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08 abril 2014
07 abril 2014
História Antiga da Região Duriense
“História do Douro e do Vinho do Porto – Volume 1 – História Antiga da Região Duriense” Carlos A. Brochado de Almeida (coord.)
Afinal, apesar do «vinho fino», do caminho de ferro, das barragens, que tanto o foram alterando em momentos diferentes, dos últimos séculos, o Douro é um grande desconhecido, nunca tendo sido alvo de um trabalho sistemático. Esta colecção pretende colmatar essa ausência. O primeiro volume centra-se sobre a Pré-História do Vale do Douro. De realçar que esta colecção é dirigida por uma vasta equipa de investigadores, centrada na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
06 abril 2014
MULHERES INSTRUIDAS/ ESCRITORAS,por Hercília Agarez
( A propósito de A Senhora
Rattazzi de Camilo Castelo Branco)
“Guarda-te de homem que não fala, de mulher que faz versos e de cão que
não ladra”.
Em Carta
de Guia de Casados, da autoria de D. Francisco Manuel de Melo, obra
importante para o conhecimento da história social do nosso século XVII,
deparamos com o conceito do escritor sobre a educação das mulheres e sobre o
papel que lhe deve incumbir na sociedade. Resume-se este ao serviço doméstico
como dona de casa, esposa e mãe: “Criou-as Deos fracas, sejam fracas; oxalá
façam o que são obrigadas, não lhes quero pedir mais que a sua obrigação”.
No que à sua educação diz respeito, tudo se
resume à absoluta concordância do autor com a expressão popular “ Deus nos
livre de mula que faz him e de mulher
que sabe latim” que concretiza com o seguinte episódio: “ Confessava-se uma
mulher honrada a um frade velho e rabugento; e como começasse a dizer em latim
a confissão, perguntou-lhe o confessor: - ‘Sabeis Latim? ‘ Disse-lhe: - ‘Padre,
criei-me em mosteiro’. Tornou-lhe a perguntar: - ‘Que estado tendes? ‘
Respondeu-lhe: -‘Casada’. A que tornou: - ‘Donde está vosso marido? ‘ – ‘Na
Índia, meu padre’ (disse ela). Então com agudeza repetiu o velho: - ‘Tende mão,
filha: sabeis latim, criastes-vos em mosteiro, tendes marido na Índia? Ora
ide-vos embora, e vinde cá outro dia, que vos é força que tragais muito que
dizer, e eu hoje estou com muita pressa”.
Organizado em cartas como a obra anterior,
surge, no século XVIII, época da vigência do Iluminismo, o livro do árcade Luís
António Verney intitulado Verdadeiro
Método de Estudar, considerado por António Sérgio “ a maior obra de
pensamento que se escreveu em português”. Abrange ele matérias como a
Linguística, a Oratória, a Poesia, a Filosofia, a Estilística e a Pedagogia. Com
ele pretende Verney criticar a orientação escolástica dos estudos e orientá-los
no sentido da utilidade que poderiam assumir, tanto no que dizia respeito à
República como à Igreja.
Na décima sexta carta, dedicada à educação
das mulheres, defende-a convictamente, na certeza de que estas “discorrem tão
bem como os homens”. Além disso, sendo elas as primeiras educadoras dos seus
filhos, é de toda a conveniência que saibam o que dizem. Também como esposas a
instrução lhes é útil, como explicita na seguinte passagem: “ Persuado-me que a
maior parte dos homens casados que não fazem gosto de conversar com suas
mulheres, e vão a outras partes procurar divertimentos pouco inocentes, é
porque as acham tolas no trato; e é este o motivo que aumenta aquele desgosto
que naturalmente se acha no contínuo trato de marido com mulher. Certo é que
uma mulher de juízo exercitado saberá adoçar o ânimo agreste de um marido
áspero e ignorante, ou saberá entreter melhor a disposição de ânimo de um
marido erudito, do que outra que não tem estas qualidades”.
Se, anteriormente ao século XX, a mulher
instruída era vista como invasora de território reservado ao homem, o caso
agravava-se quando ousava com ele competir no manejo da pena. A tal se atreveu,
no século XVIII, a Marquesa de Alorna, considerada a Madame de Staël portuguesa
e que nos legou as suas Obras Poéticas,
em seis volumes, onde deixa transparecer características estéticas de uma
sensibilidade romântica. Alexandre Herculano haverá de lhe ficar reconhecido
pelo magistério que exerceu no seu famoso salão e cujo principal discípulo foi
o poeta pré-romântico Filinto Elísio.
Não fossem as circunstâncias conhecidas da
vida de Ana Plácido, companheira de vida e de infortúnios de Camilo Castelo
Branco, teria ela provavelmente ocupado um lugar de destaque nas letras da
época. Colaboradora de jornais e revistas, cultivou a poesia e foi autora de
dois romances, sendo o mais conhecido Luz
Coada por Ferros que, como o título indicia, foi escrito nos dias que
passou encarcerada com o escritor na Cadeia da Relação do Porto. Esta sua
actividade literária terá sido estimulada pelo próprio novelista e tê-la-á
feito abortar a falta de disponibilidade mental causada por múltiplos
desgostos.
Terá sido esta mulher, por razões
sentimentais, uma excepção ao modo como o homem de Ceide encarava as mulheres
escritoras. A ilustrá-lo, apoiemo-nos na polémica pessoal que o envolveu com
uma princesa francesa, descendente dos Bonapartes pelo lado materno, mulher de complexa,
aventurosa e faustosa existência, com um “currículo” donde sobressai o facto de
ter sido amante de Victor Hugo. Dedicou-se ao jornalismo e à literatura e
visitou vários países, entre os quais Portugal, onde fez “estragos” e gerou controvérsias.
Aqui pretendeu impor-se como escritora, cultivando amizades nos meios sociais,
políticos e artísticos, tendo sido famosas as recepções em que tudo fazia para
insinuar-se e ganhar notoriedade a qualquer preço.
Não terá conseguido os seus intentos.
Despeitada, publicou o livro Portugal à
vol d’oiseau, resultante das duas viagens que fez ao nosso país em 1876 e
1879, traduzido em 1881 com o título Portugal
de relance. Nele faz a autora considerações críticas que atingem vários
alvos: o clero (para ela representado pela figura do Padre Amaro de Eça), a
história de Portugal, a política e seus destacados membros, o jornalismo, a
vida íntima dos portugueses, a aristocracia, o sector hoteleiro (refere que os
hotéis de Lisboa têm ratos e percevejos), a literatura em que são zurzidos,
entre outros, Herculano, Castilho, Bulhão Pato, Júlio Dinis, Mendes Leal
e…obviamente, Camilo.
Quem conhece o carácter quezilento e irascível
do escritor, a sua tendência a entrar, por tudo e por nada, numa boa polémica,
compreenderá que lhe seria impossível não sair a terreno para defender a sua
dama, neste caso a sua obra, encabeçando a legião dos esperados contestatários.
Assim, publica em 1880 o folheto A
Senhora Rattazzi em cujo preâmbulo, a reboque de D. Francisco Manuel de
Melo (“ Mulheres doutoras, autoras e compositoras dava-as o diabo”) exprime a
sua opinião sobre as mulheres escritoras. Estaria a pensar em Les Femmes Savantes de Molière?
“ Mulher escritora, por via de regra pouco
exceptuada, é um homem por dentro. O coração, que lhe devia ser urna de
suavíssimas lágrimas, faz-se-lhe botija de tinta; e as doces penas da alma
metalizam-se-lhe aguçadas em penas de aço. O fuso de Lucrécia e da rainha Berta
desfez-se em canetas. Em vez de tecerem o seu bragal, urdem intrigas. (…)
Não há feminilidades que se respeitem desde
que a mulher se masculiniza, e, como escritora virago, salta as fronteiras do
decoro, sofraldando as espumas das rendas até à altura da liga azul-ferrete.
[…] Eu, criado no velho noticiário, tendo
de anunciar o produto duma dama dado à luz, antes quisera, em vez dum livro
bom, anunciar um menino robusto. Acho muito mais simpática a feminilidade de
mães pálidas, com olheiras, emaciadas, que aconchegam dos seios exuberantes a
criancinha rosada, recém-nascida. Não me comove nem alvoroça o espectáculo de
uma autora que se remira e envaidece na brochura que deu à luz, obra entre
cinco e sete tostões – 740 réis com estampilha. Por isso, antes quero noticiar
um menino robusto que um oitavo
compacto”.
No corpus
do texto polémico, Camilo regista e contesta as várias barbaridades contidas
numa publicação cujo título sugere a superficialidade das abordagens feitas. A
terminá-lo, regista:
“Vence-me o tédio; mas não me punge o
remorso de ter lido 415 páginas. Tenho, porém vergonha de que um ou outro
português, desnacionalizado por despeitos pessoais e políticos, se compraza de
ver os seus conterrâneos enxovalhados pela srª Rattazzi, cuja maledicência é
notoriamente europeia. O seu renome de estilista desbragada sem cerimónia
ganhou-o em Itália e Paris a ponto de lhe imputarem as brochuras crapulosas do
infame bandido Vésinier, um corcunda petroleiro que espingardearam em 71”.
Que escreve a princesa escritora sobre
Castelo Branco? Pouco mais do que isto: “ Todos os romances do solitário de S.
Miguel de Ceide contêm infalivelmente um tipo de brasileiro, uma rapariga que
se recolhe a um convento, um fidalgo de província e um romântico apaixonado e
transparente. É invariável como a chuva e o bom tempo. De forma que o primeiro
romance que se lê do Sr. Branco parece muito interessante, o segundo acorda
reminiscências, e o terceiro adivinha-se; o quarto sabe-se de cor, volta-se a
página sabendo-se o que vai passar-se. É uma galeria de personagens que
raramente se renova, como a dos museus de figuras de seda”.
Esta opinião remete para a de Miguel Torga,
constante de entrada de Outubro de 1937: “ Este Camilo, com o devido respeito,
lembra-me sempre uma romaria…
Muita gente, muito vinho, música, a
procissão com o Brasileiro que paga tudo à vara do pálio, a missa, o sermão, a
menina que comunga, o homem da vermelhinha, o jantar na Residência, e o arraial
à noite, com foguetes de lágrimas, onde se acaba tudo aos tiros e às facadas”.
Diário I
05 abril 2014
Fulgurações do Silêncio, António Moraes Machado
Canto
Canto somente o que
sinto.
Os sonhos que faço
nascer,
E me alimentam,
E os que não quero ter,
E me atormentam.
Canto a vida
E a felicidade
De viver cada minuto,
Que me entristece
E me dá luto.
Canto a minha filha
Que me dá amor,
Paz,
Tranquilidade.
E canto também o meu
filho,
Torrente de angústia,
Que me corrói o peito de
saudade.
Canto a agitação
profunda,
O sofrimento que tortura
E me afunda.
Canto a emoção
Das coisas belas,
Que dão à vida uma
razão.
Canto a tristeza
E a alegria,
Desde que me toquem bem
fundo.
Canto a noite
E canto o dia.
Homenagem ao povo mirandês -Álbum de memórias
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04 abril 2014
O 'ORICIONÁRIO' MIRANDÊS: A LÍNGUA DAS ORAÇÕES, por Amadeu Ferreira
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CONVITE - João de Araújo Correia – Cronista das Gentes do Douro
A Direcção da Casa Regional dos Transmontanos e
Alto-Durienses do Porto e o autor, Manuel Joaquim Martins de Freitas, têm a
honra de convidar V.ª Ex.ª a participar, dia 12 de Abril de 2014 (sábado), às
15h30, na apresentação do livro João de Araújo Correia – Cronista
das Gentes do Douro, que vai realizar-se no Salão Nobre daquela Casa
Regional, na Rua de Costa Cabral, 1037, na Cidade do Porto.
| Apresentação na Câmara de Lamego a 15 de Março de 2014. Fonte:http://www.cm-lamego.pt/categoria-noticias/237-martins-de-freitas-publica-joao-de-araujo-correia-cronista-das-gentes-do-douro |
03 abril 2014
Provérbios - Três por dia
2 - S. Brás de Canelas te desafogue das goelas. (Trás-os-Montes)
3 - S. Domingos, água abaixo.
HOMENS DE GRANITO, Antero Neto
O
REGRESSO
Alberto chegou com a chuva. Uma chuva miudinha que caía de forma
irregular, mas que era vista como uma bênção no nordeste transmontano depois de
longos meses de seca que vinha afectando a região. A primeira sensação que
experimentou ao descer os degraus da camioneta e pisar o chão revestido a
paralelos da paragem da aldeia, foi o cheiro forte da terra molhada que emanava
das redondezas, e que o fez recuar automaticamente à sua distante infância.
Tinha partido há coisa de trinta anos. Tinha
partido para não regressar. Mas o destino trocou-lhe as voltas e ali estava ele
no meio do largo principal da aldeia onde nasceu e se fez moço. À sua espera
estava a velha tia Ermelinda, irmã solteirona de seu pai, último laço de sangue
com aquele lugar inóspito, abandonado para lá das serranias.
“As terras pequenas não fazem os homens grandes!” – a frase mil
vezes repetida pelo seu tio António ainda lhe martelava na cabeça como no dia
em que olhou pela última vez para o largo central da aldeia. O tio, sacerdote
local e irmão de seu pai, tinha-
-o criado juntamente com a velha Ermelinda que agora reencontrava. A morte prematura dos pais quando ele ainda dava os primeiros passos obrigou os tios a tomá-lo como um filho. Nunca lhe faltou nada. Porém, o pároco educou-o com mão de ferro. “Tens que ser um homem. Tens que ser alguém na vida. Olha que um homem sem estudos é como uma cria indefesa no meio da selva. Vai-te embora. Vai para a cidade. Não te prendas aqui.
Eu pago-te os estudos. Olha que as terras pequenas nunca fizeram os homens grandes”. Parece que ainda o estava a ouvir, com o semblante cerrado e a voz firme: “essa rapariga não te serve! Quando te formares não te vão faltar cem raparigas melhores que ela! Vai pelo que te digo!”
-o criado juntamente com a velha Ermelinda que agora reencontrava. A morte prematura dos pais quando ele ainda dava os primeiros passos obrigou os tios a tomá-lo como um filho. Nunca lhe faltou nada. Porém, o pároco educou-o com mão de ferro. “Tens que ser um homem. Tens que ser alguém na vida. Olha que um homem sem estudos é como uma cria indefesa no meio da selva. Vai-te embora. Vai para a cidade. Não te prendas aqui.
Eu pago-te os estudos. Olha que as terras pequenas nunca fizeram os homens grandes”. Parece que ainda o estava a ouvir, com o semblante cerrado e a voz firme: “essa rapariga não te serve! Quando te formares não te vão faltar cem raparigas melhores que ela! Vai pelo que te digo!”
Mariana era uma moça espigadota para a idade. Os dezasseis anos que o bilhete de
identidade indicava não tinham correspondência com o corpo adulto de mulher que
já ostentava. Não havia em toda a aldeia moço ou homem que lhe ficasse
indiferente. Quis o destino que se embeiçasse por Alberto. Ou por serem
vizinhos, ou porque brincassem sempre juntos, tinham tecido entre si uma
cumplicidade tal que não havia tempestade que os separasse. “Lá vai o saco e a
baraça!” – comentavam na aldeia sempre que os viam passar juntos.
Mas esse destino que os juntou foi mais forte que todos os laços
do mundo e separou-os.
Alberto tinha conseguido resistir aos apelos e aos ralhos do tio
que, sistematicamente e sem sucesso, tentava impelir o sobrinho a seguir uma
carreira nos estudos. Resistiu enquanto pôde, motivado pelos amores de Mariana.
Mas tal como os mancebos de todo o país, também ele recebeu uma convocatória
para a tropa. E quando o tio lhe entregou o farnel para a viagem e uma nota de
vinte escudos para os primeiros gastos, segredou-lhe ao ouvido: “Não te quero
voltar a ver aqui! Fica na cidade! Estuda! Eu farei todos os sacrifícios que
forem necessários. Eu e a tia vamos ver-te onde tu estiveres, mas não voltes a
pôr aqui os pés, ouviste bem? Lembra-te do que eu te disse: as terras pequenas não
fazem os homens grandes!”
As palavras do velho foram premonitórias.
Alberto não voltou à terra natal. Enquanto cumpria o serviço militar
enamorou-se de uma enfermeira de Lisboa, com quem veio a casar mal passou à
disponibilidade. A mulher incentivou-o a estudar. Motivado pela família e
descobrindo uma ambição que julgara não ser a sua, veio a licenciar-se. Desse
casamento nasceram dois filhos. Os tios visitavam-no com regularidade. O
passado idílico vivido na aldeia não era mais que uma recordação vaga,
devidamente enterrada no baú da história. Apenas se lembrava das origens quando
lhe punham uma alheira, ou um salpicão à frente. A tia Ermelinda encarregava-
-se de que não lhe faltassem na mesa as coisas boas da terra.
-se de que não lhe faltassem na mesa as coisas boas da terra.
Ao entrar na aldeia, foi como se um clarão o
iluminasse.
Um súbito “flashback” atravessou-lhe a mente. Foi como se tivesse vivido duas vezes. Nasceu naquela aldeia e morreu quando foi para a tropa. Tornou a nascer em Lisboa e sentia-se agora a morrer de novo. Para regressar à primeira vida. Estava a sentir uma espécie de reencarnação.
Um súbito “flashback” atravessou-lhe a mente. Foi como se tivesse vivido duas vezes. Nasceu naquela aldeia e morreu quando foi para a tropa. Tornou a nascer em Lisboa e sentia-se agora a morrer de novo. Para regressar à primeira vida. Estava a sentir uma espécie de reencarnação.
A esposa tinha falecido havia aproximadamente quatro anos. Os
filhos já estavam formados e tinham-se tornado independentes. A reforma
trouxe-lhe uma inesperada solidão. Por isso começou a planear um regresso. Só
não sabia quando reuniria a coragem suficiente para o concretizar.
E mais uma vez o destino deu-lhe o necessário
empurrão.
O tio octogenário faleceu. Foi o pretexto inesperado para tomar uma decisão que se acovardava no seu inconsciente.
O tio octogenário faleceu. Foi o pretexto inesperado para tomar uma decisão que se acovardava no seu inconsciente.
Quando pisou o solo patrício e recebeu nos braços a tia
emocionada, foi como se estivesse a pisar a lua. Ainda não acreditava que
estava outra vez em casa. “A nossa terra é aquela onde nos fazemos homens” –
tinha ouvido ou lido algures. E ele tinha-se feito homem ali. Por mais que a
sua vida de adulto se tivesse estruturado em Lisboa, não podia olvidar que
tinha sido ali que tinha bebido os valores mais primários. Tinha sido ali que
tinha lutado pela primeira vez. Tinha sido ali que tinha feito os seus
primeiros amigos. E tinha sido ali que tinha amado pela primeira vez. E…
maldita hora em que o fez.
A segunda pessoa com quem se deparou na aldeia
foi com o velho Bernardino. Apesar da distância temporal e dos seus nefastos
efeitos na natureza humana, reconheceu de pronto a figura do pai de Mariana.
Num impulso incontrolável dirigiu-se ao velho e cumprimentou-o:
– Então ti Bernardino, como é que vai essa
saúde?
– E o senhor quem é? – retorquiu o velho, sem
fazer a mínima ideia com quem estava a falar.
– Sou o Alberto. O Alberto do ti padre
António...
– O Alberto?
– Sim! Então não se lembra de mim?
O velho olhou amargurado para o outro e disse-lhe com voz
agastada:
– Não me lembro eu de outra coisa. Desgraçaste
a minha vida e a da minha filha. Pensei que tinhas morrido...
– Não diga isso, homem de Deus...
– Pois mais valia que tivesses morrido lá na
guerra. Ao menos assim não me tinhas desgraçado a vida. P’ra mim morreste.
Adeus.
Dito isto, o velho afastou-se o mais rápido que as pernas cansadas
lhe permitiam, deixando o outro cabisbaixo, derrotado, como se tivesse levado
uma bofetada de um gigante.
– O que é que tu querias, meu filho? Que te
recebessem de braços abertos, depois do que tu lhes fizeste? – interveio a
velhota, condoída com a reacção do sobrinho ao diálogo.
– Se calhar tem razão minha tia... –
balbuciou, enquanto pegava no saco e se dirigia para a casa familiar no centro
da aldeia.
Uma vez ali chegado, chorou lágrimas silenciosas agarrado às
memórias de uma vida que tinha enterrado quando partiu. Sentiu-se desanimado.
Com vontade de partir sem sequer desfazer a bagagem. Pediu à tia que o
escusasse da presença no velório. Não lhe apetecia encarar com mais ninguém.
Queria lamber as feridas sozinho, longe dos olhares curiosos dos conterrâneos e
dos cochichos das beatas.
Estava nisto quando ouviu bater à porta.
Devia ser alguém que vinha apresentar as condolências à tia. A contra gosto foi
ver quem era. Quando abriu a porta sentiu-se desfalecer. Era ela.
Era Mariana. Mais velha, mas igualmente bela. Resplandecente. As marcas do tempo tinham-na beneficiado.
Era Mariana. Mais velha, mas igualmente bela. Resplandecente. As marcas do tempo tinham-na beneficiado.
– Olá fantasma. Ouvi dizer que regressaste dos
mortos para me atormentar... – atirou-lhe ela com um sorriso doce e uma voz suave.
– Mariana! Que surpresa! Depois do que o teu
pai me disse, pensei que não me querias ver nem morto! – respondeu ele ainda
mal refeito da surpresa.
– Mas, e se alguém te vê aqui, que dirão?
– Ninguém sabe que estou aqui. A aldeia está
toda no velório do teu tio (onde tu também devias estar…). Então não me
convidas a entrar?
– Claro, claro! Desculpa, mas ainda estou meio
zonzo. Entra, entra...
– E então, a tua família não veio? A tua
mulher e os teus filhos?
– A minha mulher já faleceu...
– Ah, não sabia, desculpa...
– Não faz mal. E os meus filhos não puderam
vir. Sabes que é longe e eles já trabalham os dois.
– Vais demorar por aqui?
– Não sei. Depende... já me reformei. E agora
como estou sozinho na vida, se calhar vou-me mudar para cá. Venho fazer
companhia à minha tia.
– Não faças isso Alberto! Peço-te por tudo o
que tu tens mais sagrado! – atirou ela surpreendentemente.
– Porquê? – reagiu Alberto, meio estupefacto
com a veemência do pedido de Mariana.
– Porquê? Então tu não
sabes o mal que me fizeste? Juraste-me amor eterno! Entreguei-me totalmente e
depois abandonaste-me sem me dar uma satisfação e ainda vens perguntar-me
porquê? Queres atormentar o resto dos meus dias? Se ainda te resta alguma
dignidade vai-te embora tão depressa como vieste! Eu não te posso ver,
percebes? Não posso estar na mesma terra que tu! Só vim cá para te dizer que
não és bem-vindo! Nunca mais homem algum olhou para mim com respeito. Eu agora
sou a rameira da terra, sabias? Querias tanto ser alguém, não era? Então agora
já és, mas vai-te embora, por favor. Em nome de algum sentimento que tiveste por
mim...
Alberto estava literalmente siderado. Ao ouvir
Mariana a chorar e a dirigir-lhe aquelas palavras tão duras, sentiu que todas
as expectativas, todos os sonhos construídos nos últimos dias se desmoronavam
como castelos de cartas. Quão frágil se sentia! Ao mesmo tempo que ouvia a voz
aguda da mulher, sentia que mil setas o trespassavam, dilacerando-lhe a carne e
aniquilando-lhe o espírito. Sentiu-se reduzido à mais ínfima partícula de
matéria humana existente no universo.
– Mas... Mariana, eu só queria estar contigo.
Tu não sabes o que eu sofri todos estes anos. Eu amo-te...
– Mentira descarada, Alberto. Não passas de
uma triste ilusão. É o que foste e o que serás até ao fim dos teus dias.
– Não digas isso meu
amor. Eu errei. Tenho consciência disso. Mas ainda vamos a tempo de
construirmos alguma coisa juntos. Ainda somos novos. Tu estás mais bonita do
que alguma vez foste...
– Cala-te Alberto.
Cala-te, por favor... – suplicou a mulher, com lágrimas nos olhos,
enquanto se deixava descair para os braços dele.
Alberto não disse nada. Tomou-a no colo e apertou-a com força. O
desejo era mútuo e incendiou os corpos sedentos. Fizeram amor como se fosse
simultaneamente a primeira e a última vez. Até à exaustão. Caíram extenuados e
ficaram a contemplar a expressão ao mesmo tempo surpresa e feliz.
Ela foi a primeira a reagir:
– Não devíamos ter feito isto. Foi um erro!
– Chiu! – Sussurrou
Alberto enquanto lhe encostava o dedo aos lábios – não digas mais nada. Amo-te
como ninguém amou. Quero ver os teus cabelos passarem de cinzentos a brancos.
Quero envelhecer contigo ao meu lado.
– Sabes bem que isso não
é possível. Amanhã, depois do funeral do teu tio vais partir novamente. Se me
amas mesmo, não voltas cá.
– Mas...
– Nem mas, nem meio mas. A vida não é um conto
de fadas. A aldeia não é a mesma. As pessoas mudaram muito. Tu já não te
enquadras aqui. O teu lugar é na cidade. Volta para lá. Acompanha os teus
filhos. Aquilo que acabámos de fazer foi muito bom, mas não se vai repetir. Foi
a minha despedida. Não me voltas a ver. Adeus.
Enquanto proferia estas palavras levantou-se, compôs a roupa, deu
um beijo na fronte de Alberto e saiu porta fora.
Alberto não voltou a ver Mariana. Esta não foi ao funeral do tio.
Quando se dirigia para casa dela surgiu-lhe o pai à frente e mandou-o embora,
dizendo-lhe que ali não seria recebido.
Com o coração destroçado, arrumou as suas coisas e partiu no
autocarro, deixando para trás o passado e o futuro, debaixo de chuva miudinha,
tal como tinha chegado.
02 abril 2014
Provérbios - Três por dia
2 - Qual a coruja que não gaba 0 toco?
3 - Qual a lei, tal grei.
Academia de Letras - PROGRAMA DE MARÇO NA RÁDIO BRIGANTIA - António Fortuna
01 abril 2014
31 março 2014
Provérbios - Três por dia
2 - Paciência é a mãe da honra.
3 - Paciência e sebo de grilo é bom para aquilo.
O RIO QUE PERDEU AS MARGENS, por António Cabral
António Cabral frequentou o curso teológico do Seminário de
Vila Real e obteve a licenciatura em Filosofia pela Universidade do Porto.
Depois de abandonar a vida sacerdotal, ingressou no ensino secundário, sendo
professor efectivo da Escola Secundária Camilo Castelo Branco. A partir de 2001
foi professor de Cultura Geral, na Universidade Sénior de Vila Real. Era
conhecido pelas suas conferências em centros culturais, escolas do ensino
básico, secundário e universitário, tanto em Portugal como no estrangeiro,
Galiza e Alemanha sobretudo, falando de temas que lhe eram preferidos, tais
como literatura, jogos populares e pedagogia do jogo.
Como animador sociocultural, fundou em 1979 o Centro
Cultural Regional de Vila Real, do qual foi Presidente da Direcção até 1991,
ano em que passou a ser o Presidente da Assembleia Geral. Foi sobretudo na
investigação e organização de festas de jogos populares que a sua acção se
tornou mais notória. Através deste Centro promoveu cinco encontros de
escritores e jornalistas de Trás-os-Montes e Alto Douro: em Vila Real (1981),
Chaves (1983), Bragança, Mirandela e Miranda do Douro (1984), Lamego, Régua e
Alijó (1985) e Vila Real (1997). Foi perito do Conselho da Europa no II Estágio
Alternativo Europeu sobre Desportos Tradicionais e Jogos Populares, realizado
em Lamego, em 1982. Foi ainda o principal responsável pela organização dos
Jogos Populares Transmontanos e Jogos Populares Galaico-Transmontanos, com
início respectivamente em 1977 e 1983. No Fundo de Apoio aos Organismos
Juvenis, que antecedeu o Instituto da Juventude, desempenhou os cargos de
Delegado do Distrito de Vila Real e Coordenador da Zona Norte, entre 1974 e
1976. Foi Presidente da Direcção e mais tarde Presidente da Assembleia Geral,
da Associação Nacional de Animadores Socioculturais, fundada em 1995. Desde
Março de 1996 até final de Janeiro de 2004, foi Delegado do INATEL no Distrito
de Vila Real, o que lhe permitiu privilegiar a cultura popular.
No domínio das letras e das artes fundou em Vila Real, em
1962, a revista Setentrião, a revista Tellus de que foi o primeiro director em
1978, e o mensário Nordeste Cultural, em 1980. Era membro do Conselho de
Redacção da revista galaico-portuguesa O Ensino. Foi agraciado com as medalhas
de prata de mérito municipal de Alijó (1985) e de Vila Real (1990). Foi
seleccionado para Maletas Literárias de duzentos livros portugueses, no
programa Territórios Ibéricos em 2004-2005. Teve uma colaboração dispersa por
revistas e jornais portugueses e estrangeiros, salientando-se a colaboração
semanal entre Novembro de 1993 e Janeiro de 1995 no jornal Público, com textos
sobre tradições populares. Colaborou ainda com o Semanário Transmontano, com o
jornal Entre Letras, de Tomar, e com os periódicos Notícias do Douro e Notícias
de Vila Real. Teve participação em programas de rádio e de televisão,
colectâneas escolares, obras colectivas e antologias de poesia, tais como
Poesia Portuguesa do Pós-Guerra, Poesia 71, Oitocentos Anos de Poesia
Portuguesa, Hiroxima, Vietname, Poemabril, Ilha dos Amores, O Trabalho, Poetas
Escolhem Poetas. Alguns poemas de António Cabral foram cantados por Manuel
Freire, Adriano Correia de Oliveira e Francisco Fanhais. Prefaciou e/ou fez a
apresentação de diversos livros, entre eles, Cantar de Novo, de José Afonso e
Ser Torga, de Fernão Magalhães Gonçalves e também de obras de escritores
transmontanos com projecção nacional como Bento da Cruz e António Manuel Pires Cabral.
BIBLIOGRAFIA:
30 março 2014
Provérbios - Três por dia
2 - O abismo atrai o abismo.
3 - O Abril é um rapaz, não sabe o que faz.
UM EXEMPLO PARA OS INTELECTUAIS TRANSMONTANOS: TRINDADE COELHO E A LÍNGUA MIRANDESA, por Amadeu Ferreira
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UM EXEMPLO PARA OS INTELECTUAIS TRANSMONTANOS: TRINDADE COELHO E A LÍNGUA MIRANDESA, por Amadeu Ferreira
HISTÓRIAS SELVAGENS - Contos, por A. Passos Coelho
António Passos Coelho nasceu em Valnogueiras, concelho de Vila Real, em 31 de Maio de 1926, filho de Paulino José Alves Coelho e Dona Margarida do Carmo Teixeira Passos. O pai era lavrador, podendo considerar-se abastado pelos padrões da época e do lugar. A mãe era professora primária.O casal teve dez filhos, sendo António o penúltimo. Esta prole numerosa condicionou de algum modo a escolaridade de António, que, após concluir a instrução primária em Valnogueiras, não pode vir estudar para Vila Real, como era seu desejo, uma vez que alguns dos seus irmãos andavam então nos estudos e os rendimentos paternos não podiam suportar mais aquela despesa. Mesmo assim, tendo a forte aspiração de vir a ser médico, estudou em regime doméstico, apresentando-se na altura própria a exame do 3.º e depois do 6.º ano. Finalmente pôde inscrever-se no 7.º ano, no Liceu de Vila Real, que concluiu em 1945.
Terminado o ensino secundário, A. Passos Coelho matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, onde se formou em 1953, não sem ter perdido dois anos, por motivo de saúde. Mais exactamente, uma tuberculose que se declarou logo no 1.º ano do curso e acabou por o obrigar à interrupção no 4.º ano. Esteve então internado no Caramulo – experiência que retrata com pormenor e crueza no seu romance Caramulo.
Em 1954 é convidado para estagiário do corpo clínico da Estância Sanatorial do Caramulo. Prossegue entretanto os seus estudos de especialização, após os quais obtém, em 1960, em provas públicas, o título de especialista em Pneumotisiologia da Ordem dos Médicos. Permanece ligado àquela estância, passando a exercer, ainda em 1960, as funções de director clínico do Sanatório Sameiro e, quatro anos mais tarde, cumulativamente, as mesmas funções no Sanatório Pedras Soltas. Em 1970, a seu pedido, abandonou a Estância Sanatorial do Caramulo.
Em Abril de 1970 encontramo-lo em Angola, onde é encarregado de organizar a luta antituberculosa no distrito do Bié, lugar que desempenha até Maio de 1973, altura em que é nomeado director do Hospital-Sanatório de Luanda. Ainda em Angola, exerce funções de Chefe de Serviço de Combate à Tuberculose e responsável pelo Curso de Tisiologia da Faculdade de Medicina de Luanda.
Após o seu regresso a Portugal, em Novembro de 1975, desenvolveu sempre a sua actividade clínica em Vila Real.
Foi durante a sua permanência profissional no Caramulo que conheceu a enfermeira Dona Maria Rodrigues Santos Mamede, natural de Santana da Serra (Ourique, Baixo Alentejo), com quem casou em 1955 e de quem teve quatro filhos.
O seu currículo médico foi sendo sucessivamente enriquecido com novos estudos, a publicação de trabalhos sobre pneumologia e o exercício de funções directivas, de que se destaca a direcção do Hospital-Sanatório de Luanda e a chefia do Serviço de Combate à Tuberculose de Angola.
No âmbito da actividade clínica, no distrito de Vila Real, desempenhou as seguintes funções (entre parênteses o ano da nomeação para o cargo): coordenador distrital do Serviço de Luta Antituberculosa – SLAT (1976); membro da Comissão Instaladora da Administração Distrital do Serviço de Saúde (1977); presidente da Assembleia Distrital da Ordem dos Médicos (1978); vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Patologia Respiratória (1980); presidente da Comissão Instaladora do Hospital Distrital de Vila Real e director clínico do mesmo (1991).
A carreira de médico e todas estas ocupações paralelas absorveram-no de forma quase total, pouca disponibilidade lhe concedendo para outras actividades. Mesmo assim, pôde encontrar tempo para a actividade política e para a escrita. No plano político, exerceu funções de Presidente da Assembleia Municipal de Vila Real. No plano literário, além de colaboração episódica e dispersa em algumas revistas, conferências e comunicações, publicou dois livros de contos, um livro de poesia e um romance (a que prefere chamar, não sem razão, crónica romanceada, pois o livro comunga dos dois géneros).
Os livros de contos, Gente da minha terra e Histórias selvagens, saíram em primeira edição em 1960 e 1963, respectivamente. De ambos se fez uma 2.ª edição em 2002. O livro de poesia, intitulado Material humano, saiu em 1997. O romance, Caramulo, em 2006.
A grande vocação de A. Passos Coelho é a de contista. Os seus contos – alguns de extensão considerável – retratam com realismo o meio rural vila-realense e a fauna humana que ali vive os seus dramas e as suas ambições. João Gaspar Simões disse numa recensão publicada no Diário de Notícias: “Não temos dúvidas em considerar o seu livro [Gente da minha terra] entre os melhores do género ultimamente aparecidos.” E, sobre o mesmo livro, escreveu Amândio César: “Trata-se de um volume de estreia, mas isso nada influi para a real categoria do escritor que aqui me aparece pela primeira vez”, para depois lhe apontar “um estilo forte, sadio, másculo”.
Sobre Caramulo, que reúne, como apontámos acima, características de crónica e de romance, escreve António Cabral: “É a relação com Marta e com os amigos do Grande Sanatório que transforma sobretudo a crónica num óptimo romance; é aí que ele começa a ganhar altura verdadeiramente literária, qualidade sem dúvida bem suportada pelo que no longo texto é apenas crónica.”
O livro Histórias selvagens serviu de argumento para um filme de António Campos.
Terminado o ensino secundário, A. Passos Coelho matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, onde se formou em 1953, não sem ter perdido dois anos, por motivo de saúde. Mais exactamente, uma tuberculose que se declarou logo no 1.º ano do curso e acabou por o obrigar à interrupção no 4.º ano. Esteve então internado no Caramulo – experiência que retrata com pormenor e crueza no seu romance Caramulo.
Em 1954 é convidado para estagiário do corpo clínico da Estância Sanatorial do Caramulo. Prossegue entretanto os seus estudos de especialização, após os quais obtém, em 1960, em provas públicas, o título de especialista em Pneumotisiologia da Ordem dos Médicos. Permanece ligado àquela estância, passando a exercer, ainda em 1960, as funções de director clínico do Sanatório Sameiro e, quatro anos mais tarde, cumulativamente, as mesmas funções no Sanatório Pedras Soltas. Em 1970, a seu pedido, abandonou a Estância Sanatorial do Caramulo.
Em Abril de 1970 encontramo-lo em Angola, onde é encarregado de organizar a luta antituberculosa no distrito do Bié, lugar que desempenha até Maio de 1973, altura em que é nomeado director do Hospital-Sanatório de Luanda. Ainda em Angola, exerce funções de Chefe de Serviço de Combate à Tuberculose e responsável pelo Curso de Tisiologia da Faculdade de Medicina de Luanda.
Após o seu regresso a Portugal, em Novembro de 1975, desenvolveu sempre a sua actividade clínica em Vila Real.
Foi durante a sua permanência profissional no Caramulo que conheceu a enfermeira Dona Maria Rodrigues Santos Mamede, natural de Santana da Serra (Ourique, Baixo Alentejo), com quem casou em 1955 e de quem teve quatro filhos.
O seu currículo médico foi sendo sucessivamente enriquecido com novos estudos, a publicação de trabalhos sobre pneumologia e o exercício de funções directivas, de que se destaca a direcção do Hospital-Sanatório de Luanda e a chefia do Serviço de Combate à Tuberculose de Angola.
No âmbito da actividade clínica, no distrito de Vila Real, desempenhou as seguintes funções (entre parênteses o ano da nomeação para o cargo): coordenador distrital do Serviço de Luta Antituberculosa – SLAT (1976); membro da Comissão Instaladora da Administração Distrital do Serviço de Saúde (1977); presidente da Assembleia Distrital da Ordem dos Médicos (1978); vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Patologia Respiratória (1980); presidente da Comissão Instaladora do Hospital Distrital de Vila Real e director clínico do mesmo (1991).
A carreira de médico e todas estas ocupações paralelas absorveram-no de forma quase total, pouca disponibilidade lhe concedendo para outras actividades. Mesmo assim, pôde encontrar tempo para a actividade política e para a escrita. No plano político, exerceu funções de Presidente da Assembleia Municipal de Vila Real. No plano literário, além de colaboração episódica e dispersa em algumas revistas, conferências e comunicações, publicou dois livros de contos, um livro de poesia e um romance (a que prefere chamar, não sem razão, crónica romanceada, pois o livro comunga dos dois géneros).
Os livros de contos, Gente da minha terra e Histórias selvagens, saíram em primeira edição em 1960 e 1963, respectivamente. De ambos se fez uma 2.ª edição em 2002. O livro de poesia, intitulado Material humano, saiu em 1997. O romance, Caramulo, em 2006.
A grande vocação de A. Passos Coelho é a de contista. Os seus contos – alguns de extensão considerável – retratam com realismo o meio rural vila-realense e a fauna humana que ali vive os seus dramas e as suas ambições. João Gaspar Simões disse numa recensão publicada no Diário de Notícias: “Não temos dúvidas em considerar o seu livro [Gente da minha terra] entre os melhores do género ultimamente aparecidos.” E, sobre o mesmo livro, escreveu Amândio César: “Trata-se de um volume de estreia, mas isso nada influi para a real categoria do escritor que aqui me aparece pela primeira vez”, para depois lhe apontar “um estilo forte, sadio, másculo”.
Sobre Caramulo, que reúne, como apontámos acima, características de crónica e de romance, escreve António Cabral: “É a relação com Marta e com os amigos do Grande Sanatório que transforma sobretudo a crónica num óptimo romance; é aí que ele começa a ganhar altura verdadeiramente literária, qualidade sem dúvida bem suportada pelo que no longo texto é apenas crónica.”
O livro Histórias selvagens serviu de argumento para um filme de António Campos.
* * *
Cada escritor é um caso novo. Se relativamente ao anteriormente tratado neste Ciclo, Alberto Lopes, não descobrimos referências explícitas a Vila Real, em A. Passos Coelho elas abundam em qualquer dos seus dois livros de contos, Gente da minha terra e Histórias selvagens. Mais do que contista da ruralidade trasmontana, ele é um contista da ruralidade vila-realense, que viveu de forma plena, na infância e na juventude, em Valnogueiras, e que nos revela nos contos, uma vez por outra com um pé na vila e o pensamento na diáspora que também foi sua e longa de 30 anos.
Mas A. Passos Coelho vai surpreender-nos muito mais, já que esta vivência rural teve sempre também os olhos postos na vila das décadas de 1930 e 1940 – também ela com muito de rural –, que ele retrata como ninguém foi ou será capaz de o fazer num livro ainda inédito, Eu e a minha Vila, acabado de escrever em Outubro de 2006 e que cometemos a inconfidência de revelar através de uma “ecografia” já muito próxima do nascimento da “criança” (esperamos).
Aí se conta como vem à vila pela primeira vez por volta dos seis anos de idade, atraído pela iluminação nocturna de que via as “milhentas luzinhas” na aldeia. Descobre um mundo fascinante: as ruas empedradas, a ponte metálica, a “casinha” onde declarou a cesta de cerejas que trazia para a avó materna, o “escritório dos elefantes, da cabeça de búfalo, dos flamingos e de mais bicharada africana” na casa da mesma avó (onde a sua educação é posta verdadeiramente à prova) e o circo, que foi sempre para as crianças uma forma de descoberta do mundo exterior e uma prova de que é possível vencer as dificuldades que a vida apresenta.
Levantámos a ponta do véu. O resto se verá a seu tempo.
Fonte:http://gremio.cm-vilareal.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=83&Itemid=28
Provérbios - Três por dia
2 - Na adversidade, se conhecem os amigos.
3 - Na adversidade se prova a amizade.
28 março 2014
Provérbios - Três por dia
2 - Má cepa, pior vinho.
3 - Má consciência, bolsa cheia.
2 - Má cepa, pior vinho.
3 - Má consciência, bolsa cheia.
3 - Má consciência, bolsa cheia.
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