30 novembro 2013

«A Casa de Bragança» e «Do Movimento Operário e Outras Viagens»

No lançamento de A Casa de Bragança e Do Movimento Operário e Outras Viagens, na Livraria Ferin, em 27 de Novembro

Agradeço a presença de todos, desde jovens universitários a colegas deste ofício de trevas, que é a literatura, em que buscamos iluminar alguns caminhos; desde familiares a amigos, alguns de longa data, outros que vim fazendo na minha actividade crítica e editorial, no associativismo regional, na Academia de Letras de Trás-os-Montes, no Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa. Permito-me salientar, por razões de idade e pelo que representa de sacrifício, os nomes de Eduardo Lourenço, Eugénio Lisboa e João Rui de Sousa.
Quis a Âncora Editora arriscar uma dupla neste dificultoso torneio do papel impresso, e logo, também, com poesia, integrando-me em colecção dirigida por Rogério Rodrigues: o provento será escasso, não a dívida com que fico para com Inês Figueiras e Sofia Ferreira de Lima. Já no romance, curou da edição Virgínia Caldeira, que conheço desde os idos de 80, quando ela trocava a Dom Quixote ‒ onde eu me estreava no romance, com A Serpente de Bronze (1989) ‒ pela Editorial Notícias, que editaria o meu segundo romance, Torre de Dona Chama (1994). Mais constante interlocutor era, todavia, António Baptista Lopes, que, já na Âncora, aceitou inesperada Antologia da Poesia Húngara (2002), uma das 20 espécies que dessa língua do diabo traduzi. Os nossos almoços, viagens, telefonemas e encontros dariam volume rico de impressões e boa disposição, na companhia de Teresa Martins Marques e Amadeu Ferreira.
Depois de, há dois anos, ter lançado o terceiro romance, O Romance do Gramático, na Livraria Bertrand, sabe-me bem descer à segunda mais antiga livraria nacional – inicialmente, Librairie Belge-Française −, fundada em 1840, e secundada pelo Cabinet de Lecture de Mlle Férin, na Rua do Carmo, família que se estendia à encadernação e à moda. Com efeito, O Mundo Elegante / Periodico Semanal, de Modas, Litteratura, Theatros, Bellas-Artes, dirigido por Camilo Castelo Branco no Porto, em 1858, propunha extratextos com toilettes de baile e passeio segundo as avisadas «Mmes Ferins». E ocorre-me ter antologiado, em Crónica Jornalística. Século XIX (2004), texto de Fialho de Almeida n’O Repórter, de Oliveira Martins, em 2-I-1888, intitulado “A Boa-Hora Cómica”, donde cito: «Subo a Rua Nova do Almada um tanto aborrecido – acabo de pagar uma enorme conta no livreiro e de ser apresentado ao orador que eu mais detesto, depois do cornetim. O dia é pardo, nuvens no alto, o vento a erguer da rua redemoinhos dum pó corrosivo à pele; e com um milhão de diabos!, não tenho hoje visto senão raparigas barbudas nos asfaltos! // Estas picuinhas todas irritam-me; e, como o Ferin não tem novidades, enfio pela espécie de saguão estreito, que a Câmara Municipal convencionou chamar o Largo da Boa-Hora.» Não é um dia fialhiano; o tribunal desertou, mas temos entre nós dignos magistrados; felizmente, a Ferin está cheia de novidades; e, se alguma barbuda existe, só se for em ministério nas proximidades. Grato, pois, aos editores e a esta velha casa.

Comecei a abandonar a crítica e o ensaísmo, a que dediquei demasiada vida. Editei oito títulos de ensaio e crítica; sou responsável por 35 volumes de autores como o Padre António Vieira, Herculano, António Pedro Lopes de Mendonça e o primeiro jornal socialista, vários Camilos, As Farpas completas de Ramalho, Júlio Dinis, Eça, os jornalistas Alves Correia e Raul Rêgo, Augusto Moreno poeta, José Marmelo e Silva, António José Saraiva. Pediram mais tempo a actualização do Dicionário de Literatura, de Jacinto do Prado Coelho, e as 1 064 páginas do clássico de um grande jurisconsulto, desembargador e procurador da Coroa, Tomé Pinheiro da Veiga e sua Fastigínia (1605), com que sonhei durante 23 anos. Se juntar capítulos em obras colectivas, actas, prefácios, revistas de circulação nacional e internacional, subo às 160 espécies, que é um terço dos artigos desde 1971. Desconto a cronística; não contabilizo o profissional do jornalismo que também fui. Ou seja: a necessidade e a Universidade desviaram-me… de mim. Silenciei sete peças de teatro; há contos novos, após A Flor e a Morte, de 1983; e, à atenção dos editores, oito romances à espera. O duplo lançamento de hoje significa viragem e reencontro comigo. Falarei, pois, destes frutos.  

Com Do Movimento Operário e Outras Viagens, sexto livro de versos, celebro 40 anos de vida literária. Estreei-me em 1973, andava no então 6.º ano do liceu, com um volume impresso nas oficinas franciscanas de Montariol, em Braga. Era chefe das máquinas frei Perdigão, que, em noite diluviana do mês de Maria, acolheu o noviço das letras, me banqueteou em mesa austera, levou aos granéis de Inconvencional (como se intitulava) e ofereceu generosa cela. Revimo-nos 33 anos depois. Eu estava na Feira do Livro e contava a Vergílio Alberto Vieira essa primeira ida a Braga, quando a Teresa impôs subida. Boleados, dirigi-me à portaria: «Frei Perdigão ainda é vivo?» Eis uma frase camiliana. Camiliano é o início do romance: «Eu tinha oito anos e nada sabia de mim.» Vejam o início de Mistérios de Lisboa: «Era eu um rapaz de catorze anos, e não sabia quem era.» Do frade eu guardava memória de ser de muitos dias. E o recepcionista, espantado: «Sim. Está além a conversar com umas pessoas.» A sala era obscura; eu estava em vésperas de um descolamento de retina. Vislumbrei um ainda poderoso frade, aos 69 anos, que, encerrada a gráfica, explorava o húmus do convento em ervas e medicinas do corpo. «Frei Perdigão?» «Sim. Quem me procura?» «Sou Ernesto Rodrigues.» «Não é de Bragança, pois não?» Ele não aceitava que aquele cinquentão substituísse retrato antigo, ousado como o menino do poema oitavo d’O Guardador de Rebanhos. «Sim, sou.» «Não me diga!» E desatou no elogio da obra e criança que, fora de horas, batera à porta do silêncio… Vivi cinco anos dentro das paredes de dois seminários, mas tive naquele frade o único abraço caloroso de um ministro do Céu. Não é pouco, se isso deram uns versos mal-educados, com palavras feias manchando os caracteres da tipografia divina.
Sou escritor desde que me conheço; já enquanto leitor, que era antes dos seis anos, quando entrei na escola primária de Torre de Dona Chama. Do lado da minha Mãe, havia a nobreza das letras, que deu historiadores, sociólogos, políticos, filósofos e jornalistas, mas também, nas artes, um arquitecto e um pintor.  
Contra a solidão de leitor, já escrevedor voraz, meti-me, aos 12 anos, a criar jornais de parede, lá onde pairava o nome de ex-colega, Afonso Praça. Em letra impressa desde os 14, fui encontrar, no semanário diocesano Mensageiro de Bragança (a par de outros, alguns de Lisboa, como a revista Eva, Diário Popular, A Capital), o reverso de mim associável à literatura ‒ daí, a tese de doutoramento conjugar literatura e jornalismo ‒, e não poucas cumplicidades. Destas, nasceram colectâneas a oito mãos, sendo mais badalada J. C. Falhou Um Penalty. O balanço lírico é, hoje, de seis títulos com a minha assinatura, dois em colaboração e 18 presenças em antologias, também desde 1973, quando Maria Alberta Meneres me integrou em O Poeta Faz-se aos Dez Anos, na Assírio & Alvim.
Fraca produção para quatro décadas. O ritmo criador é, em média, menos de um poema por mês, bem pouco em nação de poetas derramados. A síntese da primeira década, Para Ortense: Variantes, em 1981, quando iniciava funções de leitor de Português na Universidade de Budapeste, teve palavras amigas de Luís de Miranda Rocha no Diário de Lisboa ou de João Rui de Sousa na Colóquio/Letras; mas poucos conheceram, e menos entreviram, o que de inquietação psíquico-formal e novas propostas emergiam, pela singela razão de que nascera um aborto gráfico e me envergonhei de colocar esse livro no mercado. A plaquete Sobre o Danúbio, em 1985, mereceu de Luiz Fagundes Duarte, no JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, a seguinte apreciação: «A meu ver, este livro representa muito do que poderá ser a porta de saída do nosso lirismo português...» E, se venho construindo, como aí se lia, uma «teoria lírica», certo é que só em 2016, quando reunir 45 anos de poemas, se entenderá um percurso já entretanto aberto pelo discreto Do Movimento Operário e Outras Viagens.
Na tarde gélida de 1 de Novembro de 1981, visitei, no castelo de Buda ‒ com aquela vista fabulosa sobre o Danúbio, o Parlamento, etc. ‒ , o Museu do Movimento Operário, hoje chamado Ernst Múzeum, dedicado à arte contemporânea. Subitamente, deparo com uma forja de ferreiro, igual à dos ruídos em minha casa, que me alimentou, e a lima de meus tenteios literários não abafava. Nasceu, assim, o poema de uma separação forçada de pais e filhos em país que se resolvia na emigração, como volta a ser o caso, hoje, com a diferença de que os novos meios de comunicação facilitam os contactos. Dedicando o romance à memória da Mãe, que pede o segundo poema ‒ «Minha mãe nunca atrasa o meu futuro. / Repito a escansão deste verso e nado em luz.» ‒, agradecer a Pai artista num título alusivo é o mínimo que se exige.
Destes movimentos do coração, onde assomam Filhas e amigos, passamos às viagens na História e na Geografia. O que em mim faz deflagrar a poesia está em dois versos de “Árvore”, interlocutora no parque atrás do apartamento de Budapeste, que revisitei, em idas à Hungria e ao passado. Certa manhã, ao vê-la, nasceu isto: «Todo emudeci ‒ lentamente franzido na alma / como ribeiro onde caiu a folha suspirada.» Face à referência imediata, sucede um confronto íntimo, «Um abandono de tudo, como na felicidade», e nesse transe vão meus passos e ritmos ao longo do Danúbio ou da Váci utca, à arte do barroco, ao realismo socialista, Europa fora, particularizada em cidades de passagem ou de demora ‒ entre estas, Château-Thierry, terra de La Fontaine, mostrou-me, aos 16 anos, em 1972, que a liberdade política e de pensamento não eram uma fábula…
Após uma incursão marroquina, sucedem os lugares da portugalidade, cá dentro e além-mar, do Porto Santo e Pico a Maputo, de Timor ao Brasil. Relevo as feiras dos Santos e dos Reis, na Torre de Dona Chama natal, «feiras dignas de Plutarco». Doseada a técnica do encavalgamento com uma estrofação ritmada aprendida nos latinos e no jazz, e rima vária vigiada, subo, entretanto, aos conceitos de pátria-berço, pátria-poesia, pugno por uma democracia «recta, cultivada», pela greve digna, por uma civilização que se não reduza (como na cidade de São Paulo) a três milhões de veículos diários parados nos engarrafamentos e poluindo-nos de barbárie; enfim, defendo uma «funda razão ética» na base da cultura, convicto de que ninguém se salva sozinho. E se, como digo, «Sempre o passado pergunta.», as respostas do presente são aleatórias, impreparadas, dramáticas, mesmo. A atitude nacional revia-se, ainda há pouco, no dístico: «Cá vamos, pois, seculares, / num descanso como nunca.» Ora, essa negligência só podia dar mau resultado. Peço, por isso, «Ao mar, ao mar, ser absorto!», porque devemos inventar-nos, ou naufragamos. A análise política aqui explícita toca o exaspero com o abandono de Timor-Leste pela ONU, em 1999, e retine o sarcasmo quando olho ao governo, resumindo a situação neste verso: «A maldade tornou-se nosso fado.» Se quiserem, leio as quadras iniciais: «A maldade tomou conta de nós. / Prometia baixar impostos; dar/ emprego a milhares; ser correcto; / ajudar quem precisa, e avós. // Um: enganou-nos. Dois: subiu o mar / do desespero, sem sabermos onde / trabalhar. Três: cresceu tom demagogo. / Quatro: não há futuro para netos.»
O quarto andamento mal se entrevê; mas, após tantas andanças convergindo, enfim, no díptico Pátria e Amor, torna-se cada vez mais audível uma nota de estoicismo. Lúcido, este tanto me serve na relação com os outros (venço, por exemplo, inveja ou ciúme), como quando quero apanhar um autocarro: «Tenho quanto me não desvia dessa / via doce da alma, conformada / ao hoje, bom ou mau. Não perco nada, / nem ganho amanhãs por ir depressa.»

Falemos, agora, do romance, outro regresso a casa, não do Pai, mas da Mãe.  
A Casa de Bragança é um título que serve a romance e ensaio. Bastaria, porém, o grafismo da capa ‒ onde sobressai bela fotografia do castelo, por Nuno Calvet ‒ para nos situarmos nessa cidade e sua morada primordial, sem, todavia, abandonarmos algumas propostas de ensaísmo histórico, incluindo a transcrição de documentos no tombo do Arquivo Nacional. Romance histórico? Sim ‒ mas de alcance fundamente psicológico no quadro político e social de dois períodos (entre 1344-1464 e 1964-2014) destacados do milénio da família Roĩz ou Rodrigues, seja, desde 1014. Como conciliar esses lapsos temporais?
A montagem é simples: avós nascidos em 1344 contam a neto quanto viveram até 1398, ano do seu nascimento. Ele acrescenta episódios até ao momento da escrita, em 1464, celebra Bragança o título de cidade, dado por D. Afonso V, em Ceuta, a 20 de Fevereiro. No pós-25 de Abril, parte já impressa desse texto e parte manuscrita são desviadas de certa casa por um jovem nascido em 1956, que lhes acrescenta 50 anos de vida consciente, entre 1964 e 2014, até à manhã de 20 de Fevereiro, quando reencontra a proprietária dos fólios medievais …
Diz o narrador actual, no prólogo: «Um longo parágrafo de cinco séculos vinha até 1964 – tinha eu oito anos, nada sabia de mim −, deslaçando-se em 20 de Fevereiro de 2014, cujo ponto final nem Deus conhece.» No epílogo, conta a manhã deste 20 de Fevereiro, por vir: «Inês acompanha-me à igreja de Santa Maria, ou de Nossa Senhora do Sardão, onde a cidade começou; melhor, à Domus Municipalis, onde nós começámos. […] Dona Inês de Castro aguarda, na sombra matinal do polígono. A seu lado, Clotilde tem na mão esquerda um estojo azul-escuro.» Junto daqueles monumentos, há dois começos: um, medieval, da cidade; outro, de uma paixão aos 18, em Junho de 1974. Agora, ex-jornalista de 58 anos, revê-se aos oito, 18 anos e nos últimos meses, contados na terceira parte. Dentro de instantes, o leitor vai conhecer, ao mesmo tempo que o narrador-protagonista, Inês e Clotilde, a história dos seus nascimentos; e percebemos que, intermediando esse conhecimento, está um original que ocupa as duas partes iniciais, bem como algo dentro do estojo azul-escuro. Que objecto liga a Inês de Castro de 1353 à homónima de 2014?
O miolo da história inaugura-se com o casamento de Pedro e Inês que a tradição diz ter sido na igreja de São Vicente, em cujo exterior deitando para a Rua Abílio Beça acaba de ser colocado um painel de azulejos alusivo, inscrevendo quadra castelhana tirada deste romance. A ideia do então presidente Jorge Nunes nasceu no acto do lançamento da 1.ª edição deste livro, após considerações minhas sobre a vantagem de Bragança triangular com Coimbra e Alcobaça um roteiro inesiano. Aos oito anos, o décimo Rodrigues  ‒ avô do narrador ‒ assiste à cerimónia, como, em 1964, aos oito anos, outro Rodrigues assiste à inauguração da estátua de D. Fernando, segundo duque, à entrada do castelo, enquanto observa menina da mesma idade, que segura a salva de prata onde se tem a tesoura corta-fitas.
Em casa contígua, também nascida em 1344 ‒ logo, com oito anos ‒, frente à Domus Municipalis e à branca igreja de Santa Maria, vive Inês, cuja mãe é ama de um menino aí nado em 1352. É o nosso herói, e revelação para a cidade, que ignorava tão ilustre filho. Segundo parto de Inês e Pedro, chama-se D. João de Portugal e Castro, e devera ter sido rei de Portugal. O meio-irmão mais novo, Mestre de Avis, dizia-se «regente e defensor do reino», antes de ser imposto por Nuno Álvares Pereira como D. João I; sabem poucos do respeito que este nutria pelo mais velho D. João de Portugal e Castro, figura romanesca a cuja morte sucede o nascimento do narrador Afonso Rodrigues…
Vemos, no entretempo, como a família Roĩz emparelha com os bragançãos e primeiros reis; como um nono avô, poeta, acompanha D. Dinis no recebimento de Isabel de Aragão; como um derradeiro braganção, D. Nuno Martins de Chacim ‒ de má índole e fama, sepultado no Mosteiro de Castro de Avelãs ‒, foi bisavô de Inês de Castro.
Todavia, em primeiro plano, temos a degolação desta, vida e feitos do filho João, até ao alegado assassínio da suposta mulher D. Maria Teles, que o torna foragido, com efeitos na sucessão dinástica. Os seus amigos de infância, avós do narrador ‒ por cuja casa passam D. João I e o filho ilegítimo D. Afonso (futuro primeiro duque), Nuno Álvares Pereira e Fernão Lopes ‒, são figuras grandiosas, como será, na revelação da última página, uma Inês de Castro do nosso tempo, que tudo coordena, à distância.
Na maturidade do narrador quatrocentista, passeamos pela Europa central com o infante D. Pedro, o das Sete Partidas, sofremos com o mártir de Fez, D. Fernando, assistimos ao erguer da imponente torre de menagem brigantina. É este espaço a casa? ou tão-só a Domus Municipalis, representativa do poder democrático, senão a igreja? ou um modesto rés-do-chão que as confronta, qual insígnia da linhagem dos Rodrigues?
A leitura é um entrever de sentidos, hipóteses, neblinas. Não há obras impossíveis de ler, desde que, pacientes, dominemos certos códigos ou nos esforcemos por abri-los ‒ dentro da liberdade de não as lermos. Não há castelos inexpugnáveis: um dia, entraremos neles como turistas distraídos. É essa a fortuna dos textos bem fundados, com a maquinaria oleada, em que só a por vezes custosa conquista gratifica corajosos, únicos a poderem libar a doce peçonha que é a literatura.
Ana Diogo confessou a Teresa Martins Marques, online: «Devo dizer-lhe que foi um desafio fascinante pelas vastas e profundas referências históricas que fui tentando interpretar ou decifrar – e não foi fácil, não, confesso. Mas foi uma satisfação galopante à medida que avançava nas narrativas, tão magistralmente enredadas; pasmei perante riqueza lexical e semântica de tal modo opulenta e desafiante; deliciei-me com o recurso a excertos (penso eu) de Fernão Lopes e de outros que me recordaram a beleza do Português arcaico; mantive durante muito tempo a dúvida sobre a real existência de algumas figuras, como a de D. João de Portugal e Castro. Um aprazível tormento… Em suma, a leitura foi longa e trabalhosa, sim, mas foi uma labuta deleitosa, um repto constante que me deixou presa, suspensa e enlevada até ao surpreendente final. Gostei tanto, tanto, que não tenho palavras para lhe agradecer a sugestão que em boa hora me fez.»
Deixo excerto da resposta que dei: «A sua apreciação é de uma leitora-modelo, que qualquer autor gostaria de ter: intui a dificuldade, mas, vencendo-se a si mesma, conquista, a pouco e pouco, o Evereste de veredas e sentidos.  // O meu conceito de literatura assenta num trabalho filigranado da linguagem, cujo registo se adequa aos tempos e personagens, e, nos fios do narrador medieval, é tão irónico e distanciado como, no narrador de hoje, melancólico e desencantado. // […] Cada personagem é, como o narrador-autor de si mesmo diz, o tal «castelo de enigmas, […] disposto a ser conquistado». Donde, é um luxo, ainda que em «aprazível tormento» de generosos leitores, sofrer tão desejada invasão.»
Este projecto era uma velha dívida que eu tinha para com a cidade onde, há 40 anos, estreei fato novo de poeta. No cenário de um locus amœnus assim engrandecido pela ensaiada arquitectura do verbo e pela investigação histórica, este livro sonda, em resumo, linhagens que ergueram Portugal; revê o mito de Inês e exalça um filho a conhecer melhor, na sua fácil entrega ao povo miúdo, a exemplo do pai, D. Pedro; espelha desencontros no seio da ínclita geração, que deixa morrer irmão por razões de Estado; mas, acima de tudo, no percurso do transcritor medieval e de quem, hoje, o revê, importa a demanda de uma filiação, sem a qual ruiria a casa do coração, única onde a vida se harmoniza.
Obrigado a todos.

Ernesto Rodrigues


18 agosto 2013

Assembleia Geral de 23 de Março de 2013: acta n.º 3





ASSEMBLEIA GERAL
REALIZADA NO DIA 23 DE MARÇO DE 2013, EM BRAGANÇA

ACTA

       Aos vinte e três dias do mês de Março de dois mil e treze, realizou-se, no Centro Cultural Municipal de Bragança, a Assembleia Geral da Academia de Letras de Trás-os-Montes, sob a direcção do seu Presidente, António Manuel Pires Cabral, com a seguinte Ordem de Trabalhos:
1.        Leitura da acta da reunião anterior;
2.        Aprovação do Relatório e Contas de 2012;
3.        Aprovação do Plano de Actividades e do Orçamento para 2013;
4.        Outros assuntos.
Por falta de quórum e em conformidade com o estabelecido nos Estatutos da Academia, a sessão iniciou-se trinta minutos depois da hora marcada.
Na ausência do Secretário da Mesa da Assembleia, o Presidente convidou o associado António Tiza para desempenhar estas funções, o qual aceitou, tendo os associados presentes confirmado a sua nomeação “ad hoc”.
No primeiro ponto da Ordem de Trabalhos, foi lida e aprovada, por unanimidade, a acta da Assembleia Geral anterior.
No segundo ponto da Ordem de Trabalhos, o Presidente da Direção da Academia, Ernesto José Rodrigues, apresentou o Relatório de Contas do exercício de 2012. Salientou a viagem que ele próprio realizou a Belém do Pará, a convite da Academia Paraense de Letras, e a Bragança do Pará; os valores apresentados e pagos pela Academia referem-se às despesas que a Câmara Municipal de Bragança não pôde incluir no orçamento da viagem.
De imediato, o Presidente da Direcção expôs, em síntese, o Relatório de Actividades do ano de 2012; o documento dá-se por transcrito, por se encontrar publicado no blogue da Academia. Referiu, mesmo assim e em especial, a edição da obra completa do Padre António Vieira, uma publicação do Círculo de Leitores, em trinta volumes, na qual a nossa Academia colabora. Ambos os documentos, Relatório da Actividades e Contas, foram aprovados por unanimidade.
No terceiro ponto da Ordem de Trabalhos, o Presidente da Direcção apresentou o Plano de Actividades e Orçamento para o ano de 2013 (Março-Setembro). O documento encontra-se disponível no sítio da internet da Academia e foi enviado a todos os associados, via correio electrónico. Em todo o caso, destacou algumas actividades, a participação da Academia na edição da obra completa do Padre António Vieira, com o contributo de quinhentos euros, e, como contrapartida, a inserção do logótipo. Destacou também a organização, em conjunto com a Câmara Municipal de Bragança, do evento “Artes e Livros”, onde vão ser apresentados vários livros dos associados e o segundo volume de A Terra de Duas Línguas – Antologia de Autores Transmontanos. O Plano foi aprovado por unanimidade.
No quarto e último ponto, “Outros Assuntos”, o associado António Tiza sugeriu que, face às dificuldades de comparência às reuniões, em virtude do cargo que ocupa, fosse substituído o Tesoureiro Manuel Cardoso nas suas funções. Amadeu Ferreira opinou que não se justifica a sua substituição, considerando que dentro do prazo de seis meses se vai realizar o acto eleitoral para os novos corpos sociais da Academia.
O associado António Sá Gué apresentou duas propostas: a primeira visa a criação de um prémio literário com o nome da Academia, mesmo sem atribuição financeira; a segunda proposta relaciona-se com a edição do segundo volume da Antologia de Autores Transmontanos. Partindo do princípio de que existe serviço público nesta obra, poder-se-iam ultrapassar as dificuldades financeiras estabelecendo uma parceria entre a editora Lema d’Origem e a Academia; a editora assumiria o trabalho da paginação e outros relacionados com a edição e a Academia adquiriria um certo número de exemplares para os sócios; solicitar-se-iam apoios institucionais para as despesas de impressão e tipografia. O Presidente da Mesa sugeriu que a Direcção devia, no momento de decidir, levar em consideração a proposta apresentada. O Presidente da Direcção informou que esta vai tratar do assunto com a editora, a contento de ambas as partes, e que vai solicitar apoios no âmbito da lei do mecenato. Quanto ao prémio a que se referia a primeira proposta de Sá Gué, ficou decidido que, tratando-se de um assunto que merece aprofundada reflexão, a Direcção vai estudar o assunto e apresentar uma solução na próxima Assembleia Geral.
O Presidente da Mesa propôs que a Assembleia se pronunciasse e tomasse uma decisão, rejeitando o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Amadeu Ferreira referiu tratar-se de um tema fracturante e que, por isso, a Assembleia Geral não devia discuti-lo; manifestou reservas sobre a competência da Assembleia em se pronunciar sobre a matéria. A associada honorária Teresa Martins Marques sugeriu que se deixasse a decisão do uso ou não da nova ortografia ao critério de cada associado. Entretanto, face ao debate que se criou, com a apresentação de outras opiniões, a proposta foi retirada, a fim de evitar fracturas no seio da Academia.
A acta foi lida e aprovada, em minuta, por unanimidade.

E nada mais havendo a tratar se deu por encerrada a sessão, da qual se lavrou a presente acta que, vai ser assinada por mim, na qualidade de Secretário, e pelo Presidente da Mesa da Assembleia Geral.

Assembleia Geral

Convocatória


Nos termos legais, convocam-se os sócios da Academia de Letras de Trás-os-Montes para uma reunião da Assembleia Geral da mesma, a realizar em 14 de Setembro de 2013, pelas 10.30 horas, no Auditório do Centro Cultural Municipal Adriano Moreira, em Bragança, com a seguinte ordem de trabalhos:

1.  Leitura da acta da reunião anterior.
2.  Aprovação do relatório e contas do exercício de 2013 (Março-Setembro).
3.  Saudação ao novo sócio honorário António Jorge Nunes.
4.  Proposta de listas à Assembleia Geral, Direcção e Conselho Fiscal da ALTM.
Debate.
5. Eleição dos novos órgãos.
6. Tomada de posse.
7. Outros assuntos. 

Se à hora marcada não houver quorum, a reunião realizar-se-á 30 minutos depois com qualquer número de sócios presentes.


Bragança, 14 de Agosto de 2013

O Presidente da Assembleia Geral


A.M. Pires Cabral

03 junho 2013

Artes e Letras


Registamos as seguintes alterações no programa Artes e Livros, a realizar-se em Bragança, no Centro Cultural Municipal, entre 6 e 9 de Junho: a «Bibliografia...» de Hirondino Fernandes passa para 7, dia de seu aniversário; na impossibilidade de apresentar o «Dicionário...» de AMPires Cabral, será lançado «Trindade Coelho, Um Homem na Encruzilhada do Seu Tempo», de João Cabrita; não será lançado o vol. I da «História da República», de Raul Rêgo.
No final do dia, gastronomia de diferentes latitudes reúne os autores, incluindo uma vasta delegação brasileira.
     

30 maio 2013

A CASA DE BRAGANÇA

A Casa de Bragança ( sinopse)

D. Pedro e D. Inês de Castro casaram em Bragança, onde lhes nasceu o segundo filho, D. João de Portugal e Castro, calhado para um trono que as vicissitudes da História entregaram ao meio-irmão D. João I. A figura daquele, dito assassino de Maria Teles, é reabilitada na memória de amigos que com ele conviveram até às vésperas da morte, em 1398. A casa da família Roiz triangula a igreja de Santa Maria e a Domus Municipalis, outras moradas dentro da vila e cidadela, o que significa contar as origens do burgo, a construção do castelo e a linhagem dos Rodrigues, num lapso de mil anos.

A narrativa é organizada por Afonso Roiz, cujo pai tanto pode ser D. João de Castro como o sobrinho D. Afonso, primogénito do mestre de Avis e primeiro duque de Bragança. As suas andanças pela Europa, com o infante e futuro regente D. Pedro (1425-1428); a participação no desastre de Tânger (1437), logo companheiro de infortúnio de D. Fernando, Infante Santo, em Fez (1443); a amizade com o segundo duque, D. Fernando I, e presença no arraial de Ceuta, donde trouxe carta de foral dirigida à nova cidade (20 de Fevereiro de 1464) ‒ tudo isso, narrativa dos avós e aventuras de um raro observador, retrata o Portugal de Quatrocentos, no concerto europeu e marroquino.      

Essas duas partes ficaram impressas em fólios que outro Afonso Rodrigues (nado em 1956) colige: não só acompanha, aos oito anos, as celebrações do quinto centenário do foral (1964), como, 50 anos depois, resolve também enigmas da sua vida, junto da Domus Municipalis pós-abrilina, quando o coração, seu e do país, inaugura vida nova. Deste modo, História local, linhagística e pátria conjuga-se em demanda de afectos e celebração de Bragança, nos seus 550 anos de cidade.



A Casa de Bragança (excerto)


Dirigia-me à cidadela, como quem vai atrás de enigma – enigma quase, quase a resolver-se, cinquenta anos depois. 

Estava longe de imaginar que desvendaria alguns segredos: de família, da cidade, mesmo da pátria. Amo este chão, que me fez quem sou, e desejo refrescar-lhe dúvidas, certezas, raízes.

No Largo do Principal, tomava fôlego: obelisco soletrava vidas caídas na França de 14-18; da igreja de São Vicente nascera quadra, que minha avó recitava amiúde: «Hallóse Don Pedro libre, / y a su mal medio buscando, / se casó con Doña Inés / en Berganza con recato.» Encontrei-a no romanceiro espanhol, sem vírgula a menos. Mas, agora, subir o S invertido da Costa Grande não era pêra doce, irregular nos calhaus de xisto delidos pelo tempo. Vencida a ladeira, ao cimo, um portal quinhentista na então Rua Larga lembrava o primeiro arrabalde deslizando para o rio. Era memória antiga de burgo determinado que já no século XV transbordara da cinza do medo guardado em barbacãs.

Eu queria vê-lo festivo, dentro e fora de muros, bailando ao som de trombas de prata, como nessa gloriosa manhã em que um pregão reunia no largo da câmara, entre a Domus Municipalis e o pelourinho, o povo todo. Aí, foi anunciado que «Dom Affonso por graça de Ds. Rey de Portugal e do Algarve señor de Cepta e dalcacere em Africa», considerando «os muitos serviços e obras de grandes merecimentos que a nos, e a el rey D. Duarte nosso padre, e a nossos Reynos tem feyto dom Fernando segundo duque de Bragança, meu muito amado, e prezado primo, e querendo-lhe galardoar como a nós cabe, e por nollo elle Requerer a nos praz daqui por diante a sua Villa de Bragança se chamar Cidade».

O prazer é todo nosso, caríssimo rei.

Um longo parágrafo de cinco séculos vinha até 1964 – tinha eu oito anos, nada sabia de mim −, deslaçando-se em 20 de Fevereiro de 2014, cujo ponto final nem Deus conhece.


A Casa de Bragança 

Do Movimento Operário e Outras Viagens

ambos na Âncora Editora, serão lançados em Bragança, nos dias 8 e 9 de Junho, respectivamente. Volto, assim, à ficção histórica, após O Romance do Gramático (Gradiva, 2011), e, 15 anos depois, à poesia. Eis duas razões, que outras não houvesse, para reatar o diálogo.

***

ERNESTO José RODRIGUES (Torre de Dona Chama, 1956) é poeta, ficcionista, crítico e ensaísta, editor literário, tradutor de húngaro. Professor auxiliar com agregação da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, preside à direcção da Academia de Letras de Trás-os-Montes.

Estreado em 1973, com sete colectâneas de poemas e presença em 16 antologias, resume, agora, 40 anos de poesia em Do Movimento Operário e Outras Viagens, a lançar em 9 de Junho, em Bragança. Na ficção, assinou: Várias Bulhas e Algumas Vítimas, 1980; A Flor e a Morte, 1983; A Serpente de Bronze, 1989; Torre de Dona Chama, 1994; Histórias para Acordar, 1996; O Romance do Gramático, 2011; A Casa de Bragança, com lançamento no dia 8 de Junho, em Bragança, naturalmente. Com centenas de artigos em jornais, revistas, actas e volumes colectivos, salientam-se, no ensaio, os seguintes títulos: Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal, 1998; Cultura Literária Oitocentista, 1999; Verso e Prosa de Novecentos, 2000; Visão dos Tempos. Os Óculos na Cultura Portuguesa, 2000; Crónica Jornalística. Século XIX, 2004; A Corte Luso-Brasileira no Jornalismo Português (1807-1821), 2008; ‘O Século’ de Lopes de Mendonça: O Primeiro Jornal Socialista, 2008; Centenário da Morte de Trindade Coelho. Exposição Biobibliográfica, 2008; 5 de Outubro. Uma Reconstituição, 2010; O Jornalista Republicano Alves Correia, 2012. Além de co-editor do Dicionário de Literatura (dir. de Jacinto do Prado Coelho), Actualização (3 vols., 2002-2003), editou, entre outros: Padre António Vieira, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis, As Farpas Completas de Ramalho Ortigão (2006-2007), Augusto Moreno, José Marmelo e Silva, António José Saraiva e, sobretudo, Tomé Pinheiro da Veiga, Fastigínia (2011). Com Amadeu Ferreira, organizou A Terra de Duas Línguas. Antologia de Autores Transmontanos, 2 vols. (2011, 2013).

21 maio 2013

|Artes e Livros | Encontro de Academias




Organização:
Câmara Municipal de Bragança/Academia de Letras de Trás-os-Montes

Junho, 6 [quinta]

15h00 – Abertura do Encontro de Academias:
Presidente da CMB
Presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes
15h30 – Apresentação das Academias Convidadas
16h00 – Apresentação da Bibliografia do Distrito de Bragança, vol.VII - Hirondino Fernandes
16h45 – “Academia Paraense de Letras- 113 anos ao serviço da Cultura” - Presidente da Academia Paraense de Letras - Pará – Alcyr Meira
17h30 - Recepção à Comitiva de Pavillons-sous-Bois, no âmbito da Geminação
18h00 – Apresentação de Gestão do Município de Bragança – no período de 1998 a 2013
– Presidente da Câmara Municipal de Bragança
18h45 A Gastronomia Luso-Amazónica – Álvaro do Espírito Santo
20h00 – Jantar Luso-Amazónico, com apresentação dos destinos turísticos do Pará e de Danças e Cantos Folclóricos Bragantinos (Marujada/retumbão/xote e outras) – Adenauer Goês
Centro Cultural Municipal Adriano Moreira

Junho, 7 [sexta]

15h00 Entre Prémios e Premiados = Lígia Fagundes Teles – Nelly Cecília Rocha – Academia Paraense de Letras
15h45 – Apresentação de O Manco – Entre Deus e o Diabo – António Sá Gué e
Homens de Granito – Antero Neto, apresentado por António Sá Gué
16h45 – Apresentação de Terra Parda – Hélder Rodrigues, por Ernesto Rodrigues
17h30 – Palestra da Academia de Letras de Cabo Verde
18h15 – Apresentação do livro O Diabo e as Cinzas – António Pinelo Tiza
19h00 A gastronomia de S.Tomé – Chefe João Carlos Silva
20h00 – Jantar S. Tomé, com o Chefe João Carlos Silva, com danças e música de S. Tomé/ Cabo Verde
Centro Cultural Municipal Adriano Moreira

Junho, 8 [sábado]

14h30 – Intercâmbio literário entre os membros das Academias presentes
15h00 Zona Bragantina Colonização e Estrada de Ferro – José Leôncio Sequeira – Academia de Letras de Bragança do Pará
15h45 – Apresentação do livro A Casa de Bragança - Ernesto Rodrigues
16h30 ‒ Apresentação de A Terra de Duas Línguas II- Antologia de Autores Transmontanos – Ernesto Rodrigues, Amadeu Ferreira
17h30 – Apresentação de Língua Charra. Regionalismos de Trás-os-Montes e Alto Douro – A. M. Pires Cabral
18h15 – Apresentação de A Máscara do Demo – Alexandre Parafita
19h00 Saga dos Comeres Bragançanos e a Lusofonia - Armando Fernandes
20h00 – Jantar português com o Chefe Hélio Loureiro, com noite de Fados
Centro Cultural Municipal Adriano Moreira

Junho, 9 [domingo]

15h00 – Apresentação de Dois Homens num só Rosto – Temas Torguianos – M. Hercília Agarez
15h45 – Apresentação de O Resgate dos Justos da Terra – Henrique Pedro
17h15 – Apresentação de Do Movimento Operário e Outras Viagens – Ernesto Rodrigues
18h00 – Apresentação de História da República. Vol. 1 – Raul Rêgo
18h45 – Apresentação de Templo do Fogo Insaciável - António Vilhena
19h30 – Declamação de poemas – Academias de Letras do Pará – Brasil, e encerramento do evento
Centro Cultural Municipal Adriano Moreira

27 fevereiro 2013

ASSEMBLEIA GERAL



                                                                                                                                                  Convocatória


Nos termos legais, convocam-se os sócios da Academia de Letras de Trás-os-Montes para uma reunião da Assembleia Geral da mesma, a realizar em 23 de Março de 2013, pelas 10.30 horas, no Auditório do Centro Cultural Municipal Adriano Moreira, em Bragança, com a seguinte ordem de trabalhos:

1.  Leitura da acta da reunião anterior.
2.  Aprovação do relatório e contas do exercício de 2012.
3.  Aprovação do plano de actividades e do orçamento para 2013.
4.  Outros assuntos. 

Se à hora marcada não houver quorum, a reunião realizar-se-á 30 minutos depois com qualquer número de sócios presentes.


Bragança, 21 de Fevereiro de 2013.

O Presidente da Assembleia Geral

A.M. Pires Cabral



Homenagem a Barroso da Fonte


A Direcção da ALTM ‒ Academia de Letras de Trás-os-Montes homenageia, no dia 23 de Março, às 11,30h, Barroso da Fonte, quando perfaz 60 anos de vida jornalística e literária. Será orador António Chaves.
Outros membros da ALTM podem, com depoimentos breves, associar-se à celebração.
A sessão decorre no Centro Cultural Municipal Adriano Moreira, em Bragança. 





altmontes@gmail.com
http://altm.weebly.com
altm-academiadeletrasdetrasosmontes.blogspot.com



Direcção da
Academia de Letras de Trás-os-Montes
2012
Relatório


Sumário

1.Divulgação de obras, textos e iniciativas de membros da ALTM.
1.1. Co-organização da Feira do Livro.
1.1.1.Apoio à edição de Bibliografia do Distrito de Bragança, de Hirondino da Paixão Fernandes.
1.1.2. Breve homenagem a Bento da Cruz.
2. Antologia de associados da ALTM.
       2.1. Agradecimento ao IPB.
3. Diligências para a criação de um programa radiofónico sobre escritores transmontanos.
4. Organização da documentação da ALTM e reforço do Centro de Documentação.
4.1. Criação de conteúdos para o site. Blogue e Facebook.
5.Exposição cartográfica e bibliográfica: literatura húngara traduzida em Portugal e literatura portuguesa traduzida na Hungria.
6.Relações inter-académicas e literárias.
7. Participação na Obra Completa Padre António Vieira.
Comentário final.

1. Prosseguimos, via mail, facebook, site e blogue, a divulgação de obras e lançamentos, inserindo alguns textos de apresentação, e outros, no blogue da ALTM (António Sá Gué, Maria Hercília Agarez, Tiago Patrício, Amadeu Ferreira…).  
1.1.No âmbito da iniciativa Artes e Livros, promovida pela Câmara Municipal de Bragança, entre 6 e 10 de Junho, no anfiteatro do Centro Cultural Municipal, organizou a ALTM o lançamento de obras recentes de alguns sócios: Manuel Amendoeira, Idalina Brito, Maria Hercília Agarez, António Sá Gué, Henrique Pedro.
1.1.1. Momento especial, com a presença de autoridades civis e religiosas, foi o lançamento do volume II de Bibliografia do Distrito de Bragança, de Hirondino da Paixão Fernandes. Apresentado por Ernesto Rodrigues, o respectivo texto sairia em quatro números do Mensageiro de Bragança, em Outubro-Novembro. Neste mês, os volumes III e IV seriam apresentados por Amadeu Ferreira, na Fundação ‘Os Nossos Livros’.
1.1.2. Outro sócio honorário, Bento da Cruz, seria convidado a estar em Bragança, para lançamento de Camilo Castelo Branco por Terras de Barroso e Outros Lugares, com apresentação de A.M. Pires Cabral.
       2. Proposta do presidente da ALTM na anterior AG, ultima-se antologia de autores transmontanos, segundo volume do título lançado em 2011, A Terra de Duas Línguas. Não, decerto, porque condicionada a participação ao pagamento da quota de 2013 ‒ com resultados financeiros satisfatórios ‒, mas pela inércia dos interpelados, só em Fevereiro último se fechou a colaboração, num total de 55 nomes. Sofre, assim, um atraso de dois meses e meio, para ser lançada em Junho, na presença de outros académicos e convidados estrangeiros.
       2. 1. Cumpre registar, aqui, quanto devera ter já sido referido no relatório de 2011: um agradecimento especial ao Instituto Politécnico de Bragança, pela entrega de duas caixas com exemplares de A Terra de Duas Línguas, para distribuição alguns autores e ofertas a académicos estrangeiros.
3. Está prometido um programa da ALTM na Rádio Bragançana, faltando defini-lo e dar início às emissões. Esta AG é chamada a pronunciar-se, se assim entender.
4. A título gracioso, uma jovem universitária, Maria João Fernandes, dedicou algumas semanas do Verão passado a organizar a parca burocracia da ALTM, revendo fichas de membros e enquadrando algumas situações, com vantagem para o serviço. Aqui lhe deixamos um agradecimento.
       4.1. As nossas páginas online têm uma actividade razoável, embora pudessem ser mais demandadas pelos associados.
5. A exposição cartográfica organizada pela Embaixada da Hungria, acompanhada de mostra de 60 livros da colecção de Ernesto Rodrigues, esteve patente na Biblioteca Municipal do Centro Cultural Adriano Moreira entre 10 de Setembro e final de Outubro. Na inauguração, presidida pelo Embaixador e pelo Presidente da Câmara M. de Bragança, E. Rodrigues conferenciou sobre a presença da Hungria em Portugal desde o século XI.
6. O presidente da ALTM, corroborado por sugestões da demais Direcção, entregou, em Setembro, na Sociedade de Geografia de Lisboa, texto destinado a volume colectivo das Academias nacionais com propostas de resolução da presente crise. Na dúvida se será editado, o mesmo abrirá, com ligeiras adaptações, o próximo volume de A Terra de Duas Línguas.
A convite de Academias brasileiras, a que nenhum membro da ALTM respondeu favoravelmente, considerou o presidente desta aceitar o apoio da Câmara M. de Bragança, integrando comitiva da Vereadora de Cultura. Esse apoio traduziu-se no pagamento da passagem aérea Porto-Belém do Pará-Lisboa, significando que as despesas em Portugal foram custeadas pela ALTM.
Ernesto Rodrigues foi convidado de honra da Academia Paraense de Letras, onde apresentou a comunicação “Uma Academia de Duas Línguas” (ver blogue). Convidou, na ocasião, comitiva da APL para se deslocar a Portugal, a qual receberemos em Junho, de 6 a 9, no âmbito do Encontro Literário Luso-Amazónico. Corresponde-se, deste modo, a uma sugestão de Marcolino Cepeda lançada na AG de há um ano ‒ de que, em aniversário da ALTM, pudéssemos ter connosco académicos brasileiros.
Também solicitado pela Academia de Letras de Bragança do Pará, com a qual estabelecemos protocolo, discursou sobre “A Casa de Bragança”. Alguns membros ofereceram títulos ao nosso Centro de Documentação.
7. A participação da ALTM na Obra Completa Padre António Vieira foi já aprovada em reunião de Direcção. Pelos encargos que envolve (embora pouco significativos), convém apresentá-la em assembleia soberana.
Em 30 de Março de 2012, o Reitor da Universidade de Lisboa convidou 300 instituições a participarem no maior projecto editorial português: 30 volumes de Vieira editados pelo Círculo de Leitores, à média de um por mês, com o primeiro lançamento já em 4 de Abril. Seguem-se um Dicionário de Vieira e antológica do autor em oito línguas.
Considerou a Direcção da ALTM que uma espécie de presença para a eternidade estava garantida, se nos associássemos com o módico pagamento de 1 500 euros, a dividir em três anos, em troca da reprodução do nosso logótipo. O mecenas principal é a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Nós abrimos a lista dos poucos apoios, cuja lista anexamos.

Face ao exposto, um comentário final. Da programação avançada há um ano, e descontado o atraso, útil, de A Terra de Duas Línguas ‒ mas acrescentando outras iniciativas ‒, reconhecemos, tão-só, não se ter cumprido o então ponto 7. Tertúlias literárias. Em preparação, “Escritoras transmontanas – Eduarda Chiotte”. Com efeito, responsabilizou-se por esta tertúlia o associado António Afonso, que razões de saúde ou outras terão prejudicado.
Cumpre salientar, todavia, ter o mesmo associado prescindido do montante de 150 euros, que acordáramos como despesa associada à tertúlia sobre Luísa Dacosta. Esse quantitativo constava como despesa no Relatório e Contas de 2011. 

Informações úteis
O blogue da ALTM (altm-academiadeletrasdetrasosmontes.blogspot.com), activo desde Dezembro, vem registando as informações, e participações, mais variadas, além de inserir os estatutos da ALTM uma ficha de inscrição facilmente descarregável pelos novos sócios.
Relevamos os textos de apresentação de obras dos nossos associados, independentemente de ser iniciativa, ou não, da ALTM.
Com o lançamento de um site (http://altm.weebly.com) e registo no Facebook (http://www.facebook.com/altmontes), textos, informações e vídeos podem ser, agora, colocados nos espaços apropriados.
Procurámos, enfim, um endereço electrónico sucinto: altmontes@gmail.com. Mantém-se, todavia, o primeiro, enquanto não se fizer a migração completa: academiadeletrasosmontes@gmail.com.
Recomenda-se o pagamento da quota (20 euros anuais; acrescem 10 euros de jóia de inscrição, no caso de novos inscritos), via bancária (NIB: 0035 0417 00023749 430 35).     

28 janeiro 2013

Bibliografia do Distrito de Bragança



Ernesto Rodrigues

Na hora em que são editados os volumes III e IV da BdBBibliografia do Distrito de Bragança (Série Escritores – Jornalistas – Artistas), cumpre celebrar este projecto de Hirondino da Paixão Fernandes empreendido já nos anos 60, no Mensageiro de Bragança, e que teve em António Jorge Nunes, presidente da Câmara Municipal, o necessário apoio, acertado e justo. Farei, antes, breve historial da dicionarística literária em Portugal, de modo a enquadrar a BdB e perceber a importância de iniciativa tão fecunda quão honrosa para a Cultura do distrito.
Vidas, linhagens e genealogias, bibliografias, catálogos e relações de livrarias ou bibliotecas, são imprescindíveis na investigação: por mais enfadonhos, trazem sempre algo de fresco e útil. Os tenteios inaugurais de vida e obra vêm numa colecção manuscrita de Manuel Severim de Faria, Compendio de Varias Obras de Authores Portugueses (1613), e na vida de Camões, por Pedro de Mariz (1613), sendo Camões núcleo reflexivo desde Manuel de Lira (1591). Mas o século XVII – que também é o da Imprensa periódica, cujos dicionários interessam à literatura, e do impressionismo crítico no Hospital das Letras (1657; editado em 1721), após duplo esforço canonizador de Jacinto Cordeiro, Elogio de Poetas Lusitanos, e António de Sousa de Macedo, Flores de España..., ambos de 1631 – reserva dois monumentos singulares: a Biblioteca de João Franco Barreto = Biblioteca / Lusitana / Autores / Portuguesez / 1.ª Parte, etc., e Joanne [João] Soares de Brito, Theatrum Lusitaniae Litterarium [...], 1655. A Bibliotheca… consta de cinco volumes, e um sexto de Índices (de nomes, sobrenomes, pátrias dos autores), no total de 1180 páginas. Se a introdução data de 27 de Janeiro de 1648, a obra estende-se para lá de 1656. Cerca de mil autores é uma soma respeitável; este princípio de todos reunir, até os que versaram Direito Civil e Canónico, inspirará Diogo Barbosa Machado, Inocêncio Francisco da Silva… e Hirondino Fernandes. Outra preciosidade é o manuscrito Cathalogo dos Auctores Portugueses, de Manuel de Faria e Sousa (BN, COD. 361). Concomitantemente, urge compulsar os índices inquisitoriais quinhentistas e o Index Auctorum Damnatae Memoriae (1624). No conspecto europeu, consulte-se a Bibliotheca Scriptorum Societatis Jesu […], de Pedro de Rivadeneyra, 1643.
A Bibliotheca Hispana de Nicolau António (1672; ed. aumentada, 1783-1788) inspira a Bibliotheca Lusitana: Historica, Critica, e Cronológica [...]  (Lisboa, 4 vols.; 1741-1759; já em formato digital), que não se queda pelo impresso em língua portuguesa, como Inocêncio, mas evita anónimos. A BdB tem anónimos e estrangeiros, se atinentes ao distrito. Devedor de Franco Barreto, Barbosa é canibalizado por muitos. Conviria confrontá-lo com a “Memória de alguns escritores em todas as ciências da Companhia de Jesus”, título actualizado constante do apócrifo Cathalogos de Ministros e Memorias Varias (manuscrito após 1754; BN, COD. 1457). Bento José de Sousa Farinha faz, em 1206 páginas e três tomos, um Summario da Bibliotheca Luzitana (1786), despachando, no terceiro (1787), as letras L-Z. E, oportunista, acrescenta um quarto tomo de Bibliotheca Luzitana Escolhida (1786), o que é um bom exercício de cânone literário do tempo. Bibliotheca Lusitana Escolhida ou Catalogo dos Escriptores Portugueses será título de José Augusto Salgado (1841). O critério ora afina, ora relaxa. Exemplo de solução mista, em tempo de Ilustração nascente, é o Anno Historico, / Diario Portuguez, Noticia Abreviada / De pessoas grandes, e cousas notaveis de Portugal, [...], pelo Padre Mestre / Francisco de Santa Maria, 1744. Os três volumes, além de efemérides, biografam vultos, na linha do que farão os almanaques. No ano seguinte, temos o Corpus Illustrium Poetarum Lusitanorum qui Latine Scripserunt, [...] (8 tomos, 1745-1748), compilado pelos padres António dos Reis e Manuel Monteiro.
Enquanto isso, está por estudar a faceta dicionarística de Francisco Xavier de Oliveira, com dezenas de artigos sobre obras de portugueses em David Clément, Bibliothèque Curieuse Historique et Critique, ou Catalogue Raisonné des Livres Difficiles à Trouver (9 vols., 1750-1760). Deve ser confrontada com as suas Mémoires Historiques, Politiques et Littéraires, concernant le Portugal et toutes ses dépendances, avec la Bibliothèques des écrivains et des historiens de ces états, 2 vols., 1743. Diz-nos que o jesuíta Francisco da Cruz deixou Memorias Manuscritas para uma sonhada Bibliotheca Portuguesa.
Entre outras margens de dicionarização, em Setecentos, citemos uma Bibliotheca Portuguesa (1736-1741) e outra Bibliotheca Lusitana, em cinco volumes manuscritos, ambas com informação biobibliográfica de autores portugueses remetida a D. Francisco de Almeida (1701-1745; BN: COD. 908 e COD. 909-912). O Diccionario da Lingoa Portugueza (1793) fecha o século com um selecto cânone de autores.

De Inocêncio a Prado Coelho

O Diccionario Bibliographico Portuguez (1858; já digitalizado) vinha sendo pedido por Cunha Rivara celebrando Barbosa Machado, e propondo uma Bibliotheca Portugueza n’O Panorama (X, 30-IV-1853). Aquele Diccionario… é mais do que de Inocêncio. Continuado por Brito Aranha, Gomes de Brito, Álvaro Neves, o tomo XXI é dedicado a Herculano (1914), no pretexto centenarial (1910); o t. XXII (1923) fecha a série, em que só nos reencontramos se tivermos à mão João Soares de Sousa, Índice Alfabético (1938), ou um esforçado Ernesto Soares, Guia Bibliográfica, correspondendo ao tomo XXIII (1972), e que fora suplemento ao Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra, vol. XXIII, 1958. No Rio de Janeiro, Sacramento Augusto Victorino Blake responsabilizou-se por outro Dicionário Bibliográfico Português. Sem indicação de tomo, está Martinho da Fonseca, Aditamentos ao Dicionário Bibliográfico Português (1927; 1972), já autor de Subsídios para Um Diccionario de Pseudonymos, Iniciaes e Obras Anonimas de Escriptores Portuguezes (1896; 1973), que podemos considerar o vigésimo quinto tomo de tão magno projecto. A paginação dos dez volumes da BdB não se ficará, todavia, atrás.
Vinte anos depois do primeiro Inocêncio, Ricardo Pinto de Mattos (que assinara Bibliographia Historica Portuguesa, 1850) traz precisões no Manual Bibliographico Portuguez de Livros Raros, Classicos e Curiosos (1878), revisto e prefaciado por Camilo Castelo Branco. Do estrangeiro, interessam-nos: Augustin et Aloïs de Backer, Bibliothèque des Écrivains de la Compagnie de Jésus, ou Notices Bibliographiques [...], 7 vols., 1853-1861; o médico setubalense Domingo García Peres, Catálogo Razonado Biográfico e Bibliográfico de los Autores Portugueses Que Escribieron en Castellano, 1890; Meyer Kayserling, Biblioteca Española-Portuguesa-Judaica. Dictionnaire bibliographique des auteurs juifs, de leurs ouvrages espagnols et portugais et des ouvres sur et contre les juifs..., 1890. Tirante isto, há o conceito de notabilidade, em que todos se misturam, seja no Álbum das Glórias de Rafael Bordalo Pinheiro, na Revista Contemporânea de Portugal e Brasil (1859-1865), nas necrologias do Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, em inaugurada biografia herculaniana de Júlio César Machado, “Notas para um dicionário dos portugueses notáveis do meu tempo”, A Illustração. Revista de Portugal e do Brazil (ano 5, v. 5, n.º 4, 20-II-1888). Desactualizados estão a Portuguese Bibliography (1922), de Aubrey Bell, e o Dicionário Universal de Literatura: Bio-Bibliográfico e Cronológico (1934, 1940), de Henrique Perdigão.
Ora, em 1 de Março de 1956, no suplemento ‘Artes e Letras’ do Diário de Notícias, Jacinto do Prado Coelho anunciava o Dicionário das Literaturas Portuguesa, Galega e Brasileira, cujo primeiro fascículo saiu em Agosto de 1956. Em Outubro de 1960, a Livraria Figueirinhas resumia tudo a um só volume, a duas colunas, páginas 3-880, com Addenda e corrigenda, Índice de nomes de autores, Índice de títulos de obras e revistas, Errata, até à p. 1021. A 2.ª edição atenta mais à literatura brasileira e à estilística: torna-se Dicionário das Literaturas Portuguesa, Brasileira, Galega e Estilística Literária, Temos dois volumes (A-M, 1969, 686 páginas; N-Z, 1971; total: 1527 páginas) a três colunas, ilustrações, e uma 3.ª edição em três (1976) e cinco volumes (1973), da qual decorre, nos anos 80 e 90, alegada 4.ª edição (desde 1992), e que, na prática, significa uma vintena de reimpressões. O texto de 1969-1971 mantém-se incólume até 2002-2003, quando, apoiado em Pires Laranjeira e José Viale Moutinho, coordenei três volumes de Actualização. Posso afirmar que conheço os agora oito volumes como as minhas mãos. Em 29 de Março de 1984, eu inserira no Diário de Lisboa o artigo “Um dicionário vergonhoso de Literatura Portuguesa”, vergastando um Dicionário de Literatura Portuguesa, sem data (1983?), e sem indicação de editor, de um certo José Correia do Souto, plagiando regularmente J. do Prado Coelho... Releve-se, nos 800 novos artigos para 958 páginas, a fecundidade das bibliografias – em que só a BdB o ultrapassa –, não raro mais extensas que o verbete.
A variedade contida no Dicionário de Literatura animou projectos afins ou de aprofundamento parcelar. Prometia muito o Grande Dicionário da Literatura Portuguesa e de Teoria Literária, I, 1977 (iniciou o 2.º vol., de que restaram fascículos soltos), dirigido por João José Cochofel. Tal promessa foi satisfatoriamente cumprida pela Biblos. Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa (5 vols., 1995-2005). Concretizou-se num volume o Dicionário de Literatura Portuguesa (1996; dir. de Álvaro Manuel Machado), pensado em termos só de autores, enquanto o Dicionário Cronológico de Autores Portugueses (6 vols., 1985-2001), pela informação quase exaustiva sobre nomes, é um manancial, mas sem particulares juízos críticos, nem orientações bibliográficas. O seu índice de pseudónimos deve ser complementado por Adriano Guerra Andrade, Dicionário de Pseudónimos e Iniciais de Escritores Portugueses (1999). Projectos internacionais não devem passar despercebidos (caso do Dicionário Biográfico Universal de Autores, 5 vols., 1966-1982); outros são inúteis, ou pouco menos (Fernanda Frazão, Maria Filomena Boavida, Pequeno Dicionário de Autores de Língua Portuguesa, 1983; O Dicionário / Literatura Portuguesa, vendido com o diário Público, 2004; Célia Vieira e Isabel Rio Novo, Literatura Portuguesa no Mundo. Dicionário Ilustrado, 2005, 12 vols.).
Por períodos ou movimentos, saudemos: Dicionário de Literatura Medieval Galega e Portuguesa (dir. de Giulia Lanciani e G. Tavani, 1993); Dicionário da Arte Barroca em Portugal (dir. de José Fernandes Pereira e Paulo Pereira, 1989); Dicionário do Romantismo Literário Português (coord. por Helena Carvalhão Buescu, 1997). Em nome próprio, o Dicionário de Eça de Queiroz (1988; 1993), organizado por A. Campos Matos, exigiu Suplemento (2000); o Dicionário de Camilo Castelo Branco (1989), testamento de Alexandre Cabral, saiu actualizado em 2003; qual díptico, chegou o Dicionário de Personagens da Novela Camiliana (dir. de Maria de Lourdes A. Ferraz, 2002).
Cidades, distritos, regiões e antigas possessões não se lamentem. Ficam exemplos, desde o fim do Antigo Regime, todos muito aquém da BdB, ainda que olhando somente ao critério literário: Francisco de Carvalho, Historia de Coimbra..., BN, COD. 905; Agostinho Tinoco, Dicionário dos Autores do Distrito de Leiria, 1979; João Afonso, Bibliografia Geral dos Açores. Sequência Açoriana do Dicionário Bibliográfico Português, 3 vols., 1985-1997; Padre Fernando Augusto da Silva e Carlos Azevedo de Meneses, Elucidário Madeirense, 3 vols., 1940-1946; fac-símile, 1998; Luiz Peter Clode, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses. Sécs. XIX e XX, s. d.; Aleixo Manuel da Costa, Dicionário de Literatura Goesa, 3 vols., 1997. Do claustro saem inúmeros: baste Francisco Álvares Loureiro da Silva, Bibliografia dos Autores Trinitários Portugueses, 1996. As mulheres conquistam o seu Dicionário no Feminino (Séculos XIX-XX; dir. de Zília Osório de Castro, João Esteves, 2005). As crianças têm António Garcia Barreto, Dicionário da Literatura Infantil Portuguesa, 2002.
Entre profissões, destaquem-se militares, juristas e médicos: Francisco Augusto Martins de Carvalho, Diccionario Bibliographico Militar Portuguez, 1891; Eduardo Alves de Sá, Bibliographia Juridica Portugalensis, 1898, precedido de Ignacio da Costa Quintela, Bibliotheca Jurisconsultorum Lusitanorum, 1790, e do Demetrio Moderno ou Bibliographo Juridico Portuguez..., 1781, de António Barnabé de E. Barreto de Aragão; Gracinda Pais Brígida, Escritores Médicos Portugueses na Segunda Metade do Séc. XIX, 1948; Armando Moreno, Médicos Escritores Portugueses, 1990.
Pouco adiantaremos ao olhar para enciclopédias e dicionários estrangeiros que inscrevam os nossos autores; mas notem-se os brasileiros Celso Pedro Luft, Dicionário de Literatura Portuguêsa e Brasileira, 1967, e Massaud Moisés, org., Pequeno Dicionário de Literatura Portuguesa, 1981. No campo da teoria, importam alguns dicionários de termos literários (Harry Shaw, Massaud Moisés, António Moniz / Olegário Paz) ou o Dicionário de Narratologia, de Carlos Reis / Ana Cristina Macário Lopes, 1987.

Fonte de criação

Seria possível conjugar a diversidade de intenções acima resumida? Hirondino Fernandes disse que sim.
Por ordem de apelido, inclusive em pseudónimos e iniciais, aos nomes sucede indicação de lugar e data de nascimento e morte, se possíveis. As biografias são desiguais, quer em espaço, quer em método, mas suficientes. A riqueza está na bibliografia activa (manuscrita, dactilografada, mimeografada, impressa), por anos, e excertos úteis, nos títulos menos acessíveis. Intercalam remissões e fecha uma não raro extensa bibliografia passiva − acompanhada de eventuais ‘ecos da Imprensa’ −, só parcialmente referenciada no limiar do vol. I, onde seguem centenas de publicações periódicas consultadas. Nomes com parte de leão temos o Abade de Baçal (I, p. 341-350) ou Trindade Coelho (II, p. 429-706), aliás, inseridos em edições comemorativas.
Considere-se, entretanto, maioria de impressos, seja qual for o suporte, a extensão e qualidade. O senão de rastrear mero artigo de jornal, nem sempre de fácil atribuição, é que o autor pode não rever-se num passado que deseja rasurar. São mais aceitáveis, em termos de bibliografia activa, a revista e livro (e, mesmo, o recurso ao online), mas o efeito de desentranhar páginas inesperadas, que escapam aos autores, é prova de uma dedicação que nunca louvaremos assaz.
Com menos relevo, mas decisão fundada, estão os não naturais, cujos títulos respeitam ao distrito. É um olhar de fora, geralmente empático, que mostra interlocutores insuspeitados, para lá das fronteiras regionais, nacionais, linguísticas. Ver e ser visto torna-se, assim, mais fácil.
Se perde, em relação a Inocêncio ou Prado Coelho, na injustificada inclusão de brasileiros e galegos, embora alguns compareçam, por outras razões, a todos os dicionários sobreleva esta BdB, e não só em número de páginas: de escopo distrital, vai para lá deste chão, conjugando vocações, actividades, profissões, desde o título ou apelidos mais antigos, longe de serem todos forçosamente ilustres (muitos destes estão ausentes, por não entrarem na série). O critério editorial não-selectivo deixa entrever as principais dificuldades: uniformização, em tempo útil, de dados biográficos (ora com datas precisas, ora só os anos, por exemplo), várias interrogações, sobretudo, nos corpora bibliográficos. Mas só quem não investiga neste país desconhece as dificuldades.
Conjugando Barreto, Barbosa Machado e Inocêncio (na esperança de que o décimo volume, de índices, esclareça os caminhos), estamos em condições, agora, de ler o distrito em títulos, temas, conceitos, épocas, potencialidades, que entreabria Prado Coelho. Sendo a melhor fonte de um passado que ainda mal se conhece, com ganhos para estudiosos, que não terão pequenas surpresas, a inclusão dos mais novos ou de quem pratica as nossas especialidades ajuda-nos num acompanhamento próximo imediato. Já tínhamos as Memórias Arqueológico-Históricas… baçalianas; com a BdB, temos o segundo monumento cultural da nossa terra.