13 abril 2014

Mil Novecentos e Setenta e Cinco, por Tiago Patrício


Tiago Patrício  nasceu no Funchal em 1979  e foi viver para Carviçais com apenas 9 meses. Estudou na telescola, andou em carroças, conduziu carros sem carta, fez corridas de motorizada sem capacete e aos 19 anos ingressou na Escola Naval. Regressou à  vida clvil para estudar na Facilidade de Farmácia e em 2007 começou a trabalhar como farmacêutico. No mesmo ano venceu o premio Jovens Escritores e foi seleccionado pelo Clube Português de Artes e ideias para uma residência em Praga.  Escreveu a peça Checoslovóquia e o livro Cartas de Praga, apresentado em Skopje em 2009. Depois disso nunca mais conseguiu largar os livros nem o teatro.
Venceu os prémios Daniel Faria e Natércia Freire em poesia e o Prémio Agustina Bessa-Luís em 2011 com o seu romance Trás-os-Montes.
Participou em algumas residências literárias: Turquia, Tunisia, EUA, Repúblicas Bálticas e alguns dos seus textos foram publicados no Egipto, Eslovénia, Espanha e República Checa.

Mantém o blog

http://cartasdepraga.wordpress.com

BARROSO DA FONTE: 60 ANOS DE JORNALISMO DE CAUSAS E CASOS



















Academia de Letras homenageou Barroso da Fonte
(Reproduzimos o texto do nosso sócio António Chaves)

A Academia de Letras de Trás-os-Montes reuniu na sua sede, em Bragança, dia 23 de Março e, após a sessão da Assembleia Geral, decorreu uma segunda sessão presidida pelo Doutor Ernesto Rodrigues, ladeado pelo representante da Câmara, Vereador Engº Hernâni Silva e pelo homenageado que, em 24 de Janeiro, completou 60 anos de Jornalismo. O autor desta nota foi encarregado de falar do seu conterrâneo e amigo desde que se conheceram no serviço militar obrigatório. Aí disse: encontrei pela primeira vez o Barroso da Fonte na Estação de S. Bento, no Porto, quando esperávamos o comboio da noite para seguirmos para Mafra, onde íamos iniciar a vida militar. Tinha ele 24 anos de idade e eu 20. Nessa noite estipulámos que a condição de Barrosão e transmontano se iria impor acima de qualquer outro considerando, o que nem sempre se revelou fácil, pois vínhamos de mundos muito diferentes, com referenciais de vida e de pensamento, por vezes antagónicos. Tivemos muitas e vivas discussões, mas nunca perdemos a referência maior da noção territorial de criação. Convivemos estreitamente, dentro e fora do quartel ao longo dos sete meses de instrução militar, tempo estabelecido para aquela incorporação de Janeiro de 1964. Nos intervalos dos exercícios de instrução enquanto nós descansávamos um pouco, o homem de Codeçoso ia sentar-se sozinho a rabiscar uma crónica ou a dedicar um poema a um palminho de cara com quem cruzara o olhar, na tarde anterior. Cheguei a considerar excessiva e incompreensível aquela ânsia de aproximação ao sexo oposto. Só muito depois entendi essa perspectiva quando verifiquei melhor o que era viver fechado como animal no curral, a sonhar com sorrisos e ternura feminina e saber que nem um breve engano podia ter, como referia Camões. Pela mesma razão, já enquanto trabalhou nos Pisões, na construção da Barragem, vinha sempre que podia com outro amigo à paragem das camionetas para ver as moças que chegavam ou partiam e as que continuavam viagem.
A actividade como jornalista e poeta constitui para Barroso da Fonte um bálsamo refrescante de vida, o ar que respira, em liberalidade só igualada pela prodigalidade que confere sentido ao valor absoluto da amizade, à entrega ao próximo, à defesa do mais frágil, do mais desprotegido. Disso não fala ele tanto, e faz muito bem. Só quem o conhece de perto adquire a preciosa noção da ternura e do desvelo que comporta cada seu gesto. Creio que sempre cultivou a arte como uma forma de transcendência, de ultrapassagem das pesadas agruras da existência, mesmo sem ter, por vezes, plena consciência disso. O nosso trajecto de amizade conta já perto de meio século, apoiado num apreço sem desfalecimento, numa disponibilidade total quando requerida, numa convivência sã e fraterna. Estivemos sempre presentes nos momentos importantes da vida de cada um. Quando há poucos anos me pediram um breve testemunho sobre Barroso da Fonte, escrevi o seguinte:
O livro agora distribuído, da autoria do Coronel Dias Vieira e de João Pedro Miranda constitui um trabalho meritório e bem concebido que merece ser lido, conhecido e apreciado. Fornece uma panorâmica mais alargada e completa do que foi a vida de Barroso da Fonte, como homem, historiador e jornalista.
Quero por fim expressar à Academia de Letras de Trás-os-Montes e aos seus principais mentores o meu obrigado pelo convite para participar neste gesto de elevado significado, revelador de que a Academia não é indiferente aos momentos importantes da vida dos seus associados, demonstração de que os transmontanos e em particular os seus homens de letras continuam sábios guardiões do património de gratidão legado pelos seus maiores, mantendo aceso o farol dessa identidade preciosa que resiste contra ventos e marés, perante a voracidade hegemónica e aniquiladora da diversidade do que é específico, autêntico e de direito próprio.
O Coronel Dias Vieira, co-autor do livro ali apresentado também usou da palavra para enaltecer as qualidades do seu conterrâneo e amigo e também para explicar as pesquisas que fez através da colecção do Semanário A Voz de Trás-os-Montes para escrever os primeiros anos de jornalismo deste que volvidos 60 anos ainda continua a colaborar no Jornal-Escola.

Por António Carneiro Chaves

Fonte: http://nordestecomcarinho.blogspot.pt/2013/04/academia-de-letras-homenageou-barroso.html

12 abril 2014

Provérbios - Três por dia



1 - A abóbada celeste é orbita sem fim.
2 - A abóbora e o nado ao fim de três dias, enganaram o diabo.
3 - A abundância, como a necessidade, arruína muitos.

Domus Brigantiae,por José Mário Leite

Não é facil ler o Ernesto José Rodrigues! O narrador é um camaleão metamorfótico que vai variando ao longo da trama que desafia constantemente o leitor a rever, a reler, a focar-se e interrogar-se sobre o fio da história que o autor nos conta. É assim no Romance do Gramático. É difícil mas igualmente desafiante.
Contudo, esta dificuldade e desafio transformam-se em prazer e fascínio na sua obra mais recente: A Casa de Bragança. Porque esta, ao contrário daquela, não é uma historia que se acompanha e segue atentamente, antes  é  um conjunto harmonioso de histórias que nos procuram, que nos agarram, que nos envolvem. Leio o Ernesto de forma sequencial mas adivinho-me a relê-lo de forma arbitrária saltando de capitulo em capítulo certo que a mensagem não se adultera, antes se confirma e tomará, quiçá novas formas, novas mensagens, novas sensações. A metamorfose aqui é das circunstancias e não do narrador que “apenas” lhe vai dando (mesmo que com sujeitos diferentes) o fio que as une e que as conduz. Sendo relatores de todas as peripécias brigantinas, os vários sujeitos que nos falam, apagam-se por trás dos fascinantes episódios e são estes que nos prendem a atenção. Aqueles subentendem-se com naturalidade independentemente da sua verdadeira identidade!  
 Não me achando competente para o classificar, não me arrisco muito garantindo que, contrariamente ao que de início esperava, a Casa de Bragança não é  um romance! Apesar da ficção que o autor brilhantemente verteu na obra, há um trabalho intenso e exaustivo de pesquisa histórica e bibliográfica que lhe conferem rigor fatual mas não o transformam num documentário sobre a urbe nordestina. Também não é a defesa de uma tese que existe de facto e que é brilhantemente exposta e sustentada. Vai mais longe que isso.
Para classificar a obra haverá gente bem melhor apetrechada e documentada que eu. Do que eu quero falar é das sensações que o livro me desperta… admitindo desde já a minha incapacidade de me distanciar, do local, do tempo e do autor.
 Leio o Ernesto e retrocedo, na companhia do escritor, quarenta anos para a Bragança misteriosa e sedutora da nossa juventude. De uma forma estranha. Familiarmente estranha! Fascinantemente estranha. Porque a viagem que este velho amigo me proporciona não é de um simples recordar de tempos idos. Não é a revisita de gente conhecida. Muito menos e muito especialmente não é uma viagem na memória a lugares familiares. Os lugares estão lá. Reconheço-os. Mas não da forma como os vi, nessa data, nem tão pouco como os vejo agora sempre que regresso. Estão lá sim, mas agora escancarados. Estão lá com todas as histórias que nessa altura já adivinhava, todas as fantasias que me prometiam, mas que, igualmente, escondiam. O Ernesto mostra-as abrindo as cortinas mágicas e todos os sonhos de infância, toda a mitologia fantástica, ganha vida e é real, é histórica e veste a paisagem com todo o peso humano que incognitamente carregavam. As pedras da calçada, os muros das igrejas, as ameias das muralhas, a silhueta dos pelourinhos já não estão sós mas fazem-se acompanhar de gente simples, de servos, de mercadores, de príncipes e condes, de soldados, padres, frades e senhores feudais, de rameiras, ladrões, malfeitores, assaltantes e pedintes!
 Leio o Ernesto e lembro-me de uma história fabulosa da minha infância: o conto do Touro Azul. De que não vou falar já, porque, por um lado, o espaço mo não permite mas também e, sobretudo, porque o tempo o não consente. Falar agora do Touro Azul seria tirar-lhe o sentido que sempre teve. Fica a promessa de lhe dedicar uma próxima crónica. Confesso que, já várias vezes a ensaiei escrever nestas páginas mas que nunca fiz, e ainda bem, pois perderia o momento adequado que é este, depois de ler a fabulosa Casa de Bragança!
José Mário Leite


11 abril 2014

O que se falava na Terra de Miranda antes do domínio romano (3)


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À conversa com a escritora Isabel Mateus


À conversa com a escritora Isabel Mateus
também sobre a sua última obra “Farrusco, Um Cão de Gado Transmontano”
dia 19 de Abril, sábado, pelas 21h00
na Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisas do Douro, em Vila Real



Isabel Mateus marca encontro com os leitores no dia 19 de Abril, pelas 21h00, na livraria Traga-Mundos, em Vila Real, para falar um pouco de si e dar a conhecer melhor a sua obra. A autora vai revisitar os seus livros, dando destaque à novela “Farrusco – Um Cão de Gado Transmontano”.
Isabel Mateus nasceu em 1969 nas Quintas do Corisco, em Torre de Moncorvo. Obteve o grau de doutora em Literatura Portuguesa na Universidade de Birmingham, Reino Unido, onde reside desde 2001. 

Sendo autora de sete livros, Isabel Mateus é mais conhecida por abordar na sua obra temáticas que incidem sobre a ruralidade portuguesa e a diáspora. Assim, em 2011, o seu livro "O Trigo dos Pardais" (contos da infância rural) foi incluído no Plano Nacional de Leitura. Depois, em 2012, deu início à coleção “Portuguese Insights – Bilingual Text Collection” com o volume "Contos do Portugal Rural/Tales of Rural Portugal", que compreende uma seleção de histórias de Outros Contos da Montanha. Em 2013, participou nas antologias "Bestiário Trasmontano e Alto-Duriense" e "A Terra de Duas Línguas II" e publicou a novela "Farrusco, Um Cão de Gado Transmontano". 
O tema das migrações está bem presente nos livros "A Terra do Chiculate" (2011) e "A Terra da Rainha" (2013). No primeiro é abordada a emigração maioritariamente clandestina para França durante as décadas de 60/70 bem como as suas repercussões na actualidade enquanto que no segundo são retratados os velhos e os novos rostos da diáspora – aqueles que emigraram com pouca formação profissional e sem qualificações académicas e os diplomados.

Brevemente, a autora publicará em colaboração com a Universidade de Macau (Centro de Tradução do Departamento de Português) a versão bilingue Português-Chinês de "Contos do Portugal Rural".

Os livros estão disponíveis na livraria Traga-Mundos - livros e vinhos, coisas e loisas do Douro



Provérbios - Três por dia



1 - Zangado como um diabo que bebe água benta.
2 - Zangado como uma barata.
3 - Zangam-se as comadres. descobrem-se as verdades.

10 abril 2014

A CAÇA E A LITERATURA


Tiago Rodrigues- Três dedos abaixo do joelho...



Nota do editor :Tiago Rodrigues é filho do sócio fundador Rogério Rodrigues

Mirandês, nome de língua (01), por Amadeu Ferreira

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09 abril 2014

Um conto de Albertina Martins Larinato

– Senhor Laureano! Senhor Laureano!
Socos aflitos subiam as escaleiras.
Era domingo. Muito perto das dez horas, Avó Ana, "Dona Reverendona"; atravessava o adro da igreja levando pela mão os três filhos mais novos, para ir ocupar o seu lugar à frente, à esquerda do altar. Avô Laureano levava os dois mais velhos consigo para o coro, destinado aos homens, que ainda tinham como alternativa o exclusivo privilégio de se postar directamente frente ao Altar. Depois, sim, só depois vinham as mulheres. A explicação do costume pode ficar para mais tarde, se não nunca mais daqui saímos. Concordas, Camélia-da-Minha-Saudade?
Agora, sentados à mesa, preparavam-se para jantar. Oliviana enchia e distribuía as tijelas. Avó Ana colocava na mesa uma terrina a transbordar de arroz de carne com tomate, cenoura e feijão vermelho. O avô partia pão, distribuía o vinho por hierarquias (Zefa e os dois menores bebiam água; só a partir dos doze anos os rapazes tinham direito a meio copo de vinho ao meio-dia e estávamos conversados. O mesmo se passava com o primeiro par de calças compridas) e abençoava os filhos à medida que cada um esvaziava a sua malga.
– Entre, quem é!
Dois homens assomaram à entrada, resolutos.
– Então, que é que há?
– Senhor Laureano, venha com nós... Depressa! A senhora queira desculpar entrarmos assim, mas aconteceu uma grande desgraça...
– Mas o que foi?
– O homem da Ti Teodora deu duas navalhadas no da Ti Luisa...
– Ele pode lá ser, homem de Deus!
– Pode, sim, Senhor Laureano. As mulheres estavam a discutir... eles chegaram e vai daí... já foram chamar a Guarda.
– Não estou a entender nada...
– Elas estavam a insultar-se. Os homens vieram e meteram-se ao barulho... e agora o da Ti Luisa está para lá cheio de sangue. Venha daí, Senhor Laureano!
– Eu vou, eu vou, deixai estar... – Avô Laureano levantava-se, passava os olhos pela mesa, à procura de solução – Então tu não comes mais nada, menino?
– É que eu já comi o caldo todo e o pai não disse bonito – Tomé fazia beicinho.
– Bonito, bonito, meu filho, cresceste um palmo – O avô despachava a fórmula consagrada e descia as escaleiras à frente dos outros. Havia razão para aquela pressa e perplexidade. As duas famílias eram comadres, sabe Deus desde quando e havia, inclusive, casamentos entre os rebentos mais novos. Caso sério, como estás a ver, minha Maçã-Coradinha.
– Não sei o que possa fazer – refletia o avô em voz alta.
– Ele sempre lhe há-de lembrar alguma coisa, Senhor Laureano.
O avô entrou, primeiro, na casa da vítima, cuja mulher vociferava ameaças.
– Ah, visto! Atacar assim o meu homem! Onde já se viu!... Mas há-de ir preso, ora se não há-de.
– O que estás para aí a dizer, mulher? O que foi que aconteceu?
– O que aconteceu! O que aconteceu foi que ela me insultou, a mim e à minha filha... e pensou que o meu homem se ficava... Era o ficavas... Não queria ela mais nada! A Guarda não tarda aí e vai ver!
Avô Laureano já corria a casa de Ti Teodora.
– Já sabe o que se passou, Senhor Laureano? – perguntou, chorosa.
– Já, já! Como é que isso foi acontecer, mulher?
Olhe que nem sei, nem sei... Eu só estava a defender a minha Rosa... Ela atirou-se a mim e vai daí o meu homem chegou-se... Então, ele veio de lá...
Havia um bom pedaço de tempo que o avô se esforçava por coordenar os factos e identificar mentalmente cada “ela” e cada “ele”.
– Olha lá, tu não tens nada? Nem um arranhão, sequer? – perguntou ao navalhante, até ali sumido num canto.
– Nada, não senhor...
–Tens a certeza? Enfia-te na cama depressa!
– Para quê? Se já lhe disse que não tenho nada!
– Não discutas, faz o que te digo. Mete-te na cama.
– Mete-te na cama, homem, mete! Faz o que te diz o Senhor Laureano.
Obrigado, o homem enfiou-se entre as mantas, macambúzio.
– Geme, ouviste? Geme bem alto, quando ouvires a Guarda.
– Mas se já lhe disse que não tenho nada!... – era por respeito que o homem se não insurgia com mais eloquência.
–  Geme, homem, geme, que agora também já tens. Geme!
Avô Laureano acabava de rasgar eficientemente a orelha do desgraçado. (Aqui não se reproduzem palavrões, sossega, minha Rosa-Pêssego).
A Guarda veio. Se um fora navalhado no braço, ao outro fora rasgada uma orelha. Ninguém cuidou de saber dos palavrões nem das causas. O que saltava bem à vista eram as consequências. A Guarda abarcou tudo de imediato. No ardor da refrega, nenhum deles havia tido muita consciência do que fizera. Era só isso, nada mais!   
Ti Luisa tratou de avaliar bem a sangria do homem da outra. Vai-se a ver, a desfeita era pouco mais ou menos a mesma... As coisas acontecem, vá-se lá saber porquê. Trate você do seu homem que eu vou tratar do meu... Isto de homens, já se sabe como é.

As mulheres descartavam a sua e exclusiva responsabilidade. Satisfeitas uma e outra com a equidade do sangue derramado em sua defesa, retornaram à sua vida. Mulheres! Mulheres! É tudo o que me diz, senhor meu avô?
Albertina Martins Larinato

08 abril 2014

Provérbios - Três por dia


1 - Xaropar como tempo e curar com tento.
2 - Xaropar é querer curar.
3 - Xarope bem feito às vezes não surte efeito.

07 abril 2014

História Antiga da Região Duriense

“História do Douro e do Vinho do Porto – Volume 1 – História Antiga da Região Duriense” Carlos A. Brochado de Almeida (coord.)

Afinal, apesar do «vinho fino», do caminho de ferro, das barragens, que tanto o foram alterando em momentos diferentes, dos últimos séculos, o Douro é um grande desconhecido, nunca tendo sido alvo de um trabalho sistemático. Esta colecção pretende colmatar essa ausência. O primeiro volume centra-se sobre a Pré-História do Vale do Douro. De realçar que esta colecção é dirigida por uma vasta equipa de investigadores, centrada na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

06 abril 2014

MULHERES INSTRUIDAS/ ESCRITORAS,por Hercília Agarez

( A propósito de A Senhora Rattazzi de Camilo Castelo Branco)

“Guarda-te de homem que não fala, de mulher que faz versos e de cão que não ladra”.

    Em Carta de Guia de Casados, da autoria de D. Francisco Manuel de Melo, obra importante para o conhecimento da história social do nosso século XVII, deparamos com o conceito do escritor sobre a educação das mulheres e sobre o papel que lhe deve incumbir na sociedade. Resume-se este ao serviço doméstico como dona de casa, esposa e mãe: “Criou-as Deos fracas, sejam fracas; oxalá façam o que são obrigadas, não lhes quero pedir mais que a sua obrigação”.
    No que à sua educação diz respeito, tudo se resume à absoluta concordância do autor com a expressão popular “ Deus nos livre de mula que faz him e de mulher que sabe latim” que concretiza com o seguinte episódio: “ Confessava-se uma mulher honrada a um frade velho e rabugento; e como começasse a dizer em latim a confissão, perguntou-lhe o confessor: - ‘Sabeis Latim? ‘ Disse-lhe: - ‘Padre, criei-me em mosteiro’. Tornou-lhe a perguntar: - ‘Que estado tendes? ‘ Respondeu-lhe: -‘Casada’. A que tornou: - ‘Donde está vosso marido? ‘ – ‘Na Índia, meu padre’ (disse ela). Então com agudeza repetiu o velho: - ‘Tende mão, filha: sabeis latim, criastes-vos em mosteiro, tendes marido na Índia? Ora ide-vos embora, e vinde cá outro dia, que vos é força que tragais muito que dizer, e eu hoje estou com muita pressa”.
    Organizado em cartas como a obra anterior, surge, no século XVIII, época da vigência do Iluminismo, o livro do árcade Luís António Verney intitulado Verdadeiro Método de Estudar, considerado por António Sérgio “ a maior obra de pensamento que se escreveu em português”. Abrange ele matérias como a Linguística, a Oratória, a Poesia, a Filosofia, a Estilística e a Pedagogia. Com ele pretende Verney criticar a orientação escolástica dos estudos e orientá-los no sentido da utilidade que poderiam assumir, tanto no que dizia respeito à República como à Igreja.
    Na décima sexta carta, dedicada à educação das mulheres, defende-a convictamente, na certeza de que estas “discorrem tão bem como os homens”. Além disso, sendo elas as primeiras educadoras dos seus filhos, é de toda a conveniência que saibam o que dizem. Também como esposas a instrução lhes é útil, como explicita na seguinte passagem: “ Persuado-me que a maior parte dos homens casados que não fazem gosto de conversar com suas mulheres, e vão a outras partes procurar divertimentos pouco inocentes, é porque as acham tolas no trato; e é este o motivo que aumenta aquele desgosto que naturalmente se acha no contínuo trato de marido com mulher. Certo é que uma mulher de juízo exercitado saberá adoçar o ânimo agreste de um marido áspero e ignorante, ou saberá entreter melhor a disposição de ânimo de um marido erudito, do que outra que não tem estas qualidades”.
    Se, anteriormente ao século XX, a mulher instruída era vista como invasora de território reservado ao homem, o caso agravava-se quando ousava com ele competir no manejo da pena. A tal se atreveu, no século XVIII, a Marquesa de Alorna, considerada a Madame de Staël portuguesa e que nos legou as suas Obras Poéticas, em seis volumes, onde deixa transparecer características estéticas de uma sensibilidade romântica. Alexandre Herculano haverá de lhe ficar reconhecido pelo magistério que exerceu no seu famoso salão e cujo principal discípulo foi o poeta pré-romântico Filinto Elísio.
    Não fossem as circunstâncias conhecidas da vida de Ana Plácido, companheira de vida e de infortúnios de Camilo Castelo Branco, teria ela provavelmente ocupado um lugar de destaque nas letras da época. Colaboradora de jornais e revistas, cultivou a poesia e foi autora de dois romances, sendo o mais conhecido Luz Coada por Ferros que, como o título indicia, foi escrito nos dias que passou encarcerada com o escritor na Cadeia da Relação do Porto. Esta sua actividade literária terá sido estimulada pelo próprio novelista e tê-la-á feito abortar a falta de disponibilidade mental causada por múltiplos desgostos.
    Terá sido esta mulher, por razões sentimentais, uma excepção ao modo como o homem de Ceide encarava as mulheres escritoras. A ilustrá-lo, apoiemo-nos na polémica pessoal que o envolveu com uma princesa francesa, descendente dos Bonapartes pelo lado materno, mulher de complexa, aventurosa e faustosa existência, com um “currículo” donde sobressai o facto de ter sido amante de Victor Hugo. Dedicou-se ao jornalismo e à literatura e visitou vários países, entre os quais Portugal, onde fez “estragos” e gerou controvérsias. Aqui pretendeu impor-se como escritora, cultivando amizades nos meios sociais, políticos e artísticos, tendo sido famosas as recepções em que tudo fazia para insinuar-se e ganhar notoriedade a qualquer preço.
    Não terá conseguido os seus intentos. Despeitada, publicou o livro Portugal à vol d’oiseau, resultante das duas viagens que fez ao nosso país em 1876 e 1879, traduzido em 1881 com o título Portugal de relance. Nele faz a autora considerações críticas que atingem vários alvos: o clero (para ela representado pela figura do Padre Amaro de Eça), a história de Portugal, a política e seus destacados membros, o jornalismo, a vida íntima dos portugueses, a aristocracia, o sector hoteleiro (refere que os hotéis de Lisboa têm ratos e percevejos), a literatura em que são zurzidos, entre outros, Herculano, Castilho, Bulhão Pato, Júlio Dinis, Mendes Leal e…obviamente, Camilo.
    Quem conhece o carácter quezilento e irascível do escritor, a sua tendência a entrar, por tudo e por nada, numa boa polémica, compreenderá que lhe seria impossível não sair a terreno para defender a sua dama, neste caso a sua obra, encabeçando a legião dos esperados contestatários. Assim, publica em 1880 o folheto A Senhora Rattazzi em cujo preâmbulo, a reboque de D. Francisco Manuel de Melo (“ Mulheres doutoras, autoras e compositoras dava-as o diabo”) exprime a sua opinião sobre as mulheres escritoras. Estaria a pensar em Les Femmes Savantes de Molière?
   
    “ Mulher escritora, por via de regra pouco exceptuada, é um homem por dentro. O coração, que lhe devia ser urna de suavíssimas lágrimas, faz-se-lhe botija de tinta; e as doces penas da alma metalizam-se-lhe aguçadas em penas de aço. O fuso de Lucrécia e da rainha Berta desfez-se em canetas. Em vez de tecerem o seu bragal, urdem intrigas. (…)
    Não há feminilidades que se respeitem desde que a mulher se masculiniza, e, como escritora virago, salta as fronteiras do decoro, sofraldando as espumas das rendas até à altura da liga azul-ferrete.
    […] Eu, criado no velho noticiário, tendo de anunciar o produto duma dama dado à luz, antes quisera, em vez dum livro bom, anunciar um menino robusto. Acho muito mais simpática a feminilidade de mães pálidas, com olheiras, emaciadas, que aconchegam dos seios exuberantes a criancinha rosada, recém-nascida. Não me comove nem alvoroça o espectáculo de uma autora que se remira e envaidece na brochura que deu à luz, obra entre cinco e sete tostões – 740 réis com estampilha. Por isso, antes quero noticiar um menino robusto que um oitavo compacto”.
    No corpus do texto polémico, Camilo regista e contesta as várias barbaridades contidas numa publicação cujo título sugere a superficialidade das abordagens feitas. A terminá-lo, regista:
    “Vence-me o tédio; mas não me punge o remorso de ter lido 415 páginas. Tenho, porém vergonha de que um ou outro português, desnacionalizado por despeitos pessoais e políticos, se compraza de ver os seus conterrâneos enxovalhados pela srª Rattazzi, cuja maledicência é notoriamente europeia. O seu renome de estilista desbragada sem cerimónia ganhou-o em Itália e Paris a ponto de lhe imputarem as brochuras crapulosas do infame bandido Vésinier, um corcunda petroleiro que espingardearam em 71”.
    Que escreve a princesa escritora sobre Castelo Branco? Pouco mais do que isto: “ Todos os romances do solitário de S. Miguel de Ceide contêm infalivelmente um tipo de brasileiro, uma rapariga que se recolhe a um convento, um fidalgo de província e um romântico apaixonado e transparente. É invariável como a chuva e o bom tempo. De forma que o primeiro romance que se lê do Sr. Branco parece muito interessante, o segundo acorda reminiscências, e o terceiro adivinha-se; o quarto sabe-se de cor, volta-se a página sabendo-se o que vai passar-se. É uma galeria de personagens que raramente se renova, como a dos museus de figuras de seda”.
    Esta opinião remete para a de Miguel Torga, constante de entrada de Outubro de 1937: “ Este Camilo, com o devido respeito, lembra-me sempre uma romaria…
    Muita gente, muito vinho, música, a procissão com o Brasileiro que paga tudo à vara do pálio, a missa, o sermão, a menina que comunga, o homem da vermelhinha, o jantar na Residência, e o arraial à noite, com foguetes de lágrimas, onde se acaba tudo aos tiros e às facadas”.

                                                                                                                                 Diário I

 Hercília Agarez

05 abril 2014

Provérbios - Três por dia


1 - Vá a corda trás o caldeirão.
2 - Vá pedra a quem toque.
3 - Vá a velha onde tem de ir, e volta para em casa dormir.

Fulgurações do Silêncio, António Moraes Machado

Canto

Canto somente o que sinto.
Os sonhos que faço nascer,
E me alimentam,
E os que não quero ter,
E me atormentam.

Canto a vida
E a felicidade
De viver cada minuto,
E canto também a amargura
Que me entristece
E me dá luto.

Canto a minha filha
Que me dá amor,
Paz,
Tranquilidade.
E canto também o meu filho,
Torrente de angústia,
Que me corrói o peito de saudade.

Canto a agitação profunda,
O sofrimento que tortura
E me afunda.
Canto a emoção
Das coisas belas,
Que dão à vida uma razão.
Canto a tristeza
E a alegria,
Desde que me toquem bem fundo.
Canto a noite

E canto o dia.

Homenagem ao povo mirandês -Álbum de memórias


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Provérbios - Três por dia



1 - Tabaco e aguardentes transformam os sãos em doentes.
2 - Tabaco, vinho e mulheres deleitam a juventude, e com regra dão saúde.
3 - Tabardo e botas cobrem as costas 

04 abril 2014

Mais um transmontano no Jornal de Letras ( Tiago Patrício )


O 'ORICIONÁRIO' MIRANDÊS: A LÍNGUA DAS ORAÇÕES, por Amadeu Ferreira



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CONVITE - João de Araújo Correia – Cronista das Gentes do Douro

A Direcção da Casa Regional dos Transmontanos e Alto-Durienses do Porto e o autor, Manuel Joaquim Martins de Freitas, têm a honra de convidar V.ª Ex.ª a participar, dia 12 de Abril de 2014 (sábado), às 15h30, na apresentação do livro João de Araújo Correia – Cronista das Gentes do Douro, que vai realizar-se no Salão Nobre daquela Casa Regional, na Rua de Costa Cabral, 1037, na Cidade do Porto.
Apresentação na Câmara de Lamego a 15 de Março de 2014.
Fonte:http://www.cm-lamego.pt/categoria-noticias/237-martins-de-freitas-publica-joao-de-araujo-correia-cronista-das-gentes-do-douro

03 abril 2014

Provérbios - Três por dia

1 - S. Brás bendito, que se afoga este animalito.
2 - S. Brás de Canelas te desafogue das goelas. (Trás-os-Montes)
3 - S. Domingos, água abaixo.

HOMENS DE GRANITO, Antero Neto


O REGRESSO 

Alberto chegou com a chuva. Uma chuva miudinha que caía de forma irregular, mas que era vista como uma bênção no nordeste transmontano depois de longos meses de seca que vinha afectando a região. A primeira sensação que experimentou ao descer os degraus da camioneta e pisar o chão revestido a paralelos da paragem da aldeia, foi o cheiro forte da terra molhada que emanava das redondezas, e que o fez recuar automaticamente à sua distante infância.
Tinha partido há coisa de trinta anos. Tinha partido para não regressar. Mas o destino trocou-lhe as voltas e ali estava ele no meio do largo principal da aldeia onde nasceu e se fez moço. À sua espera estava a velha tia Ermelinda, irmã solteirona de seu pai, último laço de sangue com aquele lugar inóspito, abandonado para lá das serranias.
“As terras pequenas não fazem os homens grandes!” – a frase mil vezes repetida pelo seu tio António ainda lhe martelava na cabeça como no dia em que olhou pela última vez para o largo central da aldeia. O tio, sacerdote local e irmão de seu pai, tinha-
-o criado juntamente com a velha Ermelinda que agora reencontrava. A morte prematura dos pais quando ele ainda dava os primeiros passos obrigou os tios a tomá-lo como um filho. Nunca lhe faltou nada. Porém, o pároco educou-o com mão de ferro. “Tens que ser um homem. Tens que ser alguém na vida. Olha que um homem sem estudos é como uma cria indefesa no meio da selva. Vai-te embora. Vai para a cidade. Não te prendas aqui.
Eu pago-te os estudos. Olha que as terras pequenas nunca fizeram os homens grandes”. Parece que ainda o estava a ouvir, com o semblante cerrado e a voz firme: “essa rapariga não te serve! Quando te formares não te vão faltar cem raparigas melhores que ela! Vai pelo que te digo!”
Mariana era uma moça espigadota para a idade. Os dezasseis anos que o bilhete de identidade indicava não tinham correspondência com o corpo adulto de mulher que já ostentava. Não havia em toda a aldeia moço ou homem que lhe ficasse indiferente. Quis o destino que se embeiçasse por Alberto. Ou por serem vizinhos, ou porque brincassem sempre juntos, tinham tecido entre si uma cumplicidade tal que não havia tempestade que os separasse. “Lá vai o saco e a baraça!” – comentavam na aldeia sempre que os viam passar juntos.
Mas esse destino que os juntou foi mais forte que todos os laços do mundo e separou-os.
Alberto tinha conseguido resistir aos apelos e aos ralhos do tio que, sistematicamente e sem sucesso, tentava impelir o sobrinho a seguir uma carreira nos estudos. Resistiu enquanto pôde, motivado pelos amores de Mariana. Mas tal como os mancebos de todo o país, também ele recebeu uma convocatória para a tropa. E quando o tio lhe entregou o farnel para a viagem e uma nota de vinte escudos para os primeiros gastos, segredou-lhe ao ouvido: “Não te quero voltar a ver aqui! Fica na cidade! Estuda! Eu farei todos os sacrifícios que forem necessários. Eu e a tia vamos ver-te onde tu estiveres, mas não voltes a pôr aqui os pés, ouviste bem? Lembra-te do que eu te disse: as terras pequenas não fazem os homens grandes!”
As palavras do velho foram premonitórias. Alberto não voltou à terra natal. Enquanto cumpria o serviço militar enamorou-se de uma enfermeira de Lisboa, com quem veio a casar mal passou à disponibilidade. A mulher incentivou-o a estudar. Motivado pela família e descobrindo uma ambição que julgara não ser a sua, veio a licenciar-se. Desse casamento nasceram dois filhos. Os tios visitavam-no com regularidade. O passado idílico vivido na aldeia não era mais que uma recordação vaga, devidamente enterrada no baú da história. Apenas se lembrava das origens quando lhe punham uma alheira, ou um salpicão à frente. A tia Ermelinda encarregava-
-se de que não lhe faltassem na mesa as coisas boas da terra.
Ao entrar na aldeia, foi como se um clarão o iluminasse.
Um súbito “flashback” atravessou-lhe a mente. Foi como se tivesse vivido duas vezes. Nasceu naquela aldeia e morreu quando foi para a tropa. Tornou a nascer em Lisboa e sentia-se agora a morrer de novo. Para regressar à primeira vida. Estava a sentir uma espécie de reencarnação.
A esposa tinha falecido havia aproximadamente quatro anos. Os filhos já estavam formados e tinham-se tornado independentes. A reforma trouxe-lhe uma inesperada solidão. Por isso começou a planear um regresso. Só não sabia quando reuniria a coragem suficiente para o concretizar.
E mais uma vez o destino deu-lhe o necessário empurrão.
O tio octogenário faleceu. Foi o pretexto inesperado para tomar uma decisão que se acovardava no seu inconsciente.
Quando pisou o solo patrício e recebeu nos braços a tia emocionada, foi como se estivesse a pisar a lua. Ainda não acreditava que estava outra vez em casa. “A nossa terra é aquela onde nos fazemos homens” – tinha ouvido ou lido algures. E ele tinha-se feito homem ali. Por mais que a sua vida de adulto se tivesse estruturado em Lisboa, não podia olvidar que tinha sido ali que tinha bebido os valores mais primários. Tinha sido ali que tinha lutado pela primeira vez. Tinha sido ali que tinha feito os seus primeiros amigos. E tinha sido ali que tinha amado pela primeira vez. E… maldita hora em que o fez.
A segunda pessoa com quem se deparou na aldeia foi com o velho Bernardino. Apesar da distância temporal e dos seus nefastos efeitos na natureza humana, reconheceu de pronto a figura do pai de Mariana. Num impulso incontrolável dirigiu-se ao velho e cumprimentou-o:
Então ti Bernardino, como é que vai essa saúde?
E o senhor quem é? – retorquiu o velho, sem fazer a mínima ideia com quem estava a falar.
Sou o Alberto. O Alberto do ti padre António...
O Alberto?
Sim! Então não se lembra de mim?
O velho olhou amargurado para o outro e disse-lhe com voz agastada:
Não me lembro eu de outra coisa. Desgraçaste a minha vida e a da minha filha. Pensei que tinhas morrido...
Não diga isso, homem de Deus...
Pois mais valia que tivesses morrido lá na guerra. Ao menos assim não me tinhas desgraçado a vida. P’ra mim morreste. Adeus.
Dito isto, o velho afastou-se o mais rápido que as pernas cansadas lhe permitiam, deixando o outro cabisbaixo, derrotado, como se tivesse levado uma bofetada de um gigante.
O que é que tu querias, meu filho? Que te recebessem de braços abertos, depois do que tu lhes fizeste? – interveio a velhota, condoída com a reacção do sobrinho ao diálogo.
Se calhar tem razão minha tia... – balbuciou, enquanto pegava no saco e se dirigia para a casa familiar no centro da aldeia.
Uma vez ali chegado, chorou lágrimas silenciosas agarrado às memórias de uma vida que tinha enterrado quando partiu. Sentiu-se desanimado. Com vontade de partir sem sequer desfazer a bagagem. Pediu à tia que o escusasse da presença no velório. Não lhe apetecia encarar com mais ninguém. Queria lamber as feridas sozinho, longe dos olhares curiosos dos conterrâneos e dos cochichos das beatas.
Estava nisto quando ouviu bater à porta. Devia ser alguém que vinha apresentar as condolências à tia. A contra gosto foi ver quem era. Quando abriu a porta sentiu-se desfalecer. Era ela.
Era Mariana. Mais velha, mas igualmente bela. Resplandecente. As marcas do tempo tinham-na beneficiado.
Olá fantasma. Ouvi dizer que regressaste dos mortos para me atormentar... atirou-lhe ela com um sorriso doce e uma voz suave.
Mariana! Que surpresa! Depois do que o teu pai me disse, pensei que não me querias ver nem morto! – respondeu ele ainda mal refeito da surpresa.
Mas, e se alguém te vê aqui, que dirão?
Ninguém sabe que estou aqui. A aldeia está toda no velório do teu tio (onde tu também devias estar…). Então não me convidas a entrar?
Claro, claro! Desculpa, mas ainda estou meio zonzo. Entra, entra...
E então, a tua família não veio? A tua mulher e os teus filhos?
A minha mulher já faleceu...
Ah, não sabia, desculpa...
Não faz mal. E os meus filhos não puderam vir. Sabes que é longe e eles já trabalham os dois.
Vais demorar por aqui?
Não sei. Depende... já me reformei. E agora como estou sozinho na vida, se calhar vou-me mudar para cá. Venho fazer companhia à minha tia.
Não faças isso Alberto! Peço-te por tudo o que tu tens mais sagrado! – atirou ela surpreendentemente.
Porquê? – reagiu Alberto, meio estupefacto com a veemência do pedido de Mariana.
Porquê? Então tu não sabes o mal que me fizeste? Juraste-me amor eterno! Entreguei-me totalmente e depois abandonaste-me sem me dar uma satisfação e ainda vens perguntar-me porquê? Queres atormentar o resto dos meus dias? Se ainda te resta alguma dignidade vai-te embora tão depressa como vieste! Eu não te posso ver, percebes? Não posso estar na mesma terra que tu! Só vim cá para te dizer que não és bem-vindo! Nunca mais homem algum olhou para mim com respeito. Eu agora sou a rameira da terra, sabias? Querias tanto ser alguém, não era? Então agora já és, mas vai-te embora, por favor. Em nome de algum sentimento que tiveste por mim...
Alberto estava literalmente siderado. Ao ouvir Mariana a chorar e a dirigir-lhe aquelas palavras tão duras, sentiu que todas as expectativas, todos os sonhos construídos nos últimos dias se desmoronavam como castelos de cartas. Quão frágil se sentia! Ao mesmo tempo que ouvia a voz aguda da mulher, sentia que mil setas o trespassavam, dilacerando-lhe a carne e aniquilando-lhe o espírito. Sentiu-se reduzido à mais ínfima partícula de matéria humana existente no universo.
Mas... Mariana, eu só queria estar contigo. Tu não sabes o que eu sofri todos estes anos. Eu amo-te...
Mentira descarada, Alberto. Não passas de uma triste ilusão. É o que foste e o que serás até ao fim dos teus dias.
Não digas isso meu amor. Eu errei. Tenho consciência disso. Mas ainda vamos a tempo de construirmos alguma coisa juntos. Ainda somos novos. Tu estás mais bonita do que alguma vez foste...
Cala-te Alberto. Cala-te, por favor... suplicou a mulher, com lágrimas nos olhos, enquanto se deixava descair para os braços dele.
Alberto não disse nada. Tomou-a no colo e apertou-a com força. O desejo era mútuo e incendiou os corpos sedentos. Fizeram amor como se fosse simultaneamente a primeira e a última vez. Até à exaustão. Caíram extenuados e ficaram a contemplar a expressão ao mesmo tempo surpresa e feliz.
Ela foi a primeira a reagir:
Não devíamos ter feito isto. Foi um erro!
Chiu! – Sussurrou Alberto enquanto lhe encostava o dedo aos lábios – não digas mais nada. Amo-te como ninguém amou. Quero ver os teus cabelos passarem de cinzentos a brancos. Quero envelhecer contigo ao meu lado.

Sabes bem que isso não é possível. Amanhã, depois do funeral do teu tio vais partir novamente. Se me amas mesmo, não voltas cá.
Mas...
Nem mas, nem meio mas. A vida não é um conto de fadas. A aldeia não é a mesma. As pessoas mudaram muito. Tu já não te enquadras aqui. O teu lugar é na cidade. Volta para lá. Acompanha os teus filhos. Aquilo que acabámos de fazer foi muito bom, mas não se vai repetir. Foi a minha despedida. Não me voltas a ver. Adeus.
Enquanto proferia estas palavras levantou-se, compôs a roupa, deu um beijo na fronte de Alberto e saiu porta fora.
Alberto não voltou a ver Mariana. Esta não foi ao funeral do tio. Quando se dirigia para casa dela surgiu-lhe o pai à frente e mandou-o embora, dizendo-lhe que ali não seria recebido.

Com o coração destroçado, arrumou as suas coisas e partiu no autocarro, deixando para trás o passado e o futuro, debaixo de chuva miudinha, tal como tinha chegado.