08 março 2014

ARS VIVENDI, ARS MORIENDI - um texto de António Pinelo Tiza


FraciscoNiebro, ArsVivendi, ArsMoriendi, Âncora Editora, Lisboa, 2012
Resumo
Existe uma língua antiga, quase só falada até há uma dúzia de anos. Nestes três lustros, saltou para a ribalta e hoje escreve-se profusamente e afirma-se sobretudo nos domínios da comunicação e da literatura.
Amadeu Ferreira é um mestre incomparável da língua mirandesa. Mestre sobretudo da escrita, poesia e romance. Arrisco-me a afirmar que é a língua mirandesa uma das suas maiores paixões. Em pé de igualdade com a portuguesa, bem entendido. Pois não é Amadeu um escritor de duas línguas? A resposta parece óbvia: sim. Escreve em Mirandês e escreve em Português. Mas não. Para aqueles que acreditam na heteronomia, Amadeu Ferreira é o escritor e o ensaísta da língua portuguesa e FraciscoNiebro o romancista e o poeta do mirandês.
Assim, foi FraciscoNiebro quem escreveu ArsVivendi, ArsMoriendi, em Mirandês, como deve ser, por se tratar de uma obra poética. Amadeu Ferreira não poderia ter escrito esta obra em Português porque a sua forma e o seu conteúdo são de FraciscoNiebro e só este a poderia ter escrito; nem sequer se atreveu a traduzi-la porque Niebro pensa e escreve só em Mirandês. Então, ou escrevia tudo de novo e do princípio ao fim (outra obra), ou encarregaria alguém (no caso, António Cangueiro e Rogério Rodrigues) da tradução. Uma obra bilingue, com toda a propriedade.
1.     Os trabalhos e os deuses

O desespero de Orfeu
A mitologia clássica (e toda a cultura que a suporta) percorre transversalmente esta obra poética, enquadrando a cultura e as vivências mirandesas.FraciscoNiebro, tal como Orfeu, desceu ao inferno da cidade para trazer de volta ao mundo dos vivos a sua amada terra, cantando-a com a sua própria lira – a língua mirandesa.Niebro venceu o desespero ao regressar à sua origem e à sua gente, para lhes conferir a dignidade a que têm direito: ninguém melhor do que eles detém a “Arte de Viver / Arte de Morrer”.
A arte de viver (deixa perceber o poeta) só se alcança com a arte de morrer; assim se compreende que estejam “vivos os meus mortos”; é que ele não os deixa morrer, mantém-nos vivos para que neles o futuro lance raízes.

É triste ser velho será porventura um subcapítulo profundamente existencial(ista). Sem rodeios, renega o eufemístico ditado de que velhos são os trapos; não, “só as pessoas são velhas” e se o não forem, tanto pior; é porque morreram novos.
            O carpe diem de Horácio é, em Fracisco, “um sereno olhar de frente”, despreconceituado sobre essa idade existencial, a única de que não teremos saudade. Se formos coerentes connosco mesmos até ao fim, não vamos ter medo da velhice. Viver o tempo certo, não demorar mais do que aquilo que era suposto – isso é o que está certo. De outra forma, se demorarmos numa fase da vida mais do que o previsto, já ninguém esperará por nós. Interrogamo-nos, então, onde ficará a última fronteira, quando a vamos ultrapassar. Estas e outras dúvidas existenciais são cavalos a trotar na nossa cabeça, na noite da vida. A noite será a velhice; está prenhe de um exército de fantasmas que simplesmente vagueiam porque não têm pressa de ganhar a guerra; a morte está segura da vitória, qual “puta que nunca se deixará por nós foder”.
            Longe, longe era a cidade
            Deixamos a cidade para trás e ligamo-nos à terra – uma maneira de a ela nos acostumarmos e de nos lembrarmos de que um dia a ela (a outra terra) havemos de voltar, porque “pulviseset in pulveremreverteris”.
            Mas a cidade está bem presente nas lembranças do poeta que se misturam com as da terra, de quando era criança e observava o trabalho das andorinhas fazendo seu ninho com o barro que moldavam com o peito. E o voo das andorinhas que lhe trazia a luz da primavera. E o som do ruminar das vacas que se misturava com o chilrear dos pássaros do fim do verão, tão diferentes das andorinhas por não fazerem filasno voo “a la tarchica”. Entra, então, o outono da vida, o tempo oportuno de reviver princípios que os pecados de juventude haviam murchado. E prosseguir caminho.

Provérbios - Três por dia.

1 - A abelha, gado do vento conhece o dono que a trata bem e, farta, não ferra ninguém.
2 - A Abelha não leva chumbo.
3 - A Abelha perto do monte e com fonte e casa abrigada, produz mel e cera dobrada.

DIA INTERNACIONAL DA MULHER


DIA INTERNACIONAL DA MULHER
A origem do  Dia Internacional das Mulheres apresenta algumas versões  nem sempre coincidentes, mas o que realmente importa é lembrar a força das mulheres em todo o mundo.
A ideia de celebrar um Dia da Mulher vinha já do séc. XIX e, com maior ênfase desde os primeiros anos do século XX, na Europa e nos Estados Unidos, devido à luta , melhor dizendo , devido às lutas das mulheres por melhores condições de vida e de trabalho, bem como pelo direito de voto.
A proposta do Dia Internacional da Mulher foi iniciada na viragem do século XX, durante o processo de industrialização e expansão económica, que levou a grandes protestos sobre as condições de trabalho. Mulheres empregadas na indústria têxtil foram o grande motor de um desses protestos em 8 de março de 1857 em Nova Iorque, protesto esse barbaramente reprimido pela polícia, mandada avançar pelos patrões. As operárias pediam apenas a redução de 16 horas de trabalho diário para 10  e salários mais altos, propondo que lhes fosse paga a metade do salário dos homens, pois elas só recebiam cerca de um terço.
Três teses subsistem para que a data de 8 de Março  passasse a ser comemorada mundialmente:
1)   a terrível repressão do protesto das operárias em 8 de Março de 1857, em Nova Iorque;
2)   o incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist (que revelou as péssimas instalações em que laborava  e as condições subumanas em que laboravam as trabalhadoras ) e que também ocorreu em Nova Iorque em 25 de Março de 1911, e causou mais de 140 mortes. (Segundo relatos, cerca de 129 trabalhadoras tentaram escapar, mas encontraram as portas trancadas e foram queimadas vivas);
3) o grande protesto “Pão e Paz”, realizado por 90 mil  operárias russas da indústria têxtil contra a fome, contra o czar Nicolau II e contra a participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial. Essa gigantesca greve teve início  no dia 23 de Fevereiro de 1917,  pelo calendário Juliano, correspondente a 8 de Março pelo calendário gregoriano. (1)           
         
Depois destes acontecimentos históricos, e com a Primeira Grande Guerra, muitos outros protestos de fortes grupos femininos foram surgindo por todo o mundo.
Em 1910 ocorreu a primeira Conferência Internacional sobre a Mulher em Copenhaga e aí, em resposta a uma proposta de Clara Zetkin, foi aprovada a celebração do Dia Internacional da Mulher. Ainda sem data determinada. O que viria a acontecer no ano seguinte.
Nos países comunistas a data era celebrada com grandes  festividades, muita pompa e circunstância.  No Ocidente, o Dia Internacional da Mulher foi comemorado no começo do século, até à década de 1920. Depois, a comemoração foi caindo  no olvido durante alguns, assaz  longos, anos e foi somente recuperada pelo movimento feminista, já na década de ´60. Actualmente, com algumas interessantes excepções, a celebração do Dia Internacional da Mulher perdeu  bastante do seu significado original, adquirindo um caráter festivo, sim, mas mais comercial.
O ano de 1975 foi designado pela ONU como o Ano Internacional da Mulher e, em Dezembro de 1977, o Dia Internacional da Mulher – 8 de Março -  foi adoptado pelas Nações Unidas, para lembrar as conquistas políticas, sociais e económicas das mulheres corajosas que nos precederam.


(1)Trotsky regista o acontecimento: “Estavam planeadas acções revolucionárias e, contra as nossas directivas, as operárias texteis deixaram o trabalho em várias fábricas e enviaram delegadas informando da sua greve. Todas sairam às ruas : foi uma greve de massas. Mas não imaginávamos que este “dia das mulheres” viria a ser o rastilho da revolução”.
(História Viva “Conquistas na luta e no luto” , por Maira Kubik Mano, fonte: Internet)

Leiria, 8 de Março de 2013
Júlia Ribeiro
Foto:L. b.

Fonte: http://lelodemoncorvo.blogspot.pt/2013/03/dia-internacional-da-mulher.html

05 março 2014

«João de Deus – A Magia das Letras/ La Magie de Las Letras», de José Ruy, com tradução para mirandês de Amadeu Ferreira.



Venha assistir ao lançamento da obra «João de Deus – A Magia das Letras/ La Magie de Las Letras», de José Ruy, com tradução para mirandês de Amadeu Ferreira.

Os livros serão apresentados pelo Dr. Guilherme de Oliveira Martins.

A sessão, que se enquadra na comemoração do 184.º aniversário de João de Deus, terá lugar no próximo dia 10 de Março, segunda-feira, pelas 16:30 horas, no Museu João de Deus, Avenida Álvares Cabral, n.º 69, Lisboa.

ASSEMBLEIA GERAL DA ACADEMIA DE LETRAS DE TRÁS-OS-MONTES ATA NÚMERO QUATRO

ASSEMBLEIA GERAL DA ACADEMIA DE LETRAS DE TRÁS-OS-MONTES
ATA NÚMERO QUATRO

Aos catorze dias do mês de setembro de dois mil e treze, pelas dez horas e trinta minutos, reuniu a Assembleia Geral da Academia de Letras de Trás-os-Montes, no Auditório do Centro Cultural Municipal Adriano Moreira, em Bragança, com a seguinte Ordem de Trabalhos:
Ponto um: Leitura da ata da reunião anterior.
Ponto dois: Aprovação do relatório e contas do exercício de 2013 (março-setembro).
Ponto três: Saudação ao novo sócio honorário António Jorge Nunes.
Ponto quatro: Proposta de listas à Assembleia Geral, Direção e Conselho Fiscal da Academia de Letras de Trás-os-Montes.
Ponto cinco: Eleição dos novos órgãos.
Ponto seis: Tomada de posse.
Ponto sete: Outros assuntos.
          No que diz respeito ao primeiro ponto, foi lida a ata da reunião anterior. Tomou a palavra o Vice-Presidente da Direção, Amadeu Ferreira, e colocou à discussão a sugestão de António Sá Gué – criação de um prémio literário, sem dotação financeira - e se se discutia nesta reunião ou na próxima. Em resposta, o Presidente da Direção, Ernesto Rodrigues, referiu que a decisão ficaria a cargo da nova Direção. Posto isto, a ata foi aprovada por maioria, com as abstenções dos associados que não estiveram presentes nessa reunião.
Quanto ao segundo ponto da Ordem de Trabalhos, o Presidente da Direção, Ernesto Rodrigues, leu um texto em jeito de conclusão dos três anos dos órgãos diretivos da Academia. Começou por apresentar o nome dos vários sócios honorários da Academia de Letras até ao momento e referiu que , nesse momento, havia cerca de cem sócios inscritos. Em seguida, enumerou as várias atividades realizadas como, por exemplo, a divulgação de textos e obras de sócios da Academia de Letras de Trás-os-Montes, a homenagem a João Barroso da Fonte no dia vinte e três de março, a semana “ Artes e Livros”, dedicada aos livros e aos escritores, em Bragança, a publicação da Antologia de Raúl Rego, a obra de Padre António Vieira, o início do programa radiofónico, a antologia de autores transmontanos “A Terra de Duas Línguas II”, entre outras.
Passou-se ao ponto dois da Ordem de Trabalhos, e foi realizada  a apresentação das contas relativas aos últimos meses (março-setembro), referindo as receitas (quotas dos sócios e outras) e as despesas. A Academia tem realizado as suas atividades sobretudo com o valor das quotas anuais dos sócios. O saldo, que ficará na conta, é positivo (cerca de novecentos euros). O sócio António Tiza recordou o projeto da realização de dez documentários em DVD de dez escritores transmontanos. Esta proposta será tida em consideração em reuniões próximas de Direção. Todos estes documentos encontram-se, em anexo, nos documentos legais do Conselho Fiscal. Finalmente, o Relatório de Contas foi posto à votação e foi aprovado por unanimidade.
Relativamente ao terceiro ponto da Ordem de Trabalhos, o Presidente da Academia, Ernesto Rodrigues, propôs o nome do Eng. Jorge Nunes como sócio honorário. Todos concordaram com a proposta. O Presidente da Câmara, Eng. Jorge Nunes, dirigiu algumas palavras de agradecimento aos presentes e falou da colaboração entre a Câmara Municipal de Bragança e a Academia de Letras de Trás-os-Montes. Elogiou, ainda, as atividades realizadas, em tão breve tempo, e a qualidade das mesmas.
Passou-se ao quarto ponto da Ordem de Trabalhos da reunião, Proposta de listas à Assembleia Geral, Direção e Conselho Fiscal da ALTM. O sócio Amadeu Ferreira tomou a palavra e dirigiu um pequeno discurso a todos os presentes. Começou por agradecer a preocupação de todos pela sua saúde, nos últimos meses, e a importância desse apoio. Referiu, seguidamente, o orgulho de ter estado na Comissão Instaladora e na Direção da Academia e honrou o convite do Presidente da Câmara, aquando do repto da criação desta Academia. Elogiou o Presidente da Direção, Ernesto Rodrigues, e o Presidente da Assembleia Geral, António Manuel Pires Cabral, e as formas como sempre dirigiram todos os trabalhos e a seriedade apresentada. Finalmente, referiu que aceitava a inclusão do seu nome na lista para a presidência da Direção da Academia, proferindo um agradecimento a todos os presentes e solicitando empenhamento aos sócios para o trabalho futuro. Posto isto, Amadeu Ferreira apresentou a lista com os respetivos nomes ao Presidente da Mesa da Assembleia Geral, António Manuel Pires Cabral. Os nomes indicados foram os seguintes: Assembleia Geral – Ernesto Rodrigues, Maria da Assunção Anes Morais e Idalina Brito; Conselho Fiscal – Rogério Rodrigues, António Chaves e Alfredo Cameirão; Direção – Amadeu Ferreira, António Pinelo Tiza, Maria Hercília Agarez, Isabel Alves e Fernando Mascarenhas.
Relativamente ao quinto ponto da Ordem de Trabalhos, Eleição dos novos órgãos, procedeu-se à votação por voto secreto. Na Assembleia estavam vinte e um eleitores, que votaram na sua totalidade, tendo sido eleita por unanimidade a lista encabeçada por Amadeu Ferreira (Presidente da Nova Direção).
Finalmente, quanto ao sexto ponto, procedeu-se à tomada de posse de todos os elementos dos órgãos sociais: Assembleia Geral, Conselho Fiscal e Direção.
Na parte final da reunião, abriu-se um espaço para os outros assuntos. O sócio António Tiza referiu que a conta bancária tinha sido aberta em Macedo de Cavaleiros e pretendia-se que fosse transferida para Bragança por questões logísticas, temporais e geográficas. Desse modo, solicitou a todos os elementos eleitos o favor de assinarem a folha do ato eleitoral para a entidade bancária. Finalmente, o sócio Barroso da Fonte propôs um voto de louvor à Direção cessante e a todos os seus membros. O Presidente da Mesa, António Manuel Pires Cabral, colocou a proposta a votação, sendo aprovada por unanimidade.
A ata desta reunião foi lida e aprovada, em forma de minuta, por unanimidade.
E, nada mais havendo a tratar, deu-se por encerrada a reunião, da qual se lavrou a presente ata, que vai ser assinada por mim, Maria da Assunção Anes Morais, na qualidade de Secretária, e pelo Presidente da Mesa da Assembleia Geral, António Manuel Pires Cabral.

O Presidente:
A secretária:

04 março 2014

Património Imaterial do Douro (Reedição)


Alexandre Parafita, Património Imaterial do Douro. Narrações Orais. Contos. Lendas. Mitos
vol. 1 (Tabuaço)  e vol. 2 (Vila Flor e Carrazeda de Ansiães)


Notas para apresentação da obra na FNAC do Centro Comercial Vasco da Gama, Lisboa, 24/02/2011 [a complementar / desenvolver / precisar em termos orais].
Apesar do seu aspecto lacunar e de a maioria das ideias apenas ser sugerida neste documento e ter sido essencial o seu desenvolvimento oral, aqui se deixam estas notas a marcar o lançamento.

1.
Começar com referência a Alexandre Parafita e ao seu trabalho sem descanso no domínio da literatura de tradição oral: pelos estudos académicos realizados, pelas inúmeras publicações efectuadas e pelas recolhas feitas na região do Douro e de Trás-os-Montes, é hoje um dos mais importantes investigadores do nosso país neste domínio. Ao contrário de muitos, tem dado conta pública do seu trabalho, e esta é uma questão essencial pois é este um domínio de claro interesse geral e não apenas dos estudiosos.

2.
A investigação onde assentam as obras aqui em apresentação integra-se no Plano de Inventariação do Património Imaterial do Douro, levado a cabo pelo Museu do Douro, com o apoio da FCT (Fundação de Ciência e Tecnologia) e em ligação com importantes departamentos universitários de que o autor faz parte [Universidade Nova de Lisboa e Universidade do Algarve]. A iniciativa e o apoio são essenciais, mas não o é menos a sua integração em rede, para podermos dispor de bases de dados sérias, porque fiáveis e obedecendo a critérios científicos, que possam servir de suporte a novos estudos.
É o próprio conceito de museu que vai evoluindo, ganhando vida, cada vez mais longe de ser um exclusivo repositório de objectos tantas vezes desligados das pessoas que os fizeram ou que a eles estiveram ligadas. Por tudo isso cabe aqui cumprimentar o Museu do Douro na pessoa do seu Presidente e fazer votos para que o trabalho continue e possa abranger todos os 22 concelhos da região do Douro.

3.
A UNESCO deu um impulso essencial na chamada de atenção e no tratamento do património imaterial. Hoje, de forma atabalhoada, assiste-se a uma tentativa de classificar como património imaterial da humanidade certas realidades ainda antes de serem estudadas e inventariadas e obedecendo muitas vezes a objectivos políticos pouco claros ou critérios científicos pouco sérios, numa palavra, porque o tema está na moda. Tudo assenta, muitas vezes, num conceito de património imaterial que é redutor porque ligado às suas manifestações mais epidérmicas e mais vistosas.
Vejamos com clareza do que estamos a falar.

”(Re)Cantos d’Amar Morto”, de Pedro Castelhano (Rogério Rodrigues)"

Teve lugar,no passado dia 19/03/2011, na Biblioteca Municipal,a apresentação,pelo Dr.Amadeu Ferreira, do livro de poemas de Pedro Castelhano,pseudónimo de Rogério Rodrigues,”(Re)Cantos d’Amar Morto”.Motivadas pela qualidade dos intervenientes,as pessoas vindas de várias partes do país encheram por completo a sala do auditório da Biblioteca.

Porque o acontecimento suscitou tanta curiosidade e interesse,transcrevemos na íntegra o texto de apresentação do dr.Amadeu Ferreira,assim como o do autor da obra.
 O VOO DO ENTARDECER NA GEOGRAFIA DA MEMÓRIA

1.Rogério Rodrigues fez-nos esperar quarenta anos até nos dar o segundo livro de poemas [Livro de Visitas, aos 23 anos]. Omito aqui os seus vastos pergaminhos literários, onde também se inclui a ficção [A outra Face da Morte, novela]. Fique nota, no entanto, de que são raros os jornalistas a seguir este caminho, onde avulta Fernando Assis Pacheco. Porém, este é o primeiro livro de poemas de Pedro Castelhano. Agora que, de algum modo, já não tem Peredo dos Castelhanos, Rogério Rodrigues transporta-o, com pouco disfarce, agarrado ao nome. E desde logo, por aí, ficamos situados e o terreno marcado.
António Baptista Lopes e a Âncora iniciam com este volume uma colecção de poesia. Exige-se alguma coragem para tal pois os poetas, quase todos, são gente que é perigoso frequentar. Estou certo que terá sucesso, pois não poderia ter começado da melhor maneira a Colecção Universos, com este poemário do seu director. A grafia é cuidada, a capa de um amarelo que talvez nos queira ofuscar para lá do conteúdo, porém sóbria e com pormenores muito agradáveis.
Para mim é uma honra estar aqui a apresentar este livro feito por amigos, mas sobretudo porque é um livro de poesia, em Moncorvo. Há dias escrevia no meu blogue, onde tenho traduzido para mirandês alguns poemas de Pedro Castelhano, que me pareceu mais alta a Serra de Reboredo, e o problema não eram os meus olhos. Agora acrescento que, nestes tempos de tanta dificuldade e incerteza e com assomos apocalípticos, o mundo não está completamente perdido enquanto a poesia morar entre nós.


O VOO DO ENTARDECER NA GEOGRAFIA DA MEMÓRIA

03 março 2014

Etnografia Transmontana,por António Fontes

Sinopse: O Barroso é ainda um dos lugares no qual podemos entregar o tempo à magia da memória do passado e às manifestações religiosas e profanas que continuam cimentadas no presente.
Neste primeiro volume, o percurso etnográfico revolve o fio à meada das crenças e tradições, perdidas e usadas, passando pelas sombras do diabo, mezinhas e bruxarias, definhando o aspecto lúdico do dia-a-dia até à santidade dos dias e suas festas, posfaciando na sabedoria popular cromatizada através dos ditos do povo.
«É por isso que subo nos outeiros e grito: vinde ver o mundo a acabar», apesar de ficar registado neste trabalho de campo a bom tempo.

Biografia: António Fontes nasceu em Cambeses do Rio, Montalegre, em Fevereiro de 1940.
Terminou o curso de Teologia no Seminário de Vila Real em Junho de 1962. Foi pároco, de 1963 a 1971, em Pitões das Júnias e Tourém e, de 1966 a 1971, em Covelães. É actualmente, e desde 1971, padre nas freguesias de Mourilhe, Meixide, Soutelinho da Raia e Vilar de Perdizes, no concelho de Montalegre.
Fundou o jornal Notícias de Barroso. Licenciado em História pela Universidade do Porto, é autor de vários trabalhos de recolha etnográfica e investigação nas áreas de Antropologia, Arquitectura, Etnografia e Música. Organizou a representação de «O Auto da Paixão» e vários congressos internacionais: Arquitectura Popular, Caminhos de Santiago, História Medieval. Organiza, desde 1983, os Congressos de Medicina Popular de Vilar de Perdizes, que anualmente levam a esta aldeia do concelho de Montalegre milhares de participantes.
Está representado nas seguintes antologias: As Chegas de Bois (organizador), Trás-os-Montes e Alto Douro e Da Literatura Popular à Literatura Infantil. É autor das obras Etnografia TransmontanaOs Chás dos Congressos de Vilar de PerdizesAras Romanas e Terras de Barroso Desaparecidas, e co-autor de vários títulos, nomeadamente Medicina PopularMitos, Crenzas e Costumes da Raia SecaMisarela – A Ponte do Diabo.

Prefácio

Não sei se haverá alguém que tanto como António Lourenço Fontes tenha chamado a atenção dos portugueses e dos estudiosos de outras nacionalidades para as características, por vezes bem singulares, da cultura barrosã. Através dos livros, do seu jornal Notícias de Barroso, de conferências e entrevistas, dentro e fora do país, de colaboração em filmes, de uma vida paroquial aberta ao meio, do seu trabalho de assessor cultural na Câmara Municipal de Montalegre, de numerosas acções de animação e estudo, nos domínios do artesanato, das tradições, de tudo o que é propriamente popular, trate-se de jogos, arquitectura, teatro, religiosidade ou medicina, tem ele conseguido atrair a curiosidade, o carinho e admiração de muita gente pela sua terra, que até ali vai de longada, pondo olhos e ouvidos nas coisas, não raro embevecidamente.
«Entre quem é» – diz ele, se lhe batem à porta da residência de Vilar de Perdizes, uma construção tipicamente transmontana, logo franqueando aos olhos ávidos de repasto cultural salas e saletas, quartos, cozinhas e lojas, tudo abundantemente guarnecido, abarrotado de livros e cadernos, documentos de vária origem como estatuetas, quadros, peças de artesanato e outras relíquias. Naquela casa tinha vivido o Padre Domingos Barroso, um homem tão devoto dos santos como dos encantos da sua terra e que era especialmente versado em matéria de cinegética. Tanto ele constituiu para António Lourenço Fontes uma sombra tutelar que diligenciou para que no largo fronteiro lhe fosse erguido um monumento. Lá está, bem significativo na sua simplicidade. Desse sacerdote não recebeu, porém, mais do que um incentivo. A pesquisa e a recolha sistemática de mitos e ritos, usos e tradições, que dão um rosto à gente barrosã, estavam ainda por fazer.
Escreve neste livro: «Metia-me medo, por não haver quase nada escrito sobre tudo isto, que foi para mim floresta virgem que tive de explorar.» E a verdade é que explorou, sem bravatas, antes com uma paciência modesta, como é aliás do seu temperamento. Menos preocupado com desenvolvimentos
teóricos e questões taxinómicas do que com o registo atento, tanto quanto possível cingido ao essencial e praticado à luz e segundo a ordem da experiência, com o sacrifício de certo arrumo, acabou por nos deixar um trabalho que fascina pelo despretensiosismo e pelo toque certeiro no que os etnólogos consideram imprescindível e fundamental para as suas teses mais engenhosamente concebidas, ainda que por vezes marcadamente subjectivas e especulativas e, por isso, discutíveis, neste jogo de esquivanças e probabilidades que é o real para toda a ciência.

O campo de observação de António Lourenço Fontes é o da etnografia, no sentido em que C. Levi-Strauss a definiu: «A etnografia consiste na observação e na análise de grupos humanos considerados na sua particularidade e visando a reconstituição, tão fiel quanto possível, da vida de cada um deles.» Retratar e biografar o povo de Barroso foi essa a intenção de António Lourenço Fontes, como transparece do plano traçado para cuja execução trabalhou, «sabe Deus com que dificuldades». Mas as monografias comportam sempre riscos de efectualidade, mesmo tendo em conta o bom senso e a argúcia do critério adoptado, a dedicação e a vantagem de pesquisar a partir de dentro, como é o caso, dado que o autor nasceu no coração de Barroso, onde após os seus cursos em Vila Real e no Porto continuou a viver. Outros etnógrafos tiveram de suportar dificuldades de aceitação pelas comunidades visadas, como sucedeu por exemplo a Malinowski na Melanésia.
Um risco etnográfico é o que se prende com problemas de diacronia e dialéctica. Toda a descrição nesta matéria é selectiva e deixa pressuposta uma teoria, por mais geral que ela seja. Ora, quanto a isto, o primeiro obstáculo a transpor é o de conferir o grau de actualidade ou não de um fenómeno, os factores e o processo da sua evolução e ainda o que há nele de núcleo permanente, com relevo para os vectores de articulação com os outros fenómenos da mesma estrutura ou sistema. António Lourenço Fontes tem consciência disso, expressando a vontade de «recordar tanto as tradições vivas, como as que já morreram»; e em algumas páginas caracteriza «o homem barrosão e o seu feitio», o que não o impede de adoptar seguidamente o método cumulativo, mais de acordo com o retrato do que com a biografia, resultando assim um painel de cromatismos insinuantes, como se o papel deste etnógrafo fosse o de coleccionar revérberos. É um caminho, entre outros, que deixa por apreender o que no fundo é inapreensível, isto é, o espaço de instabilidade latejante que se situa, relativamente a um costume, a meio caminho do que foi e do que é – um espaço onde pulsam determinações endógenas e exógenas cuja fixação descritiva é uma aventura, a menos que do facto social se persiga uma visão hipotético-dedutiva, atenta às formas globalizantes, muito em conformidade com o método estruturalista. A este método porém, que conduz a uma ciência de rigor, escapam os conteúdos vivos, a mobilidade quer ontológica quer factual do ser, tendo-se como certo que a observação e a theoria realizadas a partir do exterior são sempre neste aspecto ou naquele algo deformantes. E daí que o formalismo estruturalista se venha considerando ultrapassado.
António Lourenço Fontes opta pelo registo directo e breve, sem outro
enquadramento pontual que não seja o decorrente da localização e o de encostar uns aos outros os factos mais semelhantes entre si, segundo uma concepção da etnografia tradicional. Certo. O leitor e o antropólogo ficam naturalmente
satisfeitos com a oferta de textos puros, lavados: que sejam um e outro a operar induções e deduções. Como se dissesse: o povo de Barroso é mais ou menos assim, nos domínios que investiguei; façam agora o favor de comparar e tirar conclusões. Nem sequer, como acontece com «o direito sobre as moças da terra» e as «chegas», ele nos diz claramente até que ponto o costume persiste na forma apresentada ou como possivelmente evoluiu e por que motivos. Como se também nos quisesse dizer: em Barroso foi ou é assim; venham cá e vejam como as coisas, apesar de inevitáveis transculturações, ainda conservam peculiaridades que as identificam e nos identificam.

O que em toda esta obra se subentende não é difícil de perceber, se nos ativermos a afirmações vigorosas como esta: «O homem transforma o ambiente, mas deixa-se impressionar fundamente por ele.» Barroso tem uma configuração geográfica, um clima, um modo de ser, um estar longe de tudo menos de si, uma história cerzida de tradições tão enraizadas na memória e na vida que, mau grado os ventos desculturantes que sopram de várias direcções, irá manter a sua identidade cultural. Identidade para já bem patente naquilo a que Kardiner chama «personalidade de base, comum a todos os barrosões, onde quer que se encontrem, um suplemento de alma que dá vida a estes dois livros, em que se abre uma consciência generosa, a ser ouvida não só pelos seus conterrâneos, mas por quantos assumem a cultura como um dos valores mais preciosos do existir, cépticos felizmente em relação à exclusiva via economicista da paz e da felicidade. Em livros assim tocam os sinos a rebate.

António Cabral

Grémio Literário Vila-Realense - Gaveta do Fundo, de A. M. Pires Cabral

Câmara Municipal de Vila Real
Grémio Literário Vila-Realense

    Convite

O Presidente da Câmara Municipal de Vila Real, Eng.º Rui Jorge Cordeiro Gonçalves dos Santos, e o Presidente da Direcção do Centro Cultural Regional de Vila Real, Prof. Doutor Carlos Augusto Coelho Pires, têm a honra de convidar V. Ex.ª e Exm.ª Família a assistir à sessão de apresentação do livro Gaveta do Fundo, de A. M. Pires Cabral, que terá lugar no dia 14 de Março de 2014, pelas 21h00, no Salão Nobre do Centro Cultural Regional de Vila Real.

A apresentação estará a cargo da Dr.ª Maria Hercília Agarez.

02 março 2014

SAUDANDO O 40º ANIVERSÁRIO DA REVOLUÇÃO DOS CRAVOS – 25 DE ABRIL DE 1974

PARA TODOS OS PÚBLICOS

 25  DE ABRIL, SEMPRE!



Uivos de ventos em mares tenebrosos
surgiram ontem entreabertos nas janelas,
e brotaram hoje, em sol de verde esperança
dentro de mim, de ti, deles e d`elas.



Valores de família e fado renascidos em canções,
estilhaços luminosos de uma espera serena,
como cravos vermelhos em rubros corações,
amor de nós, Grândola, vila morena!



Sementes doces germinando e a nascer
de folhas, plantas e frutos a crescer,
aqui ontem, amanhã agora. Ação da
palavra liberdade. De hoje, crua realidade,
e (a) de outrora?



Terá de haver mais 25 de Abris!
Pelas dores que sentes, calas e ris!
De futuro, tempo de esperanças (?)
que são as crianças,
nossos filhos, sobrinhos e netos.



25 de Abril da liberdade,
quisera que de novo viesses,
para em mim, em ti, em nós
de novo esperança nascesses:

“De paz, pão, saúde e educação”!


2012.04.25
Autor: Lara de Léon,
Pseudónimo de Maria Idalina Alves de Brito


01 março 2014

Contas que minha mãe me contava…, de António Cangueiro, com ilustrações de Sara Cangueiro.

Resumo: Esta obra regista um conjunto de contos e orações que António Cangueiro ouvia da mãe, Maria Joaquina Garcia, na infância. De origens humildes, o autor, pais e irmãos viviam com poucos recursos, numa casa pequena, «mas morava lá muito riso e alegria. Cantava-se e contavam-se muitas histórias.» São essas recordações, esse património imaterial, que o autor reúne neste livro: «Tantas vezes me estribei nestas histórias para viajar na minha imaginação... Viajei no mar que nunca tinha visto e que mais tarde experimentei de profissão, marinheiro fui, e senti o furor das suas ondas. História onde apurei os sentidos para a humanização ou malvadez da condição humana. […] Rezar era conversar com quem te suavizava as agruras da vida e Deus acalmava os teus medos e tuas ansiedades. As trovoadas amedrontavam-te e logo ouvido o primeiro trovão ou visto o primeiro relistro, a candeia do azeite acendias, o postigo quase cerravas para a luz não entrar com tanta vontade, ajoelhavas-te e começavas a rezar: “Santa Bárbara Bendita que no céu está escrita…”»

António Cangueiro nasceu a 30 Abril de1957, na freguesia de Bemposta, concelho de Mogadouro, onde viveu até aos 21 anos.
Em 1978 é incorporado na Marinha de Guerra Portuguesa. Cumpre o serviço militar obrigatório de 2 anos na especialidade de comunicações. Em 1981, após frequentar o Curso Complementar de Comunicações, ingressa nos Quadros Permanentes da Marinha. Prestou serviço em várias unidades em terra e navais. Mantém-se ao serviço até 2003.
Em 2005, licenciou-se em Controlo Financeiro pelo ISCAL – Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa.
Traduziu, em colaboração, da língua mirandesa para português, a obra poética de Fracisco Niebro Ars Vivendi Ars Moriendi e, de português para mirandês, o álbum de banda desenhada de José Ruy João de Deus – A Magia das Letras.

Maria Joaquina Garcia, doméstica, nasceu a 4 de Março de 1925, na freguesia de Bemposta, concelho de Mogadouro, filha de Carlos Garcia e Teresa Benito Montes.
Casou a 14 de Setembro de 1946 com José Cangueiro, sapateiro.
Tiveram três filhos, Francisco, António e Emília.

26 fevereiro 2014

FERNANDO DE CASTRO BRANCO na Rádio Brigantia



Política do Sensível em Albano Martins – tese de mestrado. Faculdade de Letras da Un. Porto, 2004.

                Alquimia das Constelações, 2005. Destaca-se o capítulo “Lugares do tempo”, com as poesias:
                               - Duas Igrejas, pág. 18 da Antologia.
                               - O Planalto Mirandês
                               - Miranda do Douro, pág. 23 da Antologia.
                               - Castelo de Miranda do Douro, pág. 15 da Antologia.
                               - Rio Sabor 2, pág. 29 de Antologia.
                               - Castelo de Bragança, pág. 54 da Antologia.
                               - Avenida do Sabor…
                O Nome dos Mortos, 2006. Primeiro poema:
                                               “É uma chuva lenta a serenidade
                                               dos mortos,
                                               enigmáticas pedras atravessadas
                                               na garganta das fontes,
                                               com pássaros inclinados
                                               nos ramos aquáticos
                                               de outros dias”.

                Estrelas Mínimas, 2008, subdividido em Turismo a Céu Aberto e Poemas para um rio.

                A Carvão: poesia reunida, 2009. Sete livros.

                Assinatura irreconhecível, 2010.

                A Caminho de Avoriaz, 2011, Afirma A. M. Pires Cabral: “São dois livros belíssimos, com uma poesia que alterna entre o culto e o coloquial, mas sempre profundamente envolvida, cheia de emotividade (às vezes disfarçadsa? O que só a reforça), em que o autor reflecte sobre pessoas, lugares, a vida, a natureza, o espaço da memória pessoal, etc… / Um grande poeta e dois grandes livros de poesia”.

                Representado em antologias: A Terra de Duas Línguas, I e II vols. 


                Fernando de Castro Branco, Poeta Mirandés, Ua Antologie, 2012, organização, tradução e prefácio de FraciscoNiebro.




25 fevereiro 2014

Conto dos Montes Ermos, por ANTÓNIO LOPES (SÁ GUÉ)

Os Contos dos Montes Ermos não são meras narrativas de vivências de um passado recente do Nordeste Transmontano. Nem tão somente um relembrar do léxico que define o transmontano de aldeias longínquas onde o tempo, outrora, passava devagar. Neles há o retrato das gentes, do labor e do lazer. Neles há a seiva que moveu os filhos dos homens transmontanos em busca de outros espaços onde a alma amadurecesse e o grito da saudade repovoasse os montes, de onde o “Longe” demora a chegar. Teresa Leonardo Fernandes.