13 novembro 2011

AQUI E AGORA ASSUMIR O NORDESTE


   No dia 8 de Novembro, foi apresentada no Grémio Literário de Vila Real, eficientemente dirigido por António Manuel Pires Cabral, uma antologia da sua obra, cuja organização resultou de uma proposta da Academia de Letras de Trás-os-Montes e do trabalho de Isabel Alves e Hercília Agarez. Chamaram-lhe estas AQUI E AGORA ASSUMIR O NORDESTE, por razões explicitadas pela primeira no seu texto de apresentação.
    A obra foi editada pela Âncora Editora, a exemplo do que aconteceu com títulos anteriores do escritor.
  A sessão foi orientada por Elísio Neves, que leu uma eloquente mensagem de Ernesto Rodrigues, presidente da direcção da Academia, que se fez representar por Pinelo Tiza, seu vice-presidente.
    Perante uma numerosa e atenta assistência, as autoras apresentaram a obra, tendo Isabel Alves pondo o enfoque sobretudo na poesia, de que é estudiosa, e Hercília Agarez na prosa, de que é admiradora desde 1983.
    Das intervenções de cada uma apresentam-se os excertos seguintes:


Começo pelas justificações: a pedido da Academia, a ideia de se fazer uma antologia sobre um dos escritores mais singulares da actual literatura portuguesa que, numa coincidência feliz, nasceu e vive em Trás-os-Montes. Para além disso, é alguém cuja obra se aproxima da realidade destas terras - realidade geográfica, botânica e faunística – e dedicou atenção aos homens que a habitam. E muito sinceramente, é disso que se trata: atenção, um olhar intenso e observador, um espírito aberto e largo que confere ao familiar um estatuto de singularidade e importância. Atenção, como se disse não só à geologia, ao solo, às plantas, ao clima, aos animais, mas também (e sobretudo) ao homem : ao seu relacionamento com o mundo natural acima referido, ao seu relacionamento com os outros homens, ao relacionamento consigo mesmo. A obra de Pires Cabral, como a de todos os autores maiores, desenvolve um olhar atento, usa as palavras de forma precisa e cuidada de modo a permirtir-nos, a nósleitores, uma visão do mundo mais clara e nítida. Justifica-se pois que a Academia sublinhe a produção literária deste autor.
Alguns críticos já situaram AMPires Cabral dentro da história da literatura portuguesa: uma voz que se compõe de outras vozes, essas que vão desde o Cancioneiro, à tradição Clássica (como não sentir implicita e explicitamente referências a Camões?), a Torga, A Eugénio de andrade, a António Osório. Alguns críticos alargaram ainda mais o diálogo entre a obra poetica de PC e a de poetas tais como: D.H lawrence, Robert Lowell, Seamus Heaney. Com este último mantém, segundo creio, relações de proximidade (não falo de influência), são duas poéticas que se tocam; Heaney lembra, por exemplo, que Dante, Wordsworth e Auden são homens profundamente  enraízados num lugar particular, tendo sido capazes de articular o sentimento de pertença que nasce da certeza de habitar um espaço preciso e familiar. 
(…) Na última grande entrevista – concedida à revista Ler, 2008,  - o poeta assumiu que o seu primeiro livro, Algures a Nordeste (1974), se revestiu de um processo de afirmação de uma região, através dos seus lugares, das suas pessoas, dos seus costumes, dos seus bichos. E daqui surgiu a ideia de dividir a obra de Pires Cabral em lugares, homens e bichos, pois tal divisão permite que por um lado se acentue o relevo, o perfil de uma paisagem, mas, por outro lado, é uma visão que permite alcançar todo o horizonte, ou seja, a totalidade da sua produção literária. Igualmente, foi nosso propósito realizar uma antologia não para trás-os-montes mas de trás-os-montes para o mundo, ou seja, uma antologia que, ao mesmo tempo que situa o autor num espaço preciso, tornasse claro que a sua visão do mundo, trazendo embora agarrado o chão de onde as palavras crescem, é sobretudo altura, voo, canto universal. Assim sendo, partindo de um lugar, de um saber, o objectivo da antologia éo de acrescentar um sentido à obra já extensa de PC: de a sublinhar, de ilustrar a organicidade e coesão de uma obra que, passando por vários géneros, é no domínio da poesia que mais se tem destacado.
O nosso objectivo - enveredar por uma perspectiva temática era também um risco; mas à imagem do autor, decidimos assumi-lo. Mas assumi-lo justificadamente: veja-se esse texto belíssimo que nós escolhemos como ‘pórtico’, ou seja, como entrada para um reino de Água e Pedra. Aí o autor sublinha o que nos pareceu essencial: “em Trás-os-montes como em nenhuma outra parte homem e lugar soldam-se íntima e prodigiosamente”. E afirmou mais (e com isso nos deu confiança): “Nasci aqui, assisto ao grande espectáculo telúrico e humano de Trás-os-Montes há mais de cinquenta anos e há quase outros tantos que amorosamente cismo nele – credenciais bastantes para ousar uma leitura da identidade complexa, impetuosa, atormentada e excessiva do povo que somos, feita de heroísmos e martírios sem nome.”
Dividimos então a obra em três partes – Lugares, Homens e Bichos – e para cada uma das categorias fomos encontrando (não se tratou de tarefa árdua) textos que as ilustrassem – na poesia, na prosa e nas crónicas. Julgamos que esta escolha reflecte o que de mais fundamental preside à obra de AMPC. Assim, foi nosso propósito distinguir a sua voz poética, a sua capacidade efabulatória e de criação de personagens, a sua muito aguda ironia, que presente embora nos outros dois domínios literários, tem por vezes um campo mais largo na crónica (embora tb aqui se encontrem textos com passagens de grande beleza poética). Assim, em relação aos lugares, por exemplo, decidimos começar pelo poema incontornável da poética de PC: “Nordeste”, para de seguida referir o poema onde se arrica o grito: terra-mater. Estes são do nosso ponto de vista os poemas que cavam o chão, onde de seguida se planta, se colhe o vinho e o centeio, entre o inverno e o verão, numa terra dividida também  entre o cerejo e o castanho. A geografia do poeta tem lugares precisos –a Serra de Bornes, Malta, a Sé de Miranda, o rio Tua, o rio Douro, a Serra do Alvão, Barca de Alba e, como se diz no poema Penedo Durão,’ tudo com Castela/por alvo e testemunha.’
Dos homens, fica a certeza do trabalho duro, da variedade de vivências, do diálogo literário, da atenção aos mais velhos. E sublinho particularmente esses 2 poemas sobre os velhos de Grijó, pois para além de nos fazerem deter sobre uma realidade que é a nossa, mostram a insistência do olhar: um publicado em 1974 e outro em 2009. De notar também que esse olhar se faz em aprofundamento das emoções, refinamento da linguagem, do alargamento da sugestão.
(…)É uma poesia que, tal como outras artes contemporâneas, obedece ao tempo que é o nosso. Já não se pinta figurativamente; depois do Modernismo (depois de Fernando Pessoa), depois de duas Grandes Guerras, depois do avanço tecnológico imenso que entrou na nossa vida e no nosso ritmo, a nossa vida é mais fragmentação e estilhaço do que continuidade; daí a poesia de PC privilegiar a sugestão, a justaposição, o fragmento.
A experiência transmontana surge assim reconfigurada, ou seja, embora encontremos na produção literária de AMPC referências concretas à região – solo, relevo, clima, vegetação, as culturas, os animais, aos homens – é um tras-os-montes reconfigurado que nos surge: sublinhado pela olhar do escritor, acrescentado de uma singularidade que multiplica e intensifica a nossa percepção dessa região.[cf Alto tras-os montes. Estudo geográfico, Vergílio Taborda].
 (…)A academia de letras de Trás-os-Montes, a Hercília e eu tivemos como objectivo sublinhar a importância e a singularidade da obra de PC; que ela é única, testemunham-no os seus textos; da nossa necessidade de arte (em tempo de crise) diz a citação de Perfecto Cuadrado Fernandez com que termino:
“a utilidade da literatura é enorme e múltipla: além de matar a fome, serve para não morrermos nem nos matarmos uns aos outros de tédio e de rotina e redundante sordidez. A literatura – ou se quiserem, a arte em geral – é a coisa mais importante deste mundo, porque pertence o menos possível a este mundo e o mais possível a esse outro mundo onde gostamos de nos imaginar e pelo qual também muitos morreram ou chegaram mesmo a matar-se.A literatura é, portanto, uma terapêutica de acção múltipla (…), que contribui para manter a paz na República, que aumenta o índice de felicidade dos cidadãos e que poupa assim ao erário público somas importantes nos domínios da segurança e saúde”.
Que o leitor possa encontrar na obra aqui apresentada o seu quinhão de bem-estar e que através destes textos sobre a oitava direcção do mundo sinta que pode subir pela minúcia destas palavras à conquista do céu, ou seja, do mundo que é o nosso. (cf.  Quinta do Noval, 39).

Isabel Alves


(…) Da poesia à prosa

    No já referido texto “Água ágil, pedra estável”, Pires Cabral caracteriza magistralmente e com conhecimento de causa este povo nascido e criado numa interioridade que não falta quem associe a atraso social e civilizacional. Incluindo-se com legitimidade nessa gente, recorre a um plural vaidoso e assumido: “NÓS, OS EXCESSIVOS TRASMONTANOS…”
    Excessivos na variedade paisagística de que a orográfica tem a supremacia recatada, em partilha fraterna com veigas, planaltos, rios e ribeiros, somo-lo (incluo-me na lista) em património edificado, em singularidade de alguns usos e costumes que enfrentam, com heroicidade, o peraltismo da civilização, em espírito franco e solidário, em arreigamento a raízes telúricas.
    Talvez por tudo isto e pelo que foi omitido quanto a cantos, recantos e encantos da nossa geografia física e humana, somos, além disso, excessivos em riqueza cultural, nomeadamente literária. Estamos a pensar em vultos como o Pe. Manuel da Nóbrega, Trindade Coelho, Abade de Baçal, Guerra Junqueiro, João de Araújo Correia, Teixeira de Pascoaes, Miguel Torga e tantos outros de menor projecção, mas representantes dignos do nosso espaço como Campos Monteiro, Pina de Morais, Domingos Monteiro, Fausto José Teixeira.
    É consensual considerar A. M. Pires Cabral o maior escritor transmontano vivo. Decorre esse consenso da pluralidade, qualidade e quantidade da sua obra. Embora ponha um toque de literariedade em tudo o que escreve, vaza o seu talento de escrita na poesia (“o recheio dos seus dias”), no conto, no romance, no ensaio, na crónica, no texto dramático e até no conto infantil. Ele é um incansável vigilante da palavra, parece tratá-la, como fez Eugénio de Andrade, “como cristal” e gostar de “desfolhá-la, pétala a pétala”, como Luísa Dacosta.
    Apesar da sua opção de residência, (“onde se pensa que só a ignorância retrógrada domina”, no dizer do poeta e ensaísta duriense Joaquim Manuel Magalhães), ciente das restrições inerentes a uma interioridade madrasta, conseguiu, o que é assinalável, impor-se no panorama das letras nacionais, sobretudo a partir de 1983, data do Prémio que lhe foi atribuído pelo romance Sancirilo. A esse se seguiram o Prémio D. Dinis, 2006, o Grande Prémio da Literatura DST, 2008, o Prémio de Poesia Luis Miguel Nava, 2009, o Prémio de Poesia do Pen Clube, 2009 e o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco. 2010, da APE.
    Numa longa entrevista/reportagem de Outubro de 2008 da revista LER que na capa chama a atenção para “A. M. Pires Cabral, um poeta no meio das montanhas”, além de patentear a sua habitual fotogenia, o próprio fala da sua obra, com realce para a poesia, respondendo com frontalidade a perguntas feitas, de molde a ajudar o leitor a melhor interpretar as suas opções vivenciais e estéticas. Quando lhe perguntam se há uma literatura transmontana, responde:
“Há, quanto mais não seja de um ponto de vista geográfico. Mas é mais do que isso. A minha, em muitos livros que escrevi, é claramente transmontana na medida em que vai buscar a matéria a Trás-os-Montes, às pessoas, aos usos, aos costumes, às terras.”
(…) Explicado que foi por Isabel Alves o critério da organização desta antologia, cumpre-me referir o que presidiu à selecção dos textos em prosa, quer se trate de romances, quer de crónicas. Sendo o primeiro a subordinação temática ao título e à estrutura da obra, é de registar o carácter autónomo de cada excerto que permite ao leitor apreciá-lo desintegrado do seu corpus. Poderá ele, assim, degustar a limpidez e sobriedade da escrita, a adequação dos registos, o pormenor descritivo, o rigor da captação de um real/rural (físico e humano), a exaltação telúrica, a conjugação perfeita do erudito com o popular, o sentido de humor, a riqueza da linguagem e do estilo.
(…)
    O nosso poeta assume, na referida entrevista: “Eu sou muito adepto da literatura legível”. Mais uma afinidade com Miguel Torga que regista no Diário XIV em entrada de Abril de 1984:
    “ A entronização dos escritores, agora faz-se pela negativa. Quanto menos legíveis, melhor. Acovardada ou cúmplice, a crítica jura e bate o pé que sim, que são obras-primas esses trambolhos que vão atulhando as montras. Autores e promotores esquecem-se apenas de um pormenor: que a propaganda ruidosa, que violenta a boa fé do leitor de hoje, já não poderá enganar a curiosidade amanhã. É mesmo esse o encanto do futuro: nenhum dos seus juízos ser motivado pela agressão publicitária do presente. (…)”
    Antologia significa etimologicamente colheita de flores, florilégio. Tem também o sentido de colecção de textos escolhidos de um ou mais autores. Interessante analogia, bem a propósito da que estamos hoje a apresentar. Felizmente adoptámos o critério temático e não o da qualidade e, mesmo assim, Deus sabe quão difícil foi a tarefa. Se tivéssemos tido de escolher o melhor, não nos restaria outra alternativa que não fosse a compilação da obra completa…
    E dizendo isto, passo a uma outra citação, não vão os ouvintes pensar que só leio Miguel Torga… Ouçamos Fernando Pessoa:
    “Algumas obras morrem porque nada valem; estas, por morrerem logo, são natimortas. Outras têm o dia breve que lhes confere a sua expressão de um estado de espírito passageiro ou de uma moda da sociedade; morrem na infância. Outras, de maior escopo, coexistem com a época inteira do país em cuja língua foram escritas, e, passada essa época, elas também passam; morrem na puberdade da fama e não alcançam mais do que a adolescência na vida perene da glória. Outras ainda, como exprimem coisas fundamentais da mentalidade do seu país, ou da civilização a que ele pertence, duram tanto quanto dura aquela civilização; essas alcançam a idade adulta da glória universal. Mas outras duram além da civilização cujos sentimentos expressam.” Espero que seja este último o seu caso.

   E, “aqui e agora, assumindo o nordeste”, com uma autoridade advinda da co-autoria deste trabalho, lhe ordeno que continue a escrever, que não deixe secar essa torrente de inspiração límpida e transbordante.
   Num tempo de trigais pseudo-literários inçados de joio, você cresce, qual espiga saudável e promissora, e nós cá estamos ávidos de lhe apanhar os grãos
  
M. Hercília Agarez

HISTÓRIAS QUE O POVO TECE – CONTOS DO MARÃO de Hercília Agarez


    Realizou-se no passado dia 4, em Vila Real, a sessão de lançamento do primeiro livro de ficção de Maria Hercília Agarez,, que publicou, em 2001, A BRINCAR QUE O DIGAS, Crónicas, e MIGUEL TORGA; A FORÇA DAS RAÍZES, ensaio, em 2007. O evento teve lugar na Escola Secundária Camilo Castelo Branco, onde a autora leccionou, e a apresentação coube a Ana Paula Fortuna, sua colega de grupo e de afectos.
    Após ter passado imagens da fadista Marisa a cantar um fado em que fala do povo, protagonista da maioria dos contos da colectânea, a apresentadora focou os seus aspectos mais relevantes, tendo destacado o que a seguir se transcreve:

Há uma música do povo,/ Nem sei dizer se é um fado / Que ouvindo-a há um ritmo novo / No ser que tenho guardado. Estes são versos deste belíssimo fado entoado por Mariza e que são da autoria do nosso querido poeta Fernando Pessoa. Fala-nos do povo, da música, do ritmo novo que esta imprime ao ser que todos guardamos na memória. Que relação com este livro? Toda. Primeiro este livro cheira e sabe a povo, tem a sua melodia. Em segundo lugar, se atentarmos no título da obra, somos imediatamente transportados para o poema do insigne poeta Fernando Pessoa O Menino de sua mãe, mais precisamente para o verso grafado entre parêntesis (Malhas que o império tece). E então? Histórias que o povo tece, histórias construídas malha a malha pela inteligência do narrador que ora se revela em comentários bem-humorados, irónicos ou afectuosos, ora se esconde, dando ênfase às personagens. Do império nada mais resta que o povo e a sua língua que, segundo o mesmo poeta, é a nossa pátria.
(…)Tenho esperança que o registo escrito destes contos permitam a alguém futuramente reconstituir o que pouco a pouco está a ser destruído e que estes possam constituir memória deste Povo e desta Pátria desaparecidos no combate dos números, essa terceira guerra mundial de que ninguém parece aperceber-se. Por isso os livros são histórias e também História e, consequentemente memória.
(…) Foi com o povo e com a tradição oral que tudo começou. Era à lareira que se ouviam as histórias que os diferentes membros da família contavam, revezando-se na tarefa para não tornar monótonos os serões. Contudo, existiram sempre os exímios contadores de histórias que agregavam à sua volta toda a gente, pelo toque especial que conferiam às suas narrativas, interagindo com os ouvintes sequiosos das suas palavras. Esta é a experiência que vivenciamos, quando lemos Histórias que o povo tece de Hercília Agarez. A autora partilha connosco quinze histórias na sua maioria divertidas, temperadas com o humor e espírito crítico que lhe são característicos.
A literatura de tradição oral viveu destes episódios narrados de geração em geração, contados pelos mais velhos aos mais novos que, depois, por sua vez, se encarregavam da transmissão da sua herança.
(…) Divaguei talvez um pouco… Ou talvez não, se pensarmos que o livro que estamos a conhecer é fiel depositário de memórias e um interessante tributo à literatura de tradição oral. Dirão talvez neste momento: mas ela ainda não falou do livro…
Falei, falei. Falei de gente jovem que parte à procura de oportunidades, tema aflorado nos contos A licença de caça e A Tia Ana Mocha e o euro, tratado mais largamente em O Padre da Penana pessoa do Zeferino, o “portuga” de fato e sapatos claros, moreno de pele, de trejeitos amaneirados, dois dentes de ouro, indício de uma riqueza suada em terras do samba e dos coqueiros e deliciosamente conseguido nesta passagem de História de um violino:
A Preciosa tinha ido para a Suíça com o homem, o Ilídio da tia Zefa. Por lá se enraizaram, lá lhe nasceram os três filhos, ganharam bom dinheiro a trabalhar numa fábrica de relógios e da aldeia nem sombra de saudade. Vinham aí passar uns míseros quinze dias de dois em dois anos e estavam tão mortos pelo dia da partida como a mãe por os ver pelas costas.
Aquela canalha estrangeira não a sentia como sua. Daquela algaraviada que falavam, não entendia patavina e, desconfiada, pensava que estavam a fazer pouco dela, das roupas humildes, do poupo, do avental, das socas e da maneira de ajeitar o lenço na cabeça.
Um dia perdeu a paciência. Os dois netos mais miúdos desataram a abrir as goelas como se estivessem a esfolá-los. Guinchavam ao desafio e aquela gritaria tinha vindo para ficar.
Não se conteve:
– Carago! Rais partam nos fedelhos! Ao menos a berrar falais todos a mesma língua…
 (…) Outros temas poderiam ser referidos, todos eles trabalhados com a mestria da autora que sempre lhes imprime o seu cunho pessoal e intransmissível.
A linguagem é sempre especializada: popular na voz do povo, cuidada na voz do narrador, a quem não falta vocabulário específico da vitivinicultura e de outros temas.
O conhecimento neste livro é muito e extremamente proveitoso, não faltando referências à cultura e literatura francesas particularmente caras a todos os que são cultos.
O narrador conta as histórias em terceira pessoa num aparente distanciamento, traindo-se, no entanto, no conto Xanica: Dos Pergaminhos aos afectos precisamente pelos afectos que exigem uma primeira pessoa na recepção de uma gata que se estava nas tintas para os pergaminhos aristocráticos, optando pelo fofo dos regaços e pelas carícias da plebe.
Atente-se, entre muitos outros aspectos de destaque, no pitoresco dos nomes desta gente com quem terão de conviver na leitura desta obra: do lado dos pergaminhos, a Menina Benvinda do Céu Pureza da Cunha, Senhora D. Leogevilda Boaventura de Castro Noronha, Menina Cândida Inocência do Espírito Santo, Senhora D. Florência Augusta Mendes Alvarenga, Senhora D.Piedade da Purificação Trindade Palmela, Senhora D. Hermenegilda dos Anjos Silvestre, esposa do Dr. Acácio Tiradentes Silvestre (por mero acaso médico odontologista) e, do lado do povo, Manel Hortelão, Quinhas da Eira, ti Zé da Mula, Artur Pastor, Ana Pinta, Micas Tecedeira, Rosa Correcha, Berta do Arnesto,Rodas Baixas, Tonha Pinguinhas, Chico da Venda, Rita Ratada, Bento Moleiro, Rufina Parreca, Teresa Fazminga, Zé das Iscas, António Grilo, Marcelino da Quelha Torta, Zé da Poda, Júlio da Manca, Preciosa Nabiça, Terêncio da Mestra,Francisca do Vi-ou-Racha, Jeremias Bigodes, Afonso da Biquinha, Arlindo Zarolho, Berta Coruja, entre outros.
Não sei se esta é uma guerra de classes, nem quem sai vencedor, mas nestas coisas há sempre um equilíbrio, até na rivalidade entre aldeias que aparece num aparte do narrador no conto Escrever direito por linhas tortas:

[A propósito desta aldeia, próxima de Vila Real, na estrada para Murça, não resiste o narrador a contar um episódio bur­lesco. Famosa pelo seu cruzeiro e, sobretudo, pela sua fonte romana, causava a inveja aos de Merouços e de Alvites que, para arreliar os habitantes, lhes diziam: “Sanguinhedo é terra de putedo.” A resposta à letra era difícil, por dificuldades rimáticas, pelo que se limitavam a mandar os vizinhos àquela terra escrita em letra minúscula e para onde são tantos os mandados como para o melhor destino turístico…]
À boa maneira do povo…
Resta-me terminar, com uma citação de Maquiavel: Para bem conhecer a natureza dos povos, é necessário ser príncipe, e para bem conhecer a dos príncipes, é necessário pertencer ao povo.
Boas leituras!

Ana Paula Fortuna

A finalizar, Hercília Agarez apoiou as suas palavras num powerpoint em que apresentou marcas resistentes de uma ruralidade em vias de extinção e por ela captadas em aldeias referidas nas suas narrativas.

    

08 novembro 2011

Lançamento de Ls Quatro Eibangeilhos



CUMBITE
La Sociedade Bíblica i la Associaçon de Lhéngua Mirandesa ténen l gusto de bos cumbidar pa l salimiento de la obra Ls Quatro Eibangeilhos, traduçon an mirandés de Amadeu Ferreira
l die 12 de nobembre (sábado) a las 16h30 na Lhibrarie Ferin, na Rue Nuoba de l Almada, n.º 70, Lisboua
cun apersentaçon de l Porsor Aires Nascimento, de la Academie de las Ciéncias de Lisboua



03 novembro 2011

Aqui e Agora Assumir o Nordeste



Dia 8 de Novembro de 2011, às 21h00, no Auditório da Biblioteca Municipal Dr. Júlio Teixeira (Vila Real):

Apresentação de Aqui e Agora Assumir o Nordeste, textos de A. M. Pires Cabral organizados por Isabel Alves e Hercília Agarez. 

A antologia é uma  iniciativa da Academia de Letras de Trás-os-Montes, que junta a sua chancela à Âncora Editora. 


06 outubro 2011

A. Pinelo Tiza é vice-presidente da ALTM

António Pinelo Tiza aceitou, hoje, 6 de Setembro, o lugar de vice-presidente na Direcção da Academia de Letras de Trás-os-Montes.
Segundo os estatutos, o membro agora cooptado será ratificado em próxima assembleia-geral.
Pinelo Tiza substitui no cargo Fernando de Castro Branco, que se demitiu por razões pessoais.

Ernesto Rodrigues

05 outubro 2011

Salimiento de MENSAIGE de F. Pessoa, an mirandés




Salimiento




MENSAIGE 
de Fernando Pessoa



L poeta ye eiditado pula purmeira beç an lhéngua mirandesa, cun traduçon de Fracisco Niebro

Casa Fernando Pessoa (Rua Coelho da Rocha, 16 – Campo de Ourique, Lisboa)
14 de Outubre (sesta), 18h30


La Zéfiro, l'Associaçon de Lhéngua Mirandesa i la Casa Fernando Pessoa cumbídan-bos pa l salimiento de l lhibro “Mensaige” de Fernando Pessoa nel die 14 de Outubre, Sesta, a las 18h30.
Staran persentes Amadeu Ferreira i l poeta Fernando Castro Branco, outor de l'Antrada, que apersentará l lhibro, i ls eiditores.
Este ye l purmeiro lhibro de Fernando Pessoa a ser traduzido pa la lhéngua mirandesa i faç parte de la coleçon “An Mirandés” de la Zéfiro.

01 outubro 2011

Tertúlia literária

 
Decorreu ontem à noite na Biblioteca Municipal de Bragança, de forma viva e participada, mais uma Tertúlia Literária: organização conjunta ALTM - CMB. A comemoração dos 150 anos do nascimento de Trindade Coelho foi o tema de há muito agendado para a já habitual conversa em torno de livros e autores transmontanos. O ficcionista, o jornalista, o pedagogo, o jurista, o homem politicamente empenhado foram algumas das facetas do autor do Mogadouro abordadas pelos presentes. Ao Doutor João Cabrita, estudioso do autor, coube a explanação mais circunstanciada. Fernando de Castro Branco moderou a sessão.



26 setembro 2011

Informação

O poeta Fernando de Castro Branco cessa as funções de Vice-Presidente da ALTM, «unicamente por motivos do foro pessoal», frisa.

O Presidente da Direcção da ALTM louva a sua colaboração, informando, em breve, da recomposição desta.

 
Ernesto Rodrigues

23 setembro 2011

Tertúlia dia 29 de Setembro


Biblioteca Municipal de Bragança
            29 de Setembro, 5ª Feira às 21.30
 
                  Tertúlia Literária
 
              "Trindade Coelho - 150 anos"
 
Organização conjunta ALTM/CMB, com os convidados especialistas na obra de Trindade Coelho Drs. Hirondino Paixão Fernandes e João Cabrita
 
 
 
 

19 setembro 2011

O Romance do Gramático em Lisboa

O Romance do Gramático (Gradiva), de Ernesto Rodrigues, é lançado no dia 4 de Outubro, às 18,30h, no Espaço do Autor da Bertrand Chiado, Rua Anchieta, n.º 15, em Lisboa.
A apresentação será feita por José Manuel Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Escritores.
Inspirado na vida de Fernão de Oliveira, autor da pioneira Gramática da Linguagem Portuguesa (1536), o também poeta, crítico, ensaísta e tradutor regressa à ficção 17 anos após Torre de Dona Chama.
Ernesto Rodrigues é professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes. 

06 setembro 2011

Lançamento de O Romance do Gramático



Ernesto Rodrigues apresenta, no dia 15, às 18,30h, na Biblioteca Municipal de Bragança, O Romance do Gramático (Gradiva), inspirado na vida de Fernão de Oliveira, autor da pioneira Gramática da Linguagem Portuguesa (1536).
Poeta, contista e novelista, crítico, ensaísta e tradutor, o também romancista regressa à ficção 17 anos após Torre de Dona Chama, nome da vila onde nasceu.
Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Ernesto Rodrigues preside à direcção da Academia de Letras de Trás-os-Montes.    

20 agosto 2011

António Manuel Pires Cabral, a direcção da ALTM, as autoras e o editor da antologia Aqui e Agora Assumir o Nordeste no Centro Cultural de Macedo de cavaleiros, 13 de Agosto de 2011

09 agosto 2011

A. M. Pires Cabral homenageado pela ALTM


É no próximo dia 13 de agosto que a ALTM vai prestar merecida homenagem ao escritor A. M. Pires Cabral, presidente da Assembleia Geral, dia do seu 70.º aniversário. Todos estão convidados a comparecer no Centro Cultural de Macedo de Cavaleiros e a inscrever-se no almoço que se seguirá.







03 agosto 2011

Ernesto Rodrigues


Nos passados dias 27 e 28 de Julho, prestou provas de Agregação na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, o presidente da ALTM, Ernesto Rodrigues, professor naquela Escola.
O candidato superou as provas com êxito, daqui lhe endereçando os meus parabéns.
Foi um privilégio ter podido assistir à brilhante lição dada por Ernesto Rodrigues, no dia 28 de Julho, tendo como tema FASTIGÍNIA, obra de que fez uma edição monumental com mais de mil páginas, onde reune a imensa e profunda investigação realizada. Além da brilhante lição dada sobre aquela obra, Ernesto Rodrigues avançou ainda com argumentos novos e consistentes para atribuir a (controversa) autoria de A Arte de Furtar ao mesmo autor de Fastigínia, Tomé Pinheiro da Veiga, facto que, só por si, consttitui um feito notável e de grande relevância literária e cultural.

Amadeu Ferreira


02 agosto 2011

Fastigínia


Cem anos após a edição de Sampaio Bruno, Fastigimia (título incorrecto), sai Fastigínia (1605), de Tomé Pinheiro da Veiga (1566-1656), assente em 13 manuscritos. Pela primeira vez, falava-se em D. Quixote e Sancho Pança, mesmo num Cervantes enigmático, no quadro das festas de Valladolid, que acompanharam o nascimento do futuro Filipe IV.
Introdução, fixação do texto, variantes e notas (por Ernesto Rodrigues), com 24 reproduções de manuscritos, perfazem 1065 páginas, em capa dura.





Um livro bem-humorado, como raros, na literatura europeia.






25 julho 2011

APESAR DO VENTO


[Publicamos de seguida o belo texto que a Mara e o Marcolino Cepeda nos enviaram, com o convite renovado para partcipar no blogue que acabaram de lançar
http://nordestecomcarinho.blogspot.com/]



Apesar do vento, Bragança acordou hoje cheia de sol e de calor. Tudo convidava a um passeio sem horas. Nada de pressas, apenas o embeber a alma na natureza, sempre tão pródiga em pequenos e grandes detalhes, em belas paisagens, em perfumes simples e naturais.  
Podemos apreciar o belo azul do céu, o mais belo azul do mundo inteiro. Quem me dera poder transportar nos olhos este azul para onde fosse, mesmo que a alma e o coração estejam tristes e enevoados. Mesmo que a chuva caia insistentemente qual garoa paulistana, tão aniquiladoramente frustrante, como o sonho mais íntimo que não conseguimos realizar.
Trás-os-Montes brilha em todo o seu esplendor. Começamos a receber os imigrantes que por este mundo labutam sem nunca esquecerem a terra que os viu nascer.
Pertencemos ao sítio onde pela primeira vez o oxigénio nos feriu os pulmões ou onde involuntariamente emitimos o nosso primeiro vagido. É qualquer coisa inexplicável. Pode ser que a genética explique… Faz parte de quem teve a sorte ou o azar de aqui iniciar uma vida.
O nosso desejo é que este sentimento incompreensível que nos faz regressar sempre que a vida no-lo permite, possa, de alguma forma, repercutir-se a bem da nossa região.
O que nos move, a mim e ao Marcolino, é esse sentir. Foi por esse pressentimento que eu atravessei o Oceano Atlântico, não porque não fosse feliz em S. Paulo, mas porque estava escrito que era aqui que deveria estar.
Este blogue é um pequeno grão de areia neste mar imenso de meios ao nosso alcance para divulgar ideias, pessoas, actividades que nos obriguem a falar de Trás-os-Montes.
A generalidade das pessoas tendem a atribuir maior importância ao que é “estrangeiro” (entenda-se: “Santos da terra não fazem milagres”) esquecendo-se do que de melhor existe, à distância de um olhar, de uma leitura atenta, de uma tertúlia entre amigos pela madrugada fora, onde nos falam de conterrâneos que realizaram/realizam feitos verdadeiramente excecionais.   
Então, nasce a ideia de divulgar estas pessoas e os seus feitos. Muitos contactos realizados, alguns convites declinados, alguns quilómetros calcorreados em prol de uma ou outra entrevista, surgiu o programa de rádio.
Alguma pesquisa, alguma insistência, conseguimos reunir os dados necessários para estruturar a coluna vertebral do projecto.
Fizemo-lo. Foi para o ar e em oitenta e duas semanas tivemos o prazer de conhecer pessoas absolutamente fantásticas, cada uma com as suas características e particularidades, actividades e ofícios, sonhos realizados e por realizar com as quais aprendemos muito. Estas, pouco mais de oitenta, conversas dividiram-se por um período de três anos e de acordo com a programação da RBA.
Tentámos publicar em livro todo o material daí advindo mas não conseguimos que se concretizasse, por falha nossa, talvez. Ficámos incomodados. Tínhamos material de excelência que não podia ficar na gaveta.
Há momentos de alguma iluminação e, lembrei-me de que o poderíamos divulgar com a utilização das novas tecnologias da comunicação. Se bem pensado, melhor concretizado.
Aqui estamos e o que mais desejamos é atrair muitas pessoas para a nossa causa: a defesa da nossa região; a divulgação das suas potencialidades; o surgimento de ideias em prol do desenvolvimento. Enfim, gerar um fórum de discussão onde todos possam participar e colaborar para o bem comum de Trás-os-Montes.
Este é o sonho que nos move.

Mara e Marcolino Cepeda
Bragança, 24 de Julho de 2011