20 fevereiro 2014

"O Coronel que morreu de sentido",por Afonso Praça


Afonso Emílio Praça (Felgar, Torre de Moncorvo, 13 de Janeiro de 1939 - Lisboa, 3 de Maio de 2001) foi um jornalista e escritor português. Estudou nos Seminários de Vinhais e Bragança, de 1951 a 1958 (onde concluiu o 2º ano do Curso de Filosofia), no Colégio de S. João de Brito, em Bragança, e na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se licenciou em Filologia Românica, em 1968.
Começou a actividade jornalística na revista Flama, em Setembro de 1961, vindo a profissionalizar-se, sete anos depois, no Diário de Lisboa, onde se manteve até Janeiro de 1972. Ingressou então no República, regressando em Dezembro de 1974 ao Diário de Lisboa, onde se manteve até Agosto de 1975, altura em que passou para o semanário O Jornal, de que foi um dos fundadores. Entre 1973 e 1975 pertenceu também ao quadro redactorial da revista Vida Mundial, tendo ainda colaborado na delegação de Lisboa do Diário de Moçambique.
No grupo de O Jornal foi também director de O Jornal da Educação e dos semanários Se7e e O Bisnau (semanário humorístico e satírico), além de colaborador do Jornal de Letras. Foi ainda redactor da revista Visão e autor do programa televisivo Portugal de Faca e Garfo. Na RTP colaborou noutros programas, como Memória dum Povo, Um, dois, três (de Carlos Cruz), Faz de Conta (de Raúl Solnado) e Quem conta um conto (de Mário Zambujal), e foi autor de textos para vários documentários. Foi co-autor, com Fernando Assis Pacheco, da adaptação (a partir do romance de Manuel Mendes, Pedro - Romance dum vagabundo) e diálogos do filme Pedro Só, de Alfredo Tropa, e actor do filme Bárbara, do mesmo realizador.

Presidente do Sindicato dos Jornalistas em 1974 e 1975, pertenceu por mais de uma vez aos corpos directivos da Casa da Imprensa e foi professor da Escola Superior dos Meios de Comunicação Social (1976/77), da Escola Secundária dos Olivais (1980/81) e do Departamento de Língua e Cultura Portuguesa da Faculdade de Letras de Lisboa. Participou como monitor em cursos de formação na área da Comunicação, nomeadamente nos que foram promovidos pela Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro-Escola Superior de Educação de Bragança, pela Conferência Episcopal Portuguesa e pelas dioceses de Aveiro, Viana do Castelo, Algarve e Évora.
Colaborações jornalísticas

Flama
Diário de Lisboa — Profissionalização jornalística e Redactor
República
Vida Mundial — Redactor
Diário de Moçambique
O Jornal — Fundador
O Jornal da Educação — Director
Se7e — Director
O Bisnau — Director
Mensageiro de Bragança
A Voz do Nordeste
A Voz Portucalense
Jornal do Fundão
Aurora do Lima
Ribatejo
Brados do Alentejo
Seara Nova
Record
Rádio & Televisão
Volta do Mundo
Bragantia
JL (Jornal de Letras)
Visão — Redactor


O Regionalismo em Trindade Coelho (separata do Boletim da Sociedade da Língua Portuguesa), SLP, 1961
25 de Abril (em co-autoria), 1974
Um momento de Ternura e Nada Mais (crónicas), Editorial Notícias, 1995
Bragança, 1944/45: um ano na Vida de Virgílio Ferreira (separata da revista Brigantia, 1995)
O Coronel que Morreu de Sentido (ficção), Editorial Notícias, 1996.
Onde, a propósito de petiscos, se recorda um abade (prefácio ao volume dedicado a Trás-os-Montes da colecção sobre cozinha regional, de Maria Odete Cortes Valente), Círculo de Leitores
Dicionário de Calão, Editorial Notícias, 2001
Ligações externas

Biografia de Afonso Praça (Diário de Trás-os-Montes, 3 de maio de 2001)
A Língua à Mostra - Texto de Pedro Mexia sobre o Dicionário de Calão (Diário de Notícias, 4 de outubro de 2005)
Afonso Praça no IMDB (em inglês)


http://pt.wikipedia.org/wiki/Afonso_Pra%C3%A7a

16 fevereiro 2014

FASTIGÍNIA de Tomé Pinheiro da Veiga, por Ernesto Rodrigues




ERNESTO RODRIGUES (1956), escritor, ensaísta e tradutor, é professor na Faculdade de Letras de Lisboa. Estreou-se na poesia em 1973, na ficção em 1980, destacando-se os romances A Serpente de Bronze (1989), Torre de Dona Chama (1994), O Romance do Gramático (2011) e A Casa de Bragança (2013). Na edição, relevemos As Farpas Completas (2006-2007), de Ramalho Ortigão, e a edição crítica de Fastigínia (1605; 2011), de Tomé Pinheiro da Veiga. Outros títulos: Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal (1998), Cultura Literária Oitocentista (1999), Visão dos Tempos. Os Óculos na Cultura Portuguesa (2000), Verso e Prosa de Novecentos (2000), Crónica Jornalística. Século XIX (2004), Padre António Vieira, Sermões, Cartas, Obras Várias (2008), A Corte Luso-Brasileira no Jornalismo Português (1807-1821) (2008), «O Século» de Lopes de Mendonça: O Primeiro Jornal Socialista (2008), Camilo Castelo Branco, Poesia (2008), 5 de Outubro - Uma Reconstituição (2010). Tradutor de literatura húngara em Portugal, desde 1983, verteu cinco títulos do Prémio Nobel (2002) Imre Kertész e quatro de Sándor Márai, além de Kosztolányi e Magda Szabó, entre outros.
http://ernestorodrigues.blogspot.pt/



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15 fevereiro 2014

O MÍNIMO SOBRE A LÍNGUA MIRANDESA, por Amadeu Ferreira

1. O que é o mirandês?

O mirandês, ou língua mirandesa, é o nome de uma língua falada no Nordeste de Portugal, desde antes da fundação da nacionalidade portuguesa. Quanto à estrutura é uma língua românica, que teve a sua principal origem a partir do latim. Históricamente pertence à família de línguas astur-leonesas, onde também se incluem o asturiano e o leonês.
Até 1884 foi uma língua apenas oral. Desde então, tem sido também escrita, dispondo de uma Convenção Ortográfica desde 1999. Nomeadamente a partir do século XVI e apesar de ser uma língua falada em Portuugal desde o começo da sua existência, o mirandês é uma língua menorizada quer em termos culturais e sociológicos quer em termos políticos, levando a que Portugal fosse apresentado, até há muito pouco tempo, como o único país monolingue da Europa, afinal falsa excepção à regra do bilinguismo ou multilinguismo dos diversos países. Em 1999, com a lei nº 7/99, de 29 de Janeiro, o mirandês foi oficialmente reconhecido como língua regional de Portugal,

2. Onde se fala mirandês?

A língua mirandesa é falada em todas as aldeias do concelho de Miranda do Douro, com excepção de duas (Atenor e Teixeira), e em três aldeias do concelho de Vimioso (Vilar Seco, Angueira e Caçarelhos), no distrito de Bragança. O mirandês foi, apressadamente, dado como extinto em aldeias como Caçarelhos, porém, apesar de muitíssimo debilitado, continua aí a ser falado por pessoas de idade. A área ocupada pela região onde se fala o mirandês tem à volta de 500 km2 de superfície e situa-se na fronteira com a província espanhola de Zamora (Aliste e Sayago). O mirandês é também falado por muitos mirandeses que imigraram para as principais cidades do país ou que emigraram para o estrangeiro.

Na cidade de Miranda do Douro, onde segundo alguns autores deixou de se falar mirandês no início do século XVII, a língua tem vindo a regressar com as pessoas das aldeias que, nos últimos anos, têm vindo a fixar residência. Também desdealguns anos as crianças da cidade usufruem do ensino da língua mirandesa nas escolas públicas. Apesar disso, a fala mirandesa não é de uso normal na cidade, mas sim o português e, dada a quantidade de turistas espanhois que a visitam para fazer compras ou simplesmente comer, o castelhano. Daí que, para se ouvir falar mirandês, a cidade de Miranda do Douro não seja o local adequado, razão porque são apressadas e sem fundamento as conclusões que apontam para a extinção do mirandês pelo facto de não se falar na cidade que é capital administrativa da terra de Miranda.
O espaço onde se falou mirandês ou outras variedades do astur-leonês foi bastante mais vasto, incluindo, em traços gerais e grosseiros, toda a zona do distrito de Bragança que se situa entre a margem esquerda do rio Sabor e a fronteira com Espanha. Terá sido assim na Alta Idade Média, regredindo progressivamente em direcção à fronteira. Além do mirandês, outras falas astur-leonesas se mantiveram atépouco tempo na zona fronteiriça do concelho de Bragança, chamada Lombada, em particular nas aldeias de Rio de Onor, Guadramil, Deilão e Petisqueira. Porém, a fala leonesa tem sido dada como extinta nestas aldeias, embora não seja totalmente clara a situação de Rio de Onor.
Apesar de não se falar mirandês nessa região mais vasta, ainda pode falar-se de uma cultura comum, em particular na área correspondente à medieval Terra de Miranda (concelhos de Miranda do Douro, Vimioso, Mogadouro e parte dos concelhos de Freixo de Espada à Cinta, de Bragança e de Macedo de Cavaleiros), cultura essa que se manifesta pelo ar de família que o vocabulário usado continua a manter, pela fonética e muitas construções sintácticas do português falado nessa zona, pela similitude de festas, tradições, música e dança.

09 fevereiro 2014

A OITAVA COLINA, DE MODESTO NAVARRO

    António Modesto Navarro (Vila Flor, 1942) é um dos escritores mais fecundos da literatura trasmontana, com uma vasta obra no campo da ficção, a que acaba de acrescentar A oitava colina, 2013, romance publicado pela editora Página a Página, de Lisboa.
                Tal como em tantos dos seus romances, Modesto Navarro narra uma história de resistência ao fascismo. Lê-se na contracapa:
«Na década de 1960 principiaram a guerra colonial e a emigração para a Europa. A experiência da vida de então em Lisboa, a resistência, a formação dos soldados, a guerra em África e a construção do 25 de Abril na clandestinidade e no movimento democrático (CDE) estão nestas páginas, na vontade de viver e de lutar dos trabalhadores e dos intelectuais conscientes e interventivos, na prisão e na tortura, na Revolução e depois, até agora, numa nova resistência que se impõe para transformarmos a vida.
Este é um livro de amor, de libertação e afirmação humana no interior do país e em Lisboa.»
O romance distingue-se pela agilidade narrativa e por uma prosa amadurecida e envolvente. 

            

08 fevereiro 2014

Livros e Autores Transmontanos,por Barroso da Fonte

43 capas de livros de autores transmontanos.Foto de arquivo.
 Indiferentes à crise os Transmontanos teimam em demonstrar que a cultura sobrevive e cada vez mais se afirma como luz da humanidade. De Chaves a Bragança, de Mirandela à Régua, de Vilar de Perdizes a Sabrosa tudo mexe. Os ciclos viciosos revelam-se mais em alturas destas. O poder político confronta-se com heranças falidas. A cultura é a primeira vítima. Os criativos multiplicam-se e essa sementeira revela-se em obras de arte: livros, pintura, escultura. Ao vazio central falta o que se procura no poder local. Mas a crise toca a todos. E até aquilo que durante anos foi a voz do povo anónimo, é hoje o espelho da magreza social. Refiro-me aos jornais regionais que prestam altíssimos serviços e que custam os olhos da cara a quem os gere e produz.
Trás-os-Montes e Alto Douro, antes e depois da revolução dos cravos, teve órgãos desses às dúzias.
Faziam falta aos emigrantes, aos industriais, aos empresários da modernidade, às instituições públicas, ao cidadão que gosta de andar bem informado e a tempo e horas. De repente todas essas classes ficam órfãs. Quem criou e geriu essas vozes públicas não resistiu às tempestades. Foram muitas, diversificadas e terríveis. O país sofreu um abalo sísmico. As regiões empobreceram. E nem sequer podem manifestar-se, de alegria ou de tristeza, por essas transformações que repercutiam o pensamento que fecundava a alma das gentes e entoava hinos ao criador.
Chaves tem hoje apenas um jornal. Bragança tem dois, tantos como Vila Real. Mirandela dois. Régua e Vila Pouca cada um seu. Boticas 1, Valpaços dois e Montalegre três. Só falo dos que conheço. E cito-os para os elogiar pela coragem dos seus responsáveis a quem todos devemos bater palmas. Já que sustentar um jornal regional em zonas do interior, custa tanto como mandar um foguetão ao espaço. Se esqueço algum é por ignorância.
Uma classe que muito sente essa falta é dos criativos. Eles e os órgãos de informação são aliados naturais. Os autores dos grandes centros urbanos não sentem essa falta. Têm as televisões, as rádios e os jornais que se atropelam. Cada vez que um intelectualóide dá um espirro, inicia o seu ciclo ascensional de efemeridade. Logo vem a turba multa mediática apregoá-la como obra de arte. Fabricam-se assim, os compadres, as comadres, as uniões de facto do oportunismo saloio que tão pernicioso tem sido ao país real.
Afloro este tema para exaltar os jornais que vão resistindo e que, apesar de toda a sua solidariedade, nem sempre podem garantir o espaço (ou tempo de antena) que os autores merecem. Esta é a síntese dos chamados ciclos viciosos que a crise nacional implementou, graças aos políticos que temos. Atento ao que se vai editando, sempre me alegrei com o número e qualidade daquilo que vai surgindo através dos criativos que não nascem em Lisboa, Porto e arredores. De quanto me chega procuro dar eco para que se saiba quem e que progresso vamos tendo. Ficam os nomes e títulos de alguns desses exemplos:
Alexandre Parafita surpreendeu-nos, desta vez com um ensaio biográfico a que chamou: A Máscara do Demo. O ressurgir de um bispo português que se chamou Frei João da Cruz, da Ordem dos Carmelitas Descalços que «governou com mãos de ferro, em meados do século XVIII, as dioceses do Rio de Janeiro e de Miranda do Douro».Obra admirável, enriquecedora e a não perder.
Ernesto Rodrigues (Torre de D. Chama) igualmente docente universitário e presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes. Um romance sobre a poderosa Casa de Bragança que teve os seus fortes e longínquos alicerces em todo o Norte do País até Vila Viçosa. Oportuna reconstrução histórica destes 600 anos de existência transcendental. A este livro de leitura obrigatória aumente-se A Terra de duas Línguas II Antologia de Autores Transmontanos. Ernesto Rodrigues e Amadeu Ferreira, duas personalidades académicas de referência nacional, que puseram a Academia de Letras de Trás-os-Montes em linha de alta velocidade. São 55 autores que em Português e em Mirandês que ficam registados a chave de ouro.
António Jorge Nunes, autarca Brigantino reuniu em 384 páginas a chancela da sua faina concelhia. O melhor testemunho de Gestão do Município de Bragança entre 1998 e 2013, mostrando como se empreende e executa, desafiando o futuro. Honra e glória a quem colocou Bragança no Mapa.
Jorge Lage reapareceu com Memórias da Maria Castanha, última investigação sobre o tema que o transformou no mais esclarecido autor sobre a castanha. O vocabulário, a variedade, as expressões, os provérbios, as receitas tradicionais e outros saberes etnográficos acerca do castanheiro passam por aqui. Este tema é sinónimo de riqueza Transmontana e este Autor tem vindo a tratar, com olhos de quem sabe e quer promover aqueles que desprezam uma riqueza à vista dos olhos.


03 fevereiro 2014

UM OLHAR SOBRE O DOURO,por M. Hercília Agarez

À memória de António Cabral e de Caldeira Azevedo

O SONHO QUE NOS LEGARAM

Douro dos montes em calvário
E dos passos vertiginosos
ouve-me:
assim não havemos de morrer.
Estenderemos o sonho que nos legaram
os que morreram antes de nós;
estenderemos esse manto azul
e, um dia, sabemos
que é nossa a terra da promissão.

………………………………………………………………………António Cabral, in POEMAS DURIENSES
    A NATUREZA FOI PARA O DOURO VERDADEIRA TERRA MATER. Dotou-o de virtudes, moldou-lhe a beleza, excedeu-se em adornos, ensinou-lhe as manhas da sedução, encheu-lhe as entranhas de tesouros, concedeu-lhe o xisto, por cortesia, dele fez terra fértil, daimosa. Mimou-o, mas fê-lo robusto. Preparou-o para os contratempos da vida. Toucou-o de flores e de frutos. Deu-lhe perigos, mas forneceu-lhe armas de defesa. E exigiu-lhe, em contrapartida, que se mostrasse digno do seu destino: maravilhar o mundo, embriagando todos os sentidos, produzir o que de melhor é capaz um solo de eleição. Geia fez a sua parte. Guardou para o homem o resto. E este soube interpretar com mestria e abnegação o papel que lhe foi atribuído.
    O HOMEM DO DOURO NÃO TEVE ESCOLA. Herdou a sabedoria e aumentou-a. A experiência lhe serviu de mestra. Os erros foram a sua pedagogia. Os sucessos, seus estímulos. Os insucessos, desafios. Humilde de condição, dispensou louros. Das fraquezas fez forças. Do desânimo de um hoje, a esperança de um amanhã. Não buscou protagonismo, nem sonhou com aplausos. Apenas o revoltou a fome, o pouco pão.
    DOURO. A PALAVRA É DOCE, EUFÓNICA. Presta-se à homofonia – de ouro. E à homonímia. Douro é, também, uma forma do verbo dourar. Douro o Douro. Douro de ouro.
    NÃO DIGA QUE CONHECE BEM O DOURO, em toda a sua variedade e especificidade, se o não visitou em todas as estações do ano. Cada uma encerra os seus encantos, os seus segredos. Todas falam do ciclo do trabalho da vinha e do vinho, da poda ao lagar. A cada uma compete preservar tradições ancestrais que a modernidade vai pondo no rol das espécies em vias de extinção. Sinta o frio das manhãs de geadas a barbear-lhe o rosto. Engula a brisa adocicada de primaveras e verões luminosos. Em tempos de vindimas, lembre-se do passado – das rogas, dos cardenhos, da exploração dos trabalhadores, do peso dos cestos vindimos alombados por homens socalcos abaixo, das lagaradas de pisa acompanhada ao som de ferrinhos e concertinas, a esconjurarem sonos e cansaços.
    PAISAGEM DO DOURO. Montes e rio. Rio e margens. Barco rabelo em museu de ar livre, para turista ver. Foi-se a vela quadrada, ficou o cavername, protegido pela espadela, qual espada pronta para todos os combates. Barcos da civilização. Do bem-estar. Do prazer. Deslizando em leito sem pontos assassinos, sem valeiras do tempo de Forrester e de D. Antónia. Embarcações de encher o olho, a lembrar cruzeiros de Danúbios e Renos. Quem neles viaja não leu a epopeia “Lusíadas sem Camões”. Assim chamou Jaime Cortesão aos Hércules da vinha. O turista que saboreia o vinho fino ignora a via-sacra que lhe subjaz. Não calcula quantos homens pereceram em cachões, em obras de construção da via-férrea, de estradas, de socalcos. Quantos se ficaram abafados em tonéis. Não identificam o cheiro a suor, nunca viram mãos calejadas. Desconhecem a geometria do engaço, da foice, da enxada. A forma do pulverizador. O cheiro do sulfato. Nunca viram erguer uma videira “como quem faz a trança à filha”, como escreveu Torga.
    O DOURO NO PLURAL. De vinhedos, olivais, amendoais, laranjais. De miradouros, altares de culto, alcandorados nos cocurutos das serras. Recolhimento/deslumbramento. Alvas ermidas rebocadas, de santos protectores recolhidos, enclausurados, à espera do dia da festa para poderem, também eles, gozar o espectáculo com que mortais se comovem. Douro policromático. Vem primeiro o amarelo, com as mimosas, de floração efémera, feita de bolinhas douradas a fazer lembrar contas de Viana. Março é mês de rivalidade entre árvores fruteiras. A amendoeira vence a corrida, chegando à frente do pelotão à meta da beleza branco-rosa. Seguem-na, ao desafio, as outras espécies que dão frescura e sabor a bocas gulosas. Tons idênticos. Vejam-se as amendoeiras em flor, a neve da Terra Quente. Promessas de vida. Da flor ao fruto, da cor à cor, da cor ao sabor, ao cheiro, ao tacto.
   “MONTES PINTADOS” DE JOÃO DE ARAÚJO CORREIA. Na Primavera os montes engalanam-se de roxo, de branco, de amarelo. Giestas, urzes e estevas. Poucas torgas. Rosmaninho. Combinação harmónica de tonalidades. O Outono desafia a paleta do pintor: cores de topázio, de rubi, de ametista. Preciosas como pedras. Sem esquecer o azul do céu, o esverdeado do rio, o fugidio acinzentado das garças. O verde é omnipresente e persistente, graças à abundância das oliveiras que debruam nacos de vinha como picots naperons de linho. E os ciprestes, ícones de quintas, empertigados guardas sem direito a rendição. E sem cheiro a morte.
    António Manuel Caldeira Azevedo escreveu em Ode ao Douro, poucos meses antes da partida:
                As paisagens são palimpsestos que o espírito das águas e dos ventos não descansa de sonhar. Leonardo da Natureza, a erosão forma o informe, o vegetal, palete de guaches, pinta, o homem, expulso, jardina. O Douro baixo-relevo talhado pela glosa da água e recital do vento, e retábulo de aguarelas de belo natural e humano: Garganta de Miranda, estreito que a força do destino das águas rasgou; Congida, virgindade que gigantes telúricos guardam, beijada pelas garças e coroada pela auréola que o voo circular dos grifos desenha bem para lá do sobreiral e das fragas.
In Ode ao Douro
    Está feita a minha insignificante homenagem a dois poetas do Douro com quem convivi e que me deixaram saudades. Não conheci Torga, mas escolhi-o para rematar este meu breve olhar deslumbrado:
    Nas margens de um rio de oiro, crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza, crescem as cepas como os manjericos às janelas. No Setembro, os homens deixam as eiras da Terra-Fria e descem, em rogas, a escadaria do lagar de xisto. Cantam, dançam e trabalham. Depois sobem. E daí a pouco há sol engarrafado a embebedar os quatro cantos do mundo.
                                                                                                                                                             in PORTUGAL
   
   
M. Hercília Agarez, Fevereiro de 2013


Nota: texto publicado no número 19 do Boletim Cultural da Escola Camilo Castelo Branco.

01 fevereiro 2014

A. M. PIRES CABRAL - A TERRA DEVASTADA, por José Mário Silva

A. M. PIRES CABRAL - A TERRA DEVASTADA
               
                   




DOIS HOMENS NUM SÓ ROSTO – Temas Torguianos de M. Hercília Agarez





Livrarias onde se encontra à venda o livro DOIS HOMENS NUM SÓ ROSTO – Temas Torguianos de M. Hercília Agarez

Livraria da Universidade de Aveiro
Régua Mágica (Régua)
Lameg’ Arte (Lamego)
Ferin (Lisboa), Novo Século (Mogadouro)
Americana e Boa Leitura (Leiria)
Unicepe (Porto)
Livraria José Alves (idem)
Leitura Bom Sucesso (idem)
Contraste (idem)
Salesiana (idem), Casa  Castelo Editora (Coimbra)
Livrarias Branco e Traga-Mundos (Vila Real)
Clássica (Moncorvo)
Poética (Macedo de Cavaleiros)
Rosa d’Ouro (Bragança)




                                             OUVIR: PROGRAMA AGOSTO - Hercília Agarez



29 janeiro 2014

RIBEIRA DE PENA E CAMILO: O PRINCÍPIO DO FIM DA SUA ODISSEIA AMOROSA,por M. Hercília Agarez

“Envelheci a amar” in No Bom Jesus do Monte
Introdução
    Na sua obra Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett, socorrendo-se de um dito de Yorick, bobo do rei da Dinamarca, afirma, vindo em defesa de Carlos, seu alter ego: “O coração humano é como o estômago humano; não pode estar vazio, precisa de alimento sempre.” Assim foi com Camilo. Revela-o, por exemplo, o testemunho de Ricardo Jorge na descrição que faz do seu casamento com Ana Plácido:
    “No sofá, aconchegados os noivos, ambos de charuto ao canto da boca. Camilo está outro, calmo e contente, fala e graceja como de costume nos seus bons momentos. Acaricia a mulher, dirige-lhe requebros, chama-lhe a cada passo a Srª Viscondessa, sublinhando o título com entono e realce.” in Como se Casou Camilo
Desenvolvimento
    Qualquer estudo sobre o percurso humano de Camilo é um quebra-cabeças. Porque ele transfere para a ficção romanesca e para as crónicas pedaços da sua vida, porque os seus biógrafos e estudiosos nem sempre convergem em análises de factos e respectivas datas. O que eram, no início dos estudos camilianos, dados adquiridos, alguns talvez baseados em nem sempre críveis fontes orais, veio, com o aumento de rigor posto na investigação e inerente busca de documentos autênticos, a tornar-se falsidade. Refiram-se ainda revelações inesperadas que camilianistas apaixonados e insaciáveis nos oferecem, como é o caso do livro “Os manuscritos de Gertrudes” da autoria de Manuel Tavares Teles. A bibliografia passiva camiliana é, por outro lado, imensa, ao mesmo tempo que a conturbada existência do “torturado” se presta a especulações. Saber, sobre Camilo, onde acaba a verdade e começa a lenda, é tarefa difícil para quem se dedica ao estudo da sua biografia. Que ela dava romance, prova-o a existência dos livros O Romance do Romancista de Alberto Pimentel e de O Romance de Camilo de Aquilino Ribeiro.
    Se dermos créditos ao que Camilo escreve, em verso e em prosa, não aportou ele a Ribeira de Pena virgem de coração. Terá sido enfeitiçado por donzelas da aldeia da Samardã, tão puras como águas de riacho ou como as ervas que as suas ovelhas pasciam. Fora, pois, o campo o cenário idílico de “devaneios infantis” entre o rapaz a entrar na puberdade e as camponesas enredadas em tarefas agrícolas.
    Elas (Luísa, Rosa, Ângela, Margarida???) lhe terão inspirado poemas mais tarde recolhidos em Um Livro, oferecido ao grande amigo/editor/protector José Barbosa e Silva em 1854.
     Se alguns correspondem a figuras/flirts reais, outros não passarão de criações justificativas do cultivo de versos no género lírico para o qual, convenhamos, Camilo não foi vocacionado. Desfaz-se em redondilhas lamechas e inflamadas, em torrentes verborreicas de rimas pobres, como é o caso de uma composição poética de dezasseis estrofes irregulares dedicada a uma tal Luísa:

Luísa
Luísa, flor entre as fragas,
donairosa camponesa,
toda graças e pureza,
lindo esmalte das campinas,
colhes no prado as boninas
brincas à tarde, na espalda,
onde verdeja a alameda
da viva cor da esmeralda?
Brincas, Luísa, afagando,
o que mais amas no bando,
o teu alvo cordeirinho?
[…]
Quando, à noite, o gado metes,
farto e ledo, em seu redil,
vais no coro das donzelas,
onde as não viste mais belas,
descantar cadenciosos
carmes de alma tão saudosos,
dum sabor tão infantil!...
…………………………………………………

Joaquina Pereira de França (1826-1847)

    Quando, há anos, a Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, a Casa de Camilo e o Centro de Estudos Camilianos promoveram uma exposição itinerante sobre as mulheres de Camilo (título ambíguo), houve omissões iconográficas naturais como a da mãe do escritor e a da freira Isabel Cândida. Também não consta nenhuma imagem de Joaquina Pereira de França. Com base na opinião de Alberto Pimentel de que seria ela muito parecida com a irmã Rosa, cabe-nos, através da fotografia desta, imaginar aquela que Mário de Meneses caracteriza como uma “mocetona de peitos empinados e tez morena”.
    Na altura em que um rapazola endiabrado e à deriva nos caminhos da vida troca a Samardã por Friúme, estamos ainda longe de poder contar com a sua epistolografia como suporte para a análise e conhecimento do seu quotidiano sentimental, profissional e social. Assim sendo, teremos de cingir-nos aos biógrafos ou simples estudiosos e encontrar, em alguma ficção, caminhos paralelos.
    Em Uma Sombra Picada das Bexigas João de Araújo Correia, para quem o autor de Anátema era o exemplo máximo do culto da língua portuguesa, escreve:
   
     “Se transpusermos, no distrito de Vila Real, a serra do Alvão, caímos em Ribeira de Pena, terra onde Camilo, dos dezasseis aos dezoito anos, viveu o equivalente a vinte anos de vida ordinária. Pandegou, namorou, casou, estudou e intrigou. Mas fez mais… Observou o ambiente, subiu e desceu montanhas, caçou factos vivos que lhe serviram, durante a vida literária, como sementes de efabulações.” […] Viveu em Friúme dois anos completos. Antes de casar, terá sido hóspede de sua prima Maria do Loreto, consorte estapafúrdia de um tal Moreira. Depois de casado, viveu num denegrido cardenho, hoje arruinado e desabitado.”

  No seu livro O Penitente (Camilo Castelo Branco), Teixeira de Pascoaes dá-nos conta da ida de Camilo da Samardã para Friúme. Aí exercerá a primeira actividade – a de ajudante de tabelião. A aldeia, descreve-a assim: “Friúme é um pequeno povo, três ou quatro fogos arrefecidos, na margem do Tâmega e perto de Ribeira de Pena. Fica num fundo vale, onde os empinados montes circundantes despejam torrentes de sombra, ao pôr-do-sol. E é logo a escuridão absoluta a rever-se nas águas do Tâmega, adormecida no seu leito. E adormecidas sonham as estrelas. E as estrelas sonhadas brilham como as verdadeiras.”
     Chegado a Friúme, para onde fora impontado na expectativa de aí aprender o significado da palavra trabalho, pensaria o adolescente armado em sedutor conquistar as moçoilas das redondezas. Tal não terá acontecido, segundo Ludovico de Meneses citado por Aquilino que afirma, por tê-lo ouvido no local, fazerem elas dele “gato-sapato”, correndo-o à pedrada e chamando-lhe, em voz bem alta, feião.
    Diferente tratamento lhe terá dispensado Joaquina Pereira, “uma destas raparigas de aldeia, meio senhoras, meio camponesas, a quem tratam pelo diminutivo afectuoso” no dizer de Aquilino. Ela era, pois, Quinita.
    Estamos em Março de 1841. Dois jovens quase da mesma idade apaixonam-se. Não haveria na pequena aldeia muito por onde escolher… Ela teria a frescura aldeã de uma maçã camoesa ainda não bem madura, mas a prometer doce sumo. Ele, galante q.b., ar citadino e bem-falante, com incipientes trejeitos de D. Juan. Ela, filha de gente enriquecida pelo comércio. Ele, futuro herdeiro de confortável património. Dela poderia dizer-se, como Camilo num conto: Como ela o amava!”. Dele diremos nós: Como ele era espertalhaço!
     Seguindo o exemplo da irmã Carolina, precipitou um casamento para poder apoderar-se da herança deixada pelo pai, parte da qual tinha sido delapidada pelos tios.
    Teixeira de Pascoaes, na obra citada, refere que o jovem compunha redondilhas para descantes e entremeses e aos domingos se divertia com a rapaziada a namorava Joaquina.
    Esta “moça de estatura regular, alta de peitos, morena e muito simpática” (palavras de Camilo) terá servido ao novelista de inspiração para o esboço de figuras femininas da ruralidade como Mariana (Amor de Perdição), Mafalda (Amor de Salvação), Teresa (Sexto dos Doze casamentos Felizes), Tomásia (Coração, Cabeça e Estômago), entre outras, como lhe terá sido útil a familiaridade com espaços e gentes da aldeia na delineação dos seus enredos. Não é por acaso que o próprio afirma, com parcial acerto: “Eu não tenho imaginação, tenho memória”.
    O casamento realizou-se na igreja de S. Salvador, na sede do concelho, e dela foi feito o seguinte registo cuja transcrição fomos encontrar em O ROMANCE DO ROMANCISTA de Alberto Pimentel:

“Francisco Xavier Alves, Reitor da Freguesia do Salvador da Ribeira de Pena, arquidiocese de Braga:
    “Certifico e atesto que em um livro dos assentos de casamento desta freguesia do Salvador, concelho de Ribeira de Pena, arquidiocese de Braga, está lavrado a fl. 43 o assento do teor seguinte: Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco, filho de Manuel Joaquim Castelo Branco e Jacinta Rosa Almeida do Espírito Santo, da cidade de Lisboa, e de presente assistente nesta freguesia do Salvador, e Joaquina Pereira, filha de Sebastião Martins dos Santos e Maria Pereira de França, do lugar de Friúme, desta freguesia do Salvador da Ribeira de Pena, contraíram o Sacramento do matrimónio por seus mútuos e expressos consentimentos in facie Ecclesiae conforme o Concílio Tridentino e Constituição do Arcebispado com comutação de proclamas para depois de recebidos na minha presença e das testemunhas abaixo assinadas, a dezoito de Agosto de mil oitocentos e quarenta e um: testemunhas presentes o Padre José Maria de Sousa, do Pontido de Aguiar e Francisco Ribeiro Moreira [casado com Maria do Loreto], de Friúme, desta freguesia….”

     De alguns aspectos singulares se reveste este casamento, além do já referido. Os pais de Quinita acreditaram ter encontrado para a filha um noivo rico. Contudo, foram eles que sustentaram o casal na sua humilde casa. Também foi Martins dos Santos, o sogro, que, acalentando a esperança de ter um genro médico, o enviou para a Granja Velha, a nove quilómetros de Friúme, para aí ser instruído por um padre que, entre outros conhecimentos então indispensáveis, lhe transmitiu os da língua latina. Estava, sem que isso lhe tenha passado pela cabeça, a separar os recém-casados, uma vez que o jovem só convivia com a mulher aos domingos e dias santos.
    As ténues relações foram esfriando (caso normal em C.), apesar do nascimento de uma filha, Rosa, nascida em 1843, abandonada, tal como antes a mãe, entretanto substituída por Patrícia Emília, em Vila Real. O precipitado abandono de Ribeira de Pena rumo a Lisboa terá obedecido a duas razões de peso: fugir de ajuste de contas exigido por uma versalhada em que o Camilo, com um jeito para a sátira já a despontar, põe a ridículo o casamento de um morgado com criatura de nível social inferior (!) e apoderar-se da quantia de 850$000 que lhe cabia da herança. A reacção pública à sátira afixada na porta da igreja de S. Salvador antes da missa das onze anunciava triste destino ao seu autor. Escreve ele no prefácio a Ao Anoitecer da Vida:  “Fugi com o Magnum Lexicon debaixo do braço e com os ossos direitos que aquela terra ingrata me queria comer.”
   Se camilo algum dia a amou, cedo se desiludiu e a sua presença se tornou entediante. Escreve: “…as nossas almas distanciavam-se tanto quanto os corações se identificavam. Não basta um forte e sincero afecto para nivelar igualdade de espíritos. O ar, os modos, este complexo de nadas que denotam convívio de boa sociedade, não os tinha, não os podia ter.”
    Foi triste, em tudo, o destino da rapariga que se apaixonou e deixou seduzir por um rapazola de lábia fácil e verso pronto, atributos suficientes para dourar a sua figura de bexigoso. Sabia-se traída, ali a poucos quilómetros. De visita à aldeia, a sua tia Rita não se inibiria de levar notícias de Vila Real, indiferente ao sofrimento que iria causar à sobrinha. À dor da traição e do abandono juntar-se-iam os maus tratos do pai a quem as contas acabariam por sair furadas.
    Foi a enterrar como indigente, sem a presença do marido que nunca haveria de assumir este compromisso. Quando deu entrada na cadeia da Relação do Porto, na sequência do rapto de Patrícia Emília, apresentou-se como solteiro e em outras situações omitiu sempre o estado civil de viúvo, apenas escarrapachado no registo do seu 2º casamento.
    O médico-escritor barrosão Bento da Cruz publicou recentemente Camilo Por Terras de Barroso e Outros Lugares. Na primeira parte, que antecede uma antologia de textos de camilianistas sobre a região, ao tratar do caso de Quinita assume ser essa a mulher do novelista a que, de todas as suas mulheres, lhe merece mais simpatia. E justifica: Quantas Joaquinas eu conheci na minha infância, verdadeiras rosas plenas de beleza, de cor, de alegria, de vida, e que, à entrada da puberdade, foram desfolhadas e reduzidas à miséria pela simples razão de serem mulheres.”

Registo de casamento de Camilo com Ana Plácido, transcrito no nº 124 do semanário Arquivo Nacional de 25 de Março de 1934:

“Aos nove dias do mês de Março do ano de mil oitocentos e oitenta e oito, nesta freguesia de Santo Ildefonso da cidade e diocese do Porto […] na minha presença compareceram os nubentes Camilo Castelo Branco, visconde de Correia Botelho e D. Ana Augusta Plácido, os quais sei serem os próprios, com licença para recebimento na sua própria casa por causa do estado valetudinário do nubente, dispensa de proclamas, e com os mais papéis dos estilos correntes, e sem impedimento algum canónico ou civil para o casamento; ele de idade de sessenta e um anos, viúvo de Joaquina Pereira França, falecida na freguesia do salvador de Ribeira de Pena, natural da freguesia dos Mártires da cidade e diocese de Lisboa, na qual foi baptizado e morador da freguesia de Santo Ildefonso, filho de Manuel Correia Botelho, natural de Vila Real de Trás-os-Montes e de mãe incógnita; e ela da idade de cinquenta anos, viúva de Manuel Pinheiro Alves.

Registo do óbito de Joaquina
(A certidão foi necessária para que Camilo pudesse casar em segundas núpcias com Ana Plácido). Diz o documento:
[…] Certifico que em um livro findo dos assentos de óbito desta freguesia do Salvador, Concelho de Ribeira de pena, Arcebispado de Braga, achei o assento do teor seguinte: Joaquina, casada, do lugar de Friúme e freguesia do Salvador de Ribeira de pena, faleceu com todos os sacramentos em dia vinte e cinco e poi sepultada aos vinte e sete de Setembro de mil oitocentos e quarenta e sete, foi sepultada como pobre, nada teve, e para constar fiz este termo.
Conclusão
    Todo o percurso vivencial de Camilo foi pautado por atitudes e comportamentos que fazem oscilar a reacção de quem o conhece: ora vituperamos o seu mau carácter, espantando-nos, por vezes, com o seu maquiavelismo e com a sua falta de escrúpulos, ora tentamos compreendê-lo e desculpá-lo com a infelicidade de uma infância vivida de Anás para Caifás, sem afecto nem referências, criado um pouco ao Deus dará, entregue aos maus instintos. Vários traumas terão justificado os desvios comportamentais de Camilo, temperamentalmente propenso à rebeldia, à estúrdia, à instabilidade, à irreverência e à provocação. Registado como filho de mãe incógnita, perde esta aos dois anos de idade. Dessa perda irreparável há-de falar na sua obra, lamentando não ter tido nunca um regaço materno onde reclinar a cabeça. Sete anos passados, é a vez de se despedir do pai. Sem parentela em Lisboa, o conselho de família, encarregue de decidir o futuro dos órfãos (Carolina era quatro anos mais velha), recambia-os para Vila Real onde seriam entregues aos cuidados da tia Rita Emília, única familiar viva e, como tal, futura administradora dos bens dos sobrinhos que delapida descaradamente com a conivência do amante. Mulher extravagante, gananciosa e dissoluta será recordada nas Memórias do Cárcere: “a irmã de meu pai, decrépita e cadavérica, disse-me que era necessário ser desgraçado para não contrariar o fado das nossas famílias.
    Se aos anos que passou com a irmã em Vilarinho da Samardã se refere como tendo sido os únicos felizes da sua mocidade, tal não significa que tenha encontrado junto dela o afecto de que carecia, dela dizendo que era boa para todos menos para ele.
    É, pois, um adolescente mal formado, apesar do convívio com um padre na Samardã, que assume, precoce e levianamente, um compromisso demasiado sério para a sua idade. Em carta a Alberto Pimentel, anos mais tarde, Camilo dirá: “este casamento foi uma infâmia”. A palavra foi bem escolhida e poderá ser adaptada a ligações amorosas irresponsáveis e inconsequentes cujo desenlace é o abandono do objecto do desejo, com excepção para Ana Plácido de quem, doente e com problemas de toda a ordem, dependia a sua sobrevivência. Porque, e citando Gondim da Fonseca em Camilo Compreendido, “é ela que o manteve, que o segurou, que lhe serviu de amparo, que foi a sua amiga e a sua escrava. Se porventura não se obstinasse em guardá-lo a todo o transe ele lhe fugiria, como fugiu de todas as mulheres.”
     Para Ribeira de Pena como para Friúme não foi vã a permanência de Camilo na região durante dois anos. Está ela na origem de visitas de estudiosos e de simples turistas, não só à igreja de S. Salvador, mas também à aldeia onde, se não fosse ele, talvez tivesse desaparecido a humilde habitação, sua residência de casado, tanto tempo votada ao abandono.
     Várias relações amorosas de Camilo, consumadas ou platónicas, não levantam problemas porque bem documentadas. Se a ligação sentimental a Fanny Owen levanta dúvidas, o mesmo não acontece com os casos de Patrícia Emília (Vila Real), Eufrásia, Isabel Cândida, Maria Felicidade Browne e Ana Plácido (Porto). Agustina e Aquilino falam ainda de uma Eugénia Vizeu que, na opinião de Alexandre Cabral, não passou de uma admiradora do seu talento. Recentemente Tavares Teles publicou Os Manuscritos de Gertrudes, onde inclui todas as cartas que essa mulher escreveu a Camilo em 1853 e 1854 e um diário a ele destinado. Não se tratou de uma paixão retribuída e se o escritor alimentou uma correspondência a que ele próprio pôs fim (já amava Ana), talvez tenha sido por sentir-se lisonjeado com tamanha dedicação.
     Não interessa, para o caso, quantas foram as vítimas imoladas no altar camiliano. Para os Ribeira-Penenses, mais importante é ser a sua terra o primeiro espaço de um roteiro sentimental daquele que foi considerado, no seu tempo, o maior romancista da península.

M. Hercília Agarez


Ribeira de Pena, 14 de Setembro de 2013


Nota: este texto não respeita o novo acordo ortográfico.

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