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24 março 2014
22 março 2014
Provérbios - Três por dia
2 - Já a burrinha jaz no pego.
3 - Já a formiga tem que (quer ter) catarro!
Mimórias de bidas, por António Cangueiro
Mimórias de bidas
Achega se mos un oulor a las
narizes i risas de miles quelores…son
Rosas, senhor, son Rosas, nun ye l milagre de las Rosas mas l çpertar de
todo l que drume ambiernos lhargos de suonhos…Jardin de la Streilha, an Lisboua,
amostra mos l milagre de bida. L Museu João de Deus, eilhi, an zlhado, amostra
mos mimórias de bidas hai muito drumidas. Poucos dies apuis de l salimiento de
l lhibro subre la bida de João de Deus, eiqui stou outra beç.
Amadeu Ferreira ambestiga la bida
i obra de personalidade lhigadas a la lhéngua mirandesa zde hai muito. Albino
Morais Ferreira ye ua dessas personalidades. Fui porsor i andubo pur tierras de
Miranda i ten cartas screbidas para João de Deus i serie buono saber se algua deilhas
falaba de la lhéngua i cultura mirandesa.
Tener antre manos cartas cun 140
anhos, screbidas por personalidades purmeiras desta naçon i lhigadas a la
nuossa lhéngua, ye muita eimoçon! Çfolha-se, lei-se, bei-se l índice, outros
nomes…Manuel Sardinha / Manuel Sardenha… «bei
esse». Letra bien feita, fácele de ler. «Se mais nun fusse yá baleu la pena!». «Cartas i poemas que nun sabie de
la sue eisisténcia.», diç Amadeu Ferreira. Acrecenta: «tantas las horas que passei an bibliotecas para sacar anformaçones
subre Manuel Sardinha!
Quien quejir saber mais subre Abade Manuel Sardinha, baia a
esta morada eiletrónica: http://abadesardina.wordpress.com/.
Cartas, alas adonde mos asseguramos para bolar i antre
airaçadas i temporales, ende bamos a tiempos i mimórias de outros tiempos.
La repunsable pula biblioteca de l museu, dra. Elsa, ye eificiente
i simpatica i an todo mos ajuda. Quaije trés horas se passórun, debrebe se findórun.
De la rebista “ A Harpa” [1873] adonde
muitos scritores de l tiempo screbírun, eiqui queda, para amuostra de l muito
que achemos, un poema de Manuel Sardenha, screbido an castelhano, lhéngua an
que, até agora, nun faziemos eideia de que el habie screbido poemas oureginales:
EL FILANDAR / O FIADEIRO
EL FILANDAR / O FIADEIRO
20 março 2014
Nos 40 Anos de "Algures a Nordeste"
Vai ter lugar no próximo dia 3 de Abril a acção ‘Nos 40 Anos de Algures a Nordeste: Uma Jornada sobre A. M. Pires Cabral’, organizada pelo Departamento de Letras da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e integrada no programa de comemorações dos 40 Anos da UTAD.
No programa da jornada, que decorre no Auditório da Biblioteca Central da UTAD e tem início pelas 09h30, incluem-se comunicações por João Bigotte Chorão (11h00: “Os dois rostos de um escritor”), Ernesto Rodrigues (12h00: “Um artista dos sete ofícios”) e José Carlos Seabra Pereira (14h30: “A condição poética em A. M. Pires Cabral”), bem como uma mesa-redonda (15h30) sobre a poesia de A. M. Pires Cabral, com a participação de Pedro Mexia, Vítor Nogueira e Isabel Alves.
Após a sessão de abertura (09h30), será apresentado em estreia o documentário ‘A. M. Pires Cabral na primeira pessoa’, de Leonel de Brito. Haverá ainda (17h00) uma visita à exposição ‘A. M. Pires Cabral: 40 anos de vida literária’, na Biblioteca Municipal Dr. Júlio Teixeira, seguida de leitura de textos do autor por alunos do Departamento de Letras, Artes e Comunicação da UTAD. A jornada encerra às 18h00 com uma intervenção de Henriqueta Gonçalves.
Notas biobibliográficas de A.M. Pires Cabral
Nascido em Chacim, Macedo de Cavaleiros, em
13 de Agosto de 1941, António Manuel Pires Cabral ruma a Coimbra, por razões
académicas, deixando atrás de si o seu Nordeste transmontano. A ele regressa
munido de uma licenciatura em Filologia Germânica a empurrá-lo para a docência.
Exerceu-a, por um mais prolongado lapso de tempo na Escola Secundária Camilo
Castelo Branco, em Vila Real, tendo encetado, ainda ao activo, funções de
assessor dos serviços municipais de cultura. É, desde a sua criação, em 2006,
director do Grémio Literário Vila-Realense. Como animador cultural tem sido
notável a sua actividade, pela ousadia, criatividade e carácter ambicioso das
acções promovidas na defesa do património cultural transmontano, na divulgação
dos escritores da região, no apoio a todas as iniciativas que visem a
preservação da identidade de um povo que só manda mesmo no ditado popular “para
cá do Marão mandam os que cá estão”.
Faz agora quarenta anos que Pires Cabral
concretiza uma vocação adormecida, à espera do toque de alvorada. Nasce, em
1974, a sua obra de estreia ALGURES A
NORDESTE, a primeira de muitas provas literárias de amor assumido à sua
terra natal.
Apesar de absorvido pelas tarefas de
dinamizador cultural, de que é justo salientar a realização em Vila Real de
sete Jornadas Camilianas que cá trouxeram os maiores camilianistas do país,
associadas, até 2002 à prática lectiva, chegou-lhe o tempo para se dedicar à
sua grande paixão extra familiar – a escrita. A sua bibliografia conta com
cerca de cinquenta títulos que englobam romance, conto, crónica, poesia e
teatro. É, também, autor de antologias temáticas e didácticas e tem colaboração em mais de seis dezenas
de publicações de índole cultural.
Recentemente deu carta de alforria a um
trabalho que lhe fez companhia durante três décadas – FALA CHARRA – Regionalismos de Trás-os-Montes e Alto-Douro, em
dois volumes e num total de 1174 áginas.
O valor da sua obra em que o local se
transforma em universal, tem vindo a ser objecto de teses de mestrado, de elogiosas
recensões e de entrevistas em suplementos literários de jornais como o Público e o Expresso, no Jornal de Letras
e nas revistas LER e Visão, entre outros. Está traduzido em várias
línguas.
A interioridade a que se confinou por opção
não impediu a sua obra de transpor fronteiras geográficas e intelectuais, nem o
seu nome de ser uma referência nas letras portuguesas contemporâneas.
Hercília Agarez
19 março 2014
Provérbios - Três por dia
2 - Ibis louvado, anjo ou diabo.
3 - Ida de João Gomes: foi em sela, torna em alforjes.
Raízes, por José Mário Leite
![]() |
| Pires Cabral. |
Esta crónica nasceu em Bragança, no auditório Adriano Moreira. Deveria
ter sido enviada para publicação na semana passada. Tal não aconteceu porque,
propositadamente, quis resistir à tentação de cair no facilistismo e no coro de
lamúrias que, infelizmente, os tempos que correm, justamente, patrocinam. Quis
refletir durante uma semana e, sobretudo, ir ao cinema ver o “The Monuments Men
– Os Caçadores de Tesouros”. Ainda bem que o fiz. Não, não posso concordar nem
de perto nem de longe, que qualquer obra de arte possa justificar a vida de um
ser humano. Desconte-se isso e a sendo certo que, segundo o próprio Frank
Stokes “com tanta gente a morrer quem quer saber de arte?” não deixa de ser absolutamente verdadeiro que
“se pode arrasar uma geração inteira, reduzir as suas casas a cinzas, mas ainda
assim elas regressarão. Mas destruindo a sua história destroem-se as suas
realizações e é como se nunca tivessem existido.”
Por mais que me esforce, não consigo escapar ao lugar comum do momento:
o nordeste está em processo de destruição! Cada vez há menos gente. Cada vez há
menos serviços. Cada vez há menos recursos. A austeridade sendo igual ao resto
do país, é mais dura aqui! E quando há mais desemprego, mais pobreza, mais
dificuldades, mais necessidades básicas, quem quer saber de arte, de
literatura?
Pois é quando esta enorme desgraceira nos cai em cima, quando quem
supostamente nos devia acudir nos afunda extinguindo serviços e ameaçando
acabar com os poucos que vão sobrando, quando os ramos secam e pedem poda, que
é necessário tratar das raízes e garantir que ao menos essas continuarão
agarradas ao solo materno que nos garantirá a permanência e a existência.
Em Bragança, em Lisboa, no Porto, em Paris, Nova Iorque, Singapura,
Camberra ou Sidnei, todos os que se identificarem com o torrão materno, todos
os que aqui se revêm e reconhecem, continuarão a ser transmontanos, continuarão
a ser nordestinos. E o Nordeste existirá, mesmo que espalhado e repartido pela
geografia da nossa diáspora. Porque a memória nos lembra quem somos e de onde
vimos. E é essa a razão pela qual a preservação dessa memória não é só um
dever, mas um imperativo. De sempre e muito mais de agora!
A Academia de Letras de Trás-os-Montes está a levar a cabo uma obra
notável. Fruto da generosidade e empenho do moncorvense Leonel de Brito vai
produzir onze DVD’s com as memórias de outros tantos vultos da literatura
transmontana a saber: Bento Gonçalves da Cruz, João Barroso da
Fonte, António Lourenço Fontes, António Manuel Pires Cabral, António Passos
Coelho, Hirondino da Paixão Fernandes, António Modesto Navarro, Júlia Guarda
Ribeiro, Borges Coelho,
Adriano Moreira e Aniceto Afonso, sendo que os depoimentos dos oito primeiros estão
já executados. É a memória cultural de Trás-os-Montes! Espera a Academia que as
Câmaras Municipais, sobretudo aquelas da naturalidade dos entrevistados,
adquiram alguns exemplares contribuindo assim para o esforço que tal empresa
requer.
No que me toca tenho de
reafirmar o que afirmei na última Assembleia Geral da Academia: Não é sequer
uma questão de opção. É uma obrigação! Enquanto instituições representativas
das populações, as autarquias transmontanas (todas e não só algumas!) não podem
fugir a este desígnio inalienável: adquirir vários exemplares destes DVD’s para
as respetivas Bibliotecas Municipais, Arquivo das Escolas e para a própria
Câmara, obviamente, para oferecer e promover a nossa terra. Claro que as
autarquias de onde são alguns dos entrevistados deverão fazer sessões especiais
de apresentação e lançamento das respetivas obras. Mas isso já não é nada que
se lhe deva pedir. Pelo contrário, esse é o seu privilégio que os mesmos e a
Academia lhes proporcionam e portanto nada mais lhes resta fazer que colaborar
e patrocinar todos os eventos programados.
Nota final: para que não fiquem dúvidas nem
se julgue que há valores desmesurados de aquisição e/ou subsídios é preciso
deixar muito claro que o que a Academia de Letras espera receber na totalidade,
se dividido pelas Câmaras Transmontanas o que toca a qualquer uma delas é pouco
mais que uma centena de euros! Esperamos que a contribuição autárquica seja
substancialmente superior!
Tertúlia sobre os 40 anos de vida literária de Ernesto Rodrigues
Hoje,dia 19 de Março de 2014, a partir
das 14h00, na Livraria Caixa dos Livros (Faculdade de Letras de Lisboa):
– Tertúlia sobre os 40 anos de vida
literária de Ernesto Rodrigues, cujos últimos títulos são o romance histórico A
Casa de Bragança e o conjunto de poemas Do Movimento Operário
e Outras Viagens.
18 março 2014
L pastor que se metiu de marineiro, por Faustino Antão
L pastor
que se metiu de marineiro
Este lhibro
ye un machuço de cuontas, assi a modos dua nobela, mas nun ye ua biografie.
Feito an
Júlio de 2012, ten apuis l sou salimiento an Agosto, ne l salon de l’Associaçon
“Sol Nascente”, n’aldé de Zenízio (Miranda de l Douro), tierra adonde naci,
medrei i quedei até ls dezassiete anhos, quando me scapei pa la marine. Son ls
anhos de biesperas i apuis la bibéncia dua biaige feita pula purmeira beç, para
un mundo çconhecido, l tabrado desta obra.
Publicado pul’eiditora
Zefiro, antegrado na coleçon “An Mirandés”, que ten cumo diretor i repunsable l
ambestigador, scritor, porsor Amadeu Ferreira, arrimasse este lhibro assi a las
demais publicaçones doutros scritores de la lhéngua mirandesa, que al lhargo de
ls redadeiros anhos ténen benido a terreiro dando a conhecer la riqueza i
bariedade desta lhéngua. An crónicas, lhiendas, cuontas, poesie este
porjeto yá stá taludo i fui un éisito, ende stan essas obras rebelando un
patrimonho dun pobo que stubo tan ancerrado i botado al squecimiento.
Screbi este lhibro i quedei siempre cula eideia de que l
camino que scribo, ye por assi dezir bien armano de muitos i muitas
stramuntanos que a cierta altura de la sue bida se botórun pul mundo, sien nada
a perder i todo tener a ganhar.
Sien belhiçcar nadica aqueilho que mais balioso m’iba
n’alma, que era al amor als mius, a la mie giente, a la mie tierra, a las mies
ouriges, cumo muitos l fazírun, fázen i cuntinaran a fazer alhebantei la
cabeça, dei la cara fiç-me al mundo.
Ye por assi
dezir l que cuonta “L pastor que se metiu de marineiro”.
Outor:
Faustino Antão
L salimiento de l Lhibro “L pastor que se metiu
de marineiro”
(çcurso a
l’assembré ne l salon)
FAUSTINO ANTÃO
L salimiento
deste miu segundo lhibrico an mirandés, tal qual l purmeiro an 2009 (Nuobas
Fábulas Mirandesas i Cuontas Sacadas de la Bida) antegrado na coleçon “An
mirandés” de l’Eiditora “Zefiro”, só fui possible porque l porsor,
ambestigador, tradutor, ansaista, scritor, poeta, jurista Amadeu Ferreira, para
alhá de las demais atebidades culturales, porfessionales, i deberes familiares,
inda arranjar tiempo para ser respunsable desta colecon, adonde este lhibrico
stá antegrado.
Sien las upas,
sien l sou ansinamiento, sien l sou ancentibo, l sou ampeinho, puis siempre
tubo i ten palabras para me motibar i dar fuorças, puis mesmo que you sempre
tenga ganas de screbir, nunca serie possible publicar fusse l que fusse, muito
menos an mirandés.
Ye grácias al
sou trabalho i dedicaçon a las pessonas, a la nuossa tierra, a la lhéngua que
you i cuido nun m’anganhar muitos de nós cuntinamos a registrar i amar esta
lhéngua, este património cultural.
Fai todo sien
pedir nada a naide nien nada an troca, fai-lo por amor a las gientes i a la
cultura, porque le gusta ser amigo de to l mundo porque quier ber felizes las
pessonas i ber la lhéngua bien alta.
Debo-lo a el,
este miu stado de felcidade, porque ye esse l modo cumo me sinto, l miu muito
oubrigado i que Dius bos l pague.
Mais ua beç l
digo, l trabalho que todo esto dá, zde la correçon, la cumposiçon i la feitura
de l lhibro, porque nunca será de mais, sien la sue dedicaçon i entrega, yá
quantá you habie quedado pul caminho. Nunca serei capaç de pargar todo l que
teneis feito amigo Amadeu, zde l purmeiro curso, passando pul outro lhibro yá
publidado.
Dixe, zde l
purmeiro curso fai anhos no Alto do Moinho – Corroios, cula colaboraçon de
Francisco Domingues tamien cumo porsor, adonde muitos, cumo you, associados de
l’Associaçon Cultural i Recreativa Nial de la Boubielha stubimos, fui ua
einiciatiba daprendizaige an parcerie cula Associaçon de la Lhéngua Mirandesa.
A miu ber todo
ampeçou eiqui, estes ansinamiento fúrun ls aliçaces, fui este l ampeço dua
jornada que stá loinge de la fin, si, porque se dantes yá querie muito esta
fala, agora amo-la dun jeito que yá nun sou capaç de passar sien eilha,
çpierto, a drumir, an Zenízio, an Miranda, an Lisboua i quando fur pa l outro
mundo, lhiebo-la.
Tamien, quiero
eiqui deixar ua palabrica de reconhecimiento i agradecimeinto als respunsables
de l’Eiditora, porque cuntínan a dar l melhor que ténen para que haba lhibros an
mirandés, neste momiento çfícele i anubrado que l’eiconomie atrabessa.
I para ancerrar
esta pequeinha crónica, nun podie deixar de prestar la mie houmenaige al pobo
d’hoije i d’onte de Zenízio, al pobo mirandés an giral, a las gientes que alhá
biben, trabálhan i cuntínan a falar mirandés, que bíncen atalancadeiros
culturales i nunca çpégan de lhuitar para que esta hardança nun se muorra, a
las gientes que se scapórun pul mundo i cun eilhes lhébórun un cachico de la
sue tierra i fala, al termo que fui l miu canastrico, a to das las cousas que
reçúman mirandés.
Nun percisaba,
mas mais ua beç, cumo l fizo ne l dies de l salimiento de ls lhibros de Alcina
Pires, Adelaide Monteiro i Válter Deusdado, l pobo de Zenízio dou probas de que
quando ls filhos percísan ende stá, marca perséncia, i fúrun muitos, de manos
dados culs amigos de Bilasseco, San Pedro, Miranda, Çicuiro, de la Speciosa, de
Bergáncia, i de muitos mais lhugares, para dar fuorça, para acarinhar,
balorizar, abraçar nun géstio de ternura i afeto.
Este pobo que
me biu nacer, que ye amigo, cumpanheiro, son del estas cuontas que scribo,
debo-lo a el l pouco que sei, ye a el que antrego este lhibro.
(publicado na : Tierra alantre, la mesma fala
Apersentaçon de
L PASTOR QUE SE METIU DE MARINEIRO
de Faustino Antão, Editora Zéfiro, 2012
an Zenízio, l 12 de agosto de 2012, na sede de la Associaçon Sol Naciente
[texto lido por Francisco Domingues, yá que nun pude star persente]
Buonas tardes a todo mundo i un special saludo al amigo i scritor Faustino
Antão.
Ampeço por bos pedir çculpa por nun poder star eiqui persente , cumo serie
grande gusto miu, seia pula amizade cun Faustino Antão, seia pul grande aprécio
que tengo por toda la giente de Zenízio, que tanta beç eiqui yá me recebiu. Mas
bien sabeis que nun podemos star na todo l lhado, i un grabe problema de salude
dun familiar zarredou me deiqui.
Assi i todo, nun quije deixar de bos mandar algues palabricas, fazendo me
repersentar por une ilustre zeniziense, Francisco Domingues, un grande amigo, a
quien le agradeço haber aceite este miu pedido, i publicamente le presto
sentida houmenaige por todo l que ten feito pu la lhéngua mirandesa, subretodo
cumo porsor nas classes de la Associaçon de Lhéngua Mirandesa.
L Pastor que se metiu de marinheiro, ye l segundo lhibro de Faustino Antão
que, assi, bai fazendo ua berdadeira carreira de scritor, que spero nun se
quede porqui. You próprio, na Antrada que le fago al sou lhibro, digo, meio de
risa meio a sério, que talbeç l sou próssimo lhibro se benga a chamar L Pastor
que se metiu de scritor! Eiqui le deixo, publicamente, ls mius parabienes i l
recoincimiento por todo l que ten feito pula nuossa lhéngua i tamien pul nome
de la tierra, Zenízio, i pulas sues gientes. I isso ye bien assi porque ls
harois, ls personaiges prencipales de ls dous lhibros de Faustino, an special
deste segundo lhibro, son la sue tierra i la sue giente, la giente que lo criou
i que lo biu crecer cumo home. Tanto l feito de Faustino, cumo que estes harois
díran para screbir lhibros, era algo ampensable inda nun hai muito tiempo, i a
muitos inda hoije le custa a acreditar.
Este nuobo lhibro de Faustino Antão ye un lhibro de mimórias. Quando le fiç
l zafiu pa lo screbir, bai para uns dous anhos, lhougo el respundiu
apersentando l que ides a poder ler: la bida dun rapazico, filho de la giente
desta tierra, que daprendiu a ser pastor pul termo desta tierra, a puntos de
esse oufício le haber quedado agarrado a la teç de l’alma, del sacando ls
ansinamientos pa la bida que acabou por bibir por esse mundo fuora. El cunta
mos essa bida cun toda la sue dureç, las sues dificuldades, l sou atraso
material, la pequenheç desse mundo adonde muita beç era custoso respirar,
subretodo un moço que querie coincer mundo, namorar, que tenie outras eideias.
Poderie haber feito l que outros ténen feito que ye falar cun romantismo dessa
bida, falseficando-la i apersentando-la mais quelor de rosa, que ye un mdo de
nun la respeitar nien de respeitar la giente que la bibiu. Las giraçones nuobas
i las que han de benir, cumo la sue filha Suzana i sou nieto Afonso i tantos
outros cumo eilhes, ténen dreito a coincer essa berdade i ténen de saber quanto
fui preciso chubir de tan fondo até chegarmos adonde stamos agora.
Muitas de las pessonas que eiqui stan persentes poderan recoincer-se ne l
que Faustino mos cunta, puis bibírun ua bida aparecida por estes campos afuora.
Este ye un modo de cuntar la stória dun pobo, nó pula boca de outros que nun
mos conhécen i que, ne l fondo, até mos çprézian, mas cuntada por un de ls
nuossos, que nunca se bendiu nien arrenegou las sues ouriges. L pobo mirandés
ten un passado an que muitos, ende ancluídos muitos de ls sous filhos, lo
botórun al çprézio, tanto por bias de la nuossa fala cumo por bias de sermos
probes, mas tamien ten un passado de lhuita, de bencir deficuldades sien cunta,
de nunca zistir, de amostrar que bibir i lhuitar bal la pena i esse ye un
patrimonho mui grande que tenemos pa le deixar als nuossos filhos, esses son ls
prencípios que traírun la houmanidade até als nuossos dies i por esso son un
patrimonho coletibo.
Yá nun era sien tiempo que ls próprios mirandeses screbíssen subre eilhes
mesmos i nó outros que porqui fúrun passando, ou l çcurso de l poder, mesmo de
l lhocal, que siempre tubo un mirar de çprézio an relaçon al pobo i a la sue
cultura, mesmo quando ten necidade de falar bien del. Mas essas son outras
cuontas que la stória nun deixará de acertar a sou tiempo. Hoije ye die de
fiesta i cumo die de fiesta tem de cuntinar.
La Associaçon de Lhéngua Mirandesa bai a cuntinar l sou trabalho de lhuitar
pula nuossa lhéngua i la nuossa cultura i stou cierto que nuobos scritores de
Zenízio han de aparecer i nuobas miomórias seran publicadas, para que la nuossa
stória seia melhor coincida i ls nuossos balores puodan quedar mais a la
muostra.
Eiditar un lhibro destes ye ua dificuldade mui, mui grande, que nun serie
possible sien l apoio de la nuossa Associaçon de Lhéngua Mirandesa i, neste
causo, tamien de la Associaçon Nial de la Boubielha. Cuntamos cun l buosso
apoio an cumprar l lhibrico, puis nun hai outros apoios pa la nuossa lhéngua i
cultura para alhá de l pobo. Tenemos que ser nós a cuidar de l que ye nuosso.
Son mui poucos ouros que se le píden a cada pessona para ua obra que ye
de todos, puis nun se cunta cun apoios de mais naide, subretodo de mais nanhue
anstituiçon, mesmo daqueilhas que tenien oubrigaçon de dar l sou apoio, inda
que pequeinho.
Acabo apersentando mais ua beç ls mius parabienes a Faustino Anton, mas
tamien al pobo de Zenízio que tales filhos ten. Spero que antre todos seia
possible ir palantre, als poucos oupindo la nuossa lhéngua i la nuossa cultura
al nible an que merece star. Bamos a cuntinar a lhuitar para ber se antre todos
nun q~deixamos que se muorra, ansinando la als mais nuobos i falando la. I isso
fai-se cun einiciatibas cumo esta i outras aparecidas, pequeinhas cousas, mas
que fáien parte dun todo que ye mui grande, un menumiento que ye de l pobo i
als poucos bamos custruindo i amostrando.
Bien háiades.
Amadeu Ferreira
Lisboua, 11 de Agosto de 2012
17 março 2014
Provérbios - Três por dia
2 - Há amigos recentíssimos, recentes e os de sempre.
3 - Há bens que por mal vêm.
16 março 2014
Apresentação do livro Gaveta do fundo, de A. M. Pires Cabral, por Maria Hercília Agarez.
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento – Alberto Caeiro
É uma ousadia, senão mesmo um sacrilégio,
apresentar um livro de poemas. Pela simples razão de que o poeta, por mais que
confie no leitor e queira com ele estabelecer cumplicidades e interacções,
receia legitimamente (ou não) que ele não entenda, como os seus companheiros,
os seus “mansos trocadilhos”.
Se o texto poético é susceptível de tantas
interpretações quantas as leituras, reservo as minhas para uma intimidade
reflexiva alheia a imposições de relógios que, para os aposentados como eu,
fazem menos falta do que um par de óculos… Falo em leituras num plural não
arbitrário. Pobre é o poema sem entrelinhas, sem subentendidos, sem
ambiguidades, sem plurissignificações. O valor estético de um texto poético passa
pela ausência de linearidade, pela maneira inovadora e surpreendente de
transmitir uma mensagem, por uma riqueza imagética não forçosamente impeditiva
de assimilar essa mesma mensagem. “A metáfora é a tal pequena perversidade do
poeta”. in LER
Que farei, então, aqui e agora? Deste
homem, que direi? Antes de falar do livro que marcou a poesia portuguesa na
passagem de ano, vou socorrer-me de palavras suas dispersas pelos seus versos, por
jornais e revistas, em geral ilustradas, estas últimas, com a imagem urbana de
“um camponês que anda preso em liberdade pela cidade” (citando Caeiro a
propósito de Cesário Verde) com as suas serras como pano de fundo. Essas
palavras ajudar-nos-ão a conhecer, em parte, a arte poética do autor de Arado, o seu quotidiano dependente do
“ferrão do moscardo da poesia”.
Seguem-se frases/expressões em que o poeta
fala desta sua condição em entrevistas e nos seus diferentes livros de poemas.
Registe-se que, nos últimos anos, a imprensa escrita e falada se tem feito eco mais
sonoro da existência de um homem com uma obra notável, várias vezes premiada,
traduzido em três línguas, e que teve a ousadia de desafiar o destino (Portugal
é Lisboa…), mantendo-se perto das suas raízes nordestinas à prova de vendavais.
Acordaram tarde, mas vale mais tarde do que nunca…
Tentemos, então, reconstituir a Poética de
Pires Cabral numa passagem de olhos pelas suas palavras, pelos seus versos, sem
a pretensão de esgotar o assunto. Assim, em Solo
Arável questiona-se: “De que obscuro canto/ recebo inspiração?”; em CAVALOS DA NOITE afirma ter “a escrita
por vigia”, em DOURO: PIZZICATO E CHULA, dirigindo-se ao rio
Douro, estranha que ele queira ouvir “as intrusas palavras inquinadas do poeta”,
considera os companheiros de viagem “líricos nautas estouvados” e, usando um
plural conhecedor, assume que os poetas são detentores “do seu pequeno gene de
loucura”. Em ARADO, o homem que tem a
natureza como espaço privilegiado de criação poética, assume humildemente: “é
fácil ser poeta/ à custa do vento.” Em “Prefácio”, primeiro texto de TÊMPORAS DA CINZA, um dos livros mais
doridos de Pires Cabral, afirma precisamente o contrário do que tinha defendido
em entrevista à revista LER de Outubro de 2008: “Os poetas são os melhores de
todos nós”. No verso que abre o dito poema escreve: ”Os poetas são os piores de
nós todos”. Ideia reiterada, como que simetricamente, em “Posfácio”: “Os
poetas, repito, / são os piores de nós todos”, ideia contrariada
antiteticamente na seguinte estrofe: “Rectifico: os poetas, tigres de papel, /
não são os piores de todos nós. / Serão talvez / os que mais se amotinam, / os
que mais armadilham as palavras…”
E, comparando-se às folhas das árvores,
escreve: “Assim múltiplo e trémulo sou eu”. Sobre o ofício de poeta (“…nós- os
oficiais do danoso ofício das metáforas”) escreve em “Ofício”:
“Este – o das palavras – não é
o meu ofício.
O meu ofício é outro:
Encher os dias de silêncios,
Hesitações, amuos.
É isto que faço à minha
revelia
- cada baldada manipulação
De palavras que entre si se
não ajustam –
É desastrosamente
um silêncio a menos nos meus
dias.
Um alvoroço a mais.”
No poema “Poetas e Deuses”, inserto em COBRA D’ÁGUA, estabelece, como o título
indicia, uma comparação entre uns e outros, insurgindo-se contra o dom dos
segundos de fazerem o mesmo que os primeiro “transpirando menos”. Suor
pressupõe trabalho, oficina, um “esforço circense de engendrar tropos, imagens,
expedientes vários…” O texto remata com um plural que engloba os seus “irmãos
poetas”: “….qualquer de nós não passa de um pedestre / sucedâneo de deus. E
viva o velho!” O tom, subtilmente humorístico, não escamoteia uma realidade – o
que subjaz a cada poema saído do labor aturado do artífice que utiliza “as mais
eficazes ferramentas / do [seu] banco de carpinteiro.” (“Resposta” in GAVETA DO FUNDO)
Voltemos à entrevista atrás referida: “… a
inspiração não tem hora. Não se faz anunciar. Não bate à porta como um
carteiro”.
“Os poetas são os melhores de todos nós.
São aqueles que abrem perspectivas de pensamento. Aqueles que, de alguma forma,
nos ajudam a compreender um bocadinho melhor este mistério tramado - tramado, é realmente o adjectivo – que é
a vida.”
“A poesia entendida ao rés das coisas.”
“Hoje,
o que quero é exprimir-me através da minha poesia e derramar um pouco de beleza
– se é que ela a tem – pelas pessoas que me lêem”. Eu acrescentaria e que me
entendem, uma vez que é o próprio a defender a literatura legível,
ficcional e poética, e a “acusar” certos contemporâneos de hermetismo. E diz:
“… os meus poemas também podem ter qualquer coisa de hermético. Isto é, estou a
exigir dos outros uma coisa que, por vezes, não lhes dou. Mas é assim mesmo. O
homem é feito de contradições e eu assumo esta”.
Antecipando-nos, cremos ser GAVETA DO FUNDO o livro de poesia menos
hermético de Pires Cabral. Assim sendo, talvez os poemas desta gaveta lhe
granjeiem mais leitores, alguns dos quais são adeptos confessos da sua ficção,
mas se intimidam com a dificuldade de compreensão de alguns versos.
Quando, em 2006, Pires Cabral recebe, em
Mateus, o prémio D. Dinis, o presidente do júri, Vasco Graça Moura, intitula o
texto justificativo da escolha de “Um Clássico a Nordeste”. O laureado aceita o
epíteto. A propósito, o Jornal de Letras
pede au poeta uma síntese autobiográfica onde ele afirma: “escrever é a minha
maneira de escapar à morte: perdurar através daquilo que faço. É uma forma de a
esconjurar.”E resume, assim, a sua existência: “Poesia – eis o recheio dos meus
dias”, avançando com a metáfora “o ferrão do moscardo” que emprega, aliás,
referindo-se tanto à poesia como à morte. Romain Rolland também disse: “Criar é
matar a morte”.
Tecidas estas considerações introdutórias
sugiro-vos uma investida às “gavetas” de Pires Cabral que as labaredas não
beberam nem beberão. Essas gavetas de um hoje, existem, algures, e transbordam
como caudal de rio zangado com o seu leito. Nelas já se instalaram, irmãmente,
respeitando cada uma o seu lugar, jóias literárias, logo imorredouras, escritas
em oficina de filigrana, ao longo de quarenta anos. São elas a resposta
silenciosa à dúvida expressa pelo poeta no poema “Senha” em SOLO ARÁVEL: “Que ficará de mim ao se apagar
/ o tímido clarão que me habitou?”
Não cabe aqui referir toda a diversificada
e a longa bibliografia de Pires Cabral. Reporto-me por razões óbvios, à sua
última obra, mais do que nenhuma outra “badalada” e que, apesar da
transversalidade temática que é o Nordeste, constitui, a nosso ver, o vértice
de um triângulo cujas bases são Algures a
Nordeste (1974) e Arado (2009).
A colectânea contempla, grosso modo, três vertentes temáticas.
Uma diz respeito a memórias de vivências rurais em convívio fraterno e cúmplice
com campos cultivados, flores, árvores e frutos, ribeiros tranquilos, animais
seus irmãos de vida, gentes labutadoras, sons de noras, de carros de bois e de
chocalhos de rebanhos, “peixes distraídos”. Memórias comovidas também porque associadas
a um tempo privilegiado de infância e adolescência, porque não passam mesmo
disso, de memórias de realidades sofridamente irrecuperáveis. Aqui arrumar-se-ão,
entre outros, poemas como “Erosão”, “Seara”, “Cães que tive”, “Pirilampos”,
“Nora”, “Sunt lacrimae rerum”, “Requiem pelo rio Tua”. E, claro, “Terra
Quente”, “a minha Terra Quente”, “fiel depositária do meu pó”, “meu invólucro
final”.
O poema “Aquele que trazia uma vinha
guardada”, traduzindo embora uma memória, só fisicamente encaixa no passado.
Volvidos cinco anos após a sua partida, ele continua entre nós, faz parte do
património afectivo de quantos o admiram, a si e à sua obra. Sobre um outro
António que também Cabral, a quem já dedicara um poema em Douro, Pizzicato e Chula, escreve este seu colega de oficio:
“ De modo que, enquanto não
regressa,
a sua voz continua a nosso lado,
indicando caminhos, desbravando
matagais que ocultam a esperança.”
Uma segunda vertente é a dicotomia passado/presente
em que o primeiro espreita, marca, implícita ou explicitamente presença.
Trata-se de poemas que nos falam de um tempo hoje, desolador, de espaços corroídos,
habitados por fantasmas, de onde a globalização e o progresso tecnológico
escorraçaram homens e animais adjuvantes e /ou companheiros de vida, de um
quotidiano captado pela lucidez por vezes impiedosa de quem se quereria em
tempos idos. O poeta nos guiará, nos dará a sua visão poética, amenizará com a
beleza de palavras e imagens a dureza de uma realidade irreversível de transformação
e abandono.
Paradigmático a este respeito, o poema
“Fechou a escola de Grijó”, o que impede os seus poucos habitantes resistentes
de ouvir “as aves da manhã a caminho da escola” mas que, em contrapartida,
enche de júbilo o senhor ministro das Finanças.
Cabe desde já referir que, embora a poesia
de Pires Cabral se caracterize por um tom elegíaco em crescendo desde a
publicação de E SE BOSCH TIVESSE
ENLOUQUECIDO e QUE COMBOIO É ESTE?
(uma muito conseguida alegoria sobre a morte) o poeta não deixa de temperar a
dureza das suas inquietações ligadas à finitude e à “viagem” com salpicos de
ironia, com notas humorísticas, espécies de antídoto aos “rasgões da alma”.
A subtileza deste entrelaçar de elementos
(aparentemente) contraditórios constitui um desafio a uma leitura atenta.
Tomemos por exemplo o texto “Aos meus óculos”, um objecto do dia-a-dia,
indispensável para ler a vida. Se o tom é subtilmente trocista, não podemos
deixar de reparar numa comparação que o poeta faz, sempre cônscio da sua
fragilidade: “Vós que sois de vidro quebradiço/ como o meu próprio barro,…”
Não poderia ter passado em falso o destino
de um rio outrora “amotinado contra as pedras, /cheio de força e pressa…..” que
vê o seu currículo de “rio tumultuoso que mordia as próprias margens…”
achincalhado por imposições técnico-económicas, amansado como fera shakespeariana, morto, “vitimado/ pelos
seus próprios ímpetos / que escondiam turbinas.”
O tema dominante deste livro é, sem dúvida,
o da desertificação das aldeias nordestinas, o abandono dos campos, a
modificação da paisagem. Como escreveu Pedro Mexia, é ele um “Requiem
transmontano” e melhor não sou capaz de dizer. E esta expressão remete-nos para
um desabafo do nosso poeta no texto “Emigrantes” em ALGURES A NORDESTE – “Para cá do Marão manda o olvido”.
Ignoramos se é intencional da parte de Pires
Cabral dedicar os últimos quatro poemas ao que resta do passado e que pode
assim resumir-se: pequenas hortas de subsistência, escombros, “pedras, cardos,
ervas sem préstimo”, poeira, “Gente pouca, envelhecida, / muito dada a
morrer.”, “ventos que mordem o vazio dos campos”, em suma, e empregando uma
eloquente expressão do autor – “O desuso agrário”. Do que foi vida, movimento,
cultivo, azáfama agrária, produtividade, “Restam as hortas”, poema fulcral na
economia da obra, espécie de súmula, de síntese de um Nordeste sempre assumido.
Apesar de tudo, algo resta de uma
identidade ameaçada, além dos tais cibos resistentes onde o ventre da terra continua
a abrir-se à espera de ser fecundado. O poema “Procissão de Aldeia” a lembrar-nos João Villaret e António Lopes Ribeiro, é uma
espécie de políptico, em que visualizamos, passo a passo, o desfilar do cortejo
religioso em honra do Santo em liberdade provisória, onde é escalpelizada uma
realidade rural mais ou menos estereotipada e respeitada uma hierarquia
tacitamente aceite por todos os fiéis que “apaparicam” o padroeiro: “No fim de
tudo, volta o Santo ao seu altar / de papinho cheio…” A respeito deste poema de
registo forçosamente narrativo, chamamos a atenção para o apurado sentido de
humor mais relevante quando se refere aos sapatos novos do padre: “Debaixo do
pálio, o senhor padre pragueja mentalmente / contra os sapatos novos que lhe
apertam os calos…” Outra realidade actual é narrada, em tom crítico, diríamos
mesmo de uma ironia trágica, no texto “Magusto no Lar de Idosos”. Mais urbanos
que rurais, estes espaços recolhem velhices e doenças desamparadas, em geral em
acumulação. Ao assinalar datas festivas com actividades lúdicas, as assistentes
sociais agem “como se houvesse ainda no apoquentado / quotidiano dos velhos
lugar para a festa”.
Registe-se o carácter bipartido, tripartido
e mesmo quadripartido de vários poemas deste livro. Como em andamentos de uma
sinfonia, o poeta faz as suas pausas para que o leitor tome fôlego. Reparte o
todo por partes em sequências lógicas, em segmentos temporais ou outros, quase
sempre sem autonomia, uma vez que se encontram interligados, como é o caso de,
por exemplo, “Vento”, “Nora”, “Requiem pelo Rio Tua”, “O Ribeiro e Eu”, “Nalguinhas”.
Entre aspectos da estética poética de
Pires Cabral transversal a todos os seus títulos, realce especial para o bestiário:
pardais, milhafre, pintassilgo, borboletas, rebanhos, gato, vaca, peixes,
lagartixas, caracóis, rãs, pirilampos, animais benévolos, excluindo o milhafre
a que se vêm juntar, no poema que remata o livro, ratos e morcegos, únicos
habitantes possíveis num habitat que já não é de gente: “O último a sair que
apague a candeia / e cerre a porta. Que
ratos e morcegos / possam sem ser perturbados devassar / o que outrora foi
lugar de gente, / apoderar-se dele, // fazer dele o seu salão de baile.”
Reservei para o fim a abordagem daquilo a
que Pires Cabral chama “peregrinação / aos lodos de mim” onde impera a presença
do eu, o discurso de primeira pessoa,
logo o extravasar de uma interioridade partilhada. Vamos ousar ser nós os
peregrinos em romagem ao interior do poeta da nossa devoção. Calculo que ele
subscreveria os versos de Caeiro em O Guardador de Rebanhos: “Ser poeta não é
uma ambição minha / É a minha maneira de estar sozinho”. Sabemo-lo
introspectivo, ensimesmado, feito de “vidro quebradiço”, com ar de quem traz
sempre um verso atravessado no pensamento. Buscamos mais elementos susceptíveis
de acrescentar dados para a sua poética, para a sua forma pessoal de encarar a
criação literária. E eles surgem-nos, discretos, modestos, irónicos. Em “Arte
de gritar” confessa-nos uma ambição e partilha connosco uma decepção: “Quisera
dizer coisas / que ninguém tivesse dito antes de mim”, mas os seus antecessores
só lhe deixaram migalhas “…para eu me entreter // como uma criança pobre brinca
com destroços/ de brinquedos recuperados do lixo.”Em “Bucólica” (apesar de tudo
mantêm as aldeias um certo bucolismo virgiliano), um quadro pintado “com letras,
com sinais”, à moda de Cesário, as vacas que pastam no lameiro têm alma de
poeta “mas sem as birras destes”. Brinca com a sua essência como acontece em “Do
mal, o menos”: Trago assanhada a veia da poesia (…) // Mas enfim, do mal o
menos: / sempre é melhor trazer a poesia / assanhada do que ter, por exemplo /
a aorta dilatada”. Ainda num registo jocoso, o poema “Resposta” refere-se ao
castigo dado pelo vento a alguém que o interpela “Soberbo com as [suas]
prerrogativas de poeta”.
Na parte II de “Flor da Esteva”, esta
espécie bravia que, juntamente com a urze e a giesta grita a primavera num
branco pintalgado de vermelho, o poeta, contagiado pelo eco festivo, arrisca
“algumas serôdias aleluias” – “Só que a mim/ os gritos saem-me pretos / e sem
pintas de nenhuma cor.”
Recorrendo (o que é habitual) a
comparações, o poeta surge-nos consciente de ter uma missão a cumprir, como um
“Caminho de pé-posto”: “sou um caminho e levo a algum lugar”.
Identifica-se, também, com um
ribeiro em “O Ribeiro e Eu”: “ambos movediços, / trazemos de nascença caminhos
a cumprir” e com uma ribeira: “é fatal perdermos parte de nós /caída no
caminho.”
O livro encerra sob o signo da despedida –
“O Adeus às Almas”, um poema cru, acutilante, mordaz. É um adeus aos espaços e
às gentes do nordeste, um render da guarda, um passar de testemunho de gentes
para bichos repugnantes e negros que se assenhorearão de um território sem que haja
necessidade de luta entre sitiantes e sitiados porque estes não existem.
Terminamos com um poema do livro que foi a
primeira pedra daquilo que é, hoje, um templo de poesia, onde se deve entrar
limpo de pés e de alma. Há 40 anos escreveu Pires Cabral em “Hic et Nunc”:
Aqui e agora assumir do Nordeste
a voz hostil. A excessiva morte
hei-de perfazer: exigência de mim
em campo ferido – memória augusta e salutar.
assumir o Nordeste. urgente. em duro exemplo
vivo. aqui e agora o Nordeste aprendido.
teimar com mansidão. como se
nunca o peito aberto me doesse.
in ALGURES A NORDESTE
Vila Real, 14 de Março de
2014-02-27
M. Hercília Agarez
Nota do editor:
– Apresentação do livro Gaveta do fundo, de A. M. Pires Cabral, por Maria Hercília Agarez.
No dia 14 de Março de 2014, às 21h00, no Centro Cultural Regional de Vila Real.
Academia de Letras - PROGRAMA JANEIRO NA RÁDIO BRIGANTIA - ANTÓNIO LOPES (SÁ GUÉ)
Provérbios - Três por dia
2 - Gaba-te, cesto, que vais à feira.
3 - Gaba-te, cesto, que vender-te quero.
15 março 2014
O ABADE MANUEL SARDINHA, por Amadeu Ferreira

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14 março 2014
Provérbios - Três por dia
2 - Faca aguçada não se afia.
3 - Faca de parentes não tem fio.
13 março 2014
LEMBRETE
Grémio Literário Vila-Realense
Lembrete
|
Ÿ Dia 14 de Março de 2014, às 21h00, no Centro Cultural Regional de Vila Real:
– Apresentação do livro Gaveta do fundo, de A. M. Pires Cabral, por Maria Hercília Agarez.
Ÿ Dia 19 de Março de 2014, a partir das 14h00, na Livraria Caixa dos Livros (Faculdade de Letras de Lisboa):
– Tertúlia sobre os 40 anos de vida literária de Ernesto Rodrigues, cujos últimos títulos são o romance históricoA Casa de Bragança e o conjunto de poemas Do Movimento Operário e Outras Viagens.
A Mulher que (con)Venceu o Leitor, Crónica de José Mário Leite
Viva! De novo. Parabéns, Teresa Martins Marques!
A Mulher que (con)Venceu o Leitor
Crónica de José Mário Leite
(Director Adjunto do Instituto Gulbenkian de Ciência)
in Jornal «Nordeste», em 25 de Fevereiro de 2014.
Teresa Martins Marques escreveu e publicou o romance “A Mulher que Venceu Don Juan”. Do romance em si, da sua qualidade, elegância e valor literário, outros falaram e irão falar, muito mais qualificados que eu para o fazerem. Poderia, ao que me toca, manifestar a forma agradável com que o li, como apreciei o drama, o suspense, a história, não esquecendo a geografia já que parte do enredo se desenrola em Trás-os-Montes (Vila Real e, sobretudo, na minha freguesia natal, Adeganha, no concelho Torre de Moncorvo).
Do tema em si, tão atual e tão pertinente (a violência doméstica sobre as mulheres), igualmente espero que os especialistas realcem a importância da obra, não só pela denúncia realista e crua como pelo apelo ao despertar das consciências para tão candente problema ainda dramaticamente presente nos tempos correntes.
O que me faz falar deste romance é sobretudo a forma como foi escrito e, sobretudo, como essa forma o tornou atual e lhe conferiu, sem mais, um dos principais objetivos de qualquer romance, conto, novela, poema ou simples crónica: atrair e chegar aos leitores!
As novas tecnologias vieram revolucionar a forma e o modo como olhamos, vemos, percebemos e nos relacionamos com vários temas, funções, ações e atividades tradicionais. Desde a publicidade, a correspondência, a arte, o relacionamento social, o marketing, a atividade comercial, ao lado de uma infindável lista. São aliás frequentes as “queixas” sobre os “malefícios” que a televisão, no seu tempo e a internet na atualidade trouxeram às atividades tradicionais. O afastamento dos espetadores das salas de teatro e do cinema, o alheamento das crianças das bricadeiras tradicionais de rua e ar livre, o decréscimo da escrita em papel, a diminuição das visitas aos museus e galerias de exposição e igualmente a “natural” diminuição dos leitores de livros. É certo que algumas respostas foram dadas. Os museus passaram a ser interativos, o cinema trouxe a terceira dimensão para salas múltiplas e polivalentes, inventaram-se novos tipos de jogos na natureza com as tecnologias atuais de GPS, eletrónica e realidade virtual e alguns autores passaram a fazer acompanhar as suas obras com CD’s, DVD’s e outros artefatos tecnológicos.
Afinal, no que toca à literatura, Teresa Marques descobriu um verdadeiro ovo de Colombo mostrando que há soluções mais simples e mais eficazes. Tal como no Judo, a melhor forma de vencer um adversário é a habilidade de aproveitar a força dele e o empenho que coloca no seu ataque, para os derrubar redirecionando essa mesma força em nosso proveito.
Se a internet, genericamente e o facebook, em particular, concorrem com os produtores de literatura, se as conversas em tempo real e em chats “esvasiam” a trama e o mistério dos romances, se as viagens virtuais trazem o realismo para os viajantes virtuais em desfavor dos escritores e descritores de paisagens e ambientes... então use-se a internet e o facebook, pessoas reais e incentivem-se os leitores a descreverem e municiarem o autor de paisagens, ambientes e descrições realistas e com as vivências que nenhum visitante, por mais experimentado, algumas vez poderá, sozinho ou com pequena ajuda adquirir.
Ora bem, se a autora assim (e muito bem) o pensou, melhor o fez. O seu livro foi sendo escrito no facebook, acompanhado de perto e atentamente por uma plêiade de leitores interessados e intervenientes. O enredo tem de ir ao Algarve? Sejam então os leitores de Tavira os olhos, os ouvidos e todos os outros sentidos da Teresa que trarão para o livro as descrições sentidas e pormenorizadas das deambulações pela Veneza algarvia. É preciso ir a Trás-os-Montes. A Vila Real, a Moncorvo? Serão os transmontanos a conduzir essa viagem.
Mas não só. É sabido que muitos autores têm largas conversas e mantêm aconselhamento técnico com os especialistas das matérias que não dominam. Teresa Martins foi mais longe! Se a personagem que inventou vai ter de se relacionar com um professor de Literatura, com um agente da polícia ou com uma dirigente da APAV, então porque não direcioná-lo diretamente com as pessoas reais que Teresa conhece e chamá-los para o enredo diretamente “obrigando-os” a responder aos desafios reais que a ficção lhes coloca?
O resultado foi o interesse imediato que a obra despertou, pois os leitores já estão conquistados como bem o demonstrou a sala cheia da Livraria Ferin, onde foi apresentado, em que muitos deles eram leitores/autores/atores.
— com Teresa Martins Marques
Fonte: https://www.facebook.com/teresa.martinsmarques?fref=ts
12 março 2014
Provérbios - Três por dia.
1 - É a alma e não o corpo que torna o casamento indissolúvel.
2 -É a beleza o principal dom que a natureza nos outorga e o primeiro que nos arrebata.
3 - É a derradeira noite da novena.
2 -É a beleza o principal dom que a natureza nos outorga e o primeiro que nos arrebata.
3 - É a derradeira noite da novena.
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