07 julho 2011

Tenreiro, Hughes e Mandela: Uma Conversa sobre Rios

                        Tenreiro, Hughes e Mandela: Uma Conversa sobre Rios

                                            
Maria Manuela Araújo

                           Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa


Resumo: As poéticas de Francisco José Tenreiro e de Langston Hughes são escritas do eu que fala da margem e questiona as hegemonias forjadas pelo ideário colonial moderno. As vozes dos dois poetas assinalam uma junção dialogante da diáspora contestatária moderna, à qual pertence outra voz maior da modernidade tardia, contemporânea, a de Nelson Mandela, de que a obra Long Way Walk To Freedom se constitui memória autobiográfica. Tenreiro fala sobre os mesmos rios de que fala Hughes em «The Negro Speaks of Rivers», um poema que é necessário mostrar e interpretar. Mandela atravessou rios famosos: «‘Ndiwelimilambo enamagama’». As três vozes em menção são actos ilocutórios do eu protestatário, gerador de relações transtextuais, a partir do mesmo motivo líder rio.
  
Palavras‑chave: modernidade, diáspora, autobiografia, intertextualidade, memória.



The Negro Speaks of Rivers[1]

                                                                    To W. E. B. Du Bois
I’ve Known rivers:
I’ve known rivers ancient as the World and older than the flow
of
         human blood
         in human veins.

My soul has grown deep like the rivers.
I bathed in the Euphrates when dawns were young.
I built my hut near the Congo and it lulled me to sleep.
I looked upon the Nile and raised the pyramids above it.
I heard the singing of the Mississipi when Abe Lincoln went
          down to New Orleans, and I’ve seen its muddy bosom
          turn all golden in the sunset.

I’ve known rivers:
Ancient, dusky rivers.

My soul has grown deep like the rivers.

Langston Hughes, 1926



O Negro Fala de Rios[2]
Para W. E. B. Du Bois
Conheci rios:
Conheci rios antigos como a Terra e anteriores ao correr de
sangue humano
em veias humanas.

A minha alma aprofundou-se como os rios.
Banhei-me no Eufrates ainda as manhãs eram jovens.
Fiz a minha cabana junto ao Congo que me adormeceu com o
seu sussuro.
Percorri o Nilo com o olhar e edifiquei as pirâmides por cima
dele.
Ouvi o cantar do Mississipi quando Abe Lincoln foi a Nova
Orleães,
e vi o fundo lodoso ficar como ouro ao sol‑pôr.

Conheci rios:
Rios antigos, nebulosos.

A minha alma aprofundou‑se como rios.

Langston Hughes, 1926



            As poéticas de Francisco José Tenreiro (n.1921 – f.1963) e de Langston Hughes (n.1902 – f.1967) dimanam do mesmo lugar tópico e partilham a estética negritudinista. São escritas de colocação subversiva, do eu que fala da margem, não da marginalidade, interrogando as hegemonias forjadas pelo ideário colonial moderno. A afinidade entre os dois poetas é clara nas menções explícitas que Tenreiro faz a Langston Hughes. A escrita do poeta afro‑americano inspirou as diásporas negro‑africanas modernas, particularmente a designada, por Mário Pinto de Andrade, de Geração de Cabral, tendo assim cumprido o objectivo primordial que incutiu no seu ensaio «The Negro Artist and the Racial Mountain»[3], de 1926. Aqui, Hughes defende a ligação do escritor negro a África, insistindo numa escrita racial não aculturada, a montanha que considerou íngreme de subir e o incompatibilizou com County Cullen.
            As vozes da Geração de Cabral falaram a mesma língua dos criadores que fundaram e alimentaram o sonho do New Negro, da Harlem Renaissance e da Jazz Age, bem como dos activistas políticos que, de Frederick Douglass a Martin Luther King, lutaram pelos direitos humanos e cívicos dos negros nos E.U.A. e no mundo. Repartida pelos dois lados do Atlântico, esta diáspora discursiva, à qual pertence a escrita de Tenreiro, dialogou solidária no inconformismo do exílio, externo ou interno, clamando um outro tipo de estado‑nação.
            A poesia de Tenreiro é um acto ilocutório de eu “de coração em África”, mas também de coração na África levada para as Américas. A poesia de Hughes desvela esta afinidade recíproca, porque o eu autoral em menção também viveu “de coração em África”. A África e as Américas, particularmente os E.U.A., são geografias comuns às duas poéticas. Os poemas «Negro de Todo o Mundo»[4], do poeta são‑tomense, e «The Negro Speaks of Rivers», do poeta afro‑americano, configuram‑se elementos de diagnose social e cultural de um intervencionismo recíproco entre a África e os E.U.A.
            Em Tenreiro, temos o discurso poético neo-realista da diáspora negro‑africana, escrita do exílio, em que o eu poético se enuncia num lugar fora de África. O título «Negro de Todo o Mundo» subentende uma relação dialógica identitária, fundada num topos de enunciação, que inscreve a errância humana numa escrita que concentra vários espaços culturais que se interferem: a Europa, a África e as Américas. Observando Tenreiro nos papéis de poeta, ensaísta, professor e político, como figura medianeira entre mundos, perante os quais adoptou uma posição a um tempo contestatária e conciliatória, importa citar Russell Hamilton:

E embora influenciada pela negritude de Senghor, Césaire e David Diop, a poesia de Tenreiro também tem sinais do negrismo cubano e do estilo da Harlem Renaissance. Ao entoar as suas invocações, exortações reivindicativas e protestatárias e a sua saudade africana, o sujeito poético viaja por África e pela «diáspora», ora fragmentando ora reintegrando o espaço geográfico e o tempo histórico.
                                                                                                            (Hamilton, 1984: 251)

            Entre outros africanistas e ensaístas, Alfredo Margarido[5] e Salvato Trigo[6] focalizam na poesia do poeta são‑tomense a influência afro‑americana da Renascença de Harlem, sem a qual qualquer estudo sobre Tenreiro estaria sempre incompleto. Também Fernando J. B. Martinho, quer no prefácio do livro Coração em África, 1982, quer na comunicação apresentada no colóquio de Paris[7], 1985, deixa bem claro o entrosamento literário dos dois poetas. De igual modo, Pires Laranjeira se refere à aceitação que Langston Hughes teve nos círculos intelectuais neo-realistas e negritudinistas portugueses, assim como no Brasil e em África, oferecendo um levantamento de situações textuais onde Hughes é publicado, traduzido e homenageado, referindo «A voga da poesia de Langston Hughes entre os neo‑realistas e negritudinistas que viveram os ambientes intelectuais de Lisboa, Porto e Coimbra, nos anos 40‑50 (e mais tarde), ou entre os brasileiros, mas também na África […]». (Laranjeira, 1995: 28, 29).
            O presente texto tem como objectivo ajudar a iluminar a relação de influência literária e ideológica entre a África e os E.U.A., bem nítida na poesia de Francisco José Tenreiro, oferecendo como contributo primacial a análise literária do poema «The Negro Speaks of Rivers», de Langston Hughes, um dos mais intertextualizados por Tenreiro, bem como por outros escritores africanos, configurando-se, assim, pertinente, trazê-lo para a clareira do bosque literário.
O poema «The Negro Speaks of Rivers» foi, sem dúvida, o mais glosado pelos poetas africanos da referida geração. O poeta que de forma mais evidente intertextualizou as palavras de Hughes, em especial do poema acima relevado, foi Francisco José Tenreiro. Ambos são poetas que, enquanto fora de África, sempre tiveram o “coração em África”, tal como dito no título metafórico do poeta são‑tomense, que sintetiza o fulcro identitário da reivindicada diáspora negro-africana, e em cujo poema é feita menção explícita aos mesmos rios antigos de que fala Hughes: «[…]de coração em África nos rios antigos que o Negro conheceu» (Ferreira (org.), 1982: 125). É manifestamente no segundo livro de Tenreiro, Coração em África, de publicação póstuma em 1964, que estão presentes composições poéticas que tematicamente o fazem de forma mais clara, invocando os mesmos rios já exaltados por Hughes, ou outros elementos simbólicos da vivência afro‑americana, ou ainda, a mesma África com que sonha o escritor afro‑americano.
Assim, cruzando e incorporando as palavras de Tenreiro, no poema «Amor de África»[8], «[…]a manhã outonal de nevoeiros calmos sobre o Tejo.» (v. 2) desperta no sujeito poético um sentimento de nostalgia de África, sendo este invadido por «Quatro pulsações febris de um corpo só/oh África do Nilo e do Zaire oh África do Zambeze e do Níger/quem em ti está pensando de coração em África?/ África dos rios velhos e ruínas ossificadas de Zimbabwé» (vv. 11-14).
O poema «Fragmento de Blues»[9], 1943, é dedicado a Langston Hughes e, tal como «Negro de Todo o Mundo», sofre a influência de Weary Blues[10], 1926, um conjunto poético do qual faz parte o poema «The Negro Speaks of Rivers». Em «Fragmento de Blues», a memória invade a solidão do eu poético através de um som de trompete, que traz até si «toda a melancolia das noites de Geórgia» (v. 4), sopro instrumental que, inesperadamente, se transmuta numa voz feminina acompanhada pelo piano, tocado em Harlem. O chamamento melancólico que vem das noites da Geórgia é o mesmo “blues” que chama o escritor afro‑americano Jean Toomer e o convida à visita da casa ancestral, representada na obra Cane. Cane é uma experiência experimental mística, de precisão lírica imagista, também fragmentada em momentos narrativos e dramáticos, mas em que o poema-canto «Song of the Son»[11] é a sagração máxima da escrita poética elegíaca, ao regresso deste filho pródigo à terra. Este é o “cântico do fim, ou do cisne”, que busca salvar o legado cultural do Sul dos E.U.A., prestes a desaparecer a “poente dos tempos”. A efusão lírica de Cane, ou “blues” sincopado pelo feminino, é o mesmo canto de «negrinha» (Est. II, v. 3) que acordou a tristeza de Tenreiro, desta vez vindo de Harlem. Em «Fragmento de Blues» os ritmos negros de Harlem, Count Basie, quebram o vazio do sujeito poético, tal como o fazem a escrita poética de Langston Hughes e de Countee Cullen: «E se ainda fico triste/Langston Hughes e Countee Cullen/Vêm até mim/Cantando o poema do novo dia/- ai! os negros não morrem/nem nunca morrerão!» (Est. IV).
Continuando a observar os matizes textuais isotópicos, que significam o apego do sujeito poético a uma terra e a gentes que considera suas, observe-se a composição intitulada «Nós, Mãe»[12], em que se dirige também, em forma de invocação saudosa, à terra‑mãe África: «E a ti, /Oh! Mãe de negros e mestiços e avó de brancos! » (Est. V, v.1). A África personificada num corpo negro de mulher, cansado e mirrado, a negra velha a quem o eu poético se dirige e lembra que «[…] [os seus] filhos não morreram[…] / [porque ele ouve] um rio de almas reluzentes/cantando: nós não nascemos num dia sem sol!» (Est. X), «Que um rio vem correndo e cantando/desde St. Louis e Mississipi» (Est. XI, vv. 1, 2). O rio em referência é o mesmo rio que o sujeito poético em «The Negro Speaks of Rivers» ouve igualmente cantando, quando Abraham Lincoln, a quem Tenreiro também dedica um poema, desceu a Nova Orleães com a boa nova, e o seu leito, ao pôr do sol, se transformou, adquirindo um tom áureo. Mais marcado pelo cosmopolitismo modernista temos o poema «Coração em África»[13], em que o sujeito deambula pelo quotidiano urbano, mas sempre de Coração em África - «[…]cogitando na pretidão do mundo que ultrapassa a própria cor da pele» (v. 64) -, invocando vários criadores modernistas, também Nicolás Guillén (v. 36), mas, particularmente, os rios antigos a que já se fez menção.
As vozes dos dois poetas assinalam uma junção dialogante da diáspora africana moderna, à qual também pertence outra voz maior, a de Nelson Mandela, de que a obra Long Way Walk To Freedom se constitui memória autobiográfica. O “longo caminho para a liberdade”, de que nos fala Mandela, é também interrompido por vários rios, rios que o sujeito teve de atravessar, os quais detêm um forte significado dentro da simbólica figurativa da dificuldade existencial do Homem na Terra. Da tradição para a modernidade, do saber ancestral para as aprendizagens vivencial, académica e política do hostil mundo do progresso, eis os obstáculos que levam o sujeito a proferir o ditado xhosa: «‘Ndiwelimilambo enamagama’ (‘I have crossed famous rivers’)».[14] O rio é, igualmente, no texto de Mandela, um motivo líder antigo, recontextualizado dentro do nacionalismo sul‑africano moderno, invocando o sentido de “atravessar” etapas várias e difíceis. Na autobiografia de Nelson Mandela, a metáfora “atravessar o rio” reafirma a sua carga simbólica, num contexto em que se pretende colocar em vacilação as bases da ritualizada cultura dominante, colonizadora, tornando visível a relação de conflitualidade entre colonizador e colonizado, as contrariedades várias, sofridas pelo ser que se vê dividido entre a Europa e a África. Assim se tece a discursividade dialogante de uma diáspora literária que, à distância, conversa sobre os mesmos temas, revelando uma consciência identitária transcultural de afiliações simétricas.

            Pelo já aludido merecimento que o poema «The Negro Speaks of Rivers» revela na discursividade diaspórica que tem vindo a concentrar a nossa atenção, passa-se à decifração analítica da sua semântica principal, a qual se inscreve dentro da tradição literária etiopianista. O texto poético «The Negro Speaks of Rivers»[15] veio pela primeira vez a lume em Junho de 1921, em The Crisis, jornal da associação NAACP, fruto de um gesto encorajador de Jessie Fauset. O poeta começou, alegadamente, a escrevê‑lo durante a travessia do rio Mississipi, explorando de forma muito criativa diversos traços do universo de semelhanças da metáfora rio: joga com características de ordem vectorial que o signo linguístico, no seu sentido literal, implica.
No que se refere à enunciação metafórica do lexema rio, a semântica da frase parece preservar os dois eixos isotópicos ortogonais, que um curso de água, no mundo fenomenal, permite imaginar: um eixo longitudinal e outro vertical. Corporizado no enunciado poético, os constituintes sémicos que formam o campo semântico de rio sugerem não só o movimento da corrente, da nascente para a foz - «I’ve Known rivers: […] older than the flow of human blood in human veins.»‑(vv. 2, 3), como também a dimensão tridimensional de volume, ao induzirem a direcção vertical de profundidade, através da reiteração - «My soul has grown deep like the rivers» - , em forma de refrão, ao longo da espacialização poemática. A linha imaginária vertical, sinónimo de profundidade no plano físico, contém ainda uma componente temporal, não de explicitação cronológica directa, mas de implicação causal indirecta, verificável através de índices sémicos, que sugerem um processo de erosão, determinante para o aprofundamento do leito do rio, o qual se configura como elemento de comparação com a alma do sujeito poético.
O poema, criado dentro do cânone literário modernista, coloca em evidência o seu sujeito de escrita e de enunciação, em particular circunstância de auto‑referencialidade, numa espécie de monólogo interior, ou em livre corrente de consciência, revivendo uma origem essencial, na viagem mental que remonta a um tempo anterior à Humanidade.
Assim, a instância poética confere voz e visibilidade ao indivíduo, pela recorrência a uma figuração egotista subjectiva, de índole temática, a qual aponta para a interacção identitária do eu com um território geográfico e cultural de procedência ancestral, que, em termos formais do poema, apesar da irregularidade espacial, se consuma, textualmente, na utilização anafórica de eu, localizada no lugar mais saliente de cada verso.
Ousando uma possível decifração da imagética estruturadora do poema, o eixo longitudinal poderá simbolizar a movência errática de um espaço e tempo sentidos como primordiais, da África Mesopotâmica, considerada berço da humanidade e de civilização, mas também sinónimo de esforço e de árduo trabalho edificador - «I looked upon the Nile and raised the pyramids above it.» - (v. 7), para os E.U.A., lugar de escravatura, mas igualmente de libertação, que o rio Mississipi “canta”, à chegada de Abraham Lincoln a New Orleans - «I heard the singing of the Mississippi when Abe Lincoln/ went down to New Orleans […] » - (vv. 8, 9).
O eixo imaginário vertical afigura-se indiciador de amadurecimento, saber, conhecimento profundo de si, e da sua raiz genealógica mais profunda, sugerida pela expressão «grown deep», em cuja oposição direccional está contido o crescimento físico do ser humano, que se regista numa linha evolutiva, para cima, até à idade adulta, movimento contrário, no entanto, ao crescimento do saber adquirido com os anos, tão considerado nas sociedades africanas tradicionais, e de representação vectorial oposta, no sentido de profundidade, em termos de sabedoria, tal como a ancianidade de alguns rios que, ao perderem a sua “juventude”, vão correndo em cada vez mais amplos e profundos vales, ainda que não seja o caso do rio Nilo e do rio Mississipi.
Os dois eixos, concebidos no plano extra-semântico, intersectam-se num ponto de origem que, definido no poema em análise, é encontrado em “rio”, simbolicamente testemunho original do processo de formação da terra, assim como das mais antigas civilizações de África, e objecto de dignificação do eu poético.
Ao longo do poema, o arquitexto bíblico vai-se tornando legível nas entrelinhas de uma indagação filosófica, que parece ter encontrado no Mito de Génese uma resposta, que foi construindo África de forma lendária, mítica, indo ao encontro do desejo imaginário do poeta, bem como do sonho secular de muitos afro-americanos.
O sujeito poético fala de rios genesíacos, que os seus antepassados, vozes íntimas do eu lírico, conheceram. A menção feita a rios antigos - «ancient as the world and older than the flow of human blood in human veins» - (vv. 2, 3), particularmente ao Eufrates, invoca o início edénico, representado no episódio bíblico intitulado A Formação do Jardim do Éden, presente em Génesis 2, 4-17. O intertexto bíblico que entrelaça a malha poética da composição de Hughes, em que os rios, elementos da natureza, parecem transportar uma mensagem de início da criação do mundo, configurando-se como elementos que invocam princípios de interpretação, toda esta actividade efabulatória parece pertencer ao plano integrador do mito, de que a fulguração da palavra aqui faz ressonância.
Ao aludir, por último, ao espaço simbólico construído à volta do Egipto Antigo, renascimento temático relevante, não só na imagética do poema, como também na literatura e noutros géneros artísticos emergentes durante o Modernismo, merece particular atenção a forma como é invocada a grandiosidade das pirâmides, visivelmente acima do maior rio, o Nilo, - « I looked upon the Nile and raised the pyramids above it.» - (v.7). As pirâmides egípcias, cujos mistérios se constituem objecto de estudo e decifração inspiradora de ritos iniciáticos, pertencentes ao conjunto sistemático de cerimónias e ensinamentos de grupos esotéricos, figuram no poema em análise como símbolo altaneiro, superior, erigidas por um eu obreiro, um eu que no texto poético em análise é nós, e se assume como autor de uma obra, ou seja, uma obra de construção colectiva, pertença de um grupo humano que a reclama, na presente voz de um eu diaspórico que, ao fazer germinar a palavra, se torna socialmente notado.
A atracção dos afro-americanos pelo Egipto, entre meados do século XIX e princípios do século XX, manifestada em discursos públicos, na literatura panfletária, na sermonística e noutros géneros artísticos, é justificada como apelo a um passado histórico elevado, reivindicado como meritíssima tradição, gloriosa nascente de civilização, o Egipto Antigo, como primeira civilização histórica nascida no vale do Nilo[16], no decorrer do quarto milénio a. C., tal como a invocação de outras culturas africanas antigas, particularmente, a núbia e a etíope[17], de exploração temática igualmente frequente.
Nas épocas de renascimento cultural em foco, os diálogos textuais em apreço abraçam, em comum, um projecto radical de grande abrangência, que visa insurgir-se contra a tirania do discurso colonial e, por essa razão, a influência de Langston Hughes, assim como a presença afro‑americana em geral, não se circunscreveu à poesia de Tenreiro, mas marcou igualmente presença nos textos dos «poetas-militantes»[18], que produziram a designada Literatura de Combate, especialmente a de Viriato da Cruz (1928 - 1973) e Costa Andrade (1936-?).
As determinações ideológicas dos dois poetas explicam que a poesia de ambos se tivesse vindo a constituir recusa do colonialismo, bem como recordação cultural de outros valores simbólicos de índole universal, criados sobretudo em Viriato da Cruz, à luz de um democratismo político não só nacional, mas sim multiracial e alargado ao operariado de todo o mundo, segundo as suas convicções políticas.[19] Viriato da Cruz foi poeta colaborante da revista «Mensagem» (1951-52), que em conjunto com «Cultura» [(I) 1945-51] e «Cultura» [(II) 1957-61] deram a conhecer as criações literárias da geração de 50. No poema de Viriato da Cruz, intitulado «Mamã Negra»[20], dedicado à memória de Jacques Roumain, o sujeito poético enaltece a voz personificada da mãe‑África, como voz síntese da diáspora negro‑africana, uma voz plural que, pelas suas palavras, enfaticamente integra « - Vozes de toda América! Vozes de toda África» (v. 17), especificadas no poema, superlativizando, de forma particular, a voz de Langston Hughes: «Voz de todas as vozes, na voz altiva de Langston» (v. 18). No poema de Costa Andrade, «Poema oitavo de um canto de acusação»[21], o sujeito poético é interceptado por vibrações sonorosas afro-americanas, de Blues e Jazz, que se entranham no seu corpo “até às vísceras”, e despertam no seu imaginário poético a eleição de figuras simbólicas da música e da escrita da América negra: Louis Armstrong, Langston Hughes, Countee Cullen, Nicolás Guillén.
            A voz de Tenreiro é uma voz que vem de longe e vai para longe, é a voz do negro escravo que não pôde falar, consubstanciada no poema intitulado «1619»[22], voz do corpo que tombou «ao peso de grilhetas e chicote», reanimado pelo «chape‑chape da água» que em si acordava «[…]a saudade/da última réstia de areia quente/e da última palhota que ficou para trás.» (Tenreiro, 1982: 110). Deste modo, a poética de Tenreiro é um caso de memória histórica, de que o título «Coração em África» se configura signo. Uma memória literária preservada pela Literatura de Escravos Afro‑Americana, conservada pelos escritores dos períodos New Negro Renaissance, Harlem Renaissance e seguintes. Uma memória com particular interesse para o período Realista, em que se insere o poema lírico‑narrativo «Middle Passage»[23], de Robert Hyden, o qual dialoga com o filme «Amistad», do realizador Steven Spielberg. Tenreiro intertextualiza o referido poema de Hyden (1966), considerado histórico pela crítica, porque rememora a chamada “Passagem Intermédia” negreira, um sujeito poético plural no sentir do outro seu irmão, e que de forma simbólica celebra no título da sua obra poética.
            Em suma, fecha-se o ensaio em apresentação, conferindo saliência aos semas fundadores dos textos interpretados. Os escravos viajaram de coração em África. Garvey e o seu opositor Du Bois, líderes do New Negro Movement, lutaram de coração em África. Hughes, da Renascença de Harlem, falou de rios africanos e viajou de coração em África, para África. Tenreiro enunciou-se fora de África, mas conversou com Hughes sobre os mesmos rios africanos, porque tinha o coração em África. Mandela permaneceu em África cantando rios, porque no exílio interno ofereceu a sua Vida a África. A estas vozes, continuam a juntar-se as vozes das diásporas contemporâneas, em tempo pós‑colonialista, as quais aguardam, ainda, de coração em África, fazendo sua a pergunta de Ki‑Zerbo: Para quando África?


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[1] Versão original escolhida para análise. BRAZILLER (org.), s/d: 88).
[2] ALVES (org e trad.), 1997: 18‑19.
[3] GATES Jr., MCKAY (gen. eds.), 2004: 1311-1314.
[4] TENREIRO, 1982: 76-81.
[5] MARGARIDO, 1980: 121-123.
[6] TRIGO, s/d: 7-14.
[7] MARTINHO, 1985: 523-527.
[8] FERREIRA (org.), 1982: 99-104.
[9] FERREIRA (org.), 1982: 105-106.
[10] BRAZILLER, Inc. (org.), s/d: 87- 88.
[11] TOOMER, 1967: 21.
[12] FERREIRA (org.), 1982: 112-115.
[13] FERREIRA (org.), 1982: 124-128.
[14] MANDELA, 2002, vol. I: 121.
[15] BRAZILLER (org.), s/d: 88.
[16] Como se sabe, a mais antiga população do Sara até ao período histórico era formada por negros.
[17] Culturas florescentes que beneficiaram de uma situação de riqueza agrícola e comercial, desenvolvida à volta do rio Nilo.
[18] Mário Pinto de Andrade, no quadro da poesia de combate de escrita portuguesa e crioula, produzida no fim dos anos cinquenta, refere-se à figura do «poeta-militante», especificando as circunstâncias em que ela surge: «realiza-se a coincidência entre o engajamento político, a presença física no próprio terreno da luta e a expressão militante na poesia.» ANDRADE (org.), 1979: 7.
[19] Vejam-se os cadernos políticos de Viriato da Cruz, in LABAN (coord.), 2003.
[20] ANDRADE (org.), 1977: 155-157.
[21] ANDRADE (org.), 1975: 35-36.
[22] TENREIRO, 1982: 110-111.
[23] ALVES (org. e trad.), 1997: 22.

06 julho 2011

Trás-os-Montes e Alto Douro. Mosaico de CIência e Cultura

Aqui se deixa o mapa de lançamentos, a capa e o índice, de Trás-os-Montes e Alto Douro. Mosaico de Ciência e Cultura (colectânea de autores oriundos de Trás-os-Montes) [pp. 399], cuja coordenação/organização se deve a Armando Palavras.
A Edição é da Comissão de Festas de Nossa Senhora das Graças, de Lagoaça (Freixo de Espada-à-Cinta), sendo director António Neto.


Lisboa: Casa de Trás os-Montes e Alto Douro
Porto: Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro
Lagoaça: Praça Professor Moreno


Índice

04 julho 2011

Luísa Dacosta, escritora de origem transmontana

Luísa Dacosta



LUISA DACOSTA, ESCRITORA DE ORIGEM TRANSMONTANA*


    Luísa Dacosta é o nome literário adoptado por Maria Luísa Saraiva Pinto dos Santos, nascida em Vila Real no dia 16 de Fevereiro de 1927.  
    Nesta cidade fez os estudos primários e secundários, estes últimos no Liceu Camilo Castelo Branco. Daqui seguiu para Lisboa onde se licenciou em Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras. Impulsionada por uma apetência pela literatura, aproveitou para assistir a aulas de grandes mestres da área como Vitorino Nemésio, Lindley Cintra e Andrée Crabbé Rocha.
    Se o curso lhe deu uma formação académica necessária ao exercício de funções docentes (foi professora de português do segundo ciclo nas escolas Ramalho Ortigão e Francisco Torrinha) foi a vida a sua grande fonte de aprendizagem e a grande inspiradora da sua obra. Quer enquanto cidadã interveniente na defesa de causas, com destaque para a da condição feminina, quer como professora criativa, sempre em busca de metodologias motivadoras conducentes ao despertar do gosto pela leitura e pelo correcto uso da língua, indiferente a imposições pedagógicas estéreis.
    A abrangência da obra de Luísa Dacosta até hoje publicada e que ultrapassa três dezenas de títulos desmistifica a ideia corrente de que a sua actividade literária se reduz à autoria de livros para a infância e a adolescência. De facto, a sua escrita abrange os campos da poesia, do ensaio, da crónica, do teatro, da diarística, da pedagogia, da filologia, da tradução, do conto para adultos. Tem colaboração em jornais nacionais de cariz informativo e cultural. É responsável por uma antologia em quatro volumes (que a editora Asa reduziu a dois – I e II, III e IV – e a que subtraiu gravuras primitivas) destinada a um público infanto-juvenil cujos principais atractivos são a heterogeneidade dos textos seleccionados e a presença da pedagoga patente em introduções esclarecedoras e marcadas por uma literariedade poética que funciona, para os seus leitores, como cartão de visita.
    Quando, em Fevereiro do ano em curso, a Universidade de Évora atribuiu a Luísa Dacosta o Prémio Vergílio Ferreira com o qual foram anteriormente galardoados escritores, ensaístas e poetas como Mia Couto, Agustina Bessa-Luís, Eduardo Lourenço, Vasco Graça Moura e Mário Claúdio, entre outros, o júri premiou, por unanimidade, a vasta dimensão da sua obra. Entendeu, com esta escolha, chamar a atenção da crítica literária para as suas vertentes menos conhecidas como as crónicas e a autobiografia. José Alberto Machado, presidente, escreveu: “De alguma maneira, este prémio corrige uma relativa injustiça e chama a atenção para outras valiosas dimensões da obra da grande escritora”.
    Se essas dimensões mergulham, para o público em geral, numa penumbra recatada, prende-se essa realidade com o perfil psicológico da escritora que, segundo Isabel Ferreira no Preâmbulo a Luísa Dacosta no Sonho, a Liberdade, se recusa a “enveredar pela vulgaridade e pelo mediático, conceitos tão entranhados na sociedade actual, cúmplices de uma gritante cegueira cultural, que, infelizmente, tanto valoriza e cultua a mediocridade”.

    Registe-se não ter sido esta a primeira vez que a autora de Um Olhar Naufragado assistiu ao reconhecimento público do seu mérito de escritora. Em 1992 recebeu o Prémio Máxima de Literatura pelo seu livro Na Água do Tempo (diário), em 1993 o Prémio Gulbenkian do Melhor Texto para Crianças no biénio 1992-1993, em 1997 a Câmara Municipal do Porto condecorou-a com a medalha de prata de Mérito da Cidade e, em 2002, a Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, juntamente com a Delegação da Cultura do Norte entregaram-lhe o prémio Uma vida, uma Obra, designação a sugerir tratar-se, também, do reconhecimento da abrangência estético-literária conseguida por uma mulher dotada de notáveis qualidades sincréticas. Em 2004, por ocasião do 30º aniversário do 25 de Abril de 1974 e do 150º ano da morte de Almeida Garrett, a Corporativa Árvore distinguiu -a com o Prémio para a área do ensino. Em Junho do mesmo ano recebeu a Medalha de Cidadã Poveira (grau prata).
    Sobre o primeiro dos prémios recebidos escreve Luísa Dacosta em entrada do seu diário escrita em Matosinhos em princípios de Abril:

    “Hoje, inesperadamente, telefonou a Maria Antónia Palla a anunciar-me que eu tinha ganho o prémio Máxima, – Como?! – Sim, sim – insistia ela –, ganhou por unanimidade do júri: Paula Morão, Alçada Baptista, Pedro Támen, o seu diário Na Água do Tempo. Parece-me mais surpreendida do que contente… – insistia.
    Claro havia a surpresa, porque não sabia que a editora tinha concorrido e talvez tivesse deixado transparecer o remorso, que é sempre um prémio, pelos que o teriam merecido e nunca ganharam.
    - Sim, sim, tinha ficado contente, até porque o prémio me dá a possibilidade de realizar um sonho antigo: ir a Praga.”   
    A título pessoal têm sido vários os intelectuais que se têm pronunciado sobre a escrita dacostiana, tomada esta ora na sua particularidade, ora na sua globalidade. Assim, vejamos o que o ensaísta Eduardo Prado Coelho escreveu sobre a escritora que conheceu em Paris, em 1992, por ocasião da Expolangue:
   
    “Acontecimento para mim importante nesta Expolangue: o encontro com alguém cuja força, energia, alegria da palavra, me seduziram de imediato. Falo da Luísa Dacosta, de quem pouco tinha lido, confesso, e nada com um mínimo de atenção. Ela chegou a Paris num momento difícil, por motivos de saúde, o que não ajudava em nada. Contudo, mal começou a falar percebi que era uma pessoa que precisava de conhecer.
    E senti-me extremamente incomodado com a ideia de que durante todos estes anos passei ao lado dos seus livros. Gostaria que tivéssemos conversado, mas o lugar era inóspito, e as circunstâncias muito pouco favoráveis. Espero que fique para a próxima, e que a próxima ocasião chegue cedo. Porque o que mais me tocou na Luísa Dacosta foi um certo uso da linguagem capaz de impor a autoridade das palavras sobre o mundo, e uma espantosa capacidade de pensar entre as palavras, e uma sabedoria que lhe permite conhecer o mar não apenas como realidade concreta e quotidiana mas como pensamento” (in A Maresia e o Sargaço dos Dias – poesia).

    Contrariando, em parte, uma afirmação da autora – “A minha escrita centra-se mais na palavra do que na efabulação” – David Mourão Ferreira escreve em “Luísa Dacosta: o real e o inventado”:

    “Desde há muito admiro, em Luísa Dacosta, minha companheira de geração (…) a extrema limpidez de uma escrita tanto mais exigente quanto mais fluida. (…) Luísa Dacosta amiúde nos dá a sensação, mas tão-só a sensação, de privilegiar o verdadeiro sobre o inventado, o vivido sobre o ficcional. É todavia evidente que esta sensação resulta da mestria com que nos são apresentados os seus enunciados narrativos. (…)” (in Natal com Aleluia – contos)

    Se há abordagem crítica da multímoda obra de Luísa Dacosta que recolha consenso, tem ela a ver com a sua escrita, com a importância que ela atribui à palavra (talvez para ela, como para Eugénio de Andrade, as palavras sejam como um cristal), com o rigor e a depuração linguística conseguidas, independentemente do seu público-alvo.
    Tendo publicado apenas um livro de versos, a poesia marca presença na sua narrativa, mesmo quando regista episódios prosaicos de um quotidiano a que presta uma atenção interventiva e, por vezes, apaixonada.
    Para documentar este traço estilístico, apoiemo-nos nas suas próprias palavras e nas de alguns dos seus admiradores. Em Luísa Dacosta Entre Sílabas e Luz (Pequena fotobiografia) são registadas afirmações suas, como estas:

    “A minha escrita centra-se mais na palavra do que na efabulação”;

    “A língua é um instrumento polifónico e criativo, um corpo vivo, não dicionarizado e de museu. Está sempre a nascer, cheia de surpresas e de rebentos seivosos. Experimentam-se vogais e consoantes como quem experimenta uma gaitinha de beiços, como quem trinca um limão ácido”;

    “As palavras são como lâminas rasgando os muros brancos, calcinados”;

    “Gosto de desfolhar a palavra, pétala a pétala”;

    “Escrever é cerzir, tecer, diálogo entre o cérebro e a mão”;

    “(…) Na minha infância, como não havia televisão, fui criada com histórias da tradição portuguesa. E empenhei-me em passar esse amor da palavra aos alunos, tentar deslumbrar os alunos pela palavra”.

    No livro referido, coordenado por Laura Castro, responsável pela selecção de textos, encontram-se depoimentos sobre as suas obras e, especificamente, sobre o seu estilo. Violante Florêncio pronuncia-se, em 1997, sobre a antologia De mãos dadas, estrada foradirigidas ao seu público de eleição: as crianças e os jovens, privilegiando o comentário à maneira de escrever de Luísa Dacosta:

    “A arte de Luísa Dacosta não cede a facilidades formais ou conceptuais. Para os mais pequenos, uma boa pedagogia da literatura não passa por aí. Passa por outros factores, peritextuais, sobre os quais esta autora sabe exercer uma vigilância atenta. (…)
    Contra modas (…) antes se tem mantido fiel, ao longo de uma vida de escrita, ao exortar de valores universais e intemporais, que tocam no nosso íntimo, como sejam os da amizade ou da rejeição, da beleza ou do sofrimento, da alegria ou da solidão, da imaginação, do sonho, da liberdade. Tudo isto é dado numa linguagem de uma beleza estética incontornável, onde, como vimos, proliferam inúmeros recursos expressivos, que provocam uma recepção afectiva e estética a quem os lê ou os escuta”.

    Em 1999, Ramiro Teixeira invoca o prazer do texto de que trata, em obra homónima, Rolland Barthes. Parece-nos legítimo defender a ideia de que a escritora em causa subscreveria as seguintes palavras do estruturalista:

    “ Se leio com prazer esta frase, esta história ou esta palavra, é porque todas foram escritas no prazer (este prazer não entra em contradição com os lamentos do escritor). Mas o contrário? O escrever no prazer garantir-me-á – a mim, escritor, – o prazer do meu leitor? De modo nenhum. Esse leitor, é necessário que eu o procure, (que eu o ‘engate’), sem saber onde ele está. Cria-se então um espaço de fruição. Não é a ‘pessoa’ do outro que me é necessária, é o espaço: a possibilidade de uma dialéctica do desejo, de uma imprevisão do fruir: que os dados não estejam lançados, que exista um jogo”.

    Voltemos a Ramiro Teixeira:

    “(…) Não foi, pois, somente ao estilo, à plasticidade e elegância da forma que me rendi, mas, essencialmente, ao que em tal existe de função mental e de sensibilidade superiores. Há, pois, uma força oculta no textual, cujo significado está para além daquilo que nos dicionários se regista. (…) Em Luísa Dacosta, a palavra, a escrita, não se concretiza primordialmente na construção deliberada do fim em que se pretende objectivar, antes evolui em transformação, explorando revelações, virtualidades insuspeitáveis, tornando-se, em súmula, um veículo de incomensuráveis possibilidades, as quais tanto nos remetem para sintonias intertextuais quanto para efeitos epifânicos de interacção de sentimentos”.

    Do que fica registado se conclui não ser fácil eleger este ou aquele texto como comprovativo da justeza das apreciações transcritas. Não passarão elas de abstracções teóricas inconsistentes se não ilustradas com as palavras da autora. Mesmo que a sua escolha seja forçosamente aleatória por pessoal, cumpre o seu objectivo e não defrauda expectativas, dada a riqueza, o rigor, a harmonia frásica, a imagética, a plasticidade, o visualismo descritivo, a depuração de uma escrita resultante de um labor aturado (“ só sou capaz de trabalhar sem horas à minha frente”.)

    A nossa escolha recaiu sobre o texto introdutório do segundo volume da citada antologia:

    “E onde, juntos, um dia voltaremos…
    Lembram-se? Lembram-se ainda?
    Voltei, companheiros meus. Diante de nós desdobra-se, infinda, a estrada a percorrer de mãos dadas. De novo nos esperam os frutos do sonho, as hastes altas, delicadas e frágeis da ternura, as pétalas da alegria que um vento de liberdade solta e margina. De novo, com poetas e prosadores, voltaremos ao reino, encantado, das palavras que o tempo não desgasta, sobre as quais não tem poder, já que, voantes, atravessam as idades e os séculos e poisam sobre nós, luminosas, puras e lavadas como os corais do fundo do mar. Toquem-nas, recolham-nas como búzios guardadores de ecos sidos! Respirem-nas, acesas de saudade, cariciosas, sumarentas de desejos, de quereres recônditos, sementes de coração a oferecerem-se tímidas! Ouçam-nas cantar! Iguais e diferentes, luas de muitas faces e rostos vários, mágicas flores inconsistentes de arco-íris, vejam-nas transformarem-se sob os velhos olhos! Agora já não aves, nem sonhosos ninhos onde apetece regressar, mas gumes exactos que trespassam a realidade e a recolhem, agora acusadoras como rodas de punhais a peitos de traidores e à mordaça preparada para abafá-los, agora espelhos deformantes de falsas glórias. Habitem-nas com os vossos corações, aprendam a amá-las: as palavras – pátria nunca ocupada e sempre materna, a única onde alguns puderam experimentar, quando lhos negaram, os espaços dilatados da liberdade e da vida.”

    Sendo objectivo desta comunicação contribuir para um melhor conhecimento de uma escritora que, mau grado os louvores da crítica, não atingiu a notoriedade que lhe é devida no panorama cultural dos séculos XX e XXI, não poderemos dela excluir o que a sua obra tem de dicotómico em termos geográficos e temporais. Parece-nos ser óbvio o binómio montes – mar associado a um outro – infância/juventude – idade adulta, com o que ambos encerram de notações memoralistas, culturais e sociais, elementos base de uma narrativa em que a realidade espreita por detrás da ficção.
    Luísa Dacosta fala de Trás-os-Montes em narrativas retrospectivas quando a infância lhe apetece, quando os lugares, os tempos e as gentes de um ontem invadem os espaços, os tempos e as gentes de um hoje, não para desalojá-los, ciumentamente, do perímetro afectivo da mulher de emoções, antes para salpicar os seus momentos de desânimo de uma água benta pacificadora.
   De acordo com o segundo volume do seu Diário, Um Olhar Naufragado, a escritora nascida em Vila Real esteve pela última vez nesta cidade em Abril de 2005. Ignoramos se aqui voltou posteriormente, mas tivemos o privilégio de vê-la e ouvi-la, no pequeno auditório do nosso Teatro, aquando da apresentação de Houve um Tempo Longe Vila Real de Trás-os-Montes na obra de Luísa Dacosta das edições Asa. Deslumbrámo-nos com a sua vivacidade alegre, com o desassombro das suas críticas, com a fluidez desafectada e espontânea do seu discurso, com o toque de coquetterie de uma senhora-menina com um brilhozinho nos olhos e nas palavras, protegida com as jóias da vovó Ana, como escreve, a propósito no referido Diário.
     Constitui o livro um repositório de memórias cronologicamente balizadas entre 1949 e 2004, documento aliciante para os vila-realenses em geral e para estudiosos da vida local, em particular, ao longo de várias décadas do anterior século. Se, como escreveu Shakespeare, “A memória é a sentinela do espírito”, a de Luísa Dacosta revela uma clarividência consistente e lúcida, um rigor de pormenores facilmente comprovado por quantos palmilharam os mesmos espaços, sentiram os mesmos cheiros, provaram os mesmos sabores, conheceram as mesmas gentes, os mesmos costumes e tradições. Só que a maior parte desses não saberiam exprimir tudo isso com o colorido e o visualismo, com a segurança e mestria estilística que são apanágio de uma escritora a quem a emoção das evocações não retira veracidade.
    Numa página do seu diário, com o título ONDE NASCI, pode ler-se:

    “Como lembrava a cidade, tantos anos passados?
    Maneirinha, como a sépia da fotografia que tinha na sala, datada de 1927, ano do seu nascimento, e onde se via, meio escondida pelas árvores, a casa da R. Cândido Reis, que a tinha visto crescer, frente às torres da igreja de S. Pedro. Fora lá baptizada. Lá se queimava, no adro, o Judas de palha, naquele tempo em que a igreja, enganada nas contas, ressuscitava Cristo um dia antes, no Sábado que amanhecia, festivo, com repique de sinos e foguetes de aleluias. A cidade era para mim uma rede de referências afectivas, que as minhas pernas, novas e andadeiras, percorriam com facilidade. Movia-me entre o colégio e a praça (então ainda no Campo), onde ia comprar, com os dois tostões ganhos a limpar os talheres, pinhas, castanhas, ou tremoços, conforme o tempo. Nos dias de mercado, os arredores enxameavam a cidade com molhadas de hortaliça, palha, vides para as braseiras, calondros, ovos, galinhas e garnizés. Vinham de Lamas d’Ôlo, com burricos carregados de carvão, como a senhora Maria Dornelas, que me deixavam montar o animal, Parada de Cunhos, Folhadela e Abaças, onde os habitantes tinham privilégio divino: “Matar só Deus e os de Abaças”.

    Acompanhando os registos memoralistas da autora, percorremos ruas, avenidas e jardins, entramos no mercado e nas lojas comerciais, rendemo-nos à magia dos robertos, ouvimos a música do Jardim da Carreira, espaço eleito de namoros à moda antiga, vamos ao S. Brás comprar uma gancha, escutamos os pregões da Rita Peixeira, vamos comprar um panelo de Bisalhães à feira de S. Pedro.          
    Mas Vila Real não se limita, nas evocações da narradora, aos espaços urbanos, como pode ver-se no texto por nós escolhido para ilustrar o seu enraizamento    às origens. Em Agosto de 1949 escreve sobre a Campeã, aldeia do Marão à época com uma identidade conferida pelas coberturas em lousa dos telhados das casas:

    “O vale está coberto por um mar de nevoeiro pouco espesso, feito de luar derramado. Os verdes têm ondulações extáticas de alga. Enormes peixes (as escamas prateadas brilham com fosforescências submarinas) repousam no fundo. Há na paisagem qualquer coisa de adormecido, de sonho, que a serra vigia atenta como velho dragão desconfiado. As patas estiram-se-lhe pelo vale, num espreguiçar possante, e o dorso farpeado de bandarilhas (ou serão pinheiros?), cheio de cicatrizes, que as ovelhas sugam como moscas importunas, eriça-se-lhe o céu.
    Agora (por causa do sol? Da badalada solitária do sino?) a realidade começa a insinuar-se. Não uma realidade viva. Mas a de um pisa-papéis que alguém agitou subitamente. A névoa, já teia a esboroar-se, solta-se. E os seus dedos esguios correm o harpeado dos pinheiros, que franjam o vale, esborratando os verdes à medida que sobem.
    O quotidiano afirma-se cada vez mais. Onde estão as algas, o dragão, os peixes de escamas prateadas? Apenas árvores, a serra, casas (a pretura húmida dos telhados é perfeitamente visível). Casas de homens, que começam a chamar-se, de longe, misturando as vozes ao canto dos galos”.

    “Não se deve regressar aos lugares onde a infância se mitifica”, escreve Luísa Dacosta. Porque a auréola poética com que a memória a emoldura se desfaz perante marcas de um presente prosaico e esteriotipado.
    Os seus regressos são marcados pela desilusão e pela saudade como comprovam palavras suas escritas em/sobre Vila Real em Maio de 2001 e em 27 de Abril de 2005, insertas em Um Olhar Naufragado (Diário II) e de que transcrevemos as seguintes:

    17 de Maio, Vila Real

    “Acordei cedo e ao chegar à janela mergulhei na infância. Uma infância envolvida por uma névoa de sonho, com rasgões de azul que escondia e revelava as margens penhascosas do Corgo. Abruptas, ainda selvagens, com quedas de água, brancas e espumosas, contidas entre fragas aguçadas a que o musgo, os líquenes e a floração dos salgueiros adoçavam as arestas. Felizmente, a descaracterizada cidade, com as ruas por onde tinha andado e vivido, ficava atrás dos onze andares do hotel. E assim podia seguir o asselvajado das margens, onde não consegui já distinguir o jardim de buxo, com rosas e peónias do Sr. Padre Filipe, mas distinguia a cascata da Peneda.”

    27 de Abril, Matosinhos
     
    “(…) Voltara, afinal, para quê? Tudo tinha mudado. A cidadezinha também já não era a mesma. As casas já não tinham as portas, sempre abertas, para se responder a quem chamasse ou batesse as palmas, nas escadas: ‘Entre quem é’. Tinha crescido desordenadamente, em novos bairros, falsamente moderna, com templos de consumismo, arranha-céus, novos hotéis, o seu centro histórico desfigurado! Perdida a casa e o quintal. Perdido o mastro da japoneira. (…)
    O que restava?
    Ainda e sempre, talvez, aquela rua de Margarida Chaves, que no seu tempo era a única com nome de mulher, por onde ia espreitar a montra do Bazar dos Três Vinténs, depois de ter palrado com o papagaio das Rainhas latoeiras. Mas já não choviam sobre ela aquelas bênçãos de outrora: - Nosso Senhor lhe dê muito que dar e não que pedir, abençoada!”.

     O mar é, contudo, o seu espaço vital, como que uma necessidade orgânica indispensável à sua sobrevivência mental, ao seu equilíbrio psíquico. Como o foi para Sophia que, antes de partir, deixou uma promessa: “Quando eu morrer voltarei para buscar / Os instantes que não vivi junto do mar”.
    Actualmente a residir em Matosinhos, Aver-o-Mar onde, num moinho reconstruído viveu e escreveu algumas das suas principais obras, continua a exercer sobre ela uma força de atracção irresistível, a fazer-lhe apelos irrecusáveis. Aí volta, qual romeiro pagador de promessas. Aí vai recordar as lições de vida que lhe deram as mulheres humildes, a sua verdadeira Universidade, elas que “murcham aos trinta anos”, elas, as suas heroínas anónimas da vida real, que conheceu “ainda analfabetas na resignação do trabalho duro sem remuneração e sob o jugo, pesado, da brutalidade dos homens”.
    Em Setembro de 1993 escreve no seu diário:

    “Em breve terei de deixar a praia, a casa, a janela do mar, onde a nortada chora. O que vai custar-me abandonar o telhado, onde ninho sempre, frente às estrelas ou ao esplendor da lua, carne de magnólia, antes de me deitar. Custa-me abandonar o telhado, onde o vento me desfralda e quase despe, quando me ergo das dunas de cimento, frente a este mar de azul tão ultramarino, que parece reflectir mil céus”.

    Sobre a importância da praia na vida e na obra da escritora escreve, em 1980, António José Saraiva:

    “ Com Luísa Dacosta vivemos o universo da praia, não da praia turística da sociedade mercantil, mas da praia solitária ainda adormecida na sua vida tradicional e fecunda, com a orla branca, que há milhares de anos, dia após dia, onda após onda, se abre à flor do mar e arrasta o sargaço. E com a sua gente ao mesmo tempo prática e sonhadora, de uma clarividência inocente e cortante, própria de quem conhece as próprias coisas e não apenas os seus símbolos abstractos, de quem sabe os segredos das sementes, os esconderijos dos peixes ou o caminho do mar para o Brasil. Desde Raul Brandão ninguém captou tão finamente este encontro da terra e do mar”.

    O mar é o tema central do seu único livro de poesia (A Maresia e o Sargaço dos Dias) e de A Ver-o-Mar (Crónicas). Sobre esta colectânea escreveu Clara Rocha:

    “No volume A Ver-o-Mar, em trechos de evidente recorte brandoniano, a autora evoca flagrantes e figuras pitorescas da povoação nortenha, as fainas da pesca e do amanho da terra, a dureza do trabalho e o sofrimento, os diálogos pontuados de saborosas expressões populares e regionais, e sobretudo a presença impositiva do mar, mar que a imaginação criadora espiritualiza e transfigura. É a ânsia de ‘guardar em amálgama fundente, estes rostos gretados de riso e lágrimas, o choro das crianças, estes penedos, a marca dos remos, o mosquiteiro das redes, o peso das âncoras, as serpentes inofensivas do cordame, os lençóis escuros das algas que emurchecem, as línguas de espuma, estes céus, o escrameado das nuvens, quando as há, a liberdade, ilusória, dos papagaios de papel, o risco dum voo, a mancha brusca e alada das pombas, o negro silêncio esburacado das estrelas – tudo o que é lastro em mim e me corre no sangue’.”

    Nas crónicas coligidas nesta colectânea confirma-se a paixão de Luísa Dacosta pela paisagem física e humana da beira-mar a remeter-nos para palavras do poeta alemão Hölderlin. No poema “O Único”, escreve que ama mais “as velhas venturosas praias” do que a Pátria.
    Vejamos um excerto de um desses textos:

   “ De que cor é este mar, nunca igual e sempre diferente, de ritmos vários, cadenciado como o bater certo dos remos, inquieto como a ansiedade dos que trazem os afectos sobre as ondas, fervente como um cachão raivoso, quieto, quieto, marginado pele linha, rubra, do crepúsculo? De que cor é este mar, onde se miram nuvens e gaivotas, onde se esfriam e se apagam as estrelas da madrugada?
    Azul. Azul, como o manto das imagens milagrosas. Azul, como o olhar perdido dos náufragos. Azul da cor da noite. Verde fel. Verde da cor dos limos. Verde da cor dos barcos. Loiro cor de areia, das tranças e do cordame. Ferrugem, cor das âncoras e das redes. Castanho cor do sargaço. Palhetado de sol e luz. Irisado, como as escamas dos peixes. Rosa, como certas algas e corais, como a garridice das blusas em dias festivos. Rosa como as flores de papel do altar do padroeiro. Vermelho da cor das guelras. Sanguíneo. Violáceo, cor de tinta. Roxo, como uma Quaresma líquida. Cinzento. Brumoso de névoa e mistério. (…) Branco de sal e espuma. Branco da cor das velas. Negro, como as faixas das mulheres e o luto das viúvas. Sem cor, como a angústia das que não têm sequer um cadáver para velar.”

    No segundo volume do diário de Luísa Dacosta encontram-se entradas relativas a estadias suas em Quarteira nos verões de 2003 e de 2004. Nelas marcam presença espontâneas comparações com a sua praia – “Este mar azul e este céu azul não são nem o meu mar nem o meu céu. A 3 de Junho de 2004 escreve:

    “(…) O que me falta? O que me dói nesta beleza?
    Faltam-me as dunas de um telhado antigo, mirante meu para a noite, a lua e as estrelas. Dói-me uma praia, longe, na geografia e perdida no tempo.”

    Esse mar seu a inspira, a transfigura em poeta. Em prosa e em verso.

                                                          
                                                                       MAR NOSSO MAR

                                                           Fímbrias de água, reentrantes,
                                                           arfar de ondas e de dunas,
                                                           trespassadas de luz
                                                           - espuma e ânsia, nossa dos dias.
                                                           Mar, espelho de nuvens
                                                           e dos luzeiros do céu,
                                                           placenta, morrente e crepuscular.
                                                           Ligação e hífen
                                                           de tudo o que ansiamos
                                                           com lágrimas reprimidas
                                                           e raivas inconfessadas.
                                                           Noite e abismo dos sonhos
                                                           - indiciados por vagos navios a perderem-se ao longe
                                                           e uma teimosia, vertical, de passos
                                                           impressos na beirada.

    Em homenagem prestada à escritora em Junho de 2009 na Feira do Livro do Porto, afirmou ela: “Vir trabalhar para o Porto mudou a minha escrita. A ligação a Aver-o-Mar deu-me outra inspiração”; “Eu gosto de um mar violento: que chora, que canta e que uiva.”

    Do que fica dito se poderá concluir que, se Luísa Dacosta é uma mulher da cultura transmontana por aí ter as suas raízes, nunca renegadas, mas a perderem força com o correr dos anos, ela é, pelas vivências de uma vida já longa, uma escritora da orla marítima. E, pelos valores que defende, pela preservação de identidades, pelas causas por que luta, pelas preocupações sócio-culturais e pedagógicas, pela qualidade da sua escrita, um vulto de destaque no panorama literário da nossa contemporaneidade.
   

Bibliografia activa

A-VER-O-MAR crónicas, Figuerinhas, Novembro 1980;
HOUVE UM TEMPO LONGE Vila Real de Trás-os-Montes na obra de Luísa Dacosta, Edições ASA, Porto, 2005;
UM OLHAR NAUFRAGADO (Diário II), Edições Asa, Porto, 2008;
DE MÃOS DADAS, ESTRADA FORA…. Edições ASA, Porto, Junho de 2002.

Bibliografia passiva

 “Ficção dos anos 80” in História da Literatura Portuguesa As Correntes Contemporâneas, Direcção de Óscar Lopes e Maria de Fátima Marinho, Publicações alfa, Lisboa, 2002.
FERREIRA, Isabel A., Luísa Dacosta “no sonho, a liberdade…” edição de autor, Fevereiro de 2006.
FERREIRA, David-Mourão, in NATAL COM ALELUIA, Edições ASA, 2ª edição, Porto, Junho de 2002.
COELHO, Eduardo Prado, in A MARESIA E O MAR DE SARGAÇOS, Edições ASA, Junho de 2002.
LUISA DACOSTA ENTRE SÍLABAS E LUZ (Pequena Fotobiografia), Coordenação e recolha de textos de Laura Castro, Edições ASA, Porto, Junho de 2002.


  • Comunicação apresentada no Seminário organizado pela UTAD sobre “A MULHER NA CULTURA TRANSMONTANA” em 3 de Março de 2010.

                                                                                                                    M. Hercília Agarez

03 julho 2011

Mensagem aos associados da ALTM

[Aqui se deixa nota da mensagem enviada aos associados da ALTM]


Caros associados

Como é do vosso conhecimento, a ALTM tem um blogue http://altm-academiadeletrasdetrasosmontes.blogspot.com que está ao vosso dispor para aí publicarem os textos que considerem adequados.
Pela nossa parte faremos a moderação que a gestão do blogue imponha, nomeadamente evitando que sejam sempre as mesmas pessoas a intervir.
O blogue está também ao vosso dispor para divulgar os eventos literários cuja notícia nos façam chegar.
As mensagens devem ser enviadas para academiadeletrasosmontes@gmail.com

Saudações académicas
Amadeu Ferreira
Manuel Cardoso