06 abril 2014

MULHERES INSTRUIDAS/ ESCRITORAS,por Hercília Agarez

( A propósito de A Senhora Rattazzi de Camilo Castelo Branco)

“Guarda-te de homem que não fala, de mulher que faz versos e de cão que não ladra”.

    Em Carta de Guia de Casados, da autoria de D. Francisco Manuel de Melo, obra importante para o conhecimento da história social do nosso século XVII, deparamos com o conceito do escritor sobre a educação das mulheres e sobre o papel que lhe deve incumbir na sociedade. Resume-se este ao serviço doméstico como dona de casa, esposa e mãe: “Criou-as Deos fracas, sejam fracas; oxalá façam o que são obrigadas, não lhes quero pedir mais que a sua obrigação”.
    No que à sua educação diz respeito, tudo se resume à absoluta concordância do autor com a expressão popular “ Deus nos livre de mula que faz him e de mulher que sabe latim” que concretiza com o seguinte episódio: “ Confessava-se uma mulher honrada a um frade velho e rabugento; e como começasse a dizer em latim a confissão, perguntou-lhe o confessor: - ‘Sabeis Latim? ‘ Disse-lhe: - ‘Padre, criei-me em mosteiro’. Tornou-lhe a perguntar: - ‘Que estado tendes? ‘ Respondeu-lhe: -‘Casada’. A que tornou: - ‘Donde está vosso marido? ‘ – ‘Na Índia, meu padre’ (disse ela). Então com agudeza repetiu o velho: - ‘Tende mão, filha: sabeis latim, criastes-vos em mosteiro, tendes marido na Índia? Ora ide-vos embora, e vinde cá outro dia, que vos é força que tragais muito que dizer, e eu hoje estou com muita pressa”.
    Organizado em cartas como a obra anterior, surge, no século XVIII, época da vigência do Iluminismo, o livro do árcade Luís António Verney intitulado Verdadeiro Método de Estudar, considerado por António Sérgio “ a maior obra de pensamento que se escreveu em português”. Abrange ele matérias como a Linguística, a Oratória, a Poesia, a Filosofia, a Estilística e a Pedagogia. Com ele pretende Verney criticar a orientação escolástica dos estudos e orientá-los no sentido da utilidade que poderiam assumir, tanto no que dizia respeito à República como à Igreja.
    Na décima sexta carta, dedicada à educação das mulheres, defende-a convictamente, na certeza de que estas “discorrem tão bem como os homens”. Além disso, sendo elas as primeiras educadoras dos seus filhos, é de toda a conveniência que saibam o que dizem. Também como esposas a instrução lhes é útil, como explicita na seguinte passagem: “ Persuado-me que a maior parte dos homens casados que não fazem gosto de conversar com suas mulheres, e vão a outras partes procurar divertimentos pouco inocentes, é porque as acham tolas no trato; e é este o motivo que aumenta aquele desgosto que naturalmente se acha no contínuo trato de marido com mulher. Certo é que uma mulher de juízo exercitado saberá adoçar o ânimo agreste de um marido áspero e ignorante, ou saberá entreter melhor a disposição de ânimo de um marido erudito, do que outra que não tem estas qualidades”.
    Se, anteriormente ao século XX, a mulher instruída era vista como invasora de território reservado ao homem, o caso agravava-se quando ousava com ele competir no manejo da pena. A tal se atreveu, no século XVIII, a Marquesa de Alorna, considerada a Madame de Staël portuguesa e que nos legou as suas Obras Poéticas, em seis volumes, onde deixa transparecer características estéticas de uma sensibilidade romântica. Alexandre Herculano haverá de lhe ficar reconhecido pelo magistério que exerceu no seu famoso salão e cujo principal discípulo foi o poeta pré-romântico Filinto Elísio.
    Não fossem as circunstâncias conhecidas da vida de Ana Plácido, companheira de vida e de infortúnios de Camilo Castelo Branco, teria ela provavelmente ocupado um lugar de destaque nas letras da época. Colaboradora de jornais e revistas, cultivou a poesia e foi autora de dois romances, sendo o mais conhecido Luz Coada por Ferros que, como o título indicia, foi escrito nos dias que passou encarcerada com o escritor na Cadeia da Relação do Porto. Esta sua actividade literária terá sido estimulada pelo próprio novelista e tê-la-á feito abortar a falta de disponibilidade mental causada por múltiplos desgostos.
    Terá sido esta mulher, por razões sentimentais, uma excepção ao modo como o homem de Ceide encarava as mulheres escritoras. A ilustrá-lo, apoiemo-nos na polémica pessoal que o envolveu com uma princesa francesa, descendente dos Bonapartes pelo lado materno, mulher de complexa, aventurosa e faustosa existência, com um “currículo” donde sobressai o facto de ter sido amante de Victor Hugo. Dedicou-se ao jornalismo e à literatura e visitou vários países, entre os quais Portugal, onde fez “estragos” e gerou controvérsias. Aqui pretendeu impor-se como escritora, cultivando amizades nos meios sociais, políticos e artísticos, tendo sido famosas as recepções em que tudo fazia para insinuar-se e ganhar notoriedade a qualquer preço.
    Não terá conseguido os seus intentos. Despeitada, publicou o livro Portugal à vol d’oiseau, resultante das duas viagens que fez ao nosso país em 1876 e 1879, traduzido em 1881 com o título Portugal de relance. Nele faz a autora considerações críticas que atingem vários alvos: o clero (para ela representado pela figura do Padre Amaro de Eça), a história de Portugal, a política e seus destacados membros, o jornalismo, a vida íntima dos portugueses, a aristocracia, o sector hoteleiro (refere que os hotéis de Lisboa têm ratos e percevejos), a literatura em que são zurzidos, entre outros, Herculano, Castilho, Bulhão Pato, Júlio Dinis, Mendes Leal e…obviamente, Camilo.
    Quem conhece o carácter quezilento e irascível do escritor, a sua tendência a entrar, por tudo e por nada, numa boa polémica, compreenderá que lhe seria impossível não sair a terreno para defender a sua dama, neste caso a sua obra, encabeçando a legião dos esperados contestatários. Assim, publica em 1880 o folheto A Senhora Rattazzi em cujo preâmbulo, a reboque de D. Francisco Manuel de Melo (“ Mulheres doutoras, autoras e compositoras dava-as o diabo”) exprime a sua opinião sobre as mulheres escritoras. Estaria a pensar em Les Femmes Savantes de Molière?
   
    “ Mulher escritora, por via de regra pouco exceptuada, é um homem por dentro. O coração, que lhe devia ser urna de suavíssimas lágrimas, faz-se-lhe botija de tinta; e as doces penas da alma metalizam-se-lhe aguçadas em penas de aço. O fuso de Lucrécia e da rainha Berta desfez-se em canetas. Em vez de tecerem o seu bragal, urdem intrigas. (…)
    Não há feminilidades que se respeitem desde que a mulher se masculiniza, e, como escritora virago, salta as fronteiras do decoro, sofraldando as espumas das rendas até à altura da liga azul-ferrete.
    […] Eu, criado no velho noticiário, tendo de anunciar o produto duma dama dado à luz, antes quisera, em vez dum livro bom, anunciar um menino robusto. Acho muito mais simpática a feminilidade de mães pálidas, com olheiras, emaciadas, que aconchegam dos seios exuberantes a criancinha rosada, recém-nascida. Não me comove nem alvoroça o espectáculo de uma autora que se remira e envaidece na brochura que deu à luz, obra entre cinco e sete tostões – 740 réis com estampilha. Por isso, antes quero noticiar um menino robusto que um oitavo compacto”.
    No corpus do texto polémico, Camilo regista e contesta as várias barbaridades contidas numa publicação cujo título sugere a superficialidade das abordagens feitas. A terminá-lo, regista:
    “Vence-me o tédio; mas não me punge o remorso de ter lido 415 páginas. Tenho, porém vergonha de que um ou outro português, desnacionalizado por despeitos pessoais e políticos, se compraza de ver os seus conterrâneos enxovalhados pela srª Rattazzi, cuja maledicência é notoriamente europeia. O seu renome de estilista desbragada sem cerimónia ganhou-o em Itália e Paris a ponto de lhe imputarem as brochuras crapulosas do infame bandido Vésinier, um corcunda petroleiro que espingardearam em 71”.
    Que escreve a princesa escritora sobre Castelo Branco? Pouco mais do que isto: “ Todos os romances do solitário de S. Miguel de Ceide contêm infalivelmente um tipo de brasileiro, uma rapariga que se recolhe a um convento, um fidalgo de província e um romântico apaixonado e transparente. É invariável como a chuva e o bom tempo. De forma que o primeiro romance que se lê do Sr. Branco parece muito interessante, o segundo acorda reminiscências, e o terceiro adivinha-se; o quarto sabe-se de cor, volta-se a página sabendo-se o que vai passar-se. É uma galeria de personagens que raramente se renova, como a dos museus de figuras de seda”.
    Esta opinião remete para a de Miguel Torga, constante de entrada de Outubro de 1937: “ Este Camilo, com o devido respeito, lembra-me sempre uma romaria…
    Muita gente, muito vinho, música, a procissão com o Brasileiro que paga tudo à vara do pálio, a missa, o sermão, a menina que comunga, o homem da vermelhinha, o jantar na Residência, e o arraial à noite, com foguetes de lágrimas, onde se acaba tudo aos tiros e às facadas”.

                                                                                                                                 Diário I

 Hercília Agarez

05 abril 2014

Provérbios - Três por dia


1 - Vá a corda trás o caldeirão.
2 - Vá pedra a quem toque.
3 - Vá a velha onde tem de ir, e volta para em casa dormir.

Fulgurações do Silêncio, António Moraes Machado

Canto

Canto somente o que sinto.
Os sonhos que faço nascer,
E me alimentam,
E os que não quero ter,
E me atormentam.

Canto a vida
E a felicidade
De viver cada minuto,
E canto também a amargura
Que me entristece
E me dá luto.

Canto a minha filha
Que me dá amor,
Paz,
Tranquilidade.
E canto também o meu filho,
Torrente de angústia,
Que me corrói o peito de saudade.

Canto a agitação profunda,
O sofrimento que tortura
E me afunda.
Canto a emoção
Das coisas belas,
Que dão à vida uma razão.
Canto a tristeza
E a alegria,
Desde que me toquem bem fundo.
Canto a noite

E canto o dia.

Homenagem ao povo mirandês -Álbum de memórias


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Provérbios - Três por dia



1 - Tabaco e aguardentes transformam os sãos em doentes.
2 - Tabaco, vinho e mulheres deleitam a juventude, e com regra dão saúde.
3 - Tabardo e botas cobrem as costas 

04 abril 2014

Mais um transmontano no Jornal de Letras ( Tiago Patrício )


O 'ORICIONÁRIO' MIRANDÊS: A LÍNGUA DAS ORAÇÕES, por Amadeu Ferreira



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CONVITE - João de Araújo Correia – Cronista das Gentes do Douro

A Direcção da Casa Regional dos Transmontanos e Alto-Durienses do Porto e o autor, Manuel Joaquim Martins de Freitas, têm a honra de convidar V.ª Ex.ª a participar, dia 12 de Abril de 2014 (sábado), às 15h30, na apresentação do livro João de Araújo Correia – Cronista das Gentes do Douro, que vai realizar-se no Salão Nobre daquela Casa Regional, na Rua de Costa Cabral, 1037, na Cidade do Porto.
Apresentação na Câmara de Lamego a 15 de Março de 2014.
Fonte:http://www.cm-lamego.pt/categoria-noticias/237-martins-de-freitas-publica-joao-de-araujo-correia-cronista-das-gentes-do-douro

03 abril 2014

Provérbios - Três por dia

1 - S. Brás bendito, que se afoga este animalito.
2 - S. Brás de Canelas te desafogue das goelas. (Trás-os-Montes)
3 - S. Domingos, água abaixo.

HOMENS DE GRANITO, Antero Neto


O REGRESSO 

Alberto chegou com a chuva. Uma chuva miudinha que caía de forma irregular, mas que era vista como uma bênção no nordeste transmontano depois de longos meses de seca que vinha afectando a região. A primeira sensação que experimentou ao descer os degraus da camioneta e pisar o chão revestido a paralelos da paragem da aldeia, foi o cheiro forte da terra molhada que emanava das redondezas, e que o fez recuar automaticamente à sua distante infância.
Tinha partido há coisa de trinta anos. Tinha partido para não regressar. Mas o destino trocou-lhe as voltas e ali estava ele no meio do largo principal da aldeia onde nasceu e se fez moço. À sua espera estava a velha tia Ermelinda, irmã solteirona de seu pai, último laço de sangue com aquele lugar inóspito, abandonado para lá das serranias.
“As terras pequenas não fazem os homens grandes!” – a frase mil vezes repetida pelo seu tio António ainda lhe martelava na cabeça como no dia em que olhou pela última vez para o largo central da aldeia. O tio, sacerdote local e irmão de seu pai, tinha-
-o criado juntamente com a velha Ermelinda que agora reencontrava. A morte prematura dos pais quando ele ainda dava os primeiros passos obrigou os tios a tomá-lo como um filho. Nunca lhe faltou nada. Porém, o pároco educou-o com mão de ferro. “Tens que ser um homem. Tens que ser alguém na vida. Olha que um homem sem estudos é como uma cria indefesa no meio da selva. Vai-te embora. Vai para a cidade. Não te prendas aqui.
Eu pago-te os estudos. Olha que as terras pequenas nunca fizeram os homens grandes”. Parece que ainda o estava a ouvir, com o semblante cerrado e a voz firme: “essa rapariga não te serve! Quando te formares não te vão faltar cem raparigas melhores que ela! Vai pelo que te digo!”
Mariana era uma moça espigadota para a idade. Os dezasseis anos que o bilhete de identidade indicava não tinham correspondência com o corpo adulto de mulher que já ostentava. Não havia em toda a aldeia moço ou homem que lhe ficasse indiferente. Quis o destino que se embeiçasse por Alberto. Ou por serem vizinhos, ou porque brincassem sempre juntos, tinham tecido entre si uma cumplicidade tal que não havia tempestade que os separasse. “Lá vai o saco e a baraça!” – comentavam na aldeia sempre que os viam passar juntos.
Mas esse destino que os juntou foi mais forte que todos os laços do mundo e separou-os.
Alberto tinha conseguido resistir aos apelos e aos ralhos do tio que, sistematicamente e sem sucesso, tentava impelir o sobrinho a seguir uma carreira nos estudos. Resistiu enquanto pôde, motivado pelos amores de Mariana. Mas tal como os mancebos de todo o país, também ele recebeu uma convocatória para a tropa. E quando o tio lhe entregou o farnel para a viagem e uma nota de vinte escudos para os primeiros gastos, segredou-lhe ao ouvido: “Não te quero voltar a ver aqui! Fica na cidade! Estuda! Eu farei todos os sacrifícios que forem necessários. Eu e a tia vamos ver-te onde tu estiveres, mas não voltes a pôr aqui os pés, ouviste bem? Lembra-te do que eu te disse: as terras pequenas não fazem os homens grandes!”
As palavras do velho foram premonitórias. Alberto não voltou à terra natal. Enquanto cumpria o serviço militar enamorou-se de uma enfermeira de Lisboa, com quem veio a casar mal passou à disponibilidade. A mulher incentivou-o a estudar. Motivado pela família e descobrindo uma ambição que julgara não ser a sua, veio a licenciar-se. Desse casamento nasceram dois filhos. Os tios visitavam-no com regularidade. O passado idílico vivido na aldeia não era mais que uma recordação vaga, devidamente enterrada no baú da história. Apenas se lembrava das origens quando lhe punham uma alheira, ou um salpicão à frente. A tia Ermelinda encarregava-
-se de que não lhe faltassem na mesa as coisas boas da terra.
Ao entrar na aldeia, foi como se um clarão o iluminasse.
Um súbito “flashback” atravessou-lhe a mente. Foi como se tivesse vivido duas vezes. Nasceu naquela aldeia e morreu quando foi para a tropa. Tornou a nascer em Lisboa e sentia-se agora a morrer de novo. Para regressar à primeira vida. Estava a sentir uma espécie de reencarnação.
A esposa tinha falecido havia aproximadamente quatro anos. Os filhos já estavam formados e tinham-se tornado independentes. A reforma trouxe-lhe uma inesperada solidão. Por isso começou a planear um regresso. Só não sabia quando reuniria a coragem suficiente para o concretizar.
E mais uma vez o destino deu-lhe o necessário empurrão.
O tio octogenário faleceu. Foi o pretexto inesperado para tomar uma decisão que se acovardava no seu inconsciente.
Quando pisou o solo patrício e recebeu nos braços a tia emocionada, foi como se estivesse a pisar a lua. Ainda não acreditava que estava outra vez em casa. “A nossa terra é aquela onde nos fazemos homens” – tinha ouvido ou lido algures. E ele tinha-se feito homem ali. Por mais que a sua vida de adulto se tivesse estruturado em Lisboa, não podia olvidar que tinha sido ali que tinha bebido os valores mais primários. Tinha sido ali que tinha lutado pela primeira vez. Tinha sido ali que tinha feito os seus primeiros amigos. E tinha sido ali que tinha amado pela primeira vez. E… maldita hora em que o fez.
A segunda pessoa com quem se deparou na aldeia foi com o velho Bernardino. Apesar da distância temporal e dos seus nefastos efeitos na natureza humana, reconheceu de pronto a figura do pai de Mariana. Num impulso incontrolável dirigiu-se ao velho e cumprimentou-o:
Então ti Bernardino, como é que vai essa saúde?
E o senhor quem é? – retorquiu o velho, sem fazer a mínima ideia com quem estava a falar.
Sou o Alberto. O Alberto do ti padre António...
O Alberto?
Sim! Então não se lembra de mim?
O velho olhou amargurado para o outro e disse-lhe com voz agastada:
Não me lembro eu de outra coisa. Desgraçaste a minha vida e a da minha filha. Pensei que tinhas morrido...
Não diga isso, homem de Deus...
Pois mais valia que tivesses morrido lá na guerra. Ao menos assim não me tinhas desgraçado a vida. P’ra mim morreste. Adeus.
Dito isto, o velho afastou-se o mais rápido que as pernas cansadas lhe permitiam, deixando o outro cabisbaixo, derrotado, como se tivesse levado uma bofetada de um gigante.
O que é que tu querias, meu filho? Que te recebessem de braços abertos, depois do que tu lhes fizeste? – interveio a velhota, condoída com a reacção do sobrinho ao diálogo.
Se calhar tem razão minha tia... – balbuciou, enquanto pegava no saco e se dirigia para a casa familiar no centro da aldeia.
Uma vez ali chegado, chorou lágrimas silenciosas agarrado às memórias de uma vida que tinha enterrado quando partiu. Sentiu-se desanimado. Com vontade de partir sem sequer desfazer a bagagem. Pediu à tia que o escusasse da presença no velório. Não lhe apetecia encarar com mais ninguém. Queria lamber as feridas sozinho, longe dos olhares curiosos dos conterrâneos e dos cochichos das beatas.
Estava nisto quando ouviu bater à porta. Devia ser alguém que vinha apresentar as condolências à tia. A contra gosto foi ver quem era. Quando abriu a porta sentiu-se desfalecer. Era ela.
Era Mariana. Mais velha, mas igualmente bela. Resplandecente. As marcas do tempo tinham-na beneficiado.
Olá fantasma. Ouvi dizer que regressaste dos mortos para me atormentar... atirou-lhe ela com um sorriso doce e uma voz suave.
Mariana! Que surpresa! Depois do que o teu pai me disse, pensei que não me querias ver nem morto! – respondeu ele ainda mal refeito da surpresa.
Mas, e se alguém te vê aqui, que dirão?
Ninguém sabe que estou aqui. A aldeia está toda no velório do teu tio (onde tu também devias estar…). Então não me convidas a entrar?
Claro, claro! Desculpa, mas ainda estou meio zonzo. Entra, entra...
E então, a tua família não veio? A tua mulher e os teus filhos?
A minha mulher já faleceu...
Ah, não sabia, desculpa...
Não faz mal. E os meus filhos não puderam vir. Sabes que é longe e eles já trabalham os dois.
Vais demorar por aqui?
Não sei. Depende... já me reformei. E agora como estou sozinho na vida, se calhar vou-me mudar para cá. Venho fazer companhia à minha tia.
Não faças isso Alberto! Peço-te por tudo o que tu tens mais sagrado! – atirou ela surpreendentemente.
Porquê? – reagiu Alberto, meio estupefacto com a veemência do pedido de Mariana.
Porquê? Então tu não sabes o mal que me fizeste? Juraste-me amor eterno! Entreguei-me totalmente e depois abandonaste-me sem me dar uma satisfação e ainda vens perguntar-me porquê? Queres atormentar o resto dos meus dias? Se ainda te resta alguma dignidade vai-te embora tão depressa como vieste! Eu não te posso ver, percebes? Não posso estar na mesma terra que tu! Só vim cá para te dizer que não és bem-vindo! Nunca mais homem algum olhou para mim com respeito. Eu agora sou a rameira da terra, sabias? Querias tanto ser alguém, não era? Então agora já és, mas vai-te embora, por favor. Em nome de algum sentimento que tiveste por mim...
Alberto estava literalmente siderado. Ao ouvir Mariana a chorar e a dirigir-lhe aquelas palavras tão duras, sentiu que todas as expectativas, todos os sonhos construídos nos últimos dias se desmoronavam como castelos de cartas. Quão frágil se sentia! Ao mesmo tempo que ouvia a voz aguda da mulher, sentia que mil setas o trespassavam, dilacerando-lhe a carne e aniquilando-lhe o espírito. Sentiu-se reduzido à mais ínfima partícula de matéria humana existente no universo.
Mas... Mariana, eu só queria estar contigo. Tu não sabes o que eu sofri todos estes anos. Eu amo-te...
Mentira descarada, Alberto. Não passas de uma triste ilusão. É o que foste e o que serás até ao fim dos teus dias.
Não digas isso meu amor. Eu errei. Tenho consciência disso. Mas ainda vamos a tempo de construirmos alguma coisa juntos. Ainda somos novos. Tu estás mais bonita do que alguma vez foste...
Cala-te Alberto. Cala-te, por favor... suplicou a mulher, com lágrimas nos olhos, enquanto se deixava descair para os braços dele.
Alberto não disse nada. Tomou-a no colo e apertou-a com força. O desejo era mútuo e incendiou os corpos sedentos. Fizeram amor como se fosse simultaneamente a primeira e a última vez. Até à exaustão. Caíram extenuados e ficaram a contemplar a expressão ao mesmo tempo surpresa e feliz.
Ela foi a primeira a reagir:
Não devíamos ter feito isto. Foi um erro!
Chiu! – Sussurrou Alberto enquanto lhe encostava o dedo aos lábios – não digas mais nada. Amo-te como ninguém amou. Quero ver os teus cabelos passarem de cinzentos a brancos. Quero envelhecer contigo ao meu lado.

Sabes bem que isso não é possível. Amanhã, depois do funeral do teu tio vais partir novamente. Se me amas mesmo, não voltas cá.
Mas...
Nem mas, nem meio mas. A vida não é um conto de fadas. A aldeia não é a mesma. As pessoas mudaram muito. Tu já não te enquadras aqui. O teu lugar é na cidade. Volta para lá. Acompanha os teus filhos. Aquilo que acabámos de fazer foi muito bom, mas não se vai repetir. Foi a minha despedida. Não me voltas a ver. Adeus.
Enquanto proferia estas palavras levantou-se, compôs a roupa, deu um beijo na fronte de Alberto e saiu porta fora.
Alberto não voltou a ver Mariana. Esta não foi ao funeral do tio. Quando se dirigia para casa dela surgiu-lhe o pai à frente e mandou-o embora, dizendo-lhe que ali não seria recebido.

Com o coração destroçado, arrumou as suas coisas e partiu no autocarro, deixando para trás o passado e o futuro, debaixo de chuva miudinha, tal como tinha chegado.

31 março 2014

Provérbios - Três por dia

1 - Paciência de velho tem pouco valor.
2 - Paciência é a mãe da honra.
3 - Paciência e sebo de grilo é bom para aquilo.

O RIO QUE PERDEU AS MARGENS, por António Cabral


António Cabral frequentou o curso teológico do Seminário de Vila Real e obteve a licenciatura em Filosofia pela Universidade do Porto. Depois de abandonar a vida sacerdotal, ingressou no ensino secundário, sendo professor efectivo da Escola Secundária Camilo Castelo Branco. A partir de 2001 foi professor de Cultura Geral, na Universidade Sénior de Vila Real. Era conhecido pelas suas conferências em centros culturais, escolas do ensino básico, secundário e universitário, tanto em Portugal como no estrangeiro, Galiza e Alemanha sobretudo, falando de temas que lhe eram preferidos, tais como literatura, jogos populares e pedagogia do jogo.
Como animador sociocultural, fundou em 1979 o Centro Cultural Regional de Vila Real, do qual foi Presidente da Direcção até 1991, ano em que passou a ser o Presidente da Assembleia Geral. Foi sobretudo na investigação e organização de festas de jogos populares que a sua acção se tornou mais notória. Através deste Centro promoveu cinco encontros de escritores e jornalistas de Trás-os-Montes e Alto Douro: em Vila Real (1981), Chaves (1983), Bragança, Mirandela e Miranda do Douro (1984), Lamego, Régua e Alijó (1985) e Vila Real (1997). Foi perito do Conselho da Europa no II Estágio Alternativo Europeu sobre Desportos Tradicionais e Jogos Populares, realizado em Lamego, em 1982. Foi ainda o principal responsável pela organização dos Jogos Populares Transmontanos e Jogos Populares Galaico-Transmontanos, com início respectivamente em 1977 e 1983. No Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis, que antecedeu o Instituto da Juventude, desempenhou os cargos de Delegado do Distrito de Vila Real e Coordenador da Zona Norte, entre 1974 e 1976. Foi Presidente da Direcção e mais tarde Presidente da Assembleia Geral, da Associação Nacional de Animadores Socioculturais, fundada em 1995. Desde Março de 1996 até final de Janeiro de 2004, foi Delegado do INATEL no Distrito de Vila Real, o que lhe permitiu privilegiar a cultura popular.
No domínio das letras e das artes fundou em Vila Real, em 1962, a revista Setentrião, a revista Tellus de que foi o primeiro director em 1978, e o mensário Nordeste Cultural, em 1980. Era membro do Conselho de Redacção da revista galaico-portuguesa O Ensino. Foi agraciado com as medalhas de prata de mérito municipal de Alijó (1985) e de Vila Real (1990). Foi seleccionado para Maletas Literárias de duzentos livros portugueses, no programa Territórios Ibéricos em 2004-2005. Teve uma colaboração dispersa por revistas e jornais portugueses e estrangeiros, salientando-se a colaboração semanal entre Novembro de 1993 e Janeiro de 1995 no jornal Público, com textos sobre tradições populares. Colaborou ainda com o Semanário Transmontano, com o jornal Entre Letras, de Tomar, e com os periódicos Notícias do Douro e Notícias de Vila Real. Teve participação em programas de rádio e de televisão, colectâneas escolares, obras colectivas e antologias de poesia, tais como Poesia Portuguesa do Pós-Guerra, Poesia 71, Oitocentos Anos de Poesia Portuguesa, Hiroxima, Vietname, Poemabril, Ilha dos Amores, O Trabalho, Poetas Escolhem Poetas. Alguns poemas de António Cabral foram cantados por Manuel Freire, Adriano Correia de Oliveira e Francisco Fanhais. Prefaciou e/ou fez a apresentação de diversos livros, entre eles, Cantar de Novo, de José Afonso e Ser Torga, de Fernão Magalhães Gonçalves e também de obras de escritores transmontanos com projecção nacional como Bento da Cruz e António Manuel Pires Cabral.
BIBLIOGRAFIA:

30 março 2014

Provérbios - Três por dia

1 - O abade canta do que janta.
2 - O abismo atrai o abismo.
3 - O Abril é um rapaz, não sabe o que faz.

UM EXEMPLO PARA OS INTELECTUAIS TRANSMONTANOS: TRINDADE COELHO E A LÍNGUA MIRANDESA, por Amadeu Ferreira

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UM EXEMPLO PARA OS INTELECTUAIS TRANSMONTANOS: TRINDADE COELHO E A LÍNGUA MIRANDESA, por Amadeu Ferreira

HISTÓRIAS SELVAGENS - Contos, por A. Passos Coelho


António Passos Coelho nasceu em Valnogueiras, concelho de Vila Real, em 31 de Maio de 1926, filho de Paulino José Alves Coelho e Dona Margarida do Carmo Teixeira Passos. O pai era lavrador, podendo considerar-se abastado pelos padrões da época e do lugar. A mãe era professora primária.O casal teve dez filhos, sendo António o penúltimo. Esta prole numerosa condicionou de algum modo a escolaridade de António, que, após concluir a instrução primária em Valnogueiras, não pode vir estudar para Vila Real, como era seu desejo, uma vez que alguns dos seus irmãos andavam então nos estudos e os rendimentos paternos não podiam suportar mais aquela despesa. Mesmo assim, tendo a forte aspiração de vir a ser médico, estudou em regime doméstico, apresentando-se na altura própria a exame do 3.º e depois do 6.º ano. Finalmente pôde inscrever-se no 7.º ano, no Liceu de Vila Real, que concluiu em 1945.
Terminado o ensino secundário, A. Passos Coelho matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, onde se formou em 1953, não sem ter perdido dois anos, por motivo de saúde. Mais exactamente, uma tuberculose que se declarou logo no 1.º ano do curso e acabou por o obrigar à interrupção no 4.º ano. Esteve então internado no Caramulo – experiência que retrata com pormenor e crueza no seu romance Caramulo.
Em 1954 é convidado para estagiário do corpo clínico da Estância Sanatorial do Caramulo. Prossegue entretanto os seus estudos de especialização, após os quais obtém, em 1960, em provas públicas, o título de especialista em Pneumotisiologia da Ordem dos Médicos. Permanece ligado àquela estância, passando a exercer, ainda em 1960, as funções de director clínico do Sanatório Sameiro e, quatro anos mais tarde, cumulativamente, as mesmas funções no Sanatório Pedras Soltas. Em 1970, a seu pedido, abandonou a Estância Sanatorial do Caramulo.
Em Abril de 1970 encontramo-lo em Angola, onde é encarregado de organizar a luta antituberculosa no distrito do Bié, lugar que desempenha até Maio de 1973, altura em que é nomeado director do Hospital-Sanatório de Luanda. Ainda em Angola, exerce funções de Chefe de Serviço de Combate à Tuberculose e responsável pelo Curso de Tisiologia da Faculdade de Medicina de Luanda.
Após o seu regresso a Portugal, em Novembro de 1975, desenvolveu sempre a sua actividade clínica em Vila Real.
Foi durante a sua permanência profissional no Caramulo que conheceu a enfermeira Dona Maria Rodrigues Santos Mamede, natural de Santana da Serra (Ourique, Baixo Alentejo), com quem casou em 1955 e de quem teve quatro filhos.
O seu currículo médico foi sendo sucessivamente enriquecido com novos estudos, a publicação de trabalhos sobre pneumologia e o exercício de funções directivas, de que se destaca a direcção do Hospital-Sanatório de Luanda e a chefia do Serviço de Combate à Tuberculose de Angola.
No âmbito da actividade clínica, no distrito de Vila Real, desempenhou as seguintes funções (entre parênteses o ano da nomeação para o cargo): coordenador distrital do Serviço de Luta Antituberculosa – SLAT (1976); membro da Comissão Instaladora da Administração Distrital do Serviço de Saúde (1977); presidente da Assembleia Distrital da Ordem dos Médicos (1978); vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Patologia Respiratória (1980); presidente da Comissão Instaladora do Hospital Distrital de Vila Real e director clínico do mesmo (1991).
A carreira de médico e todas estas ocupações paralelas absorveram-no de forma quase total, pouca disponibilidade lhe concedendo para outras actividades. Mesmo assim, pôde encontrar tempo para a actividade política e para a escrita. No plano político, exerceu funções de Presidente da Assembleia Municipal de Vila Real. No plano literário, além de colaboração episódica e dispersa em algumas revistas, conferências e comunicações, publicou dois livros de contos, um livro de poesia e um romance (a que prefere chamar, não sem razão, crónica romanceada, pois o livro comunga dos dois géneros).
Os livros de contos, Gente da minha terra e Histórias selvagens, saíram em primeira edição em 1960 e 1963, respectivamente. De ambos se fez uma 2.ª edição em 2002. O livro de poesia, intitulado Material humano, saiu em 1997. O romance, Caramulo, em 2006.
A grande vocação de A. Passos Coelho é a de contista. Os seus contos – alguns de extensão considerável – retratam com realismo o meio rural vila-realense e a fauna humana que ali vive os seus dramas e as suas ambições. João Gaspar Simões disse numa recensão publicada no Diário de Notícias: “Não temos dúvidas em considerar o seu livro [Gente da minha terra] entre os melhores do género ultimamente aparecidos.” E, sobre o mesmo livro, escreveu Amândio César: “Trata-se de um volume de estreia, mas isso nada influi para a real categoria do escritor que aqui me aparece pela primeira vez”, para depois lhe apontar “um estilo forte, sadio, másculo”.
Sobre Caramulo, que reúne, como apontámos acima, características de crónica e de romance, escreve António Cabral: “É a relação com Marta e com os amigos do Grande Sanatório que transforma sobretudo a crónica num óptimo romance; é aí que ele começa a ganhar altura verdadeiramente literária, qualidade sem dúvida bem suportada pelo que no longo texto é apenas crónica.”
O livro Histórias selvagens serviu de argumento para um filme de António Campos.
    
* * * 

Cada escritor é um caso novo. Se relativamente ao anteriormente tratado neste Ciclo, Alberto Lopes, não descobrimos referências explícitas a Vila Real, em A. Passos Coelho elas abundam em qualquer dos seus dois livros de contos, Gente da minha terra e Histórias selvagens. Mais do que contista da ruralidade trasmontana, ele é um contista da ruralidade vila-realense, que viveu de forma plena, na infância e na juventude, em Valnogueiras, e que nos revela nos contos, uma vez por outra com um pé na vila e o pensamento na diáspora que também foi sua e longa de 30 anos.
Mas A. Passos Coelho vai surpreender-nos muito mais, já que esta vivência rural teve sempre também os olhos postos na vila das décadas de 1930 e 1940 – também ela com muito de rural –, que ele retrata como ninguém foi ou será capaz de o fazer num livro ainda inédito, Eu e a minha Vila, acabado de escrever em Outubro de 2006 e que cometemos a inconfidência de revelar através de uma “ecografia” já muito próxima do nascimento da “criança” (esperamos).
Aí se conta como vem à vila pela primeira vez por volta dos seis anos de idade, atraído pela iluminação nocturna de que via as “milhentas luzinhas” na aldeia. Descobre um mundo fascinante: as ruas empedradas, a ponte metálica, a “casinha” onde declarou a cesta de cerejas que trazia para a avó materna, o “escritório dos elefantes, da cabeça de búfalo, dos flamingos e de mais bicharada africana” na casa da mesma avó (onde a sua educação é posta verdadeiramente à prova) e o circo, que foi sempre para as crianças uma forma de descoberta do mundo exterior e uma prova de que é possível vencer as dificuldades que a vida apresenta.
Levantámos a ponta do véu. O resto se verá a seu tempo.
 
Fonte:http://gremio.cm-vilareal.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=83&Itemid=28

Provérbios - Três por dia

1 - Na abertura da saca é que está o governo.
2 - Na adversidade, se conhecem os amigos.
3 - Na adversidade se prova a amizade.

28 março 2014

Provérbios - Três por dia

1 - M. macombé, bate no cu e vai-te esconder.
2 - Má cepa, pior vinho.
3 - Má consciência, bolsa cheia.

A vida é…,de António Sá Gué

A vida é 
uma tangente de fantasia
que toca almas sem chão.

Duas retas paralelas
de um plano pessoal,
que se cruzam no infinito
de um universo emocional.

Três pontos de uma parábola,
três vértices, três premissas,
três incógnitas de uma função,
unidas por uma razão.

Quatro traços perpendiculares
de uma respeitável fachada.

Cinco linhas quebradas
por dúvidas cartesianas.

27 março 2014

POR AMOR TAMBÉM SE MORRE,por Carlos Carvalheira

Vale da Vilariça.Foto: Leonel Brito
No Estio, o vale é um braseiro.
Encurralado entre Bornes e o Reboredo, a saber a frio e a ferro, e limitado pelas alturas escorregadias e quase abruptas da Lousa até para lá de Vila Flor, o vale é um dinossauro violento, recostado em leito húmido. Vê-se-lhe a cauda lá acima, a norte, a estancar as iras da serra. E, cá em baixo, na Foz, as fauces escancaradas, muito irregulares, a vomitar escorrências e imundícies na curva do Douro. E, por toda a amplidão do vale, o dorso calmo, tranquilo, estranhamente sossegado.
Mas é uma fera, o vale. É o Éden e a Geena.
Para experimentar Abraão, criou Deus o cume da montanha; para sacrificar os homens, concedeu-lhes toda a largura do vale.
No Inverno é ameno, suave. Mas, apertado nos estreitos braços da natureza e alagado pelos ribeiros e riachos que o alimentam, rapidamente muda de aspecto. As águas, repelidas pelos contrafortes pedregosos do Monte Meão, refluem e tornam a paisagem lisa, uniforme e magestática. É a rebofa, que atormenta os homens, alaga os campos e cobre casas e plantas. Como o Nilo, no Egipto, em tempos de judeus e de faraós.
Mas, no Verão...  O vale, no Estio, é um braseiro de assar pessoas e animais. A terra úbere, estrumada com os sedimentos carreados pelas águas inverniças, gera trigos e joios em abundância. Porque, na terra que dá o pão, germina, indistintamente, a cizânia. E é preciso cuidar de um e estiolar o outro. Por isso, no Verão, o vale é um formigueiro.
Na aragem do vale tudo é temporão. O dia, as primícias, os calores. Tudo vem cedo. Até a vida... Até a morte.
 Os sem-terra, os desprivilegiados da era agrária, vêm de todas as geografias. Do Castedo e do Vilarinho, da Cabeça de Mouro, da Vide, dos Estevais, do Felgar... E da Cabeça Boa... E da Vila... E até de mais longe... Vêm homens, vêm mulheres... Vêm jovens e de meia idade... Até os velhos... Até as crianças, que trocam a escola e a vida por ajudas de miséria que os braços todos são poucos e débeis para os trabalhos de Hércules que é preciso levar ao fim.
A jorna é longa. Longa e dura. Ainda os mochos piam, suspensos da ramagem do arvoredo que enxameia as encostas circundantes...  ainda os melros não acordaram o arrebol com as suas gargalhadas brancas, fugidias... Ainda as rolas não embalam a manhã com os seus gemidos suaves, inocentes e já os capatazes gritam que vem o dia chegando, que a noite foi demorada para o descanso, que a jeira é cara e a jorna curta para tanto trabalho.
 E, à noite, já os corvos abalam para ocidente a perseguir o sol...  Já o noitibó percorre os caminhos denunciando os rebanhos a recolher ao bardo... Já as rãs coaxam nas margens do Sabor e nos limos dos riachos e dos ribeiros... E ainda os capatazes de vozes duras e roucas e cenhos avinagrados mandam recolher alfaias e cuidar animais.
Mas é noite. E os homens ressequidos e exaustos precisam de um leito em que se abandonem para acalmar os ardores que as chagas despertam nos corpos e nas almas dos jornaleiros. Porque amanhã... E depois... E depois ainda... É preciso viver. Troca-se a vida por canseiras.
Olhai as aves do campo que não semeiam nem criam...
Mas essas, as aves, comem trigo, comem joios, comem pão, comem cizânias. O homem, esse, faz escolhas. E dessa consciência lhe advêm medos e insatisfações, dúvidas e angústias. Por isso, todo o dia, todos os dias, homens e mulheres descem à Ribeira, trazendo a vida para levar canseiras. O ar é quente, abafado. A água dos pequenos charcos e poços queima os pés e tortura as mentes. E, nesse ambiente, não raro sucumbem os corpos, tiritando de frio ao peso das maleitas, das febres, das sezões. 

26 março 2014

Provérbios - Três por dia


1 - Lá cai o sino e o sacristão.
2 - Lá como cá más fadas há.
3 - Lá dizem os de Montalvão: Lavar cabeças a burros é gastadouro de sabão.