dentro” (34), uma “descida ao centro de si” (17).
O movimento descendente é importante, pois ele desenha a catábase ao mundo subterrâneo, ao inferno que o próprio indíviduo alimenta em si mesmo. Por vezes, a este processo chama-se loucura, outras vezes, um movimento que descreve a busca da leveza numa paisagem caracterizada pela tristeza. Essa via descendente pode também configurar a busca, no reino das sombras, da luz mais fulgurante, um modo de vida que alinhe “poeira e vento” (42), ou seja, as antíteses que o ser humano carrega nos ombros de uma existência sempre frágil e conturbada.
Este é um livro que não apresenta, por isso, um caminho fácil ou plano. É, antes, um caminho estreito e tortuoso que exprime a sede de infinito, a eterna busca da beleza, a união total que Fernando Pessoa refere em “A Chuva Oblíqua.” Mas que, tal como no poema pessoano, se torna inalcansável; pelo contrário, é algo fugidio, inacessível: “A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos.” Também em Em Busca do Ser se despenham em abismos insondáveis o sonho, a realidade, a idealidade.
Quando escolhemos pensar neste texto como uma oração, quisemos sublinhar a sua vertente espiritual, pois vemos nele um diálogo entre o humano e o divino, uma conversa com Algo que está fora do mundo, mas que representa a única via para a sobrevivência. Como um inquieto Job, o autor escolhe os caminhos da mitologia clássica para dar ao leitor ecos de uma inquietação metafísica. E assim, para a eterna sede e a fome sempre insatisfeita, António Sá Gué escolhe Tântalo, figura que espelha a dor de viver e o encontro repetidamente adiado entre o desejo e a realidade. Mesmo que o sujeito de Em Busca do Ser esteja na posse do fio de Ariadne – aquele que permite a Teseu encontrar a saída do labirinto – este não conhece as vitórias de Teseu. Antes, permanece Sísifo, ou seja, a imagem daquele que está condenado a viver com a consciência de que a procura de si mesmo é uma tarefa interminável.
Claro que na busca de si o narrador/poeta enuncia também a procura das palavras para falar de si e do seu diálogo com o mundo. E por isso se encontram no texto referentes literários e filosóficos que bordejam o caminho do ‘eu’ – Dante, Dostoiewski, Kafka e Jack Kerouac, Erasmo, Platão, Freud – nomes que lhe permitem revisitar a memória do mundo. Numa luta sempre constante pela busca de sentido – das palavras, da vida – o narrador não se quer sozinho e por isso procura companhia que sustente a sua viagem, que o ajude à compreensão do real. Embora fugidio, é a esse real que ele tem de se agarrar para regressar do reino das sombras. Sim, porque este sujeito “aprisionado pelo universo do verbo,” perdido e “pendurado no princípio do tempo” (11), quer “sair daquele poço”, quer “subir ao sol” (58). Tal como Prometeu, espera-se a libertação – aqui entendida como a compreensão da natureza das coisas, a “linguagem da origem do mundo” (109). Para isso, há que “caminhar descalço, tropeçar nas pedras, pisar a neve, mas caminhar sempre, mesmo que a alma já esteja desnuda e em carne viva” (16). Só assim se percebe a força das palavras de Dostoiewski escolhidas para epígrafe de Em Busca do Ser – o Homem é um mistério; só caminhando, só buscando, só insistindo com o mundo não se desiste do mundo.
Este parece-nos ser o mérito de António Sá Gué – não desisitir de se entender. Ao procurar-se a si é a todos que busca compreender; na medida em que não quer abdicar do mistério da sua alma, aprisionada em contrários insolúveis, persiste na luta com as trevas e com a linguagem, numa tentativa de “encontrar vida em si” (116), de encontrar vida em nós, seus companheiros de viagem.
“Já é tarde”, diz-se; mas também se escreve: “nunca é tarde” (128). Cabe-nos a nós, leitores, escolher a fórmula de salvação.

Isabel Alves


22 maio 2014

II Jornadas Culturais de Mogadouro: Trindade Coelho visto por...

14 de junho de 2014
Casa da Cultura de Mogadouro

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Biblioteca Municipal Trindade Coelho
R. Bombeiros Voluntários

5200-264 Mogadouro

14 maio 2014

L SEGUNDO LIBRO DE BERSOS,de Fonso Roixo

Fonso Roixo, poeta popular, a modos António Aleixo mirandés, mais sofesticado, que solo scribe an mirandés. Fonso Roixo, ye un de ls pseudónimos de Amadeu Ferreira. Para ls que tenían saludades de sues quadras ende se pónen alguas de l nuobo lhibrico que stá na frauga.

425.
Ciertos mundos nun se béien,
mas hai que star cun atento,
pus mui ralo l ser por fuora
mostra l que somos andrento.

L Praino Cun Sue Giente i Sue Bida

494.
[Praino]
Antre ocres i amarielhos
oulia l berde an sploson
de sequidade: ye l Praino
cula sede an ouracion.

495.
Largo camino onde lieba
se l azul tan loinje aceinha?
Na Prainada árden fogueiras
de silenço, até sien leinha!

496.
Tan largos son ls hourizontes
i quaije óndias ls cabeços,
que apledia l pensar sierras
i ls uolhos sónhan ampeços.

497.
Amarielho ye l restroilho,
amarielhas son penheiras:
nadas que esta tierra dá,
adubadas cun canseiras.

Fonte: https://www.facebook.com/antonio.cangueiro?fref=ts

09 maio 2014

Mirandês: Unidade ou Divisão, por Amadeu Ferreira



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06 maio 2014

OLHAR A ÁGUA, MEDIR A ALMA: CONSIDERAÇÕES EM REDOR DA ESCRITA SOBRE A NATUREZA[1],por ISABEL ALVES

À memória de Zé Nascimento, que partiu inesperadamente e sem que
tivéssemos conversado acerca deste assunto.

Na tradição anglo-saxónica, a escrita sobre a natureza realiza-se a partir de uma reflexão que o autor faz sobre o homem e sobre a linguagem, traduzindo em palavras o mundo natural que o rodeia, conferindo-lhe uma ordem e um sentido. Nesse sentido, a escrita sobre a natureza é um espaço literário onde se cruzam apontamentos sobre história natural e enunciados de cariz subjectivo.
O que aqui designamos por escrita sobre a natureza é, no domínio da crítica literária, passível de se encontrar sob outras designações; assim, a representação das relações entre o homem e o mundo natural constituem o âmago de textos cuja denominação pode surgir também como ‘estudos sobre a paisagem’, ‘natureza na literatura’, ‘pastoralismo’, ‘regionalismo’, ‘ecologia humana’. Os estudos que aliam ecologia e literatura só na década de noventa recebem um estatuto de escola crítica, surgindo então um novo território de crítica literária: a ecocrítica. Este tipo de análise literária privilegia não apenas a atitude do autor para com a natureza, mas ilumina o padrão de inter-relações entre o homem e o mundo não humano, postulando a ideia de que viver melhor passa também pelo modo como se olha o mundo natural e nele se habita.
 Se na tradição inglesa as primeiras obras se reportam aos séculos XVII e XVIII[2], é no século dezanove, sob a influência da estética romântica, que o amadurecimento deste tipo de escrita acontece. William Wordsworth (1770-1850), o poeta inglês para quem os fenómenos naturais eram dignos de figurar nos seus versos, influencia definitivamente o Romantismo, um movimento cultural, filosófico e literário que enaltece o contacto do ser humano com a natureza. Acrescentando que a natureza pode dar forma, beleza e paz ao nosso espírito mais íntimo e elevar alto os nossos pensamentos, este poeta acredita também que os sentimentos dos homens são passíveis de serem tornados mais sãos e puros através de um contato mais directo e intenso com a natureza. Claramente, Wordsworth educou o olhar humano, ensinando-o a olhar intensa e profundamente o mundo natural. Para além do exposto, acrescente-se que o século dezanove foi riquíssimo no que ao desenvolvimento da história natural diz respeito. Veja-se, por exemplo, o dinamismo da biologia e da geologia decorrentes da exploração de Alexander von Humboldt à América do Sul (1799-1804) e da publicação de A Origem das Espécies (1851) de Charles Darwin.
Na América, a tradição da escrita sobre a natureza está associada à curiosidade e ao interesse de naturalistas que, viajando pelos vastos e desconhecidos terrritórios, produziam mapas e faziam inventários das muitas e novas espécies do Novo Mundo[3]. Assim, neste país, o embrião da escrita sobre a natureza encontra-se, por um lado, ligado ao desejo de narrar uma realidade completamente nova e, por outro, à procura de palavras e perspectivas que efectivamente traduzissem essa nova circunstância do homem no Novo Mundo. Consequentemente, a natureza e a forma – paradoxal – como tem sido lida e interpretada constitui um elemento essencial da matriz cultural e literária norte-americana. Embora o século dezanove tivesse tido nomes de incontestável importância neste domínio, e refiram-se apenas os de Ralph Waldo Emerson (1803-1882) e Henry David Thoreau (1817-1862), a definição de escrita sobre a natureza não deixa de causar estranheza,como se depreende das palavras de James Fenimore Cooper que, ao elogiar a obra Rural Hours, publicada em 1850 pela sua filha, Susan Fenimore Cooper, não deixa de confessar que o mundo não saberá o que fazer com um livro como aquele: estruturado segundo o ciclo das estações do ano, e que se desenrola em redor de um olhar pessoal e feminino acerca da vida rural de Cooperstown, Nova Iorque. Porém, nos dias de hoje, a obra de Susan Fenimore Cooper é vista como um exemplo de ética ambiental, pois tem como central a ideia de que os americanos se tornam mais virtuosos se mantiverem uma relação estreita com o ambiente natural que os rodeia, exortando-os a olharem com atenção o mundo para além da porta: “um prado é um delicado bordado de cores que deve ser examinado atentamente a fim de compreender todo o seu valor; e quanto mais de perto, melhor”[4].
A relação particularmente intensa entre a escrita sobre a natureza e a América deve-se ao facto de esta ser uma nação cuja mitologia proclama a perpetuação da ideia da América--como-natureza e, consequentemente, um espaço de contínua reinvenção e renascimento. Aquando da chegada dos europeus à América, e graças à forma de vida equilibrada das tribos nativas, estes poderam usufruir, à luz matinal daquele novo continente, de visões primevas, “frente a frente, pela derradeira vez na história, com algo comensurável com a sua capacidade de assombro” (Fitzgerald, 177). Procurando-se narrar o que nunca tinha sido colocado em palavras – a paisagem americana ‒, os autores de uma escrita sobre a natureza criam um espaço literário híbrido, procurando palavras e perspectivas que efetivamente traduzissem essa nova circunstância do homem europeu no Novo Mundo.

A diversidade e o movimento estão na base deste género literário, e são estas as características que o tornam um género congenial ao modo de ser americano. A fim de olhar atentamente o fenómeno da natureza e assim caminhar no sentido de um maior conhecimento do eu, os autores que se dedicam à escrita sobre a natureza privilegiam o peripatetismo: na base das considerações que fazem sobre a natureza estão as caminhadas em redor de paisagens, lugares que definem como sendo de movimento, e que estão na base de associações imaginativas e processos alquímicos de transformação. Esses passeios decorrem maioritariamente em locais que o autor conhece bem, o que significa que atentar no meio natural é também celebrar o lugar e reconhecer o seu efeito sobre a existência humana. É também uma aprendizagem da humildade. Neste sentido, podemos afirmar que a escrita sobre natureza intensifica a curiosidade humana sobre o particular, dando a conhecer o que de surpreendente nos reserva um olhar atento sobre o que de antemão consideramos apenas próximo e familiar. A escrita sobre a natureza é um género cujos textos se caracterizam por uma estrutura narrativa aberta, valorizando-se sobretudo a vitalidade, o movimento e a imaginação, aspectos fulcrais uma vez que estes se encontram em sintonia com o facto de nesses textos se cultivar a ideia da interdependência ‒ dos organismos vivos com a vida humana.
Pilgrim at Tinter Creek, obra que em 1974 deu a Annie Dillard o Pulitzer, gira em torno da metáfora da visão: percorrendo a natureza circundante, e prestando atenção aos fenómenos que a constituem, Dillard quer ver o que de outro modo lhe passaria despercebido: “Saí; vejo qualquer coisa, um qualquer acontecimento que de outro modo se teria escapado, perdido completamente. Ou qualquer coisa me vê, um enorme poder varre-me com a sua asa perfeita, ressoando como um sino” (Dillard, 5)[5]. A natureza apresenta-se como um território de descoberta pessoal e ver significa apreender melhor um eu interior. Dillard, à semelhança de Henry David Thoreau, deseja escrever um diário meteorológico da mente: interligar as histórias e visões que nascem da observação dos vales, cursos de água e montanhas de Blue Ridge, Virginia, com o território desconhecido da mente humana. O olhar de Dillard fortalece a perspectiva de que escrever sobre a natureza é, tal como o indica a água sempre em movimento do ribeiro – Tinter creek –, tentar apreender o que se mostra inapreensível; o mundo oferece-se em constante mutação. Contrariamente a uma montanha, representante do mistério antigo e passivo, o ribeiro representa o mistério da criação contínua, o seu curso de água plasmando a incerteza, o terror das formas fixas, a dissolução do presente, a complexidade da beleza, a força da fecundidade, a ilusão das formas livres, a natureza nem sempre perfeita da perfeição (Dillard, 3).
Antes de Dillard, Emerson e Thoreau já haviam chamado à atenção para o património natural americano, esse que haveria de se constituir em voz singular da América. No texto fundacional, “Nature” (1836), diz Emerson: “Por que motivo não haveremos nós de desfrutar, também, de uma relação directa com a Natureza?” (Emerson, 13-14). Henry David Thoreau, por seu lado, experimentou, de forma direta, a natureza americana. É em redor de Concord, Massachusetts, que observa minuciosamente a natureza – identifica árvores, flores e gramíneas, anota o regresso das aves na primavera, mede o nível das águas dos rios, os anéis das árvores e o tamanho das sementes. Vivendo embora no século dezanove, ele é um precursor do moderno discurso ambientalista, pois reivindica a necessidade de conservar a natureza como um domínio de vitalidade e de diversidade. Balizado por um saber científico, Thoreau, no entanto, não descura a imaginação e dedica o seu tempo a observar e estudar a paisagem à sua volta. Partindo do particular, deseja alcançar os ritmos e os padrões universais, tendo sempre à mão uma linguagem poética: confessa ter grande fé numa semente; perante uma semente, prepara-se para esperar maravilhas.
[...]

In: A Terra de Duas Línguas II – Antologia de Autores Transmontanos




[1] Esta é uma versão atualizada do texto apresentado no “Congresso de Homenagem ao Douro/Duero e seus rios: memória, cultura e porvir”, Zamora, Abril 2006.

[2] Finch e Elder assinalam as obras de John Ray, The Wisdom of God Manifested in the Works of Creation (1691) e de Gilbert White A Natural History of Selborne (1789) como sendo aquelas que inauguram uma tradição de teologia natural: a natureza é um território onde a presença divina se faz sentir. Esta mesma tradição encontrará solo fértil também do outro lado do Atlântico.

[3] Sempre que no texto referimos “América”, “americanos” ou “Novo Mundo”, temos em mente o território e o povo dos Estados Unidos da América.

[4] No original: “a meadow is a delicate embroidery in colors, which you must examine closely to understand all its merits; the nearer you are, the better” (Cooper, 1998: 76). Nossa tradução.

[5] "I walk out; I see something, some event that would otherwise have been utterly missed or lost; or something sees me, some enormous power brushes me with its clean wing, and I resound like a beaten bell". Nossa tradução.

23 abril 2014

Ainda os lugares, por António Sá Gué


 De facto, nestas terras, não existem grandes monumentos de invejável beleza e de admirável grandeza, como existem noutras regiões, nacionais ou estrangeiras. É como se não existissem factos históricos a comemorar, como se a alma humana, por pequenez ou abandono, não sentisse essa necessidade de deixar marcas aos vindouros. Tenho as minhas explicações, corretas ou não, pouco interessa. Aquilo que posso afirmar, com clareza, é que a alma do povo é grande, isso eu sei, apesar de nunca a ter medido, mas conheço-a como a palma da minha mão, é de lá que venho. Estas coisas sabem-se, sentem-se mas não são mensuráveis.
Eu sinto essa grandeza perante uma pequena ermida, uma capela, uma grande pedra. Sinto a grandeza do tempo que passou por ela, sinto a grandeza do esforço de quem a construiu, de quem a içou na roldana, o suor de quem a moldou, de quem se encostou a ela. Gosto de pensar que nos caminhos vivem as almas de quem os calcorreou milhentas vezes, e de olhar para as marcas da erosão como as marcas dessas almas. Gosto de pensar que a pedra quadrada da parede de uma pequena igreja adquiriu o sentir do pedreiro que a talhou. Gosto de pensar que os locais e as coisas adquirem o espírito do tempo. Gosto de olhar para elas e tentar captar esse mesmo espírito que acredito encerrarem.
Nesta minha ingenuidade, acabo por falar de uma capela como se fosse a maior obra de arte, acabo por falar das coisas com uma paixão e um sentimento que não correspondem às constatações objetivas. Gosto de falar delas com a importância que tiveram, para quem as construiu, mas que em boa verdade não passam de meras paredes erguidas, a quem o tempo geológico não perdoará.
.
António Sá Gué

In: Quadros da Transmontaneidade


BRAGANÇA - Dia Mundial do Livro


22 abril 2014

CONVITE

 Convite para a apresentação do romance Espada de Santa Maria, editado pela Chiado Editora do autor César Alexandre Afonso. A apresentação terá lugar em Vinhais no centro Cultural Solar dos Condes dia 16 de Maio pelas 17h30, pelo Escritor Francisco Moita Flores, aquando da abertura da Feira do Livro de Vinhais.

Provérbios - Três por dia


1 - Cá e lá rabos de palha há.
2 - Cá na Terra, tudo se faz e tudo se paga.
3 - Cá se faz(em), cá se paga(m).

21 abril 2014

Consuelo, o amor proibido - CONVITE

Nota do editor

A raia foi muito mais que um espaço geográfico. A raia foi um microcosmo, um espaço multicultural, económico e comunitário, um espaço de partilhas que os seus habitantes sempre souberam conciliar, às vezes ignorando a lei, lei essa muitas vezes ao serviço de outros interesses e não os dessa comunidade.
A raia, como se percebe, é o pano de fundo de grande parte dos contos que o autor nos oferece. Essas vivências transfronteiriças surgem-nos num período conturbado da nossa história, num período em que a guerra civil grassava em Portugal e onde, mais uma vez, os ideais eram comuns em ambos os lados da fronteira.
Perante esta realidade histórica, que é um facto, somos obrigados a questionar-nos sobre a física fragilidade da mesma e, quem sabe, a elevar o nosso pensamento para este nosso tempo, este início do século XXI, muito próprio, muito global, mas simultaneamente egocentrista.
Consuelo, o amor proibido, não é uma obra de mera ficção. Estas bem urdidas narrativas de Bernardino Henriques possuem uma dimensão humana que me leva a apostar na sua divulgação. Nelas, há a eterna luta entre a emoção e a razão, seja ela qual for, e que muitas vezes é o resultado de uma época histórica, de uma ética e moral vigentes, e não fruto do desenvolvimento e do progresso humano.
O ser humano é-nos apresentado frágil, cheio de contradições, e nem o estatuto profissional o consegue enobrecer. As emoções, sejam elas de celibatários ou não, acabam sempre por influenciar o nosso comportamento, às vezes extremo, e a questão põe-se mais uma vez: onde acaba a emoção e começa a razão, ou vice-versa?
O autor não nos dá nenhuma resposta, e nem é necessário. Isso é sempre algo que permanecerá na consciência de cada um de nós, e poderá ser sempre avaliado de diferentes perspectivas. Há uma relatividade em tudo o que é profundamente humano, esse relativismo é atávico, faz parte da sua natureza e permanecerá nele, em nós, ao longo da sua existência.

António Sá Gué 

20 abril 2014

Academia de Letras - PROGRAMA DE ABRIL NA RÁDIO BRIGANTIA - António Monteiro



Academia de Letras, PROGRAMA DE ABRIL na Rádio Brigantia- António Monteiro.

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PAISAGEM DA MEMÓRIA, por Amadeu Ferreira

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Provérbios - Três por dia


1 -É a falar que a gente se entende.
2 - É à força de irritar a Deus que se ensina a demolir o templo.
3 - É a intenção que faz a acção.

ESCRITORAS TRANSMONTANAS - Paula Salema



ESCRITORAS TRANSMONTANAS - Regina Gouveia



18 abril 2014

António Chaves,Barroso da Fonte (João),Bento da Cruz e José Dias Baptista

Resumo: Debruçando-se sobre o período subsequente à Implantação da República, a obra destaca o papel activo desempenhado pelo padre barrosão Domingos Pereira. A origem numa das últimas comunidades de camponeses livre, s da Europa, a formação religiosa e a actividade política de guerrilheiro em armas fazem desta figura «um curioso “estudo de caso”» e «um ponto de observação privilegiado» das contradições geradas no país na passagem do século XIX para o século XX.

Autores:

António Chaves
Nasceu em Negrões, concelho de Montalegre, em 1943.
Licenciou-se em Economia, em Lisboa, pelo ISEG e obteve o grau de Mestre em Economia Europeia pela ULB, Bruxelas. Foi bolseiro do Governo Belga, do Instituto para a Alta Cultura e da Fundação Calouste Gulbenkian para a especialização em Economia Europeia; professor do Ensino Superior e colaborador de grandes empresas de consultoria.
Correspondente da RTP em Bruxelas e do semanário O Jornal. Escreveu monografias e argumentos para cinema comoUm Natal em Barroso.
O livro A Última Estação do Império é o seu mais recente trabalho.

Barroso da Fonte (João)
Nasceu em Codeçoso, concelho de Montalegre, em 1939.
Frequentou o Seminário de Vila Real; licenciou-se em Filosofia e é Mestre em Cultura Portuguesa.
É autor de sete livros de poesia e de mais de três dezenas em prosa, entre os quais: Usos e Costumes de Barroso,Dicionário dos mais Ilustres Transmontanos e Alto Durienses e Afonso Henriques – Um Rei polémico.
Foi Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Guimarães e director do Paço dos Duques de Bragança. Dirigiu o semanário O Comércio de Guimarães, e A Voz de Guimarães, de que foi fundador. É director do jornal Poetas e Trovadores há cerca de 15 anos. Colaborador assíduo de várias publicações regionais e nacionais, ao longo de 60 anos de jornalismo.

Bento da Cruz
Nasceu em Peireses, concelho de Montalegre, em 22 de Fevereiro de 1925.
Frequentou a Escola Claustral de Singeverga e prosseguiu os estudos, licenciando-se em Medicina na Universidade de Coimbra.
Regressou a Montalegre, onde exerceu clínica geral e estomatologia.
Foi deputado à Assembleia da República.
É o patrono da Escola Secundária Dr. Bento da Cruz, em Montalegre.
Publicou cerca de duas dezenas de obras literárias, com destaque para Planalto de GostofrioO Lobo GuerrilheiroA Loba e A Fárria, elogiadas pela crítica e distinguidas com prémios literários nacionais e internacionais de referência, nomeadamente, Prémio Literário Diário de Notícias e Prémio Eixo Atlântico de Narrativa Galega e Portuguesa.
Fundou em 1974 o jornal Correio do Planalto, de que é director.

José Dias Baptista
Nasceu em Vila da Ponte, concelho de Montalegre, em 24 de Julho de 1941.
Frequentou o Seminário de Vila Real e o Curso do Magistério Primário, que complementou mais tarde com a licenciatura.
Pertenceu ao Quadro Técnico Superior como Inspector do Ensino.
Investigador da história local de Barroso com trabalhos científicos publicados, nomeadamente, na Revista Aquae Flaviae, de que foi co-fundador.
É autor de várias obras de poesia, de divulgação e de investigação histórica, entre as quais O País Barrosão eMonografia de Montalegre.


NOTA PRÉVIA

O ano de 2012 associa duas ocorrências com impacto em Barroso. Constituem parte integrante do que ficou conhecido na história por Incursões Monárquicas no Norte de Portugal. Tiveram repercussão relevante em Vinhais, Chaves, Valença do Minho, Cabeceiras de Basto, Fafe, Porto e, de um modo mais geral, em todo o país.

HISTÓRIAS QUE AS PALAVRAS CONTAM, por Amadeu Ferreira

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ESCRITORAS TRANSMONTANAS - por Virgínia do Carmo