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15 outubro 2015

Amadeu José Ferreira , por Cláudio Carneiro

Só tu és grande, imenso, sem medida,
Por vontade Suprema, português
Amadeu Ferreira no lançamento do livro NORTEANDO.
E por maior prestígio, mirandês,
Lugar de acesso à Terra Prometida.

Criada a obra, rara e desmedida
E divulgada ao mundo, ei-lo, de vez,
Humilde, sem um gesto de altivez,
De volta, já previsto, à eterna vida.

Como é próprio de si, ele anda agora,
Aplicado, por esse etéreo fora,
A criar outras obras valorosas.

No merecido evento está presente,
Desfrutando, connosco e demais gente,
Estas tertúlias, dignas e honrosas.
Com amizade,


Cláudio Carneiro

06 agosto 2015

L’Eiternidade de las Yerbas / A Eternidade das Ervas - Apresentação



L’Eiternidade de las Yerbas / A Eternidade das Ervas

Ernesto Rodrigues
Universidade de Lisboa

Caros Amigos

Deixei de fazer apresentações públicas de obras e de ser apresentado. Abro esta excepção, porque às memórias felizes nunca podemos dizer que não. Amadeu Ferreira faz parte dessas memórias.
Entro no Seminário de Bragança, com 12 anos, e oiço falar de quem, seis anos mais velho, hiperactivo, procura aquilo que, nessa pequena comunidade intelectual, também eu perseguia: fazer-se um nome. Sou colega de Manuel Ferreira, já então artista, que se renova como a natureza que ele tão bem retrata nestas páginas de devoção ao irmão.
Ao deixar a Casa Amarela, aos 15 anos, em 1971 – que Amadeu abandonava no ano seguinte -, eu trocava jornais de parede ou a stêncil por títulos impressos, não querendo ficar atrás dos mais velhos, de Teologia, que me animavam a colaborar no Mensageiro de Bragança, onde o nosso sendinês já assinava.
Saudou, num encontro de acaso, a minha estreia em livro, em 1973, sendo essa generosidade, nele, um gesto fácil, sincero, sem reservas. Ficou, daí, uma cumplicidade noutros instantes reiterada, até que, já assistente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, dou com ele, em 1990, frente à reitoria, acabava de se licenciar e de encerrar um difícil ciclo de vida, doravante memorada na obra que faz juz à sua grandeza de alma: O Fio das Lembranças. Biografia de Amadeu Ferreira, escrita por Teresa Martins Marques.
Redobrámos os contactos após 2002, quando nos revimos em tertúlia na quinta da Ribeirinha, Santarém, boleando-me até Oeiras, como de outras vezes faria. E abancámos para almoços regulares a partir de finais de 2009, quando me solicitou prefácio para a tradução de Os Lusíadas. As conversas tornaram-se regulares, os abraços semanais, projectos foram mil e um. À mesa, em sofás, em passeio, também nas longas viagens entre o Nordeste e Lisboa, discorremos sobre livros e autores, sobre as nossas origens e melhorias destas terras. Foi neste quadro que se pensou a Academia de Letras de Trás-os-Montes, a cuja comissão instaladora presidiu, e para cuja primeira presidência me lançou, jantávamos no Solar Bragançano, em 4 de Outubro de 2010.

18 maio 2015

AMADEU FERREIRA, UM CIBO DE TRÁS-OS-MONTES

AMADEU FERREIRA, UM CIBO DE TRÁS-OS-MONTES

    Nunca percebi porque o branco não é a cor da morte, como a cinza ou o silêncio. Branca como uma folha por escrever. Branca como a geada e o gelo.

Fracisco Niebro, in Belheç Velhice




    Nasceu numa aldeia de nome eufónico, feito de sonoridades doces, melodiosas. Sendim. Um recanto de um Trás-os-Montes profundo onde nascem, vivem e morrem gentes conformadas com o isolamento e a dureza de vida, a subsistência conseguida com os magros favores de uma terra sempre a exigir muito suor, muitas costas vergadas, muito manejo de alfaias adjuvantes.
    Amadeu Ferreira tinha de ser poeta. Assim determinava o seu código genético. Que, em contrapartida, lhe reservava um percurso de vida com laivos de alpinismo. Não empurrou sem cessar uma pedra até ao cimo de uma montanha, como Sísifo, porque não desafiou nenhum deus. Ele seguiu o conselho de Miguel Torga.


            Recomeça...
Se puderes,
sem angústia
E sem pressa.

E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
  [...]
  "Sísifo" in ANTOLOGIA POÉTICA

    "Com os meus mestres, aprendi a humildade das coisas essenciais." Parece ter sido esse um dos lemas da sua vida. Ele seguiu à risca o conselho de Ricardo Reis - "põe tudo quanto és no mínimo que fazes". Só que, para ele tudo era mais essencial do que acidental - a própria vida, a família, os amigos, as causas defendidas, a escrita, o pensamento. Nele quase tudo era espírito, transcendência.
  Quando o "mal ruim" o surpreendeu, não "entregou os pontos". A sua mente fervilhava de projectos a meio do caminho. Urgia dá-los por terminados, deixá-los dar lugar a outros. Manteve o ânimo, a esperança, a tenacidade, a capacidade de resistir, a arte de iludir os amigos. Encarava equívocos sinais de recuperação como vitórias de mais fracos sobre mais fortes. Trabalhou, por vezes de madrugada, até ao limite imposto pela corrosão de corpo e de espírito.
    Manteve o seu sorriso emboinado mesmo quando eram evidentes os sinais dos tratamentos. Engordou, perdeu cabelo, deformou-se-lhe o rosto esguio donde sobressaia aquele bigodinho de estimação. Nem por isso se escondeu dentro das suas quatro paredes nem impediu que o fotografassem. Estava vivo, embora pressentisse que seria poupado a uma velhice muito temida:

se o vento te empurrar para o beco
da velhice, não tenhas medo:
basta que te respeites até ao fim.

tudo fazemos para esconder a morte
e ainda mais para esconder a velhice....

    Para trás e para longe ficaram o seminário, a construção civil, o emprego em adega corporativa, os estudos de Filosofia e de Letras, primeiro no Porto, depois em Lisboa. Aí acabou por fixar-se. Envolveu-se activamente na política e foi, de raspão, deputado pela UDP. Licenciou-se em Direito e trabalhou em publicidade. Publicou livros. Fez o mestrado, aventurou-se a um doutoramento que o destino não deixou completar. Foi presidente da Associação de Língua Mirandesa na qual tem escrito poesia, conto, histórias infantis, romance. Traduziu escritores latinos, os Lusíadas, os quatro evangelhos, Camões, Pessoa, até Asterix. Publicou milhares de textos em jornais regionais e nacionais e em blogues. No seu mirandês. Exerceu a docência como professor auxiliar convidado na Faculdade de Direito de Lisboa e chegou ao alto cargo de vice-presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários. De vice-presidente passou a presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes. Foi, desde 2004, Comendador da Ordem de Mérito da República Portuguesa. Gostou do ensino. A sua cultura permitiu-lhe ser competente em matérias como a Educação Musical, a Filosofia, o Latim e, como atrás se disse, o Direito. Deu cursos de mirandês: "l mirandés naciu-me i l portués fui ua cunquista" assume. 
    Com Ernesto Rodrigues organizou dois volumes da Antologia A Terra de Duas Línguas, de titulo inequívoco.  Por concluir ficou, hélas, o Dicionário de Mirandés-Pertués. Deve tê-lo levado atravessado na garganta como Torga o sétimo dia da criação do mundo.
    Chegou ao alto como partiu de baixo. Nunca se deslumbrou com o valor que cons- ensualmente lhe foi reconhecido – simples, despretensioso, afável, bom conversador.  Amadeu e Fracisco, duas faces da mesma moeda. O homem e o artista. A mesma simplicidade, a mesma generosidade.
    A lição de vida que nos quis dar foi exemplar e quase sobre-humana. Nunca esquecerei um telefonema que me fez para me dizer que estava melhor, que lhe telefonasse quando quisesse. As gargalhadas tão características não tinham perdido sonoridade. E o ritmo de trabalho, esse, a alegria dos seus dias, só afrouxou quando as faculdades mentais se foram dele despedindo, cobardemente, injustamente.
   Gostava de o ver com a sua boina basca que sabia quando e onde usar. Era ela um  cibo da ruralidade e modéstia de alguém para quem o ninho térreo e a infância pobre foram sempre assumidos como um privilégio - o de ter nascido numa região onde o boi barrosão é adorado como um deus, onde as portas das casas estão sempre abertas, onde, no seu tempo de menino descalço, ainda se  cozia o pão no forno do povo, se representava o Auto da Paixão, as vezeiras obedeciam a qualquer guardador, reinava, enfim, o espírito comunitário.
    Em 2014 foi publicado Norteando, um álbum que é uma obra de artes. Um fotógrafo, Luís Borges, poetizou a natureza nordestina com a sua objectiva: os espaços, as gentes, os bichos. Amadeu "legendou" as imagens numa prosa poética, bem ao seu estilo. Aproveitou para regressar ao seu tempo e ao seu espaço de um passado sempre presente. A propósito da assunção da modéstia das suas origens, escreve em "O voo erótico da madressilva":
     Um dia, teria eu quatro ou cinco anos, a minha mãe trouxe do campo um raminho
de madressilvas que colocou dentro de um copo de esmalte no seu humilde louceiro da cozinha de telha vã: o aroma  possuiu-me  de tal maneira que a madressilva entrou dento de mim para sempre; agora, quando a quero ver, começo por fechar os olhos e chamo o seu odor até que me deixe quase em transe, qual pitonisa em Delfos: é essa a altura de abrir de novo os olhos e seguir a imagem como um sonho erótico: voa leve sobre a parede com os seus falos ao rubro e, à medida que avança, vai explodindo num branco fogo-de-artifício, amarelo depois, com os seus tontos espermatozóides a fecundar o ar com o seu aroma: nada volta a ser igual depois de uma madressilva ter entrado dentro de ti, que até as pedras se esfumam e perde brilho o azul do céu. 
    Amadeu era um homem múltiplo que, à imagem de Fernando Pessoa, teve de se desdobrar em pseudónimos, cada um dos quais correspondente a um tipo de registo literário. Amadeu foi o nome do cidadão multifacetado e multi-dotado e também do artista que o adoptou em Tempo de Fogo, uma estreia tardia na ficção, narrativa de cariz histórico cuja acção decorre em finais do século XVII e que, segundo Teresa Martins Marques, é "um romance de matriz realista e de valores intemporais, ancorado na memória...."
   Guardou Fracisco Niebro essencialmente para a poesia, de que é de destacar a obra publicada em 2012 e intitulada Ars Vivendi Ars Moriendi, um testemunho apaixonante do sentir e do pensar de um homem sensível  e saudoso do seu aconchego afectivo que quase desconhece:

agora, na rua, já só mora uma pessoa
e as casas encostam-se de arrimo entre si.

    Apesar disso a sua matriz sendinense não se lhe descola da pele, não quer, nem pode, escorraçá-la do pensamento:

tocou o sino,
fui num voo à minha terra:
a raiz não voa.

no tear das nuvens,
fios de água tecem o planalto:
tempestade ao longe.

   E também para o conto infantil,  para as traduções. O mirandês foi a sua língua de casa, de família, de amigos miúdos e crescidos. Pela sua preservação e ensino lutou como ninguém, insistindo, sugerindo, movendo influências, andando de terra em terra a evidenciar a importância daquele património imaterial que enriquece o desertificado nordeste transmontano subvalorizado pelos poderes centrais. Se hoje em dia as crianças aprendem nas escolas a língua dos seus avós, esse  é o resultado da sua luta sem desfalecimentos.
    Com outros nomes escreveu e traduziu outras obras. Ele foi Marcus Miranda, ele foi Fonso Roixo. 
    Por escassos dias, não assistiu à sua última publicação: Belleç/Vellice - notável e poético hino ao quotidiano da ruralidade nordestina em meados do século passado -  mas ainda pôde  empunhar outros dos seus trabalhos de paciência cenobítica - Ditos Dezideiros, recolha de provérbios mirandeses com 5.000 entradas e Lhéngua Mirandesa Manifesto em forma de hino. Quantas terão ficado, completas ou incompletas, à espera de uma Âncora  que os  liberte da lei do esquecimento.
   A sua vida dava vários romances, que o digam o realizador e amigo Leonel Brito que gravou mais de trinta horas do seu desfiar de memórias e Teresa Martins Marques que cedo tomou consciência da necessidade de lhe fixar o acidentado e rico percurso numa espécie de biografa, resultante de incontáveis conversas cúmplices em que o narrador se desnuda sem complexos, antes com orgulho de ter saído donde saiu e ter chegado onde chegou. O Fio das Lembrança, da escritora citada, contém uma primeira parte de cariz biográfico e uma segunda onde teve o trabalho incansável e meritório de recolher depoimentos de amigos e textos ensaísticos sobre a sua obra.
     Deixo-vos um conselho do Amadeu em forma de haikai, fácil de fixar. Ele há-de gostar de ser lembrado sem lágrimas:

não coes o sorriso,
    deixa-o sentir em bruto:
peneirada basta a farinha.

Nota 1: todos os poemas apresentados pertencem a Ars Vivendi Ars Moriendi, Âncora Editora, 2012.    
Nota 2: texto publicado na revista ALDRABA de Abril de 2015.

M. Hercília Agarez, Março de 2014

10 março 2015

Amadeu Ferreira - Um Santo, por Rogério Rodrigues

O seminário tornou-o um ateu; a vida, um santo.
E morreu, no passado domingo, após uma luta cheia de esperança contra o cancro do cérebro, ele que era um dos melhores cérebros e alma que conheci. O cérebro perdeu-se, a alma é que não.
As cinzas vão renascer nas terras de Sendim (Miranda do Douro) e nas águas do Douro como se antecipassem a Primavera.
Os deuses deram-lhe génio demais para tão curta vida.
No Verão, já o pão recolhido nas eiras (memórias da sua infância) e pintado já o bago da videira, ia fazer 65 anos.
Amadeu Ferreira –e é de um santo que estamos a falar—nasceu em Sendim, de pais analfabetos,  mas sábios; foi seminarista até ao fim do curso (Humanidades, Filosofia e Teologia); preferiu a expulsão a ser uma esperança do clero com viagem prometida para estudos superiores em Roma.
Mergulhado no mundo profano, sobreviveu a dar explicações  em Bragança, em quarto partilhado com Armando Vara, foi dirigente do movimento de extrema esquerda ( PPC(R)/UDP), deputado durante alguns dias, desiludido com a política, irradiado do partido; foi professor de música numa escola da Outra Banda, ainda trabalhou na construção civil, aluno à noite da Faculdade de Direito de que foi o melhor aluno do curso, quer do diurno quer do nocturno.
Conhecemo-nos há 40 anos. Durante tempos, seguindo caminhos não cruzados, não nos encontrámos. Um dia, por casualidade, parámos na mesma estação de serviço. E começámos a conversar como se o último encontro tivesse sido ontem. Eu acabara de receber de França, os três volumes da Histoire intérieure du parti communiste de Philippe Robrieux, um antigo trotkista. Emprestei-lhe os volumes e durante tempos discutimos, ou melhor, debatemos este clássico, onde já aparece a vertente do PCP português. Nada do que é humano era alheio a Amadeu Ferreira.
Terminado o curso, com uma dissertação sobre os Valores Mobiliários cuja bibliografia era escassa ( o último trabalho com alguma profundidade já teria mais de 50 anos ) acabou por ser convidado para a  CMVM (Comissão de Mercados de Valores Mobiliários), onde chegou a vice-presidente e docente da Faculdade de Direito.
Nunca abdicou a boina espanhola nem do bigode. Todos os meses andava 500 quilómetros para visitar os pais e pelas manhãs podíamos vê-lo na horta( como eu vi, num fim de semana que passamos em sua casa) a regar o cebolo ou orgulhar-se das couves tronchudas onde as gotas de orvalho mais pareciam lágrimas de alegria.
Lutador até ao fim, com outros mirandeses, homens de planalto, celtas e judeus, o Amadeu, cuja família tem por alcunha os Bandarras, conseguiu que o mirandês se transformasse, por aprovação na Assembleia da República,  a segunda língua oficial do País. E começou a traduzir  com o pseudónimo, ou heterónimo, como queiram, de Fracisco Niebro ( Niebro em mirandês significa zimbro) a Mensagem de Pessoa, Os Lusíadas, o Asterix, os Quatro Evangelhos da vulgata de S. Jerónimo que os traduzira do hebraico para o latim, e não da versão Septuaginta em grego.
Traduziu os clássicos, que ele tanto amava: Virgílio, Horácio e Catulo. Hesíodo, o poeta do Trabalhos dos Dias será a sua fonte para o livro de poemas Ars Vivendi,Ars Moriendi que eu, a seu pedido, traduzi para mirandês, utilizando um dicionário da sua autoria e do filho Pedro Ferreira, que ainda não está publicado, com a ajuda preciosa de António Cangueiro que, até ao fim dos dias do Amadeu,  foi mais do que o seu secretário. Amadeu lúcido, mas já sem ver, pedia a António que lhe lesse e ditava-lhe os últimos textos que pensou antes de morrer.
Toda ou quase toda a a sua obra e o seu curriculum podem ser consultados nas 295 páginas que Hirondino Fernandes lhe dedica na Bibliografia do Distrito de Bragança (II volume).
Na ficção, baseada em longas investigações  na Torre do Tombo, deixou o Tempo de Fogo, um libelo acusatório das perseguições da Inquisição em terras de Miranda.
Amadeu até na morte foi grande e discreto. Deixou-nos como último acto da sabedoria a Velhice , a lembrar o De Senectute de Cícero.
O jovem que conheci há 40 anos era o mesmo que conheci até ao passado domingo.
Se teve pecados, não lhos conheço. A tê-los, foram já santificados.

Fazes-me falta, Amadeu.

Rogério Rodrigues

Amandeu Ferreira - Um transmontano Invulgar, por António Chaves


Clique na imagem para ampliar

Fonte: Correio do Planalto, nr. 689 de 28/02/2015, pág 8

16 fevereiro 2015

BELHEÇ - VELHICE, de Francisco Niebro (Amadeu Ferreira)

Sinopse:

Ne ls anhos cinquenta de l século xx un bielho de uitenta anhos, nua aldé stramontana, senta se to ls dies ne l puial de la sue puorta de casa i bei l mundo a passar nas pessonas de la sue tierra. Este libro pretende ser l que esse tiu haberá screbido.
L oureginal mirandés ye acumpanhado de ua bersion an pertués de apoio para leitura.
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Nos anos cinquenta do século xx um velho de oitenta anos, numa aldeia transmontana, senta-se todos os dias no poial da sua porta de casa e vê passar o mundo nas pessoas da sua aldeia. Este livro pretende ser o que esse velho teria escrito.
O original mirandês é acompanhado de um apoio para leitura em português.



O autor:
Fracisco Niebro é um dos pseudónimos de Amadeu Ferreira (1950, Sendim, Miranda do Douro). Presidente da ALM (Associaçon de Lhéngua i Cultura Mirandesa) e da Academia de Letras de Trás-os-Montes, é ainda vice-presidente da CMVM (Comissão do Mercado de Valores Mobiliários) e professor convidado da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa.
Autor e tradutor de uma vasta obra em português e em mirandês, também sob os pseudónimos Marcus Miranda e Fonso Roixo. Traduziu Mensagem, de Fernando Pessoa, obras de escritores latinos (Horácio, Virgílio e Catulo), Os Quatro Evangelhos e duas aventuras de Astérix.
Na Âncora Editora publicou as traduções para a língua mirandesa de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, e uma edição comemorativa dos 25 anos da adaptação daquela obra para banda desenhada por José Ruy, com quem também colaborou no álbum Mirandês – História de uma Língua e de um Povo, e correspondente versão em mirandês. É autor de La Bouba de la Tenerie / Tempo de Fogo, primeiro romance publicado simultaneamente em mirandês e português, e das obras Norteando, com fotografias de Luís Borges, Ars Vivendi Ars Moriendi (poesia), Lhéngua Mirandesa – Manifesto an Modo de Hino / Língua Mirandesa – Manifesto em Forma de Hino e Ditos Dezideiros – Provérbios Mirandeses.

10 fevereiro 2015

L mirandés

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“Há palavras que, quando as dizemos, nos deixam com pele de galinha, mas apenas nós nos apercebemos; há sons que nos envolvem como uma onda de calor, mas apenas nós sentimos o gelo que por vezes trazemos dentro de nós a derreter; há trejeitos da língua dentro da boca, falando, que nos fazem cócegas que mais ninguém sente; há ditos que não têm outra maneira de se dizer e ninguém se apercebe quando não conseguimos traduzi-los; há coisas que, quando usamos outra língua para as dizer, soam como estranhas e, no fim, ficamos com a ideia de que não fomos capazes de as dizer. Há palavras, sons, ditos, coisas, que dormiram durante tanto tempo connosco, que se tornaram cama para um lado e quando não nos deitamos para esse lado é como dormir sobre uma pedra.”
Amadeu Ferreira, in Língua Mirandesa – Manifesto em Forma de Hino

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 Miranda do Douro lutou sempre pela sua identidade, e o mesmo se pode dizer de Amadeu Ferreira. Natural de Sendim, este mirandês tem uma história singular ligada à sua língua materna.

12 janeiro 2015

O MEDO DO SEXO, UMA OBSESSÃO PERMANENTE! O FIO DAS LEMBRANÇAS, por Teresa Martins Marques

 Teresa Martins Marques e Amadeu Ferreira
(Excerto da Biografia que escrevo sobre Amadeu Ferreira)

O seminário de São José de Bragança dispunha de um regulamento datado de Março de 1934, qe era também preceituado em Vinhais. Trata-se de um opúsculo de 88 páginas e 175 artigos. O seu autor, D. Luís de Almeida, colige vários regulamentos “já abonados pelos bons resultados da sua adopção”. Consultei a edição em vigor ao tempo em que Amadeu Ferreira frequentou estes seminários, ou seja, a 2ª edição, revista e retocada, publicada na Escola Tipográfica, em Junho de 1957, com prefácio de D. Abílio Vaz das Neves, que nos diz: “ O Regulamento de um seminário é a estrutura moral da vida de formação de um neo-sacerdote. Tomado como tal, e observado com consciência, ajuda maravilhosamente a formar os caracteres dos obreiros da vinha do Senhor […] lapidando pedras preciosas, ajudando a edificação da Jerusalém Celeste.”

Este regulamento era instilado na alma dos seminaristas, que deviam “estimá-lo em grande apreço, manuseá-lo frequentemente deixando-se impregnar e saturar o seu espírito”, através da leitura semanal, comentada no refeitório e noutros lugares, que o Reitor entendesse oportunos (pp. 31 e 69).

15 dezembro 2014

DITOS DEZIDEIROS - Provérbios Mirandeses, de Amadeu Ferreira

SINOPSE:
Nesta obra, Amadeu Ferreira procurou reunir todos os provérbios mirandeses até agora publicados, partindo da junção da sua colecção, disponível na página «Sendim em Linha» (www.sendim.net), à de António Maria Mourinho, editada na obra Ditos Dezideiros Mirandeses.
As colecções foram criteriosamente analisadas e estudadas, de forma a serem eliminadas as variantes não significativas, chegando-se a aproximadamente 5000 provérbios que revelam a essência dos saberes populares da cultura mirandesa.

CONTRACAPA:
«De agora em diante, esta passará a ser a mais completa lista de provérbios mirandeses, aproximadamente em número de 5000. A colecção de António Maria Mourinho apresenta um grau de criatividade relativamente elevado, quer em termos de ditos novos, quer em traduções, sobretudo do castelhano. Exigia-se colocar este cuidado na publicação dos provérbios mirandeses, pois eles são um vector fundamental da cultura do povo mirandês.»
«Zde agora an delantre, esta passará a ser la mais lharga i cumpleta lista de ditos dezideiros, an númaro de arrimado a 5000. La colecion de António Maria Mourinho apersenta inda ua amportante criatebidade, cun que tubímos que cuntar, seia quanto a ditos nuobos, seia quanto a traduciones, subretodo de l castelhano. Habie que poner este cuidado na publicacion de ls ditos mirandeses, yá que eilhes son ua lhinha fundamental de la cultura de l pobo mirandés.»
in Introdução / Antrada

BIOGRAFIA

03 dezembro 2014

Ditos Dezideiros – Provérbios Mirandeses, de Amadeu Ferreira

Sinopse: Após uma criteriosa análise e selecção, Amadeu Ferreira define o núcleo essencial dos provérbios mirandeses e elimina as repetições (variantes não significativas). O resultado é a mais completa recolha até hoje publicada, que revela a essência dos saberes populares da cultura das Terras de Miranda.
A obra inclui o estudo introdutório «Ditos dezideiros mirandeses i l fondo quemun de las regras de bida i de l saber antigo i mediabal». Os provérbios são apresentados por ordem alfabética e respeitam as regras da Convenção Ortográfica de Língua Mirandesa.

O autor: Amadeu Ferreira (1950, Sendim, Miranda do Douro) é vice-presidente da CMVM – Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, presidente da ALM – Associaçon de Lhéngua i Cultura Mirand
esa e da Academia de Letras de Trás-os-Montes, e professor convidado da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa.
Autor e tradutor de uma vasta obra em português e mirandês, também sob diferentes pseudónimos: Fracisco Niebro, Marcus Miranda, Fonso Roixo. Traduziu Mensagem, de Fernando Pessoa, obras de escritores latinos (Horácio, Virgílio e Catulo), Os Quatro Evangelhos e duas aventuras de Astérix.
Na Âncora Editora publicou as traduções para a língua mirandesa de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, e uma edição comemorativa dos 25 anos de Os Lusíadas em banda desenhada, de José Ruy, com quem também colaborou no álbum Mirandês – História de uma Língua e de um Povo, e correspondente versão em mirandês. É autor do romance Tempo de Fogo, primeiro livro publicado simultaneamente em português e mirandês (La Bouba de la Tenerie, com o pseudónimo de Fracisco Niebro) e das obras Norteando, com fotografias de Luís Borges, Ars Vivendi Ars Moriendi (poesia em português e mirandês) e Língua Mirandesa – Manifesto em Forma de Hino / Lhéngua Mirandesa – Manifesto an Modo de Hino.

Prefácio:
Amadeu José Ferreira, natural de Sendim, é um investigador combativo e um acérrimo defensor do mirandês, primeira língua que ouviu, aprendeu e falou. Desde pequeno começou a escrever poesia (com o pseudónimo Fracisco Niebro), sendo que a sua veia linguística, literária e cultural leva-o a outras áreas, como é o caso da ficção e do teatro.
Homem profundamente culto, tem formação académica no domínio das humanidades e a sua actividade científica distribui-se, com igual paixão, pelo Direito e pela Língua Mirandesa. Pode dizer-se que a sua formação lhe permitiu uma profunda e consistente intervenção na aplicação da lei do reconhecimento oficial de direitos linguísticos da comunidade mirandesa, depois de aprovada.

21 junho 2014

Destino para uma Língua Moribunda (manifesto em forma de hino), por Amadeu Ferreira ( Fracisco Niebro)

Nosso Senhor é como as pessoas de Miranda, não fala mirandês.
Quando uma língua não serve para rezar. Quando se dizem todos os pecados a Deus, sem medo, e se tem vergonha de rezar em mirandês. Quando é assim, não há língua que resista. Parece que Deus, quando andou pelo mundo a aprender as línguas, chegou aqui e passou ao lado. Eu creio que o desviaram. É tempo de Deus não ter vergonha de falar em mirandês.
Quando uma língua não se escreve, dizem que a história ainda não começou, porque não há como contar essa história. Apenas pode ser contada pela língua dos outros. Uma língua sem história não pode durar para sempre.
O pior é quando a língua deixa de servir para pensar. Ou, quando dormimos, não aparece a falar nos sonhos, porque a língua dos sonhos é aquela que está dentro de nós. Fala-se como se respira. Se o leite que mamamos não vem misturado com a língua, esta não pode ficar metida dentro de nós e ser tão importante para a vida como o estômago, o coração, a cabeça, o fígado. Só dessa maneira não se pode viver sem ela. Apenas assim aparece nos sonhos, ainda que não queiramos. Uma língua que não fala nos sonhos não vai longe.
Há palavras que, quando as dizemos, nos deixam com pele de galinha, mas apenas nós nos apercebemos; há sons que mos envolvem como uma onda de calor, mas apenas nós sentimos o gelo que por vezes trazemos dentro de nós a derreter; há trejeitos da língua dentro da boca, falando, que nos fazem cócegas que ninguém mais sente; há ditos que não têm outra maneira de se dizer e ninguém se apercebe quando não conseguimos traduzi-los; há coisas que, quando usamos outra língua para as dizer, soam como estranhas e, no fim, ficamos com a ideia de que não fomos capazes de as dizer. Há palavras, sons, ditos, coisas, que dormiram durante tanto tempo connosco, que tomaram cama para um lado e quando não nos deitamos para esse lado é como dormir sobre uma pedra.

14 maio 2014

L SEGUNDO LIBRO DE BERSOS,de Fonso Roixo

Fonso Roixo, poeta popular, a modos António Aleixo mirandés, mais sofesticado, que solo scribe an mirandés. Fonso Roixo, ye un de ls pseudónimos de Amadeu Ferreira. Para ls que tenían saludades de sues quadras ende se pónen alguas de l nuobo lhibrico que stá na frauga.

425.
Ciertos mundos nun se béien,
mas hai que star cun atento,
pus mui ralo l ser por fuora
mostra l que somos andrento.

L Praino Cun Sue Giente i Sue Bida

494.
[Praino]
Antre ocres i amarielhos
oulia l berde an sploson
de sequidade: ye l Praino
cula sede an ouracion.

495.
Largo camino onde lieba
se l azul tan loinje aceinha?
Na Prainada árden fogueiras
de silenço, até sien leinha!

496.
Tan largos son ls hourizontes
i quaije óndias ls cabeços,
que apledia l pensar sierras
i ls uolhos sónhan ampeços.

497.
Amarielho ye l restroilho,
amarielhas son penheiras:
nadas que esta tierra dá,
adubadas cun canseiras.

Fonte: https://www.facebook.com/antonio.cangueiro?fref=ts

09 maio 2014

Mirandês: Unidade ou Divisão, por Amadeu Ferreira



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20 abril 2014

PAISAGEM DA MEMÓRIA, por Amadeu Ferreira

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18 abril 2014

HISTÓRIAS QUE AS PALAVRAS CONTAM, por Amadeu Ferreira

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