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15 abril 2014

40 anos de vida literária de Ernesto Rodrigues

O POETA E O FRADE

Em 2006, o Ernesto e eu fomos à Feira do Livro de Braga. Ao passarmos perto do Seminário de Montariol, o Ernesto comentou:
- Foi ali que aos 16 anos mandei imprimir o meu primeiro livro de poesia- «INCONVENCIONAL», pago pelo meu pai, é claro.
- Ali? Mas ali é um seminário franciscano!
-Sim, mas tinham lá uma gráfica. Era um frade que tomava conta dela. Um tal Frei Perdigão. Deve ter morrido há muito. Já era velho nesse tempo.
-Velho? Tu tinhas 16 anos qualquer um te parecia velho! Vamos mas é lá ver se o homem morreu ou não!
Levei o Ernesto atrás de mim, e chegámos à recepção. Camilianamante, pergunta :
- Frei Perdigão ainda é vivo?
Uns olhos muito abertos respondem:
-Sim... Está além naquele anexo. E apontava para o fundo do jardim. O Ernesto faz um ar intrigado e já eu...
-Vamos lá falar com ele!
E fomos. Um homem ainda bem conservado, soubemos depois que tinha 66 anos, olha para nós, curioso. O meu companheiro avança em direcção ao frade:
-Frei Perdigão?
-Sim. Quem me procura?
- Ernesto Rodrigues.
-Mas não é de Bragança, pois não?
-Sim... Do distrito de Bragança, da Torre de Dona Chama.
- Ora uma destas !
E nós ainda mais espantados do que ele.
- Então você é aquele catraio que me entrou aqui num dia de temporal com um livrinho de poesia para eu editar?!
- Siimm... Sou eu ...- gaguejou o Ernesto.
-Não me diga!
- Hum...
- E o que e que faz na vida o poetinha?
-Sou professor em Lisboa... na Faculdade de Letras.
- Logo vi! Logo vi que ali havia coisa com futuro!
O Ernesto emudeceu e eu atalhei.
-Mas porquê, Frei Perdigão?
- Porque eu recebia aqui quilos de poesia boa para embrulhar mercearia e de repente aparece-me um livrinho diferente, um livrinho catita e eu disse com os meus botões: sim senhor, este catraio é bom! Temos aqui homem!
-Então e continua a ser poeta, não é verdade?
- Sim...
E eu:
-Poeta e romancista... Pelo menos...
Frei Perdigão sorriu quis saber o "pelo menos", informou-se dos títulos, cada vez mais encantado. Um fantasma aparecera-lhe assim de repente do passado, não era para menos. Olha-me sorridente:
- Sabe que não o deixei ir embora nesse dia ? Começou a trovejar e disse-lhe:
-O menino hoje não sai daqui com este temporal! Vai dormir ali numa cela ...
E o frade contava , contava...
Interrompo : Frei Perdigão, o senhor que idade tinha nesse tempo?
Sorriso franco e nostálgico:
-Oh! nesse tempo era ainda um rapaz novo. Deixe ver... Tinha os meus 36 anos...
Já recompostos da emoção, na descida de Montariol, não resisti:
- Com que então, Ernesto, quando tu tinhas 16 anos o frade já era velho, muito velho...

-Longa vida, Frei Perdigão!
Teresa Martins Marques, 18 de Março de 2014.

19 março 2014

Tertúlia sobre os 40 anos de vida literária de Ernesto Rodrigues

Hoje,dia 19 de Março de 2014, a partir das 14h00, na Livraria Caixa dos Livros (Faculdade de Letras de Lisboa):
– Tertúlia sobre os 40 anos de vida literária de Ernesto Rodrigues, cujos últimos títulos são o romance histórico A Casa de Bragança e o conjunto de poemas Do Movimento Operário e Outras Viagens.



16 fevereiro 2014

FASTIGÍNIA de Tomé Pinheiro da Veiga, por Ernesto Rodrigues




ERNESTO RODRIGUES (1956), escritor, ensaísta e tradutor, é professor na Faculdade de Letras de Lisboa. Estreou-se na poesia em 1973, na ficção em 1980, destacando-se os romances A Serpente de Bronze (1989), Torre de Dona Chama (1994), O Romance do Gramático (2011) e A Casa de Bragança (2013). Na edição, relevemos As Farpas Completas (2006-2007), de Ramalho Ortigão, e a edição crítica de Fastigínia (1605; 2011), de Tomé Pinheiro da Veiga. Outros títulos: Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal (1998), Cultura Literária Oitocentista (1999), Visão dos Tempos. Os Óculos na Cultura Portuguesa (2000), Verso e Prosa de Novecentos (2000), Crónica Jornalística. Século XIX (2004), Padre António Vieira, Sermões, Cartas, Obras Várias (2008), A Corte Luso-Brasileira no Jornalismo Português (1807-1821) (2008), «O Século» de Lopes de Mendonça: O Primeiro Jornal Socialista (2008), Camilo Castelo Branco, Poesia (2008), 5 de Outubro - Uma Reconstituição (2010). Tradutor de literatura húngara em Portugal, desde 1983, verteu cinco títulos do Prémio Nobel (2002) Imre Kertész e quatro de Sándor Márai, além de Kosztolányi e Magda Szabó, entre outros.
http://ernestorodrigues.blogspot.pt/



03 agosto 2011

Ernesto Rodrigues


Nos passados dias 27 e 28 de Julho, prestou provas de Agregação na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, o presidente da ALTM, Ernesto Rodrigues, professor naquela Escola.
O candidato superou as provas com êxito, daqui lhe endereçando os meus parabéns.
Foi um privilégio ter podido assistir à brilhante lição dada por Ernesto Rodrigues, no dia 28 de Julho, tendo como tema FASTIGÍNIA, obra de que fez uma edição monumental com mais de mil páginas, onde reune a imensa e profunda investigação realizada. Além da brilhante lição dada sobre aquela obra, Ernesto Rodrigues avançou ainda com argumentos novos e consistentes para atribuir a (controversa) autoria de A Arte de Furtar ao mesmo autor de Fastigínia, Tomé Pinheiro da Veiga, facto que, só por si, consttitui um feito notável e de grande relevância literária e cultural.

Amadeu Ferreira


02 agosto 2011

Fastigínia


Cem anos após a edição de Sampaio Bruno, Fastigimia (título incorrecto), sai Fastigínia (1605), de Tomé Pinheiro da Veiga (1566-1656), assente em 13 manuscritos. Pela primeira vez, falava-se em D. Quixote e Sancho Pança, mesmo num Cervantes enigmático, no quadro das festas de Valladolid, que acompanharam o nascimento do futuro Filipe IV.
Introdução, fixação do texto, variantes e notas (por Ernesto Rodrigues), com 24 reproduções de manuscritos, perfazem 1065 páginas, em capa dura.





Um livro bem-humorado, como raros, na literatura europeia.






15 julho 2011

Trás-os-Montes e Alto Douro: Mosaico de Ciência e Cultura

[Aqui se deixa a intervenção de Ernesto Rodrigues na apresentação da obra Trás-os-Montes e Alto Douro: Mosaico de Ciência e Cultura, que teve lugar dia 14 de Julho de 2011, às 19 h., na Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro em Lisboa, tal como fio anunciado neste blogue.]




Ernesto Rodrigues

Foi apresentada, em Junho, em Bragança, A Terra de Duas Línguas. Antologia de Autores Transmontanos, e já temos aqui segunda. São diferentes os critérios na escolha dos nomes que citarei – não exclusivamente nascidos na região –, com áreas de especialização que transcendem a poesia, a ficção e alguma antropologia –, mas ainda temos duas dezenas de nomes comuns. De tanta fartura nenhum outro chão se pode orgulhar, e nascendo estes frutos numa «pátria pequena», onde não vou desde 2002, quando apresentei edição de Poesias do ilustre filho Augusto Moreno, aqui evocado por A. M. Pires Cabral. Se, agora, só os vivos pesam, é um poeta maior do século XIII que nos reúne: trata-se de D. Dinis, que à terra deu foral em 26 de Abril de 1286. Vem reproduzido nas páginas 245-246, encimando o último e mais longo apartado desta obra, antes das biobibliografias dos colaboradores, lista de autarcas e iconografia – cem páginas dedicadas a Lagoaça, «terra adoptiva» de António de Almeida Santos (secundado por evocação da mulher, Maria Margarida Moreno areias de Almeida Santos), poliedricamente olhada na sua agricultura e minas, por Adília Figueira Verdelho e Hirondino Isaías; num reconhecimento militar em 1845, por Aniceto Afonso; enquanto terra de marranos, assunto versado por António Pimenta de Castro e, mais extensamente, pela dupla António Júlio Andrade / Fernanda Guimarães; na inteligência das alianças matrimoniais, por Vítor Barros. Já figuras locais de carne e osso, de sangue-azul ou típicas, do sapateiro ao coveiro, são descritas em Otília Pereira Lage e Amadeu Martins. Passam memórias na retina de Pedro Figueira Verdelho, Teixeira Leite, Maria Aliete Costa, Manuel Francisco Felgueiras Pinto, Rui Carvalho, Adelaide Neto. O presidente da Junta, Carlos Novais, traça uma fisionomia histórica, geográfica, sociocultural, paisagística e patrimonial – relevem-se pinturas rupestres e a tipologia dos moinhos – de freguesia com cerca de 500 habitantes. Enfim – primeiro que todos, ao qual é devido um aceno de gratidão –, o coordenador deste projecto, Armando Palavras, cura de aspectos religiosos de Lagoaça e Freixo de Espada à Cinta nos séculos XVII e XVIII, com anexo documental, e revela-nos a origem mítica do berço natal: Lagoaça significaria «serpente ansiosa», a crer em história de Cadmo e seu filho, bebida no ilustre transmontano Ferreira Deusdado.
Com o favor de Nossa Senhora das Graças, a cuja Comissão de Festas preside António Neto, e a rede de contactos de Armando Palavras, eis reunidos 74 autores, incluindo já as máscaras literárias de alguns e o Miguel Torga da capa e badana, no pretexto de 725 anos do gesto dinisino – e não 750, erro de contas do presidente da Câmara de Freixo de Espada à Cinta, José Santos (p. 341). É um feito, para tão breve tempo de preparação; e mais um dos convívios possíveis, à lareira da palavra, em que a região singularmente se afirma.
Se começámos pelo fim do mosaico, honrando o próprio lugar, olhemos ao demais transmontanismo. Adriano Moreira lança um alerta: “Voltar à terra e ao mar”. A política de «reserva alimentar» tem sido esquecida pelos responsáveis, de que é corolário a desertificação do interior. O mar também foi abandonado, e o país sofre. Como proceder? A conquista do húmido elemento, desde o século XV, foi um desígnio em que se envolveram milhares de comprovincianos, alguns nomeados entre os grandes navegadores. Do concelho de Freixo de Espada à Cinta saiu o número mais significativo de missionários, mas não só, como ilustra Inocêncio Pereira. Hoje, reduzidos às metrópoles nacionais e europeias, face às quebras migratórias africana e brasileira, não é fácil encontrar um novo D. Sancho I, que repovoe, e devolva a esperança do lugar. Há, felizmente, uma premissa, que também ressalta da iniciativa que nos reúne: a inquestionada paixão do terrunho, como teve um aqui fac-similado Fernando Subtil, lembrado na prosa falada de Hirondino Fernandes. Diáspora ou «tradicional comunitarismo», segundo Luís Dias de Carvalho, seriam solução. Na era da informação – sobre que o General Loureiro dos Santos discorre –, é suficiente, julgo eu, que as redes por satélite inspirem as dos transportes e as da ciência, para que se esbata o conceito de diáspora e se actualize o de comunitarismo. Serão úteis, neste ponto, os conselhos de Maria Márcia de Almeida Trigo sobre mercado de trabalho, a encerrar o primeiro terço da obra. Visando um turismo paisagístico e cultural, alfobre tão rico não se encontra, e fica a léguas do nosso romanceiro e húmus etnológico esse Alentejo dos poetas populares coligidos há uns anos por Modesto Navarro; de costumes e tradições falam Alexandre Parafita, sobre o Entrudo; António Pinelo Tiza, sobre a festa da cabra e do canhoto em Cidões, Vinhais; do bom vinho e da castanha vertida em marron glacé, José António Silva e Jorge Lage, devendo, no meu entender, entrar nesta secção o compósito de saudades gastronómicas de Virgílio Nogueiro Gomes, o melhor generalista em comes e bebes da região. Quanto ao dicionário de transmontanismos, vêm achegas de Telmo Verdelho, um pouco dispersas por outros, como Hélder Gomes, perdido entre lagoaceiros, que podia integrar o painel da narrativa. Deslocado Virgílio Gomes, as reminiscências de Donzília Martins poderiam acompanhar incidentes flavienses e macedenses do pós-Abril de 1974 de Manuel António Pires Brás. Mas sei como é difícil ordenar uma antologia…
Na movência das nossas vidas, urge, pois, olhar para o nosso chão, acordar com olhos novos para a terra que se conhece, mas nunca sabemos por inteiro. Por isso, viajam ainda nela Bento da Cruz, João de Sá, ou, Douro acima, António Barreto, Ilda Pinto Ribeiro, Carlos Abreu. Num enfoque arqueológico, por Riba Côa, sobem Alexandra Cerveira Lima e António Martinho Baptista. Já etnografia barrosã e História pátria que transcende as fronteiras naturais da região vêm na pena de António Lourenço Fontes e Barroso da Fonte.
Entreabrem-se, assim, disciplinas científicas, facilmente coligáveis com o perfil do médico e professor vinhaense Barahona Fernandes, por Abílio Gomes, e digressões universitárias de Maria dos Anjos Pires e da borboleta azul, cujos mistérios no planalto de Lamas de Olo desvenda Paula Seixas Arnaldo. Em sentido restrito, a cultura deste mosaico recobre museologia, por Nelson Campos, sobre o Museu do Ferro de Moncorvo; pintura, com Eugénio Cavalheiro comentando visitações dos séculos XV, XVI e XVII, sem espaço, nem cor, para as reproduções; música, segundo propostas de José Neves e Paulo Pinto, sendo que este, dos Galundum Galandaina, caracteriza o grupo dentro da música mirandesa e da padronização da gaita de foles. Confesso duas surpresas: a participação de Nadir Afonso, arquitecto e pintor maior, em confissão de artista, resumindo a sua busca; e, pela primeira vez, leio três páginas de Roberto Leal, que tira dos pauliteiros, da sanfona, da música, em suma, «o sentimento de pertencer a um lugar, a um povo, a uma raça» (p. 217). Mais espaço tem a literatura.       
Tenho a honra de três pinceladas líricas – foi, decerto, por só ocupar um fólio que me convidaram para o esforço inglório de apresentar estas 400 páginas –, acompanhado por Fernando de Castro Branco, Ilda Pinto Ribeiro, Rogério Rodrigues disfarçado em Pedro Castelhano (com versos do seu mais recente livro, entre os raros não-inéditos), Sílvio Teixeira. Esperaríamos outros poetas, mas a amostra é suficiente.
Passando à mais nutrida narrativa, é significativo de uma comunhão que ultrapassa ideologias, e dá gosto ver, lado a lado, António Borges Coelho e António Passos Coelho. Aquele, além de historiador e professor universitário jubilado, mostra-se o enternecido poeta que também é, com o seu Homem do Chapéu Amarelo; este cria a sugestiva figura de um filho das ervas que terá o inaudito nome de Pai do Trabalho. Seguem-se Bernardino Henriques, Fernando de Castro Branco em tom evocativo, Fernando Chiotte Tavares entre Lisboa e França, Jorge Tuela, os diálogos insólitos de Manuel Cardoso à volta dos trasgos: «– Trasgos, que é isso, trasgos? // – Ora, senhor engenheiro, são trasgos!» (p. 101). É outro achado incluir um trago de J. Rentes de Carvalho e ouvir a figura impressiva do Faísca perguntar na nossa tão particular segunda pessoa: «– Tendes lume?!» (p. 97)
Quando, um pouco acima, subíamos o Douro, parámos na Terra de Miranda. Seria, já não uma injustiça, mas erro gritante omitir a realidade que é sermos a única terra de duas línguas, parafraseando a antologia que Amadeu Ferreira e eu organizámos. Esta indisputada riqueza justifica o texto conjunto de Carlos Ferreira e Júlio Meirinhos: aquele, definindo as vertentes histórica, antropológica, geográfica e cultural da Tierra de Miranda; este, narrando o processo legislativo de aprovação, pela Lei 7/99, de 29 de Janeiro, do Mirandês como segunda língua nacional. O feito é enquadrado pelo dito janicéfalo de Amadeu Ferreira / Fracisco Niebro. No primeiro texto, o vocábulo ‘ambuça’ alegoriza a força da palavra, que se transforma em gesto criador: o mundo nasce do fiat, é uma construção do verbo divino. Universo afim, a própria língua é um devir, tem que se dizer, buscar, multiplicar, derreter e acender em novas palavras, como anaforiza o poeta Niebro, também narrador de uma «stória trágico terrestre» vivida pelo pai do autor, na sua primeira emigração francesa, em 1947. É um documento impressionante de quem, 15 meses depois, volta a casa sem dinheiro.
Pegando na motivação com que fecha essa história – escrita por dever de memória –, outro tanto direi do escopo deste mosaico, o qual há-de perdurar entre as navegações felizes da cultura portuguesa.             




13 julho 2011

O Romance do Gramático


ERNESTO RODRIGUES (Torre de Dona Chama, 1956), poeta, ficcionista, crítico, ensaísta e tradutor de húngaro, é professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e presidente de direcção da Academia de Letras de Trás-os-Montes. Acaba de editar O Romance do Gramático (Lisboa, Gradiva, 2011).




O Romance do Gramático


Regresso à ficção com O Romance do Gramático (na Gradiva, Julho de 2011).

Formado por dois ‘livros’, O Romance do Gramático é a transcrição, com leitura actualizada, de um manuscrito (recto e verso) que o autor conheceu em família de judeus húngaros.
No primeiro ‘livro’, mostra-se, sob roupagens conventuais, um foco de resistência à ameaça turca, em 1532, na ilha de Bled, Eslovénia. O aveirense Fernão ou Fernando de Oliveira (1507-1580? 1581?), fugido dos dominicanos de Évora, dá-nos agitado romance de cristãos patriotas, o qual será posto no Index.
No segundo ‘livro’ – Uma história mal contada –, refaz-se a vida aventurosa de pioneiro, com Gramática da Linguagem Portuguesa(1536). Texto na terceira pessoa, atribuído a censor, é retomado pelo comum amigo Duarte Nunes de Leão, e deixado em herança a um inesperado copista do verso de vasto fólio – o filho que Oliveira perseguira durante 48 anos.
Entre documento e ficção, propõe-se um novo rosto do também historiador de Portugal e teórico da construção naval na Europa. Interessa reabilitar o espírito livre e heterodoxo de quem foi frade e desfradou-se, marinheiro ao serviço de França e prisioneiro de ingleses, e sofreu, por duas vezes, as injúrias da Inquisição, que o teve preso. Nesse reino do medo e da intolerância, a rebeldia e boa disposição destas páginas são o melhor antídoto, inclusive, para os dias de hoje.




02 janeiro 2011

Fado Transmontano de José Carlos Ary dos Santos, uma leitura

Manuel Cardoso




O Fado Transmontano[1] de José Carlos Ary dos Santos (n. Lisboa, 7 de Dezembro de 1936 – m. Lisboa em 18 de Janeiro de 1984) é uma interessante letra em que se misturam as vontades do poeta como denunciante de injustiças, instrumento de libertação e portador da esperança. Mas em que o mesmo poeta, com um tique muito citadino, não consegue fugir ao preconceito de uma certa ideia de Trás-os-Montes, triste e desoladora, com as suas pedras duras e negras, altas montanhas, centeio duro, camas de vento, lençóis de sofrimento, pedra negra de tanta, tanta fome.
Esta visão citadina (que é uma deformação da realidade mas não uma caricatura ou uma falta de verdade – que alguma verdade há nela) tinha e tem uma correspondência com a vida ou, pelo menos, com uma parte da vida do que era todo esse mundo de Trás-os-Montes. Foi moda, aliás, foi uma visão de Trás-os-Montes cujo retrato existe numa literatura revisitada por muitas edições[2] e por alguma filmografia de que destacamos apenas os filmes Pedro Só, de Alfredo Tropa[3], e Trás-os-Montes, de António Reis e de Margarida Cordeiro[4]: a da vida dura, algo imóvel no espaço, atávica no tempo.
Sabia o poeta do que falava? Sabia, pois. JCAS tinha uma costela trasmontana ainda próxima que lhe fazia efervescer tal sentimento pela terra, a si trazido pelos genes e por alguma tradição familiar, já que o seu bisavô paterno foi um emigrado de Bragança para Lisboa[5], tendo nascido naquela cidade o seu avô, e ainda por conhecimento próprio das viagens que ele fez ao longo da vida.
Não sei quantas vezes JCAS terá estado em Trás-os-Montes mas algumas esteve. Se bem que, antes de escrever o fado e segundo Carlos do Carmo nos informou, não tinha cá vindo recentemente. Mas dir-se-ia, fazendo uma leitura deste poema, que a sua escrita é a de alguém que está ausente (e estava-o, de facto): os primeiros versos surgem como se estivesse a contemplar a ideia de Trás-os-Montes e não a terra, como se a tivesse visto de fora e disso se recordasse. Seria da imagem do Marão com que terá ficado das suas animadas estadias na Casa de Pascoaes[6], da visão da montanha a partir do poiso na varanda de Pascoaes, de onde este escreveu o Marânus[7], sobressalto de alma meditado na contemplação da distância e da vida? É uma forte probabilidade. Mas pode bem dizer-se que JCAS intui muito bem o sentimento especial de expatriamento[8] e, com isso, adquire a refracção com que vê o Trás-os-Montes do seu fado.
Para a visão trasmontana de Ary muito terá contribuído também toda a informação e propaganda que a política do tempo veiculava. Com efeito, para a clique partidária de esquerda instalada em Lisboa, os ecos que lhe chegavam, do Norte em geral e de Trás-os-Montes em particular, eram os de uma terra onde “os reaccionários e caciques” mantinham espezinhada e explorada, desde a Ditadura de Salazar, toda uma multidão escravizada que urgia “libertar”[9].
Com esta bagagem e com os flashes que ela proporcionava, JCAS escreve, a pedido de Carlos do Carmo, a letra para este fado. Seguindo a metodologia habitual: a música já existia quando a letra foi feita e foi esta moldada àquela. A música é de Carlos Paulo. O fado foi feito em 1978, tanto a letra como a música, segundo informação que nos foi prestada directamente por Carlos do Carmo, para quem o que salienta este trabalho é “a austeridade do arranjo musical que respeita a força de uma narrativa que contém muita dor”.

“Por trás da pedra dura pedra negra
para além destas encostas
um homem quando nasce é como a pedra
e o Marão volta-lhe as costas.”

Que Marão é este, do JCAS? Não é a serra homónima. É um Marão “para além destas encostas”, que volta as costas ao homem mas que o homem, como pedra, nasce para ele, feito de si mesmo: o Marão de JCAS é o Fado, o omnipresente do Destino, a Fortuna. Uma Fortuna dura, feita para andarilhos, feita para os que sabem, ou têm, de ir procurá-la algures, saltando:

“Ai! Como é duro este centeio
Com as altas montanhas pelo meio
E um homem que é um pássaro sem lar
Poderá por não ter chão, saltar.”

É a terra que põe fora os homens, com desconforto, a do centeio duro, das camas de vento, dos lençóis de sofrimento, dos cobertores de geada, de fontes estéreis, de sabor a nada e a frio. É uma terra de desolação e não se vive, não se pode viver, numa terra de desolação:

“Por detrás de Trás-os-Montes
é numa cama de vento
que se deitam horizontes
nos lençóis do sofrimento.
Por detrás de Trás-os-Montes
um cobertor de geada
gela a garganta das fontes
mas o frio não sabe a nada.”

Ora, como na concepção do poeta os trasmontanos seriam uns seres escravos anacrónicos de uma certa ideia de destino e fatalidade, o fado de homens assim só pode ser um fado triste e dorido, limitado na sua grandeza, cheio de mágoa:

“Por trás das mãos rugosas e da mágoa
para aquém desta grandeza
os homens transmontanos choram água
pelos olhos da tristeza.”

Mas a que acende uma luz de fuga, feita de inesperado patriotismo, “chora à portuguesa”, de um grito de raiva libertadora, “raiva maior que a pobreza”, de reconhecimento de que o homem não é um solitário, “e um homem que é um pássaro com lar / poderá tendo mulher, saltar.”

“Pois quando um homem chora à portuguesa
a raiva é maior do que a pobreza
e um homem que é um pássaro com lar
poderá tendo mulher, saltar.”

É muito curioso este verso que acabámos de ler, e ainda permite outras leituras. A condição para que a raiva seja maior que a pobreza é a de que o seu choro seja à portuguesa. Será um contraponto com a Galiza, com Leão e Castela, paredes-meias com Trás-os-Montes? Cremos que sim, uma subentendida farpa política, tão ao gosto do poeta, a Espanha. E o facto de que aqui se refere aos pássaros com lar, em complemento dos pássaros sem lar da segunda estrofe, é porque se dirige aos homens com família, “tendo mulher” e lar, pequenos lavradores, empregados ou proprietários, numa tentativa de alcançar todas as franjas sociais desfavorecidas, na óptica do poeta, e não apenas os referidos em primeiro, “sem lar”, proletários e, acima de tudo, solitários (a solidão foi sempre uma das fobias do JCAS ao longo da vida[10]).
Muito interessante este reconhecimento do núcleo familiar como uma forma de não solidão, ainda que as mulheres surjam em traços indesfarçavelmente arysianos, esculpidas em imagens construtivistas que estão, aliás, de acordo com a então recente mundividência de Ary[11], “a mulher é de granito / os seus braços duas pontes / entre o ventre e o infinito”, em que se sente ainda essa dimensão, recorrente na sua poesia, de serem os seres femininos aqueles que fazem a ponte para o infinito.
De certa forma, está aqui uma outra constante em Ary dos Santos, também presente noutros poemas e letras: a de que o homem, nascido num ventre, lugar misterioso e mágico em que se gera a vida, siga até ao infinito, lugar misterioso e mágico em que a vida, forçosamente, continuará, porque infinito. Acreditaria JCAS na vida para além da morte? Cremos que sim[12].
Os homens surgem invocados mais como seres aparentemente materiais, homens como pedras, homens como pássaros, homens sem lar, homens sem ter chão, homens que saltam, homens de mãos rugosas, homens que choram água (não choram lágrimas, choram água!), homens que choram à portuguesa, homens que são andarilho, homens que esquecem o nome. Qual o destino que lhes aponta Ary dos Santos? O de saltar, fugir do país, atravessar a fronteira custe o que custar, sem leis nem peias. Saltar[13]. Mas conservando as pontes com o esforço do trabalho lá fora, com braços que servem tanto para trabalhar como para abraçar, ligando a terra aos filhos, mantendo, em suma, o essencial da família:

“Por detrás de Trás-os-Montes
a mulher é de granito
os seus braços duas pontes
entre o ventre e o infinito
Por detrás de Trás-os-Montes
os homens são andarilhos
seus braços arcos das pontes
que ligam a terra aos filhos.”

Já no fim do fado, JCAS retoma a razão de ser de o escrever, o da denúncia da condição do homem em Trás-os-Montes, “anda tanta, tanta fome”, ao mesmo tempo que aponta uma forma de remissão de vida: “um homem quando emigra / esquece até o próprio nome.”

Por detrás da pedra negra
anda tanta, tanta fome
que um homem quando emigra
esquece até o próprio nome.
Em Trás-os-Montes chamado
Zé Mário no seu País
Seu nome está exilado
como se chama em Paris?

Este exílio do nome, “seu nome está exilado”, é uma expressão genial encontrada para dizer que não é apenas o homem, com o seu potencial de trabalho, que passou a fronteira. É mais do que isso. Num nome está o ser na sua dimensão material e transcendente, está o homem que se foi, que é e que será. O homem e o seu sonho, na sua terra mítica, Paris, o eldorado dos que fugiam de cá, desligado da fatalidade do seu começo, transformado nas possibilidades do seu devir: “como se chama em Paris?”.
É muito curioso que esta letra de fado não nos fale de liberdade de uma forma expressa, um tema muito caro a JCAS e presente em tantos dos seus poemas e letras, tal como não aponte a esperança como uma conclusão natural. Propositadamente, com certeza. É que a emigração, o “exílio em Paris”, a ida dos trasmontanos para as bidonvilles[14] não poderia nunca ser encarada como uma libertação. Era uma fuga a uma realidade dura, sem dúvida, mas uma fuga com o sabor amargo do exílio, de uma nova escravatura a troco da sobrevivência e de um melhor bem-estar social, um tudo esquecer e deixar para trás para que para trás ficasse a fome denunciada pelo poeta. No fundo, este fado denuncia uma fuga dos trasmontanos de si próprios: “um homem quando emigra / esquece até o próprio nome”, um despir da sua identidade – ou talvez não: “como se chama em Paris?”.
Este Fado Transmontano não deixa de ser um documento literário com muitas leituras. Propomos aqui uma delas. Assinalando com isto o mês em que se comemora a morte precoce deste poeta controverso que, com Trás-os-Montes, tinha e tem muito mais que ver do que apenas o ter escrito a letra de um fado com uma certa ideia da terra que ainda lhe corria nas veias.


manuel cardoso
Janeiro 2011


[1] Seguimos aqui a versão escrita em As Palavras das Cantigas, José Carlos Ary dos Santos, Edições Avante!, página 77.
[2] De que destacamos apenas, como exemplo, o Terra Fria, romance de Ferreira de Castro, editado em 1934 e reeditado numerosas vezes desde então.
[3] Pedro Só, longa-metragem de Alfredo Tropa, produzido em 1970-1971, estreado em 1972.
[4] Trás-os-Montes, de António Reis e Margarida Cordeiro, produção do Centro Português de Cinema, rodado em 1974-75 e estreado em 1976.
[5] Alfredo Carlos Gonçalves dos Santos (n. Bragança em 1 de Junho de 1854 e m. em Lisboa em 9 de Janeiro de 1912) foi bisavô do poeta, sendo de família de Bragança e de Vinhais e tendo ido para Lisboa, onde casou na igreja de Santa Isabel com D. Ermelinda da Conceição Portocarrero de Almada, n. Aldeia Galega da Merceana, e tendo vivido o resto da sua vida em Lisboa, se bem que o seu filho Carlos Ary Gonçalves dos Santos, avô de JCAS, tenha nascido ainda em Bragança em 27 de Maio de 1879. Cf. Anuário da Nobreza de Portugal, III, Tomo II, página 197 e em www.geneall.net . O apelido Santos poderá ser de origem espanhola e é introduzido por Maria dos Santos, nascida e com terras em Casares, Vinhais, onde contraiu matrimónio com André Gonçalves, natural dos Salgueiros, em 1775, sendo avós de Alfredo Carlos. Sobre esta ascendência transmontana de JCAS, veja-se um artigo do Pe. Manuel Teixeira na Brigantia, UM MISSIONÁRIO BRAGANÇANO NO ORIENTE, Brigantia Vol. XII nº. 2 pág. 145-149.
[6] Em Amarante, S. João de Gatão, onde JCAS foi num grupo em que estava também Natália Correia.
[7] Publicado em 1911, obra que é a “bíblia” do saudosismo. Teixeira de Pascoaes fez construir em granito e vidro, na varanda de sua casa, um pequeno compartimento anexo ao seu escritório, voltado para o Marão. Nele, em cima de uma mesa de pedra, escreveu o Marânus.
[8] “o expatriamento, antes de ser emigração” e “expatriamento, no apelo da fé, no fanatismo, bem como emigração interna e externa: esta, nas partes ultramarinas, africanas e europeias”, vide Ernesto Rodrigues in Literatura Transmontana e Alto-Duriense: uma região sem paredes.
[9] “reaccionários e caciques”, “libertar”, expressões correntes no léxico usado pelo poeta, se bem que não presentes nesta letra do fado em análise.
[11] Como é conhecido, JCAS era simpatizante do Partido Comunista Português, estalinista na sua teoria e praxis política.
[13] Saltar: atravessar a fronteira ilegalmente.
[14] Bidonvilles: bairros da lata de Paris e das grandes cidades francesas, onde se amontoavam os emigrantes em condições de vida com conforto inexistente, higiene precária e privações de todo o género.

19 dezembro 2010

A Virgem e o Menino


Fé, Humildade, Prudência, Pobreza: estas as quatro donzelas que, no Auto de Mofina Mendes, acompanham Nossa Senhora, a quem anunciam a vinda do Filho. A Prudência começa por citar uma sibila, o que significa vitória do divino cristão em ecumenismo de almas:

diz que Deos será humanado

de ũa virgem sem pecado,

que é profunda matéria

pera meu fraco cuidado.


Entre a Pobreza e a Fé, que usam fontes extra-bíblicas, serve-se a Humildade do profeta Isaías, segundo o qual


ex a virgem conceberá

e parirá o messias

e frol virgem ficará.


Informa Gil Vicente que esta obra «foi representada ao excelente príncipe e muito poderoso rei dom João terceiro, endereçada às matinas do Natal, na era do Senhor 1534». Mas pode ter havido uma antestreia em 1515. Entretanto, o
Auto dos Quatro Tempos fora «representado ao mui nobre e próspero rei dom Manoel na cidade de Lisboa, [...] nas matinas do Natal» de ano incerto, entre 1511 e 1520. O que há de extraordinário nesta obra é o facto de os próprios deuses pagãos, através de Júpiter – e, sintomaticamente, em castelhano –, prestarem obediência ao Recém-Nascido. Diz o rei dos deuses pagãos:

Alto niño en excelencia

yo vengo de las alturas

a te adorar


y traerte obediencia

de todas las criaturas

sin faltar.


Assim, cristãos ou não, juntamo-nos, nos Dezembros frios, à volta da pedra de ara, que nem sempre é o altar frio, mas a mesa da amizade em vapores da ternura. Ocorrem as quentes lareiras do Nordeste, que descrevi, loquazes e cheirosas, no romance
Torre de Dona Chama (1994): «A lareira domina a casa do Natal.» (p. 105) Com a Missa do Galo (lá onde a tradição não morreu), reaviva-se a efusão dos seres.
Verão, Estio, Inverno, Outono: estas as quatro figuras – os quatro tempos assim considerados – que Gil Vicente pôs em cena. Como se, desde os alvores de uma literatura que passará, doravante, a tratar o tema do Natal (sem esquecermos a tradição oral), o nosso filigranista do palco dissesse: todo o tempo é tempo de Menino. Escultura e artes plásticas versaram, até à exaustão, a Virgem e o Menino: dou amostra destas em conto breve, a que subjaz tese pouco católica: Maria teve, de facto, uma filha, como bem sabia o carpinteiro José...
Num rápido escorço, citaremos, agora, o contemporâneo Sá de Miranda, que, com uma canção “A Nossa Senhora”, inaugura a tradição mariânica no fórum poético:

Virgem fermosa, que achastes a graça

Perdida antes por Eva, onde não chega

O fraco entendimento, chegue a fe.


Por então, Maria, «Virgem e madre juntamente» (verso 66;
Poesias, ed. de Carolina Michaëlis de Vasconcelos, 1885, 1989, p. 87, 89), reabilita a humanidade e, de algum modo, as mulheres, culpadas, por Jorge Aguiar, num célebre libelo do Cancioneiro Geral (1516) de Garcia de Resende, de estarem na origem das maiores tragédias.

Sucede Baltasar Dias (madeirense cego, que, em 1537, recebia de D. João III um privilégio para impressão das suas obras) com
Auto do Nascimento de Nosso Señor Jesu Cristo, em que entram três pastores e reis magos, o imperador Augusto César, um seu embaixador, Herodes, judeus, velhos, anjos, a Sagrada Família. Embora assunto devocional, não falta o baixo falar, seja o hideputa de pastor, ou esta quintilha do judeu Samuel (em Autos, Romances e Trovas, 1985, p. 56):

Eu tenho inchada a bexia (sic)

e estou cagado de medo

porque ontem ũa formiga

foi me morder este dedo

que me fez dor de barriga.


Nesta narrativa versicular, José provê às condições da mulher, que dá á luz na sua ausência laboriosa. (Até nestes momentos os homens falham, dirão algumas...) Nasce o Menino a chorar – rara indicação, como raramente se encontrará, depois, nas representações sempre demasiado sérias da criança.


O quarto autor quinhentista a citar, e mais mariânico, entre nós, é Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), que nos reconduz “À Noite de Natal” em soneto-chave de qualquer antologia:


Era noite de inverno longa e fria,

Cobria-se de neve o verde prado;

O rio se detinha congelado,

Mudava a folha cor, que ter soía.


Quando nas palhas duma estrebaria,

Entre dois animais bruto lançado,

Sem ter outro lugar no povoado,

O Menino Jesus pobre jazia.


– Meu filho, meu amor, porque quereis

(Dizia Sua Mãe) nesta aspereza

Acrescentar-me as dores que passais?


Aqui nestes meus braços estareis;

Que, se Vos força amor sofrer crueza,

O meu não pode agora sofrer mais.


Pudéramos acrescentar Pêro de Andrade Caminha (entre 1520 e 1532-1589) ou Fernão Álvares do Oriente (1530-1607?), nos quais o louvor é dirigido à Virgem Santíssima. Já focando mais a noite de Natal e o presépio, temos, respectivamente, prosas dos padres Vasco Pires (1546-1590) e Alexandre de Gusmão (1629-1734); a oratória sacra sobre a Natividade, estendendo-se até hoje, é pouco excitante.


Os séculos XIX e XX vieram aumentar essa, mais do que bibliografia, biobibliografia, porque da vida de Jesus se trata. Um menos conhecido César de Frias coligiu
Cem das Melhores Poesias Religiosas da Língua Portuguesa (1932), integrando J. Simões Dias (1844-1899), “A Noite de Natal”; Eugénio de Castro (1869-1944), “Natus est Jesus...”; João Saraiva (1866-1948), “Natal”; D. João de Castro (1871-1955), “Noite de Natal”; Maria Lamas (1893-1983), “Natal”. Afonso Duarte ensaiou O Ciclo de Natal na Literatura Oral PortuguesaO Natal Português (1944). Síntese a recomendar, por certo incompleta, deve-se a Jacinto do Prado Coelho no verbete “Natal” do seu Dicionário de Literatura (2.ª ed., 2.º vol., 1971). Mário Martins retomou, aí, o assunto, no verbete “Nossa Senhora. Na Literatura Portuguesa”, cuja bibliografia acrescentei no segundo volume de Actualização (2003), de que sou primeiro responsável. (1936) e Vitorino Nemésio antologiou
A Virgem e o Natal gozam, pois, de uma segura contiguidade, localizável, já, nas Cantigas de Santa Maria, de Afonso X, avô de D. Dinis. Novos florilégios, que o consumo de hoje propicia – O Natal na Poesia, pref. de Manuel Sérgio, Lisboa, Cadernos F. A. O. J., s. d. [1976], Luís Forjaz Trigueiros, O Natal na Poesia Portuguesa, 1987 –, reforçam o quadro do nascimento, mas esquecem a lírica do século XV, ora eivada de latim, ora, no caso do Cancioneiro Geral, capaz de assimilar, já, a Virgem Maria à maternidade de simples mulheres. Um certo Afonso Valente (tomo 5, 1917, p. 389) bendiz, por isso,

as fadas que vos fadaram,

as tetas que vos cryaram.


Bastará, assim, consultar essas referências e temos os principais autores, desde um Almeida Garrett exilado em 1823 (“Que Natal este!”, começa “O Natal em Londres”) aos natais emigrantes de José Rodrigues Miguéis, em
Gente da Terceira Classe (1962). Mas de Garrett importa outro, e menos conhecido, poema, inaugurando tradição de, por esta altura, todas as publicações se repetirem um pouco no pretexto natalício. Assim, na Revista Universal Lisbonense (série III, vol. IV, 24-XII-1844, p. 272-273), temos “O Natal de Christo”, contra uma época não menos ímpia que a de hoje.

No séc. XIX, com aceno no “São Cristóvão” eciano, salientemos as evocações do lar portuense em Ramalho Ortigão (1836-1915) e um natal minhoto logo no tomo I (1887) d’
As Farpas, já evocado na estreia de Em Paris (1868); numa perspectiva de crítica social, Alberto Pimentel “O Natal em Lisboa”, tirado de Fotografias de Lisboa (1874), e o abandono enregelado do «pequenito, vendedor de jornais», em “Noite de Natal” (Ilha dos Amores, 1897; em Poesias Completas, 2004, p. 246), por António Feijó (1859-1917):

Bairro elegante, – e que miséria!

Roto e faminto, à luz sidérea,

O pequenito adormeceu...


Morto de frio e de cansaço,

As mãos no seio, erguido o braço

Sobre os jornais, que não vendeu.


A noite é fria; a geada cresta;

Em cada lar, sinais de festa!

E o pobrezinho não tem lar...


[...]


Sonha talvez, pobre inocente!

Ao frio, à neve, ao luar mordente,

Com o presépio de Belém...


Do céu azul, às horas mortas,

Nossa Senhora abriu-lhe as portas

E aos órfãozinhos sem ninguém...


[...]


e o pequenito extasiado,

naquele sonho iluminado

de tantas coisas imortais,


– No céu azul, pobre criança!

Pensa talvez, cheio de esp’rança,

Vender melhor os seus jornais...


Júlio Brandão (1869-1947), poeta, é ignorado, mas interessa ao ambiente de consoada: em particular, “Natal”,
O Jardim da Morte, 1898; ficcionista, é o tema recorrente em três Contos Escolhidos (1980): “Lenda do Natal”, “Recordando”, “Natal”; com Raul Brandão (1867-1930), fez representar, no Teatro de D. Maria (13-I-1899), A Noite de Natal, um, afinal, drama (em três actos) de costumes e adultério feminino, só editado em 1981.

No séc. XX, reúnem-se, em prosa e verso, L. Mano, “A noite de Natal” , D. João da Câmara (
Contos de Natal), Carlos Malheiro Dias (“A Consoada”), Jaime Cortesão (“Oração do Deus-Menino”), Cabral do Nascimento (“Natal Africano”), Fernanda de Castro (“Natal”), Fernando Sylvan (“Menino Jesus da Minha Cor”), Glória de Sant’Anna (“Poema de Natal”) , Manuel Sérgio ... Não vá sem lembrar o antes incréu G. Junqueiro, “Natal”, em Poesias Dispersas. “O Natal” de Augusto Gil (1873-1929; em Alba Plena. Vida de Nossa Senhora, 1916) tem a particularidade de descrever o presépio nacional:

Êste natal de Jesus

Há dois séculos que o fez,

Com barro mole, um oleiro.

Verdade não a traduz;

Mas, por ser tão português,

– É para nós verdadeiro...


No século XXI, dilui-se a experiência, que não acaba. Assim António Manuel Couto Viana, em “Sentir Natal” .


Está por fazer o balanço de quanto jaz nas páginas de Imprensa, que, nesta quadra, oferece aos leitores os versos e ambientes natalícios possíveis. Decerto nesse espírito, o
Notícias Ilustrado, n.º 29, de 30-XII-1928, ganhou um Fernando Pessoa (1888-1935; em Poesias de Fernando Pessoa, 9.ª ed., 1973, p. 117), simples e pungente, que dá os dois lados da quadra e de um ser dividido, que percebemos melhor se lermos poema na revista Contemporânea, seis anos antes (n.º 6, Dezembro de 1922; 1973, p. 218). Primeiro, este, com o título “Natal”, título que falta ao seguinte:

Nasce um Deus. Outros morrem. A verdade

Nem veio nem se foi: o Erro mudou.

Temos agora uma outra Eternidade,

E era sempre melhor o que passou.


Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.

Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.

Um novo Deus é só uma palavra.

Não procures nem creias: tudo é oculto.


Agora, o segundo, talvez mais conhecido:


Natal... Na província neva.

Nos lares aconchegados,

Um sentimento conserva

Os sentimentos passados.


Coração oposto ao mundo,

Como a família é verdade!

Meu pensamento é profundo,

‘Stou só e sonho saudade.


E como é branca de graça

A paisagem que não sei,

Vista de trás da vidraça

Do lar que nunca terei!


Não menos conhecida, e no registo de conto infantil, é aquela “História Antiga” de Miguel Torga (1907-1995), que tantos natais celebrou, agora, no
Diário – I, com data de 12-X-1937 (ver Poesia Completa I, 2002, p. 94). Aceita uma leitura política, quando alguns ditadores se perfilavam, mas fiquemos pela leitura mais inocente:

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.

Feio bicho, de resto:

Uma cara de burro sem cabresto

E duas grandes tranças.

A gente olhava, reparava, e via

Que naquela figura não havia

Olhos de quem gosta de crianças.


E, na verdade, assim acontecia.

Porque um dia,

O malvado,

Só por ter o poder de quem é rei

Por não ter coração,

Sem mais nem menos,

Mandou matar quantos eram pequenos

Nas cidades e aldeias da Nação.


Mas,


Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela aldeia fora,

Fugiu

Daquelas mãos de sangue um pequenito

Que o vivo sol da vida acarinhou;

E bastou

Esse palmo de sonho

Para encher este mundo de alegria;

Para crescer, ser Deus;

E meter no inferno o tal das tranças,

Só porque ele não gostava de crianças.


Os articulistas esquecem textos fundamentais nesta matéria: um deles, de 1944, apanha o Menino com sete anos nas
Antigas Andanças do Demónio (1960), de Jorge de Sena (1919-1978), que se inspirou no poema VIII de “O Guardador de Rebanhos”, de Alberto Caeiro, para nos dar a “Razão de o Pai Natal ter barbas brancas”. Há, por ali, umas subversões simpáticas:

Assim, quando o menino Jesus nasceu, já todos os meninos punham o sapato na chaminé.


Outra diferença é que «também ele punha o sapatinho, que, por acaso, era uma sandália» (
Antigas e Novas Andanças do Demónio, 1978, p. 17). Mais: «Ele bem sabia quem punha os brinquedos na sandália (era a Mãe)», e até «vira S. José estar a fazer uma carrocinha, às escondidas» (p. 18). Mas é importante saber que, sendo o Natal «uma coisa muito velha [...], no princípio ele não era pai; nem era velho, e não tinha, portanto, barbas brancas» (p. 17). O que vai, pois, acontecer? No mesmo volume, recomende-se “A noite que fora de Natal”, de 1961, antes, nas Novas Andanças do Demónio (1966).

Também novidade é a pouco conhecida poetisa e ilustre ensaísta Maria de Lourdes Belchior (1923-1998). Amiga de Sena e de Jacinto do Prado Coelho, que se detestavam, para sempre lembrada em David Mourão-Ferreira, um nome incontornável nesta quadra ( com, p. ex., “Natal, e não Dezembro”), ela escreveu a primeira dissertação sobre Agostinho da Cruz, sucedendo-lhe, por seu lado, no fervor mariânico, patente em
Cancioneiro para Nossa Senhora. Poemas para Uma Via-Sacra (1988), donde retiro “Senhora do Presépio” (p. 14):

Tudo tão simples e tão natural:

(um nascimento igual aos do filhos dos homens?)

a mãe serena, aliviada após o parto,

contempla o filho recém-nascido,

carne da sua carne, recém-parido.


Tudo tão simples e sobrenatural:

mistério de uma virgem dando à luz

um menino filho de Deus, gerado

por obra e graça do Espírito Santo.


Tudo tão simples e sobrenatural:

em Belém uma virgem dava à luz o Salvador.

Filho de Deus e de Maria

Nascia para o mundo o Redentor.


Podemos concluir, assim, na lição da Bíblia, que estes versos de mulher de fé resumem. Com um sorriso em Jorge de Sena, que me lembra (posso citar um brasileiro, na sua estreia com
Alguma Poesia, 1930?) Carlos Drummond de Andade e seu «papai noel às avessas», que entrava para roubar os brinquedos das crianças. A verdade é que, na madrugada em que escrevo estas notas – ¬ e sonho com "Natais distantes”, «que eram vagarosos e tingiam / da cor e do sabor de frutos estivais / os rios dias de então.», reza A. M. Pires Cabral, As Têmporas da Cinza, 2008, p. 24 –, quem me ocorre é, ainda, um terceiro Fernando Pessoa ortónimo, que também não precisa de título (p. 129-130):

Chove. É dia de natal.

Lá para o Norte é melhor:

Há a neve que faz mal.

E o frio que ainda pior.


E toda a gente é contente

Porque é dia de o ficar.

Chove no Natal presente.

Antes isso que nevar.


Pois apesar de ser esse

O Natal da convenção,

Quando o corpo me arrefece

Tenho o frio e Natal não.


Deixo sentir a quem quadra

E o Natal a quem o fez,

Pois se escrevo ainda outra quadra

Fico gelado dos pés.