03 junho 2013

Artes e Letras


Registamos as seguintes alterações no programa Artes e Livros, a realizar-se em Bragança, no Centro Cultural Municipal, entre 6 e 9 de Junho: a «Bibliografia...» de Hirondino Fernandes passa para 7, dia de seu aniversário; na impossibilidade de apresentar o «Dicionário...» de AMPires Cabral, será lançado «Trindade Coelho, Um Homem na Encruzilhada do Seu Tempo», de João Cabrita; não será lançado o vol. I da «História da República», de Raul Rêgo.
No final do dia, gastronomia de diferentes latitudes reúne os autores, incluindo uma vasta delegação brasileira.
     

30 maio 2013

A CASA DE BRAGANÇA

A Casa de Bragança ( sinopse)

D. Pedro e D. Inês de Castro casaram em Bragança, onde lhes nasceu o segundo filho, D. João de Portugal e Castro, calhado para um trono que as vicissitudes da História entregaram ao meio-irmão D. João I. A figura daquele, dito assassino de Maria Teles, é reabilitada na memória de amigos que com ele conviveram até às vésperas da morte, em 1398. A casa da família Roiz triangula a igreja de Santa Maria e a Domus Municipalis, outras moradas dentro da vila e cidadela, o que significa contar as origens do burgo, a construção do castelo e a linhagem dos Rodrigues, num lapso de mil anos.

A narrativa é organizada por Afonso Roiz, cujo pai tanto pode ser D. João de Castro como o sobrinho D. Afonso, primogénito do mestre de Avis e primeiro duque de Bragança. As suas andanças pela Europa, com o infante e futuro regente D. Pedro (1425-1428); a participação no desastre de Tânger (1437), logo companheiro de infortúnio de D. Fernando, Infante Santo, em Fez (1443); a amizade com o segundo duque, D. Fernando I, e presença no arraial de Ceuta, donde trouxe carta de foral dirigida à nova cidade (20 de Fevereiro de 1464) ‒ tudo isso, narrativa dos avós e aventuras de um raro observador, retrata o Portugal de Quatrocentos, no concerto europeu e marroquino.      

Essas duas partes ficaram impressas em fólios que outro Afonso Rodrigues (nado em 1956) colige: não só acompanha, aos oito anos, as celebrações do quinto centenário do foral (1964), como, 50 anos depois, resolve também enigmas da sua vida, junto da Domus Municipalis pós-abrilina, quando o coração, seu e do país, inaugura vida nova. Deste modo, História local, linhagística e pátria conjuga-se em demanda de afectos e celebração de Bragança, nos seus 550 anos de cidade.



A Casa de Bragança (excerto)


Dirigia-me à cidadela, como quem vai atrás de enigma – enigma quase, quase a resolver-se, cinquenta anos depois. 

Estava longe de imaginar que desvendaria alguns segredos: de família, da cidade, mesmo da pátria. Amo este chão, que me fez quem sou, e desejo refrescar-lhe dúvidas, certezas, raízes.

No Largo do Principal, tomava fôlego: obelisco soletrava vidas caídas na França de 14-18; da igreja de São Vicente nascera quadra, que minha avó recitava amiúde: «Hallóse Don Pedro libre, / y a su mal medio buscando, / se casó con Doña Inés / en Berganza con recato.» Encontrei-a no romanceiro espanhol, sem vírgula a menos. Mas, agora, subir o S invertido da Costa Grande não era pêra doce, irregular nos calhaus de xisto delidos pelo tempo. Vencida a ladeira, ao cimo, um portal quinhentista na então Rua Larga lembrava o primeiro arrabalde deslizando para o rio. Era memória antiga de burgo determinado que já no século XV transbordara da cinza do medo guardado em barbacãs.

Eu queria vê-lo festivo, dentro e fora de muros, bailando ao som de trombas de prata, como nessa gloriosa manhã em que um pregão reunia no largo da câmara, entre a Domus Municipalis e o pelourinho, o povo todo. Aí, foi anunciado que «Dom Affonso por graça de Ds. Rey de Portugal e do Algarve señor de Cepta e dalcacere em Africa», considerando «os muitos serviços e obras de grandes merecimentos que a nos, e a el rey D. Duarte nosso padre, e a nossos Reynos tem feyto dom Fernando segundo duque de Bragança, meu muito amado, e prezado primo, e querendo-lhe galardoar como a nós cabe, e por nollo elle Requerer a nos praz daqui por diante a sua Villa de Bragança se chamar Cidade».

O prazer é todo nosso, caríssimo rei.

Um longo parágrafo de cinco séculos vinha até 1964 – tinha eu oito anos, nada sabia de mim −, deslaçando-se em 20 de Fevereiro de 2014, cujo ponto final nem Deus conhece.


A Casa de Bragança 

Do Movimento Operário e Outras Viagens

ambos na Âncora Editora, serão lançados em Bragança, nos dias 8 e 9 de Junho, respectivamente. Volto, assim, à ficção histórica, após O Romance do Gramático (Gradiva, 2011), e, 15 anos depois, à poesia. Eis duas razões, que outras não houvesse, para reatar o diálogo.

***

ERNESTO José RODRIGUES (Torre de Dona Chama, 1956) é poeta, ficcionista, crítico e ensaísta, editor literário, tradutor de húngaro. Professor auxiliar com agregação da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, preside à direcção da Academia de Letras de Trás-os-Montes.

Estreado em 1973, com sete colectâneas de poemas e presença em 16 antologias, resume, agora, 40 anos de poesia em Do Movimento Operário e Outras Viagens, a lançar em 9 de Junho, em Bragança. Na ficção, assinou: Várias Bulhas e Algumas Vítimas, 1980; A Flor e a Morte, 1983; A Serpente de Bronze, 1989; Torre de Dona Chama, 1994; Histórias para Acordar, 1996; O Romance do Gramático, 2011; A Casa de Bragança, com lançamento no dia 8 de Junho, em Bragança, naturalmente. Com centenas de artigos em jornais, revistas, actas e volumes colectivos, salientam-se, no ensaio, os seguintes títulos: Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal, 1998; Cultura Literária Oitocentista, 1999; Verso e Prosa de Novecentos, 2000; Visão dos Tempos. Os Óculos na Cultura Portuguesa, 2000; Crónica Jornalística. Século XIX, 2004; A Corte Luso-Brasileira no Jornalismo Português (1807-1821), 2008; ‘O Século’ de Lopes de Mendonça: O Primeiro Jornal Socialista, 2008; Centenário da Morte de Trindade Coelho. Exposição Biobibliográfica, 2008; 5 de Outubro. Uma Reconstituição, 2010; O Jornalista Republicano Alves Correia, 2012. Além de co-editor do Dicionário de Literatura (dir. de Jacinto do Prado Coelho), Actualização (3 vols., 2002-2003), editou, entre outros: Padre António Vieira, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis, As Farpas Completas de Ramalho Ortigão (2006-2007), Augusto Moreno, José Marmelo e Silva, António José Saraiva e, sobretudo, Tomé Pinheiro da Veiga, Fastigínia (2011). Com Amadeu Ferreira, organizou A Terra de Duas Línguas. Antologia de Autores Transmontanos, 2 vols. (2011, 2013).

21 maio 2013

|Artes e Livros | Encontro de Academias




Organização:
Câmara Municipal de Bragança/Academia de Letras de Trás-os-Montes

Junho, 6 [quinta]

15h00 – Abertura do Encontro de Academias:
Presidente da CMB
Presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes
15h30 – Apresentação das Academias Convidadas
16h00 – Apresentação da Bibliografia do Distrito de Bragança, vol.VII - Hirondino Fernandes
16h45 – “Academia Paraense de Letras- 113 anos ao serviço da Cultura” - Presidente da Academia Paraense de Letras - Pará – Alcyr Meira
17h30 - Recepção à Comitiva de Pavillons-sous-Bois, no âmbito da Geminação
18h00 – Apresentação de Gestão do Município de Bragança – no período de 1998 a 2013
– Presidente da Câmara Municipal de Bragança
18h45 A Gastronomia Luso-Amazónica – Álvaro do Espírito Santo
20h00 – Jantar Luso-Amazónico, com apresentação dos destinos turísticos do Pará e de Danças e Cantos Folclóricos Bragantinos (Marujada/retumbão/xote e outras) – Adenauer Goês
Centro Cultural Municipal Adriano Moreira

Junho, 7 [sexta]

15h00 Entre Prémios e Premiados = Lígia Fagundes Teles – Nelly Cecília Rocha – Academia Paraense de Letras
15h45 – Apresentação de O Manco – Entre Deus e o Diabo – António Sá Gué e
Homens de Granito – Antero Neto, apresentado por António Sá Gué
16h45 – Apresentação de Terra Parda – Hélder Rodrigues, por Ernesto Rodrigues
17h30 – Palestra da Academia de Letras de Cabo Verde
18h15 – Apresentação do livro O Diabo e as Cinzas – António Pinelo Tiza
19h00 A gastronomia de S.Tomé – Chefe João Carlos Silva
20h00 – Jantar S. Tomé, com o Chefe João Carlos Silva, com danças e música de S. Tomé/ Cabo Verde
Centro Cultural Municipal Adriano Moreira

Junho, 8 [sábado]

14h30 – Intercâmbio literário entre os membros das Academias presentes
15h00 Zona Bragantina Colonização e Estrada de Ferro – José Leôncio Sequeira – Academia de Letras de Bragança do Pará
15h45 – Apresentação do livro A Casa de Bragança - Ernesto Rodrigues
16h30 ‒ Apresentação de A Terra de Duas Línguas II- Antologia de Autores Transmontanos – Ernesto Rodrigues, Amadeu Ferreira
17h30 – Apresentação de Língua Charra. Regionalismos de Trás-os-Montes e Alto Douro – A. M. Pires Cabral
18h15 – Apresentação de A Máscara do Demo – Alexandre Parafita
19h00 Saga dos Comeres Bragançanos e a Lusofonia - Armando Fernandes
20h00 – Jantar português com o Chefe Hélio Loureiro, com noite de Fados
Centro Cultural Municipal Adriano Moreira

Junho, 9 [domingo]

15h00 – Apresentação de Dois Homens num só Rosto – Temas Torguianos – M. Hercília Agarez
15h45 – Apresentação de O Resgate dos Justos da Terra – Henrique Pedro
17h15 – Apresentação de Do Movimento Operário e Outras Viagens – Ernesto Rodrigues
18h00 – Apresentação de História da República. Vol. 1 – Raul Rêgo
18h45 – Apresentação de Templo do Fogo Insaciável - António Vilhena
19h30 – Declamação de poemas – Academias de Letras do Pará – Brasil, e encerramento do evento
Centro Cultural Municipal Adriano Moreira

27 fevereiro 2013

ASSEMBLEIA GERAL



                                                                                                                                                  Convocatória


Nos termos legais, convocam-se os sócios da Academia de Letras de Trás-os-Montes para uma reunião da Assembleia Geral da mesma, a realizar em 23 de Março de 2013, pelas 10.30 horas, no Auditório do Centro Cultural Municipal Adriano Moreira, em Bragança, com a seguinte ordem de trabalhos:

1.  Leitura da acta da reunião anterior.
2.  Aprovação do relatório e contas do exercício de 2012.
3.  Aprovação do plano de actividades e do orçamento para 2013.
4.  Outros assuntos. 

Se à hora marcada não houver quorum, a reunião realizar-se-á 30 minutos depois com qualquer número de sócios presentes.


Bragança, 21 de Fevereiro de 2013.

O Presidente da Assembleia Geral

A.M. Pires Cabral



Homenagem a Barroso da Fonte


A Direcção da ALTM ‒ Academia de Letras de Trás-os-Montes homenageia, no dia 23 de Março, às 11,30h, Barroso da Fonte, quando perfaz 60 anos de vida jornalística e literária. Será orador António Chaves.
Outros membros da ALTM podem, com depoimentos breves, associar-se à celebração.
A sessão decorre no Centro Cultural Municipal Adriano Moreira, em Bragança. 





altmontes@gmail.com
http://altm.weebly.com
altm-academiadeletrasdetrasosmontes.blogspot.com



Direcção da
Academia de Letras de Trás-os-Montes
2012
Relatório


Sumário

1.Divulgação de obras, textos e iniciativas de membros da ALTM.
1.1. Co-organização da Feira do Livro.
1.1.1.Apoio à edição de Bibliografia do Distrito de Bragança, de Hirondino da Paixão Fernandes.
1.1.2. Breve homenagem a Bento da Cruz.
2. Antologia de associados da ALTM.
       2.1. Agradecimento ao IPB.
3. Diligências para a criação de um programa radiofónico sobre escritores transmontanos.
4. Organização da documentação da ALTM e reforço do Centro de Documentação.
4.1. Criação de conteúdos para o site. Blogue e Facebook.
5.Exposição cartográfica e bibliográfica: literatura húngara traduzida em Portugal e literatura portuguesa traduzida na Hungria.
6.Relações inter-académicas e literárias.
7. Participação na Obra Completa Padre António Vieira.
Comentário final.

1. Prosseguimos, via mail, facebook, site e blogue, a divulgação de obras e lançamentos, inserindo alguns textos de apresentação, e outros, no blogue da ALTM (António Sá Gué, Maria Hercília Agarez, Tiago Patrício, Amadeu Ferreira…).  
1.1.No âmbito da iniciativa Artes e Livros, promovida pela Câmara Municipal de Bragança, entre 6 e 10 de Junho, no anfiteatro do Centro Cultural Municipal, organizou a ALTM o lançamento de obras recentes de alguns sócios: Manuel Amendoeira, Idalina Brito, Maria Hercília Agarez, António Sá Gué, Henrique Pedro.
1.1.1. Momento especial, com a presença de autoridades civis e religiosas, foi o lançamento do volume II de Bibliografia do Distrito de Bragança, de Hirondino da Paixão Fernandes. Apresentado por Ernesto Rodrigues, o respectivo texto sairia em quatro números do Mensageiro de Bragança, em Outubro-Novembro. Neste mês, os volumes III e IV seriam apresentados por Amadeu Ferreira, na Fundação ‘Os Nossos Livros’.
1.1.2. Outro sócio honorário, Bento da Cruz, seria convidado a estar em Bragança, para lançamento de Camilo Castelo Branco por Terras de Barroso e Outros Lugares, com apresentação de A.M. Pires Cabral.
       2. Proposta do presidente da ALTM na anterior AG, ultima-se antologia de autores transmontanos, segundo volume do título lançado em 2011, A Terra de Duas Línguas. Não, decerto, porque condicionada a participação ao pagamento da quota de 2013 ‒ com resultados financeiros satisfatórios ‒, mas pela inércia dos interpelados, só em Fevereiro último se fechou a colaboração, num total de 55 nomes. Sofre, assim, um atraso de dois meses e meio, para ser lançada em Junho, na presença de outros académicos e convidados estrangeiros.
       2. 1. Cumpre registar, aqui, quanto devera ter já sido referido no relatório de 2011: um agradecimento especial ao Instituto Politécnico de Bragança, pela entrega de duas caixas com exemplares de A Terra de Duas Línguas, para distribuição alguns autores e ofertas a académicos estrangeiros.
3. Está prometido um programa da ALTM na Rádio Bragançana, faltando defini-lo e dar início às emissões. Esta AG é chamada a pronunciar-se, se assim entender.
4. A título gracioso, uma jovem universitária, Maria João Fernandes, dedicou algumas semanas do Verão passado a organizar a parca burocracia da ALTM, revendo fichas de membros e enquadrando algumas situações, com vantagem para o serviço. Aqui lhe deixamos um agradecimento.
       4.1. As nossas páginas online têm uma actividade razoável, embora pudessem ser mais demandadas pelos associados.
5. A exposição cartográfica organizada pela Embaixada da Hungria, acompanhada de mostra de 60 livros da colecção de Ernesto Rodrigues, esteve patente na Biblioteca Municipal do Centro Cultural Adriano Moreira entre 10 de Setembro e final de Outubro. Na inauguração, presidida pelo Embaixador e pelo Presidente da Câmara M. de Bragança, E. Rodrigues conferenciou sobre a presença da Hungria em Portugal desde o século XI.
6. O presidente da ALTM, corroborado por sugestões da demais Direcção, entregou, em Setembro, na Sociedade de Geografia de Lisboa, texto destinado a volume colectivo das Academias nacionais com propostas de resolução da presente crise. Na dúvida se será editado, o mesmo abrirá, com ligeiras adaptações, o próximo volume de A Terra de Duas Línguas.
A convite de Academias brasileiras, a que nenhum membro da ALTM respondeu favoravelmente, considerou o presidente desta aceitar o apoio da Câmara M. de Bragança, integrando comitiva da Vereadora de Cultura. Esse apoio traduziu-se no pagamento da passagem aérea Porto-Belém do Pará-Lisboa, significando que as despesas em Portugal foram custeadas pela ALTM.
Ernesto Rodrigues foi convidado de honra da Academia Paraense de Letras, onde apresentou a comunicação “Uma Academia de Duas Línguas” (ver blogue). Convidou, na ocasião, comitiva da APL para se deslocar a Portugal, a qual receberemos em Junho, de 6 a 9, no âmbito do Encontro Literário Luso-Amazónico. Corresponde-se, deste modo, a uma sugestão de Marcolino Cepeda lançada na AG de há um ano ‒ de que, em aniversário da ALTM, pudéssemos ter connosco académicos brasileiros.
Também solicitado pela Academia de Letras de Bragança do Pará, com a qual estabelecemos protocolo, discursou sobre “A Casa de Bragança”. Alguns membros ofereceram títulos ao nosso Centro de Documentação.
7. A participação da ALTM na Obra Completa Padre António Vieira foi já aprovada em reunião de Direcção. Pelos encargos que envolve (embora pouco significativos), convém apresentá-la em assembleia soberana.
Em 30 de Março de 2012, o Reitor da Universidade de Lisboa convidou 300 instituições a participarem no maior projecto editorial português: 30 volumes de Vieira editados pelo Círculo de Leitores, à média de um por mês, com o primeiro lançamento já em 4 de Abril. Seguem-se um Dicionário de Vieira e antológica do autor em oito línguas.
Considerou a Direcção da ALTM que uma espécie de presença para a eternidade estava garantida, se nos associássemos com o módico pagamento de 1 500 euros, a dividir em três anos, em troca da reprodução do nosso logótipo. O mecenas principal é a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Nós abrimos a lista dos poucos apoios, cuja lista anexamos.

Face ao exposto, um comentário final. Da programação avançada há um ano, e descontado o atraso, útil, de A Terra de Duas Línguas ‒ mas acrescentando outras iniciativas ‒, reconhecemos, tão-só, não se ter cumprido o então ponto 7. Tertúlias literárias. Em preparação, “Escritoras transmontanas – Eduarda Chiotte”. Com efeito, responsabilizou-se por esta tertúlia o associado António Afonso, que razões de saúde ou outras terão prejudicado.
Cumpre salientar, todavia, ter o mesmo associado prescindido do montante de 150 euros, que acordáramos como despesa associada à tertúlia sobre Luísa Dacosta. Esse quantitativo constava como despesa no Relatório e Contas de 2011. 

Informações úteis
O blogue da ALTM (altm-academiadeletrasdetrasosmontes.blogspot.com), activo desde Dezembro, vem registando as informações, e participações, mais variadas, além de inserir os estatutos da ALTM uma ficha de inscrição facilmente descarregável pelos novos sócios.
Relevamos os textos de apresentação de obras dos nossos associados, independentemente de ser iniciativa, ou não, da ALTM.
Com o lançamento de um site (http://altm.weebly.com) e registo no Facebook (http://www.facebook.com/altmontes), textos, informações e vídeos podem ser, agora, colocados nos espaços apropriados.
Procurámos, enfim, um endereço electrónico sucinto: altmontes@gmail.com. Mantém-se, todavia, o primeiro, enquanto não se fizer a migração completa: academiadeletrasosmontes@gmail.com.
Recomenda-se o pagamento da quota (20 euros anuais; acrescem 10 euros de jóia de inscrição, no caso de novos inscritos), via bancária (NIB: 0035 0417 00023749 430 35).     

28 janeiro 2013

Bibliografia do Distrito de Bragança



Ernesto Rodrigues

Na hora em que são editados os volumes III e IV da BdBBibliografia do Distrito de Bragança (Série Escritores – Jornalistas – Artistas), cumpre celebrar este projecto de Hirondino da Paixão Fernandes empreendido já nos anos 60, no Mensageiro de Bragança, e que teve em António Jorge Nunes, presidente da Câmara Municipal, o necessário apoio, acertado e justo. Farei, antes, breve historial da dicionarística literária em Portugal, de modo a enquadrar a BdB e perceber a importância de iniciativa tão fecunda quão honrosa para a Cultura do distrito.
Vidas, linhagens e genealogias, bibliografias, catálogos e relações de livrarias ou bibliotecas, são imprescindíveis na investigação: por mais enfadonhos, trazem sempre algo de fresco e útil. Os tenteios inaugurais de vida e obra vêm numa colecção manuscrita de Manuel Severim de Faria, Compendio de Varias Obras de Authores Portugueses (1613), e na vida de Camões, por Pedro de Mariz (1613), sendo Camões núcleo reflexivo desde Manuel de Lira (1591). Mas o século XVII – que também é o da Imprensa periódica, cujos dicionários interessam à literatura, e do impressionismo crítico no Hospital das Letras (1657; editado em 1721), após duplo esforço canonizador de Jacinto Cordeiro, Elogio de Poetas Lusitanos, e António de Sousa de Macedo, Flores de España..., ambos de 1631 – reserva dois monumentos singulares: a Biblioteca de João Franco Barreto = Biblioteca / Lusitana / Autores / Portuguesez / 1.ª Parte, etc., e Joanne [João] Soares de Brito, Theatrum Lusitaniae Litterarium [...], 1655. A Bibliotheca… consta de cinco volumes, e um sexto de Índices (de nomes, sobrenomes, pátrias dos autores), no total de 1180 páginas. Se a introdução data de 27 de Janeiro de 1648, a obra estende-se para lá de 1656. Cerca de mil autores é uma soma respeitável; este princípio de todos reunir, até os que versaram Direito Civil e Canónico, inspirará Diogo Barbosa Machado, Inocêncio Francisco da Silva… e Hirondino Fernandes. Outra preciosidade é o manuscrito Cathalogo dos Auctores Portugueses, de Manuel de Faria e Sousa (BN, COD. 361). Concomitantemente, urge compulsar os índices inquisitoriais quinhentistas e o Index Auctorum Damnatae Memoriae (1624). No conspecto europeu, consulte-se a Bibliotheca Scriptorum Societatis Jesu […], de Pedro de Rivadeneyra, 1643.
A Bibliotheca Hispana de Nicolau António (1672; ed. aumentada, 1783-1788) inspira a Bibliotheca Lusitana: Historica, Critica, e Cronológica [...]  (Lisboa, 4 vols.; 1741-1759; já em formato digital), que não se queda pelo impresso em língua portuguesa, como Inocêncio, mas evita anónimos. A BdB tem anónimos e estrangeiros, se atinentes ao distrito. Devedor de Franco Barreto, Barbosa é canibalizado por muitos. Conviria confrontá-lo com a “Memória de alguns escritores em todas as ciências da Companhia de Jesus”, título actualizado constante do apócrifo Cathalogos de Ministros e Memorias Varias (manuscrito após 1754; BN, COD. 1457). Bento José de Sousa Farinha faz, em 1206 páginas e três tomos, um Summario da Bibliotheca Luzitana (1786), despachando, no terceiro (1787), as letras L-Z. E, oportunista, acrescenta um quarto tomo de Bibliotheca Luzitana Escolhida (1786), o que é um bom exercício de cânone literário do tempo. Bibliotheca Lusitana Escolhida ou Catalogo dos Escriptores Portugueses será título de José Augusto Salgado (1841). O critério ora afina, ora relaxa. Exemplo de solução mista, em tempo de Ilustração nascente, é o Anno Historico, / Diario Portuguez, Noticia Abreviada / De pessoas grandes, e cousas notaveis de Portugal, [...], pelo Padre Mestre / Francisco de Santa Maria, 1744. Os três volumes, além de efemérides, biografam vultos, na linha do que farão os almanaques. No ano seguinte, temos o Corpus Illustrium Poetarum Lusitanorum qui Latine Scripserunt, [...] (8 tomos, 1745-1748), compilado pelos padres António dos Reis e Manuel Monteiro.
Enquanto isso, está por estudar a faceta dicionarística de Francisco Xavier de Oliveira, com dezenas de artigos sobre obras de portugueses em David Clément, Bibliothèque Curieuse Historique et Critique, ou Catalogue Raisonné des Livres Difficiles à Trouver (9 vols., 1750-1760). Deve ser confrontada com as suas Mémoires Historiques, Politiques et Littéraires, concernant le Portugal et toutes ses dépendances, avec la Bibliothèques des écrivains et des historiens de ces états, 2 vols., 1743. Diz-nos que o jesuíta Francisco da Cruz deixou Memorias Manuscritas para uma sonhada Bibliotheca Portuguesa.
Entre outras margens de dicionarização, em Setecentos, citemos uma Bibliotheca Portuguesa (1736-1741) e outra Bibliotheca Lusitana, em cinco volumes manuscritos, ambas com informação biobibliográfica de autores portugueses remetida a D. Francisco de Almeida (1701-1745; BN: COD. 908 e COD. 909-912). O Diccionario da Lingoa Portugueza (1793) fecha o século com um selecto cânone de autores.

De Inocêncio a Prado Coelho

O Diccionario Bibliographico Portuguez (1858; já digitalizado) vinha sendo pedido por Cunha Rivara celebrando Barbosa Machado, e propondo uma Bibliotheca Portugueza n’O Panorama (X, 30-IV-1853). Aquele Diccionario… é mais do que de Inocêncio. Continuado por Brito Aranha, Gomes de Brito, Álvaro Neves, o tomo XXI é dedicado a Herculano (1914), no pretexto centenarial (1910); o t. XXII (1923) fecha a série, em que só nos reencontramos se tivermos à mão João Soares de Sousa, Índice Alfabético (1938), ou um esforçado Ernesto Soares, Guia Bibliográfica, correspondendo ao tomo XXIII (1972), e que fora suplemento ao Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra, vol. XXIII, 1958. No Rio de Janeiro, Sacramento Augusto Victorino Blake responsabilizou-se por outro Dicionário Bibliográfico Português. Sem indicação de tomo, está Martinho da Fonseca, Aditamentos ao Dicionário Bibliográfico Português (1927; 1972), já autor de Subsídios para Um Diccionario de Pseudonymos, Iniciaes e Obras Anonimas de Escriptores Portuguezes (1896; 1973), que podemos considerar o vigésimo quinto tomo de tão magno projecto. A paginação dos dez volumes da BdB não se ficará, todavia, atrás.
Vinte anos depois do primeiro Inocêncio, Ricardo Pinto de Mattos (que assinara Bibliographia Historica Portuguesa, 1850) traz precisões no Manual Bibliographico Portuguez de Livros Raros, Classicos e Curiosos (1878), revisto e prefaciado por Camilo Castelo Branco. Do estrangeiro, interessam-nos: Augustin et Aloïs de Backer, Bibliothèque des Écrivains de la Compagnie de Jésus, ou Notices Bibliographiques [...], 7 vols., 1853-1861; o médico setubalense Domingo García Peres, Catálogo Razonado Biográfico e Bibliográfico de los Autores Portugueses Que Escribieron en Castellano, 1890; Meyer Kayserling, Biblioteca Española-Portuguesa-Judaica. Dictionnaire bibliographique des auteurs juifs, de leurs ouvrages espagnols et portugais et des ouvres sur et contre les juifs..., 1890. Tirante isto, há o conceito de notabilidade, em que todos se misturam, seja no Álbum das Glórias de Rafael Bordalo Pinheiro, na Revista Contemporânea de Portugal e Brasil (1859-1865), nas necrologias do Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, em inaugurada biografia herculaniana de Júlio César Machado, “Notas para um dicionário dos portugueses notáveis do meu tempo”, A Illustração. Revista de Portugal e do Brazil (ano 5, v. 5, n.º 4, 20-II-1888). Desactualizados estão a Portuguese Bibliography (1922), de Aubrey Bell, e o Dicionário Universal de Literatura: Bio-Bibliográfico e Cronológico (1934, 1940), de Henrique Perdigão.
Ora, em 1 de Março de 1956, no suplemento ‘Artes e Letras’ do Diário de Notícias, Jacinto do Prado Coelho anunciava o Dicionário das Literaturas Portuguesa, Galega e Brasileira, cujo primeiro fascículo saiu em Agosto de 1956. Em Outubro de 1960, a Livraria Figueirinhas resumia tudo a um só volume, a duas colunas, páginas 3-880, com Addenda e corrigenda, Índice de nomes de autores, Índice de títulos de obras e revistas, Errata, até à p. 1021. A 2.ª edição atenta mais à literatura brasileira e à estilística: torna-se Dicionário das Literaturas Portuguesa, Brasileira, Galega e Estilística Literária, Temos dois volumes (A-M, 1969, 686 páginas; N-Z, 1971; total: 1527 páginas) a três colunas, ilustrações, e uma 3.ª edição em três (1976) e cinco volumes (1973), da qual decorre, nos anos 80 e 90, alegada 4.ª edição (desde 1992), e que, na prática, significa uma vintena de reimpressões. O texto de 1969-1971 mantém-se incólume até 2002-2003, quando, apoiado em Pires Laranjeira e José Viale Moutinho, coordenei três volumes de Actualização. Posso afirmar que conheço os agora oito volumes como as minhas mãos. Em 29 de Março de 1984, eu inserira no Diário de Lisboa o artigo “Um dicionário vergonhoso de Literatura Portuguesa”, vergastando um Dicionário de Literatura Portuguesa, sem data (1983?), e sem indicação de editor, de um certo José Correia do Souto, plagiando regularmente J. do Prado Coelho... Releve-se, nos 800 novos artigos para 958 páginas, a fecundidade das bibliografias – em que só a BdB o ultrapassa –, não raro mais extensas que o verbete.
A variedade contida no Dicionário de Literatura animou projectos afins ou de aprofundamento parcelar. Prometia muito o Grande Dicionário da Literatura Portuguesa e de Teoria Literária, I, 1977 (iniciou o 2.º vol., de que restaram fascículos soltos), dirigido por João José Cochofel. Tal promessa foi satisfatoriamente cumprida pela Biblos. Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa (5 vols., 1995-2005). Concretizou-se num volume o Dicionário de Literatura Portuguesa (1996; dir. de Álvaro Manuel Machado), pensado em termos só de autores, enquanto o Dicionário Cronológico de Autores Portugueses (6 vols., 1985-2001), pela informação quase exaustiva sobre nomes, é um manancial, mas sem particulares juízos críticos, nem orientações bibliográficas. O seu índice de pseudónimos deve ser complementado por Adriano Guerra Andrade, Dicionário de Pseudónimos e Iniciais de Escritores Portugueses (1999). Projectos internacionais não devem passar despercebidos (caso do Dicionário Biográfico Universal de Autores, 5 vols., 1966-1982); outros são inúteis, ou pouco menos (Fernanda Frazão, Maria Filomena Boavida, Pequeno Dicionário de Autores de Língua Portuguesa, 1983; O Dicionário / Literatura Portuguesa, vendido com o diário Público, 2004; Célia Vieira e Isabel Rio Novo, Literatura Portuguesa no Mundo. Dicionário Ilustrado, 2005, 12 vols.).
Por períodos ou movimentos, saudemos: Dicionário de Literatura Medieval Galega e Portuguesa (dir. de Giulia Lanciani e G. Tavani, 1993); Dicionário da Arte Barroca em Portugal (dir. de José Fernandes Pereira e Paulo Pereira, 1989); Dicionário do Romantismo Literário Português (coord. por Helena Carvalhão Buescu, 1997). Em nome próprio, o Dicionário de Eça de Queiroz (1988; 1993), organizado por A. Campos Matos, exigiu Suplemento (2000); o Dicionário de Camilo Castelo Branco (1989), testamento de Alexandre Cabral, saiu actualizado em 2003; qual díptico, chegou o Dicionário de Personagens da Novela Camiliana (dir. de Maria de Lourdes A. Ferraz, 2002).
Cidades, distritos, regiões e antigas possessões não se lamentem. Ficam exemplos, desde o fim do Antigo Regime, todos muito aquém da BdB, ainda que olhando somente ao critério literário: Francisco de Carvalho, Historia de Coimbra..., BN, COD. 905; Agostinho Tinoco, Dicionário dos Autores do Distrito de Leiria, 1979; João Afonso, Bibliografia Geral dos Açores. Sequência Açoriana do Dicionário Bibliográfico Português, 3 vols., 1985-1997; Padre Fernando Augusto da Silva e Carlos Azevedo de Meneses, Elucidário Madeirense, 3 vols., 1940-1946; fac-símile, 1998; Luiz Peter Clode, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses. Sécs. XIX e XX, s. d.; Aleixo Manuel da Costa, Dicionário de Literatura Goesa, 3 vols., 1997. Do claustro saem inúmeros: baste Francisco Álvares Loureiro da Silva, Bibliografia dos Autores Trinitários Portugueses, 1996. As mulheres conquistam o seu Dicionário no Feminino (Séculos XIX-XX; dir. de Zília Osório de Castro, João Esteves, 2005). As crianças têm António Garcia Barreto, Dicionário da Literatura Infantil Portuguesa, 2002.
Entre profissões, destaquem-se militares, juristas e médicos: Francisco Augusto Martins de Carvalho, Diccionario Bibliographico Militar Portuguez, 1891; Eduardo Alves de Sá, Bibliographia Juridica Portugalensis, 1898, precedido de Ignacio da Costa Quintela, Bibliotheca Jurisconsultorum Lusitanorum, 1790, e do Demetrio Moderno ou Bibliographo Juridico Portuguez..., 1781, de António Barnabé de E. Barreto de Aragão; Gracinda Pais Brígida, Escritores Médicos Portugueses na Segunda Metade do Séc. XIX, 1948; Armando Moreno, Médicos Escritores Portugueses, 1990.
Pouco adiantaremos ao olhar para enciclopédias e dicionários estrangeiros que inscrevam os nossos autores; mas notem-se os brasileiros Celso Pedro Luft, Dicionário de Literatura Portuguêsa e Brasileira, 1967, e Massaud Moisés, org., Pequeno Dicionário de Literatura Portuguesa, 1981. No campo da teoria, importam alguns dicionários de termos literários (Harry Shaw, Massaud Moisés, António Moniz / Olegário Paz) ou o Dicionário de Narratologia, de Carlos Reis / Ana Cristina Macário Lopes, 1987.

Fonte de criação

Seria possível conjugar a diversidade de intenções acima resumida? Hirondino Fernandes disse que sim.
Por ordem de apelido, inclusive em pseudónimos e iniciais, aos nomes sucede indicação de lugar e data de nascimento e morte, se possíveis. As biografias são desiguais, quer em espaço, quer em método, mas suficientes. A riqueza está na bibliografia activa (manuscrita, dactilografada, mimeografada, impressa), por anos, e excertos úteis, nos títulos menos acessíveis. Intercalam remissões e fecha uma não raro extensa bibliografia passiva − acompanhada de eventuais ‘ecos da Imprensa’ −, só parcialmente referenciada no limiar do vol. I, onde seguem centenas de publicações periódicas consultadas. Nomes com parte de leão temos o Abade de Baçal (I, p. 341-350) ou Trindade Coelho (II, p. 429-706), aliás, inseridos em edições comemorativas.
Considere-se, entretanto, maioria de impressos, seja qual for o suporte, a extensão e qualidade. O senão de rastrear mero artigo de jornal, nem sempre de fácil atribuição, é que o autor pode não rever-se num passado que deseja rasurar. São mais aceitáveis, em termos de bibliografia activa, a revista e livro (e, mesmo, o recurso ao online), mas o efeito de desentranhar páginas inesperadas, que escapam aos autores, é prova de uma dedicação que nunca louvaremos assaz.
Com menos relevo, mas decisão fundada, estão os não naturais, cujos títulos respeitam ao distrito. É um olhar de fora, geralmente empático, que mostra interlocutores insuspeitados, para lá das fronteiras regionais, nacionais, linguísticas. Ver e ser visto torna-se, assim, mais fácil.
Se perde, em relação a Inocêncio ou Prado Coelho, na injustificada inclusão de brasileiros e galegos, embora alguns compareçam, por outras razões, a todos os dicionários sobreleva esta BdB, e não só em número de páginas: de escopo distrital, vai para lá deste chão, conjugando vocações, actividades, profissões, desde o título ou apelidos mais antigos, longe de serem todos forçosamente ilustres (muitos destes estão ausentes, por não entrarem na série). O critério editorial não-selectivo deixa entrever as principais dificuldades: uniformização, em tempo útil, de dados biográficos (ora com datas precisas, ora só os anos, por exemplo), várias interrogações, sobretudo, nos corpora bibliográficos. Mas só quem não investiga neste país desconhece as dificuldades.
Conjugando Barreto, Barbosa Machado e Inocêncio (na esperança de que o décimo volume, de índices, esclareça os caminhos), estamos em condições, agora, de ler o distrito em títulos, temas, conceitos, épocas, potencialidades, que entreabria Prado Coelho. Sendo a melhor fonte de um passado que ainda mal se conhece, com ganhos para estudiosos, que não terão pequenas surpresas, a inclusão dos mais novos ou de quem pratica as nossas especialidades ajuda-nos num acompanhamento próximo imediato. Já tínhamos as Memórias Arqueológico-Históricas… baçalianas; com a BdB, temos o segundo monumento cultural da nossa terra.    
        

O IMPREVISTO ACONTECE



Com a realidade jogamos ao faz de conta

De súbito, forte ventania, como surgida do nada, abateu-se nos plátanos que margeiam, pela esquerda, a via pública fez tombar no asfalto milhões de folhas que resistiam à morte inevitável e com elas encetou algo semelhante a um bailado, progredindo em círculos, e avançou até se perder de vista bem lá no extremo da rua. Em simultâneo, o céu, até então de um cinzento pacífico, escureceu antecipando a noite e prenunciando temporal. Caíram as primeiras gotas de chuva, finas e espaçadas antes, mais constantes a seguir, obrigando os transeuntes a protegerem-se com guarda-chuvas ou a correrem em busca de um abrigo.
Só então me apercebi de que não trouxera qualquer resguardo, remédio seria vencer aqueles dois hectómetros e meio com a minha neta de sete anos em corrida ao faz de conta. Duzentos e cinquenta metros para lá, outro tanto aquando do regresso. “E se, entretanto, a chuva tiver virado temporal?” questão recorrente em circunstâncias tais que também nesse momento me assalta, me tira a paz de espírito e perdura nessa hora e meia de permanência no recinto. Quem vai chegando não parece estar muito incomodado com o que acontece no exterior. Bom sinal! A preocupação decresce a um nível mais baixo. Mesmo sem sombreiro – curioso como, na aldeia, as pessoas resumiam com tal designação o objeto que podia resguardá-las tanto da chuva como do sol embora não seja adequado no primeiro caso preferindo o nome derivado ao composto talvez a pensar que, com ele cobertos, de certa maneira ficamos a uma sombra protetora – estamos à vontade, a minha neta leva um casaco que, depois de entrar no automóvel, lhe retiro sem que da sua falta advenha desconforto, basta ligar o ar condicionado.
Agora é noite fechada, conjugaram-se os humores do tempo e a precisão da meteorologia. Boa noite! Desapareceu o motivo da ansiedade que precede esses momentos de indefinição característicos do lusco-fusco. Aí pode começar o mistério que sempre vem associado ao período de treva. Em tempo não muito distante, a ausência de luz natural determinava muito mais do que a separação entre o dia e a noite, o trabalho e o repouso, a certeza e a dúvida, o movimento e a imobilidade, o balanço do dia que termina e a projeção do dia seguinte: o dia era associado à vida, a noite era o fechar dos olhos do dia, a ausência de luz natural, a morte. Receava-se a noite quase como se temia a morte, o sono era uma espécie de vida suspensa, entregue nas mãos de Deus, a morte era o descanso final, o não retorno. A convicção de que haveria esse retorno eis o que justifica o “quase” que alentava quem vivo era e confiava no Supremo Juiz que tinha o poder decisório sobre a nossa existência. O receio era fortalecido pela fraca iluminação que permitia alguma atividade no período entre o regresso a casa e a disposição dos corpos para o repouso. Candeias, candeeiros de mesa e lampiões a petróleo (querosene para os brasileiros), protegidos do vento por manga de vidro, bruxuleavam a guiar os passos naquele lapso de tempo, os primeiros dentro e o último fora de casa. Quando surgiram os “petromax”, que projetavam uma luz muito mais intensa e clara, o ambiente transformava-se, mudava a disposição das pessoas nos espaços circundantes. “Parece que é de dia!” - exclamavam. A eletrificação das casas também contribuiu para esbater a distinção entre o dia e a noite além da comodidade que trouxe, bastava “carregar no garabito” como dizia o Bebé, um pobre de espírito que fazia recados, transportava pequenas cargas e só pedia por retribuição que o deixassem pressionar o interruptor, prazer supremo, que outros não conhecia.
Bem pode dizer-se que, ao terminar a primeira metade do século XX, a vida era, ainda, a preto e branco. Na aldeia, os homens vestiam pardo ou roupa exterior de tonalidade baça, na cidade já o pardo fora abolido mas não a modesta variedade dos trajes, o luto obrigava homens e mulheres a vestir de negro durante um ano ou mais, as viúvas traziam a morte com elas para o resto dos seus dias, o que distinguia os eclesiásticos era o negro das batinas que usavam no dia a dia e nos atos religiosos, o escuro era sinónimo de castigo para as tolices das crianças: “ se continuas a fazer perrice, vais para o quarto escuro.” Por contraste, brancos eram os lençóis em camas de gente remediada ou rica; as toalhas que revestiam altares e mesas de quase todas as famílias em dias de festa, diariamente para as mais abonadas; as roupas de batismo e a toalha que limpava a cabecinha dos neófitos após o derramamento da água sacramental; as camisas dos homens nos domingos e dias de festa; meias e agasalhos para todos no tempo frio de outono e de inverno que pressupunha cultivo do linho ou posse de ovelhas porque dinheiro nem sempre havia para comprar novelos de lã.
O toque dos sinos às Ave-Marias quando clareava era um grito de alegria e agradecimento a Deus por mais um dia de vida, o mesmo toque às Trindades tão logo o sol se despedia e as primeiras sombras já adormentavam a Natureza, conquanto representasse alívio da labuta diária e chamada ao reagrupamento familiar, vinha marcado por uma indefinível emoção entre o regozijo da convivência e a pena da despedida. O simbolismo da noite em relação à morte trazia consigo o desejo de distanciamento de tudo quanto lembrasse o momento fatal: na igreja enquanto lugar onde eram celebradas as exéquias, se expunham os mortos antes da encomendação e, durante séculos, se enterraram os corpos; o cemitério, espaço onde todos os moradores tinham familiares sepultados e destino certo dos que ainda conservavam o precioso dom da vida; a igreja e o cemitério em conjunto, por isso duplamente atemorizante, a presença, materialmente silenciosa, de Deus na Sua morada e a ausência dos que nos pertenceram e se tornaram pó, a perspetiva para nós tão certa quanto aterrorizadora, a certeza da morte e o temor, que não gostamos de admitir, de, um dia, ela nos vir buscar. Cito Gonçalo M. Tavares em crónica publicada no número 1025 da revista Visão: o medo da morte e o medo dos mortos. Os relatos sobre esse temor diante do cadáver, esse não querer tocar. Talvez uma lembrança inconsciente da peste negra. Aí, o morto matava: tocar na morte era correr um risco (…) Hoje ainda, no século XXI, a lógica, a medicina e a racionalidade podem dizer-nos que não, que é absurdo, mas o inconsciente ali está…”
Na minha aldeia, o cemitério ficava ao lado da igreja, cercados pelo mesmo muro. À noite, as pessoas transitavam pelos caminhos contíguos de coração apertado tentando desviar os olhos desse lado, ainda que a morada divina devesse merecer-nos toda a confiança e do campo santo nada tivéssemos a recear porque os mortos não voltam. António Lobo Antunes, numa entrevista concedida à rádio TSF por ocasião da “Escritaria”, em Outubro passado, em sua homenagem, referia-se a alguém que nunca ia ao cemitério “porque nesses lugares não estava ninguém”. “Então onde estão os mortos?” – perguntavam-lhe. “Andam por aí. – explicava essa pessoa – falam connosco, dão-nos as suas opiniões, fazem-nos companhia, sentimo-las ao nosso lado.” E Lobo Antunes acrescentava: “Tinha razão. Eu ouço-os, distingo-lhes as vozes, compreendo o que me dizem…” Houve uma pessoa que nunca manifestou receio de dirigir-se à igreja a qualquer hora da noite como do dia. Foi zeladora do Santíssimo Sacramento durante alguns anos. Uma lâmpada, suspensa do teto e permanentemente acesa, simbolizava a eternidade de Deus e da sua presença entre os homens. O depósito de azeite alimentava uma torcida cujo pavio teria que ser substituído de quando em quando, presumo que de quatro em quatro horas. Essa era a principal tarefa da zeladora: nunca deixar que a luz se extinguisse porque simbolizava a fé das pessoas da comunidade e a sua homenagem a Jesus Sacramentado. No outono e no inverno anoitece mais cedo mas, na claridade do dia ou na escuridão da noite, lá ia ela renovar o pavio da lâmpada. Essa mulher, a pessoa mais corajosa que conheci, era a minha mãe.
                                                                                                                                             Nuno Afonso

Publicado in “A Voz de Ermesinde” a 30 de novembro de 2012

10 dezembro 2012

O Rio da Amargura


Maria Hercília Agarez apresenta O rio da amargura (Diário de Mercedes), de Eurico Figueiredo, no dia 14 de Dezembro de 2012, pelas 21h00, no Auditório da Biblioteca Municipal Dr. Júlio Teixeira (Vila Real).

12 novembro 2012

ARS VIVENDI, ARS MORIENDI



Notas biográficas

    A vida de Amadeu Ferreira (este nome lhe coube em 1950, em Sendim) é como uma montanha de difícil e penosa escalada a oferecer sempre mais obstáculos e perigos a quem tem a veleidade de lhe atingir o cume. Só os fortes resistem, só os obstinados não desistem. Páram para tomar fôlego. Cada etapa da aventura tem a sua duração, os seus escolhos. Foi longa a caminhada ascendente de Amadeu. Mas ele tem a força física e anímica dos rijos transmontanos, desses “homens de granito” que se negam a torcer. Que, quando no longe põem a boina basca, ao modo de Bento da Cruz, acariciam a cabeça com um cibo de aconchego transmontano.
    Para trás e para longe ficou o seminário, a construção civil, a tropa em Mafra, o emprego em adega corporativa, os estudos de Filosofia e de Letras, primeiro no Porto, depois em Lisboa. Aí acabou por fixar-se. Envolveu-se activamente na política e foi, de raspão, deputado pela UDP. Licenciou-se em Direito e trabalhou em publicidade. Publicou livros. Fez o mestrado, agora o doutoramento. É presidente da Associação de Língua Mirandesa na qual tem escrito poesia, conto, histórias infantis, romance. Traduziu escritores latinos, os Lusíadas, os quatro evangelhos. É professor auxiliar convidado na Faculdade de Direito de Lisboa e vice-presidente da Comissão do Mercado de Valores Imobiliários. Vice-presidente é também da Academia de Letras de Trás-os-Montes. Chegou como partiu – simples, despretensioso, afável, bom conversador.  Amadeu e Francisco, duas faces da mesma moeda. O homem e o artista.

    Escreveu um autor latino que “os poetas e os reis não nascem todos os dias”. Porque, segundo Francisco José Viegas “A poesia não tem a ver com a literatura. Releva do domínio do sagrado indizível”. Porque, como diz Torga, “Os poetas são como os faróis: dão chicotadas de luz na escuridão”.
    São incontáveis as abordagens do complexo fenómeno da criação poética pelo que ela encerra de misterioso, de oculto, de enigmático, de profético, de revolucionário, de metafísico, de iniciático, de ambíguo, de plurissignificativo, de imprevisível – “um poeta nunca sabe quando um verso lhe é dado”, disse o Orfeu Rebelde. Pela magia das sugestões imagéticas e eufónicas, pela harmonia e o ritmo e a prosódia, pelo tratamento dado às palavras que são, para Eugénio de Andrade como para qualquer poeta, “como o cristal”. Pela singularidade de uma manifestação artística nascida de corações sensíveis, aparentemente frágil mas que atravessa, altaneira, tempos e espaços a caminho de uma eternidade que é para os homens escondidos atrás dos poetas compensação para a efemeridade das suas vidas.
    Na introdução da colectânea A Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro, Hermínio Monteiro, transmontano precocemente desaparecido, escreve: “ Há muitos e muitos milhares de anos, a poesia aproximou-se do homem e tão próximos ficaram, que ela se instalou no seu coração. E começaram a ver o mundo conjuntamente estabelecendo uma inseparável relação que perdurará para sempre. (…) Com um pequeno gesto, os poetas soltam o seu pólen que, levado pelas palavras vai eternamente fecundando os arcos da beleza que erguem o universo e o põem em comunicação com Deus”.
   
    O grande poeta Eugénio de Andrade introduz a ANTOLOGIA BREVE com uma espécie de aviso, de esclarecimento. Parece recear que os seus eventuais leitores não valorizem devidamente a sua arte e, por isso, esclarece, pondo a tónica naquilo que opõe o cidadão comum ao poeta, naquilo que singulariza este, guindando-o a alturas para outros inalcançáveis:

    O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo de conhecimento que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, é a sua moral. E não há outra. Nesse mergulho do homem nas suas águas mais silenciadas, o que vem à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o espírito humano atenta mais facilmente nas diferenças do que nas semelhanças, esquecendo-se, e é Goëthe quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, tão fiel ao homem, acaba por ser palavra de escândalo no seio do próprio homem. Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que os outros nem sequer são capazes de imaginar.

    Muitos são os registos poéticos em que o autor fala da sua concepção de poesia, da importância de que esta se reveste na sua caminhada. Para Pires Cabral, em “O Navio dos Loucos”, in Douro: Pizzicato e Chula afirma: A bordo duma nave, alguns poetas detentores, como todos os da espécie, do seu pequeno gene de loucura e em “Poetas e Deuses” (título expressivo) in Cobra-d’ Água faz um convite:

                        Vede: um poeta em exercício.
                        Dir-se-ia que algum deus equilibrista
                        Trepou por ele acima e se empoleirou nele.

                        Ei-lo: exposto como um Cristo a que caísse
                        O pano do pudor.

                        Abrasado em chamas que se presumem sagradas,
                        E que não ardem somente, mas também alumiam
                        O próprio poeta e os seus arredores [...]

    Florbela Espanca considera o poeta “maior do que os homens”, metaforizando-o: [ser poeta] é ter garras e asas de condor”
                       
    Francisco Niebro apresenta-nos a poesia como algo vital, quase como uma necessidade biológica, como “um nada que vale tudo”:

                        São nadas os poemas
                        a que me agarro em todas as coisas:
                        sem eles, onde meteria
                        o fogo que me queima?
                        sem eles, onde enterraria
                        a morte que me mata?
                        sem eles, como aprenderia
                        o ofício de viver a cada dia?

                        quando descobri que não sou mais que nada,
                        descobri também que só nadas me podiam valer;

                                   depois disto, dizer que poemas são
                                   literatura, é um puro engano.


    Vamos, então, ao que aqui nos trouxe: a apresentação de um livro de poesia de Francisco Niebro que muitos vila-realenses conhecem pelo nome de Amadeu Ferreira, aquele homem que encheu, há tempos, uma sala do Museu da Vila Velha e a alma de quantos o escutaram a falar da menina dos seus olhos – a língua mirandesa: uma língua que quase ninguém fala e muito poucos/sabem que existe, nem por isso deixa de ser um pilar/ do mundo, pequeno, é verdade,/ mas são sempre pequenas as fendas/ por onde começam as grandes ruínas..
 Interpreto a minha presença aqui, investida desta responsabilidade, como um erro de casting, como está na moda dizer. Pelo que atrás ficou exposto, ou seja, pela singularidade e transcendência da criação poética, considero que só um poeta está à altura de falar doutro poeta. Porque falam a mesma língua. Porque têm a mesma percepção dos meandros do fenómeno poético, das suas exigências, do trabalho de oficina que exige. Porque comungam, tratando-se, como é o caso, de poesia lírica, das mesmas angústias e insatisfações, dos mesmos apelos, das mesmas convocações.
    O tempo de que dispus para apresentar este livro teria sido suficiente se cada poema se contentasse só com uma leitura. Para mim, o que distingue versos de poesia é que o sentido dos primeiros é unívoco, linear, entendível, e não nos deixa margem para reflexão, para recolhimento, para busca de subentendidos. Versos não têm entrelinhas.
     Esta colectânea é rica desde o título. Contornando o desconforto de nomeá-la também em duas línguas, o autor recorreu ao comum latim, aqui com sonoridades doces, cantantes.
    É sob o signo da morte, seguido do da velhice, sua normal antecessora, que o livro começa, em abordagem de temática que, na nossa literatura, nos acompanha desde a lírica trovadoresca: “Nen ey barqueiro nem sey remar / e morrerei fremosa no alto mar!”
Num primeiro recurso à mitologia pagã, Niebro, um clássico moderno, invoca Orfeu e a melodia da morte que sai da sua lira para, em jeito de consolação para os mortais, lembrar que “Os próprios deuses estão já feridos de morte”. E a si próprio se conforta, mais adiante: “estão vivos os meus mortos, […] sem eles onde é que o futuro havia de /deitar raízes?”
    Quanto à velhice, aquela ameaça negra que em vão se escorraça, assume em É TRISTE SER VELHO 1 (p. 18) um duplo sentido. Se, por um lado, “tudo fazemos para esconder a morte / e mais ainda para negar a velhice”, esta tem, sobre as outras fases da vida, uma particularidade: “- bem vês, a velhice é a única idade / de que nunca vamos ter lembranças ou saudades.”
   A encerrar o poema que se segue (p. 20), um conjunto de três versos funciona como chave de ouro a abrir um conselho ditado pela experiência e pelo bom senso:

                        Se o vento te empurrar para o beco
                        Da velhice, não tenhas medo:
                        Basta que te respeites até ao fim.

    Na impossibilidade de referir todos os poemas (alguns com características de prosa poética pelo seu pendor narrativo), começarei por enunciar as principais recorrências temáticas de que me apercebi (para além das atrás referidas – morte-velhice - e que integram o autor no rol dos escritores transmontanos ciosos preservadores da sua transmontaneidade. Pelo seu telurismo, pela forte ligação que mantém com as raízes rurais, pelo fascínio que nele exercem as paisagens física e humana da sua região natal, donde ressalta o belo planalto mirandês. Dividido, por razões profissionais, entre as berças e a capital, é notória a sua necessidade de regressar à simplicidade da “pax ruris”. Ao chegar à aldeia encontra ruas desertas, casas abandonadas – “as casas encostam-se de arrimo entre si” -, de janelas fechadas e com teias de aranha, seco o olmo do quintal, “campos sem cultivo”, ausência de cotovias. Ausência de vida, de movimento, de trabalho. Presença inalterada, nítida, de marcas da infância: “é aqui o sítio da memória, a que também chamamos casa […]/ é a memória essa casa a que sempre voltamos”; “o que sou hoje é como o sol a romper pela sombra/ do casebre”.
    Além da dicotomia cidade-campo, encontra-se, também, a de passado- presente a acarretar consigo, inevitavelmente, a saudade de uma infância, por mais dura que tenha sido. Francisco é, ele o diz algures, um homem que não chegou a ser menino, remetendo-nos, assim, para os garotos dos telhais, protagonistas de Esteiros de Soeiro Pereira Gomes.
    Apesar disso, é com ternura poética que evoca tempos longínquos. É a idade mágica de todas as descobertas, de todos os sonhos:

                        quando eu era criança ficava horas a ver as andorinhas
                        a trazer barro para fazer o ninho e a moldá-lo com o
                        peito;
                        depois os filhotes de boca aberta à espera de
                        comida,
                        e elas num voo sem destino a alongar a tarde. […]

    O regresso à infância surge mais adiante numa belíssima desmontagem do poema “Aniversário” de Álvaro de Campos. Confessando que, para compreender este heterónimo de Fernando Pessoa, tem de o ler ao contrário, o poeta apresenta-nos o resultado de um desses exercícios que consiste em negativar a positividade, donde resultam antíteses como alegria/ tristeza, riqueza/ pobreza, vivos/ mortos, luxo/ simplicidade, conforto/ desconforto. Vejamos:

    Álvaro de Campos:

                        No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
                        Eu era feliz e ninguém estava morto.
                        Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
                        E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião
                        Qualquer. […]

Francisco Niebro

                        No tempo em que ninguém festejava o dia
                        dos meus anos,
                        Eu não sabia o que era ser feliz, nem se alguém
                        estava morto.
                        Na velha e pobre casinha, ninguém se lembrava
                        de fazer anos,
                        E andavam tristes, às voltas com uma vida de infinita
                        dureza.[…]
                       

     Seguindo a ordem dos textos, passarei a comentar alguns dos que me mereceram maior atenção nomeadamente pelas intertextualidades que sugerem. A página 34 leva-nos em viagem à capital onde o nosso poeta veste a pele do Cesário Verde de “O Sentimento dum Ocidental” de quem Alberto Caeiro tem pena por achar que “ele era um camponês/ Que andava preso em liberdade pela cidade”. Torga, fora de S. Martinho, sentia-se “uma montanha comprimida”.
    Escreve Francisco Niebro:

                        […] do outro lado, numa vitrina,
                        uma televisão fala de impostos
                        e de crise: dá-me esta Lisboa
                        um absurdo desejo de sofrer:[…]

    Dois poemas, apenas, constituem A MORTE DA HORTA. De novo o homem do campo, familiarizado com os respectivos trabalhos feitos ao sabor das estações nem sempre cumpridoras dos seus horários. Sementeiras, enxertias, plantação de árvores. Em tudo o camponês põe a sua sabedoria ancestral, o seu rigor e, até, o seu carinho:

                        [...] o coto do sacho a abrir
                        A cabeça dos torrões,
                        A alisar a terra como quem faz um ninho […]

    A comparação do último verso conduz-nos, por analogia semântica, a “Bucólica” de Torga: Meu pai a erguer uma videira/ como uma mãe que faz a trança à filha.

    Estamos perante a Terra Mater em cujo ventre crescem as sementes. O lavrador que a fecundou aguarda uma primavera que há-de parir “como quem espera a donzela / após o dia da descoberta da paixão. Terra Mãe, mas também Terra Filha: “talvez só tu no mundo / transportes a horta ao colo”.
    Campo. Trabalho. Terra. Horta. Searas. Ninhos. Poço. Roupa de burel. Carros de lenha. Alfaias agrícolas. Castanhas. Bestiário: cigarras e formigas, melro, cotovias, gafanhotos, andorinhas, cavalos, coruja, mosquitos.

    Uma realidade social está, embora veladamente, associada a esta: aldeias quase desertas, velhos teimosos medindo forças com a terra e com os anos, abandono, solidão. Partiram os novos. Voltarão eles?

                        […]
                        - pode ser que os filhos ainda venham pelas batatas
                        tu acreditas, ó mulher?

                        -vamos mas é andando para casa,
                        enquanto a velhice não desperta
                        e as pernas não vacilam.

    Em DOIS GRITOS COM ECOS DE TEMPO deparamos com o transmontano cioso da sua identidade e revoltado, à moda de Torga e de Garrett, contra o abandono a que estão votados monumentos arquitectónicos. Primeiro temos, “na sua altivez de pedra”, o castelo de Outeiro de que restam “picos de penhascos que o tempo afiou”, a seguir o castelo de Algoso que “ao longe parece uma chaminé / por onde fumega a lareira do tempo”. “Do alto e de dentro avista-se / um ermo mundo, calado, só, abandonado / ao matagal.”
    E voltamos ao campo dos enxertos e das plantações com PEQUENO TRATADO DA ARTE DA ENXERTIA. Sete poemas desafiam-me a escolher um deles. Elejo o terceiro. Pela concisão, pela sobriedade, por poder ele ilustrar um outro de LÍNGUA.

                        hei-de plantar uma oliveira no quintal
                        pedir ao mundo que não lhe faça mal:
                        mil anos depois, talvez mais,
                        ainda os meus olhos se debruçarão à janela das suas
                        rugas
                        e em cada outono hão-de passar por negras azeitonas;

                                   com as oliveiras aprendo a zombar do tempo,
                                   mas a lição é muito difícil de aprender.

    Se repararmos, o poema vive sobretudo do nome (substantivo) e do verbo porque Niebro desdenha dos qualificativos, como declara, com um sentido de humor que também cabe nos seus versos, no seguinte texto que vai ser lido pela Paula Fortuna. (p.148)

                        é difícil resistir à tirania erótica dos adjectivos,
                        arrepio de prazer quando rebentam em som,
                        orgasmos sem conta pela garganta acima:

                        - certos adjectivos só deveriam ser usados com
                        preservativo,
                        e depois de longos preliminares;

                        - há adjectivos em que o uso é uma declaração
                        de guerra,
                        material de terrorista:
                        aí, a paz tem o nome de silêncio;

                        são piores que a grama,
                        é quase impossível acabar com eles,
                        pois é mais difícil resistir-lhe
                        que às mais fortes flechas de Cupido.

    Não querendo alongar-me, cabe-me referir a parte final do livro composta por haicais, espécie de teste (nada fácil) à competência poética do autor. Porque, aparentemente simples, esta forma de poesia, de remota origem japonesa e vulgarizada entre nós na transição do século dezanove para o seguinte por Venceslau de Morais e por Camilo Pessanha, constituída por um total de 17 sílabas (5­ nos 1º e 3º versos, 7 no terceiro) exige uma capacidade de condensar em tão pouco espaço a expressão de percepções sensoriais de temática em geral ligada à natureza. É a poesia mais depurada que existe. Cultivá-la é fazer como diz Carlos Drummond de Andrade: “Escrever é cortar palavras”. Apreciadora de Bashô Matsuo, poeta japonês do século XVII, talvez o mais conhecido cultor deste tipo de poesia, Isabel Alves vai-nos ler algumas destas desconcertantes simplicidades a que Niebro chama “pedrinhas”.
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    Caracterizar esteticamente a poesia de Francisco Niebro é começar por pôr em destaque a sua originalidade, a especificidade dos seus poemas. Neles sentimos o extravasar sem peias de emoções, sentimentos, reflexões, frustrações, sonhos, constatações. O pensamento flui como rio sem diques, espraia-se ao correr das teclas do computador, indiferente a ditames estéticos. Se saem versos, sai poesia, se sai prosa, também. Muitos dos textos têm um carácter narrativo e fazem com que o leitor se sinta, antes, ouvinte. Outros tem implícito um destinatário, um tu que pode assumir diferentes identidades. Outros, ainda, são centrados no próprio eu, reflexivos e introspectivos, reveladores de uma mundividência rica e plural.

    António Fortuna vai ler um soneto vestido à moderna, de ressonâncias regianas (p. 110)


                        para que havia de querer um mapa?
                        sei bem de onde venho, onde estou,
                        que quero sei, mas não por onde vou,
                        calmo no que faço; destino? Foje-

                        -me; ao fim do dia nunca presto atenção
                        aos ardores que me sobraram de um sonho
                        que tive noutro tempo, era ainda moço,
                        agora queimado, seco, quem diria

                        se era tudo tão solto como um voo,
                        pesado como haver vontade de pão,
                        Ícaro erguido em força, como um deus;

                        pousei em jeito de abutre e, prisioneiro,
                        só, comigo sonhos vêem, sonhos vão,
                        enquanto calor procuro dentro dos frios.


    Caro Amadeu. Tempo de Fogo rendeu-me à sua prosa. Este livro rende-me à sua poesia porque não é mais um qualquer, é um diferente, inovador, nascido do talento e não de um tratado de versificação. Como escreveu Eça de Queiroz em Prosas Bárbaras, os poetas “podem contemplar as estrelas, enquanto os bichos sociais se devoram na sombra.”

                                   Maria Hercília Agarez, Vila Real, 10 de Novembro de 2012

Nota: este texto não obedece ao novo acordo ortográfico.