28 janeiro 2013

Bibliografia do Distrito de Bragança



Ernesto Rodrigues

Na hora em que são editados os volumes III e IV da BdBBibliografia do Distrito de Bragança (Série Escritores – Jornalistas – Artistas), cumpre celebrar este projecto de Hirondino da Paixão Fernandes empreendido já nos anos 60, no Mensageiro de Bragança, e que teve em António Jorge Nunes, presidente da Câmara Municipal, o necessário apoio, acertado e justo. Farei, antes, breve historial da dicionarística literária em Portugal, de modo a enquadrar a BdB e perceber a importância de iniciativa tão fecunda quão honrosa para a Cultura do distrito.
Vidas, linhagens e genealogias, bibliografias, catálogos e relações de livrarias ou bibliotecas, são imprescindíveis na investigação: por mais enfadonhos, trazem sempre algo de fresco e útil. Os tenteios inaugurais de vida e obra vêm numa colecção manuscrita de Manuel Severim de Faria, Compendio de Varias Obras de Authores Portugueses (1613), e na vida de Camões, por Pedro de Mariz (1613), sendo Camões núcleo reflexivo desde Manuel de Lira (1591). Mas o século XVII – que também é o da Imprensa periódica, cujos dicionários interessam à literatura, e do impressionismo crítico no Hospital das Letras (1657; editado em 1721), após duplo esforço canonizador de Jacinto Cordeiro, Elogio de Poetas Lusitanos, e António de Sousa de Macedo, Flores de España..., ambos de 1631 – reserva dois monumentos singulares: a Biblioteca de João Franco Barreto = Biblioteca / Lusitana / Autores / Portuguesez / 1.ª Parte, etc., e Joanne [João] Soares de Brito, Theatrum Lusitaniae Litterarium [...], 1655. A Bibliotheca… consta de cinco volumes, e um sexto de Índices (de nomes, sobrenomes, pátrias dos autores), no total de 1180 páginas. Se a introdução data de 27 de Janeiro de 1648, a obra estende-se para lá de 1656. Cerca de mil autores é uma soma respeitável; este princípio de todos reunir, até os que versaram Direito Civil e Canónico, inspirará Diogo Barbosa Machado, Inocêncio Francisco da Silva… e Hirondino Fernandes. Outra preciosidade é o manuscrito Cathalogo dos Auctores Portugueses, de Manuel de Faria e Sousa (BN, COD. 361). Concomitantemente, urge compulsar os índices inquisitoriais quinhentistas e o Index Auctorum Damnatae Memoriae (1624). No conspecto europeu, consulte-se a Bibliotheca Scriptorum Societatis Jesu […], de Pedro de Rivadeneyra, 1643.
A Bibliotheca Hispana de Nicolau António (1672; ed. aumentada, 1783-1788) inspira a Bibliotheca Lusitana: Historica, Critica, e Cronológica [...]  (Lisboa, 4 vols.; 1741-1759; já em formato digital), que não se queda pelo impresso em língua portuguesa, como Inocêncio, mas evita anónimos. A BdB tem anónimos e estrangeiros, se atinentes ao distrito. Devedor de Franco Barreto, Barbosa é canibalizado por muitos. Conviria confrontá-lo com a “Memória de alguns escritores em todas as ciências da Companhia de Jesus”, título actualizado constante do apócrifo Cathalogos de Ministros e Memorias Varias (manuscrito após 1754; BN, COD. 1457). Bento José de Sousa Farinha faz, em 1206 páginas e três tomos, um Summario da Bibliotheca Luzitana (1786), despachando, no terceiro (1787), as letras L-Z. E, oportunista, acrescenta um quarto tomo de Bibliotheca Luzitana Escolhida (1786), o que é um bom exercício de cânone literário do tempo. Bibliotheca Lusitana Escolhida ou Catalogo dos Escriptores Portugueses será título de José Augusto Salgado (1841). O critério ora afina, ora relaxa. Exemplo de solução mista, em tempo de Ilustração nascente, é o Anno Historico, / Diario Portuguez, Noticia Abreviada / De pessoas grandes, e cousas notaveis de Portugal, [...], pelo Padre Mestre / Francisco de Santa Maria, 1744. Os três volumes, além de efemérides, biografam vultos, na linha do que farão os almanaques. No ano seguinte, temos o Corpus Illustrium Poetarum Lusitanorum qui Latine Scripserunt, [...] (8 tomos, 1745-1748), compilado pelos padres António dos Reis e Manuel Monteiro.
Enquanto isso, está por estudar a faceta dicionarística de Francisco Xavier de Oliveira, com dezenas de artigos sobre obras de portugueses em David Clément, Bibliothèque Curieuse Historique et Critique, ou Catalogue Raisonné des Livres Difficiles à Trouver (9 vols., 1750-1760). Deve ser confrontada com as suas Mémoires Historiques, Politiques et Littéraires, concernant le Portugal et toutes ses dépendances, avec la Bibliothèques des écrivains et des historiens de ces états, 2 vols., 1743. Diz-nos que o jesuíta Francisco da Cruz deixou Memorias Manuscritas para uma sonhada Bibliotheca Portuguesa.
Entre outras margens de dicionarização, em Setecentos, citemos uma Bibliotheca Portuguesa (1736-1741) e outra Bibliotheca Lusitana, em cinco volumes manuscritos, ambas com informação biobibliográfica de autores portugueses remetida a D. Francisco de Almeida (1701-1745; BN: COD. 908 e COD. 909-912). O Diccionario da Lingoa Portugueza (1793) fecha o século com um selecto cânone de autores.

De Inocêncio a Prado Coelho

O Diccionario Bibliographico Portuguez (1858; já digitalizado) vinha sendo pedido por Cunha Rivara celebrando Barbosa Machado, e propondo uma Bibliotheca Portugueza n’O Panorama (X, 30-IV-1853). Aquele Diccionario… é mais do que de Inocêncio. Continuado por Brito Aranha, Gomes de Brito, Álvaro Neves, o tomo XXI é dedicado a Herculano (1914), no pretexto centenarial (1910); o t. XXII (1923) fecha a série, em que só nos reencontramos se tivermos à mão João Soares de Sousa, Índice Alfabético (1938), ou um esforçado Ernesto Soares, Guia Bibliográfica, correspondendo ao tomo XXIII (1972), e que fora suplemento ao Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra, vol. XXIII, 1958. No Rio de Janeiro, Sacramento Augusto Victorino Blake responsabilizou-se por outro Dicionário Bibliográfico Português. Sem indicação de tomo, está Martinho da Fonseca, Aditamentos ao Dicionário Bibliográfico Português (1927; 1972), já autor de Subsídios para Um Diccionario de Pseudonymos, Iniciaes e Obras Anonimas de Escriptores Portuguezes (1896; 1973), que podemos considerar o vigésimo quinto tomo de tão magno projecto. A paginação dos dez volumes da BdB não se ficará, todavia, atrás.
Vinte anos depois do primeiro Inocêncio, Ricardo Pinto de Mattos (que assinara Bibliographia Historica Portuguesa, 1850) traz precisões no Manual Bibliographico Portuguez de Livros Raros, Classicos e Curiosos (1878), revisto e prefaciado por Camilo Castelo Branco. Do estrangeiro, interessam-nos: Augustin et Aloïs de Backer, Bibliothèque des Écrivains de la Compagnie de Jésus, ou Notices Bibliographiques [...], 7 vols., 1853-1861; o médico setubalense Domingo García Peres, Catálogo Razonado Biográfico e Bibliográfico de los Autores Portugueses Que Escribieron en Castellano, 1890; Meyer Kayserling, Biblioteca Española-Portuguesa-Judaica. Dictionnaire bibliographique des auteurs juifs, de leurs ouvrages espagnols et portugais et des ouvres sur et contre les juifs..., 1890. Tirante isto, há o conceito de notabilidade, em que todos se misturam, seja no Álbum das Glórias de Rafael Bordalo Pinheiro, na Revista Contemporânea de Portugal e Brasil (1859-1865), nas necrologias do Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, em inaugurada biografia herculaniana de Júlio César Machado, “Notas para um dicionário dos portugueses notáveis do meu tempo”, A Illustração. Revista de Portugal e do Brazil (ano 5, v. 5, n.º 4, 20-II-1888). Desactualizados estão a Portuguese Bibliography (1922), de Aubrey Bell, e o Dicionário Universal de Literatura: Bio-Bibliográfico e Cronológico (1934, 1940), de Henrique Perdigão.
Ora, em 1 de Março de 1956, no suplemento ‘Artes e Letras’ do Diário de Notícias, Jacinto do Prado Coelho anunciava o Dicionário das Literaturas Portuguesa, Galega e Brasileira, cujo primeiro fascículo saiu em Agosto de 1956. Em Outubro de 1960, a Livraria Figueirinhas resumia tudo a um só volume, a duas colunas, páginas 3-880, com Addenda e corrigenda, Índice de nomes de autores, Índice de títulos de obras e revistas, Errata, até à p. 1021. A 2.ª edição atenta mais à literatura brasileira e à estilística: torna-se Dicionário das Literaturas Portuguesa, Brasileira, Galega e Estilística Literária, Temos dois volumes (A-M, 1969, 686 páginas; N-Z, 1971; total: 1527 páginas) a três colunas, ilustrações, e uma 3.ª edição em três (1976) e cinco volumes (1973), da qual decorre, nos anos 80 e 90, alegada 4.ª edição (desde 1992), e que, na prática, significa uma vintena de reimpressões. O texto de 1969-1971 mantém-se incólume até 2002-2003, quando, apoiado em Pires Laranjeira e José Viale Moutinho, coordenei três volumes de Actualização. Posso afirmar que conheço os agora oito volumes como as minhas mãos. Em 29 de Março de 1984, eu inserira no Diário de Lisboa o artigo “Um dicionário vergonhoso de Literatura Portuguesa”, vergastando um Dicionário de Literatura Portuguesa, sem data (1983?), e sem indicação de editor, de um certo José Correia do Souto, plagiando regularmente J. do Prado Coelho... Releve-se, nos 800 novos artigos para 958 páginas, a fecundidade das bibliografias – em que só a BdB o ultrapassa –, não raro mais extensas que o verbete.
A variedade contida no Dicionário de Literatura animou projectos afins ou de aprofundamento parcelar. Prometia muito o Grande Dicionário da Literatura Portuguesa e de Teoria Literária, I, 1977 (iniciou o 2.º vol., de que restaram fascículos soltos), dirigido por João José Cochofel. Tal promessa foi satisfatoriamente cumprida pela Biblos. Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa (5 vols., 1995-2005). Concretizou-se num volume o Dicionário de Literatura Portuguesa (1996; dir. de Álvaro Manuel Machado), pensado em termos só de autores, enquanto o Dicionário Cronológico de Autores Portugueses (6 vols., 1985-2001), pela informação quase exaustiva sobre nomes, é um manancial, mas sem particulares juízos críticos, nem orientações bibliográficas. O seu índice de pseudónimos deve ser complementado por Adriano Guerra Andrade, Dicionário de Pseudónimos e Iniciais de Escritores Portugueses (1999). Projectos internacionais não devem passar despercebidos (caso do Dicionário Biográfico Universal de Autores, 5 vols., 1966-1982); outros são inúteis, ou pouco menos (Fernanda Frazão, Maria Filomena Boavida, Pequeno Dicionário de Autores de Língua Portuguesa, 1983; O Dicionário / Literatura Portuguesa, vendido com o diário Público, 2004; Célia Vieira e Isabel Rio Novo, Literatura Portuguesa no Mundo. Dicionário Ilustrado, 2005, 12 vols.).
Por períodos ou movimentos, saudemos: Dicionário de Literatura Medieval Galega e Portuguesa (dir. de Giulia Lanciani e G. Tavani, 1993); Dicionário da Arte Barroca em Portugal (dir. de José Fernandes Pereira e Paulo Pereira, 1989); Dicionário do Romantismo Literário Português (coord. por Helena Carvalhão Buescu, 1997). Em nome próprio, o Dicionário de Eça de Queiroz (1988; 1993), organizado por A. Campos Matos, exigiu Suplemento (2000); o Dicionário de Camilo Castelo Branco (1989), testamento de Alexandre Cabral, saiu actualizado em 2003; qual díptico, chegou o Dicionário de Personagens da Novela Camiliana (dir. de Maria de Lourdes A. Ferraz, 2002).
Cidades, distritos, regiões e antigas possessões não se lamentem. Ficam exemplos, desde o fim do Antigo Regime, todos muito aquém da BdB, ainda que olhando somente ao critério literário: Francisco de Carvalho, Historia de Coimbra..., BN, COD. 905; Agostinho Tinoco, Dicionário dos Autores do Distrito de Leiria, 1979; João Afonso, Bibliografia Geral dos Açores. Sequência Açoriana do Dicionário Bibliográfico Português, 3 vols., 1985-1997; Padre Fernando Augusto da Silva e Carlos Azevedo de Meneses, Elucidário Madeirense, 3 vols., 1940-1946; fac-símile, 1998; Luiz Peter Clode, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses. Sécs. XIX e XX, s. d.; Aleixo Manuel da Costa, Dicionário de Literatura Goesa, 3 vols., 1997. Do claustro saem inúmeros: baste Francisco Álvares Loureiro da Silva, Bibliografia dos Autores Trinitários Portugueses, 1996. As mulheres conquistam o seu Dicionário no Feminino (Séculos XIX-XX; dir. de Zília Osório de Castro, João Esteves, 2005). As crianças têm António Garcia Barreto, Dicionário da Literatura Infantil Portuguesa, 2002.
Entre profissões, destaquem-se militares, juristas e médicos: Francisco Augusto Martins de Carvalho, Diccionario Bibliographico Militar Portuguez, 1891; Eduardo Alves de Sá, Bibliographia Juridica Portugalensis, 1898, precedido de Ignacio da Costa Quintela, Bibliotheca Jurisconsultorum Lusitanorum, 1790, e do Demetrio Moderno ou Bibliographo Juridico Portuguez..., 1781, de António Barnabé de E. Barreto de Aragão; Gracinda Pais Brígida, Escritores Médicos Portugueses na Segunda Metade do Séc. XIX, 1948; Armando Moreno, Médicos Escritores Portugueses, 1990.
Pouco adiantaremos ao olhar para enciclopédias e dicionários estrangeiros que inscrevam os nossos autores; mas notem-se os brasileiros Celso Pedro Luft, Dicionário de Literatura Portuguêsa e Brasileira, 1967, e Massaud Moisés, org., Pequeno Dicionário de Literatura Portuguesa, 1981. No campo da teoria, importam alguns dicionários de termos literários (Harry Shaw, Massaud Moisés, António Moniz / Olegário Paz) ou o Dicionário de Narratologia, de Carlos Reis / Ana Cristina Macário Lopes, 1987.

Fonte de criação

Seria possível conjugar a diversidade de intenções acima resumida? Hirondino Fernandes disse que sim.
Por ordem de apelido, inclusive em pseudónimos e iniciais, aos nomes sucede indicação de lugar e data de nascimento e morte, se possíveis. As biografias são desiguais, quer em espaço, quer em método, mas suficientes. A riqueza está na bibliografia activa (manuscrita, dactilografada, mimeografada, impressa), por anos, e excertos úteis, nos títulos menos acessíveis. Intercalam remissões e fecha uma não raro extensa bibliografia passiva − acompanhada de eventuais ‘ecos da Imprensa’ −, só parcialmente referenciada no limiar do vol. I, onde seguem centenas de publicações periódicas consultadas. Nomes com parte de leão temos o Abade de Baçal (I, p. 341-350) ou Trindade Coelho (II, p. 429-706), aliás, inseridos em edições comemorativas.
Considere-se, entretanto, maioria de impressos, seja qual for o suporte, a extensão e qualidade. O senão de rastrear mero artigo de jornal, nem sempre de fácil atribuição, é que o autor pode não rever-se num passado que deseja rasurar. São mais aceitáveis, em termos de bibliografia activa, a revista e livro (e, mesmo, o recurso ao online), mas o efeito de desentranhar páginas inesperadas, que escapam aos autores, é prova de uma dedicação que nunca louvaremos assaz.
Com menos relevo, mas decisão fundada, estão os não naturais, cujos títulos respeitam ao distrito. É um olhar de fora, geralmente empático, que mostra interlocutores insuspeitados, para lá das fronteiras regionais, nacionais, linguísticas. Ver e ser visto torna-se, assim, mais fácil.
Se perde, em relação a Inocêncio ou Prado Coelho, na injustificada inclusão de brasileiros e galegos, embora alguns compareçam, por outras razões, a todos os dicionários sobreleva esta BdB, e não só em número de páginas: de escopo distrital, vai para lá deste chão, conjugando vocações, actividades, profissões, desde o título ou apelidos mais antigos, longe de serem todos forçosamente ilustres (muitos destes estão ausentes, por não entrarem na série). O critério editorial não-selectivo deixa entrever as principais dificuldades: uniformização, em tempo útil, de dados biográficos (ora com datas precisas, ora só os anos, por exemplo), várias interrogações, sobretudo, nos corpora bibliográficos. Mas só quem não investiga neste país desconhece as dificuldades.
Conjugando Barreto, Barbosa Machado e Inocêncio (na esperança de que o décimo volume, de índices, esclareça os caminhos), estamos em condições, agora, de ler o distrito em títulos, temas, conceitos, épocas, potencialidades, que entreabria Prado Coelho. Sendo a melhor fonte de um passado que ainda mal se conhece, com ganhos para estudiosos, que não terão pequenas surpresas, a inclusão dos mais novos ou de quem pratica as nossas especialidades ajuda-nos num acompanhamento próximo imediato. Já tínhamos as Memórias Arqueológico-Históricas… baçalianas; com a BdB, temos o segundo monumento cultural da nossa terra.    
        

O IMPREVISTO ACONTECE



Com a realidade jogamos ao faz de conta

De súbito, forte ventania, como surgida do nada, abateu-se nos plátanos que margeiam, pela esquerda, a via pública fez tombar no asfalto milhões de folhas que resistiam à morte inevitável e com elas encetou algo semelhante a um bailado, progredindo em círculos, e avançou até se perder de vista bem lá no extremo da rua. Em simultâneo, o céu, até então de um cinzento pacífico, escureceu antecipando a noite e prenunciando temporal. Caíram as primeiras gotas de chuva, finas e espaçadas antes, mais constantes a seguir, obrigando os transeuntes a protegerem-se com guarda-chuvas ou a correrem em busca de um abrigo.
Só então me apercebi de que não trouxera qualquer resguardo, remédio seria vencer aqueles dois hectómetros e meio com a minha neta de sete anos em corrida ao faz de conta. Duzentos e cinquenta metros para lá, outro tanto aquando do regresso. “E se, entretanto, a chuva tiver virado temporal?” questão recorrente em circunstâncias tais que também nesse momento me assalta, me tira a paz de espírito e perdura nessa hora e meia de permanência no recinto. Quem vai chegando não parece estar muito incomodado com o que acontece no exterior. Bom sinal! A preocupação decresce a um nível mais baixo. Mesmo sem sombreiro – curioso como, na aldeia, as pessoas resumiam com tal designação o objeto que podia resguardá-las tanto da chuva como do sol embora não seja adequado no primeiro caso preferindo o nome derivado ao composto talvez a pensar que, com ele cobertos, de certa maneira ficamos a uma sombra protetora – estamos à vontade, a minha neta leva um casaco que, depois de entrar no automóvel, lhe retiro sem que da sua falta advenha desconforto, basta ligar o ar condicionado.
Agora é noite fechada, conjugaram-se os humores do tempo e a precisão da meteorologia. Boa noite! Desapareceu o motivo da ansiedade que precede esses momentos de indefinição característicos do lusco-fusco. Aí pode começar o mistério que sempre vem associado ao período de treva. Em tempo não muito distante, a ausência de luz natural determinava muito mais do que a separação entre o dia e a noite, o trabalho e o repouso, a certeza e a dúvida, o movimento e a imobilidade, o balanço do dia que termina e a projeção do dia seguinte: o dia era associado à vida, a noite era o fechar dos olhos do dia, a ausência de luz natural, a morte. Receava-se a noite quase como se temia a morte, o sono era uma espécie de vida suspensa, entregue nas mãos de Deus, a morte era o descanso final, o não retorno. A convicção de que haveria esse retorno eis o que justifica o “quase” que alentava quem vivo era e confiava no Supremo Juiz que tinha o poder decisório sobre a nossa existência. O receio era fortalecido pela fraca iluminação que permitia alguma atividade no período entre o regresso a casa e a disposição dos corpos para o repouso. Candeias, candeeiros de mesa e lampiões a petróleo (querosene para os brasileiros), protegidos do vento por manga de vidro, bruxuleavam a guiar os passos naquele lapso de tempo, os primeiros dentro e o último fora de casa. Quando surgiram os “petromax”, que projetavam uma luz muito mais intensa e clara, o ambiente transformava-se, mudava a disposição das pessoas nos espaços circundantes. “Parece que é de dia!” - exclamavam. A eletrificação das casas também contribuiu para esbater a distinção entre o dia e a noite além da comodidade que trouxe, bastava “carregar no garabito” como dizia o Bebé, um pobre de espírito que fazia recados, transportava pequenas cargas e só pedia por retribuição que o deixassem pressionar o interruptor, prazer supremo, que outros não conhecia.
Bem pode dizer-se que, ao terminar a primeira metade do século XX, a vida era, ainda, a preto e branco. Na aldeia, os homens vestiam pardo ou roupa exterior de tonalidade baça, na cidade já o pardo fora abolido mas não a modesta variedade dos trajes, o luto obrigava homens e mulheres a vestir de negro durante um ano ou mais, as viúvas traziam a morte com elas para o resto dos seus dias, o que distinguia os eclesiásticos era o negro das batinas que usavam no dia a dia e nos atos religiosos, o escuro era sinónimo de castigo para as tolices das crianças: “ se continuas a fazer perrice, vais para o quarto escuro.” Por contraste, brancos eram os lençóis em camas de gente remediada ou rica; as toalhas que revestiam altares e mesas de quase todas as famílias em dias de festa, diariamente para as mais abonadas; as roupas de batismo e a toalha que limpava a cabecinha dos neófitos após o derramamento da água sacramental; as camisas dos homens nos domingos e dias de festa; meias e agasalhos para todos no tempo frio de outono e de inverno que pressupunha cultivo do linho ou posse de ovelhas porque dinheiro nem sempre havia para comprar novelos de lã.
O toque dos sinos às Ave-Marias quando clareava era um grito de alegria e agradecimento a Deus por mais um dia de vida, o mesmo toque às Trindades tão logo o sol se despedia e as primeiras sombras já adormentavam a Natureza, conquanto representasse alívio da labuta diária e chamada ao reagrupamento familiar, vinha marcado por uma indefinível emoção entre o regozijo da convivência e a pena da despedida. O simbolismo da noite em relação à morte trazia consigo o desejo de distanciamento de tudo quanto lembrasse o momento fatal: na igreja enquanto lugar onde eram celebradas as exéquias, se expunham os mortos antes da encomendação e, durante séculos, se enterraram os corpos; o cemitério, espaço onde todos os moradores tinham familiares sepultados e destino certo dos que ainda conservavam o precioso dom da vida; a igreja e o cemitério em conjunto, por isso duplamente atemorizante, a presença, materialmente silenciosa, de Deus na Sua morada e a ausência dos que nos pertenceram e se tornaram pó, a perspetiva para nós tão certa quanto aterrorizadora, a certeza da morte e o temor, que não gostamos de admitir, de, um dia, ela nos vir buscar. Cito Gonçalo M. Tavares em crónica publicada no número 1025 da revista Visão: o medo da morte e o medo dos mortos. Os relatos sobre esse temor diante do cadáver, esse não querer tocar. Talvez uma lembrança inconsciente da peste negra. Aí, o morto matava: tocar na morte era correr um risco (…) Hoje ainda, no século XXI, a lógica, a medicina e a racionalidade podem dizer-nos que não, que é absurdo, mas o inconsciente ali está…”
Na minha aldeia, o cemitério ficava ao lado da igreja, cercados pelo mesmo muro. À noite, as pessoas transitavam pelos caminhos contíguos de coração apertado tentando desviar os olhos desse lado, ainda que a morada divina devesse merecer-nos toda a confiança e do campo santo nada tivéssemos a recear porque os mortos não voltam. António Lobo Antunes, numa entrevista concedida à rádio TSF por ocasião da “Escritaria”, em Outubro passado, em sua homenagem, referia-se a alguém que nunca ia ao cemitério “porque nesses lugares não estava ninguém”. “Então onde estão os mortos?” – perguntavam-lhe. “Andam por aí. – explicava essa pessoa – falam connosco, dão-nos as suas opiniões, fazem-nos companhia, sentimo-las ao nosso lado.” E Lobo Antunes acrescentava: “Tinha razão. Eu ouço-os, distingo-lhes as vozes, compreendo o que me dizem…” Houve uma pessoa que nunca manifestou receio de dirigir-se à igreja a qualquer hora da noite como do dia. Foi zeladora do Santíssimo Sacramento durante alguns anos. Uma lâmpada, suspensa do teto e permanentemente acesa, simbolizava a eternidade de Deus e da sua presença entre os homens. O depósito de azeite alimentava uma torcida cujo pavio teria que ser substituído de quando em quando, presumo que de quatro em quatro horas. Essa era a principal tarefa da zeladora: nunca deixar que a luz se extinguisse porque simbolizava a fé das pessoas da comunidade e a sua homenagem a Jesus Sacramentado. No outono e no inverno anoitece mais cedo mas, na claridade do dia ou na escuridão da noite, lá ia ela renovar o pavio da lâmpada. Essa mulher, a pessoa mais corajosa que conheci, era a minha mãe.
                                                                                                                                             Nuno Afonso

Publicado in “A Voz de Ermesinde” a 30 de novembro de 2012

10 dezembro 2012

O Rio da Amargura


Maria Hercília Agarez apresenta O rio da amargura (Diário de Mercedes), de Eurico Figueiredo, no dia 14 de Dezembro de 2012, pelas 21h00, no Auditório da Biblioteca Municipal Dr. Júlio Teixeira (Vila Real).

12 novembro 2012

ARS VIVENDI, ARS MORIENDI



Notas biográficas

    A vida de Amadeu Ferreira (este nome lhe coube em 1950, em Sendim) é como uma montanha de difícil e penosa escalada a oferecer sempre mais obstáculos e perigos a quem tem a veleidade de lhe atingir o cume. Só os fortes resistem, só os obstinados não desistem. Páram para tomar fôlego. Cada etapa da aventura tem a sua duração, os seus escolhos. Foi longa a caminhada ascendente de Amadeu. Mas ele tem a força física e anímica dos rijos transmontanos, desses “homens de granito” que se negam a torcer. Que, quando no longe põem a boina basca, ao modo de Bento da Cruz, acariciam a cabeça com um cibo de aconchego transmontano.
    Para trás e para longe ficou o seminário, a construção civil, a tropa em Mafra, o emprego em adega corporativa, os estudos de Filosofia e de Letras, primeiro no Porto, depois em Lisboa. Aí acabou por fixar-se. Envolveu-se activamente na política e foi, de raspão, deputado pela UDP. Licenciou-se em Direito e trabalhou em publicidade. Publicou livros. Fez o mestrado, agora o doutoramento. É presidente da Associação de Língua Mirandesa na qual tem escrito poesia, conto, histórias infantis, romance. Traduziu escritores latinos, os Lusíadas, os quatro evangelhos. É professor auxiliar convidado na Faculdade de Direito de Lisboa e vice-presidente da Comissão do Mercado de Valores Imobiliários. Vice-presidente é também da Academia de Letras de Trás-os-Montes. Chegou como partiu – simples, despretensioso, afável, bom conversador.  Amadeu e Francisco, duas faces da mesma moeda. O homem e o artista.

    Escreveu um autor latino que “os poetas e os reis não nascem todos os dias”. Porque, segundo Francisco José Viegas “A poesia não tem a ver com a literatura. Releva do domínio do sagrado indizível”. Porque, como diz Torga, “Os poetas são como os faróis: dão chicotadas de luz na escuridão”.
    São incontáveis as abordagens do complexo fenómeno da criação poética pelo que ela encerra de misterioso, de oculto, de enigmático, de profético, de revolucionário, de metafísico, de iniciático, de ambíguo, de plurissignificativo, de imprevisível – “um poeta nunca sabe quando um verso lhe é dado”, disse o Orfeu Rebelde. Pela magia das sugestões imagéticas e eufónicas, pela harmonia e o ritmo e a prosódia, pelo tratamento dado às palavras que são, para Eugénio de Andrade como para qualquer poeta, “como o cristal”. Pela singularidade de uma manifestação artística nascida de corações sensíveis, aparentemente frágil mas que atravessa, altaneira, tempos e espaços a caminho de uma eternidade que é para os homens escondidos atrás dos poetas compensação para a efemeridade das suas vidas.
    Na introdução da colectânea A Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro, Hermínio Monteiro, transmontano precocemente desaparecido, escreve: “ Há muitos e muitos milhares de anos, a poesia aproximou-se do homem e tão próximos ficaram, que ela se instalou no seu coração. E começaram a ver o mundo conjuntamente estabelecendo uma inseparável relação que perdurará para sempre. (…) Com um pequeno gesto, os poetas soltam o seu pólen que, levado pelas palavras vai eternamente fecundando os arcos da beleza que erguem o universo e o põem em comunicação com Deus”.
   
    O grande poeta Eugénio de Andrade introduz a ANTOLOGIA BREVE com uma espécie de aviso, de esclarecimento. Parece recear que os seus eventuais leitores não valorizem devidamente a sua arte e, por isso, esclarece, pondo a tónica naquilo que opõe o cidadão comum ao poeta, naquilo que singulariza este, guindando-o a alturas para outros inalcançáveis:

    O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo de conhecimento que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, é a sua moral. E não há outra. Nesse mergulho do homem nas suas águas mais silenciadas, o que vem à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o espírito humano atenta mais facilmente nas diferenças do que nas semelhanças, esquecendo-se, e é Goëthe quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, tão fiel ao homem, acaba por ser palavra de escândalo no seio do próprio homem. Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que os outros nem sequer são capazes de imaginar.

    Muitos são os registos poéticos em que o autor fala da sua concepção de poesia, da importância de que esta se reveste na sua caminhada. Para Pires Cabral, em “O Navio dos Loucos”, in Douro: Pizzicato e Chula afirma: A bordo duma nave, alguns poetas detentores, como todos os da espécie, do seu pequeno gene de loucura e em “Poetas e Deuses” (título expressivo) in Cobra-d’ Água faz um convite:

                        Vede: um poeta em exercício.
                        Dir-se-ia que algum deus equilibrista
                        Trepou por ele acima e se empoleirou nele.

                        Ei-lo: exposto como um Cristo a que caísse
                        O pano do pudor.

                        Abrasado em chamas que se presumem sagradas,
                        E que não ardem somente, mas também alumiam
                        O próprio poeta e os seus arredores [...]

    Florbela Espanca considera o poeta “maior do que os homens”, metaforizando-o: [ser poeta] é ter garras e asas de condor”
                       
    Francisco Niebro apresenta-nos a poesia como algo vital, quase como uma necessidade biológica, como “um nada que vale tudo”:

                        São nadas os poemas
                        a que me agarro em todas as coisas:
                        sem eles, onde meteria
                        o fogo que me queima?
                        sem eles, onde enterraria
                        a morte que me mata?
                        sem eles, como aprenderia
                        o ofício de viver a cada dia?

                        quando descobri que não sou mais que nada,
                        descobri também que só nadas me podiam valer;

                                   depois disto, dizer que poemas são
                                   literatura, é um puro engano.


    Vamos, então, ao que aqui nos trouxe: a apresentação de um livro de poesia de Francisco Niebro que muitos vila-realenses conhecem pelo nome de Amadeu Ferreira, aquele homem que encheu, há tempos, uma sala do Museu da Vila Velha e a alma de quantos o escutaram a falar da menina dos seus olhos – a língua mirandesa: uma língua que quase ninguém fala e muito poucos/sabem que existe, nem por isso deixa de ser um pilar/ do mundo, pequeno, é verdade,/ mas são sempre pequenas as fendas/ por onde começam as grandes ruínas..
 Interpreto a minha presença aqui, investida desta responsabilidade, como um erro de casting, como está na moda dizer. Pelo que atrás ficou exposto, ou seja, pela singularidade e transcendência da criação poética, considero que só um poeta está à altura de falar doutro poeta. Porque falam a mesma língua. Porque têm a mesma percepção dos meandros do fenómeno poético, das suas exigências, do trabalho de oficina que exige. Porque comungam, tratando-se, como é o caso, de poesia lírica, das mesmas angústias e insatisfações, dos mesmos apelos, das mesmas convocações.
    O tempo de que dispus para apresentar este livro teria sido suficiente se cada poema se contentasse só com uma leitura. Para mim, o que distingue versos de poesia é que o sentido dos primeiros é unívoco, linear, entendível, e não nos deixa margem para reflexão, para recolhimento, para busca de subentendidos. Versos não têm entrelinhas.
     Esta colectânea é rica desde o título. Contornando o desconforto de nomeá-la também em duas línguas, o autor recorreu ao comum latim, aqui com sonoridades doces, cantantes.
    É sob o signo da morte, seguido do da velhice, sua normal antecessora, que o livro começa, em abordagem de temática que, na nossa literatura, nos acompanha desde a lírica trovadoresca: “Nen ey barqueiro nem sey remar / e morrerei fremosa no alto mar!”
Num primeiro recurso à mitologia pagã, Niebro, um clássico moderno, invoca Orfeu e a melodia da morte que sai da sua lira para, em jeito de consolação para os mortais, lembrar que “Os próprios deuses estão já feridos de morte”. E a si próprio se conforta, mais adiante: “estão vivos os meus mortos, […] sem eles onde é que o futuro havia de /deitar raízes?”
    Quanto à velhice, aquela ameaça negra que em vão se escorraça, assume em É TRISTE SER VELHO 1 (p. 18) um duplo sentido. Se, por um lado, “tudo fazemos para esconder a morte / e mais ainda para negar a velhice”, esta tem, sobre as outras fases da vida, uma particularidade: “- bem vês, a velhice é a única idade / de que nunca vamos ter lembranças ou saudades.”
   A encerrar o poema que se segue (p. 20), um conjunto de três versos funciona como chave de ouro a abrir um conselho ditado pela experiência e pelo bom senso:

                        Se o vento te empurrar para o beco
                        Da velhice, não tenhas medo:
                        Basta que te respeites até ao fim.

    Na impossibilidade de referir todos os poemas (alguns com características de prosa poética pelo seu pendor narrativo), começarei por enunciar as principais recorrências temáticas de que me apercebi (para além das atrás referidas – morte-velhice - e que integram o autor no rol dos escritores transmontanos ciosos preservadores da sua transmontaneidade. Pelo seu telurismo, pela forte ligação que mantém com as raízes rurais, pelo fascínio que nele exercem as paisagens física e humana da sua região natal, donde ressalta o belo planalto mirandês. Dividido, por razões profissionais, entre as berças e a capital, é notória a sua necessidade de regressar à simplicidade da “pax ruris”. Ao chegar à aldeia encontra ruas desertas, casas abandonadas – “as casas encostam-se de arrimo entre si” -, de janelas fechadas e com teias de aranha, seco o olmo do quintal, “campos sem cultivo”, ausência de cotovias. Ausência de vida, de movimento, de trabalho. Presença inalterada, nítida, de marcas da infância: “é aqui o sítio da memória, a que também chamamos casa […]/ é a memória essa casa a que sempre voltamos”; “o que sou hoje é como o sol a romper pela sombra/ do casebre”.
    Além da dicotomia cidade-campo, encontra-se, também, a de passado- presente a acarretar consigo, inevitavelmente, a saudade de uma infância, por mais dura que tenha sido. Francisco é, ele o diz algures, um homem que não chegou a ser menino, remetendo-nos, assim, para os garotos dos telhais, protagonistas de Esteiros de Soeiro Pereira Gomes.
    Apesar disso, é com ternura poética que evoca tempos longínquos. É a idade mágica de todas as descobertas, de todos os sonhos:

                        quando eu era criança ficava horas a ver as andorinhas
                        a trazer barro para fazer o ninho e a moldá-lo com o
                        peito;
                        depois os filhotes de boca aberta à espera de
                        comida,
                        e elas num voo sem destino a alongar a tarde. […]

    O regresso à infância surge mais adiante numa belíssima desmontagem do poema “Aniversário” de Álvaro de Campos. Confessando que, para compreender este heterónimo de Fernando Pessoa, tem de o ler ao contrário, o poeta apresenta-nos o resultado de um desses exercícios que consiste em negativar a positividade, donde resultam antíteses como alegria/ tristeza, riqueza/ pobreza, vivos/ mortos, luxo/ simplicidade, conforto/ desconforto. Vejamos:

    Álvaro de Campos:

                        No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
                        Eu era feliz e ninguém estava morto.
                        Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
                        E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião
                        Qualquer. […]

Francisco Niebro

                        No tempo em que ninguém festejava o dia
                        dos meus anos,
                        Eu não sabia o que era ser feliz, nem se alguém
                        estava morto.
                        Na velha e pobre casinha, ninguém se lembrava
                        de fazer anos,
                        E andavam tristes, às voltas com uma vida de infinita
                        dureza.[…]
                       

     Seguindo a ordem dos textos, passarei a comentar alguns dos que me mereceram maior atenção nomeadamente pelas intertextualidades que sugerem. A página 34 leva-nos em viagem à capital onde o nosso poeta veste a pele do Cesário Verde de “O Sentimento dum Ocidental” de quem Alberto Caeiro tem pena por achar que “ele era um camponês/ Que andava preso em liberdade pela cidade”. Torga, fora de S. Martinho, sentia-se “uma montanha comprimida”.
    Escreve Francisco Niebro:

                        […] do outro lado, numa vitrina,
                        uma televisão fala de impostos
                        e de crise: dá-me esta Lisboa
                        um absurdo desejo de sofrer:[…]

    Dois poemas, apenas, constituem A MORTE DA HORTA. De novo o homem do campo, familiarizado com os respectivos trabalhos feitos ao sabor das estações nem sempre cumpridoras dos seus horários. Sementeiras, enxertias, plantação de árvores. Em tudo o camponês põe a sua sabedoria ancestral, o seu rigor e, até, o seu carinho:

                        [...] o coto do sacho a abrir
                        A cabeça dos torrões,
                        A alisar a terra como quem faz um ninho […]

    A comparação do último verso conduz-nos, por analogia semântica, a “Bucólica” de Torga: Meu pai a erguer uma videira/ como uma mãe que faz a trança à filha.

    Estamos perante a Terra Mater em cujo ventre crescem as sementes. O lavrador que a fecundou aguarda uma primavera que há-de parir “como quem espera a donzela / após o dia da descoberta da paixão. Terra Mãe, mas também Terra Filha: “talvez só tu no mundo / transportes a horta ao colo”.
    Campo. Trabalho. Terra. Horta. Searas. Ninhos. Poço. Roupa de burel. Carros de lenha. Alfaias agrícolas. Castanhas. Bestiário: cigarras e formigas, melro, cotovias, gafanhotos, andorinhas, cavalos, coruja, mosquitos.

    Uma realidade social está, embora veladamente, associada a esta: aldeias quase desertas, velhos teimosos medindo forças com a terra e com os anos, abandono, solidão. Partiram os novos. Voltarão eles?

                        […]
                        - pode ser que os filhos ainda venham pelas batatas
                        tu acreditas, ó mulher?

                        -vamos mas é andando para casa,
                        enquanto a velhice não desperta
                        e as pernas não vacilam.

    Em DOIS GRITOS COM ECOS DE TEMPO deparamos com o transmontano cioso da sua identidade e revoltado, à moda de Torga e de Garrett, contra o abandono a que estão votados monumentos arquitectónicos. Primeiro temos, “na sua altivez de pedra”, o castelo de Outeiro de que restam “picos de penhascos que o tempo afiou”, a seguir o castelo de Algoso que “ao longe parece uma chaminé / por onde fumega a lareira do tempo”. “Do alto e de dentro avista-se / um ermo mundo, calado, só, abandonado / ao matagal.”
    E voltamos ao campo dos enxertos e das plantações com PEQUENO TRATADO DA ARTE DA ENXERTIA. Sete poemas desafiam-me a escolher um deles. Elejo o terceiro. Pela concisão, pela sobriedade, por poder ele ilustrar um outro de LÍNGUA.

                        hei-de plantar uma oliveira no quintal
                        pedir ao mundo que não lhe faça mal:
                        mil anos depois, talvez mais,
                        ainda os meus olhos se debruçarão à janela das suas
                        rugas
                        e em cada outono hão-de passar por negras azeitonas;

                                   com as oliveiras aprendo a zombar do tempo,
                                   mas a lição é muito difícil de aprender.

    Se repararmos, o poema vive sobretudo do nome (substantivo) e do verbo porque Niebro desdenha dos qualificativos, como declara, com um sentido de humor que também cabe nos seus versos, no seguinte texto que vai ser lido pela Paula Fortuna. (p.148)

                        é difícil resistir à tirania erótica dos adjectivos,
                        arrepio de prazer quando rebentam em som,
                        orgasmos sem conta pela garganta acima:

                        - certos adjectivos só deveriam ser usados com
                        preservativo,
                        e depois de longos preliminares;

                        - há adjectivos em que o uso é uma declaração
                        de guerra,
                        material de terrorista:
                        aí, a paz tem o nome de silêncio;

                        são piores que a grama,
                        é quase impossível acabar com eles,
                        pois é mais difícil resistir-lhe
                        que às mais fortes flechas de Cupido.

    Não querendo alongar-me, cabe-me referir a parte final do livro composta por haicais, espécie de teste (nada fácil) à competência poética do autor. Porque, aparentemente simples, esta forma de poesia, de remota origem japonesa e vulgarizada entre nós na transição do século dezanove para o seguinte por Venceslau de Morais e por Camilo Pessanha, constituída por um total de 17 sílabas (5­ nos 1º e 3º versos, 7 no terceiro) exige uma capacidade de condensar em tão pouco espaço a expressão de percepções sensoriais de temática em geral ligada à natureza. É a poesia mais depurada que existe. Cultivá-la é fazer como diz Carlos Drummond de Andrade: “Escrever é cortar palavras”. Apreciadora de Bashô Matsuo, poeta japonês do século XVII, talvez o mais conhecido cultor deste tipo de poesia, Isabel Alves vai-nos ler algumas destas desconcertantes simplicidades a que Niebro chama “pedrinhas”.
……………………………………………………………………………………………………
    Caracterizar esteticamente a poesia de Francisco Niebro é começar por pôr em destaque a sua originalidade, a especificidade dos seus poemas. Neles sentimos o extravasar sem peias de emoções, sentimentos, reflexões, frustrações, sonhos, constatações. O pensamento flui como rio sem diques, espraia-se ao correr das teclas do computador, indiferente a ditames estéticos. Se saem versos, sai poesia, se sai prosa, também. Muitos dos textos têm um carácter narrativo e fazem com que o leitor se sinta, antes, ouvinte. Outros tem implícito um destinatário, um tu que pode assumir diferentes identidades. Outros, ainda, são centrados no próprio eu, reflexivos e introspectivos, reveladores de uma mundividência rica e plural.

    António Fortuna vai ler um soneto vestido à moderna, de ressonâncias regianas (p. 110)


                        para que havia de querer um mapa?
                        sei bem de onde venho, onde estou,
                        que quero sei, mas não por onde vou,
                        calmo no que faço; destino? Foje-

                        -me; ao fim do dia nunca presto atenção
                        aos ardores que me sobraram de um sonho
                        que tive noutro tempo, era ainda moço,
                        agora queimado, seco, quem diria

                        se era tudo tão solto como um voo,
                        pesado como haver vontade de pão,
                        Ícaro erguido em força, como um deus;

                        pousei em jeito de abutre e, prisioneiro,
                        só, comigo sonhos vêem, sonhos vão,
                        enquanto calor procuro dentro dos frios.


    Caro Amadeu. Tempo de Fogo rendeu-me à sua prosa. Este livro rende-me à sua poesia porque não é mais um qualquer, é um diferente, inovador, nascido do talento e não de um tratado de versificação. Como escreveu Eça de Queiroz em Prosas Bárbaras, os poetas “podem contemplar as estrelas, enquanto os bichos sociais se devoram na sombra.”

                                   Maria Hercília Agarez, Vila Real, 10 de Novembro de 2012

Nota: este texto não obedece ao novo acordo ortográfico.

16 outubro 2012

III Fórum João de Araújo Correia



 





III Fórum João de Araújo Correia
20 de Outubro, Museu do Douro – Régua


Tema – João de Araújo Correia – Um homem do seu tempo?

10:00h – Receção aos participantes. Sessão de Abertura

10:30h –  1º painel

Moderador –  Helena Gil
António José Queiroz - O tempo (político) de João de Araújo Correia
    
José Braga Amaral - João de Araújo Correia - Um raríssimo homem em cada tempo do seu tempo

Ana Maria Ribeiro - Para além dos clássicos: os escritores contemporâneos de João de Araújo Correia na biblioteca do autor

12:30h - Debate                                   


Almoço



14:30h – Visita à sala/museu do escritor no Museu do Douro
                Exposição Biobibliográfica de João de Araújo Correia (gentileza da DRCN)
                Leitura dramatizada de textos do escritor

15:00h – 2º Painel

Moderador  -  Damas da Silva

Hercília Agarez - Como ele os estimava! Personalidades dos campos intelectual e afetivo de João de Araújo Correia.

Manuel Martins de Freitas - O convívio de João de Araújo Correia com outros notáveis conterrâneos



 (No final será servido um vinho fino de honra)








 










 












08 outubro 2012

O Jornalista Republicano Alves Correia


Grémio Literário Vila-Realense


MC900360696[1]


Notícias das Letras

O JORNALISTA REPUBLICANO ALVES CORREIA - ANTOLOGIA

António Narciso Rebelo Alves Correia, nascido em Vila Real em 25 de Maio de 1861, foi um dos maiores jornalistas portugueses dos tempos pré-republicanos, a par de João Chagas e Brito Camacho. Grande propagandista do ideal republicano, escreveu textos de grande contundência (e grande actualidade, acrescentaríamos nós) nos jornais Folha do PovoO SéculoOs Debates, A Vanguarda e O País.
Atento o seu papel em prol da República (que não chegou a ver, pois morreu em 1900), o Grémio Literário Vila-Realense decidiu publicar uma antologia de textos jornalísticos de sua autoria, tendo confiado a selecção, contextualização e estudo introdutório ao Prof. Doutor Ernesto Rodrigues, docente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e também ensaísta, poeta e romancista, natural de Torre de Dona Chama, Mirandela.
A publicação, que constitui o nº 25 da Colecção Tellus, foi apresentada ao público em 13 de Setembro último pelo Prof. Ernesto Rodrigues, presidente da ALTM.

05 setembro 2012

Relações Luso-Húngaras. Exposição

17 agosto 2012

APRESENTAÇÃO de TRÁS-OS-MONTES de TIAGO PATRÍCIO

M. Hercília Agarez

1.       O HOMEM
    É uma das revelações/surpresas da actual literatura portuguesa. Parece ter sido fadado para a escrita, imposição íntima que o fez abandonar a Escola Naval, a profissão de farmacêutico, o sonho da medicina, a vida rotineira e aburguesada do ordenado fixo. Do mar do Funchal, das flores cosmopolitas da ilha, veio, ainda não pelo seu pé, para a dureza do mar de pedra, para a simplicidade da esteva, do rosmaninho, da urze. E dessa interioridade partiu por exigências académicas, não sem antes ter deitado à terra transmontana raízes difíceis de arrancar. Costuma dizer-se que se pode tirar um transmontano a Trás-os-Montes, mas não Trás-os-Montes a um transmontano.
   É o próprio que o confirma em entrevista à revista Ler de Junho de 2012, a propósito do seu romance de estreia, prémio revelação Agustina Bessa-Luís: “Tudo começou em Trás-os-Montes, o lugar onde reside a matriz da minha infância e a memória primeira que permanecerá até ao fim.”
    Tiago é um andarilho e, como tal, um curioso ávido de aumentar saberes e de acumular experiências. Frequentou cursos para jovens criadores. Em Praga, entre as árvores do Outono eslavo e as neves das margens do Danúbio, nasceram Cartas de Praga e Checoslováquia, uma obra dramática apresentada no Teatro Nacional de D. Maria II. No verão de 2007, na Tunísia, preparou o Livro das Aves.
    Em Lisboa, a quinze de Novembro de 2009, “um dos filhos imaginários torna-se real às cinco da tarde” e fá-lo sentir-se “um homem novo” saudado pelas outonais folhas ocre das Avenidas Novas. Em Lisboa, a escrita, “uma actividade perigosa” a requerer evasões. E, também, uma residência artística na Cadeia do Linhó, a orientação de um curso de poesia no Hospital Psiquiátrico do Telhal, a colaborações com companhias do teatro: saberes repartidos em espírito solidário. Presumimos que, para além da expressão escrita, também é exímio na gaita-de-foles com a qual surge, com cabelos compridos de homem-menino, numa página do JL de Maio passado.
   

   
 2. A TERRA
    Ao proferir, em 1941, nas Pedras Salgadas, no decurso do Segundo Congresso Transmontano, a conferência “UM REINO MARAVILHOSO” (Trás-os-Montes), Miguel Torga caracterizou, com o seu proverbial telurismo, uma região ainda hoje conotada com atraso civilizacional. A este documento ímpar, acrescente-se uma comunicação talvez menos conhecida que completa e enriquece a anterior: trata-se de “Trás-os-Montes no Brasil”, apresentada em 1954 no Rio de Janeiro e em S. Paulo. Dois documentos histórico-literários escritos de forma magistral e onde, se algum pormenor físico ou humano lhe escapou, foi a referência à riqueza intelectual albergada em terras inóspitas e desprotegidas de bênçãos governamentais. Aí pode ler-se:
“O destino quis que houvesse no topo da pequena leira lusíada uma costeira onde tudo tivesse carácter e dignidade. Que a vista disfrutasse dali perspectivas originais, que a enxada patenteasse na dureza dos torrões a dureza do aço, que o fole do peito se enchesse por inteiro a cada respiração, e que todos os seres nados e criados num tal ambiente estivessem à altura destas premissas. E Portugal encontrou em Trás-os-Montes o seu telhado, a lousa que lhe resguarda as virtudes, a saúde física e moral, a tenacidade mourejadora, a pureza dos costumes e a expressão mais nobre e acabada das feições interiores. […]
                Percorra-se o planeta. Onde estiver um transmontano está qualquer coisa de específico, de irredutível. E porquê? Porque mesmo transplantado, ele ressuma a seiva de onde brotou. Corre-lhe nas veias a força que recebeu dos penhascos, hemoglobina que nunca se descora.”

    Trás-os-Montes não é uma região desconhecida, é, sim, uma região mal conhecida. Apesar dos progressos viários e da rapidez da comunicação, não falta quem veja este território apenas como uma série de sedes gastronómicas: Mirandela, para a alheira, Chaves, para o folar, Lamego, para o presunto, Miranda para a posta, Vinhais, Montalegre e Boticas para o fumeiro, Vila Real para as tripas aos molhos ou para as cristas de galo. É redutor, convenhamos!
    Aliás, esse sobranceiro olhar de esguelha para os que por cá nada mandam, contrariamente ao que apregoa o provérbio, encontra-se, já, no Amor de Perdição onde um Camilo ressabiado e com as costas ainda a gemer das bordoadas que por cá mereceu, pôs na boca de D. Rita, em 1784, ao chegar a Vila Real, esta pergunta: “Em que século estamos nós nesta montanha? (…) Cuidei que o tempo parara aqui no século doze…” E ainda disse, saudosa da corte, que “os fidalgos de Vila Real eram muito menos limpos que os carvoeiros de Lisboa.
    Não há muito tempo, acompanhando, via televisão, uma entrevista com um realizador de cinema português, explicou o dito que uma das personagens femininas e jovens do seu filme em rodagem tinha partido para Trás-os-Montes onde passaria o tempo necessário para engordar e adquirir um ar saloio. Espera-se que a menina, feita cachopa, tenha ido sebada a contento…
    Em contrapartida, e indo ao encontro de um escritor que, segundo o nosso autor, foi uma das suas matrizes de escrita – Vergílio Ferreira- permitam-me a leitura de excerto de uma entrada de um dos volumes do seu Diário, Conta-Corrente:

    “E a certa altura da conversa no jantar, voltei à minha teoria da distribuição geográfica dos nossos génios literários. E observei uma vez mais que eles se concentram no norte do país, sobretudo em Trás-os-Montes. Assim: Camilo (nascido em Lisboa mas contagiado no norte), Guerra Junqueiro, (…) Pascoaes, Raul Brandão, para não falar dos ainda vivos. (…) Tenho uma teoria para explicar isto. Não tenho pachorra para a expor”.
    Não vamos enumerar os escritores da região transmontano-duriense, do passado e do presente, mas temos gosto em reconhecer, entre os vivos, autores com obra consistente, qualitativa e quantitativamente, a viver, teimosamente, nas berças ou delas falando nas suas obras. Correndo o risco de falhar algum que mereça referência especial, avançamos os nomes de A.M. Pires Cabral, António Modesto Navarro, Bento da Cruz, Rentes de Carvalho, Luísa Dacosta. E se Tiago Patrício, tendo em Carviçais vivido até aos 19 anos, mantiver vivas as ligações à terra, aumentará, com todo o mérito, o rol. Tal como os apontados, não será um escritor regionalista, rótulo que alguns se apressam a colar levianamente em escritores cuja obra demonstra que, usando palavras de Torga, “O universal é o local sem paredes”.
2.       A OBRA
    O título de uma obra literária obedece, por vezes, a uma estratégia de marketing. Tem de ser apelativo, de preferência conciso (concisão não do agrado de Lobo Antunes, por exemplo), expressivo. Há nomes, e capas, e títulos, e críticas que vendem livros, mas para um escritor, mais importante que a magra percentagem que lhe cabe, conta a certeza de ser lido. Eu, confesso, fui logo atraída pelo nome do romance. Seguiram-se as críticas e a encomenda, na Livraria Branco, com quem já celebrei as bodas de ouro…
    Tiago Patrício afirma que, embora a acção se passe entre duas aldeias do concelho de Torre de Moncorvo, locais onde andarilhou a infância e a adolescência, ela poderia ter outros cenários, inclusivamente o nordeste brasileiro. Em entrevista, esclarece ter-se o livro chamado O Cair da Noite, nome escolhido, e bem, no meu entender, pelo fascínio que exerce na pequenada esse momento de semi-obscuridade criador de clima de mistério. Uma semelhança quase total com outro título publicado em Portugal inviabiliza a opção e empurra-o (ou empurram-no) para Trás-os-Montes: “resisti até ao fim porque não queria denunciar o sítio.” A verdade é que são constantes as marcas de ruralidade, e escassas as de transmontaneidade.
    Seja como for, aquelas gentes miúdas e graúdas movem-se bem naquele espaço de interioridade agreste, naquela região mítica onde o autor cresceu e se fez homem. Ao perpetuar as suas reminiscências da vida rural transmontana hoje semi-urbanizada e a perder, de dia para dia, os seus traços identitários, Tiago acaba por homenagear, assim o entendo, esse naco de Portugal onde nasceram gentes “que desde sempre andaram pelos caminhos do mundo sem quebrar a ligação à terra de origem” no dizer de Adriano Moreira.
   Mas vamos ao livro. Além da sinopse, que me atraiu pela identificação da temática abordada, agradou-me o estilo logo na primeira página. (leitura). E fiquei rendida. E aqui estou, numa dupla função em que o autor quis investir-me: como representante da direcção da Academia de Letras de Trás-os-Montes (para o que me bastaria uma passividade de palavras parcas) e como apresentadora (obrigada, Tiago, pelo desafio). E, nesta qualidade, cumpre-me transmitir as minhas considerações sobre o livro, correndo o risco de não corresponder às expectativas. A tarefa não é tão fácil como pode parecer. Retirando as páginas de rosto e as extra textuais, o romance tem apenas 137 páginas, contra 400 do original. (“escrever é cortar palavras”). Só que a densidade da narrativa obriga a uma leitura atenta e reflexiva, não permitindo “saltos” de capítulos porque todos encerram elementos fundamentais para a compreensão do comportamento das personagens, sobretudo das infantis, verdadeiras protagonistas, investidas na função de surpreender e de desconcertar o leitor.
     A infância e a adolescência continuam a fascinar os escritores. Em alguns dos últimos livros que li, encontrei crianças e jovens cativantes e bem delineados. Por exemplo: o narrador de Somos todos um bocado Ciganos, de Manuel Jorge Marmelo, um menino de circo pobre, sonhava ter uma mota e fazer gemer as mulheres; Duarte, de O Teu Rosto Será o Último de João Ricardo Pedro, era um exímio beethoviano, mas sonhava com a vitória do Sporting na taça dos Campeões Europeus; Sabalu de Teoria Geral do Esquecimento de José Eduardo Agualusa, um órfão de 7 anos a viver na rua e que salvou uma idosa abandonada a si própria diz: “Como posso ser criança longe da mão de minha mãe?” Em Retorno, Dulce Maria Cardoso cria põe a narração na boca de um Rui frases tão saborosas como esta: “Os familiares da metrópole eram-nos ensinados pela mãe como matéria da escola ou da catequese”. E, recuando no tempo, por associação de ideias, fui ao reencontro de Gaitinhas, Maquineta, Sagui, Malesso e Gineto, pequenos operários sem escola nem infância, “vagabundos nas horas vagas”,criados por Soeiro Pereira Gomes em Esteiros, essa obra de referência do neo-realismo português. E, como que por magia, fui encontrar em Agostinho da Silva esta quadra:

Mais que tudo quero ter
Pé bem firme em leve dança
Com todo o saber de adulto
Todo o brincar de criança.

    Tratando-se, embora, de uma obra de ficção romanesca, a sua estrutura afasta-se do tradicional, ou seja, em vez de uma intriga principal a que se agregam intrigas secundárias com ela relacionadas, evoluindo, uma e outras, para um desenlace mais ou menos esperado, de acordo com as peripécias, aqui vamos encontrar uma série de episódios em sequências narrativas protagonizadas cada uma, por uma das crianças, acolitada pelas restantes e partilhada, sempre que oportuno, por adultos familiares. Os quatro miúdos a rondar os dez anos de idade funcionam, mais para o mal do que  para o bem, como um todo coeso, como uma equipa, partilhando as suas “riquezas” (a bicicleta nova do mais rico, a lanterna do avô do mais pobre, a espingarda de pressão do avô do remediado), a sua imaginação, os seus atributos físicos, a sua capacidade de “desenrascanço”, a sua curiosidade pelo funcionamento do mundo dos adultos que pretendem imitar. O suspense, neste romance, consiste em criar um clima de expectativa que consiste em saber quais os limites daquelas crianças, até onde pode levá-las a ânsia das descobertas, o espírito de destruição, a criatividade, a necessidade de realizarem experiências novas, a obsessão de se autoconhecerem, de dimensionarem a morte.
    Tudo isto, e mais ainda, transforma a ficção num manual de aprendizagens, num compêndio de psicologia infantil. Com efeito, estes ganapos são imprevisíveis, sobretudo quando põem à prova instintos perversos, mas próprios da idade, como a perseguição e a morte de animais, o engenho de chantagem, o espírito de vingança. Atingem as suas acções, por vezes, uma crueldade desarmante a obrigar o narrador, numa atitude morigeradora, a encontrar para cada criança um desenlace com sabor a castigo.
    Mais do que o espaço e o tempo contam, nesta original narrativa, as personagens, pela sua faixa etária, pela sua mundividência, pela poesia que delas se desprende, aqui e acolá, pela sua ingenuidade reguila, pela ternura que nos despertam e até pelo desafio que lançam à nossa capacidade de tolerância. Se bem que o autor da obra lhes tenha destinado um espaço de interioridade rural e lhes tenha atribuído ligeiras diferenças sociais, estas crianças são intemporais e universais. A fantasia e o sonho comandam as suas vidas. O tempo livre, para além da escola, e a pacatez do quotidiano aldeão, dão-lhes asas para grandes voos, para aventuras sem limites para o risco, para conluios cúmplices.
    Sem querer desvendar o destino de cada um, passo as adiantar alguns dos seus traços característicos.
    Teodoro é o filósofo do grupo. O melhor aluno da escola, um teórico que “via tudo pelos olhos dos outros”, incapaz de organizar ideias novas. “Era um actor que decorava bem o papel, mas não sabia o que estava a dizer.” Vive obcecado com a sua identidade. Receia um dia cruzar-se com outros Teodoros e, se tal acontecer, não saber ao certo quem é. O mais humilde de todos, vive numa casa pobre, em pedra escurecida pelo fumo e de telha vã. Nunca viu o mar. Tem propensão reflexiva e gosta de saborear as palavras: “Entretanto Teodoro lembrou-se dos pais, que nem todos os anos vinham a casa passar o mês de Agosto, especialmente do pai, de quem se lembrava cada vez menos. Ficaram-lhe apenas algumas palavras que ele usava muito, ‘categoria’, ‘inclusivamente’ ou ‘retaguarda’ e que Teodoro manteve apenas como sons, sem lhes associar um significado.” Gostava de acompanhar os mais velhos e de lhes agradar. Perseguia o sentido da vida. Era o bonzinho que chamava si as culpas das tropelias dos colegas. Teve o seu momento de glória ao resolver, numa classe mais adiantada, um problema, a pedido do Director. É comovedora a sua ingenuidade: “Admirava tudo em Oscar […] até por ter nascido de cesariana.”

    Desde que a mãe fugiu com outro homem e levou o filho mais novo, Edgar vive com o pai que tem uma mercearia: “Edgar nunca contava, mas Oscar e Teodoro sabiam que ele levava tanta porrada do pai, que chegava a ficar de cama.” Sabe guiar desde os nove anos. Juntamente com os dois rapazes consegue pôr a trabalhar a velha carrinha do avô. Sabe fazer cigarros com pontas de arbustos usados para vassouras. Põe a sua destreza manual e a sua criatividade ao serviço das picardias do grupo. É, sexualmente, o mais precoce: “Edgar mantinha-se excitado mais tempo e costumava dizer que ia conhecer muitas raparigas e explicava o que gostaria de lhes fazer.” Tal como Teodoro, o seu comportamento pode ser justificado com as carências afectivas advindas da ausência da mãe.

    Raquel e Oscar são irmãos, filhos de uma inspectora escolar cuja autoridade lhes serve de guarda-costas. A exemplo de Teodoro, falta-lhes a presença tutelar do pai. Oscar é violento, não assume responsabilidades, tem espírito de comerciante e complexos de superioridade: “Mas Oscar achava aqueles cigarros pouco competentes e disse que não metia a boca em paus de vassoura das mulheres do forno”. “Oscar tinha necessidade de fazer pequenas maldades para testar a própria sorte. Precisava de saber se estava fadado para um grande futuro ou se ficaria enredado desde cedo nessas picardias que lhe indicariam um destino vulgar”. “Oscar era das poucas pessoas no Largo com telefone em casa. […] Quando a mãe não estava em casa Oscar costumava ir para o quarto dela, onde havia um telefone azul, para escutar as conversas e usar certas informações para espalhar intrigas.”

    Raquel tem um estatuto próprio e é poupada, por ser menina, a algumas aventuras de que é mera espectadora. Surge com uma grande dose de feminilidade e, apesar da idade, revela-se conhecedora da técnica de sedução. Sabe quem a corteja, despreza Teodoro, um idealista teórico, e corresponde ao cerco de Edgar, um materialista criativo, mas de maus instintos. E sonha: “Edgar sabia guiar desde os nove anos e era com ele que ela seguiria sob aquele crepúsculo, até encontrarem um sítio para passarem a noite. Ele estacionaria o carro e iria abrir-lhe a porta para ela sair. Raquel gostava da forma como Edgar a tratava, mesmo que ficasse diminuído à frente dos outros rapazes, porque naquela altura os rapazes só tinham amizades masculinas, carregadas de uma certa dureza e ímpeto destruidor.” É, também, ingénua (“pensava que aquele cão iria para o céu quando morresse”), generosa, amiga dos animais, curiosa: “Ficava a olhar para os animais e queria adivinhar o que eles pensavam e depois dizia alto: ‘O que estás a pensar, galinha ou rola? E o gato? Como é que posso aprender a descobrir o que eles pensam?” Pensava no futuro: “Sabia que nunca seria médica ou juíza […] Talvez administrativa de um consultório sem conseguir ler a letra dos médicos ou auxiliar de educação numa escola secundária.”

    Relativamente ao espaço e ao tempo saliente-se que as acções decorrem numa aldeia do interior norte, maioritariamente ao ar livre, no Largo ou nas suas imediações. E também na igreja, em casa, e mesmo num dos cemitérios. Por isso, encontramos inúmeras marcas de uma ruralidade de há décadas. De quando as ruas ainda estavam atapetadas de bosta, ainda se ia buscar água às fontes, a electricidade tinha sido instalada havia pouco, se malhava o trigo na eira comunitária, se lavava a roupa nos tanques, as parelhas de burros lavravam a terra, as crianças andavam descalças e sem roupa, no verão, atiravam aos pássaros com fisgas, guardavam formigas aladas em caixas de sapatos para servirem de iscos. De quando o comboio era a vapor. De quando as mulheres urinavam em pé, afastando a roupa. E em que cozinhavam em potes de ferro, sobre as brasas. E em que o leite, resultado de ordenha manual, transitava das tetas das vacas para cântaros encardidos.

    Gostaria de chamar a atenção para outros aspectos do romance, surgidos marginalmente, mas revestidos de interesse documental. Aos atrás referidos, acrescento a emigração com as suas consequências enunciadas, noutro contexto, por Camões pela boca do velho do Restelo e por Gil Vicente em Auto da India. Damos o exemplo de Teodoro. Separado dos pais, pouco afecto lhes dedica e, no fim, o castigo que lhe está reservado, é deixar a aldeia e ir com eles para longe. O avô de cima contava-lhe histórias do seu tempo: “numa noite caíram dois atrás de mim. Ainda se ouviram umas vozes ao fundo da ladeira a tentar dizer uns nomes de mulheres. Era impossível voltar atrás e descer até às silvas. Continuámos, com a mão no ombro do da frente. Em certas noites usávamos um lenço branco no braço para nos vermos melhor no escuro. Agora toda a gente tem passaportes e já não há passadores.” E o narrador regista uma realidade comportamental: “Quando voltavam, vinham mudadas, os homens traziam relógios dourados e as mulheres sapatos de salto alto, que enfiavam nos buracos do Largo da Lameira, ainda por calcetar. Vinham no Verão, para as festas dos emigrantes, bebiam muito durante as noites do arraial e pagavam muitas rodadas a quem se chegava à mesa deles.”
    No aspecto religioso, registe-se a distribuição dos fiéis na missa, segundo a sua importância sócio-económica, a atitude da igreja relativamente aos funerais dos que determinam a própria morte: “O caixão seguiria directamente para o cemitério sem passar pela igreja e o padre escolheu o cemitério velho. Havia muitos anos que o portão não era aberto, mas ninguém permitia que se sepultasse um suicida junto aos jazigos dos familiares e no cemitério velho os mortos eram já demasiado antigos para haver quem se queixasse por eles.” E também o ritual da missa encarado como uma obrigação, como uma espécie de espectáculo em que os “actores” serviam aos miúdos de matéria de falatório maldoso: “Até o próprio coro lhe fazia impressão, era demasiado ligeiro e quase alegre, com aquelas raparigas mais velhas, no grupo à direita de Cristo, empertigadas durante os cânticos e depois com os cestos do ofertório a percorrer a igreja com roupas de cabaré, até os encherem de moedas de vinte e de cinquenta. Depois regressavam aos seus lugares junto ao altar, ao lado do corpo de Cristo sem roupa e em perigo eminente de cair da cruz.” E as tradições católicas das confissões em massa quatro vezes por anos com o confessionário austero reservado a pecados adultos, uma vez que a miudagem “inventariava “as suas faltas ao lado do padre, na sacristia.
   
    Termino esta apresentação com algumas notações de ordem estética. Como o autor refere, a primeira versão do romance parecia um guião dos “Morangos com Açúcar transmontano”, o que significa aparecer o produto final depurado na sequência de cortes sucessivos e tidas como excrescências susceptíveis de desviar o interesse dos leitores para o acidental com prejuízo do essencial – os episódios protagonizados pelas criança, a sua mundividência num agora que poderia ter sido um tempo outro, num espaço que, como ficou dito, é, por acaso, uma aldeia transmontana. A contenção da narrativa é assegurada com o uso predominante do substantivo e do verbo e com uma economia do adjectivo e do advérbio de modo. Assim, com o mínimo de recurso ao enunciado descritivo, a acção avança rapidamente. Não se atrasa esta com a caracterização física e psicológica das personagens. O primeiro aspecto é secundário e o segundo fica entregue ao leitor a quem cabe, perante comportamentos e atitudes, traçar o perfil de cada uma.
    A escrita é cativante e a sua riqueza está na simplicidade vocabular, na depuração, na economia de palavras, no tom enternecedor com lugar para a ironia e para a poesia e, tudo  isto, em adequação inteligente ao teor geral do romance. Os ganapos quase não dialogam, mas o narrador dá-nos a sugestão das suas falas. A linguagem é corrente mas expressiva. Parece-nos, pois, que Tiago Patrício segue um dos princípios da Retórica de Aristóteles, segundo o qual “a primeira qualidade do estilo é a clareza”.
    Termino com a leitura de excerto de um dos capítulos que mais me apaixonou:

    “No dia em que o Alferes morreu, fizeram-lhe uma sepultura funda e no fim colocaram várias pedras em círculo e espetaram uma cruz por cima. Raquel quis que dessem as mãos e Edgar ficou agradado, mas Oscar não quis participar; no fundo achava aquele cão pouco activo, demasiado dependente das mulheres e afeiçoado às crianças mais pequenas e desastradas. Tinha mais simpatia pelo Forrete, com quem costumava ir atrás dos gatos e dos patos à volta do pequeno lago de cimento.
    Então Raquel começou a dizer que desejava que o Alferes fosse para um lugar bom e olhou para Teodoro e pediu-lhe uma palavra de despedida. Ele lembrou-se de algumas orações possíveis para aquela hora, mas disse apenas, ‘que Deus guarde a sua alma para sempre!’”


4 de Agosto de 2012